Segunda parte - Cena II
Sala. Entram DOM TIBÚRCIO e SEVADILHA .
DOM TIBÚRCIO.- Sevadilha, agora que estamos sós, quero-te pedir um conselho.
SEVADILHA.- Se vossa mercê acha que lhos posso dar, proponha, que eu resolverei.
DOM TIBÚRCIO.- Tu bem sabes, que eu vim para casar com uma destas duas primas minhas: ambas são belas, ao que eu entendo; só me resta saber as manhas de cada uma, para que escolha do mal o menos.
SEVADILHA.- Senhor, ambas são mui bastantes moças, a senhora dona Cloris é mui perfeita, sabe fazer os ovos moles muito bem; a senhora dona Nize tem melhor juízo; muito assento, quando não está de levante; grande capacidade; e tanto, que sendo tão rapariga, já lhe nasceu o dente do siso; porém na condição é uma víbora assanhada.
DOM TIBÚRCIO.- Não sei, Sevadilha, o que faça neste caso.
SEVADILHA.- Não casar com nenhuma.
DOM TIBÚRCIO.- Pois eu vim cá por besta de pau?
SEVADILHA.- Eu digo o que entendo em minha consciência.
DOM TIBÚRCIO.- Oh se pudera eu casar contigo, Sevadilha, porque só tu me caíste em graça!
SEVADILHA.- Ai que graça! Diga-me isso outra vez.
DOM TIBÚRCIO.- Não zombo, que não estou fora de fazer eu mesmo uma parvoice .
SEVADILHA.- Não será a primeira.
DOM TIBÚRCIO.- Queres tu que fujamos? Olha, que estou com minhas tentações de te fazer dona da minha casa.
SEVADILHA.- Diga-me destas, que gosto disso.
DOM TIBÚRCIO.- Sevadilha, não percas esta fortuna.
SEVADILHA.- Quem é a fortuna?
DOM TIBÚRCIO.- Sou eu, que te quero.
SEVADILHA.- Se é fortuna, será inconstante.
DOM TIBÚRCIO.- Ai que a moça me fala por equívocos! És discreta.
SEVADILHA.- Ora vá-se com a fortuna.
Entra SIMICÚPIO com a caixa às costas.
SIMICÚPIO.- Quem toma conta deste arcaz ?
DOM TIBÚRCIO.- Quem a manda?
SIMICÚPIO.- Uma mulher já de dias grandes, porque era bastantemente velha.
DOM TIBÚRCIO.- A mim me melem, se isto não é já alguma preparação para o casamento.
SIMICÚPIO.- Vossa mercê parece que adivinha, pois para casamento é, segundo ouvi dizer a um terceiro.
DOM TIBÚRCIO.- Sabes o que virá aí dentro?
SIMICÚPIO.- Cuido que é um vestido.
DOM TIBÚRCIO.- E que tal?
SIMICÚPIO.- Belo na verdade, bordado com uns vivos brancos, e de cores tão vivas, que estão saltando.
DOM TIBÚRCIO.- É de mulher, ou de homem?
SIMICÚPIO.- Tudo o que vem aqui é para mulher.
DOM TIBÚRCIO.- Cuidei que era para mim.
SEVADILHA.- (À parte.) Aquele é Simicúpio; ele que carrega a caixa, não é sem causa.
SIMICÚPIO.- (À parte.) Sevadilha lá me está deitando uns olhos, que se vão os meus atrás deles.
DOM TIBÚRCIO.- Já te pagaram?
SIMICÚPIO.- Não, senhor; mas eu esperarei pela velha.
DOM TIBÚRCIO.- Pois, Sevadilha, em que ficamos? Ajustemos o negócio!
SEVADILHA.- (À parte.) É boa esta, ouvindo-me Simicúpio!
DOM TIBÚRCIO.- Olha, Sevadilha, eu te quero tanto, que fecharei os olhos a tudo, só por casar contigo.
SIMICÚPIO.- (À parte.) Tome-se lá o que estavam ajustando os dois! Eu os estorvarei.
DOM TIBÚRCIO.- Que dizes, rapariga?
SIMICÚPIO.- Ah senhor, pague-me o carreto da caixa.
DOM TIBÚRCIO.- Espera, que logo vem a velha.
SIMICÚPIO.- (À parte.) Sim, pois a moça logo vai.
DOM TIBÚRCIO.- Tu ainda és menina, não sabes o que te convém.
SEVADILHA.- Eu não necessito de tutores.
DOM TIBÚRCIO.- Olha que eu sou morgado na minha terra, e terás tantos, e quantos.
SIMICÚPIO.- Senhor, pague-me o carreto da caixa, que não posso esperar.
DOM TIBÚRCIO.- Logo, espera: ora, Sevadilha, isso há de ser, dá-me um abraço.
SIMICÚPIO.- Venha o carreto da caixa; é boa essa!
SEVADILHA.- É boa teima!
DOM TIBÚRCIO.- Pois dá-me ao menos esse malmequer por prenda tua.
SIMICÚPIO.- Ora venha já esse carreto, senão tudo vai cos diabos.
DOM TIBÚRCIO.- Espera, homem: ouve, mulher.
Vá-se daí, malcriado, aleivoso, maligno; é o que me faltava!
(Canta SEVADILHA a seguinte ária:)
(Vai-se.)
SIMICÚPIO.- Regalou-me esta ária: vou dizer a Sevadilha, diga a dona Cloris, que ali está meu amo; e finjo que me vou. Senhor, adeus: eu virei noutra ocasião. (Vai-se.)
(Entra DOM LANCEROTE com um castiçal e vela acesa e a porá encima da caixa, donde ao depois se assentarão.)
DOM LANCEROTE.- Sobrinho, vós bem sabeis que um hóspede, passados os três dias logo fede, como cavalo morto; isto não é dizer que fedeis, mas vos afirmo que não me cheira bem essa vossa irresolução, vendo que indeciso ainda não elegestes qual de vossas primas há de ser vossa consorte.
DOM TIBÚRCIO.- Senhor, as perfeições de cada uma são tão peregrinas , que vacila a vontade na eleição dos sujeitos; pois quando me vejo entre Cloris e Nize, me parece que estou entre Cila e Caribdis .
DOM LANCEROTE.- Pois, sobrinho, resolver, resolver logo e já.
DOM TIBÚRCIO.- Pois, senhor, se a um enforcado se dão três dias, eu que no casar noto a mesma propriedade, pois bem se enforca, quem mal se casa, peço três dias também para me resolver.
DOM LANCEROTE.- Três dias peremptórios concedo; e para que não haja dúvidas no dote, assentai-vos e sabereis o que haveis de levar.
(Assentam-se.)
DOM TIBÚRCIO.- Isso é santo e bom, para que não seja a noiva de contado, e o dote de prometido.
DOM LANCEROTE.- Eu, meu sobrinho, suposto tenha corrido muito mundo, com tudo me acho alcançado.
DOM TIBÚRCIO.- Isso é bonito!
DOM LANCEROTE.- Primeiramente cada uma de minhas sobrinhas tem muito boa limpeza.
DOM TIBÚRCIO.- Sim, senhor, são muito asseadas, nisso não há dúvida.
DOM LANCEROTE.- Além disso: estai atento, meu sobrinho, não deis salabancos com a caixa, que isso é manha de bestas.
(Bole a caixa.)
DOM TIBÚRCIO.- Eu estou com os cinco sentidos bem quietos.
DOM LANCEROTE.- Como digo, sabereis que todo o meu cabedal anda sobre as ondas do mar. Não estareis quieto! (Bole a caixa)
DOM TIBÚRCIO.- Não sou eu por vida minha.
DOM LANCEROTE.- Não vês a caixa a saltar?
DOM TIBÚRCIO.- É verdade; será de contente.
(Cai a caixa com os dois.)
DOM LANCEROTE.- Isto agora é mais comprido.
DOM TIBÚRCIO.- E isto é mais estirado.
DOM LANCEROTE.- Ai,quem me acode com uma luz!
(Entram DONA CLARA , DONA NIZE , FAGUNDES e SEVADILHA com luz.)
TODOS.- Que sucedeu?
DOM TIBÚRCIO.- O maior caso que viram as idades.
DOM LANCEROTE.- Eu, que na maior idade vi o maior caso.
DONA NIZE.- Pois que foi?
DONA CLORIS.- Que sucedeu, senhores?
SEVADILHA.- Que é isto?
FAGUNDES.- Que foi? Que sucedeu! Que é isto?
DOM TIBÚRCIO.- Esta caixa.
DOM LANCEROTE.- Esta arca.
DOM TIBÚRCIO.- Que em torcicolos.
DOM LANCEROTE.- Que em bamboleios.
DOM TIBÚRCIO.- Com pulos.
DOM LANCEROTE.- Com saltos.
DOM TIBÚRCIO.- Deitou-me no chão.
DOM LANCEROTE.- No chão me estendeu.
DONA NIZE.- E raro caso!
DONA CLORIS.- E caso raro!
SEVADILHA.- E, não há dúvida: ai, que ela torna a bulir! Fujamos, senhores.
FAGUNDES.- (À parte.) Valha-te o diabo, dom Fuas, que tão inquieto és!
DOM LANCEROTE.- Esta caixa tem algum encanto, abramo-la.
DOM TIBÚRCIO.- Diz bem; abra-se a caixa.
DONA NIZE.- (À parte.) Ai de mim, que será de dom Fuas!
DONA CLORIS.- (À parte.) Que será de dom Gil!
DOM TIBÚRCIO.- Vá o tampo dentro.
SEVADILHA.- Tenham mão, que pode vir dentro algum diamante que nos mate aqui a todos.
FAGUNDES.- Ai santo breve da marca !
DONA NIZE.- Senhor, se se abre a caixa, desmaiamos todos aqui.
DOM LANCEROTE.- Vamo-nos, que a prudência é melhor que o valor. (Vai-se.)
DOM TIBÚRCIO.- Pois só não quero ser valente. (Vai-se e leva a luz.)
SEVADILHA.- Ai! Não sei que pés me hão de levar! Ande, senhora.
DONA CLORIS.- Fazes bem em disfarçar até ao depois. (Vai-se.)
FAGUNDES.- A caixa parece que tocou a recolher.
DONA NIZE.- E não foi o pior o ficarmos às escuras, que assim terão todos medo de vir aqui: ora abre a caixa e dize a dom Fuas que saia.
FAGUNDES.- Ai a caixa está aberta! Seria com os salabancos: saia, meu senhor, e perdoe o descômodo.
(Abre a caixa e sai DOM GILVAZ .)
DOM GILVAZ.- Ó tu noturna deidade , eu no caliginoso bosque destas sombras brilhas carbúnculo da formosura, aqui tens segunda vez no teatro de tua beleza representante a minha constância na tragicomédia de meu amor.
FAGUNDES.- Senhora, quem às escuras é tão discreto, que fará às claras?
DONA NIZE.- Já vou acreditando, meu bem, as tuas finezas, porém...
(Sai DOM FUAS da caixa.)
DOM FUAS.- Porém o teu engano, falsa, inimiga, segunda vez se repete pra meu desengano e tua afronta.
DONA NIZE.- Que é isto, Fagundes? Que tramóias são estas?
FAGUNDES.- Eu estou besta, pois só a dom Fuas meti na caixa!
DONA NIZE.- Pois como aqui há outro, fora dom Fuas?
FAGUNDES.- Eu não sei, em minha consciência, que não é má.
DOM FUAS.- Senhora dona Nize, para que são esses fingimentos? Peleje agora com Fagundes, para se mostrar inocente.
DOM GILVAZ.- Esta é dona Nize; eu me recolho ao vestuário, até que venha dona Cloris.
(Mete-se DOM GILVAZ na caixa.)
DONA NIZE.- Já disse, senhor dom Fuas, que a minha constância vive isenta dessas calúnias.
DOM FUAS.- A que d'el-rei, senhora, quereis que dê com a cabeça por essas paredes? É possível que ainda intentais negar o que tão repetidas vezes tenho experimentado?
DONA NIZE.- Senhor, é pouca fortuna de minha firmeza, encontrar sempre com acidentes de falsidade.
FAGUNDES.- Senhor dom Fuas, não cuide vossa mercê que somos cá nenhumas mulheres de cacaracá : mas ali vem gente.
DONA NIZE.- Recolha-se outra vez, que eu em tanto aqui me retiro. Anda, Fagundes. (Vai-se.)
FAGUNDES.- Senhor, nós já tornamos. (Vai-se.)
DOM FUAS.- Mais à minha conservação, que ao teu respeito, obedeço.
(Esconde-se DOM FUAS na caixa e entra DONA CLORIS .)
DONA CLORIS.- Que se expusesse dom Gil ao perigo de vir em uma caixa a meu respeito! Ora, o certo é que não há mais extremoso amante; porém os sumos de alecrim têm a mesma virtude que o incenso nos pombos, que os faz tornar ao pombal. Mas adonde estará aqui a caixa? Esta suponho que é. Já meu bem podes sair sem susto.
DOM FUAS.- Sim, tirana, pois já me não assustam as tuas falsidades.
DONA CLORIS.- Que falsidades? Que dizes? Enlouqueceste, ou ignoras com quem falas?
DOM FUAS.- Contigo falo, que com outro amante duas vezes infiel te encontrou a minha felicidade .
DONA CLORIS.- Cuido que não são tantos os encontros que temos tido.
DOM GILVAZ.- (À parte.) Aquela é a voz de dona Cloris: estou ardendo com zelos !
DOM FUAS.- Já estou desenganado da tua falsidade, já sei que estoutro amante, que vive encerrado nessa caixa, é o que só merece os teus agrados.
DOM GILVAZ.- E como que o merece; pois só ele é digno desse favor; e a quem o impedir, lhe meterei esta espada até as guarnições.
DOM FUAS.- Vês, ingrata, se é certa a minha suspeita?
DONA CLORIS.- Eu estou confusa e não sei a quem satisfaça.
DOM GILVAZ.- Ainda continua, insolente? Não sabe que esta dama á coisa minha?
DOM FUAS.- Já agora por capricho, apesar das suas aleivosias , hei de dar a vida por minha dama.
DONA CLORIS.- Senhores, que desgraça!
DOM GILVAZ.- Se não estivera às escuras, tu serias o alvo de minhas iras.
DOM FUAS.- Pois se não fora a escuridade, eu te fizera ver o meu brio; mas ainda assim, eu vou dando, dê donde der.
DONA CLORIS.- Senhores, dêem de manso, não os ouça meu tio.
(Cantam DOM FUAS , DOM GILVAZ e DONA CLORIS a seguinte ária a três:)
(Vão-se.)
(Entra SIMICÚPIO pela mão de SEVADILHA .)
SIMICÚPIO.- Donde me levas, Sevadilha?
SEVADILHA.- Ande, não me faça perguntas.
SIMICÚPIO.- Não há uma candeia nesta casa, que se me meta na mão, que estou morrendo por te ver?
SEVADILHA.- Melhor fineza é amar por fé.
SIMICÚPIO.- Como, se eu não dou fé de ti?
SEVADILHA.- Anda, que o amor se pinta cego.
SIMICÚPIO.- Muito vai do vivo ao pintado.
SEVADILHA.- Assim estamos mais à nossa vontade.
SIMICÚPIO.- Andar, suponho que tenho o meu amor na Noruega: mas ainda assim isto de estar às escuras, não é grande coisa para um homem dizer à sua dama quatro hipérboles , pois se não vejo, como poderei dizer-te que és estátua de alabastro sobre plintos de jaspe , neve vivente, e racional sorvete, mas só carapinhada, pois negra te considero nesta Etiópia: oh negregada ocasião, em que por falta de uma candeia não sai à luz a tua formosura!
SEVADILHA.- Pois o fogo de teu amor não basta para alumiar esta casa?
SIMICÚPIO.- Se a luz excessiva faz cegar, também a minha chama por excessiva não alumia; mas com tudo isto não nos metamos no escuro; falemos claro: como estamos nós daquilo que chamamos amor?
SEVADILHA.- E como estamos nós do malmequer, que esse é o ponto?
SIMICÚPIO.- Cada vez está mais viçoso com a copiosa inundação de meu pranto.
SEVADILHA.- E teu amo com o alecrim?
SIMICÚPIO.- Isso são contos largos, o homem anda doido; tudo quanto vê lhe parece que é Alecrim; estoutro dia estava teimoso, em que havia de cear salada de alecrim, mais que o levasse o diabo. Olha, para contar-te as loucuras que faz, assentemo-nos, que isto se não pode levar de pé.
(Assenta-se SIMICÚPIO na caixa, que estará com o tampo levantado e cai dentro da caixa, que se fechará com a dita queda.)
SIMICÚPIO.- Mas aí, Sevadilha, que caí num poço sem fundo!
SEVADILHA.- Aonde estás, Simicúpio?
SIMICÚPIO.- Não sei aonde estou; só sei que estou aqui.
SEVADILHA.- Aonde é aqui?
SIMICÚPIO.- É aqui.
SEVADILHA.- Aqui aonde?
SIMICÚPIO.- É boa pergunta! Eu sei cá donde são os aquís na casa alheia? Sei que estou aqui num fole como criança, que nasce impelicada, mas sem ventura .
SEVADILHA.- Pois sai daí e anda para aqui.
SIMICÚPIO.- Isso é, se eu soubera ir daqui para aí.
SEVADILHA.- Quem te impede?
SIMICÚPIO.- Estou entupido.
SEVADILHA.- Dá dois espirros.
SIMICÚPIO.- Falta-me a Sevadilha, que a não acho, por mais que ando ao cheiro dela. Ora, filha, tira-me daqui, tu não ouves?
SEVADILHA.- Eu bem ouço; porém não vejo aonde estás.
SIMICÚPIO.- Busca-me fora de mim, porque não estou dentro de mim, metido nesta sepultura, donde só campa por infeliz a minha desventura.
SEVADILHA.- Calte, Simicúpio, que aí vem gente com luzes; adeus até logo. (Vai-se.)
SIMICÚPIO.- Estou no mais apertado lance, que ninguém se viu!
(Entram DOM LANCEROTE com uma luz e DOM TIBÚRCIO .)
DOM LANCEROTE.- Apuremos este encanto. Sobrinho, nós havemos ver o que se encerra nesta caixa, ainda que o cabelo se arrepie.
DOM TIBÚRCIO.- Se for coisa desta vida, ficará sem ela e se for da outra, a mandarei para o outro mundo.
DOM LANCEROTE.- Pois sobrinho, abri esta caixa com intrépito valor.
DOM TIBÚRCIO.- Abra vossa mercê, que é mais velho e em tudo tem o primeiro lugar.
DOM LANCEROTE.- Deixai cumprimentos, que a ocasião não é para cerimônias.
DOM TIBÚRCIO.- Por nenhum modo: não tem que se cansar, que lhe não quero tirar a glória desta empresa.
DOM LANCEROTE.- (À parte.) O magano contralogrou-se ; pois eu confesso que estou tremendo de medo.
DOM TIBÚRCIO.- (À parte.) Queria arrumar-me o gigante? É bem esperto.
DOM LANCEROTE.- Ora pois, hei de ir eu, ou haveis de ir vós?
DOM TIBÚRCIO.- Vá, não haja cumprimentos, que eu sou de casa.
DOM LANCEROTE.- Não há mais remédio, que eu ir em corpo e alma, a ver esta alma sem corpo ou este corpo sem alma. Deus vá comigo, anjo da minha guarda, e todo o Flos Sanctorum me defenda.
DOM TIBÚRCIO.- Ande tio, não tenha medo, que eu estou aqui.
DOM LANCEROTE.- (À parte.) Pois se não fora isso, já eu deitava a correr.
SIMICÚPIO.- Ai! que sem dúvida estou na caixa, em que trouxe a dom Gil, e segundo o que aqui ouço dizer, me intentam reconhecer: eu lhes tocarei a caixa.
(Chega-se DOM LANCEROTE à caixa e tanto que a abre, deita SIMICÚPIO a cabeça de fora, e dá um assopro na vela.)
DOM LANCEROTE.- Ó tu quem quer que és, que estás nesta caixa... mas ai, que me apagaram a vela com um assopro!
DOM TIBÚRCIO.- Assopra!
SIMICÚPIO.- Mui fraca era aquela luz, pois de um assopro a derribei.
DOM LANCEROTE.- Sobrinho, vós estás aí?
DOM TIBÚRCIO.- Como se não estivera.
DOM LANCEROTE.- Quem seria o cruel que tão aleivosamente matou uma inocente luz a assopros frios!
SIMICÚPIO.- Deus lhe perdoe, que era uma luz a todas as luzes boa: mas eu quero safar-me daqui, e temo marrar de narizes com alguém; mas que remédio?
DOM LANCEROTE.- Agora vós chegais para mim, covarde sobrinho! Ide, que por vossa culpa não acabei de desencantar este encanto.
DOM TIBÚRCIO.- Veja vossa mercê como chama covarde?
DOM LANCEROTE.- Calai-vos, abóbora , que degenerais de quem sois.
DOM TIBÚRCIO.- A mim abóbora?
DOM LANCEROTE.- Ó mal ensinado, pondes mãos violentas em vosso tio?
SIMICÚPIO.- Eu abrirei caminho desta sorte, dando a trouxe mouxe .
(Dá.)
DOM TIBÚRCIO.- É boa essa, senhor tio, assim se dá num barbado?
DOM LANCEROTE.- Calai-vos, maganão, que não haveis de casar: mas ai, que me destes uma bofetada com a mão aberta? A que d'el-rei sobre este magano de meu sobrinho! (Vai-se.)
DOM TIBÚRCIO.- A que d'el-rei sobre este caduco de meu tio! (Vai-se.)
SIMICÚPIO.- A que d'el-rei que já me deixaram.