Terça-feira Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack · Capítulo 5 de 8
Obra Menu

Terça-feira

“De ambos os lados do rio se estendem

Longos campos de cevada e centeio,

Que vestem a campina e encontram o céu;

E através dos campos passa a estrada

Para Camelot de muitas torres.”

TENNYSON.

Muito antes do nascer do dia, saímos a percorrer os arredores, machadinha em punho, em busca de lenha, e fizemos o bosque, ainda adormecido e sonhando, ressoar com nossos golpes. Depois, com nosso fogo, consumimos uma parte da noite tardia, enquanto a chaleira entoava sua cantiga doméstica para a estrela da manhã. Batemos a margem de um lado a outro, despertamos todos os ratos-almiscarados e espantamos o socó e as aves que dormiam em seus poleiros; puxamos o barco para terra, viramo-lo, lavamo-lo e enxaguamos a argila, falando em voz alta como se já fosse pleno dia, até que, por fim, às três horas, havíamos concluído os preparativos e estávamos prontos para prosseguir viagem como de costume; assim, sacudindo a argila dos pés, avançamos para dentro da névoa.

Embora estivéssemos envoltos em bruma, como de costume, confiávamos que por trás dela havia um dia luminoso.

Manejem os remos! avante! avante!

Em cada gota de orvalho da manhã

Repousa a promessa de um dia.

Rios fluem desde o nascer do sol,

Brotando com a manhã orvalhada;

Viajantes remam contra o tempo,

Não conhecem meio-dia ocioso nem poente,

Sempre a par com a aurora.

Belknap, historiador deste Estado, diz que “nas proximidades de rios de água doce e lagoas, uma névoa esbranquiçada pela manhã, pairando sobre a água, é indício seguro de bom tempo naquele dia; e, quando não se vê névoa alguma, espera-se chuva antes do anoitecer”. Aquilo que nos parecia revestir o mundo era apenas uma estreita e rasa grinalda de vapor estendida sobre o leito do Merrimack, desde o litoral até as montanhas. Névoas mais extensas, contudo, também têm seus próprios limites. Certa vez vi o dia nascer do alto da montanha Saddle-back, em Massachusetts, acima das nuvens. Como não conseguimos distinguir objetos através desta névoa densa, deixem-me contar essa história com mais vagar.

Eu havia atravessado as colinas a pé e sozinho, em serenos dias de verão, colhendo framboesas à beira do caminho e, de vez em quando, comprando um pão na casa de algum fazendeiro, com uma mochila às costas que continha alguns livros de viagem e uma muda de roupa, e um cajado na mão. Naquela manhã, eu contemplara do alto da montanha Hoosack, onde a estrada a atravessa, a aldeia de North Adams no vale, três milhas adiante e abaixo de meus pés, mostrando quão irregular pode ser às vezes a terra e fazendo parecer um acaso que ela seja em algum lugar plana e conveniente aos pés do homem. Depois de pôr um pouco de arroz e açúcar e uma caneca de lata na mochila, nessa aldeia, comecei à tarde a subir a montanha, cujo cume se ergue a três mil e seiscentos pés acima do nível do mar e ficava a sete ou oito milhas de distância pela trilha. Meu caminho passava por um vale longo e espaçoso chamado Bellows, porque os ventos, durante as tempestades, sobem ou descem por ele com violência, elevando-se em declive até as próprias nuvens, entre a cadeia principal e uma montanha mais baixa. Havia algumas fazendas dispersas em diferentes altitudes, cada uma dominando uma bela vista das montanhas ao norte, e um riacho corria pelo meio do vale, no qual, perto da cabeceira, havia um moinho. Parecia uma estrada feita para o peregrino que quisesse subir até os portões do céu. Ora eu atravessava um campo de feno, ora cruzava o riacho por uma ponte ligeira, ainda subindo gradualmente o tempo todo, com uma espécie de assombro e tomado de vagas expectativas quanto à espécie de habitantes e à espécie de natureza que por fim encontraria. Agora parecia uma vantagem o fato de a terra ser irregular, pois não se poderia imaginar posição mais nobre para uma casa de fazenda do que a oferecida por esse vale, mais longe ou mais perto de sua cabeceira, num retiro semelhante a uma garganta, de onde se avistava a região a grande altura entre aquelas duas muralhas de montanha.

Isso me lembrou as propriedades dos huguenotes em Staten Island, diante da costa de Nova Jersey. As colinas do interior dessa ilha, embora relativamente baixas, são penetradas em várias direções por vales semelhantes, inclinados em escala modesta, que se estreitam e se elevam gradualmente em direção ao centro, e na cabeceira deles os huguenotes, que foram os primeiros colonos, ergueram suas casas bem no interior da terra, em lugares rurais e abrigados, em recessos frondosos onde a brisa brincava com o choupo e o liquidâmbar; dali, com igual segurança na calmaria e na tempestade, contemplavam, através de uma vista que se alargava, milhas de bosque e extensos pântanos salgados, até a Árvore dos Huguenotes, um velho olmo à beira-mar junto a cujas raízes haviam desembarcado, e, atravessando a vasta baía exterior de Nova York, até Sandy Hook e as Highlands de Neversink, e daí por léguas do Atlântico, talvez até algum navio tênue no horizonte, já a quase um dia de viagem rumo àquela Europa de onde haviam vindo. Ao caminhar pelo interior dali, em meio à paisagem rural, onde havia tão pouco a me recordar o oceano quanto entre as colinas de New Hampshire, de repente, por uma abertura, uma fenda ou “clove road”, como a chamavam os colonos holandeses, avistei um navio a toda vela para além de um campo de milho, a vinte ou trinta milhas mar adentro. Como eu não dispunha de meios para medir as distâncias, o efeito era semelhante ao de ver um navio pintado passar para trás e para a frente numa lanterna mágica.

Mas voltemos à montanha. Parecia que o homem cuja morada se erguia mais alto no vale devia ser o mais singular e celestialmente inclinado de todos. O trovão ribombara em meus calcanhares por todo o caminho, mas a chuva passou em outra direção, embora, se não tivesse passado, eu quase acreditasse que conseguiria subir acima dela. Por fim cheguei à penúltima casa, onde a trilha para o cume se desviava para a direita, enquanto o próprio cume se erguia diretamente à frente. Mas decidi seguir o vale até a cabeceira e então encontrar minha própria rota pela encosta íngreme, como caminho mais curto e mais aventuroso. Pensei em voltar àquela casa, bem cuidada e tão nobremente situada, no dia seguinte, e talvez permanecer ali por uma semana, caso pudesse obter pouso e alimento. Sua dona era uma jovem franca e hospitaleira, que estava diante de mim em desalinho, penteando atarefada e despreocupadamente os longos cabelos negros enquanto conversava, dando à cabeça o meneio necessário a cada passada do pente, com olhos vivos e cintilantes, e cheia de interesse por aquele mundo inferior de onde eu viera; falava o tempo todo com tanta familiaridade como se me conhecesse havia anos, e me fazia lembrar uma prima minha. A princípio, tomara-me por um estudante de Williamstown, pois eles passavam em grupos, disse ela, a cavalo ou a pé, em quase todos os dias agradáveis, e eram um bando bastante indomável; mas nunca seguiam pelo caminho que eu estava tomando. Quando passei pela última casa, um homem gritou para saber o que eu tinha para vender, pois, vendo minha mochila, pensou que eu talvez fosse um mascate que tomava aquela rota incomum pela crista do vale rumo a South Adams. Disse-me que ainda faltavam quatro ou cinco milhas até o cume pela trilha que eu abandonara, embora em linha reta não fossem mais de duas a partir de onde eu estava, mas que ninguém jamais seguia por ali; não havia trilha, e eu a acharia tão íngreme quanto o telhado de uma casa. Mas eu sabia estar mais acostumado a matas e montanhas do que ele e segui pelo curral de suas vacas, enquanto ele, olhando para o sol, gritava atrás de mim que eu não chegaria ao alto naquela noite. Logo alcancei a cabeceira do vale, mas, como não conseguia ver o cume dali, subi uma montanha baixa do lado oposto e determinei sua direção com minha bússola. Entrei imediatamente na mata e comecei a escalar a encosta íngreme em diagonal, tomando a direção de uma árvore a cada doze rods. A subida não foi de modo algum difícil ou desagradável e consumiu muito menos tempo do que teria sido necessário para seguir a trilha. Tenho observado que até mesmo as pessoas do campo exageram a dificuldade de viajar pela floresta, sobretudo entre montanhas. Nisso, parecem carecer de seu habitual senso comum. Escalei várias montanhas mais altas sem guia nem trilha e descobri, como seria de esperar, que em geral isso exige apenas mais tempo e paciência do que percorrer a estrada mais lisa. É muito raro encontrar neste mundo obstáculos que o homem mais humilde não possua faculdades para superar. É verdade que podemos chegar a um precipício vertical, mas não precisamos saltar dele nem bater a cabeça contra ele. Um homem pode se atirar escada abaixo em seu próprio porão ou arrebentar os miolos contra sua chaminé, se estiver louco. Até onde vai minha experiência, os viajantes em geral exageram as dificuldades do caminho. Como a maior parte dos males, a dificuldade é imaginária; afinal, qual é a pressa? Se uma pessoa perdida concluísse que, no fim das contas, não está perdida, não está fora de si, mas de pé em seus velhos sapatos, no mesmíssimo ponto em que se encontra, e que por enquanto viverá ali; mas que os lugares que a conheceram, eles é que estão perdidos, quanta ansiedade e quanto perigo desapareceriam. Não estou sozinho se permaneço comigo mesmo. Quem sabe para onde, no espaço, este globo está rolando? Ainda assim, não nos daremos por perdidos, vá ele para onde for.

Avancei firmemente para cima, em linha reta, através de um denso emaranhado de loureiro-da-montanha, até que as árvores começaram a assumir um aspecto retorcido e infernal, como se lutassem contra duendes da geada, e por fim alcancei o cume justamente quando o sol se punha. Vários acres ali haviam sido desmatados e estavam cobertos de rochas e tocos, e havia no meio um observatório rústico que se elevava acima da mata. Tive uma boa vista da região antes que o sol desaparecesse, mas estava sedento demais para desperdiçar luz contemplando a paisagem, e parti imediatamente em busca de água. Primeiro, desci por meia milha por uma trilha muito batida através da mata baixa e raquítica, até chegar a um ponto onde havia água nas marcas dos cascos dos cavalos que haviam levado viajantes montanha acima; deitei-me estendido no chão e bebi-as até secá-las, uma após outra, uma água pura, fria, semelhante à de nascente, mas ainda assim não conseguia encher minha concha, embora improvisasse pequenos sifões com hastes de capim e engenhosos aquedutos em miniatura; era um processo lento demais. Então, lembrando-me de que passara por um lugar úmido perto do alto durante a subida, voltei para encontrá-lo de novo, e ali, com pedras afiadas e as próprias mãos, à luz do crepúsculo, cavei um poço de cerca de dois pés de profundidade, que logo se encheu de água pura e fria, e os pássaros também vieram beber nele. Assim, enchi minha concha e, retornando ao observatório, recolhi alguns gravetos secos e fiz fogo sobre umas pedras chatas que haviam sido colocadas no chão para esse fim; desse modo, logo cozinhei minha ceia de arroz, tendo já talhado uma colher de madeira para comê-la.

Passei a noite acordado, lendo à luz do fogo os retalhos de jornais em que algum grupo havia embrulhado o almoço; as cotações correntes de Nova York e Boston, os anúncios e os singulares editoriais que alguns julgaram conveniente publicar, sem prever em que circunstâncias críticas seriam lidos. Li essas coisas ali com uma enorme vantagem, e pareceu-me que os anúncios, ou aquilo a que se chama a parte comercial de um jornal, eram de longe o melhor, o mais útil, natural e respeitável. Quase todas as opiniões e sentimentos expressos haviam sido tão pouco ponderados, eram tão rasos e frágeis, que pensei que a própria textura do papel devia ser mais fraca naquela parte e rasgar-se com maior facilidade. Os anúncios e as cotações correntes estavam mais estreitamente aliados à natureza e eram respeitáveis, em certa medida, como o são as tábuas de marés e meteorológicas; mas a matéria de leitura, que eu lembrava ser a mais estimada lá embaixo, a menos que fosse algum humilde registro científico ou um excerto de algum velho clássico, pareceu-me estranhamente caprichosa, grosseira e dominada por uma única ideia, como uma redação escolar, dessas que os jovens escrevem e depois queimam. As opiniões eram do gênero condenado a assumir amanhã um aspecto diferente, como as modas do ano passado; como se a humanidade estivesse, de fato, muito verde e viesse a envergonhar-se de si mesma dentro de alguns anos, quando tivesse superado esse período de verdor. Havia, além disso, uma singular inclinação ao espírito e ao humor, mas raramente o mais leve êxito verdadeiro; e o êxito aparente era uma terrível sátira à tentativa; o Gênio Maligno do homem ria mais alto de suas melhores piadas. Os anúncios, como eu disse, os que eram sérios e não pertenciam à moderna espécie charlatanesca, sugeriam pensamentos agradáveis e poéticos; pois o comércio é, na verdade, tão interessante quanto a natureza. Os próprios nomes das mercadorias eram poéticos e tão sugestivos como se tivessem sido inseridos num poema agradável: Madeira, Algodão, Açúcar, Couros, Guano, Pau-campeche. Teria sido gratificante ler ali algum pensamento sóbrio, particular e original, tão harmonioso com as circunstâncias como se tivesse sido escrito no alto de uma montanha; pois pertence a uma forma que nunca muda e é tão respeitável quanto couros e pau-campeche, ou qualquer produto natural. Que companheiro inestimável teria sido um retalho de papel assim, contendo algum fruto de uma vida madura. Que relíquia! Que receita! Parecia uma invenção divina, pela qual não apenas moedas brilhantes, mas pensamentos brilhantes e correntes, podiam ser trazidos até ali e deixados.

Como fazia frio, juntei uma boa pilha de lenha e deitei-me sobre uma tábua junto à lateral do edifício, sem cobertor algum para me cobrir, com a cabeça voltada para o fogo, a fim de poder vigiá-lo, o que não é a regra indígena. Mas, como o frio aumentou perto da meia-noite, acabei por me revestir inteiramente de tábuas, conseguindo até pôr uma sobre mim, com uma grande pedra em cima para mantê-la no lugar, e assim dormi confortavelmente. Lembrei-me, é verdade, das crianças irlandesas que perguntavam o que faziam seus vizinhos, os quais não tinham uma porta para pôr sobre si nas noites de inverno, como elas tinham; mas estou convencido de que não havia nada de muito estranho na pergunta. Quem nunca experimentou não pode imaginar quanto uma porta, que mantém o único cobertor abaixado, pode contribuir para o conforto. Somos constituídos em grande medida como os pintinhos que, tirados de sob a galinha e postos num cesto de algodão num canto junto à lareira, muitas vezes continuam a piar até morrer; mas, se lhes colocamos um livro ou qualquer coisa pesada que comprima o algodão e pareça a galinha, adormecem imediatamente. Meus únicos companheiros eram os camundongos, que vinham recolher as migalhas deixadas naqueles retalhos de papel; ainda ali, como em toda parte, pensionistas do homem, e não sem sabedoria aproveitando aquela região elevada para morada. Eles roíam o que lhes cabia; eu roía o que me cabia. Uma ou duas vezes durante a noite, quando ergui os olhos, vi uma nuvem branca passando pelas janelas e enchendo todo o andar superior.

Esse observatório era um edifício de tamanho considerável, erguido pelos estudantes do Williamstown College, cujos prédios podiam ser vistos à luz do dia, reluzindo muito abaixo no vale. Não seria pequena vantagem se toda faculdade estivesse assim situada ao pé de uma montanha, benefício ao menos tão grande quanto o de uma cátedra bem dotada. Seria tão bom educar-se à sombra de uma montanha quanto em sombras mais clássicas. Alguns sem dúvida se lembrarão não apenas de que frequentaram a faculdade, mas de que foram à montanha. Cada visita ao cume, por assim dizer, generalizaria a informação particular adquirida lá embaixo e a submeteria a provas mais universais.

Levantei-me cedo e empoleirei-me no alto dessa torre para ver o romper do dia, passando algum tempo a ler os nomes que ali haviam sido gravados antes que eu pudesse distinguir objetos mais distantes. Uma “mosca indomável” zumbia junto ao meu cotovelo com a mesma indiferença que sobre um tonel de melaço na extremidade do Long Wharf. Mesmo ali eu tinha de atentar para seu velho e monótono zumbido. Mas agora chego ao cerne desta longa digressão. À medida que a luz aumentava, descobri ao meu redor um oceano de névoa que, por acaso, subia exatamente até a base da torre e ocultava todo vestígio da terra, enquanto eu permanecia flutuando naquele fragmento do naufrágio de um mundo, sobre minha prancha entalhada, no país das nuvens; uma situação que não precisava de auxílio algum da imaginação para tornar-se impressionante. À medida que a luz a leste crescia continuamente, revelou-me com maior clareza o novo mundo ao qual eu havia ascendido durante a noite, a nova terra firma, talvez, de minha vida futura. Não restava uma fresta sequer pela qual se pudessem ver os lugares triviais que chamamos Massachusetts, Vermont ou Nova York, enquanto eu ainda respirava a atmosfera límpida de uma manhã de julho, caso fosse julho ali. Por toda parte, abaixo de mim, estendia-se por cem milhas em cada direção, até onde a vista alcançava, um país ondulante de nuvens, correspondendo, nas variadas elevações de sua superfície, ao mundo terrestre que velava. Era um país como o que poderíamos ver em sonhos, com todos os deleites do paraíso. Havia imensas pastagens nevadas, aparentemente aparadas, lisas e firmes, e vales sombrios entre as montanhas vaporosas; e, muito longe no horizonte, eu podia ver onde alguma exuberante mata de névoa avançava sobre a pradaria e acompanhar as curvas de um curso d’água, algum Amazonas ou Orinoco jamais imaginado, pelas árvores enevoadas de suas margens. Como faltava o símbolo, também não havia a substância da impureza, nenhum ponto nem mancha. Ter recebido a visão era um favor pelo qual se deveria permanecer em silêncio para sempre. A terra abaixo havia se tornado uma coisa fugidia de luzes e sombras, como antes haviam sido as nuvens. Ela não estava meramente velada para mim, mas desaparecera como o fantasma de uma sombra, σκιᾶς ὄναρ, e essa nova plataforma fora alcançada. Assim como eu havia escalado acima da tempestade e da nuvem, também, por sucessivas jornadas de um dia, poderia alcançar a região do dia eterno, além da sombra afilada da terra; sim,

“O próprio céu deslizará

E rolará para longe, como estrelas derretidas que resvalam

Ao longo de seus fios oleosos.”

Mas, quando seu próprio sol começou a nascer sobre esse mundo puro, vi-me habitante dos salões deslumbrantes de Aurora, para os quais os poetas só tiveram um vislumbre parcial por sobre as colinas orientais, derivando entre as nuvens cor de açafrão e brincando com os dedos rosados da Alvorada, no próprio caminho da carruagem do Sol, salpicado de sua poeira orvalhada, desfrutando o sorriso benigno e, de perto, os olhares de longo alcance do deus. Os habitantes da terra veem comumente apenas a face inferior, escura e sombria, do pavimento do céu; somente quando ele é visto num ângulo favorável junto ao horizonte, de manhã ou à noite, revelam-se algumas tênues faixas do rico forro das nuvens. Mas minha musa fracassaria em transmitir uma impressão da tapeçaria magnífica que me cercava, tal como os homens a veem refletida palidamente, ao longe, nas câmaras do Oriente. Ali, como na terra, vi o deus gracioso

“Lisonjear os cumes das montanhas com olhar soberano,

. . . . . .

Dourando pálidas correntes com alquimia celeste.”

Mas nunca ali o “Sol do céu” manchou a si mesmo.

Mas, ai de mim, devido, creio, a alguma indignidade em mim, meu sol particular manchou a si mesmo e

“Logo permitiu que as nuvens mais vis cavalgassem

Como feio destroço sobre sua face celestial”,

pois, antes que o deus alcançasse o zênite, o pavimento celeste ergueu-se e envolveu minha virtude vacilante, ou melhor, eu tornei a afundar naquele “mundo desolado” do qual o sol celestial escondera o semblante,

“Como pode um verme que rasteja pelo pó

Escalar as montanhas azuis, lançadas tão alto,

E de lá trazer tua bela ideia com exatidão,

Que nessas cortes ensolaradas jaz oculta,

Vestida de luz tal que cega os olhos do anjo?

Como pode um fraco mortal esperar algum dia limar

Sua língua áspera e seu estilo prostrado?

Ó, ergue tu de seu cadáver teu exilado agora sepultado!”

Na tarde anterior eu havia visto os cumes de montanhas novas e ainda mais altas, as Catskills, pelas quais poderia esperar subir novamente ao céu, e ajustara minha bússola para um belo lago a sudoeste, que ficava em meu caminho e para o qual agora me dirigi, descendo a montanha por minha própria rota, pelo lado oposto àquele por onde subira, e logo me vi na região das nuvens e da chuva fina; e os habitantes afirmaram que o dia inteiro fora nublado e chuvoso.

Mas agora precisamos nos apressar de volta, antes que a névoa se disperse, para as águas alegres do Merrimack.

Desde aquele primeiro “Avante! Avante!”,

Por muitos e longos trechos remamos,

E ainda o pardal sobre o ramo

Se apressa a anunciar o dia

Com sua ode simples, em estrofes.

Passamos por um barco de canal antes do nascer do sol, tateando seu caminho rumo ao litoral, e, embora não pudéssemos vê-lo por causa da névoa, os poucos sons abafados, surdos, resfolegantes e pulsantes que ouvimos incutiram-nos uma sensação de massa e movimento irresistível. Um pequeno regato do comércio já desperto naquele remoto rio de New Hampshire. A névoa, por exigir maior habilidade na condução, aumentava o interesse de nossa viagem matinal e fazia o rio parecer indefinidamente largo. Uma névoa leve, através da qual os objetos são apenas vagamente visíveis, tem o efeito de expandir até mesmo cursos d’água comuns, por uma miragem singular, em braços de mar ou lagos interiores. Naquela ocasião, ela era até fragrante e revigorante, e nós a desfrutávamos como uma espécie de sol mais precoce, ou luz orvalhada e embrionária.

Nuvem ancorada tão baixo,

Ar da Terra Nova,

Nascente e fonte dos rios,

Tecido de orvalho, cortina de sonho,

E toalha estendida pelas fadas;

Prado flutuante do ar,

Onde florescem margens de margaridas e violetas,

E em cujo labirinto pantanoso

O socó ressoa e a garça vadia;

Espírito dos lagos, mares e rios,

Leva somente perfumes e o aroma

De ervas curativas aos campos dos homens justos!

O mesmo historiador agradável e observador que citamos acima diz que “Nas regiões montanhosas do país, a ascensão dos vapores e sua formação em nuvens constituem um objeto curioso e divertido. Veem-se os vapores subindo em pequenas colunas, como fumaça de muitas chaminés. Ao alcançarem certa altura, espalham-se, encontram-se, condensam-se e são atraídos para as montanhas, onde ou se destilam em suaves orvalhos e reabastecem as nascentes, ou descem em aguaceiros, acompanhados de trovões. Depois de breves intervalos, o processo se repete muitas vezes ao longo de um dia de verão, oferecendo aos viajantes uma viva ilustração do que se observa no Livro de Jó: ‘São molhados pelos aguaceiros das montanhas.’”

As névoas e nuvens que ocultam as montanhas dominantes conferem aos vales montanhosos a amplitude das planícies. Até um país de feições modestas adquire certa grandeza em tempo de tempestade, quando se veem nuvens derivando entre o observador e as colinas vizinhas. Quando, viajando rumo a Haverhill por Hampstead, neste Estado, no divisor de águas entre o Merrimack e o Piscataqua ou o mar, começamos a descer para leste, a vista em direção à costa é tão distante e inesperada, embora o mar não seja visível, que a princípio supomos ser a atmosfera desimpedida uma névoa nas terras baixas, ocultando colinas de elevação correspondente àquela em que estamos; mas é apenas a névoa do preconceito, que os ventos não dispersarão. A paisagem mais estupenda deixa de ser sublime quando se torna distinta, ou, em outras palavras, limitada, e a imaginação já não é estimulada a exagerá-la. A altura e a largura reais de uma montanha ou de uma queda-d’água são sempre ridiculamente pequenas; somente as imaginadas nos satisfazem. A Natureza não é feita segundo o molde em que a desejaríamos. Exageramos piedosamente suas maravilhas, como fazemos com a paisagem ao redor de nosso lar.

Tal era a intensidade do orvalho ao longo deste rio que em geral éramos obrigados a deixar nossa tenda estendida sobre as proas do barco até que o sol a secasse, para evitar o mofo. Passamos pela foz do riacho Penichook, um selvagem curso de salmões, em meio à névoa, sem vê-la. Por fim, os raios do sol lutaram através da bruma e nos mostraram os pinheiros da margem gotejando orvalho, e fontes escorrendo pelos barrancos úmidos:

> “E agora os filhos mais altos, a quem Titã aquece,

> Das montanhas intonsas, sopradas por ventos suaves,

> Embalam nos braços a infância da manhã;

> E, se por acaso ela escapasse aos pinheiros mais altivos,

> As aveleiras abaixo apanhariam seus fulgores,

> Para dourar-lhes as folhas.”

Remamos por algumas horas entre margens cintilantes, antes que o sol houvesse secado a relva e as folhas, ou que o dia tivesse firmado seu caráter. Sua serenidade, afinal, pareceu tanto mais profunda e segura por causa da densidade da névoa matinal. O rio se tornou mais veloz, e a paisagem, mais agradável que antes. As margens eram em sua maior parte íngremes e argilosas, e delas a água escorria; onde uma fonte brotava alguns pés acima do rio, os barqueiros haviam talhado com seus machados uma calha numa laje e a colocado de modo a receber a água e lhes permitir encher convenientemente as bilhas. Às vezes, essa água mais pura e fresca, irrompendo de sob um pinheiro ou uma rocha, era recolhida numa bacia junto à borda do rio e no mesmo nível dele, uma nascente do Merrimack. Tão perto, ao longo do curso da vida, estão as fontes da inocência e da juventude, fertilizando sua margem arenosa; e o viajante fará bem em reabastecer com frequência seus recipientes nessas origens incontaminadas. Alguma fonte juvenil, talvez, ainda deságue com música tilintante no rio mais antigo, mesmo quando este já cai no mar; e imaginamos que sua música seja distinguida pelos deuses fluviais em meio ao escoar geral da corrente, e lhes chegue mais doce aos ouvidos quanto mais próxima estiver do oceano. Assim como as evaporações do rio alimentam essas fontes insuspeitadas, que se filtram por suas margens, talvez também nossas aspirações tornem a cair como fontes à beira do curso da vida, para refrescá-lo e purificá-lo. O rio amarelo e morno pode fazer flutuar sua chata e alegrar-lhe os olhos com reflexos e ondulações, mas é somente nesse pequeno regato que o barqueiro mata a sede. É esse elemento mais puro e fresco que sobretudo lhe sustenta a vida. A raça que assim procede com prudência sobreviverá por muito tempo.

Nosso percurso naquela manhã seguia entre os territórios de Merrimack, a oeste, e Litchfield, outrora chamada Fazenda de Brenton, a leste, municípios que antigamente constituíam o Naticook indígena. Brenton era comerciante de peles entre os indígenas, e essas terras lhe foram concedidas em 1656. O último município contém cerca de quinhentos habitantes, dos quais, porém, não vimos nenhum, e apenas poucas moradias. Como estávamos no rio, cujas margens são sempre altas e em geral ocultam as poucas casas, o país parecia muito mais selvagem e primitivo do que ao viajante nas estradas vizinhas. O rio é de longe a estrada mais atraente, e os barqueiros que nele passaram vinte ou vinte e cinco anos devem ter tido uma experiência muito mais bela, selvagem e memorável do que a poeirenta e sacolejante experiência do carroceiro que, durante o mesmo tempo, conduziu pelas estradas paralelas à corrente. À medida que se sobe o Merrimack, raramente se vê uma aldeia, mas sobretudo alternância de bosques e pastagens, e às vezes um campo de milho ou batatas, de centeio, aveia ou capim-inglês, com algumas macieiras dispersas e, em intervalos ainda maiores, a casa de um lavrador. O solo, excetuando-se o melhor das várzeas, é em geral tão leve e arenoso quanto um patriota poderia desejar. Às vezes, naquela manhã, o país parecia em seu estado primitivo, como se o indígena ainda o habitasse; e, em seguida, como se muitos colonos livres e recém-chegados o ocupassem, com suas cercas frágeis descendo irregularmente até a beira da água; ouviam-se latidos de cães e até o tagarelar de crianças, via-se fumaça subindo de alguma pedra de lareira, e as margens se dividiam em trechos de pasto, campos de feno, lavoura e mata. Mas, quando o rio se alargava, com uma ilhota desabitada, ou uma praia arenosa, longa e baixa, que prosseguia isolada e sinuosa, sem corresponder à margem oposta, mas distante como se fosse praia marítima ou costa solitária, e a terra já não embalava o rio em seu seio, mas ambos conversavam como iguais, folhas farfalhantes com ondas ondulantes; quando poucas cercas eram vistas, mas altos bosques de carvalhos de um lado, grandes manadas de gado, e todas as trilhas pareciam convergir para um centro atrás de algum bosque mais majestoso, imaginávamos que o rio atravessasse uma vasta propriedade senhorial, que os poucos habitantes fossem vassalos de um senhor e que ali prevalecesse uma ordem feudal.

Quando havia um trecho apropriado, avistávamos a montanha de Goffstown, o Uncannunuc indígena, erguendo-se diante de nós no lado oeste. Era um dia calmo e belo, com apenas um zéfiro ligeiro para enrugar a superfície da água e agitar os bosques da margem, e calor apenas suficiente para provar a disposição benigna da Natureza para com seus filhos. Com o espírito leve e impulsos vigorosos, fizemos nosso barco avançar rapidamente até o coração daquela manhã. A águia-pescadora planava e gritava sobre nossas cabeças. O esquilo-listrado, Sciurus striatus (Tamias Lysteri, Aud.), sentava-se na extremidade de alguma cerca da Virgínia ou de alguma vara superior que se projetava sobre a corrente, fazendo girar com uma pata uma noz verde, como num torno, enquanto a outra a mantinha firmemente contra seus incisivos, que serviam de cinzéis. Como uma folha castanha independente, dotada de vontade própria, farfalhando para onde podia; ora sob a cerca, ora por cima dela, ora espiando os viajantes por uma fresta, com apenas a cauda visível, ora entregue ao almoço no saboroso âmago da noz, e logo a uma vara de distância, brincando de esconder, com a noz guardada nas bochechas, onde havia mais meia dúzia, alargando-as numa largura ridícula, como se tramasse por qual válvula segura de salto ou cambalhota deixar escapar a vida que lhe sobrava; a corrente dessa vida escoando inofensivamente, mesmo enquanto ele se mantém sentado, em constantes lampejos elétricos através da cauda. E então, com um guincho entrecortado, mergulha entre as raízes de uma aveleira, e não o vemos mais. Ou o esquilo-vermelho maior, o chickaree, às vezes chamado esquilo-da-baía-de-Hudson (Scriurus Hudsonius), dava aviso de nossa aproximação com aquele alarme peculiar, semelhante ao ato de dar corda num relógio robusto, no alto de um pinheiro, e se esquivava atrás do tronco, ou saltava de árvore em árvore com tamanha cautela e destreza, como se muito dependesse da fidelidade de sua vigilância, correndo pelos ramos do pinheiro-branco, às vezes durante vinte varas ao nosso lado, com tal velocidade e por rotas tão infalíveis como se fossem para ele um caminho familiar e muito percorrido; e logo, depois que passávamos, retornava ao trabalho de cortar as pinhas e deixá-las cair no chão.

Passamos pelas Quedas de Cromwell, as primeiras que encontramos neste rio, naquela manhã, por meio de eclusas, sem usar nossas rodas. Essas quedas são o Nesenkeag dos indígenas. O Grande Riacho Nesenkeag entra pela direita pouco acima, e o Pequeno Nesenkeag, a certa distância abaixo, ambos em Litchfield. Lemos no Gazetteer, no verbete Merrimack, que “A primeira casa desta cidade foi erguida à margem do rio [pouco depois de 1665] como entreposto de comércio com os indígenas. Durante algum tempo, certo Cromwell manteve com eles um comércio lucrativo, pesando-lhes as peles com o pé, até que, enfurecidos com sua suposta ou verdadeira fraude, resolveram matá-lo. Informado dessa intenção, Cromwell enterrou sua riqueza e fugiu. Poucas horas depois de sua fuga, chegou um grupo da tribo Penacook e, não encontrando o alvo de seu ressentimento, incendiou-lhe a habitação.” No alto da elevada margem dali, junto ao rio, ainda se podia ver sua adega, agora coberta de árvores. Era um lugar conveniente para tal comércio, ao pé das primeiras quedas acima dos povoados, com uma vista agradável rio acima, de onde ele podia ver os indígenas descendo com suas peles. O eclusista nos contou que ali haviam sido desenterrados pelo arado sua pá e seu tenaz, além de uma pedra com seu nome. Mas não garantiremos a veracidade dessa história. Nas New Hampshire Historical Collections de 1815, lê-se: “Algum tempo depois, encontrou-se estanho no poço, e um caldeirão de ferro e uma cremalheira na areia; os dois últimos estão preservados.” Esses eram os vestígios do comerciante branco. Na margem oposta, onde ela avançava sobre a corrente à maneira de um cabo, recolhemos quatro pontas de flecha e uma pequena ferramenta indígena de pedra assim que a escalamos, num lugar onde evidentemente existira uma cabana dos indígenas com quem Cromwell comerciava, e que ali pescavam e caçavam antes de sua chegada.

Como de costume, os mexeriqueiros não ficaram em silêncio a respeito da riqueza enterrada de Cromwell, e conta-se que, alguns anos atrás, o arado de um lavrador, não muito longe dali, deslizou sobre uma pedra chata que emitiu um som oco; quando a levantaram, descobriu-se uma pequena abertura de seis polegadas de diâmetro, revestida de pedras, da qual se retirou certa quantia em dinheiro. O eclusista nos contou outra história semelhante a respeito de um lavrador de uma cidade vizinha, que fora pobre, mas de repente comprara uma boa fazenda e passara a viver com conforto; e, quando interrogado, não dera explicação satisfatória sobre o assunto; quantos poucos, ai de nós, poderiam dá-la! Isso fez seu empregado lembrar que, certo dia, enquanto aravam juntos, o arado atingira alguma coisa, e seu patrão, voltando para olhar, decidira não dar outra volta, dizendo que o céu parecia ameaçador, e por isso recolhera a parelha. Urgência semelhante fez lembrar muitas coisas que jamais aconteceram. A verdade é que há dinheiro enterrado em toda parte, e basta pôr mãos à obra para encontrá-lo.

Não muito longe dessas quedas ergue-se um carvalho, na várzea, a cerca de um quarto de milha do rio, na fazenda de um senhor Lund, que nos foi apontado como o lugar onde French, líder do grupo que saiu de Dunstable em perseguição aos indígenas, foi morto. Farwell se esquivou deles nos bosques cerrados das proximidades. Não parecia que homens algum dia tivessem precisado correr para salvar a vida naquela várzea agora aberta e pacífica.

Aqui também havia outro extenso deserto à beira da estrada em Litchfield, visível da margem do rio. Em alguns pontos, o vento havia removido a areia até uma profundidade de dez ou doze pés, deixando pequenos montículos grotescos dessa altura, onde um tufo de arbustos permanecia firmemente enraizado. Trinta ou quarenta anos antes, segundo nos disseram, aquilo fora uma pastagem de ovelhas; mas as ovelhas, atormentadas pelas pulgas, começaram a escarvar o chão com as patas, até romperem a relva, e assim a areia começou a voar, até que agora se estendia por quarenta ou cinquenta acres. A princípio, esse mal poderia ter sido facilmente remediado espalhando-se bétulas com as folhas sobre a areia e prendendo-as ao solo com estacas, para deter o vento. As pulgas mordiam as ovelhas, e as ovelhas mordiam o chão, e a ferida se alastrara até esse ponto. É espantoso que grande ferida pode gerar um pequeno arranhão. Quem sabe se o Saara, onde caravanas e cidades estão sepultadas, não começou com a mordida de uma pulga africana? Este pobre globo, como deve coçar em tantos lugares! Nenhum deus terá a bondade de espalhar um bálsamo de bétulas sobre suas feridas? Aqui também notamos um ponto onde os indígenas haviam reunido um monte de pedras, talvez para a fogueira de seu conselho, e estas, por terem com seu peso impedido que a areia sob elas fosse levada pelo vento, ficaram no cume de um montículo. Disseram-nos que ali haviam sido encontradas pontas de flecha, bem como balas de chumbo e de ferro. Notamos vários outros trechos arenosos em nossa viagem; e o curso do Merrimack pode ser rastreado da montanha mais próxima por seus bancos de areia amarela, embora o próprio rio permaneça, em sua maior parte, invisível. Segundo ouvimos, em alguns casos essas causas deram origem a processos judiciais. Ferrovias foram construídas através de certos distritos irritadiços, rompendo-lhes a relva e, assim, pondo a areia a voar, até transformar fazendas férteis em desertos, e a companhia teve de pagar os prejuízos.

Essa areia nos parecia o elo de ligação entre a terra e a água. Era uma espécie de água sobre a qual se podia caminhar, e em sua superfície viam-se as marcas de ondulação produzidas pelos ventos, precisamente como as que há no fundo de um riacho ou lago. Havíamos lido que o Alcorão permite aos muçulmanos realizar suas abluções com areia quando não conseguem água, concessão necessária na Arábia, e agora compreendíamos a justeza dessa disposição.

Plum Island, na foz deste rio, para cuja formação talvez estes mesmos bancos tenham enviado sua contribuição, é um deserto semelhante de areia movediça, de várias cores, soprada pelo vento em curvas graciosas. Não passa de um banco de areia exposto, estendendo-se por nove milhas paralelamente à costa e, descontado o brejo do lado interior, raramente com mais de meia milha de largura. Há nela apenas meia dúzia de casas, e quase nenhuma árvore, nenhum torrão de relva, nenhuma coisa verde que seja familiar a um homem do campo. A vegetação rala fica meio sepultada na areia, como na neve acumulada pelo vento. O único arbusto, a ameixeira-da-praia, que dá nome à ilha, cresce apenas alguns pés; mas é tão abundante que grupos de cem pessoas de cada vez vêm do continente e descem o Merrimack, em setembro, armam suas tendas e colhem as ameixas, boas para comer cruas e para fazer conservas. A graciosa e delicada ervilha-da-praia também cresce em abundância entre a areia, assim como várias plantas estranhas, semelhantes a musgos e suculentas. Ao longo de toda a sua extensão, a ilha foi recortada pelo vento em colinas baixas, de não mais de vinte pés de altura, e, salvo por uma trilha tênue à margem do brejo, é tão desprovida de caminhos quanto o Saara. Há penhascos sombrios de areia e vales arados pelo vento, onde se poderia esperar descobrir os ossos de uma caravana. Escunas vêm de Boston carregar areia para uso dos pedreiros, e em poucas horas o vento apaga todos os vestígios de seu trabalho. No entanto, basta cavar um ou dois pés em qualquer lugar para encontrar água doce; e causa surpresa saber que as marmotas-americanas abundam ali e que há raposas, embora não se veja onde possam escavar suas tocas ou esconder-se. Já percorri toda a extensão de sua larga praia na maré baixa, única ocasião em que se encontra chão firme para caminhar, e provavelmente Massachusetts não oferece caminhada mais grandiosa e desolada. Do lado do mar, há apenas uma vela distante e alguns galeirões para romper a grandiosa monotonia. Uma estaca solitária fincada no chão, ou uma colina de areia mais aguda que o habitual, destaca-se como ponto de referência por milhas; enquanto, por música, ouve-se somente o som incessante da arrebentação e o pio lúgubre das aves da praia.

Havia vários barcos de canal nas Quedas de Cromwell passando pelas eclusas, e esperamos por eles. Na parte dianteira de um deles estava um homem robusto de New Hampshire, apoiado em sua vara, de cabeça descoberta e vestindo apenas camisa e calças, um rústico Apolo de homem, descendo daquela “vasta região das terras altas” para a planície; de idade indefinível, cabelos cor de linho e rosto vigoroso, descorado pelas intempéries, em cujas rugas o sol ainda se alojava, tão pouco afetado pelos calores e geadas e pelos cuidados extenuantes da vida quanto um bordo da montanha; um homem sem aprumo, despenteado e incivil, com quem parlamentamos por algum tempo e de quem não nos separamos sem um interesse sincero de parte a parte. Sua humanidade era genuína e instintiva, e sua rudeza, apenas uma maneira. Quando já estávamos quase fora do alcance de sua voz, perguntou se havíamos matado alguma coisa, e gritamos em resposta que havíamos alvejado uma boia, e durante muito tempo ainda pudemos vê-lo coçando a cabeça, tentando em vão saber se ouvira direito.

Há razão na distinção entre civil e incivil. Às vezes, os modos formam uma casca tão áspera que duvidamos haver sob ela qualquer cerne ou alburno. Encontramos por vezes homens incivis, filhos de amazonas, que moram junto a trilhas de montanha e têm fama de inóspitos com os estrangeiros; cuja saudação é tão rude quanto o aperto de suas mãos robustas e que tratam os homens com tão pouca cerimônia quanto costumam tratar os elementos. Precisam apenas ampliar suas clareiras e deixar entrar mais luz do sol, procurar as encostas meridionais das colinas, de onde possam contemplar a planície civil ou o oceano, e temperar devidamente sua dieta com os frutos dos cereais, consumindo menos carne de caça e bolotas, para se tornarem semelhantes aos habitantes das cidades. É verdade que a verdadeira polidez não resulta de nenhum polimento apressado e artificial, mas cresce naturalmente em caracteres de fibra e qualidade adequadas, depois de longo enfrentamento com homens e acontecimentos e de muito atrito com a boa e a má fortuna. Talvez eu possa contar uma história pertinente enquanto a eclusa se enche, pois nossa viagem desta manhã oferece poucos incidentes importantes.

Cedo, numa manhã de verão, eu deixara as margens do Connecticut e, durante todo o longo dia, viajara rio acima pela margem de um curso d’água que vinha do oeste; ora contemplando do alto o rio, que espumava e ondulava através da floresta a uma milha de distância, visto das colinas por onde seguia a estrada, ora sentado em sua borda rochosa, mergulhando os pés nas corredeiras ou banhando-me aventurosamente no meio do canal. As colinas se tornavam cada vez mais frequentes e aos poucos se avolumavam em montanhas à medida que eu avançava, comprimindo o curso do rio, de modo que por fim eu já não podia ver de onde ele vinha e ficava livre para imaginar os mais maravilhosos meandros e quedas. Ao meio-dia, dormi na relva à sombra de um bordo, onde o rio encontrara um canal mais largo que o habitual e se espraiava raso, com frequentes bancos de areia à mostra. Nos nomes das cidades reconheci alguns que muito tempo antes eu lera nas carroças de condutores vindos de muito longe, do interior; cidades quietas das terras altas, de fama montanhosa. Segui caminhando, meditativo e encantado, entre fileiras de bordos-açucareiros, através de aldeias pequenas e pouco curiosas, e às vezes me agradava ver um barco puxado para cima de um banco de areia, onde não parecia haver habitantes que o utilizassem. Parecia, contudo, tão essencial ao rio quanto um peixe e emprestar-lhe certa dignidade. Era como a truta dos riachos de montanha diante dos peixes do mar, ou como os filhotes do caranguejo-terrestre nascidos muito longe, no interior, que jamais ouviram o som da arrebentação oceânica. As colinas se aproximaram cada vez mais do rio, até que por fim se fecharam atrás de mim, e pouco antes do anoitecer encontrei-me num vale romântico e retirado, com cerca de meia milha de extensão e largura apenas suficiente para o curso d’água em seu fundo. Pensei que não poderia haver lugar mais belo para uma cabana entre montanhas. Em qualquer ponto se podia atravessar correndo o rio sobre as pedras, e seu murmúrio constante acalmaria para sempre as paixões da humanidade. De repente, a estrada, que parecia apontar para a encosta da montanha, virou bruscamente à esquerda, e outro vale se abriu, ocultando o anterior e com o mesmo caráter. Era a paisagem mais extraordinária e agradável que eu já vira. Encontrei ali alguns habitantes afáveis e hospitaleiros que, como o dia ainda não terminara de todo e eu estava ansioso por aproveitar a luz, indicaram-me o caminho por mais quatro ou cinco milhas até a morada de um homem chamado Rice, que ocupava o último e mais alto dos vales situados em meu trajeto e que, segundo disseram, era um homem bastante rude e incivil. Mas “o que é um país estrangeiro para aqueles que possuem conhecimento? Quem é estranho para aqueles que têm o hábito de falar com bondade?”

Por fim, quando o sol se punha atrás das montanhas num vale ainda mais escuro e solitário, cheguei à morada desse homem. Exceto pela estreiteza da planície e pelo fato de as pedras serem de granito maciço, era a réplica daquele retiro para o qual Belphœbe levou o ferido Timias:

“Numa clareira amena,

Por montanhas ao redor toda cercada,

E bosques poderosos, que sombreavam o vale

E o faziam parecer um teatro majestoso,

Abrindo-se numa planície espaçosa;

E no meio corria um pequeno rio,

Entre pedras-pomes que pareciam queixar-se,

Com suave murmúrio, por lhe conterem o curso.”

Ao me aproximar, observei que ele não era tão rude quanto eu previra, pois mantinha muito gado e cães para vigiá-lo, e vi onde fizera açúcar de bordo nas encostas das montanhas, e, acima de tudo, distingui as vozes de crianças misturando-se ao murmúrio da torrente diante da porta. Ao passar pelo estábulo, encontrei alguém que supus ser um empregado, cuidando do gado, e perguntei se naquela casa recebiam viajantes. “Às vezes recebemos”, respondeu ele, rispidamente, e foi de imediato para a baia mais distante de mim; percebi então que era ao próprio Rice que eu me dirigira. Mas, perdoando essa descortesia em consideração à natureza selvagem da paisagem, encaminhei-me para a casa. Não havia placa diante dela, nem qualquer dos convites habituais ao viajante, embora eu visse pela estrada que muitos iam e vinham dali; apenas o nome do proprietário estava afixado do lado de fora, uma espécie de convite implícito e taciturno, segundo me pareceu. Passei de cômodo em cômodo sem encontrar ninguém, até chegar ao que parecia ser o aposento dos hóspedes, que era asseado e tinha até certo ar de refinamento; alegrou-me encontrar na parede um mapa que me orientaria em minha jornada na manhã seguinte. Por fim, ouvi um passo num aposento distante, o primeiro em que eu entrara, e fui ver se o senhorio havia chegado; mas era apenas uma criança, uma daquelas cujas vozes eu ouvira, provavelmente seu filho, e entre ele e mim, na porta, estava um grande cão de guarda, que rosnou para mim e parecia prestes a saltar, mas o menino nada lhe disse; e, quando pedi um copo d’água, respondeu brevemente: “Corre no canto.” Peguei então uma caneca no balcão e saí, procurando ao redor do canto da casa, mas não encontrei poço nem nascente, nem água alguma além do riacho que corria por toda a frente. Voltei, portanto, e, pousando a caneca, perguntei à criança se a água do riacho era boa para beber; ao que ele agarrou a caneca e, indo até o canto do cômodo, onde uma nascente fresca que brotava da montanha atrás da casa gotejava por um cano para dentro do aposento, encheu-a, bebeu e tornou a entregá-la vazia; então, chamando o cão, correu para fora. Pouco depois, alguns dos empregados apareceram, beberam na nascente, lavaram-se preguiçosamente e pentearam os cabelos em silêncio; alguns se sentaram como se estivessem cansados e adormeceram nos assentos. Mas durante todo esse tempo não vi mulher alguma, embora às vezes ouvisse um movimento na parte da casa de onde vinha a nascente.

Por fim, o próprio Rice entrou, pois já estava escuro, com um chicote de bois na mão e respirando com esforço; ele também logo se acomodou em seu assento, não longe de mim, como se, terminado o trabalho do dia, não tivesse mais caminho a percorrer, mas apenas que digerir o jantar com vagar. Quando lhe perguntei se podia dar-me uma cama, disse que havia uma pronta, num tom que dava a entender que eu devia saber disso e que, quanto menos se falasse no assunto, melhor. Até aí, tudo bem. Ainda assim, continuou a olhar para mim como se desejasse que eu dissesse algo mais, à maneira de um viajante. Observei que era uma região selvagem e acidentada a que ele habitava, e que valia a pena percorrer muitas milhas para vê-la. “Também não é tão áspera assim”, disse ele, e apelou para seus homens como testemunhas da largura e lisura de seus campos, que consistiam ao todo numa pequena várzea, e do tamanho de suas colheitas; “e, se temos algumas colinas”, acrescentou, “não há pastagem melhor em lugar nenhum.” Perguntei então se aquele lugar era o que eu ouvira mencionar, chamando-o por um nome que vira no mapa, ou se era certo outro; e ele respondeu, rispidamente, que não era nem um nem outro; que ele o havia povoado e cultivado, e feito dele o que era, e que eu nada podia saber a seu respeito. Notando algumas espingardas e outros apetrechos de caça pendurados em suportes ao redor do cômodo, e seus cães de caça agora dormindo no chão, aproveitei a ocasião para mudar de assunto e perguntei se havia muita caça naquela região; a essa pergunta respondeu com mais amabilidade, tendo algum vislumbre de minha intenção. Mas, quando perguntei se havia ursos, respondeu com impaciência que não corria mais risco de perder suas ovelhas do que seus vizinhos; ele domesticara e civilizara aquela região. Depois de uma pausa, pensando em minha jornada da manhã seguinte e nas poucas horas de luz do dia naquele terreno baixo e montanhoso, o que me obrigaria a pôr-me a caminho cedo, observei que o dia devia ser uma hora mais curto ali do que nas planícies vizinhas; ao que ele perguntou, rispidamente, o que eu sabia a respeito, e afirmou que tinha tanta luz do dia quanto seus vizinhos; aventurou-se a dizer que os dias eram mais longos ali do que onde eu vivia, como eu descobriria se permanecesse; que, de algum modo que não se podia esperar que eu compreendesse, o sol transpunha as montanhas meia hora mais cedo e ficava meia hora mais tarde ali do que nas planícies vizinhas. E disse ainda outras coisas do mesmo gênero. Era, de fato, tão rude quanto um sátiro das fábulas. Mas deixei que passasse pelo que era, pois por que haveria eu de discutir com a Natureza?, e até me agradou a descoberta de um fenômeno natural tão singular. Tratei-o como se, para mim, todas as maneiras fossem indiferentes, e havia nele um jeito doce e selvagem. Eu não questionaria a Natureza, e preferia tê-lo como era a tê-lo como eu desejaria que fosse. Pois eu subira até ali não em busca de simpatia, bondade ou convívio, mas de novidade e aventura, e para ver o que a Natureza produzira naquele lugar. Por isso não repeli sua rudeza, mas acolhi tudo com inteira inocência e soube apreciá-la, como se lesse num drama antigo um papel bem sustentado. Era, de fato, um homem grosseiro e sensual e, como eu disse, descortês, mas não duvido de que tivesse sua justa querela com a Natureza e a humanidade; apenas não dispunha de cobertura artificial para seu mau humor. Era bastante terroso, mas havia nele bom solo e, no fundo, até uma probidade saxônica de longa paciência. Se lhe fosse possível expor o caso, ele não deixaria que a raça se extinguisse dentro dele, como um indígena.

Por fim, disse-lhe que era um homem afortunado e que confiava em que fosse grato por tanta luz; e, levantando-me, disse que pegaria uma lamparina e lhe pagaria então pela hospedagem, pois esperava recomeçar minha jornada tão cedo quanto o sol nascia em sua região. Mas ele respondeu depressa, e dessa vez com civilidade, que eu certamente encontraria alguém da casa já em atividade, por mais cedo que fosse, pois não eram preguiçosos, e que poderia tomar o desjejum com eles antes de partir, caso quisesse. Enquanto acendia a lamparina, percebi em seus olhos remelentos e úmidos um lampejo de verdadeira hospitalidade e antiga cortesia, um raio de humanidade pura e até gentil. Era um olhar mais íntimo comigo, e mais explicativo, do que quaisquer palavras suas poderiam ter sido, ainda que tentasse até o último dia de vida. Era mais significativo do que qualquer Rice daquelas paragens poderia sequer compreender, e antecipava de longe a cultura daquele homem, um vislumbre de seu gênio puro, que pouco o iluminava, mas naquele momento o impressionava e governava, constrangendo de leve sua voz e suas maneiras. Conduziu-me alegremente ao meu aposento, passando por cima dos membros de seus homens, que dormiam no chão de um cômodo intermediário, e mostrou-me uma cama limpa e confortável. Durante muitas horas agradáveis, depois que todos na casa adormeceram, fiquei sentado junto à janela aberta, pois a noite estava abafada, e ouvi o pequeno rio

“Entre as pedras-pomes, que pareciam lamentar,

Com suave murmúrio, que lhe detinham o curso.”

Mas, como de costume, levantei-me à luz das estrelas na manhã seguinte, antes que meu anfitrião, seus homens ou mesmo seus cães estivessem acordados; e, tendo deixado uma moeda de nove pence no balcão, já estava com o sol a meio caminho da montanha antes que eles tivessem rompido o jejum.

Antes de deixar as terras de meu anfitrião, enquanto os primeiros raios do sol incidiam obliquamente sobre as montanhas, parei à beira da estrada para colher algumas framboesas, quando um homem muito velho, não longe dos cem anos, veio caminhando com um balde de ordenha na mão e, desviando-se do caminho, começou a colher as frutas perto de mim:

“Suas veneráveis madeixas

Em graciosos cachos ondulavam;

E em suas têmporas envelhecidas cresciam

As flores da sepultura.”

Mas, quando lhe perguntei o caminho, respondeu numa voz baixa e áspera, sem erguer os olhos nem parecer notar minha presença, o que atribuí à idade; e logo, murmurando consigo mesmo, seguiu adiante para reunir suas vacas numa pastagem próxima. Quando tornou a aproximar-se da estrada, parou de súbito, enquanto as vacas prosseguiam à frente, e, descobrindo a cabeça, orou em voz alta no ar fresco da manhã, como se antes tivesse esquecido esse exercício, pedindo pelo pão de cada dia e também que Aquele que faz cair sua chuva sobre justos e injustos, e sem o qual nenhum pardal cai por terra, não desamparasse o estrangeiro, referindo-se a mim, com aplicações ainda mais diretas e pessoais, embora principalmente de acordo com a fórmula há muito estabelecida, comum aos habitantes das terras baixas e das montanhas. Quando terminou de orar, tomei a liberdade de perguntar se tinha em sua cabana algum queijo que me vendesse, mas ele respondeu sem erguer os olhos, e na mesma voz baixa e repelente de antes, que não faziam queijo, e foi ordenhar. Está escrito: “O estrangeiro que se afasta de uma casa com as esperanças frustradas deixa ali suas próprias ofensas e parte, levando consigo todas as boas ações do proprietário.”

Agora plenamente inseridos na corrente do comércio daquela semana, começamos a encontrar barcos com maior frequência e, de tempos em tempos, saudávamo-los com a liberdade dos marinheiros. Os barqueiros pareciam levar uma vida fácil e satisfeita, e pensávamos que nós mesmos preferiríamos seu ofício a muitas profissões muito mais procuradas. Eles sugeriam quão poucas circunstâncias são necessárias ao bem-estar e à serenidade do homem, quão indiferentes são todas as ocupações, e que qualquer uma pode parecer nobre e poética aos olhos dos homens, quando exercida com suficiente leveza de espírito e liberdade. Com liberdade e tempo agradável, a mais simples ocupação, qualquer modo de vida campestre não questionado que nos retenha ao ar livre, é sedutor. O homem que colhe ervilhas com constância para viver é mais que respeitável, chega até a ser invejado por seus vizinhos gastos pela loja. Somos tão felizes quanto as aves quando nosso Bom Gênio nos permite dedicar-nos a algum trabalho ao ar livre, sem sensação de dissipação. Nosso canivete reluz ao sol; nossa voz repercute naquele bosque; se um remo cai, temos vontade de deixá-lo cair de novo.

O barco de canal é de construção muito simples, exige pouca madeira própria para embarcações e, segundo nos disseram, custa cerca de duzentos dólares. É conduzido por dois homens. Ao subir o rio, usam varas de quatorze ou quinze pés de comprimento, com pontas de ferro, caminhando a partir da proa por cerca de um terço da extensão do barco. Ao descer, em geral se mantêm no meio da corrente, usando um remo em cada extremidade; ou, se o vento é favorável, içam sua larga vela e precisam apenas governar. Comumente transportam rio abaixo madeira ou tijolos, quinze ou dezesseis cordas de lenha e outros tantos milhares de tijolos por viagem, e trazem de volta provisões para o interior, gastando dois ou três dias em cada sentido entre Concord e Charlestown. Às vezes empilham a madeira de modo a deixar, numa parte, um abrigo onde possam se recolher da chuva. É difícil imaginar ocupação mais saudável, ou mais propícia à contemplação e à observação da natureza. Diferentemente do marinheiro, têm o panorama sempre mutável das margens para aliviar a monotonia do trabalho, e pareceu-nos que, enquanto assim deslizavam sem ruído de cidade em cidade, com todos os seus móveis ao redor, pois até o próprio lar é móvel, podiam comentar o caráter dos habitantes com maior vantagem e segurança para si do que o viajante numa diligência, que não poderia permitir-se, numa embarcação tão pequena, semelhantes bordadas de espírito e humor, por medo do recuo. Não ficam expostos às intempéries como os madeireiros do Maine, seja qual for o tempo, mas respiram as brisas mais salubres, pouco estorvados pela roupa, muitas vezes com a cabeça e os pés nus. Quando os encontrávamos ao meio-dia descendo o rio sem pressa, seu movimentado comércio não parecia trabalho, mas antes algum antigo jogo oriental ainda praticado em grande escala, como o xadrez, por exemplo, transmitido até esta geração. Da manhã à noite, a menos que o vento seja tão favorável que sua única vela baste sem outro labor além de governar, o barqueiro caminha para a frente e para trás pela borda do barco, ora curvando-se com o ombro contra a vara, ora puxando-a lentamente para trás a fim de fincá-la de novo, enquanto avança sem cessar por um vale interminável e uma paisagem em perpétua mudança, ora distinguindo seu percurso por uma ou duas milhas, ora encerrado, por uma curva súbita do rio, num pequeno lago entre bosques. Todos os fenômenos que o cercam são simples e grandiosos, e há algo de impressionante, até majestoso, no próprio movimento que ele produz, o qual naturalmente se comunicará ao seu caráter; e ele sente com orgulho o movimento lento e irresistível sob seus pés, como se fosse sua própria energia.

A notícia se espalhava como fogo entre nós, os jovens, quando antigamente, uma vez a cada ano ou dois, um desses barcos subia o rio Concord e era visto avançando furtivamente, com ar misterioso, através dos prados e passando pela aldeia. Chegava e partia tão silenciosamente quanto uma nuvem, sem ruído nem poeira, e poucos o testemunhavam. Num dia de verão, esse enorme viajante podia ser visto amarrado ao cais de algum prado; em outro dia de verão, já não estava ali. De onde exatamente vinha, ou quem eram aqueles homens que conheciam as pedras e as sondagens melhor do que nós, que ali nos banhávamos, nunca pudemos saber. Nós conhecíamos apenas uma enseada do rio; eles, porém, percorriam rios de ponta a ponta. Para nós, eram uma espécie de fabulosos homens do rio. Era inconcebível por que tipo de mediação um simples homem da terra poderia comunicar-se com eles. Porventura parariam para satisfazer seus desejos? Não, já era favor bastante ter uma vaga notícia de seu destino ou da época de seu possível regresso. Eu os vi no verão, quando a corrente estava baixa, ceifando as ervas no meio do canal e, entre gracejos de ceifadores, abrindo largas leiras em três pés de água para dar passagem à sua chata, enquanto a relva, disposta em longos cordões, era levada corrente abaixo sem secar, apesar do mais raro tempo propício à fenação. Admirávamos incansavelmente como sua embarcação podia flutuar, feito uma enorme lasca, sustentando tantos barris de cal, milhares de tijolos e tamanhos montes de minério de ferro, com carrinhos de mão a bordo, e como, ao pisarmos nela, não cedia à pressão de nossos pés. Isso nos inspirava confiança no predomínio da lei da flutuação, e imaginávamos os infinitos usos a que ela poderia servir. Os homens pareciam levar ali uma espécie de vida, e corria em voz baixa que dormiam a bordo. Alguns afirmavam que o barco levava vela e que sopravam por aqui ventos capazes de enfunar as velas dos navios no oceano; outros, por sua vez, duvidavam muito disso. Pescadores afortunados que se encontravam na água os haviam visto atravessar à vela nossa baía de Fair Haven, mas, infelizmente, os demais não estavam presentes para ver. Podíamos então dizer que nosso rio era navegável, por que não? Anos depois, li impresso, com não pouca satisfação, que alguns julgavam que, com pequeno gasto na remoção de pedras e no aprofundamento do canal, “poderia haver uma navegação interior lucrativa”. Eu então vivia em algum lugar para contar isso.

Assim é o Comércio, que sacode o coqueiro e a árvore-do-pão na mais remota ilha e, cedo ou tarde, desponta para o mais escuro e mais ingênuo dos selvagens. Se nos for perdoada a digressão, quem pode deixar de comover-se ao pensar na relação finíssima e tênue, porém positiva, em que os habitantes selvagens de alguma ilha remota se encontram com o misterioso marinheiro branco, o filho do sol? Como se nós tivéssemos relações com um animal situado acima de nós na escala dos seres. Para os nativos, é um fato mal reconhecido que ele existe, que tem seu lar longe, em algum lugar, e que se alegra em comprar seus frutos frescos com as mercadorias que lhe sobram. Sob o mesmo sol universal, seu navio branco cintila sobre as ondas do Pacífico ao entrar em suas baías tranquilas, e o remo do pobre selvagem reluz no ar.

Pequenos atos do homem são grandiosos,

Vistos de terra em terra,

Ali, tal como repousam no tempo,

Dentro de seu clima natal,

Navios ao meio-dia levantam âncora,

E deslizam diante de seu raio

Para alguma baía retirada,

Seu refúgio,

De onde, sob o sol dos trópicos,

Tornam a partir,

Levando goma do Senegal e tragacanto.

Para isso foi feito o oceano,

Para isso o sol foi enviado,

E a lua, emprestada,

E os ventos, em cavernas distantes encerrados.

Desde nossa viagem, a ferrovia ao longo da margem foi prolongada, e agora há pouquíssima navegação no Merrimack. Antigamente, todo tipo de produtos e provisões era transportado por água, mas agora nada é levado rio acima, e quase somente madeira e tijolos descem o rio, e estes também seguem pela ferrovia. As eclusas estão se desgastando depressa e logo ficarão intransitáveis, pois os pedágios não cobrirão o custo de repará-las; assim, dentro de poucos anos, chegará ao fim a navegação neste rio. Atualmente, ela se dá principalmente entre Merrimack e Lowell, ou entre Hooksett e Manchester. Fazem duas ou três viagens por semana, conforme o vento e o tempo, de Merrimack a Lowell e de volta, cerca de vinte e cinco milhas em cada sentido. O barqueiro chega cantando à margem tarde da noite, amarra seu barco vazio, janta e se hospeda em alguma casa próxima; e de novo, cedo pela manhã, talvez à luz das estrelas, parte rio acima e, com um grito ou um fragmento de canção, anuncia sua aproximação ao eclusador, com quem tomará o café da manhã. Se chega à sua pilha de madeira antes do meio-dia, põe-se a carregar o barco, com a ajuda de seu único “ajudante”, e antes do anoitecer já está novamente a caminho rio abaixo. Ao chegar a Lowell, descarrega o barco, recebe o comprovante de sua carga e, depois de ouvir as notícias na estalagem pública de Middlesex ou em outro lugar, retorna com o barco vazio e o comprovante no bolso ao proprietário, para buscar nova carga. Muitas vezes éramos avisados de sua aproximação por algum som indistinto atrás de nós e, ao nos virarmos, víamos os barcos a uma milha de distância, subindo furtivamente junto à margem como jacarés. Era agradável saudar de tempos em tempos esses marinheiros do Merrimack e saber as notícias que circulavam com eles. Imaginávamos que o sol, brilhando sobre suas cabeças nuas, imprimira um caráter liberal e público até em seus pensamentos mais particulares.

A campina aberta e ensolarada ainda se estendia para longe do rio, às vezes por dois ou mais terraços, até a distante região de colinas; e, quando subíamos a margem, comumente encontrávamos uma mata irregular margeando o rio, pois a floresta primitiva havia descido boiando corrente abaixo muito tempo antes, rumo à... “marinha do Rei”. Às vezes víamos a estrada do rio a um quarto ou meia milha de distância, e a diligência multicolorida de Concord, com sua nuvem de poeira, sua vanguarda de rostos atentos de viajantes e sua retaguarda de baús empoeirados, lembrando-nos de que o interior tinha seus pontos de encontro para os inquietos homens ianques. Ao longo dessa campina, a distâncias consideráveis, vivia um povo tranquilo de agricultores e pastores, cada casa com seu poço, como às vezes comprovávamos, e cada lar, por mais imóvel e remoto que parecesse ao meio-dia, com seu jantar por volta daquela hora. Ali seguiam vivendo, aquele povo da Nova Inglaterra, vidas de lavradores, pai, avô e bisavô, sempre adiante e sem ruído, mantendo a tradição e esperando, além de bom tempo e colheitas abundantes, não soubemos o quê. Contentavam-se em viver, já que assim fora disposto para eles, e no lugar onde lhes haviam caído as divisas.

Nossos cadáveres sem perguntas jazem mais fundo

Do que alcança a curiosidade de nossa vida.

Ainda assim, esses homens não precisavam viajar para ser tão sábios quanto Salomão em toda a sua glória, tão semelhantes são as vidas dos homens em todos os países e tão carregadas das mesmas experiências domésticas. Metade do mundo sabe como vive a outra metade.

Por volta do meio-dia, passamos por uma pequena aldeia de Merrimack, em Thornton’s Ferry, e provamos as águas do riacho Naticook, no mesmo lado, onde French e seus companheiros, cuja sepultura vimos em Dunstable, caíram numa emboscada dos indígenas. A humilde aldeia de Litchfield, com sua casa de reuniões sem campanário, erguia-se na margem oposta, ou oriental, perto de onde um denso bosque de salgueiros, tendo bordos ao fundo, acompanhava a margem. Ali também notamos algumas nogueiras-de-casca-solta, que, por não crescerem em Concord, eram para nós tão estranhas quanto seria uma palmeira, da qual só vimos o fruto. Nosso curso agora se curvava graciosamente para o norte, deixando do lado de Merrimack uma margem baixa e plana, que forma uma espécie de porto para barcos de canal. Observamos alguns belos olmos e bordos-brancos especialmente grandes e formosos, destacando-se nessa campina; e a margem oposta, um quarto de milha abaixo, estava coberta de jovens olmos e bordos de seis polegadas de altura, que provavelmente haviam brotado de sementes trazidas pelas águas de uma margem à outra.

Alguns carpinteiros trabalhavam ali, consertando uma chata na margem verde e inclinada. Os golpes de seus malhos ecoavam de uma margem à outra e rio acima e abaixo, e suas ferramentas reluziam ao sol a um quarto de milha de nós; então compreendemos que a construção de barcos era uma arte tão antiga e honrosa quanto a agricultura, e que podia haver uma vida naval assim como uma vida pastoril. Toda a história do comércio se fazia manifesta naquela chata virada de fundo para cima na margem. Foi assim que os homens começaram a descer ao mar em navios; quæque diu steterant in montibus altis, Fluctibus ignotis insultavêre carinæ; “e quilhas que por muito tempo haviam permanecido em altas montanhas avançaram altivamente (insultavêre) sobre ondas desconhecidas”. (Ovídio, Met. I. 133.) Pensamos que seria bom o viajante construir seu barco à margem de um rio, em vez de procurar uma balsa ou uma ponte. Nas Aventuras de Henry, o comerciante de peles, é agradável ler que, quando ele e seus indígenas chegaram à margem do Ontário, gastaram dois dias construindo duas canoas com a casca do olmo, nas quais se transportaram até o Forte Niagara. É um episódio digno de uma jornada, uma demora tão valiosa quanto muita viagem veloz. Boa parte de nosso interesse no relato de Xenofonte sobre sua retirada está nas manobras destinadas a fazer o exército atravessar os rios em segurança, fosse em jangadas de toras ou feixes de lenha, fosse em peles de carneiro infladas. E onde poderiam permitir-se melhor uma demora, nesse meio-tempo, do que às margens de um rio?

Enquanto deslizávamos ao longe, aqueles trabalhadores ao ar livre pareciam ter conferido certa dignidade ao trabalho pela própria publicidade dele. Era parte da indústria da natureza, como o labor dos vespões e das vespas-de-barro.

As ondas batem devagar,

Só para o meio-dia adoçar,

E som algum vem flutuar,

Salvo o malho à beira-mar,

Que, ecoando lá no alto,

Parece calafetar o céu.

A névoa, poeira de viagem do sol, exercia influência letárgica sobre a terra e seus habitantes, e todas as criaturas se entregavam a flutuar nas marés imperceptíveis da natureza.

Trama do sol, gaze etérea,

Tecida das mais ricas matérias da Natureza,

Calor visível, água de ar e mar seco,

Última conquista do olhar;

Labor do dia exposto em poeira solar,

Arrebentação aérea nas praias da terra.

Estuário etéreo, braço de luz,

Quebra-mares de ar, vagas de calor,

Fina borrifação de verão em mares interiores;

Ave do sol, de asas transparentes,

Corujinha do meio-dia, de plumas suaves,

Erguendo-se sem canto da charneca ou do restolho;

Estabelece tua serenidade sobre os campos

A rotina que se cumpre à luz do sol e nos dias mais belos, por ser aquela que venceu e prevaleceu, recomenda-se a nós por sua própria antiguidade e por sua aparente solidez e necessidade. Nossa fraqueza precisa dela, e nossa força a utiliza. Não conseguimos calçar as botas sem nos firmarmos contra ela. Se houvesse no bosque uma única árvore ereta e sólida, todas as criaturas iriam roçar-se nela e certificar-se de que tinham onde apoiar os pés. Durante as muitas horas que passamos nesse sono desperto, o ponteiro permanece imóvel no mostrador do relógio, e crescemos como o milho durante a noite. Os homens são tão atarefados quanto os riachos ou as abelhas, e adiam tudo por causa de seus negócios, como carpinteiros que discutem política entre uma martelada e outra enquanto cobrem um telhado com telhas de madeira.

Este meio-dia era ocasião propícia para buscar algum porto aprazível e ali ler o diário de algum viajante como nós, não demasiado moralista nem inquisitivo, e que não perturbasse o meio-dia; ou então algum velho clássico, a própria flor de toda leitura, que havíamos reservado para uma estação assim

“De paz síria, de ócio imortal.”

Mas, ai de nós, nosso baú, como a cabine de um navio costeiro, não continha, como literatura, senão seu muito manuseado Navegador, e fomos obrigados a recorrer à memória para tais coisas.

Naturalmente nos lembramos ali das Aventuras, de Alexander Henry, uma espécie de clássico entre os livros de viagem americanos. A obra contém paisagens e esboços vigorosos de homens e incidentes suficientes para inspirar poetas durante muitos anos, e, a meu ver, é tão cheia de nomes sonoros quanto qualquer página da história: lago Winnipeg, baía de Hudson, Ottaway e incontáveis portagens; Chipeways, Gens de Terres, Les Pilleurs, The Weepers; com reminiscências da jornada de Hearne e coisas semelhantes; um país imenso e hirsuto, porém sincero, no verão e no inverno, adornado por cadeias de lagos e rios, coberto de neve, de cicutas e abetos. Há nesse viajante uma naturalidade, uma vida despretensiosa e fria, como num inverno canadense, uma vida preservada através das baixas temperaturas e dos perigos da fronteira por peles que envolvem um coração robusto. Ele possui uma verdade e uma moderação dignas do pai da história, que só pertencem à experiência íntima, e não se curva em excesso à literatura. O viajante sem erudição pode citar seu único verso dos poetas com tanto direito quanto o estudioso. Também ele pode falar das estrelas, pois talvez as veja cair quando o astrônomo não as vê. O bom senso desse autor é muito evidente. É um viajante que não exagera, mas escreve para informar seus leitores, para a ciência e para a história. Sua narrativa é contada com tanta boa-fé e franqueza como se fosse um relatório dirigido a seus irmãos de comércio ou aos Diretores da Companhia da Baía de Hudson, e é apropriadamente dedicada a Sir Joseph Banks. Lê-se como o argumento de um grande poema sobre o estado primitivo do país e de seus habitantes, e o leitor imagina o que, em cada caso, com a invocação da Musa, poderia ser cantado, e interrompe a leitura com o interesse suspenso, como se o relato completo ainda viesse a seguir. Em que escola foi educado esse comerciante de peles? Ele parece atravessar o imenso país nevado sem outro propósito além daquele do leitor que o acompanha, e, para a imaginação deste último, o país é, por assim dizer, criado a cada instante para servir de cenário a suas aventuras. O que há de mais interessante e valioso no livro, contudo, não são os materiais que ele fornece para a história de Pontiac, de Braddock ou do Noroeste; não são os anais do país, mas os fatos naturais, ou perenes, que jamais têm data. Quando a verdade tiver sido extraída da história, esta terá deixado cair suas datas como folhas murchas.

O Souhegan, ou rio Tortuoso, como alguns traduzem, vem do oeste cerca de uma milha e meia acima da Balsa de Thornton. O riacho Babboosuck deságua nele perto da foz. Diz-se que algumas das melhores quedas-d’água aproveitáveis do país ainda permanecem sem uso nesse primeiro curso d’água, a pouca distância do Merrimack. Numa manhã de primavera, em 22 de março do ano de 1677, ocorreu às margens do rio, neste lugar, um incidente que nos interessa como pequena memória de um encontro entre duas antigas tribos de homens, uma das quais está agora extinta, enquanto a outra, embora ainda representada por um remanescente miserável, há muito desapareceu de seus antigos campos de caça. Um certo sr. James Parker, na “fazenda do sr. Hinchmanne perto do Meremack”, escreveu assim “ao Honorável Governador e Conselho em Bostown, Depressa, pelo correio, depressa”:

“O sagamore Wanalancet veio esta manhã informar-me, e depois foi à casa do sr. Tyng para informá-lo, de que seu filho, estando do outro lado do rio Meremack, em frente ao Souhegan, no dia 22 deste mês, por volta das dez horas da manhã, avistou quinze indígenas deste lado do rio, que supôs serem Mohokes por sua fala. Chamou por eles; responderam, mas ele não pôde compreender sua fala; e, como tinha uma canoa ali no rio, foi quebrar sua canoa para que eles não pudessem fazer uso dela. Nesse meio-tempo, dispararam contra ele cerca de trinta tiros, e ele, muito assustado, fugiu e voltou imediatamente para Nahamcock [Cataratas de Pawtucket ou Lowell], onde agora se erguem seus wigwams.”

Penacooks e Mohawks! ubique gentium sunt? No ano de 1670, um guerreiro mohawk escalpelou uma jovem indígena naamkeak, ou talvez wamesit, perto de onde hoje se ergue Lowell. Ela, contudo, se recuperou. Ainda em 1685, John Hogkins, um indígena penacook, que descreve seu avô como tendo vivido “num lugar chamado rio Malamake, outro nome chefe Natukkog e Panukkog, esse rio tem muitos nomes”, escreveu assim ao governador:

“15 de maio de 1685.

“Honrado governador, meu amigo,

“Vós, meu amigo, desejo vossa senhoria e vosso poder, porque espero que podeis fazer algumas grandes coisas nesta questão. Sou pobre e nu e não tenho homens em meu lugar porque temo sempre os Mohogs, ele me matará todo dia e toda noite. Se vossa senhoria quando vos agradar rogo que me ajudeis, não deixeis os Mohogs me matarem em meu lugar no rio Malamake chamado Pannukkog e Natukkog, eu me submeterei a vossa senhoria e a vosso poder. E agora quero pólvora e munição, chumbo e armas, porque tenho forte em minha casa e planto ali.

“Tudo isto mão de indígena, mas rogo que considereis vosso humilde servo,

JOHN HOGKINS.”

Assinado também por Simon Detogkom, King Hary, Sam Linis, sr. Jorge Rodunnonukgus, John Owamosimmin e nove outros indígenas, com suas marcas diante dos respectivos nomes.

Mas agora, tendo transcorrido cento e cinquenta e quatro anos desde a data dessa carta, seguimos nosso caminho sem alarme, sem “quebrar” nossa “canoa”, lendo o Gazetteer da Nova Inglaterra e sem ver vestígios de “Mohogs” nas margens.

O Souhegan, embora seja um rio rápido, parecia hoje ter tomado emprestado seu caráter ao meio-dia.

Onde campos luminosos de bruma

Ao olhar do viajante se arrumam,

E no alto o ar abrasado

Parece formar outro rio elevado,

Os pinheiros erguem-se com orgulho

À margem do Souhegan sem murmúrio,

E a cicuta e o lariço, em seu traçado,

Com seu arco triunfal levantado,

Ondulam sobre o curso encaminhado

Para o mar.

Nenhum vento lhe agita as vagas,

Mas os espíritos dos bravos,

Pairando além,

Cujas sepulturas antigas

Sua água imóvel mitiga

Junto à margem.

Com o passo furtivo de um indígena

Ele segue dormindo em seu leito,

Sem alegria nem pesar,

Sem uma folha a farfalhar,

Sem ondulação nem marulho,

Sem do salgueiro um suspiro,

Das colinas de Lyndeboro’

Aos moinhos do Merrimack.

Com estrondo mais forte

Sua corrente iniciou seu corte,

Quando a neve se desfez

Na fronte da montanha distante,

E as gotas se reuniram

Naquela estação de chuvas.

Rio experiente,

Fluíste eternamente?

Souhegan soa antigo,

Mas nem metade foi dito:

Que nomes já carregaste

Nas eras que se afastaram,

Quando o Xanto e o Meandro

Começaram a vagar,

Antes que o urso-negro assombrasse

O chão vermelho de tua mata,

Ou que a Natureza plantasse

Os pinheiros junto à tua margem?

Durante o calor do dia, descansamos numa grande ilha, uma milha acima da foz desse rio, onde pastava um rebanho de gado, com barrancas íngremes e olmos e carvalhos dispersos, e um canal suficiente para barcos de navegação interior de cada lado. Quando acendemos uma fogueira para cozinhar arroz para o jantar, as chamas se espalhando pela relva seca, e a fumaça subindo em silêncio em espirais e projetando sombras grotescas no chão, pareciam fenômenos do meio-dia, e imaginamos que avançávamos rio acima sem esforço, tão naturalmente quanto o vento e a maré desciam, sem ultrajar os dias tranquilos com agitação indigna ou impaciência. Os bosques da margem vizinha estavam cheios de pombos, que seguiam para o sul em busca de frutos de árvores, mas que agora, como nós, passavam o meio-dia à sombra. Podíamos ouvir o ruído leve, tenso e joeirante de suas asas quando mudavam de pouso de tempos em tempos, e seu arrulho suave e trêmulo. Permaneceram conosco durante o meio-dia, viajantes muito maiores do que nós. Com frequência se pode descobrir um único casal pousado nos galhos mais baixos do pinheiro-branco, nas profundezas do bosque, a essa hora do dia, tão silencioso e solitário, e com aparência tão eremítica, como se jamais tivesse se afastado de seus limites, enquanto a bolota colhida nas florestas do Maine ainda permanece sem digerir em seus papos. Obtivemos uma dessas belas aves, que se demorou por tempo demais no poleiro, e ali a depenamos e assamos com alguma outra caça, para levá-la conosco para a ceia; pois, além das provisões que carregávamos, dependíamos sobretudo do rio e do bosque para nosso sustento. É verdade que depenar essa ave, extrair-lhe as entranhas e assar sua carcaça sobre as brasas não parecia dar-lhe o uso adequado; mas, ainda assim, perseveramos heroicamente, à espera de maiores esclarecimentos. A mesma consideração pela Natureza que despertava nossa compaixão por suas criaturas deu firmeza a nossas mãos para levar a cabo o que havíamos começado. Pois queríamos ser honrados para com o partido que havíamos abandonado; queríamos cumprir o destino e, assim, talvez, enfim descobrir a inocência secreta dessas tragédias incessantes que o Céu permite.

“Resoluções velozes à resolução fazem mal;

Quê, separar-se tão cedo para tão longa separação?

O que deve ser feito requer longa deliberação;

O Céu não tem dia marcado, nem data o arrependimento.”

Somos lâminas de dois gumes, e toda vez que afiamos nossa virtude, o golpe de volta assenta o fio de nosso vício. Onde está o espadachim hábil capaz de produzir feridas limpas sem rasgar o próprio trabalho com o outro gume?

A própria Natureza não providenciou o fim mais gracioso para suas criaturas. Que destino têm todas essas aves que povoam o ar e o bosque para nosso consolo? Os pardais parecem sempre vivazes, jamais enfermos. Não vemos seus corpos espalhados pelo chão. E, no entanto, há uma tragédia ao fim da vida de cada um. Devem perecer miseravelmente; nenhum deles é arrebatado. É verdade que “nem um pardal cai por terra sem o conhecimento de nosso Pai Celestial”, mas, apesar disso, eles caem.

As carcaças de alguns pobres esquilos, contudo, os mesmos que haviam saltitado tão alegremente pela manhã, e que esfoláramos e estripáramos para nosso jantar, abandonamos com repugnância, numa humanidade tardia, como recurso miserável demais para quaisquer homens que não estivessem morrendo de fome. Aquilo seria perpetuar a prática de uma era bárbara. Se fossem maiores, nosso crime teria sido menor. Seus pequenos corpos vermelhos, pequenos feixes de tecido rubro, meros nacos de carne de caça, não teriam “engordado o fogo”. Num impulso súbito, nós os jogamos fora, lavamos as mãos e cozinhamos um pouco de arroz para o jantar. “Vede a diferença entre aquele que come a carne e aquele a quem ela pertencia! O primeiro desfruta de um prazer momentâneo, enquanto o segundo é privado da existência!” “Quem cometeria crime tão grande contra um pobre animal, que se alimenta apenas das ervas que crescem espontaneamente nos bosques e cujo ventre arde de fome?” Lembramo-nos de uma imagem da humanidade na era dos caçadores, perseguindo lebres montanha abaixo; ó miserável de mim! Contudo, ovelhas e bois são apenas esquilos maiores, cujas peles são guardadas e cuja carne é salgada, e cujas almas talvez não sejam tão grandes em proporção aos corpos.

Deveria haver sempre algum florescimento e amadurecimento dos frutos da Natureza no processo de cozinhar. Certos pratos simples recomendam-se à nossa imaginação tanto quanto ao paladar. No milho torrado, por exemplo, há uma afinidade manifesta entre a semente que rebenta e os desenvolvimentos mais perfeitos da vida vegetal. É uma flor perfeita, com suas pétalas, como a houstonia ou a anêmona. Em meu lar aquecido, essas flores cerealíferas se abriram; aqui está o barranco onde cresceram. Talvez alguma bênção visível como essa acompanhasse sempre a refeição simples e saudável.

Ali estava aquele “porto aprazível” pelo qual havíamos suspirado, onde o viajante cansado podia ler o diário de algum outro marinheiro, cuja barca talvez tivesse sulcado mares mais famosos e clássicos. À mesa dos deuses, depois do banquete vêm a música e o canto; reclinemo-nos agora sob estas árvores da ilha e chamemos, para nosso menestrel,

ANACREONTE.

“E ele não cessou seu canto encantador, pois ainda aquela lira,

Embora esteja morto, não dorme no Hades.”

Epigrama de Simônides sobre Anacreonte.

Há pouco encontrei, numa livraria de Londres, um velho volume que continha os Poetas Gregos Menores, e foi um prazer ler mais uma vez apenas as palavras Orfeu, Lino, Museu, esses tênues sons poéticos e ecos de um nome, que se extinguem aos ouvidos de nós, homens modernos; e aqueles sons pouco mais substanciais, Mimnermo, Íbico, Alceu, Estesícoro, Menandro. Eles não viveram em vão. Podemos conversar sem reservas nem personalidade com essas famas incorpóreas.

Não conheço estudos que serenem tanto quanto os do erudito clássico. Quando nos sentamos diante deles, a vida parece tão imóvel e serena como se estivesse muito distante, e creio que, de nenhuma plataforma comum, ela é habitualmente vista com tanta verdade e sem exagero quanto à luz da literatura. Em horas serenas, contemplamos o percurso dos autores gregos e latinos com mais prazer do que o viajante contempla as mais belas paisagens da Grécia ou da Itália. Onde encontraremos sociedade mais refinada? Essa estrada que desce de Homero e Hesíodo até Horácio e Juvenal é mais atraente que a Via Ápia. Ler os clássicos, ou conversar com aqueles antigos gregos e latinos em suas obras sobreviventes, é como caminhar entre estrelas e constelações, uma via elevada e serena pela qual viajar. Com efeito, o verdadeiro erudito terá em seus hábitos não pouco do astrônomo. Não permitirá que cuidados dispersivos obstruam seu campo de visão, pois as regiões superiores da literatura, como a astronomia, estão acima da tempestade e da escuridão.

Mas, deixando de lado esses rumores de bardos, detenhamo-nos por um momento no poeta de Teos.

Há nele algo estranhamente moderno. É muito fácil vertê-lo para o inglês. Será porque nossos poetas líricos não fizeram senão repercutir aquela lira, que só queria soar temas leves e que, segundo nos diz Simônides, não dorme no Hades? Suas odes são como joias de puro marfim. Possuem uma beleza etérea e evanescente, como as tardes de verão, ὅ χρή σε νοεῖν νόου ἄνθει, que deves perceber com a flor da mente, e mostram quão tênue beleza podia ser expressa. É preciso contemplá-las como as estrelas de menor magnitude, pelo canto do olho, e desviar delas o olhar para enxergá-las. Encantam-nos por sua serenidade e sua ausência de exagero e paixão, e por certa beleza semelhante à das flores, que não se oferece por si mesma, mas deve ser abordada e estudada como um objeto natural. Talvez, porém, seu principal mérito consista na leveza e, ainda assim, na segurança de seus passos:

“O caule jovem e tenro

Nunca se curva quando elas passam.”

É verdade que nossos nervos jamais se retesam com elas; é constantemente demais o som da lira, e nunca a nota da trombeta; mas não são grosseiras, como se tem presumido, e sim sempre elevadas acima do sensual.

Estas são algumas das melhores que chegaram até nós.

SOBRE SUA LIRA

Quero cantar os Atridas,

E Cadmo quero cantar;

Mas minha lira faz soar

Somente o amor em suas cordas.

Há pouco troquei as cordas

E toda a lira;

E comecei a cantar os trabalhos

De Hércules; mas minha lira

Ressoou amores.

Adeus, portanto, para mim,

Heróis! Pois minha lira

Canta somente amores.

A UMA ANDORINHA

Tu, de fato, querida andorinha,

Que a cada ano partes e retornas,

No verão teces teu ninho,

E no inverno desapareces,

Seja para o Nilo, seja para Mênfis.

Mas o Amor tece sempre

Seu ninho em meu coração…

SOBRE UMA TAÇA DE PRATA

Trabalhando a prata,

Vulcano, faze para mim

Não uma armadura,

Pois que me importam as batalhas?

Mas uma taça funda,

Tão profunda quanto puderes;

E nela não faças

Nem estrelas, nem carros,

Nem o triste Órion;

Que me importam as Plêiades?

Que me importa o brilhante Boieiro?

Faze para mim videiras,

E cachos de uvas nela,

E, de ouro, o Amor e Batilo

Pisando as uvas

Com o belo Lieu.

SOBRE SI MESMO

Tu cantas os feitos de Tebas,

E ele, as batalhas de Troia,

Mas eu, minhas próprias derrotas.

Nenhum cavalo me devastou,

Nem infantaria, nem navios;

Mas um exército novo e diferente,

Que me fere com os olhos.

A UMA POMBA

Pomba encantadora,

De onde, de onde vens voando?

De onde, correndo pelo ar,

Espalhas e difundes

Tantos doces perfumes?

Quem és? Qual é tua missão?

Anacreonte me enviou

A um rapaz, a Batilo,

Que há pouco se fez senhor e tirano de todos.

Citera me vendeu

Por uma pequena canção,

E presto este serviço

A Anacreonte.

E agora, como vês,

Levo cartas dele.

E ele diz que em breve

Me tornará livre;

Mas, ainda que me liberte,

Permanecerei com ele como escrava.

Pois por que haveria eu de voar

Sobre montanhas e campos,

E pousar nas árvores,

Comendo alguma coisa silvestre?

Agora, com efeito, como pão,

Colhendo-o das mãos

Do próprio Anacreonte;

E ele me dá de beber

O vinho que prova,

E, depois de beber, danço

E faço sombra ao rosto

De meu senhor com minhas asas;

E, ao me recolher,

Durmo sobre a própria lira.

Isso é tudo; vai-te agora.

Tu me fizeste mais tagarela,

Homem, do que um corvo.

SOBRE O AMOR

O Amor, caminhando depressa,

Com um cajado de jacinto,

Mandou que eu corresse com ele;

E, apressando-me por torrentes velozes,

Lugares arborizados e precipícios,

Uma cobra-d'água me picou.

E meu coração saltou até

Minha boca, e eu teria desmaiado;

Mas o Amor, abanando minha fronte

Com suas asas macias, disse:

Certamente não és capaz de amar.

SOBRE AS MULHERES

A Natureza deu chifres

Aos touros, e cascos aos cavalos,

Velocidade às lebres,

Aos leões, dentes escancarados,

Aos peixes, o nado,

Às aves, o voo,

Aos homens, a sabedoria.

Para a mulher nada mais lhe restava;

Que lhe deu então? Beleza,

Em lugar de todos os escudos,

Em lugar de todas as lanças;

E aquela que é bela conquista

Até o ferro e o fogo.

SOBRE OS AMANTES

Os cavalos têm a marca

Do fogo em seus flancos,

E alguns distinguiram

Os homens partos por suas tiaras;

Assim eu, ao ver amantes,

Reconheço-os de imediato,

Pois trazem certa e tênue

Marca em seus corações.

A UMA ANDORINHA

Que queres que eu te faça,

Que queres, andorinha tagarela?

Queres que eu te tome

E corte tuas leves asas?

Ou antes que te arranque

A língua de dentro,

Como fez aquele Tereu?

Por que, com tuas notas ao amanhecer,

Roubaste Batilo

De meus belos sonhos?

A UM POTRO

Potro trácio, por que, olhando-me

De esguelha com teus olhos,

Foges cruelmente

E pensas que nada sei de sábio?

Saibas que eu poderia muito bem

Pôr-te o freio

E, segurando as rédeas, conduzir-te

Ao redor dos marcos da pista.

Mas agora pastas nos prados

E brincas, saltando com leveza,

Pois não tens cavaleiro hábil

Montado em teu dorso.

CUPIDO FERIDO

Certa vez, entre as rosas, o Amor

Não viu

Uma abelha adormecida, e foi picado;

E, ferido no dedo

Da mão, gritou de dor.

Correndo e também voando

Até a bela Vênus,

Estou morto, mãe, disse ele,

Estou morto e vou morrer.

Uma pequena serpente me picou,

Alada, a que chamam

Abelha, os lavradores.

E ela disse: Se o ferrão

De uma abelha te aflige,

Como pensas que ficam aflitos,

Amor, aqueles a quem feres?

—————

Ao fim da tarde, pois havíamos demorado muito na ilha, içamos nossa vela pela primeira vez, e durante uma breve hora o vento sudoeste foi nosso aliado; mas não aprouve ao Céu favorecer-nos por muito tempo. Com uma vela erguida, avançamos lentamente pelo lado oriental da corrente, mantendo-nos afastados das rochas, enquanto, do alto de uma colina que formava a margem oposta, alguns lenhadores rolavam troncos para baixo, a fim de reuni-los em jangadas e fazê-los descer o rio. Podíamos ver seus machados e alavancas reluzindo ao sol, e os troncos desciam entre poeira e estrondo, cujo som repercutia pelos bosques além de nós, em nossa margem, como o ribombar da artilharia. Mas Zéfiro logo nos levou para além da vista e do alcance sonoro daquele comércio. Depois de passarmos a Balsa de Read e outra ilha chamada Ilha de McGaw, alcançamos algumas corredeiras chamadas Quedas de Moore e entramos “naquela seção do rio, com nove milhas de extensão, convertida por lei no Canal Union, que compreende nesse espaço seis quedas distintas; em cada uma delas, e em vários pontos intermediários, foram executadas obras”. Depois de transpormos as Quedas de Moore por meio de eclusas, recorremos novamente aos remos e seguimos alegremente, fazendo o pequeno maçarico voar de rocha em rocha diante de nós e, às vezes, remando perto o bastante de uma casa na margem, embora fossem poucas e muito distantes umas das outras, para ver diante da porta os girassóis e as cápsulas de papoula, semelhantes a pequenas taças cheias da água do Letes, sem, contudo, perturbar a indolente família no interior. Assim prosseguimos, velejando ou abrindo caminho com mergulhos do remo ao longo daquele largo rio, liso e plácido, que corria sobre rochas ocultas, onde podíamos ver o lúcio imóvel nas águas transparentes, ansiosos por contornar algum cabo distante, por fazer alguma grande curva, como na vida do homem, e ver que nova perspectiva se abriria; contemplando ao longe um país novo, amplo e sereno, as casas dos colonos vistas de longe pela primeira vez, embora já houvesse musgo de um século em seus telhados e a terceira ou quarta geração em suas sombras. Era estranho considerar como o sol e o verão, os brotos da primavera e as folhas ressequidas do outono, se relacionavam com aquelas cabanas ao longo da margem; como todos os raios que pintam a paisagem irradiavam delas, e o voo do corvo e os círculos do falcão tinham como referência seus telhados. As margens sempre ricas e férteis ainda nos acompanhavam, orladas de trepadeiras e vivas de pequenos pássaros e esquilos saltitantes, fossem a extremidade do campo de algum fazendeiro ou do lote de mata de alguma viúva, fossem ainda mais selvagens, talvez, onde o rato-almiscarado, a pequena medicina do rio, arrasta-se furtivamente sobre folhas de amieiro e conchas de mexilhão, e o homem e a memória do homem são banidos para longe.

Por fim, a margem incansável, que nunca afundava e ainda seguia sem interrupção, com seus frescos bosquetes e serenos pastos, tentou-nos a desembarcar; e, aventurosamente, aportamos naquela costa remota para examiná-la, sem o conhecimento de nenhum habitante humano, provavelmente, até o dia de hoje. Mas ainda nos lembramos dos carvalhos retorcidos e hospitaleiros que cresciam até ali para nosso entretenimento e que não nos eram estranhos, do cavalo solitário em seu pasto e das vacas pacientes, cujo caminho até o rio, tão criteriosamente escolhido para vencer as dificuldades do terreno, seguimos, interrompendo-lhes a ruminação à sombra; e, acima de tudo, do aspecto fresco e livre das macieiras silvestres, que generosamente nos ofereciam seus frutos, embora ainda verdes e crus, frutos duros, redondos e lustrosos que, se não estavam maduros, tampouco eram venenosos, e também eram da Nova Inglaterra, pois seus ancestrais haviam sido trazidos para ali pelos nossos, tempos atrás. Essas árvores mais brandas conferiam um aspecto semicivilizado e crepuscular à terra, de resto bárbara. Mais adiante, escalamos com dificuldade o leito rochoso de um riacho, que por muito tempo servira à Natureza como canal de escoamento naquele lugar, saltando como ele de rocha em rocha por bosques emaranhados, no fundo de uma ravina que se tornava cada vez mais escura, enquanto os murmúrios da corrente se faziam cada vez mais roucos, até alcançarmos as ruínas de um moinho, onde agora crescia a hera e as trutas lampejavam pelo canal em desmoronamento; e ali imaginamos quais teriam sido os sonhos e as especulações de algum antigo colono. Mas o dia declinante obrigou-nos a embarcar mais uma vez e a resgatar aquele tempo desperdiçado com longas e vigorosas remadas sobre a corrente ondulante.

A região continuava selvagem e solitária, exceto porque, a intervalos de uma ou duas milhas, via-se por cima da margem o telhado de uma casa. Essa região, segundo lemos, foi outrora famosa pela fabricação de chapéus de palha do tipo de Livorno, cuja invenção nestas paragens reivindica para si; e, de vez em quando, alguma jovem laboriosa descia ligeira até a beira da água, ao que parecia para pôr a palha de molho, e ficava por algum tempo observando os viajantes que se afastavam e tentando captar o fragmento de uma canção de barqueiro que havíamos composto, levado sobre as águas.

Assim, talvez, o caçador indígena,

Há muitos anos demorados,

Deslizando sobre tuas águas ondulantes,

Baixo entoava um canto natural.

Agora o sol se esconde atrás dos salgueiros,

Agora cintila ao longo das ondas,

Debilmente, sobre as águas fatigadas,

Vêm os espíritos dos valentes.

Pouco antes do pôr do sol, alcançamos outras quedas na cidade de Bedford, onde alguns pedreiros trabalhavam no reparo das eclusas, numa parte solitária do rio. Interessaram-se por nossa aventura, em especial um jovem de nossa idade, que primeiro perguntou se estávamos a caminho de “’Skeag”; e, depois de ouvir nossa história e examinar nosso equipamento, fez-nos outras perguntas, mas sempre com moderação, voltando todas as vezes ao trabalho, embora como se isso se houvesse tornado seu dever. Era evidente que gostaria de ir conosco e, quando olhava rio acima, muitos cabos distantes e margens arborizadas refletiam-se em seus olhos, assim como em seus pensamentos. Quando estávamos prontos, deixou o trabalho e ajudou-nos a passar pelas eclusas com uma espécie de entusiasmo silencioso, dizendo-nos que estávamos nas Quedas de Coos, e ainda pudemos distinguir as batidas de seu cinzel por muitas remadas depois de deixá-lo.

Desejávamos acampar naquela noite sobre uma grande rocha no meio da corrente, logo acima dessas quedas, mas a falta de lenha e a dificuldade de fixar firmemente nossa tenda impediram-nos; assim, fizemos nossa cama em terra firme, na margem oposta, a oeste, na cidade de Bedford, num lugar retirado, segundo supúnhamos, pois não havia casa alguma à vista.

1/1
Menu

Fazer anotação