O Sonho de Marco Antônio Panóplias · Capítulo 8 de 12
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O Sonho de Marco Antônio

Noite. Por todo o largo firmamento

Abrem-se os olhos de ouro das estrelas...

Só perturba a mudez do acampamento

O passo regular das sentinelas.

Brutal, febril, entre canções e brados,

Entrara pela noite adiante a orgia;

Em borbotões, dos cântaros lavrados

Jorrara o vinho. O exército dormia.

Insone, entanto, vela alguém na tenda

Do general. Esse, entre os mais sozinho,

Vence a fadiga da batalha horrenda,

Vence os vapores cálidos do vinho.

Torvo e cerrado o cenho, o largo peito

Da couraça despido e arfando ansioso,

Lívida a face, taciturno o aspeito,

Marco Antônio medita silencioso.

Da lâmpada de prata a luz escassa

Resvala pelo chão. A quando e quando,

Treme, enfunada à viração que passa,

A cortina de púrpura oscilando.

O general medita. Como, soltas

Do álveo de um rio transvazado, as águas

Crescem, cavando o solo, - assim, revoltas,

Fundas a alma lhe vão sulcando as mágoas.

Que vale a Grécia, e a Macedônia, e o enorme

Território do Oriente, e este infinito

E invencível exército que dorme?

Que doces braços que lhe estende o Egito!...

Que vença Otávio! e seu rancor profundo

Leve da Hispânia à Síria a morte e a guerra!

Ela é o céu... Que valor tem todo o mundo,

Se os mundos todos seu olhar encerra?!

Ele é valente e ela o subjuga e o doma...

Só Cleópatra é grande, amada e bela!

Que importa o império e a salvação de Roma?

Roma não vale um só dos beijos dela!...

Assim medita. E alucinado, louco

De pesar, com a fadiga em vão lutando,

Marco António adormece a pouco e pouco,

Nas largas mãos a fronte reclinando.

A harpa suspira. O melodioso canto,

De uma volúpia lânguida e secreta,

Ora interpreta o dissabor e o pranto,

Ora as paixões violentas interpreta.

Amplo dossel de seda levantina,

Por colunas de jaspe sustentado,

Cobre os cetins e a caxemira fina

Do régio leito de ébano lavrado.

Move o leque de plumas uma escrava.

Vela a guarda lá fora. Recolhida,

Os pétreos olhos uma esfinge crava

Nas formas da rainha adormecida.

Mas Cleópatra acorda... E tudo, ao vê-la

Acordar, treme em roda, e pasma, e a admira:

Desmaia a luz, no céu descora a estrela,

A própria esfinge move-se e suspira...

Acorda. E o torso arqueando, ostenta o lindo

Colo opulento e sensual que oscila.

Murmura um nome e, as pálpebras abrindo,

Mostra o fulgor radiante da pupila.

Ergue-se Marco Antônio de repente...

Ouve-se um grito estrídulo, que soa

O silêncio cortando, e longamente

Pelo deserto acampamento ecoa.

O olhar em fogo, os carregados traços

Do rosto em contração, alto e direito

O vulto enorme, - no ar levanta os braços,

E nos braços aperta o próprio peito.

Olha em torno e desvaira. Ergue a cortina,

A vista alonga pela noite afora.

Nada vê. Longe, à porta purpurina

Do Oriente em chamas, vem raiando a aurora.

E a noite foge. Em todo o firmamento

Vão se fechando os olhos das estrelas:

Só perturba a mudez do acampamento

O passo regular das sentinelas.

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