Segunda parte - Cena V Guerras do Alecrim e da Manjerona · Capítulo 10 de 12
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Segunda parte - Cena V

Câmera. Haverá uma cama e nela estará DOM TIBÚRCIO deitado, assistido de DOM LANCEROTE , DONA CLORIS , DONA NIZE e SEVADILHA .

DOM LANCEROTE.- O que tarda este médico!

SEVADILHA.- Não pode tardar muito; pois me disse que já vinha.

DOM LANCEROTE.- Como estais agora, meu sobrinho?

DOM TIBÚRCIO.- Depois que arrotei, acho-me mais aliviado.

DONA NIZE.- (À parte.) Vaso mau não quebra.

DONA CLORIS.- (À parte.) Se fora coisa boa, não havia de escapar.

DOM LANCEROTE.- Não sabeis quanto folgo com a vossa melhora, pois me estava dando cuidado o enterro e me podeis agradecer a boa vontade, pois vos seguro que havia ser luzido ; vós o veríeis.

DOM TIBÚRCIO.- Outro tanto desejo eu fazer a vossa mercê.

(Entram DOM GILVAZ e SIMICÚPIO vestidos de médico.)

SIMICÚPIO.- Deo gratias .

DOM LANCEROTE.- Entrem, meus senhores doutores.

DOM GILVAZ.- (À parte.) Em boa me meteu Simicúpio! Eu não sei o que hei de dizer.

SIMICÚPIO.- Qual de vossas mercês é aqui o doente?

DOM LANCEROTE.- É este, que aqui está de cama.

SIMICÚPIO.- Logo me pereceu pelos sintomas.

SEVADILHA.- (Para DONA CLORIS .) Senhora, que são Simicúpio e dom Gil.

DONA CLORIS.- Bem os vejo: Nize que te parece?

DONA NIZE.- Que faz melhor efeito o teu alecrim, que a minha manjerona.

(Entram DOM FUAS e FAGUNDES .)

FAGUNDES.- Entre senhor doutor, aqui vem este senhor, que também se entende muito bem.

DOM FUAS.- Neste instante chego de fora da terra, quando logo me chamou esta mulher, que viesse a ver a um enfermo.

DOM LANCEROTE.- Já era escusado; porém entre e sente-se.

DONA CLORIS.- Nize, dom Fuas compete nas finezas com dom Gil.

DONA NIZE.- Não me pesa.

DOM FUAS.- (À parte.) Aqueles são dom Gil e Simicúpio; estou ardendo!

SIMICÚPIO.- Ah senhor, não vês a dom Fuas também como gente?

DOM GILVAZ.- Já sei.

DOM TIBÚRCIO.- Ai minha barriga, que morro! Acuda-me senhor doutor.

SIMICÚPIO.- Logo as engrossaremos: e tem o ventre túmido, inchado e pululante?

DOM TIBÚRCIO.- Alguma coisa.

SIMICÚPIO.- Vossa mercê é casada ou solteira?

DOM TIBÚRCIO.- Por que, senhor doutor?

SIMICÚPIO.- Porque os sinais são de prenhe.

DOM LANCEROTE.- Não senhor, que meu sobrinho é macho.

SIMICÚPIO.- Dianteiro ou traseiro?

DOM LANCEROTE.- Ui, senhor doutor! Digo que meu sobrinho é varão.

SIMICÚPIO.- De aço ou de ferro?

DOM LANCEROTE.- É homem, não me entende?

SIMICÚPIO.- Ora acabe com isso: eis aqui como por falta de informação morrem os doentes; pois se eu não especulara isso com miudeza, entendendo que era macho, lhe aplicava uns cravos, e se fosse varão, umas limas; e como já sei que é homem, logo veremos o que se há de fazer.

DOM LANCEROTE.- Eis aqui como gosto de ver os médicos assim especulativos.

SIMICÚPIO.- Pois o mais é asneira: diga-me mais, ceou demasiadamente a noite passada?

DOM TIBÚRCIO.- Tanto como a futura; porque desde que se me acabaram as chouriças, que trouxe no alforje, me tem meu tio posto a pão e laranja.

DOM LANCEROTE.- Aquilo são delírios, senhor doutor.

SIMICÚPIO.- Assim deve ser por força, ainda que não queira, pois conforme ao aforismo: Cum barriga dolet, coetera membra dolent .

DOM TIBÚRCIO.- Não são delírios, senhor doutor, que eu estou em meu juízo perfeito.

SIMICÚPIO.- Pior, pois quem diz que tem juízo não o tem.

DOM LANCEROTE.- Senhor doutor, o homem está alucinado, depois que uma fantasma, que saiu de uma caixa o desancou; e sobre isso a grande pena, que tem tomado de umas moças que aqui introduziu em casa, enganando-as, de cuja insolência se me veio aqui a mãe queixar, que era mulher de bem ao que parecia.

SIMICÚPIO.- Ela é muito criada de vossa mercê.

DOM TIBÚRCIO.- Deixemos isso; o caso é que a minha barriga não está boa.

SIMICÚPIO.- Cale-se, que ainda há de ter uma boa barrigada: deite a língua fora.

DOM TIBÚRCIO.- Ei-la aqui.

SIMICÚPIO.- Deite mais, mais.

DOM TIBÚRCIO.- Não há mais.

SIMICÚPIO.- Essa bastará: é forte linguado! Tem mui boa ponta de língua! Vejam vossas mercês, senhores doutores.

DOM GILVAZ.- A língua é de prata.

DOM FUAS.- Úmida está bastantemente.

SIMICÚPIO.- Venha o pulso: está intermitente, lânguido e convulsivo: ó menina tomou as águas?

SEVADILHA.- Ainda não veio o aguadeiro.

SIMICÚPIO.- Pergunto se o doente fez a mija?

DOM TIBÚRCIO.- Nesta casa não há urinol.

SIMICÚPIO.- Pois tome-as, ainda que seja numa frigideira em todo o caso, quia per orinis optime cognoscitur morbus .

DOM LANCEROTE.- Ah senhores, grande médico!

DONA NIZE.- (Para DONA CLORIS .) E dom Fuas como está melancólico!

DONA CLORIS.- Estará cuidando na receita.

SIMICÚPIO.- Ora senhores, capitulemos a queixa. Este fidalgo (se é que o é, que isto não pertence à medicina) teve uma colórica procedida de paixões internas; porque o espírito agitado da representação fantasmal e da investida feminil, retraindo-se o sangue aos vasos linfáticos, deixando exauridas as matrizes sanguinárias, fez uma revolução no intestino reto; e como a matéria crassa e viscosa, que havia nutrir o suco pancreático, pela sua turgência se achasse destituída do vigor, por falta do apetite famélico, degenerou em líquidos: estes pela sua virtude acre, e mordaz, vilicando e pungindo as túnicas e membranas do ventrículo, exaltaram-se os sais fixos e voláteis por virtude do ácido alcalino, de sorte que fez com que o senhor andasse com as calças na mão toda esta noite: in calsis andatur, qui ventre evacuator , disse Galeno.

DOM LANCEROTE.- Eu não lhe entendi uma palavra.

DOM TIBÚRCIO.- Eu morro, sem saber de que.

SIMICÚPIO.- Conhecida a queixa, votem o remédio, que eu, como mais antigo, votarei em último lugar.

DOM GILVAZ.- Eu sou de parecer que o sangrem.

DOM FUAS.- Eu, que o purguem.

SIMICÚPIO.- Senhores meus, à grande queixa, grande remédio; o mais eficaz é que tome umas bichas nas meninas dos olhos, para que o humor faça retrocesso de baixo para cima.

DOM TIBÚRCIO.- Como é isso, de bichas nas meninas dos olhos?

SIMICÚPIO.- É um remédio tópico; não se assuste, que não é nada.

DOM TIBÚRCIO.- Vossa mercê quer me cegar?

SIMICÚPIO.- Cale-se aí; quantas meninas tomam bichas, e mais não cegam.

DOM LANCEROTE.- Calai-vos, sobrinho, que ele médico é, e bem o entende.

DOM TIBÚRCIO.- Por vida de dom Tibúrcio, que primeiro há de levar o diabo ao médico e à receita que eu em tal consinta. (Ergue-se.)

SIMICÚPIO.- Deite-se, deite-se: o homem está maníaco e furioso.

DOM LANCEROTE.- Aquietai-vos, sois alguma criança?

DONA NIZE.- Ora, senhores doutores, já que vossas mercês aqui se acham, bem é que os informemos, eu, e minha irmã, de várias queixas que padecemos.

SIMICÚPIO.- Inda mais essa? Ora digam.

DONA CLORIS.- Senhor, o nosso achaque é tão semelhante, que com uma só receita se podem curar ambos os males.

DONA NIZE.- Não há dúvida que o meu achaque é o mesmo em carne que o de minha irmã.

SIMICÚPIO.- Achaque em carne pertence à cirurgia.

DONA CLORIS.- Que como dormimos ambas, se nos comunicou o mesmo achaque; e assim, senhor, padecemos umas ânsias no coração, uma melancolia n'alma, uma inquietação nos sentidos, uma travessura nas potências; e finalmente, senhor doutor, é tal este mal, que se sente sem sentir; que dói sem doer; que abrasa sem queimar; que alegra entristecendo e entristece alegrando.

SIMICÚPIO.- Basta já sei, isso é mal cupidista.

DOM LANCEROTE.- O que é mal cupidista, que nunca tal ouvi?

SIMICÚPIO.- É um mal da moda.

DONA NIZE.- Que remédio nos dão vossas mercês?

DOM FUAS.- Eu dissera que o óleo de manjerona era excelente remédio.

DOM GILVAZ.- O verdadeiro para essa queixa são as fumaças do alecrim.

DOM FUAS.- Ui senhor doutor, a manjerona é um excelente remédio.

DOM GILVAZ.- Nada chega ao alecrim, cujas excelentes virtudes são tantas, que para numerá-las não acha número o algarismo; e não falou quem discretamente lhe chamasse planta bendita.

DOM FUAS.- Se entrarmos a especular virtudes, as da manjerona são mais que as da erva santa .

SIMICÚPIO.- Daqui a pô-la no altar não vai nada.

DOM FUAS.- A manjerona é planta de Vênus, de cujos ramos se coroa Cupido, e para o mal cupidista não pode haver melhor remédio que uma planta de Vênus; pois se notarmos a perfeição, com que a natureza a revestiu daquelas mimosas folhinhas, para que todo o ano seja hieroglífico da imortalidade; aquele suavíssimo aroma, de cuja fragrância é hidrópico o olfato, ela é a delícia de Flora, o mimo de abril e a esmeralda no anel da primavera.

SIMICÚPIO.- É verdade; não há dúvida.

DONA NIZE.- (À parte.) Estou tão contente!

DOM GILVAZ.- O alecrim, senhor, pela sua excelência é titular na república das plantas, cujas flores, depois de serem bela imitação dos cerúleos globos, são a doçura do mundo nos melífluos ósculos das abelhas.

SIMICÚPIO.- Todavia a matéria é de apicibus .

Ele é a coroa dos jardins; o lenço vegetável das lágrimas da Aurora; nas chamas é Fênix ; nas águas rainha; e finalmente é o antídoto universal de todos os males e a mais segura tábua da vida, quando no mar das queixas sopram os ventos inficionados; e para prova deste sistema repetirei traduzido em português um epigrama do proto médico Avicena , poeta arábico.

(Soneto:)

DONA CLORIS.- Viva o senhor doutor, eu quero as fumaças do alecrim.

DOM TIBÚRCIO.- E morra o senhor doente: ai minha barriga!

Se versos podem servir de textos, escute uns de um antagonista desse autor a favor da manjerona pelos mesmos consoantes.

DONA NIZE.- Viva o senhor doutor, eu quero o remédio da manjerona.

DOM LANCEROTE.- Não cuidei que a manjerona e o alecrim tinham tais virtudes. Vejamos agora o que diz o senhor doutor.

DOM TIBÚRCIO.- Que tenho eu com isso? Senhores, vossas mercês me vieram curar a mim ou às raparigas? Ai minhas barrigas!

Calado estive ouvindo a estes senhores da escola moderna, encarecendo a manjerona e o alecrim. Não há dúvida que pro utraque parte há mui nervosos argumentos, em que os doutores alecrinistas e manjeronistas se fundam; e tratando Dioscorides do manjeronismo e do alecrinismo, assenta de pedra e cal, que para o mal cupidista são remédios inanes; porque tratando Ovídio do remédio amoris , não achou outro mais genuíno contra o mal cupidista, que o malmequer, por virtude simpática, magnética, diaforética e diurética, com a qual curatur amorem . Repetirei as palavras do mesmo Ovídio.

SEVADILHA.- Viva e reviva o senhor doutor e já que é tão bom médico, peço-lhe me cure de umas dores tão grandes, que parecem feitiços.

SIMICÚPIO.- Dá cá as pulseiras. Ah, perra , que agora te agarrei! Tu estás marasmódica e impiamática . Ah, senhor, logo, logo, antes que se perpetue uma febre podre, é necessário que esta rapariga tome uns semicúpios .

SEVADILHA.- Semicúpios eu? É coisa que abomino.

SIMICÚPIO.- Eu desencarrego a minha consciência e não sou a mais obrigado.

DOM LANCEROTE.- Ela não tem querer, há de fazer o que vossa mercê mandar.

FAGUNDES.- Eu também sou de carne, tenho anos e tenho achaques.

SIMICÚPIO.- Pois cure-se primeiro dos anos, logo se curará dos achaques.

FAGUNDES.- Não senhor, que este achaque não é anual, é diário.

SIMICÚPIO.- Se fora noturno, não era mal. Pois que achaque é o seu, senhora velha?

FAGUNDES.- Que há de ser! É esta madre que me persegue.

SIMICÚPIO.- Ui, você com esses anos ainda tem madre? E o que será de velha a senhora sua madre ? Filha, isso não é madre, é avó.

FAGUNDES.- Talvez que por isso tão rabugenta me persiga. E que lhe farei, senhor doutor?

SIMICÚPIO.- A uma madre velha, que se há de fazer? Andar, ponha-lhe óculos e muletas e deixe-a andar.

DOM LANCEROTE.- Isto aqui é um hospital, graças a Deus: só eu nesta casa sou são como um pero , apesar de duas fontes e uma funda .

SIMICÚPIO.- Ó ditoso homem, que vive sem males!

DOM TIBÚRCIO.- Senhores, o meu mal devia ser contagioso; porque depois da minha doença todos adoeceram. Ai minha barriga!

DOM LANCEROTE.- Pois em que ficamos?

SIMICÚPIO.- Senhor meu, falando em termos, o doente sangre-se no pé; vossa mercê na bolsa; às senhoras suas sobrinhas três banhos; à moça semicúpios; e a velha lancem-na às ondas, que está danada.

FAGUNDES.- Ai que galante coisa!

DONA CLORIS.- Eu não quero mais remédio, que os fumos do alecrim.

DONA NIZE.- E eu os da manjerona.

Não seja essa a duvida, ainda que não sou desse voto, contudo cada um é senhor da sua vida e se pode curara como quiser; lá vai a receita.

(Canta SIMICÚPIO a seguinte ária:)

DOM LANCEROTE.- Esperem, senhores, vossas mercês perdoem, lá repartam essa ninharia entre todos, que eu não estou aparelhado senão para um.

SIMICÚPIO.- Venha embora, que só este é o verdadeiro sintoma da medicina. (Vai-se.)

DOM GILVAZ.- Ai Cloris, que quando o mal é de amor só o morrer é remédio. (Vai-se.)

DOM FUAS.- Finjo que me vou, por ver se posso apurar a falsidade de dona Nize. (Vai-se.)

DOM TIBÚRCIO.- Mande-me cerrar este biombo, que vou entrando em um suor copioso, abafem-me bem.

DOM LANCEROTE.- Aqui servia o meu capote: paciência! Vamo-nos e deixemo-lo suar, ninguém lhe fale à mão. (Vai-se.)

DONA CLORIS.- Vamos, Nize, a moralizar os extremos destes amantes. (Vai-se.)

DONA NIZE.- Tanto me importa, vamos a regar os nossos craveiros. (Vai-se.)

FAGUNDES.- O diabo e Simicúpio temo que mo mete em um chichelo com seus ardis. (Vai-se.)

SEVADILHA.- E para ver se o meu malmequer também entra em réstia. (Vai-se.)

(Entra DOM FUAS .)

DOM FUAS.- Já todos se foram. Quem me dera encontrar a esta tirana, cruel, falsa, inimiga.

(Entra FAGUNDES .)

FAGUNDES.- Dom Tibúrcio fica a suar como um cavalo. Mas ai! Quem está aqui?

DOM FUAS.- Sou eu, senhora Fagundes, não se assuste.

FAGUNDES.- Senhor, que temeridade é esta? Vossa mercê não vê que ainda é lusquefusque ? Como sem deixar anoitecer penetra estas paredes, aonde até o Sol entra às furtadelas ?

DOM FUAS.- Não reparei que ainda era dia; pois no abismo de meu ciúme sempre estou às escuras. Aonde está esta cruel dona Nize?

FAGUNDES.- Estará no jardim.

DOM FUAS.- Pois vamos lá e de caminho quero me vá dizendo de meter-me na caixa a mim e a dom Gil.

FAGUNDES.- Vamos, que eu lhe contarei o que foi; ande por aqui com os pés de lâ. Ai senhor dom Fuas quanto me deve!

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