Segunda parte - Cena IV
Praça. Entram DOM GILVAZ e SIMICÚPIO .
DOM GILVAZ.- Uma e muitas vezes te considero, Simicúpio, prodigioso artífice de meu amor, pois com as tuas máquinas vais erigindo o retorcido tálamo que há de ser trono do mais ditoso himeneu .
SIMICÚPIO.- Já disse a vossa mercê, que mais obras e menos palavras: Simicúpio, senhor, já se acha mui cansado, tomara que me aposentasse com meio soldo, que este oficio de alcofa é mui perigoso; que suposto tenha asas para fugir, também as asas tem penas para sentir.
DOM GILVAZ.- Simicúpio, já o pior é passado: acabemos de deitar esta nau ao mar, que então teremos enchentes.
SIMICÚPIO.- E no cabo de tantas enchentes tudo nada.
DOM GILVAZ.- Anda, não desmaies, que hoje havemos de mostrar ao mundo os triunfos de alecrim.
SIMICÚPIO.- E a manjerona todavia não menos viçosa com os borrifes de Fagundes.
DOM GILVAZ.- Mas a galantaria é que todas as suas idéias redundam em nosso proveito.
SIMICÚPIO.- Aí é que está a filigrana do jogo, Fagundes a semear e nós a colher.
(Entra SEVADILHA com a mantilha.)
DOM GILVAZ.- Aquela que lá vem, não é Sevadilha?
SIMICÚPIO.- Pelo cheiro assim me parece.
DOM GILVAZ.- Que novidade é essa, Sevadilha? Tu só por aqui?
SEVADILHA.- Que há de ser? A maior desgraça do mundo.
DOM GILVAZ.- Que? Morreu o velho!
SEVADILHA.- Isso então seria fortuna.
DOM GILVAZ.- Pois que foi?
SEVADILHA.- Foi que dom Tibúrcio com a pena de se ver acometido de três mulheres, como vossa mercê sabe, à vista das noivas e do sogro, tomou tal paixão, que lhe deu esta noite uma cólica, e está quase indo-se por um fio; e assim eu por uma parte, Fagundes, e o Galego por ambas, vamos a chamar o médico. Adeus, que não me poso deter.
DOM GILVAZ.- Espera.
SEVADILHA.- Não posso, que dom Tibúrcio está morrendo por instantes.
SIMICÚPIO.- Não te canses, que já o achas morto: ande cá, tenha feição, e faça palestra com os amigos.
DOM GILVAZ.- Que faz dona Cloris?
SEVADILHA.- Não me detenhas, adeus.
SIMICÚPIO.- Diz-me primeiro, que tal te pareci em trajes de mulher?
SEVADILHA.- Não estou para isso, deixe-me ir, que estou depressa.
SIMICÚPIO.- Há tal pressa! Como se estivera alguém para morrer!
SEVADILHA.- Não vê que vou acudir a esta grande necessidade.
SIMICÚPIO.- Vai-te, filha; vai-te, não te sofras.
SEVADILHA.- Bem puderas tu poupar-me dessas passadas e ir chamar um médico às carreiras.
SIMICÚPIO.- Vai descansada; que eu chamarei o médico.
DOM GILVAZ.- Sim com muito gosto.
SEVADILHA.- Ora faça-me esse favor, e adeus. (Vai-se.)
DOM GILVAZ.- Anda depressa, vai chamar o médico.
SIMICÚPIO.- Que médico? Cuide noutra coisa.
DOM GILVAZ.- Isso é zombaria? Não permita Deus que o homem morra por nossa omissão.
SIMICÚPIO.- Vamos, que eu e vossa mercê havemos de ser os médicos na enfermidade de dom Tibúrcio.
DOM GILVAZ.- Estás louco? Pois nós sabemos medicina?
SIMICÚPIO.- Assim como há filosofia natural, por que não haverá natural medicina?
DOM GILVAZ.- E se o doente morrer por falta de remédio?
SIMICÚPIO.- Mais depressa morrerá por muitos remédios.
DOM GILVAZ.- E que lhe havemos de aplicar?
SIMICÚPIO.- Tudo o que não for veneno; porque o que não mata, engorda.
DOM GILVAZ.- Isso é temeridade.
SIMICÚPIO.- Vamos, senhor, e Deus sobre tudo.
(Entra DOM FUAS .)
DOM FUAS.- Espera, traidor dom Gil.
SIMICÚPIO.- Ai, que isto é alguma espera!
DOM GILVAZ.- Que me quereis, dom Fuas?
DOM FUAS.- Que metais a mão a essa espada.
DOM GILVAZ.- Para que?
SIMICÚPIO.- É boa pergunta! Para que será? É para fazer alféloa magana .
DOM FUAS.- Vereis que sabe o meu valor castigar ofensas de um amigo desleal; pois sabendo vós, que dona Nize era o ídolo da minha veneração, chegastes a profanar o meu culto com os sacrílegos votos de vossos sacrifícios, a quem suavizaram os odoríferos hálitos da manjerona.
SIMICÚPIO.- Com os diabos!
DOM FUAS.- E assim metei a mão a essa espada, para que se conserve dona Nize, ou segura no templo de meu peito, ou no de vosso coração.
SIMICÚPIO.- Senhor, aqui não é lugar de desafios, vamos para val de cavalinhos a jogar os coices.
DOM GILVAZ.- Dom Fuas, estais louco? Vêde, que sem causa é a vossa queixa.
DOM FUAS.- Não quero satisfações, vamos puxando.
SIMICÚPIO.- Este homem vem puxando.
DOM GILVAZ.- Pois para que vejais que o satisfazer-vos não é temer-vos...
(Entra FAGUNDES com mantilha.)
FAGUNDES.- Cé, ah senhor, dom Fuas, uma palavrinha depressa, que importa.
DOM FUAS.- Aquela é Fagundes; que me quererá? Esperai, dom Gil, enquanto falo a esta mulher.
SIMICÚPIO.- Senhor, não consinto, ou falar, ou brigar.
DOM GILVAZ.- Deixai mulheres e brigai, que estou pronto a satisfazer-vos por este modo.
FAGUNDES.- Senhor, venha já depressa.
SIMICÚPIO.- Já vai, que quer aqui primeiro meter a espada pelo olho a um amigo.
FAGUNDES.- Ande senão vou-me.
DOM FUAS.- Espera, que eu vou.
DOM GILVAZ.- Briguemos, dom Fuas.
SIMICÚPIO.- Vamos a isso, antes que se acabe a cólera.
DOM FUAS.- Dom Gil, se tendes brio, esperai; que eu venho já.
(Vai para FAGUNDES .)
SIMICÚPIO.- Ora vá de seu vagar, que esta pendência não é de cerimônia. Senhor dom Gil, abalemos com os cachimbos que brigar com loucos é ser mais louco. (Vai-se.)
DOM GILVAZ.- Tomo o teu conselho. (Vai-se.)
FAGUNDES.- Sim, senhor, a casa está revolta; dom Tibúrcio nos artículos da morte, e quase moribundo; o velho banzando e tudo banzeiro ; e à vista isto pode vossa mercê introduzir-se em casa o mais depressa que puder, em alguma forma que inventar a sua indústria e adeus.
DOM FUAS.- Ouça cá.
FAGUNDES.- Não posso, que vou à botica .
DOM FUAS.- Pois essa ingrata de dona Nize ainda...
FAGUNDES.- Não estou para ouvir nada.
DOM FUAS.- Espere, tome lá esses vinténs pelo trabalho.
FAGUNDES.- Mostre cá depressa.
DOM FUAS.- Ora diga-me, pois dona Nize...
FAGUNDES.- Noutra ocasião falaremos, venha isso depressa.
DOM FUAS.- Tome lá: mas diga-me, enquanto tiro a bolsa, essa falsa, essa cruel...
FAGUNDES.- Ai, mostre cá, não me detenha.
DOM FUAS.- Espere, que tenho o boldrié por cima da algibeira.
FAGUNDES.- Pois senhor, se a sua bolsa está aferrolhada, a minha língua está ferrugenta . (Vai-se.)
Muito interesseira é esta velha! Mas onde está dom Gil? Dom Gil? Foi-se o covarde; mas à fé de quem sou, que as não há de perder comigo; e tu, ingrata Nize, hoje irei a ver-te disfarçado; que à vista das tuas falsidades é justo que me revista não só de outro hábito, mas também de outro afeto.
(Canta DOM FUAS a seguinte ária:)
(Vai-se.)