LIVRO X Folhas de Relva · Capítulo 10 de 35
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LIVRO X

Nossa Antiga Folhagem

Sempre nossa antiga folhagem!

Sempre a verde península da Flórida, sempre o inestimável delta da

Louisiana, sempre os campos de algodão do Alabama e do Texas,

Sempre as colinas e depressões douradas da Califórnia, e as montanhas

prateadas do Novo México, sempre Cuba de hálito suave,

Sempre a vasta vertente drenada pelo mar do Sul, inseparável das

vertentes drenadas pelos mares do Leste e do Oeste,

A extensão no octogésimo terceiro ano destes Estados, os três milhões e meio

de milhas quadradas,

As dezoito mil milhas de costa marítima e de baías no continente,

as trinta mil milhas de navegação fluvial,

Os sete milhões de famílias distintas e o mesmo número de moradas,

sempre estas, e mais, ramificando-se em incontáveis ramos,

Sempre a livre extensão e a diversidade, sempre o continente da Democracia;

Sempre as pradarias, pastagens, florestas, vastas cidades, viajantes,

Canadá, as neves;

Sempre estas terras compactas, atadas pelos quadris com o cinturão que enfileira

os enormes lagos ovais;

Sempre o Oeste com fortes pessoas nativas, a crescente densidade ali,

os habitantes, amistosos, ameaçadores, irônicos, desdenhando invasores;

Todas as visões, Sul, Norte, Leste, todos os feitos, promiscuamente realizados em todos os tempos,

Todos os caracteres, movimentos, crescimentos, alguns observados, miríades despercebidas,

Eu caminhando pelas ruas de Mannahatta, recolhendo estas coisas,

Nos rios do interior, à noite, ao clarão de nós de pinheiro, barcos a vapor

abastecendo-se de lenha,

A luz do sol durante o dia sobre o vale do Susquehanna, e sobre os vales

do Potomac e do Rappahannock, e os vales do Roanoke

e do Delaware,

Em suas regiões selvagens do norte, feras rondando os Adirondacks,

as colinas, ou lambendo as águas do Saginaw para beber,

Numa enseada solitária, um pato-mergulhão perdido do bando, pousado sobre a

água, balançando silenciosamente,

Nos celeiros dos lavradores, bois no estábulo, concluído o trabalho da colheita, eles

descansam de pé, estão cansados demais,

Ao longe, sobre o gelo ártico, a morsa fêmea deitada sonolenta enquanto seus filhotes brincam ao redor,

O falcão navegando onde os homens ainda não navegaram, o mais distante mar

polar, encrespado, cristalino, aberto, além das banquisas,

A espuma branca abrindo-se adiante onde o navio se lança na tempestade,

Em terra firme, o que se faz nas cidades quando os sinos badalam juntos a meia-noite,

Nas florestas primitivas, também ressoando os sons dali, o uivo do

lobo, o grito da pantera e o rouco bramido do alce,

No inverno, sob o duro gelo azul do lago Moosehead, no verão,

visível através das águas límpidas, a grande truta nadando,

Em latitudes mais baixas, no ar mais quente das Carolinas, o grande urubu

negro flutuando lentamente, bem alto, além das copas das árvores,

Abaixo, o cedro-vermelho festonado de tillandsias, os pinheiros e

ciprestes crescendo da areia branca que se estende longe e plana,

Barcos rústicos descendo o grande Pedee, trepadeiras, parasitas com

flores e bagas coloridas envolvendo árvores enormes,

A ondulante cortina sobre o carvalho-verde arrastando-se longa e baixa,

silenciosamente agitada pelo vento,

O acampamento dos carroceiros da Geórgia logo após escurecer, as fogueiras do jantar,

e brancos e negros cozinhando e comendo,

Trinta ou quarenta grandes carroças, as mulas, o gado, os cavalos, alimentando-se

nos cochos,

As sombras, os clarões, sob as folhas dos velhos sicômoros,

as chamas com a fumaça negra do pinheiro resinoso enrolando-se e subindo;

Pescadores sulistas pescando, os estreitos e enseadas da costa da

Carolina do Norte, a pesca do sável e a pesca do arenque, as

grandes redes de arrasto, os cabrestantes na praia movidos por cavalos,

os galpões de limpeza, cura e embalagem;

No fundo da floresta, nos pinheirais, a terebintina gotejando das

incisões nas árvores, ali estão as instalações de terebintina,

Ali estão os negros trabalhando com boa saúde, o chão em todas

as direções coberto de agulhas de pinheiro;

No Tennessee e no Kentucky, escravizados ocupados nas carvoarias, na forja,

junto ao clarão da fornalha ou descascando o milho,

Na Virgínia, o filho do fazendeiro regressando depois de longa ausência,

alegremente recebido e beijado pela velha ama mulata,

Nos rios, barqueiros atracados em segurança ao cair da noite, em seus barcos,

sob o abrigo de altas margens,

Alguns dos mais jovens dançam ao som do banjo ou da rabeca,

outros se sentam na borda do barco, fumando e conversando;

No fim da tarde, o tordo-mímico, o imitador americano, cantando

no Grande Pântano Sombrio,

Ali estão as águas esverdeadas, o odor resinoso, o musgo abundante,

o cipreste e o junípero;

Ao norte, jovens de Mannahatta, a companhia de tiro regressando

de uma excursão ao entardecer, os canos de todos os mosquetes

trazem ramalhetes de flores oferecidos por mulheres;

Crianças brincando, ou no colo do pai um menino adormecido,

(como seus lábios se movem! como sorri enquanto dorme!)

O batedor cavalgando pelas planícies a oeste do

Mississippi, sobe uma elevação e percorre tudo com os olhos;

A vida da Califórnia, o mineiro, barbado, vestido em seu traje rude,

a firme amizade californiana, o ar suave, os túmulos que se

encontram solitários ao passar, bem ao lado da trilha dos cavalos;

No Texas, o campo de algodão, as cabanas dos negros, condutores guiando

mulas ou bois diante de carroças rústicas, fardos de algodão empilhados nas margens

e nos cais;

Circundando tudo, elevando-se vastamente e projetando-se ao longe, a Alma Americana, com

hemisférios iguais, um Amor, uma Expansão ou Orgulho;

Ao fundo, a conversa de paz com os iroqueses, os aborígenes, o

calumet, o cachimbo da boa vontade, a arbitragem e a confirmação,

O sachem soprando a fumaça primeiro em direção ao sol e depois em direção

à terra,

O drama da dança do escalpo representado com rostos pintados e exclamações

guturais,

A partida do grupo de guerra, a marcha longa e furtiva,

A fila única, as machadinhas oscilantes, a surpresa e o massacre

dos inimigos;

Todos os atos, cenas, modos, pessoas, atitudes destes Estados,

reminiscências, instituições,

Todos estes Estados compactos, cada milha quadrada destes Estados, sem

excluir uma única partícula;

Eu satisfeito, vagando por caminhos e campos do interior, os campos de Paumanok,

Observando o voo espiralado de duas pequenas borboletas amarelas

entrelaçando-se uma com a outra, subindo alto no ar,

A veloz andorinha, destruidora de insetos, viajante do outono

rumo ao sul, mas regressando ao norte no início da primavera,

O menino do campo, ao fim do dia, conduzindo o rebanho de vacas e

gritando para elas quando se demoram a pastar à margem da estrada,

O cais da cidade, Boston, Filadélfia, Baltimore, Charleston, Nova

Orleans, São Francisco,

Os navios que partem quando os marinheiros giram o cabrestante;

Entardecer, eu em meu quarto, o sol poente,

O sol poente do verão brilhando através de minha janela aberta, revelando o

enxame de moscas, suspensas, equilibrando-se no ar no centro

do quarto, lançando-se de través, para cima e para baixo, projetando rápidas

sombras como pontos na parede oposta onde incide o brilho;

A atlética matrona americana falando em público a multidões de ouvintes,

Homens, mulheres, imigrantes, combinações, a abundância, a

individualidade dos Estados, cada qual por si, os que fazem dinheiro,

Fábricas, máquinas, as forças mecânicas, o cabrestante, a alavanca,

a polia, todas as certezas,

A certeza do espaço, do crescimento, da liberdade, do futuro,

No espaço, as Espórades, as ilhas dispersas, as estrelas, sobre a terra

firme, as terras, minhas terras,

Ó terras! todas tão caras para mim, aquilo que sois, seja o que for, eu, colocando-o

ao acaso nestas canções, torno-me parte disso, seja o que for,

Ali ao sul, eu gritando, com asas batendo lentamente, com as

miríades de gaivotas que passam o inverno ao longo das costas da Flórida,

Por outros caminhos, ali entre as margens do Arkansas, do Rio Grande,

do Nueces, do Brazos, do Tombigbee, do Rio Vermelho, do

Saskatchewan ou do Osage, eu, com as águas da primavera, rindo,

saltando e correndo,

Ao norte, nas areias, em alguma baía rasa de Paumanok, eu com

bandos de garças-brancas caminhando na água para procurar vermes e

plantas aquáticas,

Recuando e chilreando triunfante, o tirano, depois de ferir

o corvo com o bico, por divertimento, e eu chilreando triunfante,

O bando migratório de gansos selvagens pousando no outono para se

revigorar, o corpo do bando se alimenta, as sentinelas do lado de fora

caminham com a cabeça erguida, vigiando, e de tempos em tempos

são substituídas por outras sentinelas, e eu me alimentando e revezando-me

com os demais,

Nas florestas canadenses, o alce, grande como um boi, acuado por caçadores,

erguendo-se desesperadamente sobre as patas traseiras e golpeando com as

dianteiras, os cascos afiados como facas, e eu, lançando-me contra os

caçadores, acuado e desesperado,

Em Mannahatta, ruas, píeres, navios, armazéns e os

incontáveis trabalhadores trabalhando nas oficinas,

E eu também de Mannahatta, cantando tudo isso, e não menos em mim

do que toda Mannahatta em si mesma,

Cantando a canção Destas, minhas terras para sempre unidas, meu corpo não

mais inevitavelmente unido, parte a parte, e feito de mil

contribuições diversas numa só identidade, do que minhas terras

estão inevitavelmente unidas e constituem UMA SÓ IDENTIDADE;

Origens, climas, a relva das grandes Planícies pastoris,

Cidades, trabalhos, morte, animais, produtos, guerra, bem e mal, tudo isso sou eu,

Tudo isso oferecendo, em cada particular, a antiga folhagem para mim

e para a América, como poderia eu fazer menos do que passar o fio da união

entre essas coisas, para oferecer o mesmo a ti?

Quem quer que sejas! como poderia eu deixar de oferecer-te folhas divinas, para que

também sejas digno como eu?

Como poderia eu deixar de, cantando aqui, convidar-te a colher por ti mesmo

buquês da incomparável folhagem destes Estados?

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