LIVRO XXVIII Folhas de Relva · Capítulo 28 de 35
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LIVRO XXVIII

Os Adormecidos

1

Vagueio a noite inteira em minha visão,

Pisando com pés leves, avançando e parando rápida e silenciosamente,

Curvando-me de olhos abertos sobre os olhos fechados dos adormecidos,

Errante e confuso, perdido para mim mesmo, desconexo, contraditório,

Detendo-me, contemplando, curvando-me e parando.

Como parecem solenes ali, estendidos e imóveis,

Como respiram tranquilos, as criancinhas em seus berços.

As feições miseráveis dos entediados, as feições brancas dos cadáveres, os

rostos lívidos dos bêbados, os rostos cinza-enfermos dos onanistas,

Os corpos dilacerados nos campos de batalha, os loucos em seus

quartos de portas reforçadas, os idiotas sagrados, os recém-nascidos emergindo

de portais, e os moribundos emergindo de portais,

A noite os invade e os envolve.

O casal dorme serenamente em sua cama, ele com a palma da mão sobre

o quadril da esposa, e ela com a palma da mão sobre o quadril do marido,

As irmãs dormem amorosamente lado a lado em sua cama,

Os homens dormem amorosamente lado a lado na deles,

E a mãe dorme com seu filhinho cuidadosamente envolto.

Os cegos dormem, e os surdos e mudos dormem,

O prisioneiro dorme bem na prisão, o filho fugitivo dorme,

O assassino que será enforcado no dia seguinte, como dorme?

E a pessoa assassinada, como dorme?

A mulher que ama sem ser correspondida dorme,

E o homem que ama sem ser correspondido dorme,

A cabeça do fazedor de dinheiro que tramou o dia inteiro dorme,

E as índoles enfurecidas e traiçoeiras, todas, todas dormem.

Permaneço no escuro, de olhos baixos, junto aos que mais sofrem e

aos mais inquietos,

Passo as mãos suavemente de um lado para outro a poucos centímetros deles,

Os inquietos afundam em suas camas, dormem aos sobressaltos.

Agora penetro a escuridão, novos seres aparecem,

A terra recua de mim para dentro da noite,

Vi que ela era bela, e vejo que aquilo que não é a terra é

belo.

Vou de leito em leito, durmo bem junto dos outros adormecidos,

cada qual por sua vez,

Sonho em meu sonho todos os sonhos dos outros sonhadores,

E me torno os outros sonhadores.

Sou uma dança, tocai lá em cima! o acesso me faz girar depressa!

Sou aquele que ri para sempre, é lua nova e crepúsculo,

Vejo esconderem doçuras, vejo fantasmas ágeis para qualquer lado que eu olhe,

Escondendo e tornando a esconder bem fundo na terra e no mar, e onde não há

nem terra nem mar.

Como desempenham bem seus ofícios esses oficiais divinos,

Só de mim nada podem esconder, e não esconderiam se pudessem,

Creio que sou o chefe deles e, além disso, fazem de mim seu favorito,

E me cercam e conduzem e correm adiante quando caminho,

Para erguer suas astutas coberturas, sinalizar-me com os braços estendidos e

retomar o caminho;

Adiante avançamos, alegre bando de canalhas! com música

que grita de júbilo e galhardetes de alegria batendo selvagemente!

Sou o ator, a atriz, o eleitor, o político,

O emigrante e o exilado, o criminoso que compareceu ao banco dos réus,

Aquele que foi famoso e aquele que será famoso depois de hoje,

O gago, a pessoa bem-formada, a pessoa consumida ou débil.

Sou aquela que se adornou e arrumou os cabelos na expectativa,

Meu amante desgarrado chegou, e está escuro.

Duplica-te e recebe-me, escuridão,

Recebe-me e também a meu amante, ele não me deixará partir sem ele.

Revolvo-me sobre ti como sobre um leito, entrego-me ao crepúsculo.

Aquele a quem chamo me responde e toma o lugar de meu amante,

Ergue-se comigo silenciosamente do leito.

Escuridão, és mais suave que meu amante, sua carne estava suada e ofegante,

Ainda sinto a umidade quente que ele deixou em mim.

Minhas mãos se estendem, passo-as em todas as direções,

Eu sondaria a costa sombria para a qual estás viajando.

Cuidado, escuridão! o que foi que já me tocou?

Pensei que meu amante tivesse partido, do contrário a escuridão e ele são um,

Ouço o bater do coração, sigo-o, desvaneço.

2

Desço por meu curso ocidental, meus tendões estão flácidos,

Perfume e juventude correm através de mim e sou o rastro deles.

É meu o rosto amarelo e enrugado, em lugar do rosto da velha,

Sento-me baixo numa cadeira de assento de palha e cerzo cuidadosamente as

meias de meu neto.

Também sou eu, a viúva insone olhando para a meia-noite de inverno,

Vejo os lampejos da luz das estrelas sobre a terra gelada e pálida.

Vejo uma mortalha e sou a mortalha, envolvo um corpo e deito no caixão,

Está escuro aqui sob a terra, aqui não há mal nem dor, aqui há

vazio, por razões.

(Parece-me que tudo o que está na luz e no ar deveria ser feliz,

Quem não está em seu caixão e na sepultura escura saiba que já tem o bastante.)

3

Vejo um belo nadador gigantesco nadando nu através dos redemoinhos

do mar,

Seus cabelos castanhos aderem uniformes à cabeça, ele avança com

braços corajosos, impele-se com as pernas,

Vejo seu corpo branco, vejo seus olhos intrépidos,

Odeio os redemoinhos velozes que querem arremessá-lo de cabeça contra

as rochas.

Que fazeis, ondas brutais salpicadas de vermelho?

Matareis o gigante corajoso? matareis o homem no auge

da meia-idade?

Firme e longamente ele luta,

É frustrado, golpeado, ferido, resiste enquanto sua força

resiste,

Os redemoinhos que o açoitam estão manchados de seu sangue, levam-no embora,

rolam-no, balançam-no, viram-no,

Seu belo corpo é carregado nos redemoinhos circulares, é

continuamente ferido contra as rochas,

Rápido e fora de vista é levado o bravo cadáver.

4

Viro-me, mas não consigo me desvencilhar,

Confuso, lendo um passado, depois outro, mas ainda com escuridão.

A praia é cortada pelo vento gélido e cortante, soam os canhões do naufrágio,

A tempestade amaina, a lua vem tropeçando através das massas de nuvens.

Olho para onde o navio, indefeso, avança de proa, ouço o estrondo quando

ele se choca, ouço os uivos de desespero, tornam-se cada vez mais fracos.

Não posso ajudar com meus dedos torcidos,

Posso apenas correr para a arrebentação e deixá-la me encharcar e congelar sobre mim.

Procuro com a multidão, nenhum dos tripulantes é trazido vivo até nós,

Pela manhã ajudo a recolher os mortos e a deitá-los em fileiras num celeiro.

5

Agora, dos antigos dias de guerra, a derrota no Brooklyn,

Washington permanece dentro das linhas, de pé sobre as colinas

entrincheiradas em meio a uma multidão de oficiais.

Seu rosto está frio e úmido, ele não consegue conter as lágrimas,

Leva continuamente a luneta aos olhos, a cor desapareceu

de suas faces,

Vê o massacre dos bravos do Sul confiados a ele por

seus pais.

O mesmo, por fim e enfim, quando a paz é declarada,

Ele está na sala da velha taverna, os soldados tão amados

passam todos por ali,

Os oficiais, mudos e lentos, aproximam-se cada qual em sua vez,

O chefe envolve seus pescoços com o braço e os beija na face,

Beija levemente as faces molhadas, uma após outra, aperta-lhes as mãos

e se despede do exército.

6

Agora, aquilo que minha mãe me contou certo dia, enquanto jantávamos juntos,

Sobre quando era uma moça quase crescida, vivendo em casa com os pais

na velha propriedade.

Uma índia vermelha chegou certa manhã, na hora do desjejum, à velha propriedade,

Nas costas carregava um feixe de juncos para fazer assentos de cadeiras,

Seus cabelos, lisos, brilhantes, ásperos, negros, abundantes, cobriam

metade de seu rosto,

Seu passo era livre e elástico, e sua voz soava primorosa quando

falava.

Minha mãe contemplou a estranha com deleite e assombro,

Contemplou o frescor de seu rosto erguido e alto e de seus membros cheios e

flexíveis,

Quanto mais a contemplava, mais a amava,

Nunca antes vira beleza e pureza tão maravilhosas,

Fez com que ela se sentasse num banco junto ao batente da lareira, preparou

comida para ela,

Não tinha trabalho para lhe dar, mas lhe deu lembrança e carinho.

A índia vermelha ficou toda a manhã e, por volta do meio da

tarde, foi embora,

Ó, como minha mãe relutou em vê-la partir,

Durante toda a semana pensou nela, esperou por ela por muitos meses,

Lembrou-se dela por muitos invernos e muitos verões,

Mas a índia vermelha nunca mais voltou nem se ouviu falar dela ali.

7

Uma manifestação da suavidade do verão, um contato com algo invisível, um

amor da luz e do ar,

Tenho ciúmes e sou tomado de amizade,

E eu mesmo irei divertir-me com a luz e o ar.

Ó amor e verão, estais nos sonhos e em mim,

Outono e inverno estão nos sonhos, o lavrador segue com sua prosperidade,

Os rebanhos e as colheitas aumentam, os celeiros estão bem cheios.

Os elementos se fundem na noite, os navios fazem bordos nos sonhos,

O marinheiro navega, o exilado volta para casa,

O fugitivo retorna ileso, o imigrante está de volta depois de meses

e anos,

O pobre irlandês vive na casa simples de sua infância com

os vizinhos e rostos conhecidos,

Eles o acolhem calorosamente, ele está de novo descalço, esquece que prosperou,

O holandês viaja de volta para casa, e o escocês e o galês viajam

para casa, e o nativo do Mediterrâneo viaja para casa,

Em cada porto da Inglaterra, França, Espanha, entram navios bem carregados,

O suíço segue a pé para suas colinas, o prussiano toma seu caminho, o

húngaro o seu, e o polonês o seu,

O sueco retorna, e o dinamarquês e o norueguês retornam.

Os que voltam para casa e os que partem,

O belo nadador perdido, o entediado, o onanista, a mulher que

ama sem ser correspondida, o fazedor de dinheiro,

O ator e a atriz, os que terminaram seus papéis e os que

esperam para começar,

O rapaz afetuoso, o marido e a esposa, o eleitor, o candidato

escolhido e o candidato derrotado,

Os grandes já conhecidos e os grandes a qualquer momento depois de hoje,

O gago, o enfermo, o de formas perfeitas, o sem beleza,

O criminoso que compareceu ao banco dos réus, o juiz que se sentou e o condenou,

os advogados eloquentes, o júri, o público,

Aquele que ri e aquele que chora, o dançarino, a viúva da meia-noite, a índia vermelha,

O tísico, o atacado de erisipela, o idiota, aquele que sofre injustiça,

Os antípodas, e todos entre este lugar e eles no escuro,

Juro que agora estão nivelados, nenhum é melhor que o outro,

A noite e o sono os tornaram semelhantes e os restauraram.

Juro que todos são belos,

Todo aquele que dorme é belo, tudo na luz tênue é

belo,

O mais selvagem e sanguinário terminou, e tudo é paz.

A paz é sempre bela,

O mito do céu indica paz e noite.

O mito do céu indica a alma,

A alma é sempre bela, aparece mais ou aparece menos, vem

ou demora-se atrás,

Vem de seu jardim coberto de sombras e contempla agradavelmente a si mesma

e envolve o mundo,

Perfeitos e limpos os genitais antes jorrando, e perfeito e

limpo o útero que se forma,

A cabeça bem crescida, proporcionada e aprumada, e as entranhas e

articulações proporcionadas e aprumadas.

A alma é sempre bela,

O universo está devidamente ordenado, tudo está em seu lugar,

O que chegou está em seu lugar e o que espera estará em seu lugar,

O crânio deformado espera, o sangue aguado ou corrompido espera,

O filho do glutão ou do venéreo espera longamente, e o filho do

bêbado espera longamente, e o próprio bêbado espera longamente,

Os adormecidos que viveram e morreram esperam, os muito adiantados prosseguirão

em sua vez, e os muito atrasados avançarão em sua vez,

Os diversos não serão menos diversos, mas fluirão e se unirão,

eles se unem agora.

8

Os adormecidos são muito belos enquanto jazem despidos,

Fluem de mãos dadas sobre toda a terra, de leste a oeste, enquanto

jazem despidos,

O asiático e o africano estão de mãos dadas, o europeu e o americano

estão de mãos dadas,

O instruído e o sem instrução estão de mãos dadas, e homem e mulher estão

de mãos dadas,

O braço nu da moça cruza o peito nu de seu amante, apertam-se

sem desejo carnal, os lábios dele pressionam o pescoço dela,

O pai segura nos braços o filho crescido ou ainda criança com

amor sem medida, e o filho segura o pai nos braços com

amor sem medida,

Os cabelos brancos da mãe brilham sobre o pulso branco da filha,

A respiração do menino acompanha a respiração do homem, amigo é

envolvido pelos braços do amigo,

O discípulo beija o mestre e o mestre beija o discípulo,

a injustiça é reparada,

O chamado do escravo é um com o chamado do senhor, e o senhor

saúda o escravo,

O criminoso sai da prisão, o louco torna-se são, o

sofrimento dos enfermos é aliviado,

Os suores e febres cessam, a garganta que estava doente fica sã,

os pulmões do tísico são restaurados, a pobre cabeça aflita

está livre,

As articulações do reumático movem-se tão suavemente quanto antes, e ainda

mais suavemente que antes,

Sufocamentos e passagens se abrem, os paralíticos tornam-se flexíveis,

Os inchados, convulsos e congestionados despertam para si mesmos em boas condições,

Atravessam o revigoramento da noite e a química da

noite, e despertam.

Também eu passo para fora da noite,

Permaneço algum tempo longe, ó noite, mas volto novamente a ti e te amo.

Por que haveria de temer entregar-me a ti?

Não tenho medo, fui bem conduzido por ti,

Amo o rico dia corrente, mas não abandono aquela em quem permaneci por tanto tempo,

Não sei como vim de ti e não sei aonde vou contigo, mas

sei que vim bem e irei bem.

Permanecerei apenas algum tempo com a noite, e me levantarei cedo,

Atravessarei devidamente o dia, ó minha mãe, e devidamente voltarei a ti.

Transposições

Que os reformadores desçam das tribunas onde vivem para sempre

berrando, que um idiota ou um louco apareça em cada uma das tribunas;

Que juízes e criminosos troquem de lugar, que os carcereiros sejam

postos na prisão, que aqueles que eram prisioneiros recebam as chaves;

Que os que desconfiam do nascimento e da morte conduzam os demais.

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