Sábado Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack · Capítulo 2 de 8
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Sábado

“Vem, vem, minha bela amada, e provemos

Essas delícias campestres.”

Convite de Cristo à Alma. QUARLES

Por fim, no sábado, último dia de agosto de 1839, nós dois, irmãos e naturais de Concord, levantamos âncora neste porto fluvial; pois Concord também jaz sob o sol, porto de entrada e partida tanto para os corpos quanto para as almas dos homens; ao menos uma de suas margens está isenta de todos os tributos, salvo aqueles que um homem honesto se dispõe de bom grado a pagar. Uma chuva morna e miúda obscurecera a manhã e ameaçara atrasar nossa viagem, mas por fim as folhas e a relva secaram, e abriu-se uma tarde amena, tão serena e fresca como se a Natureza estivesse amadurecendo algum desígnio maior, só seu. Depois daquele longo gotejar e porejar de cada poro, ela começou a respirar outra vez com mais saúde do que nunca. Assim, com um vigoroso empurrão, lançamos nosso barco da margem, enquanto as espadanas e os juncos faziam uma reverência de boa viagem, e descemos silenciosamente pela corrente.

Nosso barco, que nos custara uma semana de trabalho na primavera, tinha a forma de um dóri de pescador, quinze pés de comprimento por três e meio de largura na parte mais larga, pintado de verde embaixo, com uma borda azul, em referência aos dois elementos nos quais deveria passar sua existência. Fora carregado na noite anterior diante de nossa porta, a meia milha do rio, com batatas e melões de um terreno que havíamos cultivado, além de alguns utensílios, e era provido de rodas para que pudesse ser levado por terra contornando as quedas, bem como de dois pares de remos e várias varas delgadas para impulsioná-lo nos trechos rasos, e ainda de dois mastros, um dos quais servia de vara de tenda à noite; pois uma pele de búfalo seria nossa cama, e uma tenda de tecido de algodão, nosso teto. Era solidamente construído, mas pesado, e dificilmente de modelo melhor que o comum. Se bem-feito, um barco seria uma espécie de animal anfíbio, criatura de dois elementos, aparentada por metade de sua estrutura a algum peixe veloz e bem torneado, e pela outra a alguma ave de asas fortes e graciosas. O peixe mostra onde devem ficar a maior largura da boca e a maior profundidade do porão; suas nadadeiras indicam onde colocar os remos, e a cauda dá alguma sugestão quanto à forma e à posição do leme. A ave mostra como aparelhar e ajustar as velas, e que forma dar à proa para que equilibre o barco e corte do melhor modo o ar e a água. A essas sugestões havíamos obedecido apenas em parte. Mas os olhos, embora não sejam marinheiros, jamais se contentarão com modelo algum, por mais em moda que esteja, se ele não satisfizer a todas as exigências da arte. Contudo, assim como a arte é tudo num navio, exceto a madeira, e ainda assim a madeira sozinha serve rudemente ao propósito de um navio, nosso barco, sendo de madeira, valeu-se com satisfação da antiga lei segundo a qual o mais pesado flutua sobre o mais leve e, embora fosse uma ave aquática lerda, mostrou-se boia suficiente para nosso propósito.

“Fosse essa a vontade do Céu, um ramo de vime

Seria embarcação segura o bastante para singrar os mares.”

Alguns amigos da aldeia estavam num promontório mais abaixo na corrente, para nos acenar uma última despedida; mas nós, já tendo cumprido esses ritos da margem, com uma reserva desculpável, como convém aos que embarcam em empreendimentos incomuns, que veem mas não falam, deslizamos em silêncio pelas terras firmes de Concord, tanto pelo cabo povoado quanto pelo solitário prado de verão, com remadas regulares. E, no entanto, chegamos a nos descontrair o bastante para deixar que nossas espingardas falassem por nós, quando afinal remamos para fora de vista, e assim deixamos os bosques ressoando novamente com seus ecos; e pode ser que muitas crianças vestidas de castanho, escondidas naqueles vastos prados, junto ao socó, à galinhola e à saracura, embora inteiramente ocultas pelos fetos, pela hardhack e pela rainha-dos-prados, tenham ouvido nossa saudação naquela tarde.

Logo passávamos flutuando pelo primeiro campo de batalha regular da Revolução, repousando sobre os remos entre os pilares ainda visíveis daquela “Ponte Norte”, sobre a qual, em abril de 1775, rolou a primeira onda tênue daquela guerra, que não cessou até que, como lemos na pedra à nossa direita, “deu paz a estes Estados Unidos”. Como cantou um poeta de Concord:

“Junto à rude ponte que arqueava a enchente,

Com a bandeira ao vento de abril desfraldada,

Aqui outrora ficaram os lavradores em batalha,

E dispararam o tiro ouvido em todo o mundo.

“O inimigo há muito dormia em silêncio;

Do mesmo modo dorme em silêncio o vencedor;

E o Tempo varreu a ponte arruinada

Pela corrente escura que rasteja rumo ao mar.”

Nossas reflexões já haviam adquirido um afastamento histórico das cenas que deixáramos para trás, e nós mesmos tentamos cantar.

Ah, em vão o estrépito pacífico

Que desperta a cidade sem nobreza;

Não foi assim que espíritos mais bravos conquistaram

O renome de um patriota.

Há um campo junto a esta corrente

Onde nenhum pé vem pousar,

Mas ainda assim ele produz em meu sonho

Colheita mais rica que todos.

Deixai-me crer num sonho tão caro:

Algum coração bateu alto naquele dia,

Acima da mesquinha Província daqui

E da longínqua Grã-Bretanha;

Algum herói do molde antigo,

Algum braço de valor cavalheiresco,

De força que não se comprava e fé que não se vendia,

Honrou este pedaço da terra;

Que buscou o prêmio descrito por seu coração

E não pediu dispensa,

Cuja bravura nascida livre não foi subornada

Pela perspectiva de uma paz.

Os homens que ficaram naquela altura

Naquele dia há muito se foram;

Não é a mesma mão que dirige a luta

E a pedra monumental.

Vós éreis então as cidades gregas,

As Romas de nascimento moderno,

Onde os lavradores da Nova Inglaterra

Demonstraram valor romano.

Em vão procuro em terra estrangeira

Encontrar nosso Bunker Hill,

E Lexington e Concord não se erguem

Junto a nenhum riacho lacônio.

Com tais pensamentos passamos suavemente por esse campo de pastagem agora pacífico, sobre as ondas de Concord, nas quais há muito se afogou o estrépito da guerra.

Mas desde que partimos

Algumas coisas falharam,

E muito sonho

Desceu pela corrente.

Aqui então morava um velho pastor,

Que ao rebanho repartia seus bens

E o governava com cajado vigoroso,

Segundo o preceito do Livro sagrado;

Mas transpôs a ponte sem pilares

E deixou solitária a margem.

Logo veio um jovem pastor,

Cujo cajado não era desconhecido da fama;

Com olhar gentil contemplava seus cordeiros,

Espalhados pela vasta extensão do país,

E os alimentava com “Musgos de uma Velha Mansão”.

Aqui estava nosso Hawthorne no vale,

E aqui o pastor contou sua história.

Aquela haste delgada já desaparecera atrás das colinas, e havíamos flutuado ao redor da curva próxima e sob a nova Ponte Norte, entre Ponkawtasset e Poplar Hill, entrando nos Grandes Prados, que, como a larga marca de um mocassim, aplainaram na Natureza um lugar fértil e suculento.

Em Ponkawtasset, desde que tomamos nosso rumo,

Por esta corrente quieta até a distante Billericay,

Fixou-se um poeta sábio, cujo raio delicado

Muitas vezes brilha no crepúsculo de Concord.

Como aquelas primeiras estrelas, cujos raios de prata no alto,

Brilhando mais à medida que o dia se vai,

A maioria dos viajantes a princípio não consegue discernir,

Mas olhos acostumados a percorrer o céu vespertino,

E que conhecem as luzes celestes, veem-nas com clareza

E as saúdam com alegria, contando duas ou três;

Pois saber profundo deve ser profundamente estudado,

Como de poços profundos os homens leem poesia estelar.

Essas estrelas jamais empalidecem, embora fora de vista,

Mas, como o sol, brilham para sempre luminosas;

Sim, elas são sóis, embora a terra em seu voo

Tenha de apagar os olhos para poder ver-lhes a luz.

Quem negligenciaria o menor som celeste,

Ou a luz mais tênue que cai sobre a terra,

Se pudesse saber que um dia se descobriria

Ser ela aquela estrela em Cygnus para a qual seguimos,

E que faria nosso sol empalidecer sob seu fulgor celeste?

Gradualmente o murmúrio da aldeia se extinguiu, e parecíamos embarcados na corrente plácida de nossos sonhos, flutuando do passado para o futuro tão silenciosamente quanto alguém desperta para novos pensamentos da manhã ou da tarde. Deslizávamos sem ruído pela corrente, vez ou outra expulsando um lúcio ou uma brema do abrigo das folhas de nenúfar, e o socó menor de quando em quando se afastava velejando com asas indolentes de algum recesso da margem, ou o maior erguia-se da relva alta à nossa aproximação e carregava para longe suas preciosas pernas, a fim de depositá-las em lugar seguro. As tartarugas também se deixavam cair rapidamente na água, enquanto nosso barco enrugava a superfície entre os salgueiros, desfazendo os reflexos das árvores. As margens já haviam ultrapassado o auge de sua beleza, e algumas das flores mais vivas mostravam, pelos tons desbotados, que a estação avançava para a tarde do ano; mas esse matiz sombrio realçava sua sinceridade e, no calor ainda não diminuído, elas pareciam a borda musgosa de algum poço fresco. O salgueiro de folhas estreitas (Salix Purshiana) estendia-se ao longo da superfície da água em massas de folhagem verde-clara, entremeadas pelas grandes bolas do button-bush. O pequeno polígono cor-de-rosa erguia orgulhosamente a cabeça acima da água, dos dois lados, e, florescendo nesta estação e nesses lugares, diante dos campos densos da espécie branca que bordejavam as margens da corrente, sua pequena faixa vermelha parecia muito rara e preciosa. As flores de um branco puro da erva-flecha erguiam-se nas partes mais rasas, e algumas lobélias-cardinais na margem ainda se contemplavam com orgulho refletidas na água, embora estas, assim como a pickerel-weed, já estivessem quase sem flores. A snake-head, Chelone glabra, crescia junto à margem, enquanto uma espécie de coreópsis, voltando para o sol seu rosto de bronze, cheia e vigorosa, e uma alta flor de vermelho baço, Eupatorium purpureum, ou trumpet-weed, formavam a retaguarda da formação fluvial. As flores azul-vivo da genciana soap-wort salpicavam aqui e ali os prados adjacentes, como flores deixadas cair por Prosérpina; e, mais longe nos campos ou mais acima na margem, viam-se a Gerardia púrpura, a rhexia-da-Virgínia e a neótia pendente, ou tranças-de-dama; enquanto das estradas mais distantes pelas quais ocasionalmente passávamos, e das margens onde o sol se alojara, ainda se refletia um raio amarelo baço das fileiras de tanásia, já passada de seu auge. Em suma, a Natureza parecia ter-se adornado para nossa partida com uma profusão de franjas e cachos, mesclados aos tons vivos das flores, refletidos na água. Mas sentimos falta do nenúfar-branco, que é a rainha das flores do rio, pois seu reinado terminara naquela estação. Talvez faça sua viagem tarde demais, segundo um verdadeiro relógio de água, quem demora tanto. Muitas plantas dessa espécie habitam nossas águas de Concord. Já desci o rio antes do nascer do sol, numa manhã de verão, entre campos de nenúfares ainda fechados no sono; e, quando enfim os flocos de luz solar vindos por cima da margem caíram sobre a superfície da água, campos inteiros de flores brancas pareceram abrir-se num clarão diante de mim, enquanto eu flutuava, como o desfraldar de uma bandeira, tamanha é a sensibilidade dessa flor à influência dos raios solares.

Enquanto flutuávamos pelo último desses prados familiares, observamos as flores grandes e vistosas do hibisco, cobrindo os salgueiros-anões e misturadas às folhas da videira, e desejamos poder informar a um de nossos amigos que ficara para trás a localização dessa flor um tanto rara e inacessível, antes que fosse tarde demais para colhê-la; mas já deslizávamos para fora da vista do campanário da aldeia quando nos ocorreu que o lavrador no prado adjacente iria à igreja no dia seguinte e levaria a notícia por nós; e assim, na segunda-feira, enquanto estivéssemos flutuando pelo Merrimack, nosso amigo estaria estendendo a mão para colher essa flor na margem do Concord.

Depois de uma pausa na colina de Ball, nós, os voyageurs de Santa Ana de Concord, não para elevar qualquer prece pelo êxito de nossa viagem, mas para colher as poucas frutas silvestres que ainda restavam nas colinas, pendendo por fios muito tênues, levantamos âncora outra vez e logo perdemos de vista nossa aldeia natal. A terra parecia tornar-se mais bela à medida que dela nos afastávamos. Bem longe, a sudoeste, jazia a aldeia tranquila, deixada a sós sob seus olmos e plátanos-americanos no meio da tarde; e as colinas, apesar de seus semblantes azuis e etéreos, pareciam lançar um olhar entristecido a seus antigos companheiros de brincadeiras; mas, fazendo uma curva brusca para o norte, dissemos adeus a seus contornos familiares e nos voltamos para novas paisagens e aventuras. Nada nos era familiar senão os céus, de sob cujo teto o voyageur jamais sai; mas, contando com seu semblante e com o conhecimento que tínhamos do rio e da mata, confiávamos em seguir bem sob quaisquer circunstâncias.

A partir desse ponto, o rio corre perfeitamente reto por uma milha ou mais até a ponte de Carlisle, que consiste em vinte pilares de madeira, e, quando olhamos para trás através dela, sua superfície se reduzia à largura de uma linha e parecia uma teia de aranha reluzindo ao sol. Aqui e ali via-se uma vara erguida, a marcar o lugar onde algum pescador tivera sorte incomum e, em retribuição, consagrara sua vara às divindades que presidem esses baixios. O rio tinha agora duas vezes a largura de antes, profundo e tranquilo, com fundo lodoso e margeado por salgueiros, para além dos quais se estendiam largas lagoas cobertas de folhas flutuantes, taboas e íris-dos-pântanos.

No fim da tarde, passamos por um homem que pescava na margem com uma longa vara de bétula, ainda revestida de sua casca prateada, tendo um cão ao lado; remamos tão perto que agitamos sua boia com os remos e lhe afugentamos a sorte por algum tempo. E, depois de termos remado uma milha em linha tão reta quanto uma flecha, com o rosto ainda voltado para ele e as bolhas de nossa esteira ainda visíveis na superfície tranquila, lá continuava o pescador com seu cão, como estátuas sob o outro lado dos céus, os únicos objetos a aliviar a vista no prado extenso; e ali permaneceria, à espera da sorte, até tomar o caminho de casa através dos campos ao entardecer, levando consigo os peixes. Assim, com uma isca ou outra, a Natureza atrai habitantes a todos os seus recantos. Esse homem foi o último de nossos concidadãos que vimos, e, por meio dele, despedimo-nos em silêncio de nossos amigos.

As características e ocupações das várias eras e raças humanas existem sempre em epítome em cada vizinhança. Os prazeres de minha primeira juventude tornaram-se herança de outros homens. Este homem ainda é pescador e pertence a uma era em que eu mesmo vivi. Talvez não esteja confundido por muitos conhecimentos nem tenha procurado muitas invenções; mas descobrir como apanhar muitos peixes antes que o sol se ponha, com sua delgada vara de bétula e sua linha de linho, é invenção bastante para ele. É bom até mesmo ser pescador no verão e no inverno. Alguns homens são juízes nestes dias de agosto, sentados em seus bancos até que o tribunal suspenda a sessão; ali se sentam julgando honradamente, entre as estações e entre as refeições, levando uma vida civil e política, arbitrando no caso de Spaulding versus Cummings, talvez, desde o meio-dia mais alto até que a vermelha véspera mergulhe no oeste. Enquanto isso, o pescador permanece em três pés de água, sob o mesmo sol de verão, arbitrando outros casos entre o verme-da-lama e o peixe-brilhante, em meio ao perfume de nenúfares, hortelã e pontedéria, levando sua vida a muitas varas de distância da terra seca, a menos de uma vara do lugar onde nadam os peixes maiores. Para ele, a vida humana se parece muito com um rio,

—“correndo sempre para baixo, rumo ao mar.”

Essa foi a observação dele. Sua Excelência fez uma grande descoberta no direito de custódia de bens.

Ainda consigo recordar um velho de casaco marrom que era o Walton deste rio, vindo de Newcastle, na Inglaterra, com o filho, este um homem robusto e vigoroso que, em seu tempo, erguera uma âncora. Era um velho aprumado, que seguia em silêncio pelos prados, já ultrapassado o período de comunicação com seus semelhantes; seu velho e experiente casaco, longo, reto e marrom como a casca do pinheiro-amarelo, cintilava com tanta luz do sol abafada, caso se chegasse perto o bastante, que já não parecia obra de arte, mas algo enfim naturalizado. Muitas vezes eu o descobria inesperadamente entre as folhas flutuantes e os salgueiros cinzentos, quando ele se movia, pescando segundo algum método do velho país, pois então juventude e velhice iam pescar juntas, cheio de pensamentos incomunicáveis, talvez sobre seu próprio Tyne e Northumberland. Era sempre visto nas tardes serenas, assombrando o rio e quase farfalhando com as ciperáceas; tantas horas ensolaradas na vida de um velho, apanhando peixes tolos; quase transformado em íntimo do sol. Que necessidade tinha ele de chapéu ou de qualquer veste, tendo cumprido seu tempo e enxergado através de disfarces tão tênues? Vi como os fados de sua própria idade o recompensavam com a perca-amarela, e ainda assim me parecia que sua sorte não estava à altura de seus anos; e vi quando, a passos lentos e curvado por pensamentos envelhecidos, ele desaparecia com seus peixes sob o teto baixo de sua casa nos limites da aldeia. Creio que ninguém mais o via; ninguém mais se lembra dele agora, pois pouco depois morreu e migrou para novos rios Tyne. Sua pesca não era esporte, nem apenas meio de subsistência, mas uma espécie de sacramento solene e de retirada do mundo, assim como os velhos leem suas Bíblias.

Quer vivamos à beira-mar, junto a lagos e rios ou na pradaria, importa-nos atentar para a natureza dos peixes, pois eles não são fenômenos restritos apenas a certas localidades, mas formas e fases da vida na natureza, universalmente disseminadas. Os incontáveis cardumes que todos os anos costeiam as praias da Europa e da América não são tão interessantes para o estudioso da natureza quanto a própria lei, mais fecunda, que deposita suas ovas no alto das montanhas e nas planícies interiores; o princípio dos peixes na natureza, do qual resulta que possam ser encontrados na água em tantos lugares, em maior ou menor número. O naturalista não é um pescador que apenas reza por dias nublados e boa sorte; mas, assim como a pesca foi chamada de “recreação do homem contemplativo”, apresentando-lhe de modo proveitoso as matas e as águas, também o fruto das observações do naturalista não está em novos gêneros ou espécies, mas em contemplações sempre novas, e a ciência é apenas a recreação de um homem ainda mais contemplativo. As sementes da vida dos peixes estão disseminadas por toda parte, quer os ventos as transportem, quer as águas as façam flutuar, quer a terra profunda as retenha; onde quer que se cave um lago, ele logo é povoado por essa raça vivaz. Eles têm um contrato de arrendamento com a natureza, e o prazo ainda não expirou. Subornam-se os chineses para que levem suas ovas de província em província, em jarros ou caniços ocos, ou as aves aquáticas para que as transportem aos lagos de montanha e aos lagos do interior. Há peixes onde quer que exista um meio fluido, e até nas nuvens e nos metais fundidos detectamos sua semelhança. Pense em como, no inverno, se pode fazer descer uma linha verticalmente num pasto, através da neve e do gelo, e puxar para cima um peixe subterrâneo, prateado ou dourado, brilhante, escorregadio e mudo! Também é curioso refletir sobre como formam uma só família, do maior ao menor. O menor peixinho que jaz sobre o gelo como isca para o lúcio parece um enorme peixe marinho lançado à praia. Nas águas desta cidade há cerca de uma dúzia de espécies distintas, embora os inexperientes esperassem muitas mais.

Aumenta nossa percepção da grande segurança e serenidade da natureza observar a economia e o contentamento ainda imperturbados dos peixes deste século, sua felicidade como fruto regular do verão. O peixe-sol de água doce, brema ou ruff, Pomotis vulgaris, como que sem ancestrais nem posteridade, ainda representa na natureza o peixe-sol de água doce. É o mais comum de todos e aparece no cordão de todo moleque; um peixe simples e inofensivo, cujos ninhos são visíveis ao longo de toda a margem, escavados na areia, sobre os quais ele se mantém firmemente suspenso durante as horas de verão, com as nadadeiras ondulantes. Às vezes há vinte ou trinta ninhos no espaço de poucas varas, com dois pés de largura e meio pé de profundidade, feitos com trabalho nada pequeno: as plantas aquáticas são removidas, e a areia, empurrada para os lados, formando uma tigela. Ali pode ser visto, no início do verão, incubando assiduamente e afugentando peixinhos e peixes maiores, até os de sua própria espécie, que perturbariam suas ovas, perseguindo-os por alguns pés e retornando rapidamente em círculo ao ninho; nesse meio-tempo, os peixinhos, como tubarões jovens, entram de imediato nos ninhos vazios e engolem as ovas, presas às plantas e ao fundo, do lado ensolarado. As ovas ficam expostas a tantos perigos que apenas uma proporção muito pequena pode chegar a tornar-se peixe, pois, além de serem presa constante de aves e peixes, muitos ninhos são feitos tão perto da margem, em águas rasas, que ficam secos em poucos dias, à medida que o rio baixa. Esses ninhos e os das lampreias são os únicos ninhos de peixes que observei, embora as ovas de algumas espécies possam ser vistas flutuando na superfície. As bremas cuidam tanto de sua prole que se pode ficar na água bem perto delas e examiná-las à vontade. Já permaneci assim sobre elas por meia hora de cada vez e as acariciei familiarmente sem assustá-las, deixando que mordiscassem meus dedos sem causar dano; vi-as erguer as nadadeiras dorsais com raiva quando minha mão se aproximava das ovas e cheguei até a retirá-las delicadamente da água com a mão. Isso, porém, não pode ser feito com um movimento súbito, por mais hábil que seja, pois um aviso instantâneo lhes é transmitido por seu elemento mais denso; só é possível deixando os dedos se fecharem gradualmente em torno delas enquanto permanecem suspensas sobre a palma e, com a máxima delicadeza, erguendo-as devagar até a superfície. Embora estacionárias, mantêm com as nadadeiras um movimento constante de remada ou ondulação, extremamente gracioso e expressivo de sua humilde felicidade; pois, ao contrário do nosso, o elemento em que vivem é uma corrente à qual precisam resistir sem cessar. De tempos em tempos, mordiscam as plantas no fundo ou as que pendem sobre os ninhos, ou se lançam atrás de uma mosca ou de um verme. A nadadeira dorsal, além de cumprir a função de quilha, serve, com a anal, para manter o peixe ereto, pois, em águas rasas, quando ela não fica coberta, eles tombam de lado. Quando se permanece assim inclinado sobre a brema em seu ninho, as bordas das nadadeiras dorsal e caudal têm um singular reflexo dourado e empoeirado, e seus olhos, salientes da cabeça, são transparentes e incolores. Visto em seu elemento nativo, é um peixe muito belo e compacto, perfeito em todas as partes, e parece uma moeda brilhante recém-saída da casa da moeda. É uma joia perfeita do rio: os reflexos verdes, vermelhos, acobreados e dourados de seus flancos mosqueados são a concentração dos raios que conseguem atravessar as folhas e flores flutuantes até o fundo arenoso, em harmonia com os seixos marrons e amarelos iluminados pelo sol. Por trás de seu escudo aquático, ele habita longe de muitos acidentes inevitáveis à vida humana.

Há também em nosso rio outra espécie de brema, sem a mancha vermelha no opérculo, que, segundo o sr. Agassiz, ainda não foi descrita.

A perca-comum, Perca flavescens, cujo nome descreve bem os reflexos fulgurantes e dourados de suas escamas quando é retirada da água, com as guelras vermelhas ressaltando em vão no elemento rarefeito, é um dos mais belos e mais regularmente formados de nossos peixes e, num momento como este, lembra-nos o peixe da gravura que desejava ser restituído ao seu elemento nativo até que tivesse crescido mais; e, de fato, a maioria dos exemplares dessa espécie que se capturam ainda não chegou à metade do crescimento. Nos lagos há uma variedade esguia e de cor clara que nada, em cardumes de muitas centenas, pelas águas ensolaradas, em companhia do shiner, não medindo em média mais de seis ou sete polegadas de comprimento, ao passo que apenas alguns exemplares maiores são encontrados nas águas mais profundas, onde fazem presa de seus irmãos mais fracos. Muitas vezes atraí essas pequenas percas para a margem ao entardecer, encrespando a água com os dedos, e às vezes é possível apanhá-las quando tentam passar por dentro das mãos. É um peixe resistente e imprudente, que morde por impulso, sem beliscar a isca, e por impulso se abstém de morder, remando indiferente para longe. Prefere antes as águas límpidas e os fundos arenosos, embora aqui não disponha de muita escolha. É um peixe de verdade, desses que o pescador gosta de pôr no cesto ou pendurar na ponta superior de sua vara de salgueiro, nas tardes sombreadas ao longo das margens do rio. Tantos peixes indiscutíveis ele conta, e tantos shiners, que conta e depois joga fora. O velho Josselyn, em seu New England’s Rarities, publicado em 1672, menciona a perca, ou perdiz-do-rio.

O chivin, dace, roach, truta-prima, ou qualquer outro nome que lhe deem, Leuciscus pulchellus, branco e vermelho, é sempre um prêmio inesperado, que, no entanto, qualquer pescador se alegra em fisgar por sua raridade. Um nome que nos recorda muitas caminhadas infrutíferas à beira de cursos d’água velozes, quando o vento se levantava para frustrar o pescador. Em geral é um peixe prateado, de escamas macias, aspecto gracioso, erudito e clássico, como tantas figuras de um livro inglês. Gosta de correnteza rápida e fundo arenoso, e morde inadvertidamente, embora não sem apetite pela isca. Os peixinhos são usados como isca para o pickerel no inverno. O chivin vermelho, segundo alguns, continua sendo o mesmo peixe, apenas mais velho, ou com as tonalidades aprofundadas, segundo pensam, pelas águas mais escuras que habita, assim como as nuvens vermelhas nadam na atmosfera crepuscular. Quem nunca fisgou o chivin vermelho ainda não é um pescador completo. Outros peixes, parece-me, são ligeiramente anfíbios, mas este é por inteiro um habitante da água. A cortiça vai dançando corrente abaixo pelo curso impetuoso, entre ervas e areias, quando de súbito, por uma coincidência que jamais será lembrada, emerge esse fabuloso habitante de outro elemento, uma criatura de que se ouviu falar, mas que nunca se viu, como se fosse a criação instantânea de um remoinho, verdadeiro produto da água corrente. E esse brilhante delfim acobreado foi desovado e passou a vida abaixo do nível de seus pés, em seus campos natais. Também os peixes, assim como as aves e as nuvens, extraem da mina sua armadura. Ouvi dizer que as cavalas visitam bancos de cobre em certa estação; este peixe, talvez, tenha seu habitat no rio Coppermine. Pesquei chivins brancos de grande tamanho no Aboljacknagesic, onde ele deságua no Penobscot, ao pé do monte Ktaadn, mas nenhum vermelho por lá. Esta última variedade parece não ter sido suficientemente observada.

O dace, Leuciscus argenteus, é um peixinho esguio e prateado, encontrado em geral no meio do rio, onde a corrente é mais rápida, e frequentemente confundido com o último mencionado.

O shiner, Leuciscus crysoleucas, é um peixe de escamas macias e carne tenra, vítima de seus vizinhos mais fortes, encontrado por toda parte, em águas fundas e rasas, límpidas e turvas; costuma ser o primeiro a beliscar a isca, mas, por ter a boca pequena e inclinação a mordiscá-la, não é fácil de apanhar. É uma moedinha de ouro ou prata que tem curso no rio, a cauda flexível encovando a superfície em brincadeira ou fuga. Já vi os alevinos, assustados por alguma coisa lançada à água, saltarem às dezenas, junto com os daces, e irem naufragar sobre uma prancha flutuante. É o pequeno infante de luz do rio, com a couraça do corpo feita de lantejoulas de ouro ou prata, escapando, deslizando pela vida com um meneio da cauda, metade na água, metade no ar, para cima e sempre para cima, com a barbatana fugaz, rumo a marés mais cristalinas, embora ainda lado a lado conosco, habitantes da margem. Quase se dissolve sob os calores do verão. Em um de nossos lagos encontra-se um shiner mais esguio e de coloração mais clara.

O pickerel, Esox reticulatus, o mais veloz, cauteloso e voraz dos peixes, a que Josselyn chama lobo de água doce ou lobo-do-rio, é muito comum nas lagoas rasas e cobertas de plantas ao longo das margens do rio. É um peixe solene, majestoso e ruminante, oculto sob a sombra de uma folha flutuante ao meio-dia, com o olho imóvel, circunspecto e voraz, sem se mover como uma joia incrustada na água, ou avançando lentamente para tomar posição, lançando-se de tempos em tempos sobre algum peixe, sapo ou inseto desafortunado que entre em seu alcance e engolindo-o de uma só vez. Capturei um que havia engolido outro pickerel, seu irmão, com metade de seu tamanho, cuja cauda ainda era visível na boca, enquanto a cabeça já fora digerida no estômago. Às vezes uma cobra listrada, a caminho de prados mais verdes do outro lado do rio, encerra seu avanço ondulante no mesmo receptáculo. São tão ávidos e impetuosos que com frequência são capturados ao se enredarem na linha no instante em que ela é lançada. Os pescadores também distinguem o pickerel de riacho, peixe mais curto e grosso que o anterior.

O horned pout, Pimelodus nebulosus, às vezes chamado ministro, por causa do peculiar rangido que emite quando é retirado da água, é uma criatura lerda e desajeitada e, como a enguia, de hábitos vespertinos e afeita à lama. Morde deliberadamente, como quem cuida de seus negócios. São apanhados à noite com uma massa de minhocas enfiadas num fio, que se prende em seus dentes, por vezes três ou quatro, junto com uma enguia, numa só puxada. Têm extrema tenacidade de vida, abrindo e fechando a boca por meia hora depois de lhes cortarem a cabeça. Uma raça sanguinária e valentona de patrulheiros, habitantes dos férteis fundos do rio, sempre com a lança em riste e prontos para travar combate com o vizinho mais próximo. Observei-os no verão, quando um em cada dois exibia nas costas uma longa cicatriz ensanguentada, sem pele, marca talvez de algum encontro feroz. Às vezes os alevinos, com menos de uma polegada de comprimento, são vistos escurecendo a margem aos milhares.

Os suckers, Catostomi Bostonienses e tuberculati, comum e cornudo, talvez em média os maiores de nossos peixes, podem ser vistos em cardumes de cem ou mais, vencendo a corrente sob o sol em suas misteriosas migrações e, às vezes, sugando a isca que o pescador deixa flutuar até eles. Os primeiros, que por vezes atingem grande tamanho, são frequentemente apanhados à mão nos riachos ou, como o chivin vermelho, arrancados com um anzol firmemente preso à extremidade de uma vara e colocado sob suas mandíbulas. Contudo, são pouco conhecidos do mero pescador de anzol, pois raramente mordem suas iscas, embora o pescador de arpão leve para casa muitos deles na primavera. Aos nossos olhos de aldeões, esses cardumes têm um aspecto estrangeiro e imponente, tornando palpável a fecundidade dos mares.

Também a enguia-comum, Muraena Bostoniensis, única espécie de enguia conhecida no Estado, criatura viscosa e retorcida, imbuída de lama, ainda se contorcendo na frigideira, é apanhada com arpão ou anzol, com êxito variável. Parece-me que ela também aparece em alguma gravura, deixada pelo dilúvio em muitos prados agora altos e secos.

Nas partes rasas do rio, onde a corrente é rápida e o fundo pedregoso, às vezes se podem ver os curiosos ninhos circulares da lampreia, Petromyzon Americanus, a sugadora-de-pedras americana, grandes como uma roda de carroça, com um ou dois pés de altura e por vezes elevando-se meio pé acima da superfície da água. Elas recolhem com a boca essas pedras, do tamanho de um ovo de galinha, como sugere seu nome, e diz-se que as dispõem em círculos com a cauda. Sobem quedas-d’água agarrando-se às pedras, que às vezes podem ser erguidas levantando-se o peixe pela cauda. Como não são vistas descendo os cursos d’água, os pescadores pensam que nunca retornam, mas definham e morrem, agarradas a rochas e tocos de árvores por um período indefinido, aspecto trágico da paisagem dos fundos do rio, digno de ser lembrado junto à descrição shakespeariana do fundo do mar. Hoje são raramente vistas em nossas águas por causa das barragens, embora sejam capturadas em grande quantidade na foz do rio, em Lowell. Seus ninhos, muito conspícuos, parecem mais obra de arte do que qualquer outra coisa no rio.

Se tivéssemos tempo livre nesta tarde, poderíamos voltar a proa para os riachos em busca da truta clássica e dos peixinhos. Somente destes últimos, segundo o sr. Agassiz, várias espécies encontradas nesta cidade ainda não foram descritas. Talvez elas completassem a lista de nossos contemporâneos providos de barbatanas nas águas do Concord.

Salmões, sáveis e alewives eram outrora abundantes aqui e capturados em armadilhas pelos indígenas, que ensinaram esse método aos brancos, por quem eram usados como alimento e adubo, até que a barragem, e depois o canal de Billerica e as fábricas de Lowell, puseram fim às suas migrações para cá; embora se pense que alguns sáveis mais empreendedores ainda possam ser vistos ocasionalmente nesta parte do rio. Diz-se, para explicar a destruição da pesca, que aqueles que então representavam os interesses dos pescadores e dos peixes, lembrando-se das datas entre as quais costumavam capturar os sáveis adultos, estipularam que as barragens fossem mantidas abertas apenas durante aquela estação; em consequência, os alevinos, que descem um mês mais tarde, ficaram retidos e foram destruídos aos milhares. Outros dizem que as passagens para peixes não foram construídas adequadamente. Talvez, depois de alguns milhares de anos, se os peixes tiverem paciência e, enquanto isso, passarem os verões em outro lugar, a Natureza terá nivelado a barragem de Billerica e as fábricas de Lowell, e o rio de Terras Relvosas voltará a correr límpido, para ser explorado por novos cardumes migratórios, chegando até o lago de Hopkinton e o pântano de Westborough.

Gostaríamos de saber mais sobre aquela raça, hoje extinta, cujas redes de cerco apodrecem nos sótãos de seus filhos, homens que professavam abertamente o ofício de pescadores e até alimentavam dignamente seus concidadãos, sem se esgueirar pelos prados em busca de um passatempo numa tarde chuvosa. Ainda nos chegam visões indistintas de pescarias milagrosas e de montes incontáveis de peixes à margem do rio, nas histórias de nossos anciãos, enviados a cavalo, quando crianças, das cidades vizinhas, empoleirados sobre alforjes, com instruções para encher um dos sacos de sáveis e o outro de arenques-de-rio. Ao menos uma lembrança daqueles dias talvez ainda sobreviva na memória desta geração, na designação familiar de uma célebre companhia de milícia desta cidade, cujos antepassados sem treinamento se portaram dignamente na Ponte Norte de Concord. Seu capitão, homem de gostos piscatórios, tendo devidamente convocado sua companhia para apresentar-se em certo dia, viu os homens, como soldados obedientes, comparecerem pontualmente à parada na hora marcada; infelizmente, porém, passaram aquele dia de maio sem instrução, exceto nas manobras do espírito soldadesco e da troça sem licença, pois o capitão, esquecido do próprio compromisso e advertido apenas pelo aspecto favorável dos céus, como tantas vezes fizera antes, foi pescar naquela tarde. Desde então, sua companhia ficou conhecida entre velhos e jovens, sisudos e alegres, como “Os Sáveis”, e por muito tempo os rapazes destas redondezas consideraram esse o nome próprio de toda milícia irregular da cristandade. Mas, ai de nós, não resta, que saibamos, nenhum registro da vida desses pescadores, salvo talvez uma breve página de história árida, porém incontestável, encontrada no Livro-Diário nº 4 de um antigo comerciante desta cidade, morto há muito, e que mostra com bastante clareza em que consistia o estoque comercial de um pescador naqueles dias. O documento se apresenta como uma Conta-Corrente de Pescador, provavelmente referente à temporada de pesca de 1805, durante cujos meses ele comprou diariamente rum e açúcar, açúcar e rum, da Nova Inglaterra e das Índias Ocidentais, “uma linha para bacalhau”, “uma caneca marrom” e “uma linha para a rede de cerco”; rum e açúcar, açúcar e rum, “bom açúcar em pão” e “bom mascavo”, das Índias Ocidentais e da Nova Inglaterra, em lançamentos breves e uniformes até o fim da página, todos computados em libras, xelins e pence, de 25 de março a 5 de junho, e prontamente liquidados mediante o recebimento de “dinheiro em pagamento integral” na última data. Mas talvez não liquidados por completo. Essas eram as necessidades da vida naqueles dias; tendo salmões, sáveis e arenques-de-rio, frescos e em conserva, ele dali por diante não dependia das mercearias. Havia certa preponderância dos elementos líquidos, mas assim é a natureza do pescador. Recordo vagamente ter visto esse mesmo pescador em minha primeira juventude, ainda tão perto do rio quanto lhe era possível chegar, com passo incerto e ondulante, depois que tantas coisas haviam descido a corrente, manejando uma foice no prado, sua garrafa qual serpente oculta na relva; ele próprio ainda não ceifado pelo Grande Ceifador.

Certamente os destinos são para sempre benévolos. Embora as leis da Natureza sejam mais imutáveis que as de qualquer déspota, raramente parecem rígidas na vida cotidiana do homem, antes lhe permitem entregar-se com liberdade ao descanso no tempo de verão. Ele não é duramente lembrado das coisas que não pode fazer. Ela é muito bondosa e liberal para com todos os homens de hábitos viciosos e certamente não lhes nega quartel; eles não morrem sem sacerdote. Ainda assim, vão sustentando a vida pelo caminho, mantendo-se deste lado do Estige, ainda vigorosos, ainda resolutos, “nunca estiveram melhores na vida”; e, novamente, depois de transcorrida uma dúzia de anos, surgem detrás de uma sebe, pedindo trabalho e salário de homens robustos. Quem nunca encontrou um desses

“mendigos pelo caminho,

Que firme podia andar?...

Que não ligava ao vento ou à chuva,

Nas terras por onde passava?”

“Esse audaz adota como sua cada casa que avista;

Faz de cada pulso seu tesouro e, a seu bel-prazer,

Sai a caminhar e tributa o mundo inteiro, como César”;

Como se a constância fosse o segredo da saúde, enquanto o pobre homem aspirante e inconstante, buscando levar uma vida pura, alimentando-se de ar, dividido contra si mesmo, não consegue manter-se de pé, mas definha e morre, após uma vida de enfermidade, sobre leitos de plumas.

Os insensatos costumam falar como se alguns homens não estivessem doentes; mas penso que a diferença entre os homens quanto à saúde não é grande o bastante para que se dê muita importância a ela. Alguns têm fama de doentes, e outros não. Acontece com frequência que o mais enfermo seja o enfermeiro do mais saudável.

Sáveis ainda são apanhados na bacia do rio Concord, em Lowell, onde se diz que chegam um mês antes dos sáveis do Merrimack, devido ao calor da água. Ainda pacientes, quase patéticos, com um instinto que não se deixa desanimar nem se deixa convencer pela razão, revisitam seus antigos paradeiros, como se seus destinos severos fossem abrandar-se, e ainda encontram pela frente a Corporação com sua represa. Pobre sável! Onde está tua reparação? Quando a Natureza te deu o instinto, deu-te também coração para suportar teu destino? Ainda vagueias pelo mar em tua armadura de escamas, a indagar humildemente, nas fozes dos rios, se porventura o homem as deixou livres para que entres. Em cardumes incontáveis, vagueando entrementes na incerteza, limitando-te a vencer ali a corrente, exposto aos inimigos do mar apesar de tua armadura brilhante, aguardando novas instruções, até que as areias, até que a própria água, te digam se é assim ou não. Assim, em nações migratórias inteiras, repletas de instinto, que é tua fé, nesta primavera tardia, lançado à deriva, talvez nem saibas onde os homens não habitam, onde não há fábricas, nos dias de hoje. Armado sem espada nem choque elétrico, simples Sável, armado apenas de inocência e de uma causa justa, com a terna boca muda sempre voltada para a frente e escamas que facilmente se desprendem. Quanto a mim, estou contigo; e quem sabe o que uma alavanca de ferro poderá fazer contra aquela represa de Billerica? Sem desesperar quando miríades inteiras já se foram alimentar aqueles monstros marinhos durante tua espera, mas ainda valente, indiferente, sustentado ali por tua barbatana leve, como sável reservado a destinos mais altos. Disposto a ser dizimado em benefício do homem depois da época da desova. Fora com a phil-antropia superficial e egoísta dos homens; quem sabe que admirável virtude dos peixes pode existir abaixo da marca da maré baixa, resistindo a um destino cruel, sem ser admirada pela única criatura semelhante capaz de apreciá-la! Quem ouve os peixes quando clamam? Alguma memória não esquecerá que fomos contemporâneos. Em breve terás livre passagem rio acima, por todos os rios do globo, se não me engano. Sim, até teu obscuro sonho aquático será mais que realizado. Se não fosse assim, se fosses ignorado no princípio e no fim, eu não aceitaria o céu deles. Sim, digo-o eu, que penso saber mais do que tu podes saber. Mantém firme a barbatana, então, e vence todas as correntes que encontrares.

Por fim, parece que os interesses, não apenas dos peixes, mas também dos homens de Wayland, Sudbury e Concord, exigem o nivelamento daquela represa. Inúmeros acres de prado aguardam ser convertidos em terra seca, e a relva nativa e selvagem, dar lugar à inglesa. Os fazendeiros ficam de foices afiadas, esperando que as águas baixem, por gravitação, evaporação ou qualquer outro meio; mas às vezes seus olhos não encontram repouso e suas rodas não rodam sobre o solo trêmulo do prado em momento algum da temporada do feno. Tantas fontes de riqueza inacessíveis. Calculam que a perda assim sofrida somente na cidade de Wayland equivale à despesa de manter cem juntas de bois durante o ano inteiro. Num ano não muito distante, segundo me informam, estando os fazendeiros prontos para conduzir suas carroças aos campos, como de costume, a água não deu sinal de baixar; sem nova atração nos céus, sem cheia nem causa visível, continuava estagnada numa altura sem precedentes. Todos os hidrômetros falharam; alguns chegaram a temer até por sua relva inglesa. Mas emissários velozes revelaram o segredo antinatural: uma nova prancha de retenção, com nada menos que um pé de largura, acrescentada pelos proprietários da represa aos privilégios que já eram altos demais. As cem juntas de bois, entrementes, permaneciam pacientes, contemplando com desejo o prado, aquela relva nativa ondulante e inacessível, ceifada apenas pelo grande ceifador Tempo, que abre uma leira tão larga, sem deixar sequer um tufo que se pudesse enrolar em seus chifres.

Foi uma longa remada desde Ball’s Hill até a Ponte de Carlisle, sentados com o rosto voltado para o sul, enquanto uma brisa ligeira se levantava do norte; mas, ainda assim, a água continua a correr e a relva a crescer, pois agora, tendo passado a ponte entre Carlisle e Bedford, vemos homens ceifando feno ao longe no prado, suas cabeças ondulando como a relva que cortam. À distância, o vento parecia curvar a todos por igual. À medida que a noite se insinuava, uma frescura tão grande atravessava o prado que cada lâmina de relva cortada parecia fervilhar de vida. Nuvens de um púrpura tênue começaram a refletir-se na água, e os sinos das vacas tilintavam mais alto ao longo das margens, enquanto nós, como astutos ratos-d’água, deslizávamos mais perto da beira, procurando um lugar onde armar nosso acampamento.

Por fim, depois de percorrermos cerca de sete milhas, até Billerica, amarramos nosso barco no lado oeste de uma pequena elevação que, na primavera, forma uma ilha no rio. Ali encontramos mirtilos ainda pendentes dos arbustos, onde pareciam ter amadurecido lentamente para nosso uso especial. Pão e açúcar, e cacau fervido em água do rio, compuseram nossa refeição; e, como havíamos bebido com os olhos a paisagem fluvial durante todo o dia, tomamos agora, com a refeição da noite, um gole daquela água, para propiciar os deuses do rio e aguçar nossa visão para os espetáculos que ela haveria de contemplar. O sol se punha de um lado, enquanto nossa elevação contribuía com sua sombra para a noite, do outro. Parecia ficar imperceptivelmente mais claro à medida que a noite se fechava, e revelou-se uma casa de fazenda distante e solitária, que antes se ocultava nas sombras do meio-dia. Não havia outra casa à vista, nem campo cultivado algum. À direita e à esquerda, até o horizonte, estendiam-se bosques esparsos de pinheiros, com suas plumas recortadas contra o céu; do outro lado do rio erguiam-se colinas acidentadas, cobertas de carvalhos arbustivos, emaranhadas de videiras e hera, com uma rocha cinzenta aqui e ali projetando-se do labirinto. Embora a um quarto de milha de distância, quase se podia ouvir as encostas daqueles penhascos farfalhar enquanto as contemplávamos, tamanha era a vastidão de folhas; lugar para faunos e sátiros, onde morcegos passavam o dia pendurados nas rochas e, ao anoitecer, esvoaçavam sobre a água, enquanto vaga-lumes poupavam sua luz sob a relva e as folhas para a noite. Depois de armarmos nossa tenda na encosta, a poucos rods da margem, sentamo-nos no crepúsculo, olhando por sua abertura triangular para nosso mastro solitário junto à água, apenas visível acima dos amieiros e ainda mal aquietado do balanço da corrente; a primeira invasão do comércio naquela terra. Ali estava nosso porto, nossa Óstia. Aquela linha geométrica reta contra a água e o céu representava os refinamentos derradeiros da vida civilizada, e tudo quanto há de sublime na história estava ali simbolizado.

Na maior parte do tempo, a noite não dava sinal de reconhecer a vida humana; nenhuma respiração humana se ouvia, apenas a respiração do vento. Enquanto permanecíamos acordados, mantidos despertos pela novidade de nossa situação, ouvíamos de tempos em tempos raposas pisando as folhas mortas e roçando a relva orvalhada junto à tenda; e, certa vez, um rato-almiscarado remexeu as batatas e os melões em nosso barco, mas, quando corremos para a margem, só conseguimos perceber uma ondulação na água a encrespar o disco de uma estrela. De tempos em tempos, éramos serenados pelo canto de um pardal adormecido ou pelo grito estrangulado de uma coruja; mas, depois de cada som que de perto rompia a quietude da noite, cada estalo de gravetos ou farfalhar entre as folhas, seguia-se uma pausa súbita e um silêncio mais profundo e mais consciente, como se o intruso soubesse que nenhuma vida tinha o direito de estar fora àquela hora. Houve um incêndio em Lowell, segundo julgamos, naquela noite; vimos o horizonte em chamas e ouvimos os distantes sinos de alarme, como uma débil música tilintante trazida até aqueles bosques. Mas o som mais constante e memorável de uma noite de verão, que não deixamos de ouvir em nenhuma das noites seguintes, embora nunca de modo tão incessante e em condições tão favoráveis quanto então, era o latido dos cães domésticos, desde o ladrar mais alto e rouco até a mais tênue palpitação aérea sob os beirais do céu, desde o mastim paciente, porém inquieto, até o terrier tímido e vigilante, primeiro alto e rápido, depois fraco e lento, só imitável num sussurro: au-au-au-au, a-u, a-u, a, a. Mesmo numa região isolada e desabitada como aquela, era som suficiente para os ouvidos da noite, e mais impressionante que qualquer música. Já ouvi a voz de um cão de caça pouco antes do amanhecer, enquanto as estrelas ainda brilhavam, vinda de além dos bosques e do rio, longe no horizonte, e soava tão doce e melodiosa quanto um instrumento. A perseguição sonora de um cão a uma raposa ou outro animal no horizonte talvez tenha sugerido pela primeira vez as notas da trompa de caça, para alternar com elas e aliviar os pulmões do animal. Esse clarim natural ressoou longamente nos bosques do mundo antigo antes que a trompa fosse inventada. Os próprios cães que, taciturnos, uivam para a lua nos terreiros das fazendas, durante essas noites, despertam mais heroísmo em nosso peito do que todas as exortações civis ou sermões de guerra de nossa época. “Antes ser um cão e uivar para a lua” do que muitos romanos que conheço. A noite deve igual gratidão ao clarim do galo, que, com esperança vigilante, desde o próprio pôr do sol, anuncia prematuramente a alvorada. Todos esses sons, o canto dos galos, o uivo dos cães e o zumbido dos insetos ao meio-dia, são provas da saúde da natureza, de seu estado são e sonoro. Tal é a beleza e a precisão infalíveis da linguagem, a arte mais perfeita do mundo; o cinzel de mil anos continua a retocá-la.

Por fim, chegaram as horas sonolentas que antecedem as duas últimas, e todos os sons tiveram a entrada negada a nossos ouvidos.

Quem dorme de dia e de noite caminha

Não encontra espírito, somente figurinha.

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