Segunda parte - Cena III
Câmera. Entram DOM GILVAZ e DONA NIZE .
DOM GILVAZ.- Senhora dona Nize, se acaso em vossa piedade pode achar amparo um desgraçado, peço-vos que me oculteis; pois já a rubincuda Aurora em risonhas vozes nos avis da chegada do Sol, assim a vossa manjerona se veja coroada de louro no capitólio do amor.
DONA NIZE.- Já o alecrim pede favores à mangerona?
DOM GILVAZ.- Se dona Cloris não aparece, que quereis que faça?
DONA NIZE.- Pois escondei-vos nessa alcova, enquanto a vou chamar.
(Esconde-se DOM GILVAZ e entra DOM FUAS .)
DOM FUAS.- Aonde vais, tirana? Procuras acaso o teu amante? Oh murcha seja a tua manjerona, que como planta venenosa me tem morto.
DONA NIZE.- Homem do demônio, ou quem quer que és, que em negra hora te vi, e amei, que desconfianças são essas? que amante é esse, com quem me andas aqui apurando a paciência, e sem que, nem para que, descompondo a minha manjerona?
DOM FUAS.- Pois quem era aquele que saiu da caixa a dizer-te mil colóquios?
DONA NIZE.- Que sei eu quem era; salvo fosse... Mas retira-te, que aí vem gente.
DOM FUAS.- Esconder-me-ei aonde for.
(Quer esconder-se onde está DOM GILVAZ .)
DONA NIZE.- (À parte.) Não te escondas aí. Ai de mim que se dom Fuas vê a dom Gil, fará o seu ciúme verdadeiro!
DOM FUAS.- Não queres que me esconda aí? Agora por isso mesmo.
DONA NIZE.- Tem mão, adverte...
DOM FUAS.- Que adverte? Tens aí acaso escondido o teu amante?
DONA NIZE.- Não, dom Fuas, porque só tu....
DOM FUAS.- Que é isso? Mudas de cor?
DONA NIZE.- Se a cor é acidente, estou para desmaiar, vendo a sem razão com que me criminas.
(Entra DONA CLORIS .)
DONA CLORIS.- Nize, que alarido é esse? Queres que venha o tio, e ache aqui este estafermo?
DONA NIZE.- São loucuras de um zeloso sem causa.
DOM FUAS.- São zelos de uma causa sem loucura, e senão diga-me, senhora dona Cloris, por vida do senhor seu alecrim, não é para ter zelos ver repetidas vezes a um sujeito procurar a dona Nize com tão repetidos extremos, que uma coisa é vê-lo e outra dize-lo; e suponho o tem agora escondido naquela alcova de donde me desvia para esconder-me?
DONA CLORIS.- Isso verei eu, que também me importa essa averiguação.
DONA NIZE.- (À parte.) Cloris, não te canses, que não hás de ver quem aí está. Estou perdida!
DOM FUAS.- É para que veja, senhora, a razão que tenho. Ah tirana!
DONA CLORIS.- Já agora por capricho hei de ver quem aí está. Vossa mercê é, senhor dom Gilvaz? Que é isso? Quer enxertar o meu alecrim com a manjerona de dona Nize?
DOM GILVAZ.- Há caso semelhante!
DOM FUAS.- Falso, traidor amigo, como sabendo que eu pretendo a dona Nize, te expões a embaraçar o meu emprego?
DOM GILVAZ.- Dona Cloris, dom Fuas, para que são esses extremos, quando a senhora dona Nize nem a vós ofende, nem a mim me corresponde?
DOM FUAS.- Ninguém se esconde sem delito.
DONA CLORIS.- Ninguém se oculta sem motivo.
DONA NIZE.- Ora agora não quero dar satisfações, nem a uma louca, nem a um temerário: é muita verdade; escondi a dom Gil, porque lhe quero bem; pois que temos?
DOM FUAS.- Que isto sofra a minha paciência! Ah ingrata!
DONA CLORIS.- Que isto tolerem os meus zelos! Ah falso amante!
DOM GILVAZ.- A senhora dona Nize está zombando, e aquilo nela é galantaria.
DONA NIZE.- Não é senão realidade e tenho dito. (Vai-se.)
DOM FUAS.- Não se viu mais descarado rigor! Espera, cruel, e verás com os teus olhos os ultrajes que faço à tua manjerona. (Vai-se.)
DONA CLORIS.- Senhor dom Gil, venha depressa o meu alecrim.
DOM GILVAZ.- O teu alecrim é inseparável de meu peito.
DONA CLORIS.- Deixemos graças, que eu não zombo.
DOM GILVAZ.- Pois entendes que dona Nize fala de veras?
DONA CLORIS.- Quer falasse de veras, quer não, venha, o meu alecrim.
De que sorte queres que te satisfaça? Ignoras acaso as firmezas de meu amor?
(Canta DOM GILVAZ a seguinte ária:)
(Entram SIMICÚPIO e SEVADILHA .)
SIMICÚPIO.- Senhor dom Gilvaz, nunca Simicúpio se viu em calças mais pardas.
DOM GILVAZ.- Por que?
SEVADILHA.- Porque o velho já aí vem caminhando como uma centopéia.
DONA CLORIS.- Anda, dom Gil, para dentro, até que haja ocasião para saíres.
DOM GILVAZ.- Vais ainda com escrúpulos na minha constância?
DONA CLORIS.- Cá dentro apuraremos essas finezas. (Vai-se.)
DOM GILVAZ.- Ó Simicúpio, vê como havemos sair daqui, que bem sabes que tenho de escrever hoje para o correio. (Vai-se.)
SIMICÚPIO.- Tomara que o fizessem em postas, o levasse barzabú às vinte .
SEVADILHA.- E se lhes não dizemos, que vinha o velho, ainda se não iam.
SIMICÚPIO.- E ia-se a história, sem nós fazermos nosso papel de Alfazema por causa do alecrim.
SEVADILHA.- Não me dirás, Simicúpio, em que há de parar toda essa barafunda ?
SIMICÚPIO.- Em algum casamento, isso já se sabe; tomara eu também que me dissesses em que havemos nós parar?
SEVADILHA.- Em correr, que se paramos aqui, talvez que nos envidem o resto.
SIMICÚPIO.- Não embaralhes o sentido em que te falo. Ai Sevadilha, que não só me chegaste ao coração, mas também aos narizes! E assim não ponhas por estanque os teus favores: antes afável, dá-me alguma amostrinha de tua inclinação.
SEVADILHA.- Quem te meteu esses fumos na cabeça?
SIMICÚPIO.- O dó que tenho de te ver tão matadora .
SEVADILHA.- Vai-te daí, que tenho nojo de chegar-me a ti.
SIMICÚPIO.- Eu não te mereço que me descomponhas o carinho com que te trato. Ai Sevadilha, que sinto assar-me nos espetos quentes dos teus olhos, aonde os repetidos espirros de meu incêndio...
SEVADILHA.- Não me disseras isso em dois dedos de papel, ainda te crera.
Não só em dois dedos, mas em toda a mão da solfa , donde verás de teu Simicúpio as finas cláusulas e suas simicopadas .
(Canta SIMICÚPIO , espirando no fim de casa verso a seguinte ária:)
(Vai-se.)
SEVADILHA.- Ora Deus o ajude com tanto espirrar.
(Entram DOM LANCEROTE e DOM TIBÚRCIO .)
DOM LANCEROTE.- Basta, sobrinho, que não fostes vós o que me derreastes?
DOM TIBÚRCIO.- Pois acha vossa mercê que havia pôr as mãos violentas nas reverendas barbas de vossa mercê? Igual eu me podia com mais razão queixar de vossa mercê, que me fez em estilhas .
DOM LANCEROTE.- Eu, sobrinho? Isso é engano; eu havia erguer a mão para vós, quando só as devo levantar ao Céu, para dar-lhe graças, por dar-me para uma de minhas sobrinhas um noivo tão gentil-homem?
DOM TIBÚRCIO.- Não vai a dar quebranto .
SEVADILHA.- (À parte.) E ele, que é mui belo.
DOM TIBÚRCIO.- Pois se nenhum de nós reciprocamente deu um no outro, quem seria?
DOM LANCEROTE.- Eu também não posso atinar; o que sei é que a caixa para nós foi de guerra.
SEVADILHA.- (À parte.) E para o noivo de tartaruga do Alentejo .
DOM LANCEROTE.- Sevadilha, anda cá, não o negues: quem andará nesta casa; há um par de noites que sinto grande reboliço?
SEVADILHA.- Senhor, eu tenho para mim que esta casa às escuras é assombrada.
DOM LANCEROTE.- Tens visto alguma coisa?
SEVADILHA.- Ai senhor, tenho visto tantas coisas que não me atrevo a dize-las.
DOM LANCEROTE.- Dize, rapariga.
SEVADILHA.- Só em cuidar no que vi, estou para me desmaiar.
DOM LANCEROTE.- Era coisa do outro mundo?
SEVADILHA.- Qual do outro mundo, se eu a vi neste?
DOM LANCEROTE.- Era fantasma?
SEVADILHA.- O que é fantasma?
DOM LANCEROTE.- É uma coisa branca que põe os olhos em alvo.
SEVADILHA.- Senhor, eu não sei o que é; sei somente que vi sair de uma caixa uma coisa como furacão de vento, que me deu muita pancada.
DOM LANCEROTE.- Vêdes, sobrinho? É o mesmo que nos sucede em carne.
DOM TIBÚRCIO.- Na carne aliás.
DOM LANCEROTE.- Aqui não há outro remédio mais que safares logo, e já, e levares vossa mulher convosco, que eu ponho escritos nas casas e mudo-me às carreiras.
DOM TIBÚRCIO.- Isso é o verdadeiro.
DOM LANCEROTE.- Sevadilha, vai chamar as raparigas que venham cá depressa.
SEVADILHA.- (À parte.) Genro e sogro não os vi mais bestas! (Vai-se.)
DOM TIBÚRCIO.- Para que manda vossa mercê chamar as minhas primas tão depressa?
DOM LANCEROTE.- Logo vereis.
(Entram DONA CLORIS e DONA NIZE .)
AMBAS.- Que nos ordenas, senhor?
DOM LANCEROTE.- Sobrinho, elas aí estão, escolhei uma das duas para vossa esposa.
DONA CLORIS.- Eu fiz voto de ser freira e assim não posso casar.
DOM LANCEROTE.- Pois case dona Nize.
DONA NIZE.- Eu menos, que quero ser donzela.
DOM LANCEROTE.- Isso já não pode ser, que dei a minha palavra, que vale mais que tudo.
DOM TIBÚRCIO.- Eu já me resolvera a aturar a ríspida condição de dona Nize, mas sem receber o dote não me recebo.
DOM LANCEROTE.- Andai, que sois um impolítico: algum homem que tem brio, fala em dote?
DOM TIBÚRCIO.- E algum homem, que quer dote, atenta em brio?
(Entram DOM FUAS , DOM GILVAZ e SIMICÚPIO vestidos de mulher com mantos.)
SIMICÚPIO.- Senhor, esta indústria nos valha, que para sair, sempre foi boa uma saia.
DOM GILVAZ.- (À parte.) Quem serve a Cupido, não é muito que se afemine.
DOM FUAS.- (À parte.) Até nisto mostra o amor que é covarde.
DOM LANCEROTE.- Que mulheres são essas, que saem da nossa alcova?
DONA CLORIS.- (À parte.) Estou tremendo não se descubra a tramóia.
SIMICÚPIO.- Senhor dom Tibúrcio, as mulheres honradas, como eu, se não tratam desta sorte.
DOM TIBÚRCIO.- Senhora, vossa mercê vem enganada.
DOM LANCEROTE.- Que é isto, sobrinho?
DOM TIBÚRCIO.- Eu o não sei em minha consciência.
DOM LANCEROTE.- Senhoras, como entrastes nesta casa?
SIMICÚPIO.- Este senhor sobrinho de vossa mercê merecia que lhe dessem duas facadas, pois sem alma, nem consciência, depois de o introduzir na minha casa, para casar com uma de minhas filhas, que vossa mercê aqui vê; teve tais ardis, que enganou a ambas e de ambas triunfou; e para mais penas sentir esta madrugada nos mandou viéssemos a esta casa, que disse era sua, e no cabo sei que não é e está para casar com uma sobrinha de vossa mercê. Ah traidor, ladrão, não sei como te não esgadanho e te arranco essas goelas.
DOM LANCEROTE.- É notável caso! Sobrinho desalmado, que é o que fizestes?
DOM TIBÚRCIO.- Senhor, eu estou tolo de ver mentir esta mulher!
DOM GILVAZ.- Ah falso dom Tibúrcio, o céu me vingue de tuas falsidades.
DOM FUAS.- Ainda nega o magano? Tal estou, que lhe arrancara estas barbas.
SIMICÚPIO.- Deixai, filhas, deixai, que ainda no céu há raios e no inferno a caldeira de Pero Botelho para castigo de velhacos. Vamos, meninas. (Vai-se.)
DONA CLORIS.- (À parte.) Já estamos livres deste susto.
DONA NIZE.- (À parte.) O criado vale um milhão.
DOM LANCEROTE.- Senhor sobrinho, vossa mercê a tem feito como os seus narizes; basta que vossa mercê é useiro e vezeiro a enganar moças?
DOM TIBÚRCIO.- Senhor, eu não conheço tais mulheres.
DOM LANCEROTE.- Se não tendes outra desculpa, essa não me satisfaz, e agora vejo que por isso dilatáveis o casar com vossas primas, fingindo irresoluções e regateando o dote.
DOM TIBÚRCIO.- Senhor, permita Deus que se eu...
DOM LANCEROTE.- Não jureis falso; dizei-me, e tivestes atrevimento de meteres mulheres em casa, sem atenção ao decoro de vossas primas?
DOM TIBÚRCIO.- Primas do meu coração, eu estou para enlouquecer, pois estou tão inocente...
DONA CLORIS.- Cale-se, tenha juízo; basta, que com esse feitio nos queria lograr?
DONA NIZE.- É o senhor sizudo, que não aprova os ranchos de alecrim e manjerona!
DOM TIBÚRCIO.- Ora basta, que diga eu, que não conheço tais mulheres.
DONA CLORIS.- Cale-se, tonto.
DONA NIZE.- Cale-se, simples.
DONA CLORIS.- Basbaque .
DONA NIZE.- Insolente.
AMBAS.- Que? Agora casar? Aqui para trás.
(Vão-se.)
DOM TIBÚRCIO.- Senhor tio, dê-me atenção, senão desesperarei.
(Canta DOM LANCEROTE a seguinte ária:)
DOM TIBÚRCIO.- Que isto a mim me suceda? Não há homem mais infeliz!