Delenda Carthago! Panóplias · Capítulo 12 de 12
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Delenda Carthago!

Fulge e dardeja o sol nos amplos horizontes

Do céu da África. Ao largo, em plena luz, dos montes

Destacam-se os perfis. Tremulamente ondeia,

Vasto oceano de prata, a requeimada areia.

O ar, pesado, sufoca. E, desfraldando ovantes

Das bandeiras ao vento as pregas ondulantes,

Desfilam as legiões do exército romano

Diante do general Cipião Emiliano.

Tal soldado sopesa a dava de madeira;

Tal, que a custo sofreia a cólera guerreira,

Maneja a bipenata e rude machadinha.

Este, à ilharga pendente, a rútila bainha

Leva do gládio. Aquele a poderosa maça

Carrega, e às largas mãos a ensaia. A custo passa,

Curvado sob o peso e de fadiga aflando,

De guerreiros um grupo, os aríetes levando.

Brilham em confusão cristados capacetes.

Cavaleiros, contendo os ardidos ginetes,

Solta a clâmide ao ombro, ao braço afivelado

O côncavo broquel de cobre cinzelado,

Brandem o pílum no ar. Ressona, a espaços, rouca,

A bélica bucina. A tuba cava à boca

Dos eneatores troa. Hordas de sagitários

Vêem-se, de arco e carcás armados. O ouro e os vários

Ornamentos de prata embutem-se, em tauxias

De um correto lavor, nas armas luzidias

Dos generais. E, ao sol, que, entre nuvens, cintila,

Em torno de Cartago o exército desfila.

Mas, passada a surpresa, às pressas, a cidade

Aos escravos cedera armas e liberdade,

E era toda rumor e agitação. Fundindo

Todo o metal que havia, ou, céleres, brunindo

Espadas e punhais, capacetes e lanças,

Viam-se a trabalhar os homens e as crianças.

Heróicas, abafando os soluços e as queixas,

As mulheres, tecendo os fios das madeixas,

Cortavam-nas.

Cobrindo espáduas deslumbrantes,

Cercando a carnação de seios palpitantes

Como véus de veludo, e provocando beijos,

Excitaram paixões e lúbricos desejos

Essas tranças da cor das noites tormentosas...

Quantos lábios, ardendo em sedes luxuriosas,

As tocaram outrora entre febris abraços!..

Tranças que tanta vez - frágeis e doces laços! -

Foram cadeias de ouro invencíveis, prendendo

Almas e corações, - agora, distendendo

Os arcos, despedindo as setas aguçadas,

Iam levar a morte... - elas, que, perfumadas,

Outrora tanta vez deram a vida e o alento

Aos presos corações!...

Triste, entretanto, lento,

Ao pesado labor do dia sucedera

O silêncio noturno. A treva se estendera:

Adormecera tudo. E, no outro dia, quando

Veio de novo o sol, e a aurora, rutilando,

Encheu o firmamento e iluminou a terra,

A luta começou.

As máquinas de guerra

Movem-se. Treme, estala, e parte-se a muralha,

Racha de lado a lado. Ao clamor da batalha

Estremece o arredor. Brandindo o pílum, prontas,

Confundem-se as legiões. Perdido o freio, às tontas,

Desbocam-se os corcéis. Enrijam-se, esticadas

Nos arcos, a ringir, as cordas. Aceradas,

Partem setas, zunindo. Os dardos, sibilando,

Cruzam-se. Éneos broquéis amolgam-se, ressoando,

Aos embates brutais dos piques arrojados.

Loucos, afuzilando os olhos, os soldados,

Presa a respiração, torvo e medonho o aspeito,

Pela férrea squammata abroquelado o peito,

Se escruam no furor, sacudindo os macetes.

Não param, entretanto, os golpes dos aríetes,

Não cansam no trabalho os musculosos braços

Dos guerreiros. Oscila o muro. Os estilhaços

Saltam das pedras. Gira, inda uma vez vibrada

No ar, a máquina bruta... E, súbito, quebrada,

Entre o insano clamor do exército e o fremente

Ruído surdo da queda, - estrepitosamente

Rui, desaba a muralha, e a pétrea mole roda,

Rola, remoinha, e tomba, e se esfacela toda.

Rugem aclamações. Como em cachões, furioso,

Parte os diques o mar, roja-se impetuoso,

As vagas encrespando acapeladas, brutas,

E inunda povoações, enche vales e grutas,

E vai semeando o horror e propagando o estrago,

Tal o exército entrou as portas de Cartago...

O ar os gritos de dor e susto, espaço a espaço,

Cortavam. E, a bramir, atropelado, um passo

O invasor turbilhão não deu vitorioso,

Sem que deixasse atrás um rastro pavoroso

De feridos. No ocaso, o sol morria exangue:

Como que refletia o firmamento o sangue

Que tingia de rubro a lâmina brilhante

Das espadas. Então, houve um supremo instante,

Em que, cravando o olhar no intrépido africano

Asdrúbal, ordenou Cipião Emiliano:

"- Deixa-me executar as ordens do Senado!

Cartago morrerá: perturba o ilimitado

Poder da invicta Roma... Entrega-te! -"

Orgulhoso,

A fronte levantando, ousado e rancoroso,

Disse o cartaginês:

"- Enquanto eu tiver vida,

Juro que não será Cartago demolida!

Quando o incêndio a envolver, o sangue deste povo

Há de apagá-lo. Não! Retira-te! -"

De novo

Falou Cipião:

Atende, Asdrúbal! Por mais forte

Que seja o teu poder, há de prostrá-lo a morte!

Olha! A postos, sem conta, as legiões de Roma,

Que Júpiter protege e que o pavor não doma,

Vão começar em breve a mortandade infrene!

Entrega-te! -"

"- Romano, escuta-me! (solene,

O outro volveu, e a raiva em sua voz rugia)

Asdrúbal é o irmão de Aníbal... Houve um dia

Em que, ante Aníbal, Roma estremeceu vencida

E tonta recuou de súbito ferida.

Ficaram no lugar da pugna, ensangüentados,

Mais de setenta mil romanos, trucidados

Pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros;

Seis alqueires de anéis dos mortos cavaleiros

Cartago arrecadou... Verás que, como outrora,

Do eterno Baal-Moloch a proteção agora

Teremos. A vitória há de ser nossa... Escuta:

Manda que recomece a carniceira luta! -"

E horrível, e feroz, durante a noite e o dia,

Recomeçou a luta. Em cada casa havia

Um punhado de heróis. Seis vezes, pela face

Do céu, seguiu seu curso o sol, sem que parasse

O medonho estridor da sanha da batalha...

Quando a noite descia, a treva era a mortalha

Que envolvia, piedosa, os corpos dos feridos.

Rolos de sangue e pó, blasfêmias e gemidos,

Preces e imprecações... As próprias mães, entanto,

Heróicas na aflição, enxuto o olhar de pranto,

Viam cair sem vida os filhos. Combatentes

Houve, que, não querendo aos golpes inclementes

Do inimigo entregar os corpos das crianças,

Matavam-nas, erguendo as suas próprias lanças...

Por fim, quando de todo a vida desertando

Foi a extinta cidade, e, lúgubre, espalmando

As asas negras no ar, pairou sinistra e horrenda

A morte, teve um fim a peleja tremenda,

E o incêndio começou.

Fraco e medroso, o fogo

À branda viração tremeu um pouco, e logo,

Inda pálida e tênue, ergueu-se. Mais violento,

Mais rápido soprou por sobre a chama o vento:

E o que era labareda, agora ígnea serpente

Gigantesca, estirando o corpo, de repente

Desenrosca os anéis flamívomos, abraça

Toda a cidade, estala as pedras, cresce, passa,

Rói os muros, estronda, e, solapando o solo,

Os alicerces broca, e estringe tudo. Um rolo

De plúmbeo e denso fumo enegrecido em torno

Se estende, como um véu, do comburente forno.

Na horrorosa eversão, dos templos arrancado,

Vibra o mármore, salta; abre-se, estilhaçado,

Tudo o que o incêndio aperta... E a fumarada cresce

Sobe vertiginosa, espalha-se, escurece

O firmamento... E, sobre os restos da batalha,

Arde, voraz e rubra, a colossal fornalha.

Mudo e triste Cipiáo, longe dos mais, no entanto,

Deixa livre correr pelas faces o pranto...

É que, - vendo rolar, num rápido momento

Para o abismo do olvido e do aniquilamento

Homens e tradições, reveses e vitórias,

Batalhas e troféus, seis séculos de glórias

Num punhado de cinza -, o general previa

Que Roma, a invicta, a forte, a armipotente, havia

De ter o mesmo fim da orgulhosa Cartago.

E, perto, o precipitar estrepitoso e vago

D0 incêndio, que lavrava e inda rugia ativo,

Era como o rumor de um pranto convulsivo...

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