LIVRO NONO — V. A CHAVE DA PORTE-ROUGE O Corcunda de Notre Dame · Capítulo 47 de 59
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LIVRO NONO — V. A CHAVE DA PORTE-ROUGE

LIVRO NONO

V. A CHAVE DA PORTE-ROUGE

Entretanto, a voz pública fizera saber ao arquidiácono de que maneira milagrosa a egípcia fora salva. Quando soube, não compreendeu o que sentia. Conformara-se com a morte da Esmeralda. Desse modo, estava tranquilo; tocara o fundo da dor possível. O coração humano, dom Claude meditara sobre essas matérias, só pode conter certa quantidade de desespero. Quando a esponja está embebida, o mar pode passar por cima dela sem fazer entrar uma lágrima a mais.

Ora, morta a Esmeralda, a esponja estava embebida, tudo estava dito para dom Claude nesta terra. Mas senti-la viva, e Phoebus também, era recomeçarem as torturas, os abalos, as alternativas, a vida. E Claude estava cansado de tudo aquilo.

Ao saber da notícia, encerrou-se em sua cela do claustro. Não apareceu nas conferências capitulares nem nos ofícios. Fechou a porta a todos, até ao bispo. Permaneceu assim emparedado durante várias semanas. Julgaram-no doente. E estava, de fato.

Que fazia assim encerrado? Contra que pensamentos se debatia o infeliz? Travava uma última luta contra sua temível paixão? Combinava um último plano de morte para ela e de perdição para si?

Seu Jehan, seu irmão querido, seu filho mimado, veio certa vez à porta, bateu, praguejou, suplicou, disse o próprio nome dez vezes. Claude não abriu.

Passava dias inteiros com o rosto colado aos vidros da janela. Daquela janela, situada no claustro, via a pequena cela da Esmeralda; via-a muitas vezes, com sua cabra, às vezes com Quasimodo. Observava os pequenos cuidados do feio surdo, suas obediências, suas maneiras delicadas e submissas com a egípcia. Lembrava-se, pois tinha boa memória, e a memória é a carrasca dos ciumentos, lembrava-se do olhar singular do sineiro para a dançarina certa noite. Perguntava a si mesmo que motivo pudera levar Quasimodo a salvá-la. Foi testemunha de mil pequenas cenas entre a boêmia e o surdo cuja pantomima, vista de longe e comentada por sua paixão, lhe pareceu muito terna. Desconfiava da singularidade das mulheres. Então sentiu despertar confusamente dentro de si um ciúme que jamais teria esperado, um ciúme que o fazia corar de vergonha e indignação.

— Ainda se toleraria o capitão, mas este!

Esse pensamento o transtornava.

Suas noites eram terríveis. Desde que sabia a egípcia viva, as frias ideias de espectro e túmulo que o haviam perseguido durante um dia inteiro tinham desaparecido, e a carne voltava a esporeá-lo. Torcia-se no leito ao sentir a jovem morena tão perto dele.

Todas as noites, sua imaginação delirante lhe representava a Esmeralda em todas as atitudes que mais haviam feito ferver-lhe as veias. Via-a estendida sobre o capitão apunhalado, os olhos fechados, o belo colo nu coberto pelo sangue de Phoebus, naquele momento de delícia em que o arquidiácono imprimira sobre seus lábios pálidos aquele beijo cuja queimadura a infeliz, embora meio morta, sentira. Tornava a vê-la despida pelas mãos selvagens dos torturadores, deixando que lhe desnudassem e introduzissem no borzeguim de parafusos de ferro o pequeno pé, a perna fina e redonda, o joelho flexível e branco. Via novamente aquele joelho de marfim, único a permanecer fora do horrível aparelho de Torterue. Imaginava, enfim, a jovem de camisa, corda ao pescoço, ombros nus, pés nus, quase nua, como a vira no último dia. Essas imagens de volúpia faziam seus punhos crispados e um calafrio correr-lhe pelas vértebras.

Uma noite, entre outras, elas aqueceram tão cruelmente em suas artérias o sangue de virgem e padre que mordeu o travesseiro, saltou do leito, lançou uma sobrepeliz por cima da camisa e saiu da cela, lâmpada na mão, meio nu, aterrorizado, o olhar em fogo.

Sabia onde encontrar a chave da Porte-Rouge, que comunicava do claustro à igreja, e, como se sabe, trazia sempre consigo uma chave da escada das torres.

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