Quarta-feira Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack · Capítulo 6 de 8
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Quarta-feira

“O homem é inimigo e destino do homem.”

COTTON.

Bem cedo nesta manhã, enquanto enrolávamos nossas peles de búfalo e carregávamos o barco em meio ao orvalho, com as brasas ainda fumegando, os pedreiros que trabalhavam nas eclusas, e que na noite anterior havíamos visto atravessar o rio em seu barco enquanto examinávamos a rocha, deram conosco a caminho do trabalho, e descobrimos que havíamos armado a barraca exatamente na passagem para o barco deles. Foi a única vez em que fomos observados em nosso acampamento. Assim, longe das estradas batidas e da poeira e do estrépito das viagens, contemplávamos o campo em privado, mas livremente e sem pressa. Outras vias fazem certa violência à Natureza e levam o viajante a fitá-la; o rio, porém, insinua-se pela paisagem que atravessa sem intrusão, criando-a e adornando-a em silêncio, e é tão livre para ir e vir quanto o zéfiro.

Quando nos afastamos a remo daquela costa rochosa, antes do nascer do sol, o socó menor, gênio da margem, seguia melancólico ao longo de sua orla, ou ficava sondando a lama em busca de alimento, sempre com um olho em nós, embora trabalhasse com tanta compostura; ou então corria pelas pedras molhadas como um saqueador de naufrágios em seu casaco de tempestade, à procura dos destroços de caracóis e berbigões. Agora lá vai ele, num voo claudicante, incerto quanto ao lugar onde pousará, até que uma vara de areia limpa entre os amieiros convida seus pés; e agora nossa aproximação constante o obriga a procurar novo refúgio. É uma ave da mais antiga escola de Tales e, sem dúvida, acredita na precedência da água sobre os demais elementos; relíquia de uma idade antediluviana crepuscular que ainda habita estes claros rios americanos conosco, ianques. Há algo de venerável nessa raça melancólica e contemplativa de aves, que talvez tenha pisado a terra quando ela ainda se achava em estado viscoso e imperfeito. Quem sabe suas pegadas ainda sejam visíveis nas pedras. Ela ainda se demora em nossos verões ofuscantes, suportando com bravura seu destino, sem simpatia alguma por parte do homem, como se aguardasse um segundo advento do qual ele não tem certeza. Perguntamo-nos se, com seu estudo paciente junto às rochas e aos cabos arenosos, já arrancou da Natureza todo o seu segredo. Que rica experiência deve ter adquirido, parada numa só perna e contemplando por tanto tempo, com seu olho baço, o sol e a chuva, a lua e as estrelas! O que poderia contar de poças estagnadas, juncos e úmidas névoas noturnas! Valeria a pena olhar atentamente para o olho que permaneceu aberto e vendo em tais horas e em tamanhas solidões, seu olho baço, amarelado, esverdeado. Parece-me que minha própria alma deve ser de um verde vivo e invisível. Já vi essas aves em grupos de meia dúzia, juntas nas águas mais rasas ao longo da margem, com os bicos enterrados na lama do fundo, sondando em busca de alimento, toda a cabeça oculta, enquanto o pescoço e o corpo formavam um arco acima da água.

O riacho Cohass, desaguadouro do lago Massabesic, que fica a cinco ou seis milhas de distância, contém mil e quinhentos acres e é a maior extensão de água doce do condado de Rockingham, desemboca por aqui, vindo do leste. Remando entre Manchester e Bedford, passamos, ainda cedo, por uma balsa e algumas quedas, chamadas Goff’s Falls, o Cohasset indígena, onde há uma pequena aldeia e uma bela ilhota verde no meio da corrente. De Bedford e Merrimack foram transportados de barco os tijolos de que Lowell é feita. Cerca de vinte anos antes, segundo nos contaram, certo Moore, de Bedford, que tinha argila em sua fazenda, contratou fornecer oito milhões de tijolos aos fundadores daquela cidade no prazo de dois anos. Cumpriu o contrato em um ano e, desde então, os tijolos têm sido o principal produto de exportação dessas cidades. Assim, os fazendeiros encontraram mercado para sua madeira e, depois de levar uma carga aos fornos, podiam transportar uma carga de tijolos até a margem, fazendo com isso um dia de trabalho lucrativo. Desse modo, todas as partes se beneficiavam. Valia a pena ver o lugar de onde Lowell fora “escavada”. Da mesma forma, Manchester está sendo construída com tijolos fabricados ainda mais acima no rio, em Hooksett.

Podiam-se ver ali, na margem do Merrimack, perto de Goff’s Falls, no que hoje é a cidade de Bedford, famosa “pelo lúpulo e por suas excelentes manufaturas domésticas”, algumas sepulturas dos aborígines. A terra ainda conserva aqui essa cicatriz, e o tempo vai lentamente desfazendo os ossos de uma raça. Contudo, sem falta, a cada primavera, desde que eles começaram a pescar e caçar ali, o debulhador-ruivo anuncia a manhã de um ramo de bétula ou amieiro, e a raça imperecível dos pássaros-dos-juncos ainda farfalha pela relva que definha. Mas esses ossos não farfalham. Esses elementos em decomposição preparam-se lentamente para outra metamorfose, a fim de servir a novos senhores, e o que foi do indígena em breve será o tendão do homem branco.

Ficamos sabendo que Bedford já não era tão famosa pelo lúpulo quanto antes, pois o preço vinha oscilando e as varas agora eram escassas. Ainda assim, caso o viajante se afaste algumas milhas do rio, os fornos de secagem do lúpulo ainda despertarão sua curiosidade.

Houve poucos incidentes em nossa viagem naquela manhã, embora o rio estivesse agora mais rochoso e as quedas fossem mais frequentes que antes. Era uma mudança agradável, depois de remar sem cessar por muitas horas, fazermos nós mesmos a passagem por uma eclusa em algum lugar retirado, pois em geral não havia eclusista por perto: um ficava sentado no barco, enquanto o outro, às vezes com esforço nada pequeno e muitos “iça!”, abria e fechava as comportas, esperando pacientemente que as câmaras se enchessem. Não usamos uma única vez as rodas que havíamos providenciado. Aproveitando o remanso, por vezes éramos levados até as eclusas quase diante das próprias quedas; e, pela mesma causa, qualquer madeira à deriva era arrastada em círculo e puxada repetidas vezes para as corredeiras antes de finalmente seguir rio abaixo. Essas velhas estruturas cinzentas, com seus braços tranquilos estendidos sobre o rio ao sol, pareciam objetos naturais na paisagem, e o martim-pescador e o maçarico pousavam nelas tão prontamente quanto em estacas ou rochas.

Remamos sem pressa corrente acima durante várias horas, até que o sol se ergueu alto no céu, nossos pensamentos marcando monotonamente o compasso dos remos. Como variedade exterior, havia apenas o rio e as margens que recuavam, uma perspectiva que se abria continuamente atrás de nós e se fechava adiante, pois nos sentávamos de costas para a nascente; como variedade interior, pensamentos tais como os que as musas nos emprestavam de má vontade. Passávamos sempre por alguma margem baixa e convidativa, ou por algum barranco saliente, onde, contudo, nunca desembarcávamos.

Tão próximas visões tivemos

Do cenário de nossa vida.

Podia-se ver sob que título os homens possuíam a terra. O menor curso d’água é um mar mediterrâneo, uma pequena enseada oceânica dentro da terra, onde os homens podem navegar guiando-se pelos limites de suas fazendas e pelas luzes das casas. Quanto a mim, não fossem os geógrafos, eu mal saberia quão grande porção de nosso globo é água, pois minha vida transcorreu sobretudo dentro de uma enseada tão profunda. Ainda assim, por vezes me aventurei até a boca de meu Porto Seguro. De um velho forte em ruínas em Staten Island, gostei de observar durante o dia inteiro alguma embarcação cujo nome eu lera pela manhã através da luneta, quando ela apareceu pela primeira vez junto à costa e seu casco se ergueu e reluziu ao sol, desde o momento em que o prático e os mais audaciosos barcos de notícias foram encontrá-la, além do Hook e pelo estreito canal da larga baía exterior, até que o oficial de saúde subisse a bordo e ela ocupasse seu posto na Quarentena, ou prosseguisse sem ser interpelada até os cais de Nova York. Também era interessante observar o jornalista menos ousado, que fazia seu assalto quando o navio passava pelos Narrows, desafiando a peste e a lei de quarentena, e, prendendo seu pequeno bote ao enorme costado, trepava e desaparecia na cabine. Então eu podia imaginar que notícias momentosas o capitão lhe comunicava, notícias jamais ouvidas por qualquer ouvido americano: que Ásia, África e Europa haviam todas afundado. Por elas, afinal, ele paga o preço, e é visto descendo pelo costado com seu maço de jornais, mas não pelo mesmo ponto por onde subira, pois esses recém-chegados não param para conversar; e ele se afasta depressa, com remadas firmes, a fim de vender sua mercadoria ao maior comprador, e dentro em pouco leremos algo estarrecedor: “Pela mais recente chegada”, “pelo bom navio...”. Num domingo, contemplei, de alguma colina do interior, a longa procissão de navios que se faziam ao mar, estendendo-se dos cais da cidade pelos Narrows e além do Hook, até a corrente oceânica, tão longe quanto a vista alcançava, em marcha majestosa e com velas de seda, todos contando com viagens afortunadas, embora a cada vez alguns deles, sem dúvida, estivessem destinados a ir para o armário de Davy e jamais retornar a esta costa. E, ainda, na tarde de um dia agradável, eu me divertia contando as velas à vista. Mas, como o sol poente trazia continuamente mais e mais delas à luz, cada vez mais longe no horizonte, a última contagem sempre levava vantagem, até que, quando os derradeiros raios se derramavam sobre o mar, eu havia duplicado e triplicado meu primeiro número; embora já não pudesse classificá-las todas sob as diversas rubricas de navios, barcas, bergantins, escunas e saveiros, pois a maioria não passava de tênues e genéricas embarcações. E então a luz moderada do crepúsculo talvez revelasse o lar flutuante de algum marinheiro cujos pensamentos já se haviam apartado desta costa americana e se dirigiam para a Europa de nossos sonhos. Estive no alto da mesma colina quando uma tempestade, descendo das Catskills e das Highlands, passou sobre a ilha e inundou a terra; e, quando de súbito nos deixou sob o sol, vi-a alcançar sucessivamente, com sua sombra enorme e sua escura parede descendente de chuva, os navios na baía. Suas velas claras de repente pendiam escuras, como as laterais de celeiros, e eles pareciam encolher diante da tempestade; enquanto, muito além deles no mar, através desse véu sombrio, reluziam as velas ensolaradas das embarcações que a tempestade ainda não alcançara. E à meia-noite, quando tudo ao redor e acima era escuridão, vi ao longe, no mar, um campo de luz trêmula e prateada, reflexo do luar sobre o oceano, como se além dos limites de nossa noite, onde a lua atravessava um céu sem nuvens; e às vezes uma mancha escura em seu centro, onde alguma embarcação afortunada prosseguia em sua feliz viagem noturna.

Mas, para nós, marinheiros de rio, o sol nunca nascia das ondas do oceano, e sim de algum arvoredo verde, e se punha atrás de alguma escura linha de montanhas. Nós também éramos apenas habitantes da margem, como o socó daquela manhã; e nossa busca eram os destroços de caracóis e berbigões. Ainda assim, contentávamo-nos em conhecer melhor uma bela margem em particular.

Minha vida é um passeio pela praia,

Tão rente ao mar quanto me é dado andar;

Às vezes a onda alcança o passo que se atrasa,

Às vezes paro e a deixo transbordar.

É meu único labor e escrupuloso cuidado

Pôr meus achados fora do alcance das marés,

Cada seixo mais liso e cada concha mais rara

Que o oceano entrega bondoso às minhas mãos.

Poucos companheiros tenho pela margem;

Desdenham da praia os que navegam pelo mar,

Mas muitas vezes penso que o oceano que cruzaram

Na praia conheço eu mais fundo do que eles.

O alto-mar não guarda alga rubra alguma,

Suas ondas mais fundas não exibem pérolas;

Junto à praia, minha mão repousa em seu pulso,

E converso com muitas tripulações naufragadas.

As pequenas casas espalhadas ao longo do rio, a intervalos de uma milha ou mais, em geral ficavam fora de nossa vista, mas às vezes, quando remávamos perto da margem, ouvíamos a nota irritadiça de uma galinha ou algum leve som doméstico que as denunciava. As casas dos guardas das eclusas eram especialmente bem situadas, retiradas e no alto, sempre junto a quedas ou corredeiras, dominando os trechos mais agradáveis do rio, pois ele costuma ser mais largo e semelhante a um lago logo acima de uma queda, e ali eles esperam os barcos. Essas moradas humildes, simples e sinceras, nas quais a lareira ainda era a parte essencial, agradavam mais aos nossos olhos do que teriam agradado palácios ou castelos. Ao meio-dia daqueles dias, como dissemos, às vezes subíamos as margens e nos aproximávamos dessas casas para obter um copo d’água e conhecer seus habitantes. No alto da margem frondosa, cercadas em geral por uma pequena plantação de milho e feijão, abóboras e melões, por vezes com um gracioso lúpulo de um lado e alguma trepadeira correndo sobre as janelas, pareciam colmeias dispostas para recolher mel durante um verão. Não li sobre nenhuma vida arcádica que supere o luxo real e a serenidade dessas moradas da Nova Inglaterra. Quanto ao dourado exterior, ao menos, a era é suficientemente áurea. Ao nos aproximarmos da porta ensolarada, despertando os ecos com nossos passos, ainda não se ouve som algum desses quartéis de repouso, e tememos que a mais delicada batida possa parecer rude aos sonhadores orientais. A porta talvez seja aberta por alguma mulher ianque-hindu, cuja hospitalidade de voz baixa, mas sincera, vinda das profundezas sem fundo de uma natureza tranquila, deu a volta inteira até o extremo oposto e teme apenas impor sua bondade. Pisamos de leve no assoalho esfregado até a alvura, em direção ao reluzente “armário de louças”, como se receássemos perturbar as devoções da família, pois dinastias orientais parecem ter passado desde a última vez em que a mesa de jantar foi posta ali, e daí seguimos até o parapeito muito frequentado do poço, onde vemos, no fundo, nosso rosto há tanto esquecido e por fazer, lado a lado com manteiga recém-batida e a truta dentro do poço. “Talvez vocês gostassem de um pouco de melaço com gengibre”, sugere a voz débil do meio-dia. Às vezes está sentado ali o irmão que segue o mar, o homem representativo da família, que sabe apenas qual é a distância até o porto mais próximo, e nenhuma outra distância; todo o resto é mar e cabos remotos. Ele afaga o cão ou embala o gatinho nos braços alongados pelo cabo e pelo remo, puxando contra Bóreas ou contra os ventos alísios. Ergue os olhos para o estranho, meio satisfeito, meio espantado, com olhar de marinheiro, como se ele fosse um golfinho ao alcance do arpão. Se os homens quiserem acreditar, sua si bona nôrint, não há Tempes mais tranquilas, nem vidas mais poéticas e arcádicas, do que as que podem ser vividas nessas moradas da Nova Inglaterra. Pensávamos que a ocupação de seus habitantes durante o dia seria cuidar das flores e dos rebanhos e, à noite, como os pastores de outrora, reunir-se nas margens do rio e dar nomes às estrelas.

Passamos naquela manhã por uma ilha grande e densamente arborizada, entre as quedas de Short e Griffith, a mais bela que havíamos encontrado, com um belo bosque de olmos em sua extremidade superior. Se fosse noite, teríamos ficado contentes em acampar ali. Não muito depois, passamos por mais uma ou duas. Os barqueiros nos disseram que a corrente havia feito recentemente mudanças importantes naquele lugar. Uma ilha sempre agrada à minha imaginação, mesmo a menor delas, como um pequeno continente e uma parte integral do globo. Tenho fantasia de construir minha cabana em uma. Até uma ilhota nua e relvosa, que posso abarcar por inteiro com um só olhar, possui para mim certo encanto indefinido e misterioso. Em geral há uma assim na junção de dois rios, cujas correntes trazem e depositam suas respectivas areias no remanso da confluência, como se este fosse o ventre de um continente. Com que contribuição delicada e vinda de tão longe se forma cada ilha! Que empreendimento da Natureza é este, lançar assim os alicerces e edificar o futuro continente, com areias de ouro e prata e ruínas de florestas, numa diligência de formiga! Píndaro oferece o seguinte relato sobre a origem de Tera, de onde, em tempos posteriores, a Cirene líbia foi colonizada por Bato. Tritão, sob a forma de Eurípilo, oferece um torrão a Eufemo, um dos Argonautas, quando estes estão prestes a regressar ao lar.

“Ele soube de nossa pressa,

E, tomando de imediato um torrão

Com a mão direita, esforçou-se por oferecê-lo

Como presente de um estranho encontrado ao acaso.

Nem o herói o desdenhou, mas, saltando para a praia,

Estendendo mão a mão,

Recebeu o torrão místico.

Mas ouço que, caindo do convés,

Foi-se com a salmoura do mar

Ao entardecer, acompanhando o mar aquoso.

Muitas vezes, em verdade, instei os negligentes

Servos a guardá-lo, mas suas mentes se esqueceram.

E agora, nesta ilha, a semente imperecível da espaçosa Líbia

Foi derramada antes de seu tempo.”

É uma bela fábula, também relatada por Píndaro, a de como Hélio, ou o Sol, olhou um dia para o mar, talvez quando seus raios se refletiram pela primeira vez em algum banco de areia crescente e cintilante, e viu a bela e fértil ilha de Rodes

“erguendo-se do fundo,

Capaz de alimentar muitos homens e apropriada aos rebanhos;

e, ao aceno de Zeus,

“A ilha surgiu do mar

Aquoso; e o benigno Pai dos raios penetrantes,

Senhor dos cavalos que respiram fogo, a possui.”

As ilhas movediças! Quem não estaria disposto a ter a casa solapada por semelhante inimigo? O habitante de uma ilha pode dizer quais correntes formaram a terra que cultiva, e seu solo ainda está sendo criado ou destruído. Ali, diante de sua porta, talvez ainda deságue o curso d’água que trouxe o material de sua fazenda eras antes, e continua a trazê-lo ou a levá-lo embora, o gracioso e gentil ladrão!

Não muito depois disso, vimos o Piscataquoag, ou Água Cintilante, desembocar à nossa esquerda, e ouvimos acima as quedas de Amoskeag. Grandes quantidades de madeira, como lemos no Gazetteer, ainda desciam todos os anos flutuando pelo Piscataquoag até o Merrimack, e há nele muitos excelentes locais para moinhos. Logo acima da foz desse rio, passamos pelas quedas artificiais onde os canais da Manchester Manufacturing Company se descarregam no Merrimack. São impressionantes o bastante para merecer um nome e, com o cenário de Bashpish, seriam visitadas por gente de longe e de perto. A água cai trinta ou quarenta pés sobre sete ou oito terraços de pedra íngremes e estreitos, provavelmente destinados a quebrar sua força, e se converte numa única massa de espuma. Essa água de canal não parecia estar pior pelo uso, mas espumava e fumegava com a mesma pureza, e ribombava com tanta ferocidade e imponência quanto uma torrente de montanha; e, embora viesse debaixo de uma fábrica, vimos ali um arco-íris. Essas são agora as quedas de Amoskeag, removidas uma milha rio abaixo. Mas não nos demoramos para examiná-las minuciosamente, pois nos apressávamos em passar pela aldeia que se reunira ali e em sair do alcance do martelo que assentava os alicerces de outra Lowell nas margens. Na época de nossa viagem, Manchester era uma aldeia de cerca de dois mil habitantes, onde desembarcamos por um momento para obter um pouco de água fresca, e onde um morador nos disse que costumava atravessar o rio até Goffstown para buscar água. Agora, porém, como me disseram, e como de fato testemunhei, contém catorze mil habitantes. De uma colina na estrada entre Goffstown e Hooksett, a quatro milhas de distância, vi uma tempestade passar por cima, e o sol romper as nuvens e brilhar sobre uma cidade ali onde, nove anos antes, eu desembarcara em campos; e tremulava a bandeira de seu Museu, onde se podia ver “o único esqueleto perfeito de uma baleia da Groenlândia ou de rio nos Estados Unidos”, e também li em seu diretório a existência de um “Ateneu de Manchester e Galeria de Belas-Artes”.

Segundo o Gazetteer, o desnível das quedas de Amoskeag, as mais consideráveis do Merrimack, é de cinquenta e quatro pés em meia milha. Com muito trabalho, passamos pelas eclusas dali, vencendo os sucessivos degraus aquáticos da escadaria desse rio em meio a uma multidão de aldeões, saltando para dentro do canal, para diversão deles, a fim de impedir que nosso barco virasse, e consumindo muita água do rio a nosso serviço. Diz-se que Amoskeag, ou Namaskeak, significa “grande lugar de pesca”. Foi por essas redondezas que residiu o sachem Wannalancet. A tradição diz que sua tribo, quando em guerra com os mohawks, escondia suas provisões nas cavidades das rochas na parte superior dessas quedas. Os indígenas, que escondiam suas provisões nesses buracos e afirmavam “que Deus os havia escavado para esse fim”, compreendiam sua origem e seu uso melhor do que a Royal Society, que, em suas Transactions, no século passado, falando desses mesmos buracos, declara que “eles parecem claramente artificiais”. “Marmitas” semelhantes podem ser vistas no Stone Flume deste rio, no Ottaway, em Bellows Falls, no Connecticut, e na rocha calcária de Shelburne Falls, no rio Deerfield, em Massachusetts, e, em maior ou menor grau, de modo geral junto a todas as quedas. Talvez a curiosidade mais notável desse tipo na Nova Inglaterra seja a conhecida Basin, no Pemigewasset, uma das cabeceiras deste rio, com vinte por trinta pés de extensão e profundidade proporcional, borda lisa e arredondada, cheia de água fria, límpida e esverdeada. Em Amoskeag, o rio é dividido pelas rochas em muitas torrentes separadas e filetes gotejantes, e seu volume é tão reduzido pela drenagem dos canais que não chega a encher o leito. Há muitas marmitas ali, numa ilha rochosa que o rio cobre nas grandes cheias. Como em Shelburne Falls, onde as observei pela primeira vez, elas variam de um pé a quatro ou cinco de diâmetro, e têm a mesma medida em profundidade, perfeitamente redondas e regulares, com bordas lisas e graciosamente curvas, como taças. Sua origem é evidente até para o observador mais descuidado. Uma pedra arrastada pela corrente, ao encontrar obstáculos, gira como sobre um pivô no lugar onde repousa e, ao longo dos séculos, afunda gradualmente cada vez mais na rocha; nas novas cheias, recebe o auxílio de outras pedras, atraídas para essa armadilha e condenadas a girar ali por um período indefinido, cumprindo uma penitência à maneira de Sísifo por pecados pétreos, até que se desgastem, atravessem o fundo da prisão ou sejam libertadas por alguma revolução da natureza. Ali jazem pedras de vários tamanhos, desde um seixo até um ou dois pés de diâmetro, algumas das quais repousam de seu trabalho apenas desde a primavera, e outras, mais acima, permanecem imóveis e secas há eras; notamos algumas ali pelo menos dezesseis pés acima do nível atual da água, enquanto outras ainda giram e não desfrutam descanso em estação alguma. Em um caso, em Shelburne Falls, elas atravessaram inteiramente a rocha, de modo que uma parte do rio vaza por ali, antecipando a queda. Algumas dessas marmitas de Amoskeag, abertas numa pedra parda muito dura, continham frouxamente ajustada uma pedra cilíndrica e oblonga do mesmo material. Uma delas, com até quinze pés de profundidade e sete ou oito de diâmetro, inteiramente perfurada até a água, tinha alojada dentro de si uma enorme rocha do mesmo material, lisa, mas de forma irregular. Por toda parte havia os rudimentos ou os destroços de uma covinha na rocha, as conchas pétreas de redemoinhos. Como se, pela força do exemplo e da simpatia, após tantas lições, as rochas, o material mais duro, estivessem se esforçando por rodopiar ou fluir para assumir as formas do mais fluido. Os melhores artífices da pedra não são ferramentas de cobre ou aço, mas os suaves toques do ar e da água, trabalhando sem pressa, com uma generosa concessão de tempo.

Não apenas algumas dessas bacias vêm se formando há incontáveis eras, mas existem outras que devem ter sido concluídas em um período geológico anterior. Ao aprofundarem o canal de Pawtucket, em 1822, os trabalhadores chegaram a saliências rochosas com marmitas, onde provavelmente ficava outrora o leito do rio; e há algumas, segundo nos dizem, na cidade de Canaan, neste Estado, com as pedras ainda dentro delas, no divisor de águas entre o Merrimack e o Connecticut, quase mil pés acima desses rios, provando que as montanhas e os rios trocaram de lugar. Ali jazem as pedras que talvez tenham completado suas revoluções antes que os pensamentos começassem a revolver-se no cérebro do homem. Os períodos da história hindu e chinesa, embora remontem ao tempo em que a raça dos mortais se confunde com a raça dos deuses, nada são comparados aos períodos que essas pedras inscreveram. Aquilo que começou como rocha quando o tempo era jovem terminará como seixo na disputa desigual. Com tamanho dispêndio de tempo e forças naturais são produzidas até mesmo as pedras de nosso calçamento. Elas nos ensinam lições, essas trabalhadoras mudas; de fato, há “sermões nas pedras e livros nos riachos correntes”. Nesses mesmos buracos os indígenas escondiam suas provisões; agora, porém, não há pão, mas apenas suas antigas vizinhas, as pedras, no fundo. Quem sabe a quantas raças elas já serviram assim? Por uma lei igualmente simples, algum regulamento acidental, talvez, nosso próprio sistema foi preparado para seus habitantes.

Estas, e outras semelhantes, devem ser nossas antiguidades, na falta de vestígios humanos. Os monumentos dos heróis e os templos dos deuses que talvez um dia tenham se erguido nas margens deste rio já retornaram, de todo modo, ao pó e ao solo primitivo. O murmúrio de nações sem crônica extinguiu-se ao longo destas margens, e mais uma vez Lowell e Manchester seguem a trilha do indígena.

O fato de os romanos a terem habitado outrora confere não pouca dignidade à própria Natureza; o fato de que, de alguma colina particular, o romano certa vez contemplou o mar. Ela não precisa envergonhar-se dos vestígios de seus filhos. Com que satisfação o antiquário nos informa que seus navios penetraram neste estuário, ou subiram aquele rio de alguma ilha remota! Seus monumentos militares ainda permanecem nas colinas e sob o relvado dos vales. A história romana, tantas vezes repetida, está escrita em caracteres ainda legíveis em todos os quadrantes do Velho Mundo, e talvez ainda hoje se desenterre uma nova moeda cuja inscrição repita e confirme sua fama. Alguma “Judæa Capta”, com uma mulher lamentando sob uma palmeira, confirma, por argumento e demonstração silenciosos, as páginas da história.

“Roma viva era do mundo o único ornamento;

E morta é hoje do mundo o único monumento.

*

Sob o próprio peso agora jaz prostrada,

E por seus montes prova quão desmedida.”

Se alguém duvida de que o valor e o patriotismo gregos não sejam uma ficção dos poetas, pode ir a Atenas e ainda ver, nas paredes do templo de Minerva, as marcas circulares deixadas pelos escudos tomados ao inimigo na guerra persa e ali suspensos. Não precisamos ir longe em busca de uma prova viva e indubitável. O próprio pó assume forma e confirma alguma história que lemos. Como disse Fuller, comentando o zelo de Camden: “Uma urna quebrada é uma prova inteira; ou um velho portão ainda sobrevivente, pelo qual a cidade inteira já se escoou.” Quando Sólon procurou provar que Salamina pertencera antigamente aos atenienses, e não aos megarenses, mandou abrir os túmulos e mostrou que os habitantes de Salamina voltavam o rosto de seus mortos para o mesmo lado que os atenienses, enquanto os megarenses o faziam para o lado oposto. Era ali que deveriam ser interrogados.

Certas mentes são tão pouco lógicas ou argumentativas quanto a natureza; não podem oferecer razão alguma nem “conjetura”, mas exibem o fato solene e incontroverso. Se surge uma questão histórica, mandam abrir os túmulos. Sua lógica silenciosa e prática convence ao mesmo tempo a razão e o entendimento. Dessa espécie é sempre a única pergunta pertinente e a única resposta satisfatória.

Nosso próprio país fornece antiguidades tão antigas, duráveis e úteis quanto quaisquer outras; rochas pelo menos tão bem cobertas de liquens e um solo que, se é virgem, não passa de terra virgem, o próprio pó da natureza. E se não podemos ler nelas Roma, Grécia, Etrúria, Cartago, Egito ou Babilônia, estarão desnudos os nossos penhascos? O líquen sobre as rochas é um escudo rude e simples que a Natureza incipiente e imperfeita ali suspendeu. Seu troféu enrugado ainda pende. E aqui também o olhar do poeta ainda pode detectar os cravos de bronze que fixaram as inscrições do Tempo e, se possui o dom, decifrá-las por essa pista. Os muros que cercam nossos campos, assim como a Roma moderna, e não menos o próprio Partenon, são todos construídos de ruínas. Aqui se pode ouvir o estrondo dos rios, e ventos antigos, que há muito perderam seus nomes, suspiram por nossos bosques; os primeiros e tênues sons da primavera, mais antigos que o verão da glória ateniense, o chapim balbuciando no bosque, o grito do gaio, o trinado do pássaro-azul e o zumbido de

“abelhas que esvoaçam

Em torno das flores risonhas do salgueiro.”

Aqui está a aurora cinzenta da antiguidade, e o futuro de nosso amanhã deveria ser ao menos paulo-post em relação ao deles, que deixamos para trás. Ali estão as folhas do bordo-vermelho e da bétula, antigas runas ainda não decifradas; amentilhos, pinhas, trepadeiras, folhas de carvalho e bolotas; as próprias coisas, e não suas formas em pedra, tanto mais antigas e veneráveis. E até o verão presente chegou a tradição de um mestre de cabelos brancos, senhor de toda arte, que outrora encheu cada campo e bosque de estátuas e de uma arquitetura divina, em todos os desenhos que a Grécia apenas recentemente copiou; suas ruínas agora se misturam ao pó, e não resta um bloco sobre outro. O sol dos séculos e a chuva incansável os consumiram, até que já não existe um único fragmento daquela pedreira; e talvez os poetas imaginem que os deuses enviaram o material do céu.

Que importa que o viajante nos fale das ruínas do Egito? Estamos tão enfermos ou ociosos que devemos sacrificar nossa América e o dia de hoje à história indolente e mal lembrada de algum homem? Carnac e Luxor não passam de nomes, ou, se seus esqueletos permanecem, ainda será preciso mais areia do deserto e, por fim, uma onda do mar Mediterrâneo para lavar a sujeira que se prende à grandeza deles. Carnac! Carnac! Aqui está Carnac para mim. Contemplo as colunas de um templo maior e mais puro.

Este é meu Carnac, cuja cúpula sem medida

Abriga a arte de medir e do medidor a morada.

Vede estas flores, levantemo-nos com o tempo,

Sem sonhar com três mil anos atrás;

Ergamo-nos e deixemos tombadas essas colunas,

Sem nos curvar para erguer um contraste contra o céu.

Onde está o espírito daquele tempo, senão

Neste dia presente, talvez neste verso presente?

Três mil anos atrás não se foram,

Ainda demoram nesta manhã de verão,

E a Mãe de Mêmnon nos saúda agora, vivaz,

Trazendo na fronte seu jovem esplendor.

Se as colunas de Carnac ainda se erguem na planície,

É para desfrutarem de nossas oportunidades que permanecem.

Nestas paragens viveu o famoso sachem Pasaconaway, que Gookin viu “em Pawtucket, quando ele tinha cerca de cento e vinte anos”. Era reputado homem sábio e powwow, e impediu seu povo de entrar em guerra com os ingleses. Acreditavam “que ele podia fazer a água arder, as rochas moverem-se e as árvores dançarem, e metamorfosear-se num homem em chamas; que no inverno podia fazer brotar uma folha verde das cinzas de uma folha seca, produzir uma serpente viva da pele de uma serpente morta e realizar muitos milagres semelhantes”. Em 1660, segundo Gookin, durante uma grande festa e dança, fez seu discurso de despedida ao povo, no qual disse que, como provavelmente não voltaria a vê-los reunidos, lhes deixaria este conselho: que tomassem cuidado ao contender com seus vizinhos ingleses, pois, embora de início pudessem lhes causar muito dano, isso acabaria sendo o meio de sua própria destruição. Ele próprio, disse, fora tão inimigo dos ingleses quando chegaram quanto qualquer outro e empregara todas as suas artes para destruí-los, ou ao menos impedir que se estabelecessem, mas de modo algum conseguira fazê-lo. Gookin pensava que ele “talvez pudesse ter sobre si uma espécie de espírito semelhante ao que esteve sobre Balaão, o qual, em Números xxiii, 23, disse: ‘Certamente não há encantamento contra Jacó, nem adivinhação contra Israel’”. Seu filho Wannalancet seguiu cuidadosamente o conselho e, quando eclodiu a Guerra do Rei Filipe, retirou seus seguidores do cenário da guerra para Penacook, hoje Concord, em New Hampshire. Quando voltou, visitou o ministro de Chelmsford e, segundo consta na história daquela cidade, “quis saber se Chelmsford sofrera muito durante a guerra; informado de que não, e de que se devia agradecer a Deus por isso, Wannalancet respondeu: ‘A mim também’”.

Manchester foi a residência de John Stark, herói de duas guerras e sobrevivente de uma terceira, e, ao morrer, o penúltimo dos generais americanos da Revolução. Nasceu na cidade vizinha de Londonderry, então Nutfield, em 1728. Já em 1752, foi feito prisioneiro pelos indígenas enquanto caçava na região selvagem próxima ao rio Baker; prestou serviços notáveis como capitão de patrulheiros na guerra contra os franceses; comandou um regimento da milícia de New Hampshire na batalha de Bunker Hill; e combateu e venceu a batalha de Bennington em 1777. Já estava velho demais para servir na última guerra e morreu aqui em 1822, aos 94 anos. Seu monumento se ergue no segundo terraço da margem do rio, cerca de uma milha e meia acima das quedas, e domina uma vista de várias milhas rio acima e rio abaixo pelo Merrimack. Ele sugeria quão mais impressionante, na paisagem, é o túmulo de um herói do que as moradas dos vivos sem glória. Quem está mais morto: um herói junto a cujo monumento você se encontra, ou os descendentes dele, dos quais você jamais ouviu falar?

Os túmulos de Pasaconaway e Wannalancet não são assinalados por monumento algum na margem de seu rio natal.

Cada cidade por que passamos, se podemos acreditar no Gazetteer, fora residência de algum grande homem. Mas, embora batêssemos a muitas portas e até fizéssemos indagações específicas, não conseguimos descobrir que algum ainda estivesse vivo. Sob o verbete Litchfield, lemos:

“O Hon. Wyseman Clagett encerrou sua vida nesta cidade.” Segundo outra fonte, “Era um erudito dos clássicos, bom advogado, homem de espírito e poeta”. Vimos sua velha casa cinzenta pouco abaixo do riacho Great Nesenkeag. Sob o verbete Merrimack: “O Hon. Mathew Thornton, um dos signatários da Declaração de Independência Americana, residiu muitos anos nesta cidade”. Também vimos sua casa do rio. “O Dr. Jonathan Gove, homem distinto por sua urbanidade, seus talentos e sua habilidade profissional, residiu nesta cidade [Goffstown]. Era um dos mais antigos médicos em exercício no condado. Durante muitos anos foi membro ativo da legislatura.” “O Hon. Robert Means, falecido em 24 de janeiro de 1823, aos 80 anos, residiu por um longo período em Amherst. Era natural da Irlanda. Em 1764 veio para este país, onde, por sua diligência e dedicação aos negócios, adquiriu grande fortuna e grande respeito.” “William Stinson [um dos primeiros colonos de Dunbarton], nascido na Irlanda, veio para Londonderry com o pai. Era muito respeitado e foi um homem útil. James Rogers veio da Irlanda e foi pai do major Robert Rogers. Foi morto a tiros na mata, por ter sido confundido com um urso.” “O reverendo Matthew Clark, segundo ministro de Londonderry, era natural da Irlanda e, no início da vida, fora oficial do exército, distinguindo-se na defesa da cidade de Londonderry quando esta foi sitiada pelo exército do rei Jaime II, em 1688-9 d.C. Mais tarde abandonou a vida militar pela profissão clerical. Possuía uma mente vigorosa, marcada por considerável excentricidade. Morreu em 25 de janeiro de 1735 e, a seu pedido expresso, foi levado ao túmulo por seus antigos companheiros de armas, dos quais havia número considerável entre os primeiros colonos da cidade; vários deles haviam sido isentados de impostos em todos os domínios britânicos pelo rei Guilherme, em razão da bravura demonstrada naquele memorável cerco.” O coronel George Reid e o capitão David M’Clary, também cidadãos de Londonderry, foram oficiais “distintos e valentes”. “O major Andrew M’Clary, natural desta cidade [Epsom], caiu na batalha de Breed’s Hill.” Muitos desses heróis, como o ilustre romano, estavam arando quando chegou a notícia do massacre de Lexington e imediatamente deixaram os arados nos sulcos e partiram para o cenário da ação. A algumas milhas de onde então estávamos, certa vez houve um marco de estrada no qual se liam as palavras: “3 milhas até a casa do juiz MacGaw”.

Mas, falando de modo geral, a terra é hoje, de todo modo, muito estéril de homens, e duvidamos que existam tantos às centenas quanto lemos. Talvez estivéssemos perto demais.

O monte Uncannunuc, em Goffstown, era visível de Amoskeag, cinco ou seis milhas a oeste. É a elevação mais a nordeste no horizonte que vemos de nossa cidade natal, mas, visto dali, é etereamente azul demais para ser o mesmo que gente como nós algum dia escalou. Diz-se que seu nome significa “Os Dois Seios”, pois há duas elevações separadas por certa distância. A mais alta, que se ergue cerca de mil e quatrocentos pés acima do mar, provavelmente oferece uma vista mais extensa do vale do Merrimack e da região adjacente do que qualquer outra colina, embora seja um tanto obstruída pelos bosques. Apenas alguns trechos curtos do rio são visíveis, mas é possível acompanhar seu curso por uma longa distância rio abaixo graças às extensões arenosas de suas margens.

Um pouco ao sul de Uncannunuc, cerca de sessenta anos atrás, segundo conta a história, uma velha que saíra para colher poejo prendeu o pé na alça de um pequeno caldeirão de latão oculto entre a relva morta e os arbustos. Alguns dizem que também foram encontrados sílex, carvão e certos vestígios de um acampamento. Esse caldeirão, com capacidade para cerca de quatro quartos, ainda é conservado e usado para tingir linha. Supõe-se que tenha pertencido a algum antigo caçador francês ou indígena, morto numa de suas expedições de caça ou reconhecimento, e que por isso jamais voltou para buscar seu caldeirão.

Mas o que mais nos interessou foi ouvir falar do poejo; é reconfortante recordar que a natureza selvagem produz alguma coisa pronta para o uso do homem. Os homens sabem que alguma coisa é boa. Um diz que é a azeda-amarela, outro que é o doce-amargo, outro que é a casca do olmo-vermelho, a bardana, a erva-dos-gatos, a calaminta, o helênio, o eupatório ou o poejo. Um homem pode considerar-se feliz quando aquilo que lhe serve de alimento também lhe serve de remédio. Não há espécie de erva de que alguém não diga que é boa. Fico muito contente em sabê-lo. Isso me lembra o primeiro capítulo do Gênesis. Mas como haveriam de saber que é boa? Eis o mistério para mim. Estou sempre agradavelmente desapontado; é incrível que tenham conseguido descobri-lo. Como todas as coisas são boas, os homens acabam não conseguindo distinguir qual é o veneno e qual o antídoto. É certo haver duas prescrições diametralmente opostas. Alimentar um resfriado e deixar um resfriado à míngua são apenas dois métodos. Ambas as práticas estão sempre em pleno vigor. Contudo, é preciso seguir o conselho de uma escola como se a outra não existisse. No que diz respeito à religião e à arte de curar, todas as nações ainda se encontram em estado de barbárie. Nos países mais civilizados, o sacerdote ainda não passa de um Powwow, e o médico, de um Grande Curandeiro. Considere-se a deferência que por toda parte se concede à opinião de um médico. Nada denuncia de modo mais flagrante a credulidade da humanidade do que a medicina. O charlatanismo é universal e universalmente bem-sucedido. Nesse caso, torna-se literalmente verdadeiro que nenhum embuste é grande demais para a credulidade dos homens. Sacerdotes e médicos jamais deveriam olhar-se no rosto. Não têm terreno comum, nem existe quem possa mediar entre eles. Quando um chega, o outro vai embora. Não poderiam encontrar-se sem riso ou sem um silêncio significativo, pois a profissão de um é uma sátira à do outro, e o sucesso de qualquer deles seria o fracasso do outro. É espantoso que o médico chegue a morrer e que o sacerdote chegue a viver. Por que o sacerdote nunca é chamado para consultar-se com o médico? Será porque, na prática, os homens acreditam que a matéria independe do espírito? Mas o que é o charlatanismo? Em geral, é uma tentativa de curar as doenças de um homem dirigindo-se apenas ao seu corpo. Há necessidade de um médico que cuide ao mesmo tempo da alma e do corpo, isto é, do homem. Agora ele cai entre duas almas.

Depois de atravessarmos as eclusas, havíamos nos impulsionado com varas pelo canal dali, de cerca de meia milha de extensão, até a parte navegável do rio. Acima de Amoskeag, o rio se abre num lago que se estende por uma ou duas milhas sem uma curva. Havia ali muitos barcos de canal seguindo para Hooksett, a cerca de oito milhas, e, como subiam vazios com vento favorável, um barqueiro se ofereceu para nos rebocar, caso esperássemos. Mas, quando nos aproximamos, descobrimos que pretendiam levar-nos a bordo, pois de outro modo atrasaríamos demais seus movimentos; como, porém, nosso barco era pesado demais para ser içado, prosseguimos rio acima como antes, enquanto os barqueiros almoçavam, e por fim lançamos âncora sob alguns amieiros na margem oposta, onde pudemos tomar nossa refeição. Embora estivéssemos bem para um dos lados, todo som era levado até nós da margem oposta e do porto do canal, e podíamos ver tudo o que se passava. Pouco depois vieram vários barcos de canal, separados por intervalos de um quarto de milha, avançando para Hooksett com uma brisa leve, e um a um desapareceram atrás de uma ponta mais acima. Com suas velas largas desfraldadas, moviam-se lentamente rio acima na brisa indolente e irregular, como aves antediluvianas de uma só asa e como se fossem impelidos por alguma misteriosa contracorrente. Era um movimento grandioso, tão lento e majestoso, esse “avançar”, como diz a expressão, que traduz o progresso gradual e constante de uma embarcação, como se se desse por mera retidão e disposição, sem subterfúgios. Suas velas, que permaneciam tão imóveis, eram como lascas lançadas na corrente do ar para mostrar em que direção ela fluía. Por fim, aproximou-se o barco com que havíamos falado, mantendo-se no meio do rio, e, quando estava ao alcance da voz, o timoneiro gritou ironicamente que, se agora nos puséssemos ao lado deles, nos tomaria a reboque; mas, sem dar atenção à provocação, continuamos demorando à sombra até terminar o almoço. E quando o último barco desapareceu atrás da ponta, com a vela batendo, pois a brisa agora se reduzira a um zéfiro, içamos nossas próprias velas e, manejando os remos, disparamos rapidamente rio acima em perseguição. Ao deslizarmos bem junto deles, enquanto invocavam em vão o auxílio de Éolo, retribuímos a gentileza propondo que, se nos lançassem uma corda, nós os “tomaríamos a reboque”, ao que aqueles marinheiros do Merrimack não tinham resposta adequada de prontidão. Assim, pouco a pouco alcançamos e ultrapassamos cada barco sucessivamente, até termos de novo o rio só para nós.

Nosso percurso naquela tarde foi entre Manchester e Goffstown.

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Enquanto flutuamos aqui, longe daquele rio tributário em cujas margens vivem nossos Amigos e parentes, nossos pensamentos, como as estrelas, ainda surgem acima do horizonte deles; pois ali circula um sangue mais sutil do que aquele cujas leis Lavoisier descobriu, o sangue não apenas do parentesco, mas da bondade, cujo pulso continua a bater a qualquer distância e para sempre.

A verdadeira bondade é pura afinidade divina,

Não fundada na consanguinidade humana.

É relação de espírito, não de sangue,

Superior à família e à posição.

Depois de anos de vã familiaridade, algum gesto distante ou comportamento inconsciente, de que nos lembramos, fala-nos com mais ênfase do que as palavras mais sábias ou bondosas. Às vezes tomamos consciência de uma bondade há muito passada e percebemos que houve ocasiões em que os pensamentos de nossos Amigos a nosso respeito eram de caráter tão puro e elevado que passaram sobre nós, despercebidos, como os ventos do céu; quando eles nos trataram não como aquilo que éramos, mas como aquilo que aspirávamos ser. Talvez só agora nos tenha alcançado a nobreza de algum comportamento silencioso assim, que não deve ser esquecido nem lembrado, e estremecemos ao pensar em como ele caiu friamente sobre nós, embora, em alguma hora verdadeira mas tardia, nos esforcemos por quitar essas contas.

Em minha experiência, as pessoas, quando se tornam assunto de conversa, mesmo com um Amigo, costumam ser os mais prosaicos e triviais dos fatos. O universo parece falido assim que começamos a discutir o caráter dos indivíduos. Todo o nosso discurso descamba para a maledicência, e nossos limites se estreitam à medida que avançamos. Como é que somos impelidos a tratar tão mal nossos velhos Amigos quando conquistamos novos? A dona de casa diz: nunca tive louça nova na vida sem começar a quebrar a velha. Eu digo: falemos antes de cogumelos e árvores do bosque. Ainda assim, às vezes podemos dar-nos ao luxo de recordá-los em particular.

Há pouco, ai de mim, conheci um jovem gentil,

Cujos traços todos foram moldados pela Virtude,

Como alguém que ela destinara a brinquedo da Beleza,

Mas depois guarnecera para sua própria fortaleza.

De todo lado ele era aberto como o dia,

Para que se visse não lhe faltar força interior,

Pois muros e portões sempre servem apenas

De pretexto à fraqueza e ao pecado.

Não digas que César foi vitorioso,

Ele que, com esforço e luta, assaltou a Casa da Fama;

Em outro sentido esse jovem foi glorioso,

Um reino em si mesmo por onde quer que passasse.

Força alguma saiu para obter-lhe a vitória,

Quando tudo lhe vinha por si mesmo;

Pois aonde ele ia nenhum outro se via,

Mas todos eram parcela de seu nobre senhor.

Ele fazia incursões como a sutil névoa do verão,

Que em silêncio revela novas paisagens aos nossos olhos,

E opera revoluções sem um murmúrio,

Nem o farfalhar de uma folha sob os céus.

Assim fui por isso tomado de surpresa,

E esqueci por completo de confessar minha homenagem;

Agora, porém, sou forçado a saber, por mais duro que seja,

Que poderia tê-lo amado, se o houvesse amado menos.

A cada instante, quanto mais nos aproximávamos um do outro,

Um respeito severo ainda mais nos retinha,

De modo que parecíamos fora do alcance um do outro,

E menos conhecidos do que quando primeiro nos encontramos.

Nós dois éramos um enquanto nos compreendíamos,

Por isso não podíamos fechar o mais simples acordo;

E de que vale agora sermos sábios,

Se a ausência engendra esta duplicidade?

A eternidade talvez não repita a oportunidade,

Mas devo trilhar sozinho meu caminho solitário,

Na triste lembrança de que certa vez nos encontramos,

E saber que aquela bem-aventurança se foi irrevogavelmente.

As esferas doravante cantarão minha elegia,

Pois a elegia não tem outro tema;

Cada frase musical soará em meus ouvidos

Como o dobre da partida daquele outro ser.

Apressai-vos e celebrai minha tragédia;

Com canto adequado, ressoai, bosques e campos;

A tristeza, em tal caso, me é mais cara

Do que todas as alegrias que outra ocasião oferece.

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Será então tarde demais para reparar o dano?

A distância, em verdade, arrancou de meu fraco alcance

A casca vazia e agarrou o joio inútil,

Mas deixou em minhas mãos o trigo e o grão.

Se eu apenas amar aquela virtude que ele é,

Ainda que seu perfume esteja no ar da manhã,

Continuaremos a ser os mais verdadeiros conhecidos,

E nenhum mortal conhecerá simpatia mais rara.

A Amizade é evanescente na experiência de todo homem e é lembrada como relâmpago de calor em verões passados. Bela e fugidia como uma nuvem de verão; há sempre algum vapor no ar, não importa quanto dure a seca; há até aguaceiros de abril. Seguramente, de tempos em tempos, pois seus vestígios nunca desaparecem, ela flutua através de nossa atmosfera. Ela acontece, como a vegetação em tantas matérias, porque existe semelhante lei, mas sempre sem forma permanente, embora tão antiga e familiar quanto o sol e a lua, e tão certa de voltar. O coração é para sempre inexperiente. Reúnem-se silenciosamente como por magia, essas visões que nunca faltam e nunca enganam por completo, semelhantes às nuvens claras e lanosas nos dias mais calmos e límpidos. O Amigo é alguma bela ilha flutuante de palmeiras que escapa ao marinheiro nos mares do Pacífico. Muitos são os perigos a enfrentar, vendavais equinociais e recifes de coral, antes que ele possa navegar ao sopro constante dos alísios. Mas quem não atravessaria motim e tempestade, até mesmo sobre as ondas do Atlântico, para alcançar as fabulosas praias em recuo de algum homem-continente? A imaginação ainda se agarra à mais tênue tradição das

ATLÂNTIDAS.

As correntes sufocadas do amor, que fluem

Mais luminosas que o Flegetonte, mais profundas,

Ilham-nos para sempre, como o mar,

Num mistério atlântico.

Nossas praias fabulosas ninguém alcança,

Marinheiro algum encontrou nossa costa,

Mal se avista agora nossa miragem,

E ondas vizinhas com verdura flutuante,

Contudo, os mapas mais antigos ainda contêm

Algum contorno pontilhado de nosso mar;

Em tempos antigos, dias de pleno verão,

Ao olhar das ilhas ocidentais,

A Tenerife e aos Açores,

Mostraram nossas praias tênues e semelhantes a nuvens.

Mas não afundeis ainda, ilhas desoladas,

Em breve vossa costa sorrirá com o comércio,

E cargas muito mais ricas fornecereis

Que a África ou Malabar.

Sede belas, sede férteis para sempre,

Ó praia apenas anunciada, mas nunca trilhada,

Príncipes e monarcas disputarão

Quem primeiro enviará gente à vossa terra,

E empenharão as joias da coroa

Para chamar de vosso solo distante propriedade sua.

Colombo navegou para oeste dessas ilhas pela bússola do marinheiro, mas nem ele nem seus sucessores as encontraram. Não estamos mais perto delas do que Platão estava. O buscador sincero e esperançoso descobridor deste Novo Mundo sempre ronda os confins de seu tempo e atravessa a multidão mais densa sem interrupção e, por assim dizer, em linha reta.

Mar e terra são apenas seus vizinhos,

E companheiros de seus labores,

Ele que, na orla do oceano e no fim da terra firme,

Longa e verdadeiramente busca seu Amigo.

Muitos homens vivem longe, no interior,

Mas somente ele se senta à beira-mar.

Quer medite sobre homens ou livros,

Sempre, ainda assim, olha para o mar,

Notícias marítimas ele sempre lê,

E atende aos mais leves olhares,

Sente a brisa do mar na face

A cada palavra que os homens de terra pronunciam,

No olhar de cada companheiro

Avista uma embarcação à vela;

No rugido sombrio do oceano,

De algum porto distante ouve

Falar de naufrágios numa costa longínqua

E das empresas de anos passados.

Quem não caminha pela planície como se estivesse entre as colunas de Tadmor no deserto? Não há sobre a terra instituição alguma que a Amizade tenha estabelecido; ela não é ensinada por religião alguma; escritura nenhuma contém suas máximas. Não tem templo, nem sequer uma coluna solitária. Corre o rumor de que a terra é habitada, mas o marinheiro náufrago não viu pegada alguma na praia. O caçador encontrou apenas fragmentos de cerâmica e monumentos de habitantes.

Contudo, nossos destinos ao menos são sociais. Nossos cursos não divergem; mas, à medida que a teia do destino é tecida, ela é apisoada, e somos lançados cada vez mais para o centro. Os homens buscam naturalmente, embora debilmente, essa aliança, e seus atos a prenunciam de modo tênue. Somos inclinados a pôr a ênfase principal na semelhança, e não na diferença, e, nos corpos estranhos, admitimos que há muitos graus de calor abaixo da temperatura do sangue, mas nenhum grau de frio acima dela.

Mêncio diz: “Se alguém perde uma ave doméstica ou um cão, sabe muito bem como procurá-los de novo; se perde os sentimentos do coração, não sabe como procurá-los de novo. [...] Os deveres da filosofia prática consistem apenas em buscar aqueles sentimentos do coração que perdemos; isso é tudo.”

Uma ou duas pessoas vêm à minha casa de tempos em tempos, tendo-lhes sido proposta a tênue possibilidade de convivência. São tão plenas quanto silenciosas e esperam que meu plectro faça vibrar as cordas de sua lira. Se ao menos pudessem chegar à extensão de uma frase, ou ouvir uma, nesse terreno com que sonham! Falam em voz baixa e não se impõem. Ouviram alguma notícia que ninguém, nem mesmo elas próprias, consegue transmitir. É uma riqueza que podem levar consigo e que pode ser despendida de várias maneiras. O que vieram procurar?

Nenhuma palavra está mais frequentemente nos lábios dos homens do que Amizade, e de fato nenhum pensamento é mais familiar às suas aspirações. Todos os homens sonham com ela, e seu drama, que é sempre uma tragédia, representa-se diariamente. É o segredo do universo. Podeis percorrer a cidade, podeis vagar pelo campo, e ninguém jamais falará dela; no entanto, o pensamento está por toda parte ocupado com ela, e a ideia do que é possível a esse respeito afeta nosso comportamento para com todos os homens e mulheres que acabamos de conhecer, e para com muitos dos antigos. Ainda assim, consigo lembrar apenas dois ou três ensaios sobre esse tema em toda a literatura. Não admira que a Mitologia, e as Mil e Uma Noites, e Shakespeare, e os romances de Scott nos entretenham, pois nós mesmos somos poetas, fabulistas, dramaturgos e romancistas. Estamos continuamente desempenhando um papel num drama mais interessante do que qualquer um já escrito. Sonhamos que nossos Amigos são nossos Amigos, e que somos os Amigos de nossos Amigos. Nossos Amigos reais são apenas parentes distantes daqueles a quem estamos ligados por promessa. Em toda a vida, nunca trocamos mais de três palavras com um Amigo naquele nível ao qual nossos pensamentos e sentimentos quase habitualmente se elevam. Alguém sai preparado para dizer: “Doces Amigos!”, e a saudação é: “Malditos sejam teus olhos!” Mas não importa; coração tímido nunca conquistou verdadeiro Amigo. Ó meu Amigo, que um dia possa acontecer que, quando fores meu Amigo, eu possa ser o teu.

De que servem até as disposições mais amistosas, se não há horas concedidas à Amizade, se ela é para sempre adiada em favor de deveres e relações sem importância? Amizade primeiro, Amizade por último. Mas é igualmente impossível esquecer nossos Amigos e fazê-los corresponder ao nosso ideal. Quando se despedem, então, de fato, começamos a fazer-lhes companhia. Quantas vezes nos vemos dando as costas a nossos Amigos reais, para podermos ir ao encontro de seus primos ideais. Quisera eu ser digno de ser Amigo de qualquer homem.

Aquilo que costuma ser honrado com o nome de Amizade não é um instinto muito profundo nem poderoso. Afinal, os homens não amam grandemente seus Amigos. Não vejo com frequência os fazendeiros transformados em videntes e sábios até a fronteira da loucura por sua Amizade uns pelos outros. Não são muitas vezes transfigurados e transportados pelo amor na presença uns dos outros. Não os observo purificados, refinados e elevados pelo amor de um homem. Se alguém reduz um pouco o preço de sua lenha, ou dá seu voto a um vizinho na assembleia municipal, ou um barril de maçãs, ou lhe empresta com frequência sua carroça, isso é considerado um raro exemplo de Amizade. Tampouco as esposas dos fazendeiros levam vidas consagradas à Amizade. Não vejo o par de Amigos fazendeiros, de qualquer sexo, preparado para se erguer contra o mundo. Há apenas dois ou três pares na história. Dizer que um homem é teu Amigo comumente não significa mais do que isto: que ele não é teu inimigo. A maioria contempla apenas o que seriam as vantagens acidentais e triviais da Amizade, como a de que o Amigo possa auxiliar em tempo de necessidade com seus bens, sua influência ou seu conselho; mas aquele que prevê tais vantagens nessa relação demonstra ser cego para sua verdadeira vantagem, ou, na verdade, inteiramente inexperiente na própria relação. Tais serviços são particulares e servis, comparados ao serviço perpétuo e abrangente que ela é. Mesmo a máxima boa vontade, harmonia e bondade prática não bastam para a Amizade, pois os Amigos não vivem apenas em harmonia, como dizem alguns, mas em melodia. Não desejamos Amigos que alimentem e vistam nossos corpos, pois vizinhos são bondosos o bastante para isso, mas que prestem igual serviço a nossos espíritos. Para isso, poucos são ricos o bastante, por melhores que sejam suas disposições. Na maior parte do tempo, confundimos estupidamente um homem com outro. Os obtusos distinguem apenas raças ou nações, ou, no máximo, classes; o sábio distingue indivíduos. Para o Amigo de um homem, seu caráter peculiar aparece em cada traço e em cada ação, e assim é extraído e aperfeiçoado por ele.

Pensai na importância da Amizade na educação dos homens.

“Quem amor e discernimento tem,

Vê mais do que qualquer outro vê.”

Ela tornará um homem honesto; fará dele um herói; fará dele um santo. É o estado do justo tratando com o justo, do magnânimo com o magnânimo, do sincero com o sincero, de homem para homem.

E outro poeta bem disse:

“Por que o amor entre as virtudes não é contado?

Porque todas elas nele estão condensadas.”

Todos os abusos que são objeto de reforma para o filantropo, o estadista e a dona de casa são inconscientemente corrigidos no convívio dos Amigos. Um Amigo é aquele que incessantemente nos presta o cumprimento de esperar de nós todas as virtudes, e que sabe apreciá-las em nós. São necessários dois para dizer a verdade: um para falar e outro para ouvir. Como pode alguém tratar mera madeira e pedra com magnanimidade? Se lidássemos apenas com os falsos e desonestos, acabaríamos por esquecer como dizer a verdade. Somente os amantes conhecem o valor e a magnanimidade da verdade, enquanto os comerciantes prezam uma honestidade barata, e os vizinhos e conhecidos, uma civilidade barata. Em nosso convívio diário com os homens, nossas faculdades mais nobres ficam adormecidas e entregues à ferrugem. Ninguém nos prestará o cumprimento de esperar nobreza de nós. Embora tenhamos ouro para dar, exigem apenas cobre. Pedimos a nosso vizinho que se deixe tratar com verdade, sinceridade e nobreza; mas ele responde não com sua surdez. Nem sequer ouve essa súplica. Na prática, diz: ficarei satisfeito se me tratares como alguém “não melhor do que deveria ser”, como enganador, mesquinho, desonesto e egoísta. Na maior parte do tempo, contentamo-nos em tratar e ser tratados assim, e não pensamos que, para a massa dos homens, seja possível qualquer relação mais verdadeira e nobre. Um homem pode ter bons vizinhos, como se diz, e conhecidos, e até companheiros, esposa, pais, irmãos, irmãs, filhos, que se encontram consigo e uns com os outros apenas nesse terreno. O Estado não exige justiça de seus membros, mas julga ter grande êxito com o menor grau dela, pouco mais do que praticam os patifes; assim também fazem a vizinhança e a família. Até aquilo que comumente se chama Amizade é apenas um pouco mais de honra entre patifes.

Mas às vezes se diz que amamos outro, isto é, que estamos numa relação verdadeira com ele, de modo que lhe damos o melhor e dele recebemos o melhor. Entre aqueles em quem há verdade de coração, há amor; e, na proporção de nossa veracidade e confiança mútua, nossas vidas são divinas e miraculosas, e correspondem a nosso ideal. Há passagens de afeto em nosso convívio com homens e mulheres mortais que nenhuma profecia nos ensinara a esperar, que transcendem nossa vida terrena e antecipam para nós o Céu. Que Amor é esse que pode surgir bem no meio de um prosaico dia em Goffstown, igual a qualquer dos deuses? Que descobre um mundo novo, belo, fresco e eterno, ocupando o lugar do antigo, quando, aos olhos comuns, uma camada de poeira se assentou sobre o universo? Um mundo ao qual, de outro modo, não se pode chegar, e que não existe. Que outras palavras, quase poderíamos perguntar, são memoráveis e dignas de ser repetidas, senão aquelas que o amor inspirou? É maravilhoso que tenham sido pronunciadas algum dia. São poucas e raras, de fato, mas, como uma frase musical, são incessantemente repetidas e moduladas pela memória. Todas as outras palavras se desfazem com o estuque que recobre o coração. Não ousaríamos repeti-las agora em voz alta. Não somos capazes de ouvi-las em todos os momentos.

Os livros para jovens dizem muita coisa sobre a escolha de Amigos; isso ocorre porque, na verdade, nada têm a dizer sobre Amigos. Querem dizer apenas associados e confidentes. “Sabe que a oposição entre inimigo e Amigo procede de Deus.” A Amizade acontece entre aqueles que têm afinidade um com o outro, e é um resultado perfeitamente natural e inevitável. Declarações ou iniciativas de nada valerão. Até mesmo a fala, a princípio, necessariamente nada tem que ver com ela; vem depois do silêncio, assim como os brotos no enxerto só se abrem em folhas muito depois de o enxerto ter pegado. É um drama em que as partes não têm papel algum a desempenhar. Somos todos muçulmanos e fatalistas a esse respeito. Amantes impacientes e inseguros pensam que devem dizer ou fazer alguma coisa bondosa sempre que se encontram; nunca devem ser frios. Mas os que são Amigos não fazem o que pensam que devem fazer, e sim o que devem. Até sua Amizade é, em certa medida, apenas um fenômeno sublime para eles.

O Amigo verdadeiro e não desesperançado dirigirá ao seu Amigo palavras semelhantes a estas:

“Jamais pedi tua permissão para que me deixasses amar-te; tenho esse direito. Amo-te não como algo privado e pessoal, que é teu, mas como algo universal e digno de amor, que encontrei. Ó, como penso em ti! És puramente bom, és infinitamente bom. Posso confiar em ti para sempre. Não pensava que a humanidade fosse tão rica. Dá-me uma oportunidade de viver.”

“És o fato numa ficção; és a verdade mais estranha e admirável do que a ficção. Consente apenas em ser o que és. Só eu jamais me porei em teu caminho.”

“Isto é o que eu gostaria: ser tão íntimo de ti quanto nossos espíritos são íntimos; respeitar-te como respeito meu ideal. Jamais profanarmos um ao outro por palavra ou ação, nem sequer por um pensamento. Entre nós, se necessário, que não haja conhecimento.”

“Eu te descobri; como podes estar oculto de mim?”

O Amigo não pede retribuição alguma, salvo que seu Amigo aceite religiosamente, vista e não desonre a apoteose que ele faz dele. Eles acalentam as esperanças um do outro. São bondosos para com os sonhos um do outro.

Embora o poeta diga: “É prerrogativa da Amizade atribuir excelência”, jamais podemos louvar nosso Amigo, nem considerá-lo digno de louvor, nem deixá-lo pensar que pode nos agradar por qualquer comportamento, ou alguma vez tratar-nos bem o bastante. Aquela bondade que goza de tão boa reputação em outros lugares é, menos do que tudo, compatível com essa relação, e nenhuma afronta semelhante pode ser feita a um Amigo como uma boa vontade consciente, uma cordialidade que não seja necessidade da natureza do Amigo.

Os sexos são naturalmente atraídos um pelo outro com a maior força, por diferenças constitucionais constantes, e são, de modo mais comum e seguro, complementos um do outro. Como é natural e fácil para o homem assegurar a atenção da mulher para aquilo que o interessa. Homens e mulheres de cultura equivalente, postos juntos, certamente terão certo valor uns para os outros, mais do que homens para homens. Já existe um desinteresse e uma liberalidade naturais em tal convívio, e penso que qualquer homem levará com mais confiança seus livros prediletos para lê-los a algum círculo de mulheres inteligentes do que a um de seu próprio sexo. A visita de homem a homem costuma ser uma interrupção, mas os sexos naturalmente esperam um pelo outro. Ainda assim, a Amizade não faz acepção de sexo; e talvez seja mais rara entre os sexos do que entre duas pessoas do mesmo sexo.

A Amizade é, de todo modo, uma relação de perfeita igualdade. Não pode prescindir facilmente de qualquer sinal externo de obrigação e vantagem iguais. O nobre jamais pode ter um Amigo entre seus dependentes, nem o rei entre seus súditos. Não que as partes sejam iguais em todos os aspectos, mas são iguais em tudo o que diz respeito à Amizade ou a afeta. O amor de uma é exatamente equilibrado e representado pelo da outra. As pessoas são apenas os vasos que contêm o néctar, e o paradoxo hidrostático é o símbolo da lei do amor. Ele encontra seu nível e sobe até a nascente em todos os peitos, e sua coluna mais delgada equilibra o oceano.

“E amar pode o pastor tão bem

Quanto o poderoso nobre também.”

Um sexo não é, a esse respeito, mais terno do que o outro. O amor de um herói é tão delicado quanto o de uma donzela.

Confúcio disse: “Nunca contraias Amizade com um homem que não seja melhor do que tu.” É mérito e preservação da Amizade que ela aconteça num nível mais alto do que os caracteres reais das partes pareceriam justificar. Os raios de luz chegam até nós numa curva tal que todo homem que encontramos parece mais alto do que de fato é. Nisso se funda a civilidade. Meu Amigo é aquele que posso associar a meu pensamento mais seleto. Sempre lhe atribuo, em minha ausência, uma ocupação mais nobre do que qualquer uma em que o encontre empenhado; e imagino que as horas que dedica a mim foram furtadas de uma sociedade mais elevada. A mais dolorosa ofensa que já recebi de um Amigo foi quando, em minha presença, ele se comportou, sem vergonha, com a liberdade que apenas uma convivência longa e vulgar concede aos defeitos de alguém, e ainda se dirigiu a mim em tons amistosos. Acautela-te para que teu Amigo não aprenda afinal a tolerar uma fraqueza tua, e assim se erga um obstáculo ao progresso de teu amor. Há momentos em que já tivemos o bastante até de nossos Amigos, quando inevitavelmente começamos a profanar um ao outro e devemos retirar-nos religiosamente para a solidão e o silêncio, a fim de melhor nos prepararmos para uma intimidade mais elevada. O silêncio é a noite ambrosíaca no convívio dos Amigos, na qual sua sinceridade se renova e cria raízes mais profundas.

A amizade jamais se estabelece como uma relação subentendida. Exiges que eu seja menos teu Amigo para que possas sabê-lo? E, contudo, que direito tenho eu de pensar que outro nutre por mim um sentimento tão raro? É um milagre que requer provas constantes. É um exercício da mais pura imaginação e da fé mais rara. Diz, por uma conduta silenciosa, mas eloquente: “Relacionar-me-ei contigo como puderes imaginar; e assim poderás crer. Gastarei contigo a verdade, toda a minha riqueza”, e o Amigo responde silenciosamente por meio de sua natureza e de sua vida, e trata seu Amigo com a mesma cortesia divina. Ele nos conhece literalmente nos bons e maus momentos. Nunca pede um sinal de amor, mas sabe distingui-lo pelos traços que naturalmente assume. Com ele, jamais precisamos fazer cerimônia quanto às suas visitas. Não esperes que eu te convide, mas observa que me alegro em ver-te quando vens. Seria pagar caro demais por tua visita ter de pedi-la. Onde vive meu Amigo estão todas as riquezas e todos os atrativos, e nenhum pequeno obstáculo pode manter-me afastado dele. Que eu nunca tenha de dizer-te aquilo que não tenho de dizer. Que nossa convivência esteja inteiramente acima de nós mesmos e nos eleve até ela.

A linguagem da Amizade não são palavras, mas significados. É uma inteligência acima da linguagem. Imaginamos conversas intermináveis com nosso Amigo, nas quais a língua se soltará e os pensamentos serão ditos sem hesitação nem fim; mas a experiência costuma ser muito diferente. Conhecidos podem ir e vir, e ter uma palavra pronta para cada ocasião; mas que palavra insignificante pronunciará aquele cujo próprio alento é pensamento e significado? Suponhamos que vás despedir-te de teu Amigo, que parte em viagem; que outro sinal exterior conheces além de apertar-lhe a mão? Tens então algum palavrório preparado para ele? alguma caixa de unguento para confiar-lhe ao bolso? alguma mensagem particular para enviar por seu intermédio? alguma declaração que esqueceste de fazer?, como se pudesses esquecer alguma coisa. Não, já é muito que lhe tomes a mão e digas Adeus; isso poderias facilmente omitir; até aí prevaleceu o costume. É até penoso, se ele deve partir, que se demore tanto. Se tem de ir, que vá depressa. Tens algumas últimas palavras? Ah, trata-se apenas da palavra das palavras, que há tanto procuras e não encontraste; tu ainda não tens sequer uma primeira palavra. Há poucos a quem eu ousaria chamar com seriedade por seus nomes mais próprios. Um nome pronunciado é o reconhecimento do indivíduo a quem pertence. Aquele que sabe pronunciar corretamente meu nome pode chamar-me e tem direito ao meu amor e ao meu serviço. No entanto, a reserva é a liberdade e o abandono dos amantes. É a reserva daquilo que há de hostil ou indiferente em suas naturezas, para dar lugar ao que é afim e harmonioso.

A violência do amor é tão temível quanto a do ódio. Quando duradouro, ele é sereno e uniforme. Até suas célebres dores só começam com o refluxo do amor, pois poucos são de fato amantes, embora todos desejem sê-lo. Uma prova da aptidão de um homem para a Amizade é sua capacidade de dispensar o que é vulgar e apaixonado. Uma verdadeira Amizade é tão sábia quanto terna. As partes que nela se unem entregam-se implicitamente à orientação de seu amor e não conhecem outra lei nem outra bondade. Ela não é extravagante nem insana; aquilo que diz é algo desde então estabelecido e digno de ser fixado para sempre. É uma verdade mais verdadeira, uma notícia melhor e mais bela, e tempo algum jamais a envergonhará ou demonstrará sua falsidade. Esta é uma planta que viceja melhor numa zona temperada, onde verão e inverno se alternam. O Amigo é um necessarius e encontra seu Amigo em terreno simples; não em tapetes e almofadas, mas no chão e sobre rochas se sentarão, obedecendo às leis naturais e primitivas. Encontrar-se-ão sem alarde e se separarão sem lamento ruidoso. Sua relação implica qualidades que o guerreiro preza, pois é preciso coragem para abrir o coração dos homens tanto quanto os portões dos castelos. Não é apenas uma simpatia ociosa e uma consolação mútua, mas uma simpatia heroica de aspiração e esforço.

“Quando a virilidade assim se igualar,

De modo que o medo não encontre lugar,

Então obras extenuantes fazem guerreiros

Abraçarem-se uns aos outros.”

A Amizade que Wawatam demonstrou por Henry, o mercador de peles, tal como descrita nas “Aventuras” deste último, tão quase nua e sem folhas, embora não sem flores nem frutos, é recordada com satisfação e segurança. O guerreiro austero e imperturbável, depois de jejum, solidão e mortificação do corpo, chega à cabana do homem branco e afirma que ele é o irmão branco que viu em sonho, adotando-o dali em diante. Enterra o machado no que diz respeito ao amigo, e juntos caçam, festejam e fazem açúcar de bordo. “Os metais se unem pela fusibilidade; as aves e os animais, por motivos de conveniência; os tolos, por medo e estupidez; e os homens justos, à primeira vista.” Se Wawatam quer provar o “leite do homem branco” com sua tribo, ou tomar sua tigela de caldo humano feito com os compatriotas do mercador, primeiro encontra um lugar seguro para seu Amigo, a quem resgatou de destino semelhante. Por fim, depois de um longo inverno de convivência tranquila e feliz no seio da família do chefe, em meio à natureza selvagem, caçando e pescando, eles retornam na primavera a Michilimackinac para negociar suas peles; e torna-se necessário que Wawatam se despeça de seu Amigo na Isle aux Outardes, quando este, para evitar seus inimigos, seguiu para Sault de Sainte Marie, supondo que ficariam separados apenas por pouco tempo. “Trocamos então nossas despedidas”, diz Henry, “com uma emoção inteiramente recíproca. Não deixei a cabana sem o mais grato sentimento pelos muitos atos de bondade que ali recebera, nem sem o mais sincero respeito pelas virtudes que testemunhara entre seus membros. Toda a família me acompanhou até a praia; e mal a canoa se afastara, Wawatam começou uma invocação ao Kichi Manito, suplicando-lhe que cuidasse de mim, seu irmão, até que nos encontrássemos novamente. Já havíamos avançado a uma distância grande demais para que sua voz pudesse ser ouvida antes de Wawatam cessar de oferecer suas preces.” Nunca mais ouvimos falar dele.

A Amizade não é tão bondosa quanto se imagina; não há muito sangue humano nela, mas ela é compatível com certo desdém pelos homens e por suas construções, pelos deveres e humanidades cristãos, ao mesmo tempo que purifica o ar como a eletricidade. Pode haver a mais severa tragédia na relação de duas pessoas mais inocentes que o comum e fiéis a seus instintos mais elevados. Podemos chamá-la de uma convivência essencialmente pagã, livre e irresponsável por natureza, que pratica gratuitamente todas as virtudes. Não é apenas a mais elevada simpatia, mas uma sociedade pura e sublime, uma convivência fragmentária e divina de origem antiga, ainda mantida a intervalos, que, ao lembrar-se de si mesma, não hesita em desconsiderar os direitos e deveres mais humildes da humanidade. Ela requer qualidades imaculadas e divinas plenamente desenvolvidas e só chega a existir por condescendência e antecipação do mais remoto futuro. Não amamos coisa alguma que seja apenas boa e não bela, caso tal coisa seja possível. A Natureza põe alguma espécie de flor antes de cada fruto, e não simplesmente um cálice atrás dele. Quando o Amigo deixa seu paganismo e sua superstição e quebra seus ídolos, convertido pelos preceitos de um testamento mais novo; quando esquece sua mitologia e trata seu Amigo como cristão, ou conforme seus recursos permitem, então a Amizade deixa de ser Amizade e se torna caridade; aquele princípio que estabeleceu o asilo de pobres começa agora a exercer a caridade em casa, estabelecendo ali um asilo e relações de indigência.

Quanto ao número que esta sociedade admite, de todo modo deve começar com um, o mais nobre e maior que conhecemos; e se o mundo algum dia a levará mais longe, se, como afirma Chaucer,

“Há mais estrelas no céu do que um par”,

ainda resta provar;

“E certamente bem começou

Entre mil aquele que encontrou um.”

Não nos entregaremos de coração a ninguém enquanto tivermos consciência de que outro é mais digno de nosso amor. Entretanto, a Amizade não representa números; o Amigo não conta seus Amigos nos dedos; eles não são enumeráveis. Quanto mais pessoas estiverem incluídas por esse vínculo, se de fato o estiverem, mais rara e divina será a qualidade do amor que as une. Estou pronto a acreditar que possa existir uma relação tão particular e íntima que abarque três pessoas quanto a que existe entre duas. Na verdade, não podemos ter amigos demais; a virtude que apreciamos, em certa medida, fazemos nossa, de modo que assim nos tornamos por fim mais aptos para todas as relações da vida. Uma Amizade vil tende a estreitar e excluir, mas uma nobre não é exclusiva; sua própria abundância e seu amor disseminado constituem a humanidade que adoça a sociedade e se compadece das nações estrangeiras; pois, embora seus fundamentos sejam particulares, ela é, na prática, uma questão pública e uma vantagem pública, e o Amigo, mais do que o pai de família, presta bons serviços ao Estado.

O único perigo da Amizade é que ela termine. É uma planta delicada, embora nativa. A menor indignidade, mesmo desconhecida pela própria pessoa, a corrompe. Que o Amigo saiba que suas próprias faltas atraem aquelas que observa em seu Amigo. Não há regra mais invariável do que esta: somos pagos por nossas suspeitas ao encontrarmos aquilo de que suspeitávamos. Por nossa estreiteza e nossos preconceitos dizemos: Quero de ti tanto e de tal espécie, meu Amigo, e nada mais. Talvez não haja ninguém caridoso, desinteressado, sábio, nobre e heroico o bastante para uma Amizade verdadeira e duradoura.

Às vezes ouço meus Amigos queixarem-se, com requinte, de que não aprecio seu requinte. Não lhes direi se aprecio ou não. Como se esperassem um voto de agradecimento por cada coisa refinada que disseram ou fizeram. Quem sabe se ela não foi refinadamente apreciada? Pode ser que teu silêncio tenha sido a coisa mais refinada das duas. Há coisas das quais um homem nunca fala e que ficam muito mais belas quando silenciadas. Às comunicações mais elevadas prestamos apenas um ouvido silencioso. Nossas relações mais belas não são apenas mantidas em silêncio, mas enterradas sob uma profundidade positiva de silêncio que jamais será revelada. Pode ser que nem sequer nos conheçamos ainda. No convívio humano, a tragédia começa não quando há mal-entendido acerca das palavras, mas quando o silêncio não é compreendido. Então jamais poderá haver explicação. De que vale que outro te ame, se não te compreende? Tal amor é uma maldição. Que espécie de companheiros são esses que sempre presumem que seu silêncio é mais expressivo que o teu? Como é tolo, desatento e injusto proceder como se fosses a única parte ofendida! Não tem teu Amigo sempre igual motivo de queixa? Sem dúvida meus Amigos às vezes falam comigo em vão, mas não sabem que coisas ouço das quais eles não percebem ter falado. Sei que muitas vezes os decepcionei por não lhes dar palavras quando as esperavam, ou palavras como as esperavam. Sempre que vejo meu Amigo, falo com ele; mas o que espera, o homem com ouvidos, não é ele. Queixar-se-ão também de que és duro. Ó vós que quereis o coco com o avesso para fora, da próxima vez que eu chorar, eu vos avisarei. Pedem palavras e atos, quando uma relação verdadeira é palavra e ato. Se não sabem dessas coisas, como podem ser informados? Muitas vezes nos abstemos de confessar nossos sentimentos, não por orgulho, mas por medo de que não pudéssemos continuar a amar aquele que exigisse de nós tal prova de afeição.

Conheço uma mulher que possui uma mente inquieta e inteligente, interessada em sua própria formação e empenhada em desfrutar as mais elevadas vantagens possíveis, e encontro-me com ela com prazer, como uma pessoa natural que me provoca consideravelmente e que, suponho, é por sua vez estimulada por mim. No entanto, é evidente que nosso conhecimento não atinge aquele grau de confiança e sentimento que as mulheres, que todos, na verdade, cobiçam. Alegra-me ajudá-la, assim como sou ajudado por ela; agrada-me bastante conhecê-la com uma espécie de privilégio de estranho, e hesito em visitá-la com frequência, como fazem seus outros Amigos. Minha natureza se detém aqui, e não sei bem por quê. Talvez ela não me faça a exigência mais elevada, uma exigência religiosa. Alguns, com cujos preconceitos ou inclinação peculiar não simpatizo, ainda assim me inspiram confiança, e espero que também confiem em mim, ao menos como num pagão religioso, um bom grego. Eu também tenho princípios tão bem fundamentados quanto os deles. Se essa pessoa pudesse conceber que, sem obstinação, convivo com ela até onde nossos destinos coincidem, até onde nossos Bons Gênios permitem, e que ainda assim valorizo tal convivência, isso me seria uma grata certeza. Sinto como se lhe parecesse descuidado, indiferente e sem princípios, não esperando mais, e contudo não me contentando com menos. Se ela pudesse saber que faço uma exigência infinita a mim mesmo, assim como a todos os outros, veria que essa convivência verdadeira, embora incompleta, é infinitamente melhor que outra mais irrestrita, mas fundada em falsidade, sem o princípio de crescimento dentro de si. Como companheiro, exijo alguém que me faça uma exigência igual à de meu próprio gênio. Tal pessoa será sempre tolerante da maneira correta. É suicídio, e corrompe os bons costumes, acolher algo inferior a isso. Valorizo e confio naqueles que amam e louvam minha aspiração, mais do que meu desempenho. Se não parasses para olhar para mim, mas olhasses para onde olho, e mais além, então minha educação não poderia prescindir de tua companhia.

Meu amor deve ser tão livre

Quanto a asa da águia,

Pairando sobre terra e mar

E sobre tudo.

Não devo turvar meus olhos

Em teu salão,

Não devo abandonar meu céu

E a lua noturna.

Não sejas a rede do passarinheiro

Que detém meu voo,

E que ardilosamente se arma

Para seduzir a visão.

Mas sê o vento favorável

Que me leva adiante,

E ainda enche a minha vela

Quando já vais distante.

Não posso abandonar meu céu

Por teu capricho;

O amor verdadeiro subiria tão alto

Quanto o próprio paraíso.

A águia não suportaria

Ver assim conquistado seu par,

Que treinou os olhos para mirar

Sob o sol.

Poucas coisas são mais difíceis do que ajudar um Amigo em questões que não requerem o auxílio da Amizade, mas apenas um serviço barato e trivial, quando a vossa Amizade carece da base de um conhecimento prático completo. Mantenho, em fundamentos sociais e espirituais, a relação mais amistosa com alguém que não percebe qual é a minha habilidade prática, mas que, ao procurar minha ajuda em tais assuntos, ignora por completo aquele com quem trata; não se vale da minha perícia, que nessas matérias é muito maior do que a sua, mas apenas das minhas mãos. Conheço outro que, ao contrário, é notável pelo discernimento a esse respeito; sabe servir-se dos talentos alheios quando não possui os mesmos; sabe quando não vigiar nem supervisionar, e detém-se diante do homem que escolheu. É raro prazer servi-lo, como sabem todos os trabalhadores. O outro tipo de tratamento não deixa de me causar dor. É como se, depois do convívio mais amistoso e enobrecedor, vosso Amigo vos usasse como martelo e cravasse um prego com a vossa cabeça, tudo de boa-fé, embora sejais um carpinteiro razoável, além de seu bom Amigo, e empregásseis de bom grado um martelo a seu serviço. Essa falta de percepção é uma deficiência que todas as virtudes do coração não podem suprir:

No Bom, como confiar?

Só os Sábios sabem ser justos.

Do Bom fazemos uso,

O Sábio não podemos escolher.

Acima destes não há ninguém;

O Bom eles conhecem e amam,

Mas não são reconhecidos

Por quem tem entendimento menor.

Não nos encantam com os olhos,

Mas nos trespassam com seus conselhos;

Não sentem simpatia parcial

Por desventura ou fortuna particulares,

Mas com o universo se alegram e suspiram,

E o conhecimento é a sua simpatia.

Confúcio disse: “Contrair laços de Amizade com alguém é contrair Amizade com sua virtude. Não deve haver outro motivo na Amizade.” Mas os homens desejam que também contraiamos Amizade com seus vícios. Tenho um Amigo que deseja que eu considere certo aquilo que sei estar errado. Mas, se a Amizade há de roubar-me os olhos, se há de escurecer o dia, não quero saber dela. Seus efeitos deveriam ser expansivos e inconcebivelmente libertadores. A verdadeira Amizade pode permitir-se o verdadeiro conhecimento. Ela não depende de escuridão e ignorância. A falta de discernimento não pode ser um de seus ingredientes. Se consigo ver as virtudes de meu Amigo com maior nitidez do que as de outro, seus defeitos também se tornam mais evidentes pelo contraste. Não temos tão bom direito de odiar ninguém quanto nosso Amigo. Os defeitos não deixam de ser defeitos porque são invariavelmente compensados por virtudes correspondentes, e para um defeito não há desculpa, embora por muitos modos ele possa parecer maior do que é. Nunca conheci alguém capaz de suportar a crítica que não pudesse ser lisonjeado, que não subornasse seu juiz ou que se contentasse com que a verdade fosse sempre mais amada do que ele próprio.

Se dois viajantes quiserem seguir juntos o caminho em harmonia, um deve ter uma visão das coisas tão verdadeira e justa quanto o outro, caso contrário sua senda não será coberta de rosas. Ainda assim, podeis viajar de modo proveitoso e agradável até mesmo com um cego, desde que ele pratique a cortesia comum e, quando conversardes sobre a paisagem, se lembre de que é cego, mas vós podeis ver; e não vos esquecereis de que seu ouvido provavelmente se aguçou pela falta da visão. De outro modo, não permanecereis por muito tempo em companhia. Um cego e um homem cujos olhos não apresentavam defeito caminhavam juntos, quando chegaram à beira de um precipício. “Cuidado, meu amigo”, disse o segundo, “aqui há um precipício íngreme; não prossigas por este lado.” “Sei melhor do que tu”, disse o outro, e deu um passo para fora.

É impossível dizer tudo o que pensamos, mesmo ao nosso Amigo mais verdadeiro. Podemos despedir-nos dele para sempre antes de nos queixarmos, pois nossa queixa tem fundamento demasiado sólido para ser pronunciada. Não existe entendimento tão bom entre duas pessoas que a revelação, por uma delas, de uma falta grave na outra não produza um mal-entendido proporcional à sua gravidade. As diferenças constitucionais que sempre existem, e que são obstáculos a uma Amizade perfeita, permanecem para sempre como tema proibido aos lábios dos Amigos. Eles aconselham por todo o seu comportamento. Nada pode reconciliá-los senão o amor. Chegam fatalmente tarde quando se põem a explicar e a tratar um com o outro como inimigos. Quem aceitará um pedido de desculpas de um Amigo? Devem desculpar-se como o orvalho e a geada, que voltam a desaparecer com o sol e que todos os homens, no íntimo, sabem ser benéficos. A própria necessidade de explicação, que explicação poderá expiá-la?

O amor verdadeiro não briga por motivos ligeiros, por enganos que conhecidos mútuos podem desfazer, mas, ai de nós, por mais leve que pareça a causa, somente por razões adequadas, fatais e eternas, que jamais podem ser afastadas. Sua querela, caso exista, retorna sempre, apesar dos raios de afeto que invariavelmente vêm dourar suas lágrimas; assim como o arco-íris, por mais belo e infalível que seja como sinal, não promete bom tempo para sempre, mas apenas por uma estação. Conheci bastante bem duas ou três pessoas, e ainda assim nunca soube de conselho que tivesse utilidade senão em assuntos triviais e passageiros. Uma pessoa pode saber o que outra não sabe, mas a maior bondade não consegue transmitir aquilo que é necessário para tornar útil o conselho. Devemos aceitar-nos ou recusar-nos uns aos outros tal como somos. Eu poderia domar uma hiena com mais facilidade do que meu Amigo. Ele é um material sobre o qual nenhuma ferramenta minha funciona. Um selvagem nu derrubará um carvalho com um tição e fará, por fricção, um machado de pedra até gastá-lo, mas eu não consigo arrancar a menor lasca do caráter de meu Amigo, seja para embelezá-lo, seja para deformá-lo.

O amante aprende por fim que não existe pessoa inteiramente transparente e digna de confiança, mas que todos trazem dentro de si um demônio capaz, com o tempo, de qualquer crime. Ainda assim, como disse um filósofo oriental: “Embora a Amizade entre homens bons seja interrompida, seus princípios permanecem inalterados. O caule do lótus pode partir-se, e as fibras continuam unidas.”

Ignorância e inépcia com amor são melhores do que sabedoria e perícia sem ele. Pode haver cortesia, equilíbrio de temperamento, engenho, talento e conversa brilhante; pode haver até boa vontade, e no entanto as faculdades mais humanas e divinas definham por falta de exercício. Nossa vida sem amor é como coque e cinzas. Os homens podem ser puros como alabastro e mármore de Paros, elegantes como uma villa toscana, sublimes como o Niágara, e ainda assim, se nos seus banquetes não houver leite misturado ao vinho, melhor é a hospitalidade dos Godos e Vândalos.

Meu Amigo não pertence a outra raça ou família de homens, mas é carne da minha carne, osso do meu osso. É meu verdadeiro irmão. Vejo sua natureza tateando ao longe, tão semelhante à minha. Não vivemos muito separados. Não nos associaram os fados de tantas maneiras? Diz o Vishnu Purana: “Sete passos juntos bastam para a amizade dos virtuosos, mas tu e eu vivemos juntos.” Não tem significado algum que por tanto tempo tenhamos partilhado o mesmo pão, bebido da mesma fonte, respirado o mesmo ar no verão e no inverno, sentido o mesmo calor e o mesmo frio; que os mesmos frutos se tenham comprazido em refrescar a ambos, e que jamais tenhamos tido, um do outro, um pensamento de fibra diversa?

A Natureza tem sua aurora a cada dia,

Mas as minhas tardam em vir;

Contente, exclamo, para dizer a verdade,

As minhas são mais claras, creio eu.

Pois, quando meu sol se digna a nascer,

Embora para ela seja meio-dia,

Seu campo mais belo jaz na sombra,

Nem pode suportar minha luz.

Às vezes me aqueço em seu dia,

Conversando com meu companheiro,

Mas, se trocamos um só raio,

Seus calores logo se abrandam.

Por seu discurso subo e avisto,

Como do alto de um monte oriental,

Uma manhã mais luminosa nascer para mim

Do que cabe à arte da Natureza.

Como se dois dias de verão fossem um só,

Dois domingos viessem juntos,

Nossos raios unidos formam um sol,

Sob o mais belo tempo de verão.

Tão certo quanto o pôr do sol de meu último novembro há de trasladar-me ao mundo etéreo e recordar-me a manhã rubra da juventude; tão certo quanto a última frase musical que cair sobre meu ouvido em declínio fará esquecer a velhice; ou, em suma, tão certo quanto as múltiplas influências da natureza perduram durante o termo de nossa vida natural, tão certo meu Amigo será para sempre meu Amigo, refletirá para mim um raio de Deus, e o tempo há de nutrir, adornar e consagrar nossa Amizade, não menos do que faz com as ruínas dos templos. Assim como amo a natureza, como amo os pássaros que cantam, o restolho cintilante, os rios que correm, a manhã e a tarde, o verão e o inverno, amo-te, meu Amigo.

Mas tudo o que se pode dizer da Amizade é como a botânica diante das flores. Como pode o entendimento dar conta de sua amizade?

Até a morte dos Amigos há de inspirar-nos tanto quanto suas vidas. Eles deixarão consolo aos enlutados, como os ricos deixam dinheiro para custear seus funerais, e suas lembranças ficarão incrustadas de pensamentos sublimes e agradáveis, assim como os monumentos de outros homens ficam cobertos de musgo; pois nossos Amigos não têm lugar no cemitério.

Isto para nossos Amigos cisalpinos e cisatlânticos.

Também esta outra palavra de súplica e conselho à grande e respeitável nação dos Conhecidos, para além das montanhas: Saudações.

Meus sereníssimos e irresponsáveis vizinhos, cuidemos de obter toda a vantagem que pudermos uns dos outros; seremos úteis, ao menos, se não admiráveis, uns aos outros. Sei que as montanhas que nos separam são altas e cobertas de neve perpétua, mas não desespereis. Aproveitai o sereno tempo de inverno para escalá-las. Se necessário, amolecei as rochas com vinagre. Pois aqui estão as verdes planícies da Itália, prontas para vos receber. Nem serei lento, de minha parte, em penetrar em vossa Provença. Golpeai então com ousadia a cabeça, o coração ou qualquer parte vital. Podeis confiar que a madeira está bem curada e é resistente, e suportará trato rude; e, se vier a rachar, há muito mais de onde ela veio. Não sou uma peça de louça que não pode chocar-se com o vizinho sem risco de quebrar-se na colisão e que, uma vez rachada, precisa soar falsa e estridentemente até o fim de seus dias; sou antes uma daquelas antigas escudelas de madeira, que ora fica à cabeceira da mesa, ora serve de banco para a ordenha, ora de assento para crianças e, por fim, desce à sepultura não sem estar adornada de cicatrizes honrosas, e não morre enquanto não se desgasta por completo. Nada pode chocar um homem corajoso, salvo a obtusidade. Pensai em quantas rejeições todo homem experimentou em seus dias; talvez tenha caído num tanque de cavalos, comido mariscos de água doce ou usado a mesma camisa durante uma semana sem lavá-la. Na verdade, não podeis receber um choque a menos que tenhais afinidade elétrica com aquilo que vos choca. Usai-me, então, pois sou útil à minha maneira, e aqui estou como um entre muitos suplicantes, do cogumelo e do meimendro até a dália e a violeta, implorando que me deem uso, caso por algum meio me julgueis útil; seja para uma bebida medicinal ou um banho, como o bálsamo e a lavanda; seja para perfume, como a verbena e o gerânio; seja para a vista, como o cacto; seja para os pensamentos, como o amor-perfeito. Ao menos esses usos mais humildes, quando não os mais elevados.

Ah, meus caros Estranhos e Inimigos, eu não vos esqueceria. Posso muito bem dar-vos boas-vindas. Permiti que eu me subscreva para sempre e verdadeiramente vosso, vosso muito agradecido servidor. Nada temos a temer de nossos inimigos; Deus mantém um exército permanente para esse serviço; mas não temos aliado contra nossos Amigos, esses Vândalos implacáveis.

Mais uma vez, a todos, sem exceção:

“Amigos, Romanos, Compatriotas e Amantes.”

Que ódio tão puro ainda sustente

Nosso amor, para que possamos ser

A consciência um do outro.

E ter nossa simpatia

Principalmente daí.

Trataremos um ao outro como deuses,

E toda a fé que possuímos

Na virtude e na verdade derramaremos

Um sobre o outro, deixando a suspeita

Aos deuses inferiores.

Duas estrelas solitárias,

Sistemas imensuráveis e distantes

Giram entre nós,

Mas por nossa luz consciente somos

Determinados a um só polo.

Para que confundir a esfera?

O amor pode dar-se ao luxo de esperar,

Para ele hora alguma é tarde demais

Se testemunha o fim de um dever

Ou empresta começo a outro.

Não servirá a uso algum,

Mais do que os matizes das flores;

Somente o hóspede independente

Frequenta seus caramanchões

E herda seu legado.

Não tem fala, embora bondosa,

Mas distribui silêncio mais bondoso

A seus companheiros,

À noite consola,

De dia felicita.

Que diz a língua à língua?

Que ouve o ouvido do ouvido?

Pelos decretos do destino,

De ano em ano,

É assim que se comunicam.

Sem caminho, abre-se o abismo do sentimento;

Nenhuma ponte trivial de palavras,

Nem arco do mais ousado vão,

Pode transpor o fosso que cerca

O homem sincero.

Nenhuma exibição de ferrolhos e grades

Pode manter o inimigo do lado de fora

Ou escapar de sua mina secreta,

Pois ele entrou com a dúvida

Que traçou a linha.

Nenhum guarda no portão

Pode deixar entrar o amigo,

Mas, como o sol, por sobre tudo

Ele conquistará o castelo

E brilhará ao longo da muralha.

Não conheço nada no mundo

Que possa escapar ao amor,

Pois ele desce abaixo de toda profundidade

E sobe acima de toda altura.

Ele espera como espera o céu,

Até que as nuvens passem,

E no entanto brilha serenamente

Com um dia eterno,

Tanto quando elas se foram

Quanto quando permanecem.

Implacável é o Amor;

Inimigos podem ser comprados ou provocados

Até que abandonem sua intenção hostil,

Mas não se apazigua

Quem está decidido à bondade.

Tendo remado cinco ou seis milhas acima de Amoskeag antes do pôr do sol, e alcançado um trecho aprazível do rio, um de nós desembarcou à procura de uma casa de fazenda onde pudéssemos reabastecer nossas provisões, enquanto o outro permaneceu singrando de um lado para outro e explorando as margens opostas em busca de um porto adequado para a noite. Nesse meio-tempo, os barcos do canal começaram a surgir detrás de uma ponta, à nossa retaguarda, avançando a vara rente à margem, pois a brisa cessara por completo. Desta vez não houve oferta de auxílio; um dos barqueiros apenas gritou para dizer, como a vingança mais verdadeira por terem perdido a corrida, que vira um pato-carolino, que havíamos espantado, pousado num alto pinheiro-branco, meia milha rio abaixo; repetiu a afirmação várias vezes e pareceu de fato mortificado com a aparente suspeita com que a informação foi recebida. Mas lá continuava o pato-do-verão, ainda pousado, sem que o tivéssemos incomodado.

Pouco depois, o outro viajante voltou de sua expedição terra adentro, trazendo consigo um dos nativos, um garotinho de cabelos louros como linho, com alguma tradição, ou pequena edição, de Robinson Crusoé na cabeça, que se encantara com o relato de nossas aventuras e pedira licença ao pai para juntar-se a nós. Primeiro, do alto da margem, examinou nosso barco e seus apetrechos com olhos cintilantes, e desejou já ser dono de si. Era um menino vivo e interessante, e teríamos ficado contentes em alistá-lo; mas Nathan ainda era o menino de seu pai e não chegara à idade do discernimento.

Conseguíramos um pão caseiro e melões cantalupos e melancias para a sobremesa. Pois esse fazendeiro, homem hábil e bem-intencionado, cultivava uma grande plantação de melões para os mercados de Hooksett e Concord. No dia seguinte, recebeu-nos hospitaleiramente, mostrando seus campos de lúpulo, sua estufa de secagem e sua plantação de melões, e advertindo-nos de que passássemos por cima da corda esticada que cercava esta última a um pé do chão, enquanto apontava para um pequeno abrigo num dos cantos, onde a corda se ligava ao gatilho de uma arma alinhada com ela e onde, segundo nos informou, às vezes se sentava em noites agradáveis para defender sua propriedade contra ladrões. Erguemos bem as pernas para passar por cima da corda e, no conjunto, simpatizamos com o interesse bastante humano, embora talvez não humanitário, de nosso anfitrião no êxito do experimento. Naquela noite em especial, esperavam-se ladrões, segundo rumores que pairavam no ar, e a escorva não estava molhada. Era um metodista que tinha sua morada entre o rio e a montanha Uncannunuc; pertencia àquele lugar, ali permanecia em casa e, encorajado por organizações políticas distantes e por sua própria tenacidade, conservava o direito de propriedade sobre seus melões e continuava a plantá-los. Sugerimos que acrescentasse ao seu estoque sementes de novas variedades de melão e frutos de sabor estrangeiro. Havíamos vindo até aqui, entre as colinas, para aprender a beneficência imparcial e incorruptível da Natureza. Morangos e melões crescem tão bem no jardim de um homem quanto no de outro, e o sol se abriga com a mesma bondade sob a encosta de sua colina, embora tivéssemos imaginado que ela se inclinasse antes para algumas poucas almas sinceras e fiéis que conhecemos.

Encontramos um porto conveniente para nosso barco na margem oposta, ou oriental, ainda em Hooksett, na foz de um pequeno riacho que desaguava no Merrimack, onde ficaria fora do caminho de qualquer embarcação que passasse à noite, pois elas costumam seguir rente à margem quando sobem o rio, seja para evitar a corrente, seja para tocar o fundo com as varas, e onde seria possível alcançá-lo sem pisar na margem argilosa. Pusemos um de nossos maiores melões para esfriar na água parada entre os amieiros, na foz desse regato, mas, quando nossa tenda já estava armada e pronta e fomos buscá-lo, ele havia flutuado para o rio e não se via em parte alguma. Assim, tomando o barco no crepúsculo, partimos em perseguição dessa propriedade e, por fim, depois de muito forçar a vista, seu disco verde foi descoberto bem rio abaixo, flutuando mansamente em direção ao mar com muitos raminhos e folhas vindos das montanhas naquela tarde, e tão perfeitamente equilibrado que não adernara em absoluto, e nenhuma água entrara pelo orifício de onde se retirara o tampão para apressar seu resfriamento.

Enquanto nos sentávamos na margem para comer a ceia, a luz clara do céu ocidental caía sobre as árvores do leste e refletia-se na água, e desfrutamos de uma tarde tão serena que nada deixou por descrever. Em geral, pensamos que há poucos graus de sublimidade e que o mais alto é apenas um pouco superior ao que agora contemplamos; mas estamos sempre enganados. Visões mais sublimes aparecem, e as anteriores empalidecem e se desfazem. Somos gratos quando uma evidência interior nos recorda a permanência das leis universais; pois nossa fé é apenas uma lembrança tênue, na verdade não é uma certeza recordada, mas o uso e o desfrute do conhecimento. É quando não precisamos acreditar, mas entramos em contato efetivo com a Verdade e nos relacionamos com ela da maneira mais direta e íntima. Ondas de uma vida mais serena passam sobre nós de tempos em tempos, como manchas de luz solar sobre os campos em tempo nublado. Em algum momento mais feliz, quando mais seiva corre pelo caule ressequido de nossa vida, a Síria e a Índia se estendem para longe de nosso presente, tal como se estendem na história. Todos os acontecimentos que compõem os anais das nações não passam das sombras de nossas experiências particulares. Súbita e silenciosamente, as eras que chamamos de história despertam e cintilam em nós, e ali há espaço para Alexandre e Aníbal marcharem e conquistarem. Em suma, a história que lemos é apenas uma memória mais tênue de acontecimentos que ocorreram em nossa própria experiência. A tradição é uma memória mais interrompida e mais fraca.

Este mundo não passa de tela para nossas imaginações. Vejo homens, com esforços infinitos, empenhando-se em realizar para seus corpos aquilo que eu, com esforços ao menos iguais, realizaria para minha imaginação: suas capacidades; pois certamente existe uma vida da mente acima das necessidades do corpo e independente dele. Muitas vezes o corpo está aquecido, mas a imaginação entorpecida; o corpo está gordo, mas a imaginação magra e encolhida. Mas de que vale toda outra riqueza se esta falta? “A imaginação é o ar da mente”, no qual ela vive e respira. Todas as coisas são como eu sou. Onde fica a Casa da Mudança? O passado só é tão heroico quanto o vemos. É a tela sobre a qual nossa ideia de heroísmo é pintada e, assim, em certo sentido, o prospecto indistinto de nosso campo futuro. Nossas circunstâncias correspondem às nossas expectativas e à exigência de nossas naturezas. Tenho observado que, se um homem pensa precisar de mil dólares e não consegue ser convencido de que não precisa, comumente se descobrirá que ele os possui; se vive e pensa que mil dólares hão de aparecer, ainda que seja para comprar cadarços. Mil milésimos de dólar tardarão tanto quanto em chegar àquele que acha igualmente difícil convencer a si mesmo de que precisa deles.

Os homens são iguais por nascimento nisto: dado

Que tenham a si e sua condição, ficam lado a lado.

Espanta-me a singular pertinácia e resistência de nossas vidas. O milagre é que aquilo que é seja, quando é tão difícil, senão impossível, que qualquer outra coisa seja; que sigamos tão longe por nossos caminhos particulares antes de tombarmos diante da morte e do destino, apenas porque precisamos caminhar por algum caminho; que todo homem consiga ganhar a vida e tão poucos consigam fazer algo além disso. Só isto posso realizar antes que a saúde e a força desapareçam, e, no entanto, basta. O pássaro agora pousa logo além do alcance da espingarda. Nunca sou rico em dinheiro e nunca sou miseravelmente pobre. Se dívidas são contraídas, ora, no curso dos acontecimentos elas são canceladas, como que pela mesma lei segundo a qual foram contraídas. Ouvi dizer que se firmara um compromisso entre certo rapaz e uma moça, e depois ouvi que fora desfeito, mas não soube o motivo em nenhum dos casos. Julgamos estar cercados por acidente e circunstância; ora rastejamos como num sonho, ora tornamos a correr, como se houvesse nisso um destino e todas as coisas nos frustrassem ou auxiliassem. Não consigo trocar de roupa senão quando o faço, e, no entanto, eu a troco e sujo a roupa nova. É maravilhoso que isto chegue a ser feito, quando certos feitos admiráveis que eu poderia mencionar não chegam a sê-lo. Nossas vidas particulares parecem dotadas de uma fortuna, uma força confiante e uma durabilidade semelhantes às de pilares de rocha maciça lançados para dentro da maré das circunstâncias. Quando qualquer outro caminho falharia, avançamos por nosso curso particular com singular e infalível confiança. Que riscos corremos! fome, fogo, peste e as mil formas de um destino cruel, e, no entanto, todo homem vive até que morra. Como conseguiu isso? Não há perigo imediato? Admiramo-nos desnecessariamente quando ouvimos falar de um sonâmbulo que caminha com segurança sobre uma prancha; caminhamos sobre uma prancha durante toda a vida até esta longarina particular onde estamos. Minha vida não esperará por ninguém, mas continua amadurecendo sem demora enquanto percorro as ruas e regateio com este e aquele para lhe garantir o sustento. Nesse meio-tempo, ela é tão indiferente e desembaraçada quanto o cão de um pobre, e vai conhecendo os de sua espécie. Abrirá seu próprio canal como um córrego de montanha e nem a mais longa cadeia de montanhas a impedirá de por fim chegar ao mar. Até agora, encontrei todas as coisas, pessoas e matéria inanimada, elementos e estações, estranhamente adaptadas aos meus recursos. Não importa quão imprudente seja a pressa de minha carreira; é-me permitido ser temerário. Abismos são transpostos num piscar de olhos, como se algum comboio de bagagens invisível transportasse pontões para minha conveniência e, enquanto das alturas examino o tentador, mas inexplorado, oceano Pacífico do Futuro, o navio cuja quilha há de sulcar suas ondas e levar-me às Índias está sendo carregado, peça por peça, por sobre as montanhas, no lombo de mulas e lhamas. O dia não amanheceria se não fosse pela

A MANHÃ INTERIOR

Em minha mente estão guardadas todas as vestes

Que a Natureza exterior enverga,

E, na mudança de hora em hora de sua moda,

Ela renova todas as demais coisas.

Em vão procuro mudança lá fora

E não consigo achar diferença,

Até que algum novo raio de paz, inesperado,

Ilumina minha mente mais íntima.

O que doura as árvores e as nuvens

E pinta os céus tão alegres,

Senão aquela luz distante que permanece firme,

Com seu raio imutável?

Eis que, quando o sol atravessa o bosque

Numa manhã de inverno,

Onde quer que seus raios silenciosos penetrem,

A noite sombria se desfaz.

Como poderia o paciente pinheiro saber

Que a brisa da manhã viria,

Ou as humildes flores anteciparem

O zumbido do inseto ao meio-dia,

Até que a nova luz, com o júbilo da manhã,

De longe atravessou as alamedas

E, ágil, contou às árvores do bosque

Por muitas milhas estendidas?

Ouvi dentro de minha alma mais íntima

Notícias matinais tão alegres,

No horizonte de minha mente

Vi cores tão orientais,

Como, no crepúsculo da aurora,

Quando despertam os primeiros pássaros,

Se ouvem dentro de algum bosque silencioso,

Onde quebram os pequenos ramos,

Ou, nos céus orientais, se veem,

Antes que o sol apareça,

Os arautos dos calores do verão

Que ele traz de muito longe.

Semanas e meses inteiros de minha vida de verão deslizam para longe em tênues volumes, como névoa e fumaça, até que por fim, numa manhã quente, talvez eu veja um lençol de névoa soprado riacho abaixo em direção ao pântano, e flutue com ele tão alto acima dos campos. Posso recordar as horas mais quietas do verão, nas quais o gafanhoto canta sobre os verbascos, e há naquele tempo uma valentia cuja simples memória é uma armadura capaz de rir de qualquer golpe da fortuna. Durante toda a nossa vida, ouvem-se os acordes de uma harpa crescerem e morrerem alternadamente, e a morte não passa da “pausa em que o sopro se recompõe”.

Permanecemos acordados por longo tempo, ouvindo os murmúrios do riacho, no ângulo formado por sua margem com o rio, onde nossa tenda estava armada, e havia uma espécie de interesse humano em sua história, que não cessa nem na cheia nem na seca durante todo o longo verão, e o curso mais profundo do rio era inteiramente abafado por seu ruído. Mas o regato, cujas

“Areias prateadas e seixos cantam

Cantigas eternas com a nascente”,

é silenciado pelas primeiras geadas do inverno, ao passo que correntes mais poderosas, em cujo fundo o sol jamais brilha, obstruídas por rochas submersas e pelas ruínas das florestas, e de cuja superfície nenhum murmúrio se eleva, desconhecem os grilhões de gelo que prendem com firmeza mil regatos tributários.

Nessa noite sonhei com um acontecimento ocorrido muito tempo antes. Fora um desentendimento com um Amigo, que não cessara de me causar dor, embora eu não tivesse motivo para me censurar. Mas, em meu sonho, por fim me foi feita justiça ideal por causa das suspeitas dele, e recebi aquela compensação que jamais obtivera em minhas horas de vigília. Fiquei indescritivelmente consolado e jubiloso, mesmo depois de acordar, porque nos sonhos nunca enganamos a nós mesmos nem somos enganados, e aquilo pareceu ter a autoridade de um julgamento definitivo.

Nós nos abençoamos e nos amaldiçoamos. Alguns sonhos são divinos, assim como alguns pensamentos de vigília. Donne canta a respeito de alguém

“Que sonhava com mais devoção do que a maioria costuma rezar.”

Os sonhos são as pedras de toque de nosso caráter. Mal somos menos afligidos quando nos lembramos de alguma indignidade em nossa conduta num sonho do que se ela houvesse sido real, e a intensidade de nosso pesar, que é nossa expiação, mede o grau pelo qual isso se separa de uma indignidade efetiva. Pois, nos sonhos, apenas desempenhamos um papel que deve ter sido aprendido e ensaiado em nossas horas de vigília, e sem dúvida poderíamos descobrir algum consentimento desperto para ele. Se essa baixeza não tivesse fundamento em nós, por que nos afligimos com ela? Nos sonhos, vemos a nós mesmos nus e representando nossos verdadeiros caracteres, ainda mais claramente do que vemos os outros quando estamos despertos. Mas uma virtude inabalável e imperiosa obrigaria até seus sonhos mais fantásticos e tênues a respeitar sua autoridade sempre desperta; como costumamos dizer descuidadamente, nunca teríamos sequer sonhado com semelhante coisa. Nossa vida mais verdadeira é quando, nos sonhos, estamos despertos.

“E, mais para embalá-lo em seu sono suave,

Um regato que de alta rocha vinha tombando,

E a chuva sempre a gotejar sobre o telhado,

Mesclados a um vento murmurante, muito semelhante ao som

De abelhas em enxame, lançaram-no em desmaio.

Nenhum outro ruído, nem gritos turbulentos do povo,

Como os que sempre costumam afligir a cidade murada,

Podiam ali ser ouvidos; mas a despreocupada Quietude repousa

Envolta em silêncio eterno, longe de inimigos.”

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