Segunda parte - Cena IV Guerras do Alecrim e da Manjerona · Capítulo 9 de 12
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Segunda parte - Cena IV

Praça. Entram DOM GILVAZ e SIMICÚPIO .

DOM GILVAZ.- Uma e muitas vezes te considero, Simicúpio, prodigioso artífice de meu amor, pois com as tuas máquinas vais erigindo o retorcido tálamo que há de ser trono do mais ditoso himeneu .

SIMICÚPIO.- Já disse a vossa mercê, que mais obras e menos palavras: Simicúpio, senhor, já se acha mui cansado, tomara que me aposentasse com meio soldo, que este oficio de alcofa é mui perigoso; que suposto tenha asas para fugir, também as asas tem penas para sentir.

DOM GILVAZ.- Simicúpio, já o pior é passado: acabemos de deitar esta nau ao mar, que então teremos enchentes.

SIMICÚPIO.- E no cabo de tantas enchentes tudo nada.

DOM GILVAZ.- Anda, não desmaies, que hoje havemos de mostrar ao mundo os triunfos de alecrim.

SIMICÚPIO.- E a manjerona todavia não menos viçosa com os borrifes de Fagundes.

DOM GILVAZ.- Mas a galantaria é que todas as suas idéias redundam em nosso proveito.

SIMICÚPIO.- Aí é que está a filigrana do jogo, Fagundes a semear e nós a colher.

(Entra SEVADILHA com a mantilha.)

DOM GILVAZ.- Aquela que lá vem, não é Sevadilha?

SIMICÚPIO.- Pelo cheiro assim me parece.

DOM GILVAZ.- Que novidade é essa, Sevadilha? Tu só por aqui?

SEVADILHA.- Que há de ser? A maior desgraça do mundo.

DOM GILVAZ.- Que? Morreu o velho!

SEVADILHA.- Isso então seria fortuna.

DOM GILVAZ.- Pois que foi?

SEVADILHA.- Foi que dom Tibúrcio com a pena de se ver acometido de três mulheres, como vossa mercê sabe, à vista das noivas e do sogro, tomou tal paixão, que lhe deu esta noite uma cólica, e está quase indo-se por um fio; e assim eu por uma parte, Fagundes, e o Galego por ambas, vamos a chamar o médico. Adeus, que não me poso deter.

DOM GILVAZ.- Espera.

SEVADILHA.- Não posso, que dom Tibúrcio está morrendo por instantes.

SIMICÚPIO.- Não te canses, que já o achas morto: ande cá, tenha feição, e faça palestra com os amigos.

DOM GILVAZ.- Que faz dona Cloris?

SEVADILHA.- Não me detenhas, adeus.

SIMICÚPIO.- Diz-me primeiro, que tal te pareci em trajes de mulher?

SEVADILHA.- Não estou para isso, deixe-me ir, que estou depressa.

SIMICÚPIO.- Há tal pressa! Como se estivera alguém para morrer!

SEVADILHA.- Não vê que vou acudir a esta grande necessidade.

SIMICÚPIO.- Vai-te, filha; vai-te, não te sofras.

SEVADILHA.- Bem puderas tu poupar-me dessas passadas e ir chamar um médico às carreiras.

SIMICÚPIO.- Vai descansada; que eu chamarei o médico.

DOM GILVAZ.- Sim com muito gosto.

SEVADILHA.- Ora faça-me esse favor, e adeus. (Vai-se.)

DOM GILVAZ.- Anda depressa, vai chamar o médico.

SIMICÚPIO.- Que médico? Cuide noutra coisa.

DOM GILVAZ.- Isso é zombaria? Não permita Deus que o homem morra por nossa omissão.

SIMICÚPIO.- Vamos, que eu e vossa mercê havemos de ser os médicos na enfermidade de dom Tibúrcio.

DOM GILVAZ.- Estás louco? Pois nós sabemos medicina?

SIMICÚPIO.- Assim como há filosofia natural, por que não haverá natural medicina?

DOM GILVAZ.- E se o doente morrer por falta de remédio?

SIMICÚPIO.- Mais depressa morrerá por muitos remédios.

DOM GILVAZ.- E que lhe havemos de aplicar?

SIMICÚPIO.- Tudo o que não for veneno; porque o que não mata, engorda.

DOM GILVAZ.- Isso é temeridade.

SIMICÚPIO.- Vamos, senhor, e Deus sobre tudo.

(Entra DOM FUAS .)

DOM FUAS.- Espera, traidor dom Gil.

SIMICÚPIO.- Ai, que isto é alguma espera!

DOM GILVAZ.- Que me quereis, dom Fuas?

DOM FUAS.- Que metais a mão a essa espada.

DOM GILVAZ.- Para que?

SIMICÚPIO.- É boa pergunta! Para que será? É para fazer alféloa magana .

DOM FUAS.- Vereis que sabe o meu valor castigar ofensas de um amigo desleal; pois sabendo vós, que dona Nize era o ídolo da minha veneração, chegastes a profanar o meu culto com os sacrílegos votos de vossos sacrifícios, a quem suavizaram os odoríferos hálitos da manjerona.

SIMICÚPIO.- Com os diabos!

DOM FUAS.- E assim metei a mão a essa espada, para que se conserve dona Nize, ou segura no templo de meu peito, ou no de vosso coração.

SIMICÚPIO.- Senhor, aqui não é lugar de desafios, vamos para val de cavalinhos a jogar os coices.

DOM GILVAZ.- Dom Fuas, estais louco? Vêde, que sem causa é a vossa queixa.

DOM FUAS.- Não quero satisfações, vamos puxando.

SIMICÚPIO.- Este homem vem puxando.

DOM GILVAZ.- Pois para que vejais que o satisfazer-vos não é temer-vos...

(Entra FAGUNDES com mantilha.)

FAGUNDES.- Cé, ah senhor, dom Fuas, uma palavrinha depressa, que importa.

DOM FUAS.- Aquela é Fagundes; que me quererá? Esperai, dom Gil, enquanto falo a esta mulher.

SIMICÚPIO.- Senhor, não consinto, ou falar, ou brigar.

DOM GILVAZ.- Deixai mulheres e brigai, que estou pronto a satisfazer-vos por este modo.

FAGUNDES.- Senhor, venha já depressa.

SIMICÚPIO.- Já vai, que quer aqui primeiro meter a espada pelo olho a um amigo.

FAGUNDES.- Ande senão vou-me.

DOM FUAS.- Espera, que eu vou.

DOM GILVAZ.- Briguemos, dom Fuas.

SIMICÚPIO.- Vamos a isso, antes que se acabe a cólera.

DOM FUAS.- Dom Gil, se tendes brio, esperai; que eu venho já.

(Vai para FAGUNDES .)

SIMICÚPIO.- Ora vá de seu vagar, que esta pendência não é de cerimônia. Senhor dom Gil, abalemos com os cachimbos que brigar com loucos é ser mais louco. (Vai-se.)

DOM GILVAZ.- Tomo o teu conselho. (Vai-se.)

FAGUNDES.- Sim, senhor, a casa está revolta; dom Tibúrcio nos artículos da morte, e quase moribundo; o velho banzando e tudo banzeiro ; e à vista isto pode vossa mercê introduzir-se em casa o mais depressa que puder, em alguma forma que inventar a sua indústria e adeus.

DOM FUAS.- Ouça cá.

FAGUNDES.- Não posso, que vou à botica .

DOM FUAS.- Pois essa ingrata de dona Nize ainda...

FAGUNDES.- Não estou para ouvir nada.

DOM FUAS.- Espere, tome lá esses vinténs pelo trabalho.

FAGUNDES.- Mostre cá depressa.

DOM FUAS.- Ora diga-me, pois dona Nize...

FAGUNDES.- Noutra ocasião falaremos, venha isso depressa.

DOM FUAS.- Tome lá: mas diga-me, enquanto tiro a bolsa, essa falsa, essa cruel...

FAGUNDES.- Ai, mostre cá, não me detenha.

DOM FUAS.- Espere, que tenho o boldrié por cima da algibeira.

FAGUNDES.- Pois senhor, se a sua bolsa está aferrolhada, a minha língua está ferrugenta . (Vai-se.)

Muito interesseira é esta velha! Mas onde está dom Gil? Dom Gil? Foi-se o covarde; mas à fé de quem sou, que as não há de perder comigo; e tu, ingrata Nize, hoje irei a ver-te disfarçado; que à vista das tuas falsidades é justo que me revista não só de outro hábito, mas também de outro afeto.

(Canta DOM FUAS a seguinte ária:)

(Vai-se.)

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