Primeira parte - Cena I
Prado, com casaria no fim. Saem DONA CLORIS , DONA NIZE e SEVADILHA com os rostos cobertos; e DOM FUAS , DOM GILVAZ e SIMICÚPIO , seguindo-as.
DOM GILVAZ.- (Para DONA CLORIS .) Diana destes bosques, cessem os acelerados desvios desse rigor, pois quando rêmora me suspendeis, sois imã, que me atraís.
DOM FUAS.- (Para DONA NIZE .) Flora destes prados, suspendei a fatigada porfia de vosso desdém, que essa discorde fuga com que me desenganais, é harmoniosa atração de meus carinhos; pois nos passos desses retiros forma compassos o meu amor.
SIMICÚPIO.- (Para SEVADILHA .) E tu, que vens atrás, serás a seringa destas brenhas ; e para o seres com mais propriedade, deixa-te ficar mais atrás, pois apesar dos esguichos de teu rigor, hei de ser conglutinado raboleva das tuas costas.
DONA CLORIS.- (Para DOM GILVAZ .) Cavalheiro, se é que o sois, peço-vos que não me sigais, que mal sabeis o perigo, a que me expõe a vossa porfia .
DOM GILVAZ.- Galhardo impossível, em cujas nubladas esferas ardem ocultos dois sóis, e se abrasa patente um coração, permiti que esta vez seja fineza a desobediência; porque seria agravo de vossos reflexos negar-lhe o inteiro culto na visualidade desse esplendor; porque assim, formosa ninfa, ou hei de ver-vos ou seguir-vos, porque conheça, já que não o Sol desse oriente, ao menos o oriente desse sol.
DONA CLORIS.- (À parte.) Que será de mim, se este homem me seguir?
DONA NIZE.- Já parece teima essa porfia: vê-de, senhor, que se me seguís, que impossibilitais o meio para ver-me outra vez.
DOM FUAS.- Para que são, belíssimo encanto, esses avaros melindres do repúdio? Se já comecei a querer-vos, como posso deixar de seguir-vos? Pois até não saber, ou quem sois, ou aonde habitais, serei eterno girassol de vossas luzes.
SEVADILHA.- (Para SIMICÚPIO .) Ora basta já de porfia, senão vou revirando .
SIMICÚPIO.- Tem mão, sarjeta encantadora, que com embiocadas denguices, feita papão das almas, encobres olho e meio, para matares gente de meio olho: são escusados esses esconderelos , pois pela unha desse melindre conheço o leão desta cara.
DONA CLORIS.- Isso já parece teima.
DOM GILVAZ.- Isto é querer-vos.
DONA NIZE.- Isso é porfia.
DOM FUAS.- É adorar-vos.
SEVADILHA.- Isto é empurração.
SIMICÚPIO.- Agora, isto é bichancrear , pouco mais ou menos.
DOM GILVAZ.- Senhoras, para que nos cansamos? Ainda que pareça grosseria não obedecer, entendei que a nossa curiosidade e amor não permitirá que vos ausenteis, sem ao menos com a certeza de nos tornarmos a ver, dando-nos também o seguro de onde morais, para que possa o nosso amor multiplicar os votos na peregrinação desses animados templos da formosura.
SEVADILHA.- Em termos, sem tirar nem pôr.
DONA CLORIS.- Pois, senhor, se só por isso esperais, bastará que esse criado nos siga; porque de outra sorte destruís o mesmo que edificais.
DOM GILVAZ.- E admitireis a minha fineza?
DONA CLORIS.- Sendo verdadeira, por que não?
DOM FUAS.- Admitireis os repetidos sacrifícios de meu amor?
DONA NIZE.- Sim, se for amor constante.
DOM GILVAZ E DOM FUAS.- Quem essa dita me abona?
DONA NIZE.- Este ramo de manjerona .
DOM FUAS.- Na minha alma o disporei, para que sempre em virentes pompas se ostente troféu da primavera.
DOM GILVAZ.- Mereça eu igual favor para segurança da vossa palavra.
DONA CLORIS.- Este ramo de alecrim , que tem as raízes no meu coração, seja o fiador que me abone.
DOM GILVAZ.- Por único na minha estimação será esse alecrim o feliz das plantas, que abrasando-se nos incêndios do meu peito, se eternizará no seu mesmo ardor.
SIMICÚPIO.- Isso é bom, segurar o barco; mas a tácita hipoteca não me cheira muito, digam o que quiserem os jardineiros.
DONA CLORIS.- Cada um de nós estima tanto qualquer dessas plantas, que mais fácil será perder a vida do que elas percam o crédito de verdadeiras.
SIMICÚPIO.- Ai! Basta, basta, já aqui não está quem falou: vossas mercês perdoem, que eu não sabia que eram do rancho do alecrim e manjerona: resta-me também que tu cozinheirazinha vivas arranchada com alguma ervinha, que me dês por prenda, pois também me quero segurar.
SEVADILHA.- Eis aí tem esse malmequer, que este é o meu rancho; estime-o bem, não o deixe murchar.
SIMICÚPIO.- Ditoso seria eu, se o teu Malmequer se murchasse.
DONA CLORIS.- Pois, senhor, como estais satisfeito, desejarei estimasseis esse ramo, não tanto como prenda minha, mas por ser de alecrim.
DONA NIZE.- O mesmo vos recomendo da manjerona.
DONA CLORIS.- Advertindo que aquele que mais extremos fizer a nosso respeito, coroará de triunfos a manjerona, ou alecrim, para que se veja qual destas duas plantas tem mais poderosos influxos para vencer impossíveis.
DONA NIZE.- Desejara que triunfasse a manjerona. (Vai-se.)
DONA CLORIS.- E eu o alecrim. (Vai-se.)
SEVADILHA.- Cuidado no malmequer. (Vai-se.)
SIMICÚPIO.- Cuidado no bem-me-quer.
DOM GILVAZ.- Ó Simicúpio, vai seguindo-as, para sabermos aonde moram: anda, não as perca de vista.
SIMICÚPIO.- Elas já lá vão a perder de vista; mas eu pelo faro as encontrarei, que sou lindo perdigueiro para estas caçadas. (Vai-se.)
DOM FUAS.- Quem serão, amigo dom Gilvaz, essas duas mulheres?
DOM GILVAZ.- Essa pergunta não tem resposta, pois bem vistes o cuidado com que vendaram o rosto, para ferir os corações como cupido; mas pelo bom tratamento e asseio, indicam ser gente abastada.
DOM FUAS.- Oxalá que assim fora; porque em tal caso, admitindo os meus carinhos, poderei com a fortuna do esposo ser meeiro no cabedal.
DOM GILVAZ.- Ai, amigo dom Fuas, que direi eu, que ando pingando, pois já não morro de fome, por não ter sobre que cair morto?
DOM FUAS.- Elas foram aturdidas com palanfrórios .
DOM GILVAZ.- Já que do mais somos famintos, ao menos sejamos fartos de palavras.
(Entra SIMICÚPIO .)
SIMICÚPIO.- Já fica assinalada na carta de marear toda a costa de leste a oeste, com seus cachopos e baixios .
DOM GILVAZ.- Aonde moram?
SIMICÚPIO.- São as nossas vizinhas, sobrinhas de dom Lancerote, aquele mineiro velho, que veio das minas o ano passado.
DOM FUAS.- Basta que são essas! Por isso elas cobriram o rosto.
SIMICÚPIO.- Isso tem elas, que não são descaradas; antes são tão sisudas, que nunca encararam para ninguém.
DOM GILVAZ.- Uma delas sei eu, que se chama dona Cloris.
SIMICÚPIO.- E a outra dona Nize, isso sabia eu há muito tempo.
DOM FUAS.- E como saberei eu qual delas é a da manjerona?
SIMICÚPIO.- Isso é fácil, em sabendo-se qual é a do alecrim, logo se sabe qual é a da manjerona?
DOM FUAS.- Grande sutileza! Vamos, dom Gil.
SIMICÚPIO.- Já que se vão, advirtam de caminho que segundo as notícias que tenho, bem podem desistir da empresa; porque o velho é tão cioso das sobrinhas, como do dinheiro; a casa é um recolhimento; as portas de bronze; as janelas de encerado; as frestas são óculos de ver ao longe, que nem ao perto se vêem; as trapeiras são zimbórios tão altos, que nem as nuvens lhe passam por alto; as paredes do jardim são mestras, e as chaves das portas discípulas, porque ainda não sabem abrir; mas só um bem há, e é que, tendo tudo tão forte, só o telhado é de vidro. Com que, senhores meus, outro ofício, contentem-se com cheirar a sua manjerona e o seu alecrim; que amor que entra pelo nariz não é bem que chegue ao coração.
DOM GILVAZ.- Simicúpio, não temo impossíveis, tendo da minha parte a tua indústria, que espero de ti apures toda a força de teu engenho para os combates dessa muralha.
SIMICÚPIO.- Ah senhor dom Gilvaz, o meu aríete já se acha mui cansado de tanto vaivém, pois nem todo o artifício de minhas máquinas pode abrir brecha nessa diamantina bolsa, que tão cerrada se dificulta aos meus merecimentos.
DOM GILVAZ.- Simicúpio amigo, tem ânimo, que se montamos a burra a dom Lancerote, saltaremos de contentes.
SIMICÚPIO.- Tal é a minha desgraça, e a sua miséria, que ainda com esta burra me dará dois coices.
DOM GILVAZ.- Dom Fuas, ficai-vos embora, que me vou armar de esperanças, para que nos combates de amor triunfe o alecrim.
DOM FUAS.- Dom Gil, vamos a forro, e a partido pois que Simicúpio é tão destro na matéria.
DOM GILVAZ.- Por hora não pode ainda ser; deixai-me primeiro tentar o vau , que vós também navegareis no mar de Cupido .
DOM FUAS.- Isso não merece a nossa amizade.
DOM GILVAZ.- Se vós sois do rancho da manjerona, já me podereis conhecer por inimigo declarado, seguindo eu a parcialidade do alecrim; e como nas guerras destas plantas havemos os dois ser contrários, mal poderei socorrer-vos; e assim, ficai-vos embora, dom Fuas, e viva o alecrim. (Sai-se.)
SIMICÚPIO.- E viva o malmequer. (Vai-se.)
DOM FUAS.- Viverá a manjerona apesar do mais intensivo ardor de opostos planetas.
(Entra FAGUNDES com manto e capelo .)
FAGUNDES.- E bom sumiço! Aonde estarão estas meninas que há mais de quatro horas, que foram à missa, e ainda não há fumo delas? Meu senhor, vossa mercê acaso veria por aqui duas mulheres com uma criada?
DOM FUAS.- Que sinais tinham?
FAGUNDES.- Tinha uma delas uns sinais pretos no rosto e a outra uns sinais de bexigas.
DOM FUAS.- E que mais?
FAGUNDES.- Uma delas tem os olhos verdes, cor de pimentão, que não está maduro, e a outra olhos pardos, como raiz de oliveira; uma tem cova na barba e a outra barba na cova, uma tem espinhela caída e a outra um leicenço num braço.
DOM FUAS.- Com esses sinais, nunca vi mulher nesta vida.
FAGUNDES.- Meu senhor, uma delas trazia um ramo de alecrim no peito, e a outra de manjerona.
DOM FUAS.- Vi muito bem que são as sobrinhas de dom Lancerote.
FAGUNDES.- Essas mesmas são: ora diga-me onde as viu?
DOM FUAS.- Promete-me vossa mercê fazer-me quanto eu lhe pedir?
FAGUNDES.- Ai, que coisa me pedirá vossa mercê, que lhe não faça, dizendo-me aonde estão as minhas meninas?
DOM FUAS.- Pois descanse, que elas aqui estiveram e agora foram para casa.
FAGUNDES.- Ai, boas novas tenha.
DOM FUAS.- Ora pois em alvíssaras desta boa nova quero me diga como se chama...
FAGUNDES.- Eu? Ambrósia Fagundes para servir a vossa mercê.
DOM FUAS.- Digo, como se chama a que trazia a manjerona no peito?
FAGUNDES.- Chama-se dona Nize.
DOM FUAS.- Pois, Senhora Ambrósia Fagundes, saiba que eu adoro tão excessivamente a dona Nize, que em prêmio do meu extremo me franqueou este ramo de manjerona.
FAGUNDES.- É verdade, que pelo cheiro o conheço, que é o mesmo.
DOM FUAS.- E como me dizem os impossíveis que há de a poder comunicar, quisera dever-lhe a galanteria de ser a minha protetora nesta amorosa pretensão; e fie de mim, que o prêmio há de ser igual ao meu desejo.
FAGUNDES.- Meu senhor, difícil empresa toma vossa mercê; porque além da excessiva cautela do tio, que nisto não se fala, uma delas está para casar com um primo, que hoje se espera de fora da terra, e a outra qualquer dia vai a ser freira; com que, meu senhor, desengane-se, que ali não há que arranhar.
DOM FUAS.- E qual delas é a que casa?
FAGUNDES.- Ainda se não sabe; porque o noivo vem à escolha daquela que mais lhe agradar.
DOM FUAS.- Como o vencer impossíveis é próprio de um verdadeiro amante, nós havemos de intentar esta empresa, saia o que sair; que a diligência é mãe de boa ventura: favoreça-me vossa mercê, Senhora Fagundes, com o seu voto, que eu terei bom despacho no tribunal de Cupido: tenho dinheiro e resolução, e tendo a vossa mercê da minha parte, certo tenho o triunfo da manjerona.
FAGUNDES.- Pois para mim não se desmanche a festa, que eu não sou desmacha-prazeres: esta noite o espero debaixo da janela da cozinha; sabe aonde é?
DOM FUAS.- Bem sei.
FAGUNDES.- Pois espere-me aí, que eu lhe direi o que há na matéria.
DOM FUAS.- Deixe-me beijar-lhe os pés, ó insigne Fagundes, feliz corretora de Cupido.
FAGUNDES.- Ai! Levante-se, senhor, não me beije os pés, que os tenho agora mui suados, e um tanto fétidos: descanse, senhor, que dona Nize há de ser sua apesar das cautelas do tio e das carícias do noivo.
Se tal consigo, não tenho mais que desejar.
(Canta DOM FUAS a seguinte ária:)
(Vai-se.)
FAGUNDES.- Estes homens, tanto que são amantes, logo são músicos; e eu neste entendo terei boa melgueira ; e mais eu que sou abelha mestra, que hei de chupar o mel da manjerona e do alecrim.