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Tiago Bianchini Fidalgo
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Público
O que Há
(013 de 365)

Já não há mais poemas;
Há a simples constatação de estar aqui.
Há a penúria de mais detalhes; e estar sem ti
Já serve de motivo para todos os temas.

Já não há mais beleza;
Ou, por outra, nada é mais belo do que nada:
As coisas simplesmente diferem; tu, minha amada,
Não é maior que uma vadia nem menor que uma princesa.

Já não há mais poemas:
Qual a razão de trovar o que já criou Deus?
Tudo já existe: as loucas madrugadas, os lábios teus,
Todas as respostas e todos os novos dilemas.

Já não há mais melodia:
Qual o som ainda não soprado? Qual a essência
Da flauta dos anjos? Não; não há ciência
Que a tudo não explique, e não há, portanto, poesia.

Já não há mais nada;
Mais nada: nada vale a pena
Nem teu olhar escuro, nem tua pele morena,
Nem teu cabelo solto nem tua boca molhada.

Já nada mais há – mas... não temas:
As palavras moram sob os meus cabelos
E ainda há espaço para os mais belos
Poemas.
Público
Poema em Língua Reta
Mais um super poema a R$ 1,00!

O poema de hoje é grande. BEM grande.
E complexo. BEEEM COMPLEXO.
São páginas e páginas de poema em diversas línguas, rimado e estruturado. Há rimas com palavras de idiomas diferentes (são "mais-que-preciosas", eu diria).
É um dos que mais gosto, mas é pra poucos. Estejam preparados...
Tem muitas citações de outros poetas, alguns em português, outros na língua original, e outros, ainda, em uma terceira língua.
Quem será que vai descobrir o maior número de referências?
Público
O Soneto da Fidelidade 2
(012 de 365)

Sou homem de uma mulher só; não sou daqueles
Que às primeiras aventuras mancham o amor...
Fazem do amor como que uma reles
Farra de verão, sem amanhã, nem dor;

Não, não sou assim... necessito ser fiel
Para estar feliz, pra me satisfazer:
E apenas uma alma me levará ao céu
E por ela, somente por ela, irei viver.

Só se deve ter uma mulher na vida,
E é a ela que viverei a cada instante:
Não se serve a dois senhores, nesta lida,

Sem que se traia ambos - este não sou eu!
Sou homem de uma só mulher, e, não obstante,
Sou teu.
Público
A leveza
(011 de 365)

*Para o poema a seguir, eu sugiro o seguinte: Em algum lugar desse post, eu inseri o vídeo de uma música chamada "Cantabile", de um pianista de jazz chamado Michel Peteucciani. Coloquem para ouvir, e, depois que começar, leiam o poema... Foi assim que o fiz, e percebi que, sem a conexão com a música, o poema muda um pouco o clima...

O vídeo é de 1998, uma de suas últimas apresentações.

******

Brumas que se movem sobre a superfície,
Dançante união dos três mundos de Escher,
Flutuando no sal que há demais no Morto.
O sal.

Passos que flutuam sobre a areia clara,
Elefantes que se movem nas pontas dos dedos,
Abanando as orelhas aos ventos do sul.
O sul.

Sombras que se apoiam nas copas das árvores,
Árvores ao vento, a balançar, fugazes.
Folhas que planam e secam sob o sol.
O sol.

Cores que se mesclam a dançar nas nuvens.
Olhos que repousam sobre a sombra fresca.
Asas abertas a siar no cio.
O cio.

Nuvens que naufragam no azul celeste,
Horizonte de eventos de onde não há mais volta.
Almas de dois amantes a galgar o céu.
O céu.

******

Michael Peteucciani foi um pianista de jazz, um dos mais notáveis da sua geração. Ele nasceu com uma deformidade chamada "Síndrome dos ossos de vidro", que causa fragilidade óssea e impede o crescimento. Ele chegava a quebrar as falanges dos dedos ao tocar piano. Apesar disso, sempre superou a dor, e, usando um piano adaptado ao seu tamanho, nos deu interpretações maravilhosas como "Cantabile".
No último dia 06, rememoramos 26 anos de sua morte; morreu aos 38 anos, por complicações da síndrome.
Público
Sem Nome
(010 de 365)

Coube aos meus lábios dizer-te, um dia,
Com rachos n’alma, a palavra vil:
“Adeus”; coube a mim a despedida fria
Na fria palavra, no olhar frio...

Estou bem, contudo; e melhor seria
Se, na nossa história, houvesse um vazio
Ao invés da dor e da agonia
Maior e mais forte que já alguém sentiu.

É assim a vida: uma breve poesia
É assim a vida, afinal: dores mil
Que invadem o peito, e à boca guia

A palavra – “Adeus!” – de quem jamais partiu:
Faz-se como um mar, de água bravia,
Que jamais recusa a candura d’um rio.
Público
Nesta casa
(008 de 365)

Quero nesta casa
O tempero do riso dos amigos
O aroma das brincadeiras das crianças
O paladar das noites de amor.

Quero cozinhar com alegria
Com pitadas de satisfação
Com doses bem servidas de carinho
E colheres cheias de felicidade.

Nesta casa se mora feliz.
Neste ambiente se ama e se quer bem.
Nesta morada cuidamos uns dos outros.
Nesta casa se vive em paz.

(poema escrito por mim na parede de entrada da minha casa)
Público
A palavra proibida
(007 de 365)

(trecho de uma história inacabada)

Perguntei aos meus pais:
“Posso comer só a sobremesa?”
“Sim”, me disseram.
“E posso jogar videogame até mais tarde, e faltar à escola amanhã?”, arrisquei um teste mais desafiador.
“Claro, filho! Pode ligar o videogame na TV da sala, que é maior“, me responderam, com um sorriso nos lábios.
Eu sabia que eles não podiam me dizer a palavra proibida. Eles teriam que me dar o universo, teriam que concordar com tudo o que eu dissesse, e teriam que assentir seja lá o que fosse dito. Agora, eu podia tudo.
Fiquei intrigado. Se era possível me permitir tudo isso, por que é que nunca me deixavam fazer essas coisas? Se agora era possível me dar apenas afirmativas, qual a razão de todas as negativas que haviam me dado até aquele momento?
Sem entender, perguntei, por fim:
“Vocês me odeiam?”
Vi o sorriso de mamãe murchar. O ‘s’ do sim chegou a se formar em seus lábios - afinal, ela só poderia me falar isso. Papai pigarreou e pareceu engasgar.
Os olhos de mamãe me olharam, piedosos e marejados. Ela não conseguia dizer ‘Não, claro que não, nós te amamos!’, porque o ‘não’ parecia ter sumido da sua mente. Ela começou a chorar copiosamente, abraçando-se a papai, que, com força, apertava os olhos, entre soluços. Não; eles não eram capazes de dizer “sim” para tudo, não importava qual fosse a mandinga de um Deus ou um Diabo qualquer.
Mamãe me olhava em súplica. Ela não tinha uma resposta possível - e se negava a me dizer a única palavra permitida naquele jogo idiota. Senti o quanto me amavam e o quanto havia sido dolorido, para eles, todos os ‘nãos’ que já haviam me dado.
“Quer saber?”, eu disse, por fim, “Vamos parar com essa brincadeira? Desejo que vocês voltem a poder me dar todas as respostas que eu mereço e preciso ouvir”.
Público
Alma
(006 de 365)

A alma é a noite, como a noite é bela,
E veste de negro o vão firmamento;
A noite é a graça, a garça singela,
Que voa e que vaga, e que beija o vento.

A noite é a alma, e a alma, a alma,
É o sonho dourado da vã poesia;
E é poesia o pranto que acalma,
Como é sentimento a garça que pia.

A alma é a garça; a garça é o sonho,
O sonho dourado da vida que cala;
A alma é a vida, o amor que proponho
Do fundo do berço onde a vida me embala.

A alma é o sonho, o sonho é o dia,
E o dia é a Lua, que a noite consola;
E a Lua é aquela que, na noite fria,
Lhe rouba a magia, e lhe traz a aurora.

A Lua é a Lua, a Lua, a Lua,
Que brilha a maré, e que faz uivar
O lobo, na noite pela qual flutua
E brilha, e queima, e paira no ar.

É a alma, enfim, a vida perdida
Nas páginas brancas que escondem o trauma
De ter, entre o sonho, a Lua e a vida,
A noite, a garça, o vento e a alma.
Público
Anatomia (parte I)
(005 de 365)

I- A Descrição

Escravos da solidão, os lábios meus:
Que, dos teus, nem sequer guardam a frescura...
E ora repetem, incansáveis: “adeus”...

Diabos que são, meus olhos, à procura
Das tuas meninas, envoltas em celeste
Azul, e de lembrar tanto me tortura.

Ausente coração, pulsação agreste
De um sedento e árido, que, de ti,
‘Inda espera o teu coração, que me deste.

Serpente da ilusão, qual deusa tupi:
A esperança que tenho em ter, meu Deus,
Você; olhos, coração, lábios, aqui.

Aqui, logo abaixo, tem o poema completo (as partes II e III). Eu acho esta parte I linda, mas as outras duas são ainda melhores.
Se você gostou desta parte, que tal ler o poema completo por R$1,00? 