LIVRO XXVI Folhas de Relva · Capítulo 26 de 35
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LIVRO XXVI

Passagem à Índia

1

Cantando meus dias,

Cantando as grandes realizações do presente,

Cantando as obras fortes e luminosas dos engenheiros,

Nossas maravilhas modernas, (superados os pesados Sete da antiguidade,)

No Velho Mundo, a leste, o canal de Suez,

O Novo, transposto por sua poderosa ferrovia,

Os mares incrustados de fios suaves e eloquentes;

Mas primeiro fazer soar, e sempre soar, o clamor contigo, ó alma,

O Passado! o Passado! o Passado!

O Passado, a obscura retrospectiva insondada!

O golfo fervilhante, os adormecidos e as sombras!

O passado, a infinita grandeza do passado!

Pois que é afinal o presente senão um crescimento nascido do passado?

(Como um projétil formado, impelido, que, ao passar certa linha, ainda prossegue,

Assim o presente, inteiramente formado, impelido pelo passado.)

2

Passagem, ó alma, à Índia!

Ilumina os mitos asiáticos, as fábulas primitivas.

Não somente vós, altivas verdades do mundo,

Nem somente vós, fatos da ciência moderna,

Mas os mitos e fábulas de outrora, fábulas da Ásia, da África,

Os raios do espírito lançados ao longe, os sonhos libertos,

As bíblias e lendas que mergulham fundo,

As audazes tramas dos poetas, as religiões mais antigas;

Ó templos mais belos que lírios banhados pelo sol nascente!

Ó fábulas que rejeitais o conhecido, escapais ao domínio do conhecido,

subindo ao céu!

Vós, torres elevadas e deslumbrantes, eriçadas de pináculos, rubras como rosas, brunidas

de ouro!

Torres de fábulas imortais, formadas de sonhos mortais!

Também a vós acolho, plena e igualmente às demais!

Também a vós canto com alegria.

Passagem à Índia!

Eis, alma, não vês desde o princípio o propósito de Deus?

A terra transposta, conectada por uma rede,

As raças, vizinhas, casando-se e dando-se em casamento,

Os oceanos atravessados, o distante aproximado,

As terras fundidas umas às outras.

Um novo culto canto,

Vosso, capitães, navegantes, exploradores,

Vosso, engenheiros, arquitetos, maquinistas,

Vós, não somente para o comércio ou o transporte,

Mas em nome de Deus e por tua causa, ó alma.

3

Passagem à Índia!

Eis, alma, para ti dois quadros,

Em um vejo o canal de Suez inaugurado, aberto,

Vejo a procissão dos navios a vapor, a Imperatriz Eugênia à frente,

Observo do convés a paisagem estranha, o céu puro, a areia plana

ao longe,

Passo depressa pelos grupos pitorescos, pelos trabalhadores reunidos,

Pelas gigantescas máquinas de dragagem.

No outro, diferente, (mas teu, todo teu, ó alma, e ainda o mesmo,)

Vejo sobre meu próprio continente a ferrovia do Pacífico vencendo todas as barreiras,

Vejo trens contínuos de vagões serpenteando ao longo do Platte, levando

cargas e passageiros,

Ouço as locomotivas avançando impetuosas e rugindo, e o agudo apito a vapor,

Ouço os ecos reverberarem pelas mais grandiosas paisagens do mundo,

Atravesso as planícies de Laramie, observo as rochas de formas grotescas,

os morros isolados,

Vejo as abundantes esporeiras e cebolas silvestres, os áridos e incolores

desertos de artemísia,

Vejo, em vislumbres ao longe ou elevando-se imediatamente acima de mim, as grandes

montanhas, vejo o rio Wind e as montanhas Wahsatch,

Vejo a montanha Monument e o Ninho da Águia, passo pelo

Promontório, subo as Nevadas,

Contemplo a nobre montanha Elk e contorno sua base,

Vejo a cadeia Humboldt, percorro o vale e atravesso o rio,

Vejo as águas límpidas do lago Tahoe, vejo florestas de pinheiros majestosos,

Ou, atravessando o grande deserto, as planícies alcalinas, contemplo

miragens encantadoras de águas e prados,

Observando através de tudo isso, e por fim, em duas linhas delgadas,

Ligando os três ou quatro mil quilômetros da viagem por terra,

Unindo o mar Oriental ao Ocidental,

A estrada entre a Europa e a Ásia.

(Ah, genovês, teu sonho! teu sonho!

Séculos depois de seres deposto em tua sepultura,

A costa que encontraste confirma teu sonho.)

4

Passagem à Índia!

Lutas de tantos capitães, histórias de tantos marinheiros mortos,

Insinuando-se e espalhando-se sobre meu ânimo, elas chegam,

Como nuvens e pequenas nuvens no céu inalcançado.

Ao longo de toda a história, descendo as encostas,

Como um regato que corre, ora afundando, ora voltando a subir à superfície,

Um pensamento incessante, um cortejo variado, eis, alma, para ti, diante de teus olhos,

eles se erguem,

Os planos, novamente as viagens, as expedições;

Novamente Vasco da Gama se faz ao mar,

Novamente o conhecimento adquirido, a bússola do marinheiro,

Terras encontradas e nações nascidas, tu nascida, América,

Para um vasto propósito, cumprida a longa provação do homem,

Tu, redondeza do mundo, enfim completada.

5

Ó vasta Redondeza, nadando no espaço,

Toda coberta de poder e beleza visíveis,

Alternância de luz e dia e a fervilhante escuridão espiritual,

Inefáveis e elevadas procissões do sol, da lua e de incontáveis estrelas acima,

Abaixo, as múltiplas ervas e águas, animais, montanhas, árvores,

Com propósito inescrutável, alguma intenção profética oculta,

Agora, pela primeira vez, parece que meu pensamento começa a abarcar-te.

Descendo e irradiando-se dos jardins da Ásia,

Adão e Eva aparecem, depois deles sua miríade de descendentes,

Errantes, desejosos, curiosos, em explorações inquietas,

Com indagações frustradas, informes, febris, com corações jamais felizes,

Com aquele triste refrão incessante: Por que, alma insatisfeita? e

Para onde, ó vida que escarneces?

Ah, quem acalmará essas crianças febris?

Quem justificará essas explorações inquietas?

Quem dirá o segredo da terra impassível?

Quem a ligará a nós? que Natureza separada e tão desnaturada é esta?

Que é esta terra para nossos afetos? (terra sem amor, sem uma

pulsação que responda à nossa,

Terra fria, lugar de sepulturas.)

Contudo, alma, tem certeza de que a intenção primeira permanece e será cumprida,

Talvez mesmo agora o tempo tenha chegado.

Depois de todos os mares atravessados, (como parecem já atravessados,)

Depois de os grandes capitães e engenheiros terem concluído seu trabalho,

Depois dos nobres inventores, depois dos cientistas, do químico, do

geólogo, do etnólogo,

Finalmente virá o poeta digno desse nome,

O verdadeiro filho de Deus virá cantando suas canções.

Então não somente vossos feitos, ó navegantes, ó cientistas e inventores,

serão justificados,

Todos esses corações, como os de crianças atormentadas, serão acalmados,

Todo afeto receberá plena resposta, o segredo será contado,

Todas essas separações e lacunas serão preenchidas, enganchadas e

unidas umas às outras,

A terra inteira, esta terra fria, impassível e sem voz, será

completamente justificada,

A Trinitas divina será gloriosamente realizada e consolidada pelo

verdadeiro filho de Deus, o poeta,

(Ele de fato atravessará os estreitos e conquistará as montanhas,

Ele dobrará o cabo da Boa Esperança para algum propósito,)

Natureza e Homem não mais serão separados nem dispersos,

O verdadeiro filho de Deus os fundirá por completo.

6

Ano a cuja porta escancarada canto!

Ano do propósito cumprido!

Ano do casamento dos continentes, climas e oceanos!

(Não mais um simples doge de Veneza desposando o Adriático,)

Vejo, ó ano, em ti o vasto globo de terra e água, recebendo e oferecendo tudo,

A Europa à Ásia, a África unida, e elas ao Novo Mundo,

As terras, as geografias, dançando diante de ti, segurando uma grinalda festiva,

Como noivos e noivas de mãos dadas.

Passagem à Índia!

Ares refrescantes vindos do distante Cáucaso, berço consolador do homem,

O rio Eufrates correndo, o passado novamente iluminado.

Eis, alma, a retrospectiva trazida para diante,

As antigas, mais populosas e mais ricas terras do mundo,

As correntes do Indo e do Ganges e seus muitos afluentes,

(Eu, caminhando hoje por minhas praias da América, contemplo, retomando tudo,)

A história de Alexandre, que morre subitamente em suas marchas guerreiras,

De um lado a China e do outro a Pérsia e a Arábia,

Ao sul os grandes mares e a baía de Bengala,

As literaturas fluentes, epopeias tremendas, religiões, castas,

O antigo e oculto Brama, recuando interminavelmente no passado, o terno e mais jovem Buda,

Impérios centrais e meridionais e tudo quanto lhes pertence, seus possuidores,

As guerras de Tamerlão, o reinado de Aurangzeb,

Os mercadores, governantes, exploradores, muçulmanos, venezianos, Bizâncio, os

árabes, portugueses,

Os primeiros viajantes, ainda célebres, Marco Polo, Batuta, o Mouro,

Dúvidas a resolver, o mapa incógnito, espaços em branco a preencher,

O pé do homem que não se detém, as mãos jamais em repouso,

Tu mesma, ó alma, que não tolerarás desafio.

Os navegadores medievais erguem-se diante de mim,

O mundo de 1492, com seu empreendimento despertado,

Algo que agora cresce na humanidade como a seiva da terra na primavera,

O esplendor crepuscular da cavalaria em declínio.

E quem és tu, sombra triste?

Gigantesco, visionário, tu mesmo uma visão,

Com membros majestosos e olhos piedosos e radiantes,

Espalhando a cada olhar teu um mundo dourado,

Tingindo-o de cores magníficas.

Como o principal ator,

Que caminha até as luzes da ribalta em alguma grande cena,

Dominando os demais, vejo o próprio Almirante,

(Modelo histórico de coragem, ação, fé,)

Contemplo-o partindo de Palos à frente de sua pequena frota,

Contemplo sua viagem, seu retorno, sua grande fama,

Seus infortúnios, seus caluniadores, contemplo-o prisioneiro, acorrentado,

Contemplo seu abatimento, sua pobreza, sua morte.

(Curioso, detenho-me no tempo, observando os esforços dos heróis,

É longa a demora? amargas a calúnia, a pobreza, a morte?

Permanece a semente ignorada por séculos no solo? eis que, na ocasião determinada

por Deus,

Erguendo-se durante a noite, ela brota, floresce,

E enche a terra de utilidade e beleza.)

7

Passagem, de fato, ó alma, ao pensamento primordial,

Não somente a terras e mares, mas à tua própria frescura límpida,

À jovem maturidade da prole e da floração,

Aos reinos de bíblias em botão.

Ó alma incontida, eu contigo e tu comigo,

Começa tua circum-navegação do mundo,

Do homem, a viagem de regresso de sua mente,

Ao paraíso primeiro da razão,

De volta, de volta ao nascimento da sabedoria, às intuições inocentes,

Novamente com a bela criação.

8

Ó, já não podemos esperar,

Também nós embarcamos, ó alma,

Alegres, também nós nos lançamos em mares sem rotas,

Destemidos, navegamos rumo a costas desconhecidas sobre ondas de êxtase,

Entre os ventos que nos levam, (tu me apertando contra ti, eu te apertando contra mim, ó alma,)

Cantando livremente, entoando nossa canção de Deus,

Entoando nosso canto de prazerosa exploração.

Com risos e muitos beijos,

(Que outros desaprovem, que outros chorem pelo pecado, pelo remorso, pela humilhação,)

Ó alma, tu me agradas, e eu a ti.

Ah, mais que qualquer sacerdote, ó alma, também nós cremos em Deus,

Mas não ousamos brincar com o mistério de Deus.

Ó alma, tu me agradas, e eu a ti,

Navegando por estes mares ou sobre as colinas, ou despertos durante a noite,

Pensamentos, pensamentos silenciosos, sobre o Tempo, o Espaço e a Morte, fluindo como águas,

Conduzem-me de fato através das regiões infinitas,

Cujo ar respiro, cujas ondulações ouço, banham-me por inteiro,

Banha-me, ó Deus, em ti, enquanto subo a ti,

Eu e minha alma, vagando no alcance de teu alcance.

Ó Tu, transcendente,

Sem nome, a fibra e o sopro,

Luz da luz, que derramas universos, centro deles,

Tu, centro mais poderoso do verdadeiro, do bom, do amoroso,

Tu, fonte moral, espiritual, origem do afeto, reservatório,

(Ó minha alma pensativa, ó sede insatisfeita, não esperas ali?

Não espera talvez por nós, em algum lugar ali, o Camarada perfeito?)

Tu, pulsação, tu, impulso das estrelas, sóis, sistemas,

Que, girando, movem-se em ordem, seguros, harmoniosos,

Através das vastidões informes do espaço,

Como poderia eu pensar, como respirar um só alento, como falar, se para fora

de mim mesmo

Não pudesse lançar-me rumo àqueles universos superiores?

Rapidamente me encolho diante do pensamento de Deus,

Diante da Natureza e de suas maravilhas, do Tempo, do Espaço e da Morte,

Mas então, voltando-me, chamo por ti, ó alma, tu, meu Eu verdadeiro,

E eis que gentilmente dominas os orbes,

Igualas-te ao Tempo, sorris satisfeita para a Morte,

E preenches, avolumas até a plenitude as vastidões do Espaço.

Maior que estrelas ou sóis,

Saltando, ó alma, segues em viagem;

Que amor poderia ampliar-se mais que o teu e o nosso?

Que aspirações, desejos, superariam os teus e os nossos, ó alma?

Que sonhos do ideal? que planos de pureza, perfeição, força?

Que alegre disposição para, em favor dos outros, renunciar a tudo?

Em favor dos outros, sofrer tudo?

Antecipando o cálculo, ó alma, quando tu, chegado o tempo,

Todos os mares atravessados, os cabos vencidos, concluída a viagem,

Cercada, encontrares, enfrentares Deus, te renderes, alcançado o objetivo,

Como que repleta de amizade, de amor completo, encontrado o Irmão Mais Velho,

O Mais Jovem se desfaz em ternura nos braços dele.

9

Passagem para além da Índia!

Estão tuas asas de fato emplumadas para voos tão distantes?

Ó alma, viajas de fato em viagens como aquelas?

Divertes-te sobre águas como aquelas?

Sondas o que existe sob o sânscrito e os Vedas?

Então solta tua inclinação.

Passagem até vós, até vossas costas, ó antigos e ferozes enigmas!

Passagem até vós, ao domínio de vós, ó problemas que estrangulam!

Vós, cobertos pelos destroços de esqueletos que, em vida, jamais vos alcançaram.

Passagem para além da Índia!

Ó segredo da terra e do céu!

De vós, ó águas do mar! ó riachos sinuosos e rios!

De vós, ó bosques e campos! de vós, fortes montanhas de minha terra!

De vós, ó pradarias! de vós, rochas cinzentas!

Ó manhã vermelha! ó nuvens! ó chuva e neves!

Ó dia e noite, passagem até vós!

Ó sol e lua e todas vós, estrelas! Sírio e Júpiter!

Passagem até vós!

Passagem, passagem imediata! o sangue arde em minhas veias!

Avante, ó alma! levanta imediatamente a âncora!

Corta as amarras, afasta o navio, desfralda todas as velas!

Não ficamos aqui como árvores fincadas no solo por tempo suficiente?

Não nos arrastamos aqui por tempo suficiente, comendo e bebendo como simples animais?

Não nos obscurecemos e atordoamos com livros por tempo suficiente?

Faz-te ao mar, governa somente para as águas profundas,

Temerária, ó alma, explorando, eu contigo e tu comigo,

Pois estamos destinados aonde nenhum marinheiro ainda ousou ir,

E arriscaremos o navio, a nós mesmos e tudo.

Ó minha brava alma!

Ó, navega mais longe, mais longe!

Ó alegria audaz, porém segura! não são todos os mares de Deus?

Ó, navega mais longe, mais longe, mais longe!

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