#desafio 283
—Quatrocentas mil palavras—
Quatrocentas mil palavras,
alinhadas como soldados
diante de uma guerra
já perdida.
Na linha de frente,
nada é mais trucidante
que o silêncio que grita
no reflexo diante do espelho.
Esse silêncio
não é descrito em palavras,
mas em sentimentos impotentes
diante das circunstâncias.
A vida cala
e, calando, fala alto
para que a alma incruste
no subconsciente a resposta
e aceite, conformada…
que não há o que fazer.
MarU
#desafio 282
—Sóbria—
Hoje não teremos vinho.
Irei me embriagar
das palavras malditas,
sorver cada letra
em meia taça de decote,
até que te derrame do meu peito.
Hoje meu leito é frio,
como a tua capacidade
de esquecer o meu cio,
de não ceder
a esse desejo vil
e permanecer intacto.
Hoje,
romperemos nosso pacto,
como quem goza antes do outro
em descompasso
e não se importa
com o chamado em pulso,
que clama ao ápice
em conjunto.
Virando-se para o lado.
Hoje,
prometi te tirar
da minha cabeça.
Mentirei para mim mesma,
como fiz ontem,
cruzando forte
as minhas pernas,
fluindo e escorrendo
entre as frestas
o que não controlo.
Assumo.
Hoje,
queria que fosse ontem
e com a garrafa de vinho aberta,
te beber entre cobertas,
embriagada de amor,
embalados por músicas bregas,
cavalgaríamos toda a noite,
entrelaçados sem pudor.
Quem dera ontem
não tivesse acabado
e dos sonhos hoje
eu não tivesse despertado.
Quem dera estivesse ainda
embriagada.
Mas não vou beber hoje
sequer uma taça,
amortecendo o desejo
no fundo de uma garrafa,
tingindo meus lábios de rubi,
exalando o hálito perfumado de uva,
fermentando na saliva
a quentura
que te convida a viver.
Esta é outra noite tediosa.
Estou sóbria e lúcida,
sem você.
MarU
#desafio 281
—Questão—
Mar profundo
no oceano dos seus olhos,
mais uma vez mergulho,
me molho…
sozinha.
Te busco
e não encontro.
Como poderia
a tempestade me ver?
Na imensidão
deste mundo,
sou mais um ser vagabundo
com coragem de viver.
Por mais que me molhe,
a água fria
em minha pele quente
escorre.
Dissolvo, crente,
que parte de mim
mistura-se à água,
mas não serei tempestade
nem assim,
nem serei chuva,
molhada.
Trovões são música,
conversa metafísica,
mensagens escondidas
em raios
e nuvens escuras.
Não são raios de sol,
mas a luz da lua
me reflete
um pouco de brilho.
Que, translúcida,
interpreto
sem entender…
e cismo serem
seu toque de carinho
comigo.
Aqueço
um pouquinho…
Recebendo as migalhas
de um divino ser,
ou não ser.
Eis aí
minha questão
com você.
MarU
Ser poeta é imaginar vidas que não existem
construir sonhos em nuvens brancas
viajar nas brisas de verão
voar entre as folhas e pétalas do jardim
cair em poços escuros
se afogar na lama densa
e mais uma vez sorrir porque ser poeta é simplesmente
nunca desistir
Edu Liguori
Gosto de brincar
diversão nunca faz mal
diga-se que machucar outrem
não é brincadeira
fantasia é fazer o bem
é eu e você no vale do gozo
no rio dos sorrisos
na trilha do carinho
te quero aqui pertinho
já te disse
quem sabe
um dia
Edu Liguori
#desafio 280
—Fim de verão—
Mais uma vez
me molhei
em suas tempestades.
Agora o vento sopra
e sinto frio
e saudades.
Ouço o assovio
dos ventos,
e o frio
me toca a pele
e o peito.
Arrepio por fora
e sinto lentos
meus batimentos.
Já é tempo
de me trocar
e ir embora.
O medo
do tempo feio
não mais me apavora,
estou cansada
de tanta demora.
Primavera em mim
virou história,
outono em fim
deixou memórias.
Faz parte do fim
o inverno
de agora.
Faz parte de mim
o inferno de Caim
que me controla.
Ainda amo tempestades,
noites escuras,
a lua,
as sombras,
as músicas
e as mãos
que me lembram
as suas.
Ainda amarei
por muito tempo
o que restou
de você em mim.
Ainda amarei,
mas não poderei
continuar assim,
sem respostas.
MarU
Ele envelheceu
não é mais o mesmo
é preciso paciência
resgate
o poeta está vivo
o artista está alerta
a experiência está na gaveta
ele envelheceu
não esqueceu
não é mais a mesma
a vida acelerada
a pauta emergencial
o gosto pelo flash
ele envelheceu
guarda as memórias
saudades
deseja só
que quem sabe
ainda exista mais uma estrofe
Edu Liguori
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