Primeira parte - Cena III
Praça: no fim haverá uma janela. Entra DOM GILVAZ embuçado.
DOM GILVAZ.- Disse a Simicúpio que aqui o esperava; mas tarda tanto, que entendo o apanharam na empresa. Mas, se será aquele que aí vem? Não é Simicúpio, que ele não tem capote. Quem será?
(Entra SIMICÚPIO embuçado em um capote.)
SIMICÚPIO.- Lá está um vulto embuçado no meio do caminho; queira Deus não me cheguem ao vulto; não sei se torne para trás, mas pior é mostrar covardia; eu faço das tripas coração; vou chegando, mas sempre de longe.
DOM GILVAZ.- Ele se vem chegando e eu confesso que não estou todo trigo .
SIMICÚPIO.- Este homem não está aqui para bom fim; eu finjo-me valente: afaste-se lá, deixe-me passar, aliás o passarei.
DOM GILVAZ.- Vossa mercê pode passar.
SIMICÚPIO.- Ai, que é dom Gil! Pois agora farei com que me tenha por valeroso . Quem está aí? Fale, quando não despeça-se desta vida, que o mando para a outra.
DOM GILVAZ.- Primeiro perderás a sua, quem me intenta reconhecer.
SIMICÚPIO.- Tenha mão, senhor dom Gilvaz, que sou Simicúpio.
DOM GILVAZ.- Se não falas, talvez que a graça te saísse cara.
SIMICÚPIO.- Igual a vossa mercê, que se o não conheço pela voz, sem dúvida, senhor dom Gilvaz, lhe prego com o seu nome na cara .
DOM GILVAZ.- Deixemos isso, dá-me novas de dona Cloris; dize, pudeste dar-lhe o recado?
SIMICÚPIO.- Não sabe que sou o césar dos alcoviteiros? Fui, vi e venci.
DOM GILVAZ.- Dá-me um abraço, meu Simicúpio.
SIMICÚPIO.- Não quero abraços, venham as alvíssaras, senão emudeci como oráculo.
DOM GILVAZ.- Em casa tas darei: conta-me primeiro, que fazia dona Cloris?
SIMICÚPIO.- Isso são contos largos, estava toda rodeada de braseiros de alecrim, com um rande molho dele no peito, cheirando a rainha da Hungria, mascando alecrim, como quem masca tabaco de fumo; e como acabava de jantar, vinha palitando com um palito de alecrim e finalmente, senhor, com o alecrim anda toda tão verde, como se tivesse tirícia .
DOM GILVAZ.- E do mais que passaste?
SIMICÚPIO.- Isso é para mais devagar, basta que saiba por hora, que apenas lancei o anzol no mar da simplicidade de dona Cloris, picando logo na minhoca do engano, ficou engasgalhada com o engodo de mil patranhas que lhe encaixei à mão tente .
DOM GILVAZ.- Incríveis são as tuas habilidades: e que capote é esse?
SIMICÚPIO.- Este é o despojo do meu triunfo; joguei com o velho os centos e ganhei-lhe este capote; e se vossa mercê soubera a virtude que ele te, pasmaria.
DOM GILVAZ.- Que virtude tem?
SIMICÚPIO.- É um grande remédio para sarar acidentes de gota coral.
DOM GILVAZ.- Conta-me isso.
(Entra DOM FUAS embuçado.)
SIMICÚPIO.- Falemos de manso, que aí vem um homem.
DOM FUAS.- Esta é a janela da cozinha de dona Nize, que apesar da escuridade da noite, a conhece o meu instinto pelos eflúvios odoríferos que exala a pancava daquela fênix .
DOM GILVAZ.- Simicúpio, um homem ao pé da janela de dona Cloris? Isto não me cheira bem.
SIMICÚPIO.- Como lhe há de cheirar bem, se isto aqui é um monturo ?
(Aparece FAGUNDES à janela.)
FAGUNDES.- Cé, é vossa mercê mesmo?
DOM FUAS.- Sou eu mesmo e não outro, que impaciente espero novas de meu bem.
DOM GILVAZ.- Não ouviste aquilo, Simicúpio.
SIMICÚPIO.- Aquilo é que não cheira bem, senhor Dom Gilvaz.
FAGUNDES.- Não basta que vossa mercê diga que é mesmo, é necessário a senha e a contra-senha.
Pois atenda.
(Canta DOM FUAS o seguinte minuete :)
DOM GILVAZ.- Este é dom Fuas, pela senha da manjerona: que te parece, Simicúpio, o quanto tem adiantado o seu amor?
SIMICÚPIO.- Quidquid sit , o primeiro milho é dos pássaros, o segundo é cá para os melros.
FAGUNDES.- Suba por esta escada. (Lança a escada.)
DOM FUAS.- Segure bem. (Sobe.)
SIMICÚPIO.- Senhor dim Gil, agora é tempo de subir também, pois estamos em era de atrepar ; não perca a ocasião.
DOM GILVAZ.- Vem tu também. (Sobe.)
SIMICÚPIO.- Eu também vou a render à escala vista esse castelo de Cupido .
FAGUNDES.- Tenha mão, senhor, que é o que quer?
DOM GILVAZ.- Manjerona.
FAGUNDES.- Vossa mercê, meu fidalgo, quem procura?
SIMICÚPIO.- Também manjerona em lugar de Sevadilha, que tudo faz bom tabaco.
FAGUNDES.- Isto cá está por estanque, não entra quem quer.
SIMICÚPIO.- Se não entra quem quer, entrará quem não quer.
FAGUNDES.- Vá-se daí, que não conheço flamengos à meia noite.
SIMICÚPIO.- Tem mão, não me empurres.
FAGUNDES.- Não há de entrar.
SIMICÚPIO.- Ó mulher, não me precipites, que sou capaz de te escalar.
FAGUNDES.- Vá-se com os diabos, seja quem for.
(Empurra a escada e cai com SIMICÚPIO .)
SIMICÚPIO.- Ai, que me derreaste, bruxa infernal! Tu me pagarás o semicúpio , que me fizeste tomar. Estes são os ossos do ofício; mas para que tudo não sejam ossos, vamos levando esta escada, que sempre valerá alguma coisa: ao menos se não morri da queda vou para casa com uma escada.
(Vai-se SIMICÚPIO e leva a escada.)