Segunda parte - Cena VII Guerras do Alecrim e da Manjerona · Capítulo 12 de 12
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Segunda parte - Cena VII

Sala em que haverá um bofete , tinteiro, papel, pena e cadeiras; e entram DOM GILVAZ e SIMICÚPIO vestido ainda de juiz.

DOM GILVAZ.- Não te perdôo o susto que me fizestes levar.

SIMICÚPIO.- Nem eu o chasco da capoeira que me fez sofrer.

DOM GILVAZ.- E agora que determinas com essa devassa, que queres tirar?

SIMICÚPIO.- Logo verá.

DOM GILVAZ.- E por que não soltas a dom Fuas e a dom Tibúrcio, que estão fechados naquele quarto escuro?

SIMICÚPIO.- Não poderei também ter meus segredos, sem que ninguém o saiba? O certo é que como os trouxemos às escuras, entendem fixamente que estão em rigorosa prisão. Mas aí vem gente e vossa mercê faça vezes de escrivão.

DOM GILVAZ.- Aí parou uma sege : se serão elas?

SIMICÚPIO.- Lá está quem as há de encaminhar; sedete , que aí vem subindo a primeira testemunha.

(Entra DOM LANCEROTE .)

DOM LANCEROTE.- Senhor, aqui estamos todos à ordem de vossa mercê.

SIMICÚPIO.- Venham entrando um a um.

DOM LANCEROTE.- Pois, senhor, lembre-se do meu capote.

SIMICÚPIO.- Eu já tenho tomado isso a mim; vá descansando, que eu puxarei bem pela justiça e farei quanto ela der de si.

DOM LANCEROTE.- Não tenho mais que dizer. (Vai-se.)

DOM GILVAZ.- Homem, tu me tens atônito com as tuas indústrias!

SIMICÚPIO.- Bem é que as reconheças: ah senhor, esteja de meio perfil, para que o não conheça dona Nize que lá vem.

(Entra DONA NIZE .)

DONA NIZE.- Venho morta: nunca em tal me vi!

SIMICÚPIO.- Uma vez é a primeira: sente-se, minha senhora, desabafe-se, suponha que está em sua casa.

DONA NIZE.- Ai senhor, não sei que respeito infunde a cara de um juiz, que faz titubear o mais valente coração!

SIMICÚPIO.- E mais eu, que pareço um papiniano assanhado! Diga o seu nome; vá lá escrevendo, senhor escrivão.

DONA NIZE.- Chamo-me dona Nize Sílvia Rufina Fábia Laura Anarda, e...

SIMICÚPIO.- Basta, senhora, e pode vossa mercê com todos esses nomes?

DONA NIZE.- Ainda faltam quatorze.

SIMICÚPIO.- Visto isso é vossa mercê a mulher mais nomeada que há no mundo. Que idade tem?

DONA NIZE.- Quinze anos escassos.

SIMICÚPIO.- Liberal andou a natureza; em tão poucos anos tanta perfeição! E do costume?

DONA NIZE.- Não entendo.

SIMICÚPIO.- Ponha lá, que do costume jejua. Sabe quem furtou aquele capote ao senhor seu tio?

DONA NIZE.- Presumo que foi um criado de dom Gil, que entrou disfarçado a vender alecrim.

SIMICÚPIO.- Tenho largas notícias desse criado e me dizem que é ardiloso quantum satis .

DONA NIZE.- Isso é pasmar!

SIMICÚPIO.- E sabe se aqueles homens da capoeira seriam ladrões?

DONA NIZE.- Não, senhor, porque um era dom Gil e outro dom Fuas, que ambos...

SIMICÚPIO.- Diga, não se faça rubincuda.

DONA NIZE.- Senhor, os ditos homens vieram por causa de amor; e como veio meu tio, se esconderam na capoeira.

SIMICÚPIO.- Rapaziadas. Ora ande, vá-se aí para dentro e não faça outra: seja sisuda e virtuosa, que assim manda o direito, honeste vivere .

DONA NIZE.- À obediência de vossa mercê. (Vai-se.)

DOM GILVAZ.- Homem, acabemos com isso, venha dona Cloris, por quem estou suspirando.

(Entra FAGUNDES .)

FAGUNDES.- Muito bons dias, meu senhor.

SIMICÚPIO.- Chegue-se para cá; olhe para mim, vossa mercê a meu ver tem cara de testemunha falsa ou eu me enganarei.

FAGUNDES.- Serei o que vossa mercê quiser.

SIMICÚPIO.- Como se chama?

FAGUNDES.- Ambrósia Fagundes Birimboa Franchopana e Gregotil.

SIMICÚPIO.- Isso são nomes ou alcunhas?

FAGUNDES.- Será o que vossa mercê for servido.

SIMICÚPIO.- Casada ou solteira?

FAGUNDES.- Nem casada, nem solteira, assim, assim.

SIMICÚPIO.- Assim como?

FAGUNDES.- É que tenho o marido no Brasil há quarenta e sete anos.

SIMICÚPIO.- De que anos casou?

FAGUNDES.- De quarenta justos, que os fui fazer à porta da igreja.

SIMICÚPIO.- Que anos tem.

FAGUNDES.- Vinte e cinco bem puxados.

SIMICÚPIO.- Não é nada, casou de quarenta, tem o marido no Brasil há quarenta e sete anos e diz que tem vinte e cinco de idade! Vá-se daí bêbada, falsária, que a hei de amarrar a uma escada e deita-la por essa janela fora.

FAGUNDES.- Eu não sei contar senão pelo dedos: ouça vossa mercê, que eu quero dar a minha quartada .

SIMICÚPIO.- A quartada dei eu; ande; ande; não cuide que se há de lavar com uma bochecha d'água ; vá-se para dentro.

FAGUNDES.- Eu vou rebolindo . (Vai-se.)

DOM GILVAZ.- Acaba já com isso.

(Entra SEVADILHA .)

SEVADILHA.- Sou criada de vossa mercê.

SIMICÚPIO.- Ai, que já a justiça começa a abrir os olhos para ver a Sevadilha! Eu encosto a vara, que estou varado. Menina, como é o seu nome?

SEVADILHA.- Sevadilha sem mais nada.

SIMICÚPIO.- Que anos tem?

SEVADILHA.- Sete mui fanados.

SIMICÚPIO.- Só sete? Não sois má cartinha para um sete levar. Casada ou solteira?

SEVADILHA.- Estou pra casar com um criado daqui do seu vizinho dom Gil, que ainda que feio é mui carinhoso.

SIMICÚPIO.- Esse foi o que furtou o capote a seu amo?

SEVADILHA.- Este mesmo.

SIMICÚPIO.- Logo é ladrão.

SEVADILHA.- É o vício que tem, que se não fora isso, era um moço perfeito.

SIMICÚPIO.- Ai Sevadilha, que esse ladrão...

SEVADILHA.- Que tem, meu senhor?

SIMICÚPIO.- Nada, nada: e por um triz, que não deponho judicatura e perco o juízo: assina-te aqui em branco, que eu estou pelo que disseres.

SEVADILHA.- Eu não sei escrever.

SIMICÚPIO.- Porém sabes muita letra: vai-te aí para dentro, a rapaziada me pôs a ver jurar testemunhas.

SEVADILHA.- Eu já vi uma cara que se parecia com a deste juiz. (Vai-se.)

SIMICÚPIO.- Entre quem falta.

DOM GILVAZ.- Resta dona Cloris; Simicúpio, perdoa que hei de falar-lhe.

SIMICÚPIO.- Faça o que lhe digo, e não tenha graças comigo.

DOM GILVAZ.- Como estás inchado!

SIMICÚPIO.- Se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão.

(Entra DONA CLORIS .)

DONA CLORIS.- Senhor juiz, logo declaro que eu de furtos não sei nada, e só que dom Gil foi um dos da capoeira e está inocente, porque...

DOM GILVAZ.- Porque foi preciso obedecer-te, querida Cloris.

DONA CLORIS.- Que vejo? Dom Gil? Cobre alentos o meu coração.

DOM GILVAZ.- Não te admires dos sucessos de meu amor, que os influxos do teu alecrim sabem triunfar dos maiores impossíveis.

SIMICÚPIO.- Aliás, que um Simicúpio sabe fazer possíveis as maiores dificuldades! Aí tem, senhor dom Gilvaz, o seu bem de portas a dentro: tenho cumprido a minha palavra e se não está bem servido, busque quem o faça melhor.

DONA CLORIS.- Uma vez que me vejo em tua casa, não porei mais em contingências a minha fortuna.

SIMICÚPIO.- Isso mesmo; quem disse casa, casa.

DOM LANCEROTE.- Que é isto, senhor doutor? As testemunhas vêm e não tornam?

SIMICÚPIO.- Já está concluída e sentenciada a devassa.

DOM LANCEROTE.- Quem são os culpados?

SIMICÚPIO.- As senhoras suas sobrinhas, eu são umas finas ladras.

DOM LANCEROTE.- Minhas sobrinhas ladras? De que sorte?

SIMICÚPIO.- Desta sorte; vamos saindo cá para fora. (Vai SIMICÚPIO trazendo a todos para fora e diz o seguinte.) Porque vistos estes sucessos, consta que a senhora dona Nize furtou o coração do senhor dom Fuas e a senhora dona Cloris o de dom Gil; e assim é de razão que lho restituam, casando com eles; porque no matrimônio se entregam os corações com as vontades.

DOM FUAS.- Em cumprimento da sentença eu a executo pela minha parte igualmente alegre e admirado desta rara inventiva de Simicúpio.

DONA NIZE.- É de justiça esta ação: que alegria!

DOM GILVAZ.- Dona Cloris, dá-me o coração, que me tens na mão que te peço.

SIMICÚPIO.- Isso é falar com o coração nas mãos, senhora dona Cloris, case-se, mas não se arrependa.

DONA CLORIS.- Senhor dom Gil, o meu coração lhe entrego, em recompensa do que lhe roubei, se acaso é furto o que se dá por vontade.

SIMICÚPIO.- Dom Tibúrcio tenha paciência e pague as custas de premeio com o senhor dom Lancerote, já que foram tão basbaques, que se deixaram enganar de mim. Simicúpio, tantos de tal mês, etc.

DOM TIBÚRCIO.- Senhor tio, seja-lhe para bem, que aqui já não há para onde apelar.

DOM LANCEROTE.- Nem eu me posso agravar, quando o matrimônio é o ditoso fim destes excessos.

SEVADILHA.- Quem casa a tantos, porque se não casa a si?

SIMICÚPIO.- Não me fales em remoques; já sei, Sevadilha, que queres casar comigo; e pois a sentença passou em coisa julgada, demos as mãos e a boa vontade.

SEVADILHA.- Oh discreta mão, que escreveu tal sentença!

FAGUNDES.- E que há de ser de mim, Simicúpio, que neste negócio também dei minha penada?

SEVADILHA.- Em vindo a frota, virá teu marido.

DOM GILVAZ.- E pois te consegui galharda Cloris, publique a fama os vivas do alecrim, que triunfou de tantos impossíveis.

DOM FUAS.- Tende mão, que não é justo que roubeis à manjerona a parte que lhe toca no aplauso que merece; pois à sombra de suas folhas conseguistes muita parte da dita, que possuís.

FAGUNDES.- Isso é verdade; senão diga-o a escada e a caixa.

DOM TIBÚRCIO.- Foi boa caixa.

DOM GILVAZ.- Que importa que a manjerona abrisse ao favores, se o alecrim serenava as tempestades na tormenta dos enleios?

SIMICÚPIO.- E senão diga-o também o fogo selvagem, a medicina, a ministrice e a mãe de duas filhas.

DOM TIBÚRCIO.- Pois que vai, senhor tio? É bico ou cabeça ?

DOM LANCEROTE.- Paciência por força.

DONA CLORIS.- Não se pode negar que venceu o meu alecrim, pois ele tocou a meta pondo fim a nossos desejos.

DONA NIZE.- A manjerona só merece aplausos, porque deu princípio a este fim.

SIMICÚPIO.- Então, visto isso venceu o malmequer, pois ele foi o meio entre o princípio da manjerona e o fim do alecrim.

SEVADILHA.- Pois viva o malmequer.

DOM GILVAZ.- Tenho dito, venceu o alecrim.

DOM TIBÚRCIO.- Se a eficácia das razões não basta a convencer-vos, esta espada fará confessar o triunfo da manjerona.

SIMICÚPIO.- Deixe estar a folha, que as da manjerona não são o Alcorão de Mafoma , para que se defendam à ponta da espada; e pois estou feito juiz, pela autoridade, que tenho, declaro, que ambas as plantas venceram o pleito, pois cada uma fez quanto pôde; e para que se acabem essas guerras do alecrim e manjerona, mando que os dois ranchos façam as pazes e se ponha perpétuo silêncio nesta matéria sob pena de serem assuntos de minuetos e andarem por boca de portas, que é pior que pelas bocas do mundo.

TODOS.- Pois viva o alecrim e viva a manjerona.

SIMICÚPIO.- E viva todo o bicho vivo.

DOM LANCEROTE.- Vivamos todos, meu sobrinho.

DOM TIBÚRCIO.- Essa é a verdade.

SIMICÚPIO.- E como não há triunfo sem aclamação, enquanto o coro não principia a festejar este aplauso, coroemos esta obra, com as ramas da manjerona e alecrim.

(Coro.)

FIM

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