LIVRO NONO — II. CORCUNDA, CAOLHO, COXO
LIVRO NONO
II. CORCUNDA, CAOLHO, COXO
Toda cidade da Idade Média e, até certo ponto, toda cidade da França tinha seus lugares de asilo. Esses lugares de asilo, em meio ao dilúvio de leis penais e jurisdições bárbaras que inundavam a cidade, eram espécies de ilhas que se erguiam acima do nível da justiça humana. Todo criminoso que ali aportasse estava salvo. Havia num subúrbio quase tantos lugares de asilo quanto lugares de suplício. Era o abuso da impunidade ao lado do abuso dos castigos, duas coisas más que tentavam corrigir uma à outra. Os palácios do rei, os palacetes dos príncipes e, sobretudo, as igrejas tinham direito de asilo. Às vezes fazia-se temporariamente de uma cidade inteira, que era preciso repovoar, um lugar de refúgio.
Uma vez posto o pé no asilo, o criminoso era sagrado; mas precisava guardar-se de sair. Um passo fora do santuário, e recaía no turbilhão. A roda, a forca, a estrapada montavam boa guarda ao redor do refúgio e espreitavam sem cessar a presa, como tubarões em torno de um navio. Viram-se condenados embranquecer assim num claustro, na escadaria de um palácio, no terreno cultivado de uma abadia, sob o pórtico de uma igreja; desse modo, o asilo era uma prisão como qualquer outra. Acontecia às vezes que uma sentença solene do parlamento violasse o refúgio e restituísse o condenado ao carrasco; mas isso era raro. Os parlamentos temiam os bispos e, quando aquelas duas vestes se roçavam, a toga não se saía bem diante da batina. Às vezes, porém, como no caso dos assassinos de Petit-Jean, carrasco de Paris, e no de Émery Rousseau, assassino de Jean Valleret, a justiça saltava por cima da igreja e passava à execução de suas sentenças; mas, sem uma decisão do parlamento, ai de quem violasse à mão armada um lugar de asilo! Sabe-se qual foi a morte de Robert de Clermont, marechal da França, e de Jean de Châlons, marechal de Champagne; e, no entanto, tratava-se apenas de certo Perrin Marc, criado de um cambista, miserável assassino; mas os dois marechais haviam arrombado as portas de Saint-Méry. Aí estava a enormidade.
Havia tamanho respeito em torno dos refúgios que, segundo a tradição, ele às vezes alcançava até os animais. Aymoin conta que um cervo, perseguido por Dagobert, refugiando-se junto ao túmulo de saint Denys, fez a matilha deter-se de súbito, latindo.
As igrejas tinham em geral uma pequena cela preparada para receber os suplicantes. Em 1407, Nicolas Flamel mandou construir para eles, sobre as abóbadas de Saint-Jacques-de-la-Boucherie, um quarto que lhe custou quatro livres, seis sols e dezesseis deniers parisis.
Em Notre-Dame, era uma cela estabelecida sobre o telhado das naves laterais, sob os arcobotantes, voltada para o claustro, precisamente no lugar onde a mulher do atual porteiro das torres fez um jardim, que está para os jardins suspensos da Babilônia como uma alface está para uma palmeira, como uma porteira está para Semíramis.
Foi ali que, depois de sua corrida desenfreada e triunfal pelas torres e galerias, Quasimodo depositou a Esmeralda. Enquanto durara aquela corrida, a moça não pudera recobrar os sentidos, meio adormecida, meio desperta, não sentindo mais nada senão que subia no ar, que nele flutuava, que voava, que alguma coisa a erguia acima da terra. De vez em quando, ouvia junto ao ouvido a gargalhada sonora, a voz ruidosa de Quasimodo; entreabria os olhos; então, abaixo dela, via confusamente Paris marchetada por seus mil telhados de ardósia e telha como um mosaico vermelho e azul; acima da cabeça, o rosto assustador e alegre de Quasimodo. Então a pálpebra tornava a cair; acreditava que tudo terminara, que a haviam executado durante o desmaio e que o espírito disforme que presidira ao seu destino a retomara e a levava consigo. Não ousava olhá-lo e abandonava-se.
Mas, quando o sineiro despenteado e ofegante a depositou na cela do refúgio, quando sentiu suas mãos enormes desatarem suavemente a corda que lhe machucava os braços, experimentou aquele tipo de sobressalto que desperta os passageiros de um navio que toca em terra no meio de uma noite escura. Seus pensamentos também despertaram e lhe voltaram um a um. Viu que estava em Notre-Dame, lembrou-se de ter sido arrancada das mãos do carrasco, de que Phoebus estava vivo, de que Phoebus já não a amava; e, como essas duas ideias, uma derramando tanta amargura sobre a outra, se apresentassem juntas à pobre condenada, voltou-se para Quasimodo, que estava de pé diante dela e lhe causava medo. Disse-lhe:
— Por que me salvou?
Ele a olhou com ansiedade, como se procurasse adivinhar o que ela dizia. Ela repetiu a pergunta. Então ele lhe lançou um olhar profundamente triste e fugiu.
Ela ficou espantada.