LIVRO II Folhas de Relva · Capítulo 2 de 35
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LIVRO II

Partindo de Paumanok

1

Partindo da Paumanok em forma de peixe, onde nasci,

Bem-gerado e criado por uma mãe perfeita,

Depois de vagar por muitas terras, amante das calçadas populosas,

Habitante de Mannahatta, minha cidade, ou das savanas do Sul,

Ou soldado acampado, ou levando mochila e fuzil, ou mineiro

na Califórnia,

Ou rústico em meu lar nos bosques de Dakota, tendo carne por alimento, bebendo

da nascente,

Ou retirado para cismar e meditar em algum recanto profundo,

Longe do retinir das multidões, passando intervalos arrebatados e felizes,

Ciente do fresco e livre doador, o Missouri corrente, ciente

do poderoso Niágara,

Ciente das manadas de búfalos pastando nas planícies, do touro hirsuto

e de peito vigoroso,

Experiente da terra, das rochas, das flores do Quinto Mês, das estrelas, da chuva, da neve,

meu assombro,

Tendo estudado os tons do sabiá-mímico e o voo do

falcão-das-montanhas,

E ouvido ao amanhecer o incomparável, o tordo-eremita entre os

cedros do pântano,

Solitário, cantando no Oeste, começo a cantar para um Novo Mundo.

2

Vitória, união, fé, identidade, tempo,

Os pactos indissolúveis, as riquezas, o mistério,

O progresso eterno, o cosmo e os relatos modernos.

Isto, então, é a vida,

Eis o que veio à superfície depois de tantos transes e convulsões.

Que curioso! que real!

Sob os pés o solo divino, sobre a cabeça o sol.

Vede o globo girando,

Os continentes ancestrais agrupados ao longe,

Os continentes presentes e futuros, ao norte e ao sul, com o istmo

entre eles.

Vede, vastos espaços sem trilhas,

Como num sonho eles mudam, depressa se enchem,

Massas incontáveis desembocam neles,

Agora estão cobertos pelos povos, artes e instituições mais avançados que se conhecem.

Vede, projetado através do tempo,

Para mim, um público interminável.

Com passo firme e regular seguem adiante, nunca param,

Sucessões de homens, Americanos, cem milhões,

Uma geração desempenhando seu papel e seguindo adiante,

Outra geração desempenhando seu papel e, por sua vez, seguindo adiante,

Com os rostos voltados de lado ou para trás, em minha direção, para escutar,

Com os olhos retrospectivos voltados para mim.

3

Americanos! conquistadores! marchas humanitárias!

Na dianteira! marchas do século! Liberdade! massas!

Para vós, um programa de cantos.

Cantos das pradarias,

Cantos do Mississippi de longo curso, descendo até o mar mexicano,

Cantos de Ohio, Indiana, Illinois, Iowa, Wisconsin e Minnesota,

Cantos partindo do centro, de Kansas, e daí equidistantes,

Lançando sem cessar pulsações de fogo para vivificar tudo.

4

Recebe minhas folhas, América, recebe-as no Sul e recebe-as no Norte,

Acolhe-as por toda parte, pois são tua própria descendência,

Cerca-as a Leste e a Oeste, pois elas desejam cercar-te,

E vós, precedentes, ligai-vos amorosamente a elas, pois elas se ligam

amorosamente a vós.

Estudei os tempos antigos,

Sentei-me a aprender aos pés dos grandes mestres,

Agora, caso eu seja digno, ah, que os grandes mestres retornem e me estudem.

Em nome destes Estados, desprezarei a antiguidade?

Ora, estes são os filhos da antiguidade, destinados a justificá-la.

5

Poetas mortos, filósofos, sacerdotes,

Mártires, artistas, inventores, governos de muito tempo atrás,

Modeladores da linguagem em outras praias,

Nações outrora poderosas, agora reduzidas, retiradas ou desoladas,

Não ouso prosseguir antes de reconhecer respeitosamente o que deixastes

chegar até aqui, trazido pelo vento,

Eu o li, reconheço que é admirável, (movendo-me algum tempo em meio a ele,)

Penso que nada poderá jamais ser maior, que nada poderá jamais merecer mais

do que ele merece,

Contemplando tudo atentamente por longo tempo, depois dispensando-o,

Permaneço em meu lugar, aqui, com meu próprio dia.

Aqui chegam terras femininas e masculinas,

Aqui a herança dos filhos e das filhas do mundo, aqui a chama dos

materiais,

Aqui a espiritualidade, a tradutora, a que se declara abertamente,

A que sempre tende, o desfecho das formas visíveis,

A que satisfaz, depois da devida e longa espera, avançando agora,

Sim, aqui vem minha senhora, a alma.

6

A alma,

Para sempre e para sempre, por mais tempo que o solo seja castanho e sólido, por mais tempo

que a água recue e avance.

Farei os poemas dos materiais, pois penso que serão os poemas

mais espirituais,

E farei os poemas de meu corpo e da mortalidade,

Pois penso que então me proverei dos poemas de minha alma e

da imortalidade.

Farei uma canção para estes Estados, para que nenhum Estado, sob

circunstância alguma, seja submetido a outro Estado,

E farei uma canção para que haja concórdia, de dia e de

noite, entre todos os Estados e entre quaisquer dois deles,

E farei uma canção para os ouvidos do Presidente, cheia de

armas de pontas ameaçadoras,

E atrás das armas, incontáveis rostos insatisfeitos;

E faço uma canção do Uno formado por todos,

O Uno de presas e resplendente, cuja cabeça está acima de tudo,

O Uno resoluto e guerreiro, que abrange tudo e está acima de tudo,

(Por mais alta que seja a cabeça de qualquer outro, essa cabeça está acima de tudo.)

Reconhecerei as terras contemporâneas,

Percorrerei toda a geografia do globo e saudarei cortesmente

cada cidade, grande ou pequena,

E ocupações! porei em meus poemas que convosco há heroísmo

em terra e no mar,

E relatarei todo heroísmo de um ponto de vista americano.

Cantarei a canção do companheirismo,

Mostrarei o que, por si só, deve enfim unir estes Estados,

Creio que eles hão de fundar seu próprio ideal de amor viril,

indicando-o em mim,

Por isso deixarei flamejar de mim os fogos ardentes que

ameaçavam consumir-me,

Retirarei o que por tanto tempo manteve abafados esses fogos fumegantes,

Darei a eles abandono completo,

Escreverei o poema-evangelho dos camaradas e do amor,

Pois quem, senão eu, compreenderia o amor com toda a sua tristeza e alegria?

E quem, senão eu, seria o poeta dos camaradas?

7

Sou o homem crédulo das qualidades, eras, raças,

Avanço do povo em seu próprio espírito,

Eis o que canta a fé sem restrições.

Omnes! omnes! que os outros ignorem o que quiserem,

Faço também o poema do mal, celebro também essa parte,

Eu mesmo sou tanto mal quanto bem, e minha nação também é, e digo

que de fato não há mal algum,

(Ou, caso haja, digo que é tão importante para vós, para a terra ou

para mim quanto qualquer outra coisa.)

Eu também, seguindo muitos e seguido por muitos, inauguro uma religião, eu

desço à arena,

(Talvez eu esteja destinado a soltar ali os gritos mais altos, os

clamores retumbantes do vencedor,

Quem sabe? talvez ainda se ergam de mim e pairem acima de tudo.)

Nada existe por si mesmo,

Digo que toda a terra e todas as estrelas do céu existem pela religião.

Digo que nenhum homem jamais foi devoto o bastante, nem pela metade,

Ninguém jamais adorou ou venerou o bastante, nem pela metade,

Ninguém começou a pensar quão divino ele próprio é e quão certo

é o futuro.

Digo que a grandeza real e permanente destes Estados deve ser

sua religião,

Do contrário, simplesmente não existe grandeza real e permanente;

(Nem caráter nem vida dignos desse nome sem religião,

Nem terra, nem homem, nem mulher sem religião.)

8

Que estás fazendo, jovem?

És tão dedicado, tão entregue à literatura, à ciência, à arte, aos amores?

A essas realidades aparentes, à política, a questões particulares?

À tua ambição ou ao teu negócio, seja qual for?

Está bem, contra isso não digo palavra, também sou o poeta dessas coisas,

Mas vê! elas rapidamente cedem, consumidas pela religião,

Pois nem toda matéria serve de combustível ao calor, à chama impalpável, à vida

essencial da terra,

Assim como essas coisas não servem à religião.

9

Que procuras, tão pensativo e silencioso?

De que precisas, camarada?

Querido filho, pensas que é amor?

Escuta, querido filho, escuta, América, filha ou filho,

É doloroso amar em excesso um homem ou uma mulher, e ainda assim

isso satisfaz, isso é grandioso,

Mas há outra coisa muito grandiosa, ela faz com que tudo coincida,

Ela, magnífica, além dos materiais, com mãos incessantes varre

e provê tudo.

10

Sabei que, somente para lançar na terra os germes de uma religião maior,

Canto os cantos seguintes, cada qual segundo sua espécie.

Meu camarada!

Para partilhares comigo duas grandezas, e uma terceira que se ergue,

abrangente e mais resplandecente,

A grandeza do Amor e da Democracia, e a grandeza da Religião.

Mistura que me pertence, o invisível e o visível,

Oceano misterioso onde os rios deságuam,

Espírito profético dos materiais que mudam e tremeluzem ao meu redor,

Seres vivos, identidades sem dúvida agora perto de nós, no ar, das quais

nada sabemos,

Contato diário e a cada hora que não me libertará,

Selecionando estes, estes que me são exigidos por indícios.

Nem mesmo aquele que, desde a infância, segue adiante beijando-me com um beijo diário,

Enlaçou e torceu ao meu redor aquilo que me prende a ele,

Mais do que estou preso aos céus e a todo o mundo espiritual,

Depois do que fizeram comigo, sugerindo temas.

Ah, tais temas, igualdades! Ah, média divina!

Gorjeios sob o sol, anunciados como agora, ou ao meio-dia, ou ao poente,

Melodias musicais fluindo através das eras, chegando agora até aqui,

Tomo vossos acordes temerários e compostos, acrescento-lhes algo e

alegremente os transmito.

11

Enquanto fazia minha caminhada matinal no Alabama,

Vi onde a fêmea do sabiá-mímico pousava no ninho entre

as sarças, chocando sua ninhada.

Vi também o macho,

Parei para ouvi-lo ali perto, inflando a garganta e

cantando alegremente.

E enquanto eu parava, ocorreu-me que aquilo para que ele realmente cantava

não estava somente ali,

Nem era apenas para a companheira ou para si mesmo, nem tudo voltava pelos ecos,

Mas, sutil, clandestino, muito além,

Uma missão transmitida e um dom oculto para os que estão nascendo.

12

Democracia! perto de ti uma garganta agora se infla e

canta alegremente.

Ma femme! pela ninhada além de nós e nascida de nós,

Pelos que pertencem a este lugar e pelos que virão,

Eu, exultante por estar pronto para eles, soltarei agora cânticos mais fortes

e altivos do que quaisquer outros já ouvidos sobre a terra.

Farei as canções da paixão para lhes abrir caminho,

E vossas canções, infratores proscritos, pois vos observo com olhos de semelhante

e vos levo comigo como a quaisquer outros.

Farei o verdadeiro poema das riquezas,

Para conquistar ao corpo e à mente tudo o que adere, segue adiante

e não é abandonado pela morte;

Derramarei o egoísmo e mostrarei que ele está sob tudo, e serei

o bardo da personalidade,

E mostrarei, a respeito do homem e da mulher, que cada qual é apenas igual

ao outro,

E órgãos e atos sexuais! concentrai-vos em mim, pois estou decidido

a falar de vós com voz clara e corajosa, para provar-vos ilustres,

E mostrarei que não há imperfeição no presente e

não pode haver nenhuma no futuro,

E mostrarei que tudo quanto acontece a alguém pode transformar-se em

belos resultados,

E mostrarei que nada pode acontecer mais belo do que a morte,

E passarei através de meus poemas um fio que mostre que o tempo e os acontecimentos

estão unidos,

E que todas as coisas do universo são milagres perfeitos, cada uma

tão profunda quanto qualquer outra.

Não farei poemas referentes a partes,

Mas farei poemas, canções, pensamentos referentes ao conjunto,

E não cantarei em referência a um dia, mas em referência a

todos os dias,

E não farei um poema nem a menor parte de um poema que não tenha

relação com a alma,

Pois, tendo contemplado os objetos do universo, descubro que

não há nenhum, nem partícula alguma de qualquer um deles, que não tenha relação com a alma.

13

Alguém pediu para ver a alma?

Vede, vossa própria forma e semblante, pessoas, substâncias, animais,

as árvores, os rios correntes, as rochas e as areias.

Todos contêm alegrias espirituais e depois as libertam;

Como pode o corpo real algum dia morrer e ser enterrado?

De vosso corpo real e do corpo real de qualquer homem ou mulher,

Parte por parte ele escapará às mãos dos que preparam os cadáveres e

passará às esferas adequadas,

Levando o que nele se acumulou desde o momento do nascimento até o

momento da morte.

Não são os tipos dispostos pelo impressor que devolvem sua impressão, o

sentido, a questão principal,

Assim como não são a substância e a vida de um homem, ou a substância e

a vida de uma mulher, que retornam no corpo e na alma,

Indiferentemente antes da morte e depois da morte.

Vede, o corpo inclui e é o sentido, a questão principal, e

inclui e é a alma;

Quem quer que sejais, quão soberbo e quão divino é vosso corpo, ou qualquer

parte dele!

14

Quem quer que sejais, para vós anúncios sem fim!

Filha das terras, esperaste por teu poeta?

Esperaste por alguém de boca fluente e mão indicadora?

Ao homem dos Estados e à mulher dos Estados,

Palavras exultantes, palavras para as terras da Democracia.

Terras entrelaçadas, produtoras de alimento!

Terra do carvão e do ferro! terra do ouro! terra do algodão, do açúcar, do arroz!

Terra do trigo, da carne bovina, da carne suína! terra da lã e do cânhamo! terra da maçã

e da uva!

Terra das planícies pastoris, dos campos de relva do mundo! terra daqueles

intermináveis planaltos de ares suaves!

Terra do rebanho, do jardim, da saudável casa de adobe!

Terras onde serpenteia o Columbia a noroeste e onde serpenteia o

Colorado a sudoeste!

Terra da Chesapeake oriental! terra do Delaware!

Terra de Ontario, Erie, Huron, Michigan!

Terra dos Antigos Treze! terra de Massachusetts! terra de Vermont e

Connecticut!

Terra das praias oceânicas! terra das serras e dos picos!

Terra de barqueiros e marinheiros! terra de pescadores!

Terras inextricáveis! as estreitamente unidas! as apaixonadas!

As que ficam lado a lado! os irmãos mais velhos e mais novos! os de membros ossudos!

Terra das grandes mulheres! a feminina! as irmãs experientes e

as irmãs inexperientes!

Terra de amplo alento! fortalecida pelo Ártico! acariciada pelas brisas mexicanas! a diversa! a

compacta!

A pensilvaniana! a virginiana! a dupla caroliniana!

Ah, todas e cada uma, muito amadas por mim! minhas nações intrépidas! Ah, eu, de todo

modo, incluo-vos a todas com amor perfeito!

Não posso ser desligado de vós! nem de uma antes que de outra!

Ah, morte! Ah, apesar de tudo, ainda sou um de vós, invisível nesta hora, com

amor irreprimível,

Caminhando pela Nova Inglaterra, amigo, viajante,

Chapinhando com os pés descalços na beira das ondulações de verão sobre

as areias de Paumanok,

Cruzando as pradarias, habitando de novo em Chicago, habitando em cada cidade,

Observando espetáculos, nascimentos, melhorias, construções, artes,

Ouvindo oradores e oradoras em salões públicos,

Dos Estados e através deles, como em vida, cada homem e mulher meu próximo,

O louisianense, o georgiano, tão perto de mim, e eu tão perto dele e dela,

O mississipiano e o arkansano ainda comigo, e eu ainda com qualquer um deles,

Ainda nas planícies a oeste do rio espinal, ainda em minha casa de adobe,

Ainda retornando para o leste, ainda no Estado Litorâneo ou em Maryland,

Ainda canadense, enfrentando alegremente o inverno, a neve e o gelo bem-vindos para mim,

Ainda verdadeiro filho de Maine, ou do Estado do Granito, ou do

Estado da Baía de Narragansett, ou do Estado Imperial,

Ainda navegando rumo a outras praias para anexá-las, ainda acolhendo cada

novo irmão,

Aplicando por meio disto estas folhas aos novos, desde a hora em que

se unem aos antigos,

Vindo eu mesmo entre os novos para ser seu companheiro e igual,

vindo pessoalmente agora até vós,

Conclamando-vos a atos, caracteres, espetáculos, comigo.

15

Comigo, segurando com firmeza, mas depressa, depressa, adiante.

Por tua vida, mantém-te junto a mim,

(Talvez eu tenha de ser persuadido muitas vezes antes de consentir em me entregar

realmente a ti, mas que importa?

Não precisa a Natureza ser persuadida muitas vezes?)

Não sou nenhum delicado dolce affettuoso,

Barbado, queimado de sol, de pescoço grisalho, intimidador, cheguei,

Para ser enfrentado em luta enquanto passo, pelos sólidos prêmios do universo,

Pois é isso que ofereço a quem for capaz de perseverar até conquistá-los.

16

Em meu caminho, detenho-me por um momento,

Aqui por vós! e aqui pela América!

Ainda ergo ao alto o presente, ainda anuncio, alegre e sublime, o futuro

dos Estados,

E, pelo passado, pronuncio aquilo que o ar conserva dos aborígines vermelhos.

Os aborígines vermelhos,

Deixando sopros naturais, sons de chuva e ventos, chamados como os de pássaros

e animais nos bosques, transformados em sílabas para nossos nomes,

Okonee, Koosa, Ottawa, Monongahela, Sauk, Natchez, Chattahoochee,

Kaqueta, Oronoco,

Wabash, Miami, Saginaw, Chippewa, Oshkosh, Walla-Walla,

Deixando tais nomes aos Estados, eles se dissolvem, partem, impregnando

a água e a terra com nomes.

17

Em expansão e velozes, de agora em diante,

Elementos, estirpes, ajustamentos, turbulentos, rápidos e audaciosos,

Um mundo outra vez primordial, visões de glória incessantes e ramificadas,

Uma nova raça dominando as anteriores e muito mais grandiosa, com novos combates,

Nova política, novas literaturas e religiões, novas invenções e artes.

Estas coisas, minha voz anunciando, não dormirei mais, mas me erguerei,

Ó oceanos que permanecestes calmos dentro de mim! como vos sinto,

insondáveis, agitando-vos, preparando ondas e tempestades sem precedentes.

18

Vede, vapores navegando a vapor através de meus poemas,

Vede, em meus poemas, imigrantes chegando e desembarcando continuamente,

Vede, ao fundo, a cabana indígena, a trilha, a choupana do caçador, a barca chata,

a folha de milho, a gleba reivindicada, a cerca rústica e a aldeia dos sertões,

Vede, de um lado o Mar Ocidental e do outro o Mar Oriental,

como avançam e recuam sobre meus poemas como sobre suas próprias praias,

Vede, pastagens e florestas em meus poemas, vede animais selvagens e domesticados, vede,

além do Kaw, incontáveis manadas de búfalos alimentando-se da relva curta e crespa,

Vede, em meus poemas, cidades sólidas, vastas, do interior, com ruas pavimentadas,

com edifícios de ferro e pedra, veículos incessantes e comércio,

Vede, a impressora a vapor de muitos cilindros, vede o telégrafo

elétrico estendendo-se através do continente,

Vede, pelas profundezas do Atlântico, pulsações americanas alcançando a Europa,

pulsações da Europa devidamente devolvidas,

Vede, a locomotiva forte e veloz enquanto parte, arfando, soprando

o apito a vapor,

Vede, lavradores arando fazendas, vede mineiros escavando minas, vede

as fábricas incontáveis,

Vede, trabalhadores ocupados em suas bancadas com ferramentas, vede surgir dentre eles

juízes superiores, filósofos, Presidentes, vestidos com

roupas de trabalho,

Vede, vagando pelas lojas e campos dos Estados, a mim,

muito amado, estreitamente abraçado de dia e de noite,

Ouvi ali os ecos sonoros de minhas canções, lede os indícios que enfim chegaram.

19

Ah, camarada tão próximo! Ah, tu e eu enfim, e somente nós dois.

Ah, uma palavra para desimpedir eternamente o caminho adiante!

Ah, algo extático e indemonstrável! Ah, música selvagem!

Ah, agora triunfo, e tu também triunfarás;

Ah, de mãos dadas, ah, prazer saudável, ah, mais um que deseja e ama!

Ah, avançar depressa, segurando com firmeza, avançar depressa, depressa comigo.

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