LIVRO IX Folhas de Relva · Capítulo 9 de 35
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LIVRO IX

Canção do Respondente

1

Escutai agora minha romança matinal, conto os sinais do Respondente,

Às cidades e fazendas canto enquanto se estendem ao sol diante de mim.

Um jovem vem até mim trazendo uma mensagem de seu irmão,

Como saberá o jovem o onde e o quando de seu irmão?

Dizei-lhe que me envie os sinais. E ponho-me diante do jovem,

face a face, e tomo sua mão direita em minha mão esquerda e sua

mão esquerda em minha mão direita,

E respondo por seu irmão e pelos homens, e respondo por aquele que

responde por todos, e envio estes sinais.

Por ele todos esperam, a ele todos se entregam, sua palavra é decisiva e final,

Eles o aceitam, nele se banham, nele percebem a si mesmos como em meio à luz,

Nele mergulham e ele mergulha neles.

Belas mulheres, as nações mais altivas, leis, a paisagem,

pessoas, animais,

A terra profunda e seus atributos e o oceano inquieto, assim

conto minha romança matinal,

Todos os prazeres e propriedades e o dinheiro, e tudo o que o dinheiro compra,

As melhores fazendas, outros labutam e plantam e ele inevitavelmente colhe,

As cidades mais nobres e dispendiosas, outros nivelam e constroem e ele

ali reside,

Nada há para ninguém que não seja também para ele, o próximo e o distante são para ele,

os navios ao largo,

Os espetáculos e desfiles perpétuos em terra são para ele, se são para alguém.

Ele dispõe as coisas em suas atitudes,

Com plasticidade e amor, ele projeta o dia de hoje para fora de si,

Ele dispõe seus próprios tempos, reminiscências, pais, irmãos e

irmãs, associações, ocupação, política, de modo que os demais

jamais os envergonhem depois nem pretendam comandá-los.

Ele é o Respondente,

O que pode ser respondido ele responde, e o que não pode ser respondido ele

mostra por que não pode ser respondido.

Um homem é uma convocação e um desafio,

(É inútil esconder-se, ouves aquela zombaria e aquele riso? ouves

os ecos irônicos?)

Livros, amizades, filósofos, sacerdotes, ação, prazer, orgulho,

agitam-se de um lado para outro procurando dar satisfação,

Ele indica a satisfação e também indica aqueles que se agitam de um lado

para outro.

Qualquer que seja o sexo, qualquer que seja a estação ou o lugar, ele pode seguir fresco,

suave e seguro, de dia ou de noite,

Ele possui a chave mestra dos corações, a ele responde o tatear das

mãos sobre as maçanetas.

Seu acolhimento é universal, o fluxo da beleza não é mais bem-vindo nem

mais universal do que ele,

A pessoa que ele favorece durante o dia ou com quem dorme à noite é abençoada.

Cada existência tem seu idioma, cada coisa tem um idioma e uma língua,

Ele converte todas as línguas na sua e a concede aos homens, e

qualquer homem traduz, e qualquer homem traduz também a si mesmo,

Uma parte não contraria outra parte, ele é o unificador, ele vê

como elas se unem.

Ele diz indistintamente e da mesma forma: Como estás, amigo? ao Presidente

em sua recepção,

E diz: Bom dia, meu irmão, a Cudge, que capina no canavial,

E ambos o compreendem e sabem que sua fala é correta.

Ele caminha com perfeita naturalidade no Capitólio,

Caminha entre o Congresso, e um Representante diz a outro:

Eis que surge nosso igual, novo entre nós.

Então os operários o tomam por operário,

E os soldados supõem que seja soldado, e os marinheiros, que

tenha navegado pelos mares,

E os autores o tomam por autor, e os artistas por artista,

E os trabalhadores percebem que ele poderia trabalhar com eles e amá-los,

Não importa qual seja o trabalho, ele é aquele que deve realizá-lo ou que

já o realizou,

Não importa qual seja a nação, ele poderia encontrar ali seus irmãos e

irmãs.

Os ingleses acreditam que ele vem de sua estirpe inglesa,

Judeu para o judeu ele parece, russo para o russo, familiar e próximo,

afastado de ninguém.

Quem quer que ele contemple na hospedaria dos viajantes reclama-o para si,

O italiano ou o francês tem certeza, o alemão tem certeza, o espanhol

tem certeza e o cubano insular tem certeza,

O maquinista, o marinheiro de convés nos grandes lagos, ou no Mississippi,

no São Lourenço, no Sacramento, no Hudson ou no estreito de Paumanok,

reclama-o para si.

O cavalheiro de sangue perfeito reconhece seu sangue perfeito,

O insultador, a prostituta, a pessoa irada, o mendigo, veem

a si mesmos em seus modos, ele estranhamente os transmuta,

Já não são vis, mal se reconhecem, tanto cresceram.

2

Os indícios e a medida do tempo,

A perfeita sanidade revela o mestre entre os filósofos,

O tempo, sempre sem interrupção, manifesta-se em partes,

O que sempre indica o poeta é a multidão da agradável companhia

de cantores e suas palavras,

As palavras dos cantores são as horas ou os minutos da luz ou da escuridão,

mas as palavras do criador de poemas são a luz e a escuridão gerais,

O criador de poemas estabelece a justiça, a realidade, a imortalidade,

Sua visão e seu poder circundam as coisas e a raça humana,

Ele é, até aqui, a glória e o extrato das coisas e da raça humana.

Os cantores não geram, somente o Poeta gera,

Os cantores são bem-vindos, compreendidos, aparecem com bastante frequência, mas raro

foi o dia, e igualmente raro o lugar, do nascimento do criador

de poemas, o Respondente,

(Nem todo século, nem todo período de cinco séculos, conteve semelhante

dia, apesar de todos os seus nomes.)

Os cantores das horas sucessivas dos séculos podem ter nomes

ostensivos, mas o nome de cada um deles é um dos cantores,

O nome de cada um é cantor dos olhos, cantor dos ouvidos, cantor da cabeça,

cantor doce, cantor da noite, cantor de salão, cantor do amor,

cantor do estranho, ou alguma outra coisa.

Durante todo este tempo e em todos os tempos esperam as palavras dos verdadeiros poemas,

As palavras dos verdadeiros poemas não se limitam a agradar,

Os verdadeiros poetas não são seguidores da beleza, mas os augustos mestres da beleza;

A grandeza dos filhos é a emanação da grandeza das mães

e dos pais,

As palavras dos verdadeiros poemas são o penacho e o aplauso final da ciência.

Instinto divino, amplitude de visão, lei da razão, saúde,

rudeza do corpo, recolhimento,

Alegria, pele bronzeada pelo sol, doçura do ar, tais são algumas das palavras dos poemas.

O marinheiro e o viajante fundamentam o criador de poemas, o Respondente,

O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista, o frenologista, o artista, todos

estes fundamentam o criador de poemas, o Respondente.

As palavras dos verdadeiros poemas vos dão mais do que poemas,

Dão-vos a capacidade de formar por vós mesmos poemas, religiões, política, guerra,

paz, conduta, histórias, ensaios, vida cotidiana e todas as demais coisas,

Equilibram classes, cores, raças, credos e os sexos,

Não procuram a beleza, são procuradas,

Para sempre, ao tocá-las ou ao segui-las de perto, vem a beleza, anelante,

desejosa, enferma de amor.

Preparam para a morte, mas não são o fim, antes o ponto de partida,

Não levam ninguém a seu termo, nem a ficar contente e pleno,

A quem tomam, levam para o espaço, para contemplar o nascimento das estrelas, para

aprender um dos sentidos,

Para lançar-se com fé absoluta, atravessar os círculos incessantes

e nunca mais repousar.

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