O pardal pousou na janela. Olhou curioso para o quarto. Não entendia este humano aqui, deitado, quando o sol o convidava a um passeio. Piou, chamou; eu apenas balbuciei, inerte. Deu meia volta e ganhou os céus. Mal sabia ele que eu, moribundo, só queria mesmo voar como ele, livre pelos campos...
Nesta madrugada, terminei a primeira escrita de mais um livro.
"PRÓXIMA ESTAÇÃO" é um suspense/terror psicológico, que acompanha a trajetória do maquinista Noesis Neto em um trem noturno que não faz paradas.
Tem atualmente cerca de 55 mil palavras (pode ser alterado ligeiramente nas revisões). É a obra mais pesada que já escrevi... E tem partes que me emocionei ao escrever (e olha que não costumo sentir nada ao escrever... Kkkkk)
Agora é deixar ele descansar embaixo do pano prá massa ficar fofinha. E pegar na semana que vem pra ler (e ver se ele é tudo isso mesmo). Mas estou contente com o resultado de hoje. 殺
De tudo, nesta vida, um pouco, Sou eu, de poeta a louco, E de louco, onde sei poder Abraçar a noite, ardorosa; Oferecer-lhe uma rosa, Amar, beijar-lhe... e morrer. São meus os eternos gritos Tão selvagens, tão aflitos; Tão cheios de graça e bondade; E eu quebro todos os mitos; Eu sopro meu ar de Carlitos E enfio no bolso a cidade.
Meu Deus! Como sou boêmio! Meio doido, meio gênio; Que nem penso no acordar. Pois a noite é uma criança: E de esperar só se cansa, E perde por esperar.
Sou da rua, sou moleque, E antes que o corpo peque, O espírito que me guia Vai pedir perdão às traças: Nos bueiros, nas vidraças; No calor da noite fria.
E que logo venha o inferno, Que neste céu eu hiberno, Ao clarear do dia.
A Vó Maria (Acordei esta manhã, vindo de um sonho do passado. Travesseiro molhado pelas lágrimas da saudade. Então, nostálgico, me lembrei desta crônica. Às vezes a emoção é algo que apenas nós sentimos; talvez para quem a ler pareça uma crônica simples, palavras organizadas e estruturadas. Uma historinha comum. Mas, pra mim, não é... Então, esta vai para quem quiser ler, com emoção)
A VÓ MARIA
O tempo passa para todos, com a sua implacável indiferença...
Lembro das ruas perto da casa da vó, que a gente subia correndo quando ia visita-la (mas não correndo muito na frente, pra não se perder). As lojas e casas antigas, a padaria na esquina, os muros de cimento chapiscado. Tudo lembrava passado, tudo lembrava dias de sol. Lembrava infância.
E hoje, quando vejo os primos, é tão difícil entender como pôde ser isso!... Uns casaram, outros têm filhos, outros já casaram de novo!... Para onde foram aqueles dias, aqueles dias de sol, brincando no quintal da vó, tomando cuidado para que a bola não batesse nas flores...
Ah, as flores da vó!...
E, de repente, parece que tudo ainda está ali: que amanhã vai fazer sol e calor, e que a gente vai lá na vó brincar com os primos e primas, correndo pelo corredor e subindo na mureta do poço, se sujando no chão de cimento quebrado... E que a vó vai aparecer na porta da cozinha, pedindo para que a gente venha almoçar e que pare de bagunça (porque, às vezes, nós merecemos uma bronca mesmo).
E a gente vai se sentar em volta da mesa, naquela cozinha enorme, com aquela vó enorme (sim, porque nós éramos muito pequenos ainda...) e comer cantando, atrapalhados pelos latidos do Toquinho, o cachorro da tia que morava na casa ao lado. Hoje eu olho para os filhos dos primos, para os bisnetos todos da vó, e fico imaginando quem os chamará para comer, quem irá ralhar quando eles sujarem a roupa do varal, quem os porá para dentro porque vai chover... Eu os vejo brincar, correr, reencontrar os outros primos que moram longe, e fico pensando se não posso correr com eles também, “vamos brincar, vem me pegar, tá com você!”
Aquela casa minúscula, no fundo do quintal, às vezes escura, mas cheia de vida, já não vai mais me levar ao passado. Ao tempo que eu podia abraçar a vó e tomar café e lembrar que era criança. Ao tempo em que a gente botava grãozinhos de feijão no algodão, prá umedecer e ver brotar a vida. (Ah, se a gente pudesse fazer brotar a vida de quem amamos tal qual um feijãozinho, só com um pouco de algodão e água!...)
E, apesar de saber do sofrimento da vó nos últimos tempos, apesar de saber que ela finalmente vai poder descansar, choramos todos, por saber que ali está o destino de cada um de nós, por saber que assim é, que não há dias de sol nem grãos de feijão que resistam ao tempo, ah, o tempo, esse trem que passa, inexorável e indiferente.
(Mas acho que perdi a conta...) (E nem percebi que, sim, estamos em maio... mas esse maio é mais antigo)
**Sonho de Maio**
Um dia me verás com os olhos d'água transbordando de tristeza minha mágoa, pra que jamais ela volte a me assustar; e neste dia, calmo e delirante, terás em mim o seu melhor amante, o seu amado, o seu amigo; o homem certo pra te amar. Sim; me terás inteiro em tua fina e perfumada pele de menina onde a saudade já não existe mais; ora, que se hoje de saudades canto, amanhã enxugarei teu pranto, pra que não voltes a chorar jamais.
Tola sina, vaga de certeza; se não encontro hoje em tua frieza um só motivo que me faça desistir de afagar os teus cabelos morenos, e me ajoelhar ante os pés pequenos; o que me resta apenas é prosseguir a clamar pelo amor que eu sei que existe, e se hoje, ao dizer não, me deixas triste, não me entristece mais porque te adoro; e diante de tão fútil negação perceberás que não adianta dizer não se mesmo sabes que dentro de ti 'inda moro.
Talvez por isso seja eu tão renitente em alcançar de alguma forma o beijo ardente que dos teus lábios me parecem seduzir; para que mesmo depois de o Sol se pôr possa provar com carinho o teu sabor, e que a doçura em mim possa refletir o teu olhar, que por mim irá brilhar, e mais e mais, quando em meus olhos se inspirar. E que a Lua, nesta madrugada quente, venha roubar desta tua luz maravilhosa com reverência, pra que brilhe, majestosa, iluminando o nosso céu eternamente.
E se, por ora, idolatrando-te destarte, Lhe paire a dúvida de que sempre irei amar-te, não cegue os olhos com injúria tão cruel: apenas deixe transparecer na retina que és minha musa, minha inspiração divina; és minha aura; és minh'alma; és meu céu.