Quinta-feira Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack · Capítulo 7 de 8
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Quinta-feira

“Pisou o chão da mata ainda não plantada, onde

Por eras o sol que tudo vê jamais resplandeceu,

Onde pasta o alce, e anda o urso carrancudo,

E pelo alto mastro sobe o pica-pau.

*

Onde a escuridão o encontrou, contente deitou-se à noite;

Ali a manhã vermelha o tocou com sua luz.

*

Vá aonde for, o sábio está em casa,

Seu lar é a terra; seu salão, a abóbada azul;

Onde seu espírito límpido o conduz, ali está sua estrada,

Pela própria luz de Deus iluminada e revelada.”

EMERSON.

Quando despertamos naquela manhã, ouvimos o som débil, pausado e ominoso das gotas de chuva sobre nosso teto de algodão. A chuva tamborilara durante toda a noite, e agora o país inteiro chorava, as gotas caindo no rio, nos amieiros e nas pastagens; e, em vez de algum arco no céu, ouvia-se durante toda a manhã o trinado do hair-bird. A alegre fé desse passarinho compensava, por si só, o silêncio de todo o coro do bosque. Quando saímos pela primeira vez, um rebanho de ovelhas, conduzido pelos carneiros, desceu às carreiras por uma ravina atrás de nós, com pressa descuidada e cabriolas sem reserva, como se nenhum homem as observasse, vindas de algum pasto mais alto onde haviam passado a noite, para provar a vegetação à margem do rio; mas, quando seus guias avistaram nossa tenda branca através da névoa, tomados de súbito espanto, firmaram as patas dianteiras e contiveram a torrente que se precipitava atrás deles, e todo o rebanho ficou absolutamente imóvel, tentando resolver o mistério em seus cérebros ovinos. Por fim, concluindo que aquilo não lhes anunciava mal algum, espalharam-se tranquilamente pelo campo. Soubemos depois que havíamos armado nossa tenda no mesmo lugar ocupado, poucos verões antes, por um grupo de penobscots. Podíamos ver erguer-se diante de nós, através da névoa, uma elevação escura e cônica chamada Hooksett Pinnacle, ponto de referência para barqueiros, e também a montanha Uncannunuc, bem distante, do lado oeste do rio.

Esse foi o limite de nossa viagem, pois mais algumas horas sob a chuva nos teriam levado à última das eclusas, e nosso barco era pesado demais para ser arrastado ao redor das longas e numerosas corredeiras que surgiriam. A pé, porém, continuamos subindo pela margem, tateando o caminho com uma vara através do dia chuvoso e enevoado, e galgando os troncos escorregadios em nosso caminho com tanto prazer e leveza quanto sob o sol mais brilhante; aspirando o aroma dos pinheiros e da argila molhada sob nossos pés, e animados pelos sons de cascatas invisíveis; com visões de cogumelos, rãs errantes, festões de musgo pendentes dos abetos e tordos esvoaçando em silêncio sob as folhas; enquanto nossa estrada ainda se mantinha coesa naquele tempo encharcadíssimo, como a fé, e nós seguíamos confiantes sua orientação. Conseguimos, contudo, manter secos os pensamentos, e apenas nossas roupas estavam molhadas. Foi, no todo, um dia nublado e garoento, com ocasionais clarões na névoa, quando o trinado do pardal-arborícola parecia anunciar horas de sol.

“Nada do que naturalmente acontece ao homem pode feri-lo, nem mesmo terremotos e tempestades”, disse um homem de gênio que, naquele tempo, vivia algumas milhas adiante em nossa estrada. Quando uma pancada de chuva nos obriga a buscar abrigo sob uma árvore, podemos aproveitar a oportunidade para examinar mais minuciosamente algumas obras da Natureza. Já permaneci sob uma árvore no bosque por meio dia inteiro, durante uma chuva forte de verão, e ainda assim me ocupei ali, com felicidade e proveito, perscrutando com olhos microscópicos as fendas da casca, ou as folhas, ou os fungos a meus pés. “As riquezas são os acompanhantes do avarento; e os céus chovem copiosamente sobre as montanhas.” Posso imaginar que seria um luxo ficar mergulhado até o queixo em algum pântano retirado durante todo um dia de verão, aspirando o aroma da madressilva silvestre e das flores do mirtilo, embalado pela música dos mosquitos e pernilongos! Um dia passado na companhia daqueles sábios gregos, como os descritos no Banquete de Xenofonte, não se compararia ao humor seco das ramas apodrecidas de oxicoco e ao fresco sal ático dos leitos de musgo. Digamos doze horas de conversa amena e familiar com a rã-leopardo; o sol erguendo-se por trás do amieiro e do corniso, subindo com leveza até seu meridiano de dois palmos de altura, e por fim descendo para repousar atrás de algum ousado montículo ocidental. Ouvir o cântico vespertino do mosquito vindo de mil capelas verdes, e o socó começar a ressoar de algum forte oculto como um tiro ao pôr do sol! Por certo, alguém pode embeber-se por um dia nos sucos de um pântano com tanto proveito quanto atravessar a areia a pé enxuto. Frio e umidade, não são experiências tão ricas quanto calor e secura?

Neste momento, as gotas escorrem pela resteva enquanto jazemos ensopados sobre um leito de aveia-brava ressequida, ao lado de uma colina coberta de arbustos; e o adensamento das nuvens, com a última arremetida e o sopro agonizante do vento, seguido então pelo gotejar regular dos galhos e folhas por toda a região, intensifica a sensação de conforto interior e sociabilidade. Os pássaros se achegam e se tornam mais familiares sob a folhagem espessa, como se compusessem, em seus poleiros, novas melodias para quando voltasse o sol. Que seriam, em comparação, os divertimentos da sala de visitas e da biblioteca, ainda que os tivéssemos aqui? Continuaríamos a cantar como outrora:

Meus livros eu quisera abandonar, não posso ler,

Entre uma página e outra, meus pensamentos vagam soltos

Pelo prado, onde há pasto mais rico,

E não se importam em acertar o alvo devido.

Plutarco era bom, e Homero também,

Valeria a pena viver de novo a vida de nosso Shakespeare;

O que Plutarco leu não era bom nem verdadeiro,

Nem os livros de Shakespeare, a menos que seus livros fossem homens.

Aqui, enquanto jazo sob este ramo de nogueira,

Que me importam os gregos ou a cidade de Troia,

Se batalhas mais justas se travam agora

Entre as formigas no cume deste montículo?

Mande Homero esperar até que eu saiba o desfecho,

Se os deuses favorecerão mais as vermelhas ou as negras,

Ou se aquele Ájax fará a falange recuar,

Lutando para erguer alguma pedra contra o exército.

Diga a Shakespeare que aguarde uma hora de ócio,

Pois agora tenho assuntos com esta gota de orvalho;

E não vê que as nuvens preparam uma pancada?

Hei de encontrá-lo em breve, quando o céu estiver azul.

Este leito de capim e aveia-brava foi estendido

No ano passado com arte mais delicada que a dos monarcas;

Um tufo de trevo serve de travesseiro à minha cabeça,

E as violetas cobrem por completo meus sapatos.

E agora as nuvens cordiais fecharam tudo ao redor,

E o vento cresce suavemente para dizer que tudo vai bem;

As gotas dispersas caem depressa e finas,

Umas na poça, outras no sino da flor.

Estou bem ensopado sobre meu leito de aveia;

Mas veja aquele globo rolando por seu caule:

Ora flutua ali como um planeta solitário,

Ora afunda na bainha de minha roupa.

Pinga, pinga a árvore por toda a região,

E rara riqueza se destila de cada ramo;

Só o vento é que produz cada som,

Sacudindo cristais sobre as folhas abaixo.

Que vergonha, o sol jamais há de se mostrar,

Ele, que com seus raios nunca poderia derreter-me assim;

Meus cabelos gotejantes fariam de mim um elfo,

Que alegre caminha num casaco de contas.

O Pinnacle é uma pequena colina arborizada que se eleva de modo muito abrupto a cerca de duzentos pés de altura, perto da margem, nas cataratas de Hooksett. Assim como a montanha Uncannunuc é talvez o melhor ponto de onde contemplar o vale do Merrimack, essa colina oferece a melhor vista do próprio rio. Já me sentei em seu cume, uma rocha escarpada de apenas algumas rods de extensão, em tempo mais favorável, quando o sol se punha e inundava de luz o vale do rio. Dali se pode ver o Merrimack por várias milhas, tanto rio acima quanto rio abaixo. O rio largo e retilíneo, pleno de luz e vida, com suas quedas cintilantes e espumantes; a ilhota que divide a corrente; a aldeia de Hooksett na margem, quase diretamente sob os pés, tão próxima que se pode conversar com seus habitantes ou atirar uma pedra em seus quintais; o lago cercado de mata a sua base ocidental; e as montanhas ao norte e a nordeste compõem uma cena de rara beleza e inteireza, que o viajante deveria se dar ao trabalho de contemplar.

Fomos recebidos com hospitalidade em Concord, New Hampshire, que insistíamos em chamar de Nova Concord, como era nosso costume, para distingui-la de nossa cidade natal, da qual, segundo nos disseram, recebera o nome e parte de seus primeiros colonos. Esse teria sido o lugar apropriado para concluir nossa viagem, unindo Concord a Concord por meio desses rios sinuosos, mas nosso barco estava amarrado algumas milhas abaixo de seu porto.

A riqueza das várzeas de Penacook, hoje Concord, New Hampshire, fora observada pelos exploradores e, segundo o historiador de Haverhill, no

“ano de 1726, fez-se considerável progresso no assentamento, e uma estrada foi aberta através da região selvagem de Haverhill a Penacook. No outono de 1727, a primeira família, a do capitão Ebenezer Eastman, mudou-se para o lugar. Sua junta foi conduzida por Jacob Shute, francês de nascimento, e diz-se que ele foi a primeira pessoa a conduzir uma junta através da região selvagem. Pouco depois, segundo a tradição, um certo Ayer, rapaz de dezoito anos, conduziu a Penacook uma junta composta de dez parelhas de bois, atravessou o rio a nado e arou uma parte da várzea. Supõe-se que tenha sido a primeira pessoa a arar terra naquele lugar. Depois de concluir o trabalho, iniciou o regresso ao nascer do sol, afogou uma parelha de bois ao tornar a atravessar o rio e chegou a Haverhill por volta da meia-noite. A manivela da primeira serraria foi fabricada em Haverhill e levada a Penacook no lombo de um cavalo.”

Mas descobrimos que as fronteiras já não ficavam naquela direção. Esta geração veio ao mundo fatalmente tarde para certas empresas. Aonde quer que vamos pela superfície das coisas, homens estiveram ali antes de nós. Já não podemos ter o prazer de erguer a última casa; ela foi construída há muito tempo nos arredores de Astoria City, e nossas fronteiras foram literalmente traçadas até o Mar do Sul, conforme as antigas cartas de concessão. Mas a vida dos homens, embora mais extensa lateralmente em seu alcance, continua tão rasa quanto sempre foi. Sem dúvida, como disse um orador do Oeste, “Os homens em geral vivem sobre mais ou menos a mesma superfície; alguns vivem longa e estreitamente, e outros, larga e brevemente”; mas tudo isso é vida superficial. Um verme é tão bom viajante quanto um gafanhoto ou um grilo, e um colonizador muito mais sábio. Com toda a sua atividade, estes não saltam para longe da seca nem para a frente, rumo ao verão. Não evitamos o mal fugindo adiante dele, mas elevando-nos acima ou mergulhando abaixo de seu plano, assim como o verme escapa da seca e da geada escavando algumas polegadas mais fundo. As fronteiras não ficam a leste nem a oeste, ao norte nem ao sul; mas onde quer que um homem encare um fato, ainda que esse fato seja seu vizinho, há uma região selvagem não colonizada entre ele e o Canadá, entre ele e o sol poente, ou, mais longe ainda, entre ele e isso. Que construa para si, onde está, uma casa de toras ainda com a casca, encarando ISSO, e ali trave uma Guerra Franco-Indígena por sete ou setenta anos, contra indígenas e Rangers, ou contra qualquer outra coisa que se interponha entre ele e a realidade, e salve o próprio escalpo, se puder.

Agora já não navegávamos nem flutuávamos pelo rio, mas pisávamos a terra inflexível como peregrinos. Sadi diz quem pode viajar; entre outros, “Um artesão comum, que possa ganhar o sustento com o labor das próprias mãos e não tenha de arriscar a reputação por cada bocado de pão, como disseram os filósofos.” Pode viajar aquele que consegue subsistir dos frutos silvestres e da caça do país mais cultivado. Um homem pode viajar com rapidez bastante e ganhar a vida pelo caminho. Às vezes, durante uma jornada, pediram-me que fizesse algum trabalho; que executasse pequenos consertos ou reparasse relógios, quando eu trazia uma mochila às costas. Certa vez, um homem propôs-me que entrasse numa fábrica, expondo condições e salários, depois de observar que eu conseguira fechar a janela de um vagão ferroviário em que viajávamos, quando os outros passageiros haviam fracassado. “Não ouviste falar de um sufi que martelava alguns pregos na sola da sandália? Um oficial de cavalaria tomou-o pela manga, dizendo: Venha comigo ferrar meu cavalo.” Fazendeiros já me pediram que os ajudasse na fenação quando eu passava por seus campos. Certa vez, um homem pediu-me que consertasse seu guarda-chuva, tomando-me por remendador de guarda-chuvas, porque, estando em viagem, eu levava um na mão enquanto o sol brilhava. Outro quis comprar de mim uma caneca de lata, ao notar que eu trazia uma presa ao cinto e uma panela às costas. O modo mais barato de viajar, e o modo de ir mais longe na menor distância, é seguir a pé, levando uma concha, uma colher e uma linha de pesca, um pouco de farinha de milho, sal e açúcar. Ao chegar a um riacho ou lagoa, você pode pescar peixes e cozinhá-los; ou pode preparar um mingau rápido; ou pode comprar por quatro pence um pão na casa de um fazendeiro, umedecê-lo no próximo riacho que atravesse a estrada e mergulhá-lo no açúcar, e só isso lhe durará o dia inteiro; ou, caso esteja habituado a uma alimentação mais substanciosa, pode comprar um quarto de galão de leite por dois cents, esfarelar nele o pão ou o pudim frio e comê-lo com sua própria colher em sua própria vasilha. Quero dizer qualquer uma dessas coisas, não todas juntas. Viajei assim por algumas centenas de milhas, sem tomar refeição alguma dentro de uma casa, dormindo no chão quando convinha, e achei isso mais barato e, em muitos aspectos, mais proveitoso do que ficar em casa. Tanto que alguns perguntaram por que não seria melhor viajar sempre. Mas nunca pensei em viajar simplesmente como meio de ganhar o sustento. Uma mulher ingênua lá em Tyngsborough, em cuja casa certa vez parei para beber um gole de água, quando lhe disse, reconhecendo o balde, que nove anos antes havia parado ali com o mesmo propósito, perguntou se eu não era viajante, supondo que eu estivera viajando desde então e agora completara a volta; que viajar era uma das profissões, mais ou menos produtivas, que seu marido não exercia. Mas viajar continuamente está longe de ser produtivo. Começa por gastar as solas dos sapatos e ferir os pés, e em pouco tempo desgastará por completo o homem, depois de lhe ferir também o coração. Tenho observado que a vida posterior dos que viajaram muito é bastante patética. A viagem verdadeira e sincera não é divertimento, mas algo tão sério quanto o túmulo, ou quanto qualquer parte da jornada humana, e exige longa provação para que alguém se acostume a ela. Não falo dos que viajam sentados, os viajantes sedentários cujas pernas ficam balançando, meros símbolos ociosos do fato, assim como, quando falamos de galinhas chocas, não queremos dizer as que chocam em pé; refiro-me àqueles para quem viajar é vida para as pernas e, por fim, também morte. O viajante deve renascer na estrada e obter dos elementos, as principais autoridades para ele, um passaporte. Por fim experimentará cumprida aquela velha ameaça de sua mãe, a de que seria esfolado vivo. Suas feridas se aprofundarão pouco a pouco para que possam cicatrizar por dentro, enquanto ele não dá descanso à sola do pé, e à noite o cansaço deve ser seu travesseiro, para que assim adquira experiência para os dias de chuva. Assim foi conosco.

Às vezes nos hospedávamos numa estalagem no meio do bosque, onde pescadores de trutas vindos de cidades distantes haviam chegado antes de nós e onde, para nosso espanto, os colonos apareciam ao cair da noite para conversar e ouvir as notícias, embora houvesse apenas uma estrada e nenhuma outra casa estivesse à vista, como se tivessem saído da terra. Ali, por vezes, líamos jornais velhos, nós que nunca antes líamos os novos, e no farfalhar de suas folhas ouvíamos o quebrar das ondas ao longo da costa atlântica, em vez do sussurro do vento entre os pinheiros. Mas caminhar nos havia dado apetite até para o alimento menos saboroso e nutritivo.

Algum livro árduo e seco numa língua morta, que você julgou impossível ler em casa, mas pelo qual ainda conserva certa afeição, é o melhor para levar numa viagem. Numa estalagem do interior, em meio à estéril companhia de palafreneiros e viajantes, eu podia enfrentar com confiança os escritores da idade de prata ou da idade de bronze. Quase o último serviço regular que prestei à causa da literatura foi ler as obras de

AULO PÉRSIO FLACO.

Se você imaginou que obra divina se desdobra diante do poeta e se aproxima também deste autor na esperança de enfim encontrar o campo devidamente adentrado, dificilmente discordará das palavras do prólogo:

“Ipse semipaganus

Ad sacra Vatum carmen affero nostrum.”

Eu, meio pagão,

Levo meus versos ao santuário dos poetas.

Aqui não há nada da dignidade interior de Virgílio, nem da elegância e vivacidade de Horácio, nem será necessária qualquer sibila para lembrar-lhe que, daqueles antigos poetas gregos até Pérsio, houve um triste declínio. Mal se consegue distinguir um único som harmonioso em meio a esta querela sem música contra as loucuras dos homens.

Percebe-se que a música tem seu lugar no pensamento, mas quase ainda não na linguagem. Quando a Musa chega, esperamos que ela remodele a linguagem e lhe comunique seu próprio ritmo. Até agora, o verso geme e labuta sob sua carga e não avança alegremente, cantando pelo caminho. A melhor ode pode ser parodiada, na verdade é ela própria uma paródia, e soa pobre e trivial, como um homem pisando nos degraus de uma escada. Homero, Shakespeare, Milton, Marvell e Wordsworth são apenas o farfalhar de folhas e o estalar de gravetos na mata, e ainda não se ouve o som de pássaro algum. A Musa jamais ergueu a voz para cantar. Acima de tudo, a sátira não será cantada. Um Juvenal ou um Pérsio não unem a música a seus versos, mas são, no máximo, censores metrificados; ficam apenas um pouco fora das faltas que condenam e, assim, preocupam-se mais com o monstro do qual escaparam do que com a bela paisagem diante deles. Deixem-nos viver por mais uma era, e terão viajado para além de sua sombra e de seu alcance, encontrando outros objetos sobre os quais refletir.

Enquanto houver sátira, o poeta será, por assim dizer, particeps criminis. Parece que faria melhor deixando o mal cuidar de si mesmo e ocupando-se apenas daquilo que está acima de qualquer suspeita. Quando você encontra o menor vestígio de verdade, e ainda é o peso do corpo inteiro que imprime o traço mais tênue, uma eternidade não bastará para exaltá-lo, ao passo que nenhum mal é tão imenso que você não lamente conceder-lhe um instante de ódio. A Verdade nunca se volta para censurar a falsidade; sua própria retidão é a correção mais severa. Horácio não teria escrito tão bem a sátira se não houvesse sido inspirado por ela como por uma paixão e cultivado com carinho sua veia. Em suas odes, o amor sempre excede o ódio, de modo que até a sátira mais severa se põe a cantar, e o poeta fica satisfeito, ainda que a loucura não seja corrigida.

Uma espécie de ordem necessária no desenvolvimento do Gênio é: primeiro, Queixa; segundo, Lamento; terceiro, Amor. A Queixa, que é a condição de Pérsio, não pertence ao domínio da poesia. Em breve, o desfrute de um bem superior teria transformado seu desgosto em pesar. Nunca podemos sentir muita simpatia pelo queixoso; pois, depois de esquadrinhar toda a natureza, concluímos que ele deve ser ao mesmo tempo autor e réu e que, portanto, faria melhor em chegar a um acordo sem audiência. Aquele que recebe uma ofensa é, em certa medida, cúmplice de quem a pratica.

Talvez fosse mais verdadeiro dizer que o tom mais elevado da musa é essencialmente lamentoso. As do santo ainda são lágrimas de alegria. Quem jamais ouviu o Inocente cantar?

Mas o poema mais divino, ou a vida de um grande homem, é a sátira mais severa; tão impessoal quanto a própria Natureza e semelhante aos suspiros de seus ventos no bosque, que sempre transmitem ao ouvinte uma leve censura. Quanto maior o gênio, mais afiado o gume da sátira.

Por isso, temos de nos ocupar apenas dos traços raros e fragmentários que menos pertencem a Pérsio, ou diremos que são as expressões mais próprias de sua musa, pois aquilo que ele diz melhor em qualquer ocasião é o que pode dizer melhor em todas as ocasiões. Os Spectators e os Ramblers não deixaram de colher também neste jardim algumas frases dignas de citação, tão agradável é encontrar até a verdade mais familiar sob nova roupagem, quando, se nosso vizinho a tivesse dito, teríamos passado por ela como lugar-comum. Destas seis sátiras, talvez se possam selecionar cerca de vinte versos que se ajustam tão bem a tantos pensamentos que ocorrerão ao estudioso quase com a mesma prontidão que uma imagem natural; embora, traduzidos para a linguagem familiar, percam aquela ênfase insular que os tornava próprios para a citação. Versos como os seguintes não podem ser reduzidos pela tradução ao lugar-comum. Contrastando o homem de verdadeira religião com aqueles que, em ciumenta privacidade, desejariam manter um comércio secreto com os deuses, ele diz:

“Haud cuivis promptum est, murmurque humilesque susurros

Tollere de templis; et aperto vivere voto.”

Não é fácil a qualquer um retirar dos templos os murmúrios

E os baixos sussurros, e viver com voto declarado.

Para o homem virtuoso, o universo é o único sanctum sanctorum, e o recinto mais íntimo do templo é o amplo meio-dia de sua existência. Por que deveria ele recolher-se a uma cripta subterrânea, como se fosse o único solo sagrado que deixara sem profanação no mundo inteiro? A alma obediente apenas descobriria e tornaria familiares cada vez mais coisas, e escaparia mais e mais para a luz e o ar, como quem doravante rompeu com o segredo, de modo que nem o universo lhe parecesse suficientemente aberto. Por fim, ela negligencia até aquele silêncio compatível com a verdadeira modéstia; mas, por sua independência de toda confiança em suas revelações, torna tão privado ao ouvinte aquilo que comunica que passa a ser cuidado do mundo inteiro não permitir que a modéstia seja violada.

Para o homem que guarda um segredo no peito, há outro segredo ainda maior por explorar. Nossos atos mais indiferentes podem ser matéria de segredo, mas tudo o que fazemos com a máxima veracidade e integridade, em virtude de sua pureza, deve ser transparente como a luz.

Na terceira sátira, ele pergunta:

“Est aliquid quò tendis, et in quod dirigis arcum?

An passim sequeris corvos, testâve, lutove,

Securus quò pes ferat, atque ex tempore vivis?”

Há algo para o qual te encaminhas e contra o qual

Diriges o arco?

Ou persegues corvos ao acaso, com cacos ou barro,

Sem cuidar para onde os pés te levam, e vives ex tempore?

O sentido mau é sempre secundário. Parece que não se faz justiça à linguagem, mas que seu significado é evidentemente constrangido e estreitado quando se descreve qualquer baixeza. Não se lhe dá a interpretação mais verdadeira. Aquilo que poderia ser prontamente moldado numa regra de sabedoria é aqui atirado ao rosto do indolente e constitui o aspecto principal de sua culpa. Em toda parte, o homem inocente sairá da mais rigorosa inquisição e admoestação, do ruído conjunto da censura e do louvor, com um fraco som de elogio nos ouvidos. Nossos vícios sempre se encontram na direção de nossas virtudes e, em seu melhor estado, não passam de imitações plausíveis delas. A falsidade nunca alcança a dignidade de ser inteiramente falsa, mas é apenas uma espécie inferior de verdade; se fosse mais profundamente falsa, correria o risco de tornar-se verdadeira.

“Securus quo pes ferat, atque ex tempore vivit,”

é, pois, o lema de um homem sábio. Pois, antes de tudo, como nos teria ensinado o sutil discernimento da língua, com toda a sua negligência ele ainda está seguro; mas o indolente, apesar de sua desatenção, está inseguro.

A vida de um homem sábio é, acima de tudo, improvisada, pois ele vive a partir de uma eternidade que inclui todo o tempo. A mente sagaz recua, a cada instante, para além de Zoroastro e chega plenamente ao presente com sua revelação. A máxima economia e diligência do pensamento não dão a homem algum qualquer provisão para a vida; seu crédito junto ao mundo interior não melhora, seu capital não aumenta. Ele precisa tentar novamente a sorte hoje, como ontem. Todas as questões dependem do presente para sua solução. O tempo nada mede além de si mesmo. A palavra escrita pode ser adiada, mas não a que está nos lábios. Se é isso que a ocasião diz, deixemos que a ocasião o diga. O mundo inteiro se apressa em sugerir palavras àquele que se levanta para viver sem o seu credo no bolso.

Na quinta sátira, que considero a melhor, encontro:

“Stat contrà ratio, et secretam garrit in aurem,

Ne liceat facere id, quod quis vitiabit agendo.”

A razão se opõe e sussurra ao ouvido secreto que não é lícito fazer aquilo que, ao fazer, alguém estragará.

Somente os que não veem como algo poderia ser mais bem feito se apressam a pôr mãos à obra. Até o mestre artesão deve animar-se com a reflexão de que sua inabilidade será incapaz de prejudicar aquilo a que sua habilidade talvez não consiga fazer justiça. Não há aqui desculpa alguma para deixarmos de fazer muitas coisas por sentirmos nossa incapacidade, pois que feito não sai mutilado e imperfeito de nossas mãos?, mas apenas uma advertência para que façamos menos malfeito.

As sátiras de Pérsio estão o mais longe possível de serem inspiradas; são, evidentemente, matéria escolhida, não imposta. Talvez eu lhe tenha atribuído mais seriedade do que se mostra; mas é certo que aquilo, e somente aquilo, que podemos chamar Pérsio, aquilo que é para sempre independente e coerente, era sério e, assim, legitima a consideração sóbria de tudo. O artista e sua obra não devem ser separados. O homem mais deliberadamente tolo não consegue manter-se à parte de sua tolice; o ato e seu autor, juntos, formam sempre um único fato sóbrio. Há um só palco para o camponês e para o ator. O bufão não pode suborná-lo para que você ria para sempre de suas caretas; elas se esculpirão em granito egípcio, para se erguerem, pesadas como as pirâmides, sobre o terreno de seu caráter.

Sóis nasciam e se punham e ainda nos encontravam na úmida trilha da mata que serpenteia rio acima pelo Pemigewasset, agora mais semelhante ao rastro de uma lontra ou de uma marta, ou ao lugar por onde um castor arrastara sua armadilha, do que a uma estrada onde as rodas dos viajantes levantam poeira; ali, os municípios começam a servir como cunhas de terra, apenas para manter o chão unido. O pombo-selvagem pousava seguro acima de nossas cabeças, no alto dos galhos mortos de pinheiros destinados à marinha, reduzido ao tamanho de um sabiá. Até os pátios de nossas hospedarias se inclinavam sobre as fraldas das montanhas e, ao passarmos, erguíamos os olhos em ângulo pronunciado para os troncos dos bordos que ondulavam entre as nuvens.

Muito acima, pelo interior, pois queríamos ser fiéis à nossa experiência, talvez em Thornton, encontramos na mata um jovem soldado que ia para a parada com o uniforme completo e ocupava o meio da estrada; no fundo da floresta, com o mosquete ao ombro, passo militar e pensamentos de guerra e glória só para si. Foi uma dura provação para o rapaz, mais difícil que muita batalha, passar por nós de maneira digna e com porte de soldado. Pobre homem! Tremia de fato como um junco dentro de suas finas calças militares e, quando o alcançamos, toda a severidade própria de um soldado já lhe abandonara o rosto, e ele passou furtivamente por nós como se conduzisse as ovelhas do pai sob um capacete à prova de espada. Era demais, naquele momento, carregar qualquer armadura adicional para quem já não sabia bem o que fazer com os próprios braços naturais. Quanto às pernas, eram como artilharia pesada em terreno pantanoso; melhor seria cortar os tirantes e abandoná-las. Suas grevas se roçavam e lutavam uma contra a outra por falta de outros inimigos. Mas ele conseguiu passar e seguir adiante com toda a sua munição, e viveu para lutar outro dia; e não registro isso para lançar qualquer suspeita sobre sua honra e sua verdadeira bravura em campo.

Vagando adiante por desfiladeiros abertos pelos cursos d’água, ao longo das encostas e sobre as cristas de colinas e montanhas encanecidas, através de uma região cheia de tocos, rochosa, arborizada e convertida em pastagem, atravessamos por fim o Amonoosuck sobre árvores tombadas e respiramos o ar livre da Terra Não Apropriada. Assim, tanto em dias serenos quanto em dias ruins, havíamos remontado o rio do qual nosso curso d’água natal é tributário, até que, de Merrimack, ele se tornou o Pemigewasset, que saltava ao nosso lado; e, depois de passarmos sua cabeceira, o Wild Amonoosuck, cujo débil canal se cruzava com um passo, guiou-nos rumo à sua fonte distante entre as montanhas; e, por fim, já sem sua orientação, conseguimos alcançar o cume de AGIOCOCHOOK.

“Doces dias, tão frescos, tão calmos, tão luminosos,

As núpcias da terra com o céu,

Doces orvalhos chorarão tua queda esta noite,

Pois tens de morrer.”

HERBERT.

Quando voltamos a Hooksett, uma semana depois, o homem dos melões, em cujo celeiro de milho havíamos pendurado nossa barraca, nossas mantas de búfalo e outras coisas para secar, já colhia o lúpulo, com muitas mulheres e crianças a ajudá-lo. Compramos uma melancia, a maior de sua plantação, para levar conosco como lastro. Ela era de Nathan, que poderia vendê-la se quisesse, pois lhe fora transferida ainda verde e apropriada diariamente por seus olhos. Depois da devida consulta ao “Pai”, o negócio foi concluído: nós a compraríamos por nossa conta e risco ainda na rama, verde ou madura, e pagaríamos “o que os cavalheiros quisessem”. Ela se revelou madura, pois já havíamos adquirido experiência honesta na escolha dessa fruta.

Encontrando nosso barco a salvo em seu ancoradouro, sob a montanha Uncannunuc, com vento favorável e a corrente a nosso favor, iniciamos ao meio-dia a viagem de volta, sentados à vontade e conversando, ou em silêncio, observando o último vestígio de cada trecho do rio à medida que uma curva o ocultava de nossa vista. Como a estação estava mais adiantada, o vento agora soprava firmemente do norte e, com a vela içada, de vez em quando podíamos repousar sobre os remos sem perder tempo. Os lenhadores, que lançavam madeira do alto da barranca, trinta ou quarenta pés acima da água, para que fosse levada rio abaixo, interromperam o trabalho a fim de observar nossa vela que se afastava. A essa altura, de fato, já éramos bem conhecidos pelos barqueiros e saudados como o Navio de Fiscalização da Receita do rio. Enquanto descíamos rapidamente, encerrados entre dois montes de terra, os sons da madeira rolando pela barranca acentuavam o silêncio e a vastidão do meio-dia, e imaginávamos que apenas os ecos primordiais haviam despertado. A visão de uma chata distante, que mal surgia ao contornar um promontório, também aumentava, por contraste, a solidão.

Através do tumulto e da dispersão do meio-dia, mesmo na mais oriental das cidades, vê-se a Natureza fresca, primitiva e selvagem, na qual vivem citas, etíopes e indígenas. O que são ali o eco, a luz e a sombra, o dia e a noite, o oceano e as estrelas, o terremoto e o eclipse? As obras do homem são por toda parte engolidas pela imensidão da Natureza. Para o indígena, o mar Egeu ainda não passa do lago Huron. Também há todo o refinamento da vida civilizada na mata, sob roupagem silvestre. As cenas mais selvagens têm, até para o cidadão, um ar doméstico e familiar; e, quando se ouve o grito do pica-pau-dourado na clareira, ele se recorda de que a civilização produziu ali pouca mudança. A ciência é bem-vinda aos recessos mais profundos da floresta, pois também ali a Natureza obedece às mesmas antigas leis civis. Para o pequeno inseto vermelho sobre o toco de um pinheiro, o vento muda e o sol rompe as nuvens. Na Natureza mais selvagem, há não apenas a matéria da vida mais cultivada e uma espécie de antecipação do resultado final, mas também um refinamento maior do que o homem jamais alcança. Há papiro à margem do rio, juncos para iluminação, e o ganso apenas voa por cima, eras antes de nascerem os estudiosos ou de se inventarem as letras; e talvez o homem ainda não os utilize para expressar aquela literatura que esses elementos sugerem e à qual, desde o princípio, serviram rudimentarmente. A Natureza está preparada para acolher em sua paisagem a mais refinada obra da arte humana, pois ela própria é uma arte tão engenhosa que o artista jamais aparece em sua obra.

A Arte não é domesticada, e a Natureza não é selvagem, no sentido comum. Uma obra perfeita da arte humana seria também selvagem ou natural, em bom sentido. O homem domestica a Natureza apenas para que, por fim, possa torná-la ainda mais livre do que a encontrou, embora talvez jamais tenha conseguido fazê-lo.

Com essa brisa propícia e o auxílio de nossos remos, logo alcançamos as cataratas de Amoskeag e a foz do Piscataquoag, e reconhecemos, ao passarmos velozmente, muitas margens e ilhotas formosas nas quais nossos olhos haviam repousado durante a subida. Nosso barco era como aquele que Chaucer descreve em seu Sonho, no qual o cavaleiro deixou a ilha,

“Para partir rumo ao casamento,

E voltar com tão grande companhia,

Que se casassem os menores e os maiores. . . . .

Essa barca era como o pensamento de um homem,

Conduzida a ele segundo seu desejo;

A própria rainha costumava sempre

Brincar nessa mesma barca.

Não precisava de mastro nem de leme,

Nunca ouvi falar de outra igual,

Nem de mestre que a governasse;

Ela navegava por pensamento e prazer,

Sem esforço, a leste e a oeste;

Tudo era igual, calmaria ou tempestade.”

Assim navegamos naquela tarde, pensando na máxima de Pitágoras, embora não tivéssemos direito especial de recordá-la: “É belo quando a prosperidade acompanha o intelecto e quando, navegando por assim dizer com vento favorável, realizam-se as ações tendo a virtude em vista, assim como o piloto observa os movimentos das estrelas.” O mundo inteiro repousa em beleza para aquele que preserva o equilíbrio em sua vida e segue serenamente por seu caminho, sem violência secreta; como quem desce um rio, ele só precisa governar o leme, manter sua embarcação no meio e conduzi-la ao redor das cataratas. As ondulações se afastavam encrespadas em nossa esteira, como cachos na cabeça de uma criança, enquanto mantínhamos firmemente nosso rumo e, sob a proa, observávamos

“O suave oscilar,

Feito pela delicada onda apartada adiante,

Enquanto pelo elemento brando avançamos,

Como sombras que deslizam por sonhos imperturbados.”

As formas da beleza caem naturalmente ao redor do caminho daquele que executa seu trabalho próprio, como as aparas enroladas caem da plaina e as raspas se acumulam ao redor da broca. A ondulação é o mais suave e ideal dos movimentos, produzido quando um fluido cai sobre outro. O marulhar é um voo mais gracioso. Do alto de uma colina, pode-se distinguir nele as asas das aves repetidas sem fim. As duas linhas ondulantes que representam o voo das aves parecem ter sido copiadas da ondulação da água.

As árvores formavam uma admirável cerca para a paisagem, contornando o horizonte por todos os lados. As árvores isoladas e os bosques deixados de pé na várzea pareciam dispostos naturalmente, embora o lavrador tivesse consultado apenas a própria conveniência, pois também ele se insere no plano da Natureza. A arte jamais pode igualar o luxo e a superabundância da Natureza. Na primeira, tudo se vê; ela não pode dar-se ao luxo de riquezas ocultas e, em comparação, é mesquinha; mas a Natureza, mesmo quando exteriormente escassa e rala, ainda nos satisfaz pela certeza de certa generosidade nas raízes. Nos pântanos, onde há apenas aqui e ali uma árvore perene entre o musgo trêmulo e os canteiros de oxicoco, a nudez não sugere pobreza. O abeto solitário, que eu mal notara nos jardins, atrai-me nesses lugares, e só agora compreendo por que os homens tentam fazê-lo crescer ao redor de suas casas. Mas, embora possa haver exemplares perfeitíssimos nos terrenos dianteiros, sua beleza ali é, em geral, ineficaz, pois não existe a mesma certeza de uma riqueza afim sob eles e ao redor deles, capaz de fazê-los sobressair. Como dissemos, a Natureza é uma arte maior e mais perfeita, a arte de Deus; embora, considerada em si mesma, seja gênio; e há semelhança entre suas operações e a arte do homem até nos pormenores e ninharias. Quando o pinheiro inclinado cai na água, o sol e a água, e o vento que o esfrega contra a margem, desgastam seus ramos em formas fantásticas, brancas e lisas, como se torneadas. A arte humana imitou sabiamente as formas para as quais toda matéria mais se inclina, como a folhagem e o fruto. Uma rede suspensa num bosque assume a forma exata de uma canoa, mais larga ou mais estreita, e mais alta ou mais baixa nas extremidades, conforme haja nela mais ou menos pessoas, e balança no ar com o movimento do corpo, como uma canoa na água. Nossa arte deixa ao redor suas aparas e sua poeira; a arte dela manifesta-se até nas aparas e na poeira que produzimos. Ela se aperfeiçoou por uma eternidade de prática. O mundo é bem cuidado; nenhum lixo se acumula; o ar da manhã está límpido ainda hoje, e nenhuma poeira se depositou sobre a relva. Vede como a tarde agora se insinua pelos campos, as sombras das árvores avançando cada vez mais pela campina, e dentro em pouco as estrelas virão banhar-se nestas águas retiradas. Seus empreendimentos são seguros e nunca falham. Se eu despertasse de um sono profundo, saberia de que lado do meridiano estaria o sol pelo aspecto da natureza e pelo cricrilar dos grilos, e, contudo, pintor algum pode pintar essa diferença. A paisagem contém mil mostradores que indicam as divisões naturais do tempo; as sombras de mil gnômons apontam a hora.

“Não apenas sobre o mostrador,

Este fantasma silencioso, dia a dia,

Com passo lento, invisível, incessante,

Rouba instantes, meses e anos;

Da rocha grisalha e da árvore antiga,

Dos muros em ruína da altiva Palmira,

De Tenerife, erguida sobre o mar,

De cada folha de relva ele cai.”

É quase o único jogo a que as árvores se entregam, esse toma lá, dá cá, ora este lado ao sol, ora aquele, o drama do dia. Em ravinas profundas sob as faces orientais dos penhascos, a Noite adianta-se e planta o pé mesmo ao meio-dia, e, à medida que o Dia recua, ela entra em suas trincheiras, esgueirando-se de árvore em árvore, de cerca em cerca, até que por fim se senta em sua cidadela e estende suas forças pela planície. Pode ser que a manhã seja mais luminosa do que a tarde, não só pela maior transparência de sua atmosfera, mas porque naturalmente olhamos mais para o oeste, como quem olha adiante no dia, e assim, de manhã, vemos o lado ensolarado das coisas, mas à tarde, a sombra de cada árvore.

A tarde já vai bem adiantada, e um vento fresco e vagaroso sopra sobre o rio, produzindo longas extensões de ondulações brilhantes. O rio cumpriu sua tarefa e parece não correr, mas jazer estendido, refletindo a luz, e a névoa sobre os bosques é como a respiração ofegante e inaudível, ou antes, como a suave transpiração da natureza em repouso, elevando-se de uma miríade de poros para a atmosfera rarefeita.

No trigésimo primeiro dia de março, cento e quarenta e dois anos antes deste, provavelmente por volta desta mesma hora da tarde, desciam apressadamente a remo por este trecho do rio, entre os pinheirais que então orlavam estas margens, duas mulheres brancas e um menino, que haviam deixado, antes do amanhecer, uma ilha na foz do Contoocook. Trajavam roupas leves para a estação, à moda inglesa, e manejavam os remos sem destreza, mas com energia nervosa e determinação; no fundo da canoa jaziam os escalpos ainda sangrando de dez indígenas. Eram Hannah Dustan e sua ama, Mary Neff, ambas de Haverhill, a dezoito milhas da foz deste rio, e um menino inglês chamado Samuel Lennardson, fugindo do cativeiro entre os indígenas. No dia 15 de março anterior, Hannah Dustan fora obrigada a levantar-se do leito de parto e, seminua, com um pé descalço, acompanhada de sua ama, iniciar uma marcha incerta, sob um tempo ainda inclemente, através da neve e da mata selvagem. Vira seus sete filhos mais velhos fugir com o pai, mas ignorava seu destino. Vira o crânio de seu bebê ser esmagado contra uma macieira e deixara em cinzas sua própria casa e as de seus vizinhos. Ao chegar ao wigwam de seu captor, situado numa ilha do Merrimack, mais de vinte milhas acima de onde agora estamos, disseram-lhe que ela e sua ama logo seriam levadas a um povoado indígena distante e ali obrigadas a correr nuas entre duas fileiras de agressores. A família desse indígena compunha-se de dois homens, três mulheres e sete crianças, além de um menino inglês, que ela encontrou prisioneiro entre eles. Tendo resolvido tentar a fuga, instruiu o menino a perguntar a um dos homens como deveria matar um inimigo do modo mais rápido e tomar-lhe o escalpo. “Golpeie-os aqui”, disse ele, pousando o dedo na têmpora, e mostrou-lhe também como retirar o escalpo. Na manhã do dia 31, ela se levantou antes do amanhecer, despertou a ama e o menino e, tomando os tomahawks dos indígenas, mataram todos enquanto dormiam, com exceção de um menino predileto e de uma mulher indígena, que fugiu ferida com ele para a mata. O menino inglês golpeou na têmpora o indígena que lhe dera a informação, conforme fora instruído. Reuniram então toda a provisão que puderam encontrar, tomaram o tomahawk e o fuzil de seu senhor e, depois de afundarem todas as canoas menos uma, iniciaram a fuga para Haverhill, distante cerca de sessenta milhas pelo rio. Mas, após percorrerem curta distância, temendo que sua história não fosse acreditada caso conseguissem escapar para contá-la, voltaram ao wigwam silencioso e, retirando os escalpos dos mortos, meteram-nos num saco como prova do que haviam feito; depois, refazendo os passos até a margem no crepúsculo, retomaram a viagem.

No começo desta manhã esse ato foi praticado, e agora, talvez, essas mulheres exaustas e esse menino, com as roupas manchadas de sangue e a mente torturada alternadamente pela resolução e pelo medo, fazem uma refeição apressada de milho tostado e carne de alce, enquanto a canoa desliza sob estas raízes de pinheiros cujos tocos ainda se erguem na margem. Pensam nos mortos que deixaram para trás naquela ilha solitária, muito acima no curso do rio, e nos implacáveis guerreiros vivos que os perseguem. Cada folha seca que o inverno deixou parece conhecer sua história e, ao farfalhar, repeti-la e denunciá-los. Um indígena espreita atrás de cada rocha e de cada pinheiro, e seus nervos não suportam as pancadas de um pica-pau. Ou esquecem os próprios perigos e seus atos ao conjecturar sobre o destino dos parentes e se, caso escapem dos indígenas, ainda os encontrarão vivos. Não param para cozinhar as refeições na margem, nem desembarcam, salvo para carregar a canoa ao redor das quedas-d’água. A canoa de bétula roubada esquece o dono e lhes presta bom serviço, e a corrente avolumada os leva velozmente, quase sem necessidade do remo, exceto para governá-la e mantê-los aquecidos pelo exercício. Pois há gelo flutuando no rio; a primavera se abre; o rato-almiscarado e o castor são expulsos de suas tocas pela cheia; cervos os observam da margem; algumas aves da floresta, de canto débil, talvez atravessem o rio rumo à margem mais ao norte; a águia-pescadora plana e grita sobre suas cabeças, e gansos passam voando com um clangor sobressaltante; mas eles não observam essas coisas, ou logo as esquecem. Não sorriem nem conversam durante o dia inteiro. Às vezes passam por uma sepultura indígena cercada por uma paliçada na margem, ou pela armação de um wigwam, com algumas brasas deixadas para trás, ou pelos caules secos que ainda farfalham no milharal solitário do indígena, na várzea. A bétula despojada da casca, ou o toco carbonizado onde uma árvore foi queimada até cair para ser transformada em canoa, estes são os únicos vestígios do homem, um fabuloso homem selvagem para nós. De ambos os lados, a floresta primeva estende-se sem interrupção até o Canadá ou até o “Mar do Sul”; para o homem branco, uma mata desolada e ululante, mas para o indígena, um lar, ajustado à sua natureza e alegre como o sorriso do Grande Espírito.

Enquanto nos demoramos aqui nesta tarde de outono, procurando um lugar bastante retirado onde possamos repousar tranquilamente esta noite, eles, naquela fria tarde de março, cento e quarenta e dois anos antes de nós, favorecidos pelo vento e pela corrente, já deslizaram para fora de vista, não para acampar à noite, como faremos, mas para que, enquanto dois dormem, um conduza a canoa, e o rio veloz os leve adiante rumo aos povoados, talvez até a casa do velho John Lovewell, em Salmon Brook, ainda esta noite.

Segundo o historiador, escaparam como por milagre de todos os bandos errantes de indígenas e chegaram em segurança a suas casas, com seus troféus, pelos quais o Tribunal Geral lhes pagou cinquenta libras. A família de Hannah Dustan voltou a reunir-se inteira e viva, com exceção do bebê cujo crânio fora esmagado contra a macieira, e houve muitos que, em tempos posteriores, viveram para dizer que haviam comido dos frutos daquela árvore.

Isso parece ter acontecido há muito tempo, e, contudo, ocorreu depois que Milton escreveu seu Paraíso Perdido. Mas sua antiguidade nem por isso é menor, pois não regulamos nosso tempo histórico pelo padrão inglês, nem os ingleses o regulavam pelo romano, nem os romanos pelo grego. “É preciso olhar muito para trás”, diz Raleigh, “para encontrar os romanos dando leis às nações, e seus cônsules conduzindo reis e príncipes acorrentados a Roma em triunfo; para ver homens irem à Grécia em busca de sabedoria, ou a Ofir em busca de ouro; quando agora nada resta senão uma pobre lembrança em papel de sua antiga condição.” E, no entanto, em certo sentido, não é preciso recuar tanto para encontrar os Penacooks e os Pawtuckets usando arcos e flechas e machadinhas de pedra nas margens do Merrimack. Vistos desta tarde de setembro e de entre estas margens hoje cultivadas, aqueles tempos pareciam mais remotos do que a Idade das Trevas. Ao contemplar uma antiga imagem de Concord, tal como era apenas setenta e cinco anos atrás, com uma bela vista aberta e luz sobre as árvores e o rio, como se fosse pleno meio-dia, percebo que eu não havia pensado que o sol brilhasse naqueles dias, ou que os homens então vivessem à plena luz do dia. Menos ainda imaginamos o sol brilhando sobre colinas e vales durante a guerra do Rei Philip, sobre a trilha de guerra de Church ou de Philip, ou mais tarde de Lovewell ou Paugus, sob um sereno tempo de verão; mas eles devem ter vivido e combatido num crepúsculo sombrio ou à noite.

A idade do mundo é bastante grande para nossa imaginação, mesmo segundo o relato mosaico, sem que tomemos emprestado do geólogo um único ano. De Adão e Eva, num só salto a pique, até o dilúvio, e depois através das antigas monarquias, por Babilônia e Tebas, Brahma e Abraão, até a Grécia e os Argonautas; de onde poderíamos partir novamente, tendo Orfeu e a guerra de Troia, as Pirâmides e os jogos olímpicos, Homero e Atenas como etapas; e, após uma pausa para respirar na fundação de Roma, prosseguir em nossa viagem por Odin e Cristo até a América. É um intervalo fatigante. E, contudo, as vidas de apenas sessenta velhas, dessas que moram sob a colina, digamos de um século cada uma, enfileiradas, bastariam para cobrir toda a extensão. Dando-se as mãos, transporiam o intervalo entre Eva e minha própria mãe. Apenas uma respeitável reunião para o chá, cujas fofocas seriam a História Universal. A quarta velha a contar de mim amamentou Colombo; a nona foi ama do Conquistador Normando; a décima nona foi a Virgem Maria; a vigésima quarta, a Sibila de Cumas; a trigésima esteve na guerra de Troia e chamava-se Helena; a trigésima oitava foi a rainha Semíramis; a sexagésima foi Eva, mãe da humanidade. Eis tudo quanto basta dizer da

“Velha que mora sob a colina,

E, se não se foi, ainda mora lá.”

Não será preciso uma bisneta muito remota dela para assistir à morte do Tempo.

Jamais podemos, com segurança, ultrapassar os fatos reais em nossas narrativas. Não há exemplo algum de pura invenção, como alguns supõem. Escrever até mesmo uma verdadeira obra de ficção é apenas tomar o tempo e a liberdade de descrever certas coisas com maior exatidão, tal como são. Um relato verdadeiro do real é a poesia mais rara, pois o senso comum sempre lança um olhar apressado e superficial. Embora eu não conheça muito as obras de Goethe, diria que uma de suas principais excelências como escritor era contentar-se em dar uma descrição exata das coisas tal como lhe apareciam e do efeito que produziam nele. A maioria dos viajantes não tem respeito próprio suficiente para fazer isso com simplicidade e deixar que os objetos e os acontecimentos se disponham ao redor deles como centro, mas continua imaginando posições e relações mais favoráveis do que as reais, e assim não obtemos deles relato valioso algum. Em suas Viagens à Itália, Goethe avança a passo de caracol, mas sempre atento ao fato de que a terra está sob seus pés e os céus acima dele. Sua Itália não é apenas a pátria dos lazzaroni e dos virtuosi, nem o cenário de ruínas esplêndidas, mas um solo firme coberto de relva, sobre o qual o sol brilha todos os dias, e a lua todas as noites. Até as poucas chuvas são fielmente registradas. Ele fala como um espectador desinteressado, cujo objetivo é descrever fielmente o que vê e, na maior parte, na ordem em que o vê. Nem mesmo suas reflexões interferem em suas descrições. Em certo lugar, conta ter feito aos camponeses reunidos ao seu redor uma descrição tão vívida e verdadeira de uma velha torre, que aqueles que haviam nascido e crescido na vizinhança foram obrigados a olhar por cima dos ombros, “para”, usando suas próprias palavras, “contemplarem com os olhos aquilo que eu lhes louvara aos ouvidos”, “e não acrescentei nada, nem sequer a hera que durante séculos adornara as paredes”. Seria, assim, possível que mentes inferiores produzissem livros inestimáveis, se essa própria moderação não fosse prova de superioridade; pois os sábios não são tanto mais sábios que os outros quanto respeitadores da própria sabedoria. Alguns, pobres de espírito, registram em tom queixoso apenas o que lhes aconteceu; outros, porém, como eles aconteceram ao universo e o juízo que deram às circunstâncias. Acima de tudo, ele possuía uma cordial boa vontade para com todos os homens e nunca escreveu uma palavra ríspida, nem sequer descuidada. Em certa ocasião, quando o postilhão, fungando, disse: “Signor perdonate, quésta è la mia patria”, ele confessa que “a mim, pobre homem do Norte, veio aos olhos algo parecido com lágrimas”.

Toda a educação e a vida de Goethe foram as de um artista. Falta-lhe a inconsciência do poeta. Em sua autobiografia, ele descreve com exatidão a vida do autor de Wilhelm Meister. Pois, assim como nesse livro há, misturada a uma sabedoria rara e serena, certa mesquinhez ou exagero de ninharias, uma sabedoria aplicada a produzir um homem constrangido, parcial e apenas bem-educado, uma ampliação do teatro até que a própria vida se transforme em palco, para o qual é nosso dever estudar bem os papéis e nos conduzir com decoro e precisão, assim também, na autobiografia, a falha de sua educação é, por assim dizer, sua completude meramente artística. A Natureza é tolhida, embora por fim prevaleça, causando no menino uma impressão de abrangência incomum. É a vida de um menino da cidade, cujos brinquedos são quadros e obras de arte, cujas maravilhas são o teatro, as procissões reais e as coroações. Assim como o jovem estudava minuciosamente a ordem e os graus da procissão imperial e não permitia que nenhum de seus efeitos se perdesse para ele, o homem procurou assegurar uma posição na sociedade que satisfizesse sua noção de conveniência e respeitabilidade. Foi privado de muito do que desfruta o menino selvagem. De fato, ele próprio tem ocasião de dizer, nessa mesma autobiografia, quando enfim escapa para os bosques além dos portões: “Isto é certo: somente os sentimentos indefiníveis e vastamente expansivos da juventude e das nações incultas são adequados ao sublime, o qual, sempre que possa ser despertado em nós por objetos externos, visto ser ou sem forma, ou moldado em formas incompreensíveis, deve cercar-nos de uma grandeza que sentimos estar além de nosso alcance.” Diz ainda de si mesmo: “Desde a infância eu vivera entre pintores e me habituara a olhar os objetos, como eles faziam, em relação à arte.” E essa foi sua prática até o fim. Era até mesmo demasiado bem-educado para ser educado por inteiro. Diz que não tivera convivência alguma com a classe mais baixa dos meninos de sua cidade. A criança deve ter a vantagem da ignorância tanto quanto a do conhecimento, e é afortunada se recebe sua parcela de negligência e exposição.

“As leis da Natureza quebram as regras da Arte.”

O Homem de Gênio pode ser ao mesmo tempo, e de fato comumente é, um Artista, mas os dois não devem ser confundidos. O Homem de Gênio, considerado em relação à humanidade, é um originador, um homem inspirado ou demoníaco, que produz uma obra perfeita em obediência a leis ainda inexploradas. O Artista é aquele que detecta e aplica a lei a partir da observação das obras do Gênio, seja do homem, seja da natureza. O Artesão é aquele que apenas aplica as regras detectadas por outros. Nunca houve homem de Gênio puro, assim como nunca houve nenhum inteiramente destituído de Gênio.

A poesia é o misticismo da humanidade.

As expressões do poeta não podem ser analisadas; sua frase é uma palavra, cujas sílabas são palavras. Na verdade, não há palavras inteiramente dignas de ser postas em sua música. Mas que importa se nem sempre ouvimos as palavras, desde que ouçamos a música?

Muitos versos deixam de ser poesia porque não foram escritos precisamente na crise certa, embora talvez tenham estado inconcebivelmente perto dela. Somente por milagre a poesia chega a ser escrita. Ela não é pensamento recuperável, mas um matiz apanhado de um pensamento mais vasto que recua.

Um poema é uma expressão una, indivisa e desimpedida, que caiu madura na literatura, e é recebida indivisa e desimpedidamente por aqueles para os quais amadureceu.

Se você pode dizer o que jamais ouvirá, se pode escrever o que jamais lerá, fez coisas raras.

A obra que escolhemos deve ser nossa,

Deus a deixa em paz.

A inconsciência do homem é a consciência de Deus.

Profundos são os alicerces da sinceridade. Até os muros de pedra têm seus alicerces abaixo da linha de congelamento.

O que é produzido por um traço livre nos encanta, como as formas dos líquens e das folhas. Há no acaso certa perfeição que jamais alcançamos conscientemente. Passe sobre uma folha de papel uma pena de ponta romba cheia de tinta e dobre o papel, antes que a tinta seque, transversalmente a essa linha, e se produzirá uma figura regular, de sombras delicadas, em certos aspectos mais agradável do que um desenho elaborado.

O talento da composição é muito perigoso: arrancar de um só golpe o coração da vida, como o indígena arranca um escalpo. Sinto como se minha vida se houvesse tornado mais exterior quando consigo exprimi-la.

Em sua viagem de Brenner a Verona, Goethe escreve:

“O Tees corre agora mais suavemente e forma, em muitos lugares, largas faixas de areia. Em terra, junto à água, nas encostas, tudo está plantado tão rente umas coisas às outras que se diria que devem sufocar-se mutuamente: vinhedos, milho, amoreiras, macieiras, pereiras, marmeleiros e nogueiras. O sabugueiro-anão lança-se vigorosamente por sobre os muros. A hera sobe pelas rochas com caules fortes e se espalha largamente sobre elas, o lagarto desliza pelos intervalos, e tudo o que vai e vem lembra uma das mais belas pinturas de arte. Os cabelos das mulheres presos em tufos, o peito nu dos homens e suas jaquetas leves, os excelentes bois que conduzem do mercado para casa, os pequenos asnos com suas cargas: tudo forma um Heinrich Roos vivo e animado. E agora, já sendo noite, no ar ameno algumas nuvens repousam sobre as montanhas; nos céus, mais ficam paradas do que se movem; e, logo após o pôr do sol, o canto dos grilos começa a ficar mais alto. Então, por uma vez, a pessoa se sente em casa no mundo, e não escondida ou no exílio. Estou satisfeito como se tivesse nascido e crescido aqui e agora voltasse de uma viagem à Groenlândia ou de uma expedição baleeira. Até a poeira de minha Pátria, que tantas vezes se ergue em redemoinhos ao redor da carruagem e que por tanto tempo eu não vira, é saudada. O tilintar dos grilos, como de relógios e sinos, é de todo encantador, penetrante e agradável. Soa valentemente quando meninos travessos assobiam, competindo com um campo de tais cantoras. Imagina-se que de fato se realçam uns aos outros. Também a noite é perfeitamente amena como o dia.”

“Se alguém que morasse no sul e viesse para cá vindo do sul ouvisse falar de meu arrebatamento diante disso, haveria de me considerar muito infantil. Ah! aquilo que aqui exprimo eu conhecia havia muito, enquanto sofria sob um céu desfavorável, e agora posso, alegre, sentir esta alegria como uma exceção, que deveríamos desfrutar para sempre como uma necessidade eterna de nossa natureza.”

Assim “navegávamos em pensamento e deleite”, como diz Chaucer, e todas as coisas pareciam fluir conosco; a própria margem e os penhascos distantes se dissolviam no ar sem mistura. O material mais duro parecia obedecer à mesma lei que o mais fluido, e assim de fato sucede com o tempo. As árvores eram apenas rios de seiva e fibra lenhosa, fluindo da atmosfera e desaguando na terra por seus troncos, assim como suas raízes fluíam para cima, rumo à superfície. E nos céus havia rios de estrelas e vias-lácteas, já começando a brilhar e ondular sobre nossas cabeças. Havia rios de rocha na superfície da terra e rios de minério em suas entranhas, e nossos pensamentos fluíam e circulavam, e essa porção de tempo era apenas a hora corrente. Vagueemos por onde quisermos, o universo é construído ao nosso redor, e continuamos no centro. Se olhamos para os céus, eles são côncavos, e, se olhássemos para um abismo sem fundo, ele também seria côncavo. O céu se curva para baixo até a terra no horizonte porque estamos na planície. Eu puxo para baixo suas orlas. As estrelas tão baixas ali parecem relutantes em partir, mas, por um caminho sinuoso, parecem lembrar-se de mim e voltar sobre os próprios passos.

Já havíamos passado, em plena luz do dia, pelo lugar de nosso acampamento em Coos Falls e, por fim, armamos nosso acampamento na margem oeste, na parte setentrional do Merrimack, quase em frente à grande ilha onde havíamos passado o meio-dia em nossa subida pelo rio.

Ali fomos dormir naquela noite de verão, sobre uma plataforma inclinada da margem, a um par de rods de nosso barco, que fora puxado para a areia, e logo atrás de uma estreita franja de carvalhos que bordejava o rio; sem ter perturbado nenhum habitante além das aranhas na relva, que saíram à luz de nossa lamparina e rastejaram sobre nossas peles de búfalo. Quando olhávamos para fora, de sob a barraca, as árvores apareciam indistintas através da névoa, e um orvalho fresco pairava sobre a relva, que parecia rejubilar-se com a noite; e, junto com o ar úmido, inalávamos uma fragrância densa. Depois de comermos nossa ceia de cacau quente, pão e melancia, logo nos cansamos de conversar e de escrever em nossos diários e, apagando a lanterna pendurada no mastro da barraca, adormecemos.

Infelizmente, muitas coisas foram omitidas que deveriam ter sido registradas em nosso diário; pois, embora tivéssemos por regra anotar nele todas as nossas experiências, tal resolução é muito difícil de cumprir, porque a experiência importante raramente nos permite lembrar obrigações desse tipo, e assim coisas indiferentes acabam registradas, enquanto aquela é com frequência negligenciada. Não é fácil escrever num diário aquilo que nos interessa em dado momento, porque escrevê-lo não é o que nos interessa.

Sempre que despertávamos durante a noite, ainda prolongando nossos sonhos com pensamentos meio acordados, somente depois de algum tempo, quando o vento respirava com mais força que o habitual, fazendo bater as cortinas da barraca e vibrar suas cordas, é que nos lembrávamos de que estávamos deitados à margem do Merrimack, e não em nosso quarto em casa. Com a cabeça tão baixa na relva, ouvíamos o rio girar e sorver, deslizando para baixo e beijando a margem enquanto passava, ora encrespando-se mais alto do que de costume, ora fazendo sua poderosa corrente apenas um leve som límpido de gotejo, como se nosso balde d’água tivesse furado e a água escorresse para a relva ao nosso lado. O vento, farfalhando entre os carvalhos e as aveleiras, dava-nos a impressão de uma pessoa insone e pouco atenciosa, de pé à meia-noite, andando de um lado para outro e pondo as coisas em ordem, por vezes revolvendo com uma rajada gavetas inteiras cheias de folhas. Parecia haver por toda a Natureza uma grande pressa e preparação, como para a chegada de um visitante ilustre; todos os seus corredores precisavam ser varridos durante a noite por mil criadas, e mil panelas precisavam ser levadas ao fogo para o banquete do dia seguinte; tamanha azáfama sussurrante, como se dez mil fadas fizessem voar os dedos, costurando em silêncio o novo tapete com que a terra seria revestida e a nova tapeçaria que adornaria as árvores. Então o vento amainava e morria, e nós, como ele, tornávamos a adormecer.

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