Domingo
“O rio corre serenamente,
Por margens luminosas, por solitário vale,
Onde a coruja guincha, embora jamais a alegria dos homens
Tenha agitado seu repouso mudo;
Ainda assim, se por ali andasses, voltarias a andar.”
CHANNING.
“Os indígenas nos falam de um belo Rio que fica muito ao sul, ao qual chamam Merrimack.”
SIEUR DE MONTS, Relações dos jesuítas, 1604.
Pela manhã, o rio e a região adjacente estavam cobertos por uma névoa densa, através da qual a fumaça de nossa fogueira se enroscava como uma bruma ainda mais sutil; mas, antes que tivéssemos remado muitas varas, o sol nasceu e a névoa rapidamente se dissipou, deixando apenas um leve vapor a ondular sobre a superfície da água. Era uma tranquila manhã de domingo, com mais do róseo e branco da aurora do que de luz amarela, como se remontasse a um tempo anterior à queda do homem e ainda preservasse uma integridade pagã:
Um Santo antigo e não convertido,
Livre da mácula do meio-dia ou da tarde,
Pagão irrepreensível,
Que avançava sobre o dia civil,
E desde o próprio nascimento
Percorrera os confins da terra.
Mas as impressões causadas pela manhã desaparecem com seu orvalho, e nem sequer o mais “perseverante dos mortais” consegue conservar até o meio-dia a lembrança de seu frescor. Ao passarmos pelas várias ilhas, ou pelo que eram ilhas na primavera, remando de costas para o curso do rio, demos nomes a elas. Àquela em que havíamos acampado chamamos Ilha da Raposa; e a uma bela ilha densamente arborizada, cercada de águas profundas e tomada por videiras, que parecia uma massa de verdura e flores lançada sobre as ondas, demos o nome de Ilha da Uva. Da Colina de Ball até a casa de reuniões de Billerica, o rio continuava duas vezes mais largo que em Concord, um curso de água profundo, escuro e morto, fluindo entre colinas suaves e, às vezes, penhascos, bem arborizado por todo o caminho. Era um longo lago silvestre margeado de salgueiros. Por extensos trechos não víamos casa nem campo cultivado, nem qualquer sinal da proximidade humana. Ora costeávamos uma margem rasa junto à borda de uma densa paliçada de taboas, que delimitava a água em linha reta, como se aparada pela arte, lembrando-nos dos fortes de caniços das Índias Orientais sobre os quais havíamos lido; ora a margem, ligeiramente elevada, era coberta por graciosas gramíneas e várias espécies de samambaias, cujos caules felpudos se erguiam nus e estreitamente agrupados, como num vaso, enquanto suas frondes se espalhavam por vários pés de cada lado. Os ramos mortos do salgueiro eram arredondados e adornados pela trepadeira Mikania scandens, que preenchia cada fresta da margem folhosa, contrastando agradavelmente com a casca cinzenta de seu apoio e com as esferas do arbusto-dos-botões. O salgueiro-d’água, Salix Purshiana, quando atinge grande porte e se encontra inteiro, é a mais graciosa e etérea de nossas árvores. Suas massas de folhagem verde-clara, empilhadas umas sobre as outras até a altura de vinte ou trinta pés, pareciam flutuar na superfície da água, enquanto os delgados caules cinzentos e a margem mal se viam entre elas. Nenhuma árvore está tão unida à água nem se harmoniza tão bem com cursos tranquilos. É ainda mais graciosa que o salgueiro-chorão ou que quaisquer árvores pendentes, que mergulham os ramos na corrente em vez de serem por ela sustentadas. Seus galhos se curvavam para fora, sobre a superfície, como se atraídos por ela. Seu caráter não era da Nova Inglaterra, mas oriental, e nos fazia lembrar jardins persas bem aparados, Harun al-Rashid e os lagos artificiais do Oriente.
Enquanto assim abríamos caminho a remadas entre novas massas de folhagem tomadas por videiras e trepadeiras floridas menores, a superfície estava tão calma, e o ar e a água eram tão transparentes, que o voo de um martim-pescador ou de um tordo-americano sobre o rio aparecia refletido na água abaixo com tanta nitidez quanto no ar acima. As aves pareciam esvoaçar por bosques submersos, pousando nos raminhos flexíveis, e suas notas límpidas pareciam subir das profundezas. Não sabíamos ao certo se a água fazia a terra flutuar ou se a terra guardava a água em seu seio. Era, em suma, uma estação como aquela em que um de nossos poetas de Concord navegou por essa corrente e cantou suas glórias serenas.
“Há uma voz interior que, na corrente,
Envia seu espírito ao ouvido atento,
E, em sereno contentamento, segue fluindo,
Como a sabedoria, acolhida por seu próprio mérito.
Límpidos em seu peito jazem todos estes belos pensamentos;
Ela recebe as verdes e graciosas árvores,
E as rochas cinzentas sorriem em seus braços tranquilos.”
E ele cantou ainda mais, porém com seriedade excessiva para nossa página. Pois, para cada carvalho e cada bétula que cresciam no alto da colina, assim como para estes olmos e salgueiros, sabíamos existir uma árvore graciosa, etérea e ideal que se estendia para baixo a partir das raízes; e, às vezes, nas marés altas, a Natureza leva seu espelho até os pés da árvore e a torna visível. A quietude era intensa e quase consciente, como se fosse um sábado natural, e imaginávamos que a manhã era a tarde de um dia celestial. O ar era tão elástico e cristalino que produzia na paisagem o mesmo efeito de um vidro sobre uma pintura, conferindo-lhe distância e perfeição ideais. A paisagem vestia-se de uma luz suave e tranquila, na qual os bosques e as cercas a quadriculavam e dividiam com nova regularidade; campos ásperos e irregulares se estendiam até o horizonte com a lisura de gramados; e as nuvens, finamente distintas e pitorescas, pareciam uma tapeçaria apropriada para pairar sobre o país das fadas. O mundo parecia adornado para algum feriado ou cortejo mais soberbo, com flâmulas de seda ao vento, e o curso de nossas vidas parecia serpentear diante de nós como uma vereda verde por um labirinto campestre, na estação em que as árvores frutíferas estão em flor.
Por que nossa vida inteira e seu cenário não haveriam de ser de fato assim belos e distintos? Todas as nossas vidas carecem de um fundo adequado. Deveriam, ao menos como a vida do anacoreta, ser tão impressionantes à vista quanto objetos no deserto, uma coluna quebrada ou um túmulo em ruínas contra um horizonte sem limites. O caráter sempre assegura para si essa vantagem e, assim, permanece distinto e sem relação com objetos próximos ou triviais, sejam coisas ou pessoas. Nesta mesma corrente, certa vez uma donzela navegou em meu barco, acompanhada apenas por guardiões invisíveis; e, sentada na proa, nada havia além dela entre o timoneiro e o céu. Eu podia então dizer com o poeta:
“Doce cai o ar do verão
Sobre o corpo daquela que navega comigo;
Seu caminho, como ele, é belamente livre,
Sua natureza, muito mais rara,
E seu coração constante, de pureza virginal.”
Ainda ao anoitecer, as próprias estrelas parecem apenas emissárias dessa donzela e mensageiras de seu percurso.
Baixo no céu oriental
Está posto teu olhar fulgurante;
E embora sua luz benigna
Jamais se eleve à minha vista,
Cada estrela que ascende
Acima dos ramos nodosos
Daquela colina
Traz consigo tua vontade gentil.
Crê que conheci teu pensamento,
E que os zéfiros trouxeram
Teus mais ternos votos,
Como levam os meus até ti;
Que alguma nuvem atenta
Deteve-se em meio à multidão
Sobre minha cabeça,
Enquanto se diziam coisas gentis.
Crê que os tordos cantaram,
E que os sinos das flores tocaram,
Que as ervas exalaram seu aroma,
E os animais souberam o que aquilo queria dizer,
Que as árvores acenaram boas-vindas,
E os lagos banharam suas margens,
Quando teu espírito livre
Rumou para meu retiro.
Era uma tarde de verão,
O ar se movia suavemente,
Enquanto uma nuvem baixa
Ainda velava teus céus orientais;
O clarão silencioso do relâmpago,
Sobressaltando meu sonho sonolento,
Pareceu o lampejo
Sob teus cílios escuros.
Ainda hei de me esforçar por ser
Como se estivesses comigo;
Qualquer caminho que eu tome
Será por tua causa,
De encosta suave e amplo,
Como se estivesses ao meu lado,
Sem uma raiz
Que fizesse tropeçar teu pé delicado.
Andarei em passo suave,
Escolherei o lugar mais liso,
Mergulharei o remo com cuidado
E evitarei a margem sinuosa;
Conduzirei mansamente meu barco
Onde flutuam nenúfares
E flores-cardinais
Se erguem em seus caramanchões silvestres.
Era preciso certa rudeza para perturbar com nosso barco a superfície espelhada da água, na qual cada graveto e cada lâmina de capim se refletiam com tanta fidelidade; fidelidade excessiva, na verdade, para que a arte a imitasse, pois só a Natureza pode exagerar a si mesma. A mais rasa das águas paradas é insondável. Onde quer que árvores e céus se reflitam, há profundidade maior que a do Atlântico e nenhum perigo de a imaginação encalhar. Notamos que era necessária uma intenção distinta do olhar, uma visão mais livre e abstraída, para enxergar as árvores refletidas e o céu do que para ver apenas o fundo do rio; e assim há múltiplas visões na direção de cada objeto, e mesmo os mais opacos refletem os céus em sua superfície. Alguns homens têm os olhos naturalmente dirigidos para um objeto; outros, para o outro.
“Um homem que olha o vidro
Pode nele deter o olhar;
Ou, se assim lhe aprouver, atravessá-lo
E os céus avistar.”
Dois homens num esquife, pelos quais passamos por ali, flutuando leves entre os reflexos das árvores, como uma pena no ar ou uma folha que é levada suavemente do galho até a água sem se virar, pareciam ainda estar em seu elemento e ter-se valido com extrema delicadeza das leis naturais. Flutuarem ali era um belo e bem-sucedido experimento de filosofia natural, que serviu para enobrecer a nossos olhos a arte da navegação; pois, assim como as aves voam e os peixes nadam, aqueles homens navegavam. Isso nos lembrou quanto mais belas e nobres poderiam ser todas as ações humanas e que nossa vida, em toda a sua economia, poderia ser tão bela quanto as mais belas obras da arte ou da natureza.
O sol repousava sobre os velhos penhascos cinzentos e cintilava em cada folha flutuante; as taboas e os lírios-amarelos pareciam rejubilar-se na deliciosa luz e no ar; os prados bebiam sem pressa; as rãs permaneciam sentadas, meditando apenas pensamentos sabáticos e fazendo o balanço da semana, com um olho voltado para o sol dourado e um dedo sobre um caniço, contemplando o universo maravilhoso em que desempenham seu papel; os peixes nadavam com maior compostura e sobriedade, como donzelas a caminho da igreja; cardumes de pequenos peixes dourados e prateados subiam à superfície para contemplar os céus e depois desviavam para corredores mais sombrios; passavam velozes como se movidos por uma só mente, deslizando continuamente uns entre os outros e ainda assim preservando inalterada a formação de seu batalhão, como se continuassem envolvidos pela membrana transparente que abrigara as ovas; um jovem bando de irmãos e irmãs experimentando suas novas nadadeiras; ora giravam, ora disparavam adiante, e, quando os empurrávamos para a margem e lhes cortávamos a passagem, mudavam habilmente de bordo e passavam sob o barco. Nenhum viajante cruzava as velhas pontes de madeira, e nem o rio nem os peixes evitavam deslizar entre os pilares.
Ali havia, não muito distante, atrás dos bosques, uma aldeia chamada Billerica, povoada não fazia muito tempo, e as crianças ainda levavam os nomes dos primeiros colonos desta recente “solidão ululante”; contudo, para todos os efeitos, era tão antiga quanto Ferney ou Mântua, uma velha cidade cinzenta onde os homens envelhecem e já dormem sob monumentos cobertos de musgo, sobrevivendo à própria utilidade. Esta é a antiga Billerica, (Villarica?), agora em sua decrepitude, batizada a partir da Billericay inglesa e cujo nome indígena era Shawshine. Nunca ouvi dizer que tivesse sido jovem. Vede: não terá a natureza aqui entrado em decadência, com as fazendas exauridas e a casa de reuniões encanecida e alquebrada pela idade? Para conhecer sua primeira juventude, perguntai àquelas velhas rochas cinzentas no pasto. Há ali um sino que às vezes soa até os bosques de Concord; já o ouvi, sim, ouço-o agora. Não admira que semelhante som despertasse o indígena sonhador e espantasse sua caça quando os primeiros sinos foram pendurados nas árvores e ressoaram pela mata para além das plantações do homem branco. Hoje, porém, prefiro o eco em meio a estes penhascos e bosques. Não é uma imitação débil, mas antes o original, como se algum Orfeu rural executasse novamente a melodia para mostrar como ela deveria soar.
Dão, soa o bronze no leste,
Como a chamar para um banquete fúnebre,
Mas prefiro o som que vem
Do oeste palpitante.
O campanário dobra a finados,
Mas o sino prateado das fadas
É a voz daquele povo gentil,
Ou então o horizonte que falou.
Seu metal não é bronze,
Mas ar, água e vidro;
Sob uma nuvem ele pende,
E é pelo vento tangido.
Quando o campanário bate o meio-dia,
Seu som não chega tão cedo;
Contudo, anuncia hora muito anterior,
E o sol ainda não alcançou sua torre.
Por outro lado, a estrada sobe até Carlisle, cidade dos bosques, que, se é menos civilizada, é tanto mais natural. Ela cumpre bem a função de manter a terra unida. Sei que riem dela por ser uma cidade pequena, mas, ainda assim, é um lugar onde grandes homens podem nascer a qualquer dia, pois ventos favoráveis e adversos sopram diretamente sobre ela, sem distinção. Tem por centro uma casa de reuniões e abrigos para cavalos, uma taverna e uma ferraria, e ainda uma boa quantidade de madeira para cortar e empilhar. E
> “Bedford, nobilíssima Bedford,
> não me esquecerei de ti.”
A história se lembrou de ti, sobretudo daquela mansa e humilde petição de teus antigos colonos, semelhante ao lamento do próprio povo do Senhor, dirigida “aos senhores, os administradores municipais” de Concord, na qual rogavam que fossem constituídos em paróquia separada. Mal podemos acreditar que um salmo tão queixoso tenha ressoado, há pouco mais de um século, ao longo destas águas babilônicas. “Nas estações de calor e frio extremos”, diziam eles, “estávamos prontos a dizer do sábado: Vede, que fadiga é esta.” “Senhores, se nosso desejo de nos apartarmos provém de qualquer desafeto por nosso atual Reverendo Pastor, ou pela Sociedade Cristã com a qual temos tomado juntos tão doce conselho e caminhado em companhia até a casa de Deus, então não nos ouçais neste dia; mas desejamos grandemente, se Deus assim quiser, ser aliviados de nosso fardo no sábado, da viagem e do cansaço que ela acarreta, para que a palavra de Deus esteja próxima de nós, perto de nossas casas e em nossos corações, a fim de que nós e nossos pequeninos possamos servir ao Senhor. Esperamos que Deus, que despertou o espírito de Ciro para levar adiante a obra do templo, tenha nos despertado para pedir, e vos despertará para conceder a súplica de nossa petição; assim, vossos humildes peticionários sempre orarão, como de seu dever...” E assim a obra do templo avançou aqui até uma feliz conclusão. Lá adiante, em Carlisle, a construção do templo foi adiada por muitos e fatigantes anos, não por falta da madeira de Sitim ou do ouro de Ofir, mas de um local que fosse conveniente a todos os fiéis, se na “Planície de Buttrick” ou, antes, na “Colina dos Choupos”. Foi uma questão tediosa.
Nesta Billerica devem ter vivido homens sólidos, eleitos de ano em ano; ao menos uma sucessão de escrivães municipais; e há registros antigos que se podem consultar. Certa primavera, o homem branco chegou, construiu para si uma casa e abriu uma clareira aqui, deixando entrar o sol; drenou uma fazenda, empilhou as velhas pedras cinzentas em cercas, derrubou os pinheiros ao redor de sua morada, plantou sementes de pomar trazidas do velho país e persuadiu a civilizada macieira a florescer junto ao pinheiro selvagem e ao zimbro, espalhando seu perfume pelo ermo. Seus velhos troncos ainda permanecem. Escolheu no bosque e à margem do rio o gracioso olmo e, assim, refinou e alisou o terreno de sua aldeia. Construiu uma ponte rústica sobre o curso d’água e conduziu sua parelha para os prados fluviais, cortou a relva selvagem e expôs as moradas do castor, da lontra e do rato-almiscarado, e, ao afiar a foice, afugentou o veado e o urso. Ergueu um moinho, e campos de cereal inglês brotaram no solo virgem. E, com seus grãos, espalhou pelos prados as sementes do dente-de-leão e do trevo-selvagem, misturando suas flores inglesas às nativas e silvestres. A bardana eriçada, a erva-dos-gatos de aroma doce e a humilde mil-folhas se plantaram por conta própria ao longo de sua estrada na mata, também elas buscando “liberdade para adorar a Deus” à sua maneira. E assim ele planta uma cidade. O verbasco do homem branco logo reinou nos milharais indígenas, e doces gramíneas inglesas cobriram o novo solo. Onde, então, poderia o Homem Vermelho pôr o pé? A abelha melífera zumbia pelos bosques de Massachusetts e sorvia as flores silvestres ao redor da cabana do indígena, talvez sem ser notada, quando, num aviso profético, feriu com o ferrão a mão da criança vermelha, precursora daquela tribo industriosa que viria arrancar pela raiz a flor silvestre de sua raça.
O homem branco chega, pálido como a aurora, trazendo uma carga de pensamento, com uma inteligência adormecida como fogo coberto de cinzas, conhecendo bem aquilo que conhece, não supondo, mas calculando; forte em comunidade, obediente à autoridade; de raça experiente; dotado de um maravilhoso, maravilhoso senso comum; obtuso, mas capaz, lento, mas perseverante, severo, mas justo, de pouco humor, porém genuíno; trabalhador, desprezando jogos e divertimentos; construindo uma casa que perdura, uma casa de armação. Compra os mocassins e os cestos do indígena, depois compra seus territórios de caça e, por fim, esquece onde ele está enterrado e revolve seus ossos com o arado. E aqui os registros municipais, velhos, esfarrapados, gastos pelo tempo, crônicas manchadas pelas intempéries, talvez contenham a marca do sachem indígena, uma flecha ou um castor, e as poucas palavras fatais pelas quais ele cedeu seus territórios de caça. O branco chega com uma lista de antigos nomes saxões, normandos e celtas e os espalha ao longo deste rio: Framingham, Sudbury, Bedford, Carlisle, Billerica, Chelmsford. Esta é a Nova Terra dos Anglos, e estes são os Novos Saxões do Oeste, a quem os Homens Vermelhos chamam não de Angle-ish nem de English, mas de Yengeese, e assim, afinal, eles se tornam conhecidos como ianques.
Quando estávamos diante da parte central de Billerica, os campos de ambos os lados tinham um aspecto inglês, suave e cultivado; a torre da aldeia aparecia acima dos bosquetes que margeavam o rio, e às vezes um pomar descia irregularmente até a beira d’água, embora, em geral, nosso percurso naquela manhã atravessasse a parte mais selvagem de nossa viagem. Parecia que os homens levavam ali uma vida tranquila e muito civilizada. Os habitantes eram claramente cultivadores da terra e viviam sob um governo político organizado. A escola erguia-se com aspecto manso, suplicando uma longa trégua à guerra e à vida selvagem. Cada um descobre, pela própria experiência e também pela história, que a era em que os homens cultivam a maçã e as amenidades do jardim é essencialmente diversa da era do caçador e da vida na floresta, e nenhuma das duas pode desalojar a outra sem perda. Todos tivemos nossos devaneios diurnos, bem como visões noturnas mais proféticas; mas, quanto à agricultura, estou convencido de que meu gênio data de uma era anterior à agrícola. Eu ao menos cravaria minha pá na terra com a mesma liberdade descuidada, mas exata, com que o pica-pau crava o bico numa árvore. Há em minha natureza, creio, um anseio singular por tudo quanto é selvagem. Não conheço em mim qualidades redentoras, salvo um amor sincero por certas coisas, e, quando sou repreendido, recuo para esse terreno. Que tenho eu a ver com arados? Abro outro sulco que não o que vedes. Onde pisa o boi de fora, ele não está, está mais longe; onde caminha o boi de dentro, ele não estará, está ainda mais perto. Se o milho fracassa, minha colheita não fracassa, e que são para mim a seca e a chuva? O rude pioneiro saxão às vezes suspira por aquele refinamento e aquela beleza artificial que são ingleses, e gosta de ouvir o som de nomes tão doces e clássicos como as Colinas de Pentland e de Malvern, os Penhascos de Dover e os Trossachs, Richmond, Derwent e Winandermere, que agora ocupam para ele o lugar da Acrópole e do Partenon, de Baias, e de Atenas com suas muralhas marítimas, e da Arcádia e do Tempe.
> Grécia, quem sou eu para lembrar-me de ti,
> de tua Maratona e de tuas Termópilas?
> É vulgar minha vida, mesquinho meu destino,
> que podem apoiar-se nessas memórias de ouro?
Somos bastante propensos a nos deleitar com livros como Sylva, Acetarium e Kalendarium Hortense, de Evelyn, mas eles pressupõem no leitor um nervo relaxado. A jardinagem é civilizada e social, mas carece do vigor e da liberdade da floresta e do fora da lei. Pode haver excesso de cultivo, como de qualquer outra coisa, até que a civilização se torne patética. Um homem altamente cultivado, todos os seus ossos podem ser dobrados! Suas virtudes, nascidas do céu, não passam de boas maneiras! Os jovens pinheiros que brotam ano após ano nos milharais são, para mim, um fato revigorante. Falamos em civilizar o indígena, mas esse não é o nome de seu aperfeiçoamento. Pela independência cautelosa e pelo afastamento de sua obscura vida florestal, ele preserva o convívio com seus deuses nativos e, de tempos em tempos, é admitido a uma rara e singular comunhão com a Natureza. Tem relances de reconhecimento estrelado que nossos salões desconhecem. A iluminação constante de seu gênio, obscura apenas porque distante, é como a luz tênue, porém satisfatória, das estrelas, comparada ao clarão deslumbrante, mas ineficaz e breve, das velas. Os habitantes das Ilhas da Sociedade tinham seus deuses nascidos de dia, mas não se supunha que fossem “de antiguidade igual à dos atua fauau po, ou deuses nascidos da noite”. É verdade que há os prazeres inocentes da vida campestre, e às vezes é agradável fazer a terra produzir sua abundância e colher os frutos em sua estação, mas o espírito heroico não deixará de sonhar com retiros mais remotos e caminhos mais ásperos. Terá seus canteiros e seus parterres em outro lugar que não a terra, e apanhará no caminho nozes e bagas para seu sustento, ou frutos de pomar com a mesma despreocupação com que apanha bagas. Não deveríamos estar sempre acalmando e domesticando a natureza, amansando o cavalo e o boi, mas por vezes montar o cavalo selvagem e perseguir o búfalo. O convívio do indígena com a Natureza é, ao menos, de uma espécie que admite a maior independência de cada um. Se ele é um tanto estranho em meio a ela, o jardineiro lhe é íntimo em demasia. Há algo vulgar e impuro na proximidade deste com sua senhora, algo nobre e limpo na distância daquele. Na civilização, como numa latitude meridional, o homem por fim degenera e cede à incursão de tribos mais setentrionais,
> “Alguma nação ainda encerrada
> entre colinas de gelo.”
Há aspectos da natureza mais selvagens e primevos do que aqueles cantados por nossos poetas. É apenas poesia do homem branco. Nem mesmo Homero e Ossian podem jamais reviver em Londres ou Boston. E, contudo, vede como essas cidades se revigoram pela mera tradição, ou pela fragrância e o sabor imperfeitamente transmitidos desses frutos silvestres. Se pudéssemos escutar por um instante o canto da musa indígena, compreenderíamos por que ele não trocará sua natureza selvagem pela civilização. As nações não são caprichosas. Aço e cobertores são tentações fortes; mas o indígena faz bem em continuar indígena.
Depois de permanecer muitos dias sentado em meu quarto, lendo os poetas, saí cedo numa manhã enevoada e ouvi o pio de uma coruja num bosque vizinho, como se viesse de uma natureza por trás da comum, inexplorada pela ciência ou pela literatura. Nenhum membro da raça emplumada realizou ainda minhas concepções juvenis das profundezas da mata. Eu vira o pássaro-eleitoral vermelho, trazido de seus recessos no cordão de meus companheiros, e imaginara que sua plumagem assumiria cores mais estranhas e deslumbrantes, como os matizes do entardecer, à medida que eu avançasse mais fundo na escuridão e na solidão da floresta. Ainda menos vi matizes tão intensos e agrestes no cordão de qualquer poeta.
Estas modernas e engenhosas ciências e artes não me afetam como aquelas artes mais veneráveis da caça e da pesca, e até da agricultura em sua forma primitiva e simples; ofícios tão antigos e honrosos quanto os que o sol, a lua e os ventos exercem, coetâneos das faculdades do homem e inventados quando estas foram inventadas. Não conhecemos seu John Gutenberg nem seu Richard Arkwright, embora os poetas de bom grado queiram fazer crer que foram gradualmente aprendidos e ensinados. Segundo Gower:
> “E Jadahel, como diz o livro,
> primeiro fez a rede e peixes apanhou.
> Também na caça descobriu a perseguição,
> que agora em muitos lugares é conhecida;
> uma tenda de pano, com corda e estaca,
> foi ele o primeiro a erguer e fabricar.”
Também Lydgate diz:
> “Jasão primeiro navegou, conta a história,
> rumo à Cólquida, para conquistar o velo de ouro;
> Ceres, a Deusa, primeiro inventou o cultivo da terra;Também Aristeu primeiro descobriu o uso
> do leite, da coalhada e do mel doce;
> Piródes, para grande proveito,
> das pedras de sílex tirou fogo, oculto na raiz.”
Lemos que Aristeu “obteve de Júpiter e Netuno que o calor pestilento dos dias caniculares, durante os quais havia grande mortandade, fosse mitigado pelo vento”. Esse é um daqueles benefícios sem data concedidos ao homem, dos quais não há registro em nosso tempo vulgar, embora ainda encontremos alguma semelhança com eles em nossos sonhos, nos quais apreendemos as coisas de maneira mais generosa e justa, sem a coerção do hábito, que então é em certa medida abandonado, e despojada da memória, a que chamamos história.
Segundo a fábula, quando a ilha de Egina foi despovoada pela doença, a pedido de Éaco, Júpiter transformou as formigas em homens, isto é, como pensam alguns, fez homens dos habitantes que viviam mesquinhamente como formigas. Esta é talvez a história mais completa que chegou até nós daqueles primeiros tempos.
A fábula composta de modo natural e verdadeiro, de maneira a satisfazer a imaginação antes de se dirigir ao entendimento, bela embora estranha como uma flor silvestre, é para o sábio um apotegma e admite sua interpretação mais generosa. Quando lemos que Baco enlouqueceu os marinheiros tirrenos, de modo que saltaram ao mar, tomando-o por um prado cheio de flores, e assim se tornaram golfinhos, não nos preocupa a verdade histórica disso, mas antes uma verdade poética mais elevada. Parecemos ouvir a música de um pensamento e pouco nos importa que o entendimento não seja satisfeito. Por sua beleza, considerem-se as fábulas de Narciso, de Endimião, de Mêmnon, filho da Manhã, representante de todos os jovens promissores que morreram prematuramente e cuja memória se prolonga melodiosamente até a última manhã; as belas histórias de Faetonte e das Sereias, cuja ilha brilhava de longe, branca dos ossos de homens insepultos; e as fecundas histórias de Pã, Prometeu e da Esfinge; e aquela longa lista de nomes que já se tornaram parte da linguagem universal dos homens civilizados e que, de nomes próprios, vão se tornando nomes comuns ou substantivos: as Sibilas, as Eumênides, as Parcas, as Graças, as Musas, Nêmesis etc.
É interessante observar com que singular unanimidade as nações e gerações mais afastadas umas das outras consentem em conferir inteireza e forma acabada a uma antiga fábula, cuja beleza ou verdade apreciam indistintamente. Por um esforço tênue e semelhante ao sonho, ainda que seja apenas pelo voto de uma corporação científica, a posteridade mais obtusa acrescenta lentamente algum traço ao mito. Assim ocorre quando os astrônomos chamam Netuno ao planeta recém-descoberto; ou Astreia ao asteroide, para que a Virgem expulsa da terra para o céu ao fim da idade de ouro tenha no firmamento uma morada mais nitidamente designada, pois o mais leve reconhecimento do valor poético é significativo. Por essa lenta agregação cresceu a mitologia desde o início. Os próprios contos infantis desta geração foram os contos infantis das raças primevas. Migram de leste para oeste e novamente de oeste para leste; ora se expandem no “conto divino” dos bardos, ora se contraem numa rima popular. Isto é uma aproximação daquela linguagem universal que os homens buscaram em vão. Essa afetuosa reiteração das mais antigas expressões da verdade pela posteridade mais recente, satisfeita em retocar ligeira e religiosamente o antigo material, é a prova mais impressionante de uma humanidade comum.
Todas as nações amam as mesmas pilhérias e histórias, judeus, cristãos e maometanos, e as mesmas, traduzidas, bastam para todos. Todos os homens são crianças e pertencem a uma só família. A mesma história põe todos na cama e os desperta pela manhã. Joseph Wolff, o missionário, distribuiu entre os árabes exemplares de Robinson Crusoé traduzidos para o árabe, e eles causaram grande sensação. “As aventuras e a sabedoria de Robinson Crusoé”, diz ele, “foram lidas por maometanos nos mercados de Sanaa, Hodeida e Loheia, e admiradas e tidas por verdadeiras!” Ao ler o livro, os árabes exclamaram: “Oh, esse Robinson Crusoé deve ter sido um grande profeta!”
Em certa medida, a mitologia é apenas a história e a biografia mais antigas. Longe de ser falsa ou fabulosa no sentido comum, ela contém apenas a verdade duradoura e essencial, omitidos o eu e o tu, o aqui e o ali, o agora e o então. Ou o tempo ou uma rara sabedoria a escreve. Antes que a imprensa fosse descoberta, um século equivalia a mil anos. Poeta é aquele que pode escrever hoje alguma mitologia pura sem o auxílio da posteridade. Em quão poucas palavras, por exemplo, os gregos teriam contado a história de Abelardo e Heloísa, fazendo dela apenas uma frase para o nosso dicionário clássico, e depois, talvez, teriam colocado seus nomes a brilhar em algum canto do firmamento. Nós, modernos, por outro lado, reunimos apenas as matérias-primas da biografia e da história, “memórias para servir a uma história”, a qual, por sua vez, não passa de material para servir a uma mitologia. Quantos volumes in-fólio teria preenchido a Vida e Trabalhos de Prometeu se porventura houvesse caído, como talvez tenha caído a princípio, em tempos de impressão barata! Quem sabe que forma a fábula de Colombo por fim assumirá, para se confundir com a de Jasão e a expedição dos Argonautas. E Franklin, talvez haja para ele uma linha no futuro dicionário clássico, registrando o que fez esse semideus e remetendo-o a alguma nova genealogia. “Filho de —— e ——. Ajudou os americanos a conquistar sua independência, instruiu a humanidade na economia e fez descer dos céus o relâmpago.”
A significação oculta dessas fábulas, que às vezes se julga ter sido descoberta, a ética correndo paralela à poesia e à história, não é tão notável quanto a facilidade com que elas podem ser levadas a exprimir uma variedade de verdades. É como se fossem os esqueletos de verdades ainda mais antigas e universais do que quaisquer outras cuja carne e sangue são, por algum tempo, levadas a vestir. É como esforçar-se por fazer do sol, ou do vento, ou do mar símbolos destinados a significar exclusivamente os pensamentos particulares de nossos dias. Mas que importa? No mito, uma inteligência sobre-humana usa os pensamentos e sonhos inconscientes dos homens como seus hieróglifos para se dirigir a homens ainda não nascidos. Na história da mente humana, essas fábulas ardentes e coradas precedem os pensamentos meridianos dos homens, assim como Aurora precede os raios do sol. O intelecto matutino do poeta, mantendo-se à frente do clarão da filosofia, habita sempre essa atmosfera auroral.
Como dissemos antes, o Concord é um curso d’água morto, mas sua paisagem é tanto mais sugestiva para o viajante contemplativo, e nesse dia suas águas estavam mais cheias de reflexos do que até mesmo nossas páginas. Pouco antes de alcançar as quedas de Billerica, ele se estreita e se torna mais veloz e raso, com um fundo amarelado de seixos, dificilmente transitável por um barco de canal, deixando acima a porção mais larga e estagnada como um lago entre as colinas. Ao longo de todos os prados de Concord, Bedford e Billerica, não ouvíramos murmúrio algum de sua corrente, salvo onde algum regato tributário se precipitava para dentro dela:
Algum pequeno arroio tumultuoso,
Murmurando em torno de seu seixo carregado de histórias,
Tilintando ao mesmíssimo som,
De setembro até junho,
Que nenhuma seca jamais enfraquece.
Silencioso corre o rio matriz,
E, se rochas jazem abaixo,
Abafa com suas ondas o fragor,
Como se fosse um pecado juvenil,
Tão quieto e tão lento como sempre.
Mas agora, enfim, ouvimos esse rio grave e primitivo precipitar-se rumo à sua queda, como qualquer regato. Ali deixamos seu leito, pouco acima das quedas de Billerica, e entramos no canal, que corre, ou antes é conduzido, por seis milhas através dos bosques até o Merrimack, em Middlesex; e, como não desejávamos nos demorar nessa parte da viagem, enquanto um de nós corria pela trilha de reboque puxando o barco por uma corda, o outro o mantinha afastado da margem com uma vara, de modo que percorremos toda a distância em pouco mais de uma hora. Esse canal, o mais antigo do país, e que chega a ter uma aparência antiga ao lado das ferrovias mais modernas, é alimentado pelo Concord, de modo que ainda flutuávamos em suas águas familiares. É uma quantidade de água que o rio aluga em benefício do comércio. Parecia haver certa falta de harmonia em sua paisagem, pois ele não tinha a mesma idade dos bosques e prados pelos quais era conduzido, e sentíamos falta da influência conciliadora do tempo sobre a terra e a água; mas, no decorrer das eras, a Natureza se recuperará e se indenizará, plantando aos poucos arbustos e flores adequados ao longo de suas margens. Já o martim-pescador pousava num pinheiro sobre a água, e a brema e o lúcio nadavam abaixo. Assim, todas as obras passam diretamente das mãos do arquiteto para as mãos da Natureza, a fim de serem aperfeiçoadas.
Era uma rota retirada e agradável, sem casas nem viajantes, exceto alguns rapazes que vadiavam sobre uma ponte em Chelmsford e que se inclinaram insolentemente sobre as grades para bisbilhotar nossos assuntos; mas fixamos os olhos no mais atrevido e o encaramos até que ficou visivelmente desconcertado. Não porque houvesse alguma eficácia peculiar em nosso olhar, mas antes porque nele restava um senso de vergonha que o desarmou.
É muito verdadeira e expressiva a frase: “Ele me lançou punhais com os olhos”, pois o primeiro modelo e protótipo de todos os punhais deve ter sido um olhar. Primeiro houve o olhar dos olhos de Jove, depois seu raio de fogo; em seguida, à medida que a matéria foi endurecendo, inventaram-se tridentes, lanças, dardos e, por fim, para conveniência dos homens particulares, punhais, krises e assim por diante. É espantoso que consigamos andar pelas ruas sem ser feridos por essas armas delicadas e faiscantes, tão agilmente um homem pode desembainhar seu florete, ou carregá-lo nu sem que se perceba. Ainda assim, é raro que alguém seja olhado com verdadeira seriedade.
Quando passamos sob a última ponte sobre o canal, pouco antes de chegar ao Merrimack, as pessoas que saíam da igreja pararam para nos olhar lá de cima e, ao que parecia, tão forte é o costume, entregaram-se a algumas comparações pagãs; mas nós éramos os mais verdadeiros observadores daquele dia ensolarado. Segundo Hesíodo:
“O sétimo é um dia santo,
Pois nele Latona deu à luz Apolo de raios dourados”,
e, por nossa contagem, este era o sétimo dia da semana, e não o primeiro. Encontro, entre os papéis de um antigo juiz de paz e diácono da cidade de Concord, este singular memorando, que merece ser preservado como relíquia de um costume antigo. Reformadas a ortografia e a gramática, ele diz o seguinte: “Os homens que viajaram com carros de carga no sábado, 18 de dezembro de 1803, foram Jeremiah Richardson e Jonas Parker, ambos de Shirley. Tinham carros com armação como a usada para transportar barris e viajavam para o oeste. Richardson foi interrogado pelo Hon. Ephraim Wood, Esq., e disse que Jonas Parker era seu companheiro de viagem; disse ainda que um Sr. Longley era seu empregador e prometera defendê-lo.” Nós éramos os homens que deslizavam para o norte nesse 1º de setembro de 1839, com uma parelha imóvel e uma armação que não era das mais convenientes para transportar barris, sem sermos interrogados por nenhum juiz ou diácono de igreja e prontos para nos defender, caso fosse necessário. Na parte final do século XVII, segundo o historiador de Dunstable, “as cidades foram instruídas a erguer ‘uma jaula’ perto da casa de reuniões, e nela eram confinados todos os infratores da santidade do sábado”. A sociedade afrouxou um pouco seu rigor, dir-se-ia, mas presumo que não haja menos religião do que antes. Se a ligadura se mostra frouxa numa parte, é apenas apertada em outra.
Dificilmente se consegue convencer um homem de um erro durante sua vida inteira, e é preciso contentar-se com a reflexão de que o progresso da ciência é lento. Se ele não se convence, talvez seus netos se convençam. Os geólogos nos dizem que foram necessários cem anos para provar que os fósseis são orgânicos, e mais cento e cinquenta para provar que não devem ser atribuídos ao dilúvio de Noé. Não estou certo de que, em situações extremas, eu não me voltaria para as divindades liberais da Grécia, em vez de para o Deus de meu país. Jeová, embora entre nós tenha adquirido novos atributos, é mais absoluto e inacessível, mas dificilmente mais divino, que Jove. Não é tão cavalheiro, tão gracioso e universal; não exerce sobre a natureza uma influência tão íntima e cordial quanto muitos dos deuses gregos. Eu temeria o poder infinito e a justiça inflexível do mortal onipotente, mal deificado ainda, tão inteiramente masculino, sem uma irmã Juno, sem Apolo, sem Vênus, nem Minerva, para interceder por mim, θυμῷ φιλέουσά τε, κηδομένη τε. Os deuses gregos são jovens, errantes e decaídos, com os vícios dos homens, mas em muitos aspectos importantes pertencem essencialmente à raça divina. Em meu Panteão, Pã ainda reina em sua glória primitiva, com o rosto corado, a barba ondulante e o corpo hirsuto, sua flauta e seu cajado, sua ninfa Eco e sua filha predileta Iambe; pois o grande deus Pã não está morto, como se divulgou. Deus algum jamais morre. Talvez, entre todos os deuses da Nova Inglaterra e da antiga Grécia, seja a seu santuário que permaneço mais constante.
Parece-me que o deus comumente adorado nos países civilizados não é de modo algum divino, embora ostente um nome divino, mas sim a autoridade esmagadora e a respeitabilidade combinadas da humanidade. Os homens reverenciam uns aos outros, ainda não a Deus. Se eu julgasse poder falar com discernimento e imparcialidade das nações da cristandade, eu as louvaria, mas isso exige demais de mim. Parecem ser as mais civis e humanas, mas posso estar enganado. Cada povo tem deuses adequados às suas circunstâncias; os habitantes das Ilhas da Sociedade tinham um deus chamado Toahitu, “em forma de cão; ele salvava os que corriam perigo de cair de rochedos e árvores”. Penso que podemos passar sem ele, pois não temos muitas escaladas a fazer. Entre eles, um homem podia fazer para si um deus de um pedaço de madeira em poucos minutos, e esse deus o faria perder o juízo de medo.
Imagino que alguma incansável solteirona da velha escola, que teve a suprema felicidade de nascer em “dias que puseram à prova as almas dos homens”, ao ouvir isso, talvez diga com Nestor, outro da velha escola: “Mas tu és mais jovem do que eu. Pois houve um tempo em que convivi com homens maiores do que tu. Em tempo algum vi, nem voltarei a ver, homens como Pirítoo, e Dríade, e ποιμένα λαῶν”, isto é, provavelmente Washington, o único “Pastor do Povo”. E quando Apolo já rolou seis vezes para o ocidente, ou pareceu rolar, e agora pela sétima vez mostra o rosto no oriente, olhos quase vidrados, há muito envidraçados, que oscilaram apenas entre a lã de cordeiro e a lã penteada, perscrutam sem cessar algum bom livro de sermões. Durante seis dias trabalharás e farás todo o teu tricô, mas no sétimo, com efeito, farás tua leitura. Felizes nós, que podemos nos aquecer sob este cálido sol de setembro, que ilumina todas as criaturas tanto quando repousam como quando labutam, não sem um sentimento de gratidão; nós, cuja vida é tão irrepreensível, por mais censurável que possa ser, na Lua-feira do Senhor quanto em seu Sol-dia.
Há crenças diversas, ou melhor, incríveis; por que deveríamos nos alarmar com qualquer uma delas? O que o homem crê, Deus crê. Por mais que eu tenha vivido, e por tantos blasfemadores que tenha ouvido e visto, nunca ouvi nem testemunhei blasfêmia ou irreverência direta e consciente; mas das indiretas e habituais, o bastante. Onde está o homem culpado de insolência direta e pessoal contra Aquele que o fez?
Uma adição memorável à antiga mitologia deve-se a esta era: a fábula cristã. Com que dores, lágrimas e sangue estes séculos a teceram e a acrescentaram à mitologia da humanidade. O novo Prometeu. Com que consentimento milagroso, com que paciência e persistência esse mito foi gravado na memória da raça! Pareceria fazer parte do progresso de nossa mitologia destronar Jeová e coroar Cristo em seu lugar.
Se a vida que vivemos não é trágica, então não sei como chamá-la. Uma história como a de Jesus Cristo, sendo a história de Jerusalém, digamos, parte da História Universal. A morte nua, embalsamada e insepulta de Jerusalém entre suas colinas desoladas, pensem nisso. No poema de Tasso, confio que algumas coisas estejam docemente sepultadas. Considerem a tenacidade irritadiça com que ainda pregam o cristianismo. Que são o tempo e o espaço para o cristianismo, mil e oitocentos anos e um novo mundo, para que a vida humilde de um camponês judeu tenha força para tornar tão intolerante um bispo de Nova York? Quarenta e quatro lâmpadas, dádiva de reis, ardendo agora num lugar chamado Santo Sepulcro; um sino de igreja tocando; algumas lágrimas sinceras derramadas por um peregrino no monte Calvário no decorrer desta semana.
“Jerusalém, Jerusalém, se eu te esquecer, que minha mão direita esqueça sua destreza.”
“Junto às águas da Babilônia, ali nos sentamos e choramos quando nos lembramos de Sião.”
Confio que alguns possam estar tão próximos e ser tão caros a Buda, ou a Cristo, ou a Swedenborg, embora estejam fora do âmbito de suas igrejas. É necessário não ser cristão para apreciar a beleza e o significado da vida de Cristo. Sei que alguns terão pensamentos severos a meu respeito quando ouvirem o Cristo deles nomeado ao lado do meu Buda; no entanto, estou certo de que aceito de bom grado que amem o Cristo deles mais do que o meu Buda, pois o amor é o principal, e eu também gosto dele. “Deus é a letra Ku, assim como Khu.” Por que os cristãos ainda precisam ser intolerantes e supersticiosos? Os marinheiros simplórios não queriam lançar Jonas ao mar, mesmo a pedido dele.
“Onde foi parar esse amor em era posterior?
Ai! Partiu em peregrinação sem fim,
Para longe daqui, e jamais há de voltar, receio,
Até que a revolução faça aqueles tempos girarem de novo.”
Um homem diz:
“O mundo é uma doença popular, que reina
No coração perverso e no cérebro frenético
De pobres mortais enfermos.”
Outro diz que
“todo o mundo é um palco,
E todos os homens e mulheres, meros atores.”
O mundo é um lugar estranho para que dentro dele se erga uma casa de espetáculos. O velho Drayton julgava que um homem que vivesse aqui e quisesse ser poeta, por exemplo, deveria trazer em si certas “coisas nobres, translunares”, e que uma “bela loucura” deveria tomar-lhe o cérebro. Certamente seria bom que assim fosse, para que estivesse à altura da ocasião. É espanto supérfluo o que o dr. Johnson manifesta diante da afirmação de Sir Thomas Browne de que “sua vida foi um milagre de trinta anos, o qual, se narrado, não seria história, mas uma peça de poesia, e soaria como uma fábula”. O espanto está, antes, em que todos os homens não afirmem o mesmo. Seria um elogio raro, se fosse verdadeiro, aquele dirigido a Francis Beaumont: “Os espectadores tomavam parte em vossas tragédias.”
Pensem que lugar mesquinho e miserável é este mundo; metade do tempo temos de acender uma lâmpada para podermos enxergar e viver nele. Isso é metade de nossa vida. Quem empreenderia a empresa se fosse toda assim? E, por favor, que mais o dia tem a oferecer? Uma lâmpada que arde mais clara, um óleo mais puro, digamos, filtrado no inverno, para que possamos prosseguir em nossa ociosidade com menos impedimento. Subornados por um pouco de luz solar e alguns matizes prismáticos, bendizemos nosso Criador e adiamos sua ira com hinos.
Faço-vos uma proposta,
Ó deuses, ouvi o zombador:
O plano não vos fará mal;
Se achardes bondade, acharei virtude.
Embora eu seja vossa criatura
E filho de vossa natureza,
Ainda tenho o orgulho indobrado,
E o sangue não rebaixado,
Alguma livre independência
E descendentes que são meus.
Não posso labutar às cegas,
Embora vos porteis com bondade,
E juro pela cruz:
Não serei escravo de Deus algum.
Se lidardes com franqueza,
Hei de me esforçar sobretudo;
Se revelardes
Grandes planos ao vosso amante,
E lhe derdes uma esfera
Um tanto maior do que esta.
“Em verdade, meus anjos! Fiquei envergonhado por causa de meu servo, que não tinha outra Providência senão a mim; por isso o perdoei.” O Gulistão de Saadi.
A maioria das pessoas com quem converso, homens e mulheres até de alguma originalidade e gênio, tem seu esquema do universo todo pronto e acabado, muito seco, asseguro-lhes, de ouvir, seco o bastante para arder, carcomido pela podridão seca e reduzido a pó pelos besouros, parece-me, e o erguem entre vocês e elas logo no mais breve contato; uma armação antiga e cambaleante, com todas as tábuas arrancadas pelo vento. Não caminham sem levar consigo a cama. Algumas coisas e relações que, para mim, parecem muito insignificantes e insubstanciais estão, para elas, eternamente assentadas, como Pai, Filho e Espírito Santo, e semelhantes. São como as colinas eternas para elas. Mas, em todas as minhas peregrinações, nunca encontrei o menor vestígio de autoridade para essas coisas. Não deixaram marca tão nítida quanto a delicada flor de um remoto período geológico no carvão de minha lareira. O homem mais sábio não prega doutrinas; não tem esquema; não vê caibro algum, nem sequer uma teia de aranha, contra os céus. É céu limpo. Se em algum momento vejo com mais clareza do que em outro, é porque o meio através do qual vejo está mais límpido. Ver da terra ao céu e enxergar ali, ainda erguido como estrutura fixa, aquele velho esquema judaico! Que direito tendes de interpor esse obstáculo entre mim e a compreensão que tenho de vós, entre vós e a compreensão que tendes de mim? Não fostes vós que o inventastes; ele vos foi imposto. Examinai vossa autoridade. Até Cristo, receamos, tinha seu esquema, sua conformidade à tradição, o que vicia ligeiramente seu ensinamento. Ele não engoliu todas as fórmulas. Pregou algumas doutrinas meras. Quanto a mim, Abraão, Isaac e Jacó são agora apenas as essências mais sutis que se possam imaginar, incapazes de manchar o céu da manhã. Vosso esquema deve ser a armação do universo; todos os demais esquemas logo estarão em ruínas. O Deus perfeito, em suas revelações de si mesmo, jamais chegou ao comprimento de uma única proposição como as que vós, seus profetas, enunciais. Aprendestes o alfabeto do céu e sabeis contar até três? Sabeis o número dos membros da família de Deus? Podeis pôr mistérios em palavras? Ousais fabular sobre o inefável? Dizei, por favor, que geógrafo sois, para falar da topografia do céu? De quem sois amigo, para falar da personalidade de Deus? Vós, Miles Howard, pensais que ele vos fez seu confidente? Dizei-me a altura das montanhas da Lua, ou o diâmetro do espaço, e talvez eu acredite em vós; mas contai-me a história secreta do Todo-Poderoso, e eu vos declararei louco. Contudo, temos uma espécie de história familiar de nosso Deus, assim como os taitianos têm a do deles, e a grandiosa imaginação de algum antigo poeta nos é imposta como verdade adamantina e eterna, e como palavra do próprio Deus! Pitágoras diz, com bastante justeza: “Uma afirmação verdadeira a respeito de Deus é uma afirmação de Deus”; mas podemos muito bem duvidar que haja na literatura qualquer exemplo disso.
O Novo Testamento é um livro inestimável, embora eu confesse ter sido, em meus primeiros anos, ligeiramente predisposto contra ele pela igreja e pela escola dominical, de modo que, antes de lê-lo, parecia ser o livro mais amarelecido do catálogo. No entanto, cedo escapei de suas malhas. Foi difícil tirar os comentários da cabeça e saborear seu verdadeiro gosto. Penso que O Peregrino é o melhor sermão já pregado a partir desse texto; quase todos os outros sermões que ouvi, ou de que ouvi falar, não passaram de pobres imitações dele. Seria uma história lamentável criar preconceito contra a Vida de Cristo porque o livro foi editado por cristãos. Na verdade, amo este livro de maneira rara, embora para mim seja uma espécie de castelo no ar que me é permitido sonhar. Como cheguei a ele tão recentemente e com tanta novidade, possui ainda maior encanto, de modo que não encontro com quem conversar a seu respeito. Nunca leio romances, tão pouca vida e pensamento verdadeiros há neles. A leitura que mais amo são as escrituras das diversas nações, embora aconteça de eu conhecer melhor as dos hindus, chineses e persas do que as dos hebreus, às quais cheguei por último. Dai-me uma dessas Bíblias, e me tereis silenciado por algum tempo. Quando recobro o uso da língua, costumo atormentar meus vizinhos com as novas sentenças; mas, em geral, eles não conseguem perceber nelas qualquer engenho. Essa tem sido minha experiência com o Novo Testamento. Ainda não cheguei à crucificação, tantas vezes o reli. Eu adoraria lê-lo em voz alta a meus amigos, alguns dos quais têm inclinações sérias; é tão bom, e estou certo de que nunca o ouviram, ajusta-se exatamente ao caso deles, e nós o apreciaríamos tanto juntos, mas instintivamente desespero de alcançar-lhes os ouvidos. Logo demonstram, por sinais que não se podem confundir, que isso lhes é inexprimivelmente enfadonho. Não pretendo insinuar que eu seja melhor do que meus vizinhos; pois, ai de mim, sei que sou apenas tão bom quanto eles, embora ame livros melhores do que os que eles amam.
É notável que, apesar do favor universal com que o Novo Testamento é exteriormente recebido, e até do fanatismo com que é defendido, não se demonstre hospitalidade alguma, nem apreço algum, pela ordem de verdade de que ele trata. Não conheço livro que tenha tão poucos leitores. Não há nenhum tão verdadeiramente estranho, herético e impopular. Para os cristãos, não menos que para gregos e judeus, ele é loucura e pedra de tropeço. Há nele, de fato, coisas severas que nenhum homem deveria ler em voz alta mais de uma vez. “Buscai primeiro o reino dos céus.” “Não ajunteis para vós tesouros na terra.” “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu.” “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma? Ou que dará o homem em troca de sua alma?” Pensem nisso, ianques! “Em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará; e nada vos será impossível.” Imaginem repetir essas coisas a um público da Nova Inglaterra! Em terceiro lugar, em quarto, em décimo quinto, até haver três barris de sermões! Quem pode lê-las em voz alta sem afetação? Quem pode ouvi-las sem afetação e não sair da casa de reuniões? Elas nunca foram lidas, nunca foram ouvidas. Basta que uma dessas sentenças seja lida como deve, de qualquer púlpito do país, e não ficará pedra sobre pedra naquela casa de reuniões.
Ainda assim, o Novo Testamento trata de modo demasiado exclusivo do homem e dos chamados assuntos espirituais do homem, e é moral e pessoal com excessiva constância para, sozinho, satisfazer a mim, que não me interesso unicamente pela natureza religiosa ou moral do homem, nem sequer pelo homem. Não tenho projetos muito definidos para o futuro. Falando em termos absolutos, Fazei aos outros o que quereis que vos façam não é, de modo algum, uma regra de ouro, mas a melhor prata em circulação. Um homem honesto teria pouca ocasião de recorrer a ela. O que é de ouro, em tal caso, é não ter regra alguma. Nunca se escreveu o livro que deva ser aceito sem ressalva. Cristo foi um ator sublime no palco do mundo. Sabia no que pensava quando disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.” Nesses momentos, aproximo-me dele. Contudo, ensinou à humanidade apenas imperfeitamente como viver; todos os seus pensamentos se dirigiam a outro mundo. Há outra espécie de êxito além do seu. Mesmo aqui temos de ganhar alguma forma de vida e pelejar por ela um pouco mais. Restam diversos problemas árduos a resolver, e precisamos nos arranjar para viver, entre o espírito e a matéria, a vida humana que nos for possível.
Um homem saudável, com emprego constante, como cortar lenha a cinquenta centavos a corda, e um acampamento no bosque, não será bom objeto para o cristianismo. O Novo Testamento pode ser para ele um livro escolhido em alguns dias, mas não em todos, nem na maioria deles. Nas horas vagas, preferirá ir pescar. Os Apóstolos, embora também fossem pescadores, pertenciam à solene raça dos pescadores do mar e nunca pescaram lúcios de corrico em cursos d’água do interior.
Os homens têm o singular desejo de ser bons sem serem bons para coisa alguma, porque talvez pensem vagamente que, assim, no fim, isso lhes fará bem. A espécie de moral que os sacerdotes inculcam é uma política muito sutil, muito mais refinada que a dos políticos, e o mundo é governado por eles com grande êxito, como se fossem seus policiais. Não vale a pena deixar que nossas imperfeições nos perturbem sempre. A consciência, na verdade, não monopoliza nem deve monopolizar toda a nossa vida, mais do que o coração ou a cabeça. Está tão sujeita a adoecer quanto qualquer outra parte. Vi pessoas cuja consciência, sem dúvida em consequência de indulgências anteriores, tornara-se tão irritável quanto uma criança mimada e, por fim, não lhes dava sossego. Não sabiam quando engolir de novo o bolo ruminado, e suas vidas, como era natural, não davam leite algum.
A consciência é instinto criado dentro de casa,
Sentimento e Pensamento propagam o pecado
Por um cruzamento antinatural, sempre consanguíneo.
Eu digo: ponham-na porta afora,
No ermo, sem demora.
Amo uma vida de enredo simples,
Que não se adensa a cada espinha,
Uma alma tão sã que nenhuma consciência enfermiça a prende,
Que não deixa o universo pior do que o encontra.
Amo uma alma sincera,
Cuja poderosa alegria e tristeza
Não se afogam numa tigela
Para amanhã voltarem à vida;
Que vive uma tragédia,
E não setenta;
Uma consciência que valha guardar,
Rindo, sem chorar;
Uma consciência sábia e firme,
E para sempre pronta;
Que não muda com os eventos,
Nem trafica cumprimentos;
Uma consciência exercitada em
Grandes coisas, nas quais se pode duvidar.
Amo uma alma que não seja toda de madeira,
Predestinada a ser boa,
Mas fiel até a medula
Somente a si mesma,
E falsa com ninguém;
Nascida para seus próprios assuntos,
Suas alegrias e seus cuidados;
Por quem a obra que Deus começou
É concluída, e não desfeita;
Retomada onde ele a deixou,
Seja para adorar ou escarnecer;
Se não boa, então má,
Se não bom deus, bom diabo.
Bondade! Hipócrita, saia daí,
Viva sua vida, faça seu trabalho, depois pegue o chapéu.
Não tenho paciência com
Tais covardes conscienciosos.
Dê-me gente simples e trabalhadora,
Que ame seu trabalho,
Cuja virtude seja uma canção
Para animar Deus pelo caminho.
Certa vez fui repreendido por um ministro que conduzia uma pobre besta até os abrigos de cavalos de alguma casa de reuniões, entre as colinas de New Hampshire, porque eu dirigia meus passos para o cume de uma montanha no Sabbath, em vez de para uma igreja, quando teria ido mais longe do que ele para ouvir uma palavra verdadeira proferida naquele ou em qualquer outro dia. Declarou que eu estava “violando o quarto mandamento do Senhor” e passou a enumerar, em tom sepulcral, os desastres que lhe haviam sucedido sempre que fizera qualquer trabalho comum no Sabbath. Ele realmente julgava que um deus estava à espreita para fazer tropeçar os homens que se ocupassem de qualquer trabalho secular naquele dia, e não percebia que era a má consciência dos trabalhadores que o fazia. O país está cheio dessa superstição, de modo que, quando se entra numa aldeia, a igreja, não apenas de fato, mas também por associação, é o edifício de aspecto mais feio, pois é aquele em que a natureza humana mais se rebaixa e mais se desonra. Sem dúvida, templos assim não tardarão a deixar de deformar a paisagem. Poucas coisas são mais desalentadoras e repugnantes do que, ao caminhar pelas ruas de uma aldeia desconhecida no Sabbath, ouvir um pregador bradar como um contramestre num vendaval e, assim, profanar asperamente a atmosfera tranquila do dia. Imaginamos que tenha tirado o casaco, como fazem os homens quando estão prestes a executar um trabalho quente e sujo.
Se eu pedisse ao ministro de Middlesex que me deixasse falar em seu púlpito num domingo, ele se oporia, porque não oro como ele ou porque não sou ordenado. Que coisas são essas, afinal?
Na verdade, hoje em dia não há infidelidade maior do que aquela que ora, guarda o Sabbath e reconstrói igrejas. O caçador de focas do Pacífico Sul prega doutrina mais verdadeira. A igreja é uma espécie de hospital para a alma dos homens e tão cheia de charlatanismo quanto o hospital para seus corpos. Os que nela são acolhidos vivem como pensionistas em seu Retiro ou no Porto Acolhedor dos Marinheiros, onde se pode ver uma fileira de aleijados religiosos sentados do lado de fora em dias de sol. Que a apreensão de um dia talvez ter de ocupar uma enfermaria ali não desanime os alegres labores do homem de alma vigorosa. Enquanto se lembra dos enfermos em seus extremos, que não olhe para lá como se fosse seu destino. Dá enjoo essa adoração de pagodes. É como o soar de gongos num templo hindu subterrâneo. Em lugares escuros e masmorras, talvez as palavras do pregador pudessem criar raízes e crescer, mas não à luz ampla do dia, em parte alguma do mundo que eu conheça. O som distante do sino do Sabbath, que agora rompe sobre estas margens, não desperta associações agradáveis, mas antes melancólicas e sombrias. Sem querer, repousamos o remo para ceder a esse estado de espírito incomumente meditativo. É como o som de muitos catecismos e livros religiosos repicando ao redor da Terra um toque afetado e santarrão, que parece sair de algum templo egípcio e ecoar pela margem do Nilo, bem diante do palácio do Faraó e de Moisés entre os juncos, espantando uma multidão de cegonhas e crocodilos que se aquecem ao sol.
Por toda parte, os “homens bons” dão o toque de retirada, e corre a ordem de recuar para a inocência. Antes avancem para o que quer que haja ali. O cristianismo apenas espera. Pendurou sua harpa nos salgueiros e não consegue cantar uma canção em terra estrangeira. Sonhou um sonho triste e ainda não saúda a manhã com alegria. A mãe conta falsidades ao filho, mas, graças ao Céu, a criança não cresce à sombra da mãe. A fé de nossa mãe não cresceu com sua experiência. Sua experiência foi demais para ela. A lição da vida era difícil demais para que a aprendesse.
É notável que quase todos os oradores e escritores sintam ser seu dever, cedo ou tarde, provar ou reconhecer a personalidade de Deus. Algum conde de Bridgewater, julgando antes tarde do que nunca, tomou providências para isso em seu testamento. É um erro lamentável. Ao ler uma obra sobre agricultura, temos de saltar as reflexões morais do autor e as palavras “Providência” e “Ele” espalhadas pela página para chegar ao nível proveitoso do que ele tem a dizer. Aquilo que chama de religião é, em grande parte, ofensivo às narinas. Deveria saber que não convém expor-se assim e manter suas chagas fétidas cobertas até que estejam completamente curadas. Há mais religião na ciência dos homens do que ciência em sua religião. Apressemo-nos a chegar ao relatório da comissão dos porcos.
A fé real de um homem nunca está contida em seu credo, nem seu credo é um artigo de sua fé. Esta última nunca é adotada. É isso que lhe permite sorrir sempre e viver com a bravura que vive. E, no entanto, ele se agarra ansiosamente a seu credo, como a uma palha, pensando que esta lhe presta bom serviço porque sua âncora mestra não garra.
Na religião da maioria dos homens, a ligadura que deveria ser o cordão umbilical a ligá-los à divindade assemelha-se antes ao fio que os cúmplices de Cílon seguravam nas mãos ao saírem do templo de Minerva, enquanto a outra ponta permanecia presa à estátua da deusa. Mas muitas vezes, como no caso deles, o fio se rompe ao ser esticado, e eles ficam sem asilo.
“Um homem bom e piedoso reclinou a cabeça no seio da contemplação e mergulhou no oceano de um devaneio. No instante em que despertou de sua visão, um de seus amigos, em tom de gracejo, perguntou: Que raro presente nos trouxeste daquele jardim onde estiveste te recreando? Ele respondeu: Imaginei e disse a mim mesmo que, quando chegasse ao roseiral, encheria o regaço de flores e as traria de presente a meus amigos; mas, ao chegar lá, a fragrância das rosas me embriagou de tal modo que a aba de minha veste me caiu das mãos. ‘Ó pássaro da alvorada! Aprende com a mariposa o ardor da afeição, pois aquela criatura abrasada entregou a alma sem soltar um gemido. Esses vãos pretendentes ignoram aquele a quem buscam, pois daquele que o conheceu nunca mais ouvimos notícia. Ó tu, que te elevas acima dos voos da conjectura, da opinião e da compreensão, tudo quanto de ti se relatou nós ouvimos e lemos; a congregação se dispersa, a vida chega ao fim, e ainda permanecemos em nosso primeiro louvor de ti!’” Sadi.
Ao meio-dia, fomos baixados até o Merrimack pelas eclusas de Middlesex, logo acima das quedas de Pawtucket, por um homem sereno e de espírito liberal, que se afastou tranquilamente de seu livro, embora suas obrigações, supúnhamos, não exigissem que abrisse as eclusas aos domingos. Com ele tivemos um encontro justo e igual dos olhares, como entre dois homens honestos.
Os movimentos dos olhos exprimem a cortesia perpétua e inconsciente das partes. Diz-se que um patife não olha você de frente, mas tampouco um homem honesto o encara como se tivesse de firmar a própria reputação. Tenho visto alguns que não sabiam quando desviar os olhos ao encontrar os seus. Um espírito verdadeiramente confiante e magnânimo tem sabedoria bastante para não disputar o domínio em semelhantes encontros. Somente as serpentes vencem pela firmeza do olhar. Meu amigo me olha de frente e me vê, só isso.
As melhores relações se estabeleceram de imediato entre nós e aquele homem e, embora poucas palavras fossem ditas, ele não conseguia esconder um interesse visível por nós e por nossa excursão. Era amante da matemática superior, como descobrimos, e se achava no meio de algum vasto e ensolarado problema quando o alcançamos e lhe sussurramos nossas conjecturas. Por esse homem recebemos a liberdade do Merrimack. Sentíamo-nos agora como se tivéssemos sido devidamente lançados na corrente oceânica de nossa viagem e nos alegrava descobrir que nosso barco flutuaria nas águas do Merrimack. Recomeçamos então, atarefados, a pôr em prática aquelas antigas artes de remar, governar e manejar a pagaia. Parecia-nos um fenômeno estranho que os dois rios misturassem suas águas com tamanha facilidade, pois jamais os havíamos associado em nossos pensamentos.
Enquanto deslizávamos sobre o largo peito do Merrimack, entre Chelmsford e Dracut, ao meio-dia, onde ele tinha um quarto de milha de largura, o estrépito de nossos remos ecoava sobre a água até aquelas aldeias, e seus leves rumores chegavam até nós. Em nossa imaginação, seus portos jaziam tão lisos e feéricos quanto o Lido, Siracusa ou Rodes, enquanto nós, como alguma estranha embarcação errante, passávamos fugazes pelo que pareciam ser as moradas de nobres homens afeitos ao lar, aparentemente tão destacados como se estivessem sobre uma elevação, ou flutuassem numa maré que subisse até o peito daqueles aldeões. A um terço de milha, através da água, ouvimos nitidamente algumas crianças recitando o catecismo numa casa próxima da margem, enquanto, nos largos baixios entre nós, um rebanho de vacas permanecia açoitando os flancos e travando guerra contra as moscas.
Duzentos anos atrás, outro tipo de catequização ocorria aqui; pois para cá vinham o sachem Wannalancet e seu povo, e às vezes Tahatawan, nosso sachem de Concord, que mais tarde teria uma igreja em sua terra, para pescar nas quedas; e para cá também vinha John Eliot, com a Bíblia e o Catecismo, o Chamado aos Não Convertidos, de Baxter, e outros opúsculos vertidos para a língua de Massachusetts, e nesse meio-tempo lhes ensinava o cristianismo. “Este lugar”, diz Gookin, referindo-se a Wamesit,
“sendo uma antiga e principal sede dos indígenas, eles vêm pescar; e este bom homem aproveita a ocasião para lançar a rede do evangelho e pescar-lhes as almas.” “Em 5 de maio de 1674”, prossegue ele, “segundo nosso costume habitual, o sr. Eliot e eu empreendemos nossa jornada até Wamesit, ou Pawtuckett; e, chegando ali naquela tarde, o sr. Eliot pregou a tantos deles quantos foi possível reunir, com base em Mateus xxii, 1-14, a parábola das bodas do filho do rei. Reunimo-nos no wigwam de um homem chamado Wannalancet, a cerca de duas milhas da cidade, perto das quedas de Pawtuckett e à margem do rio Merrimak. Esse Wannalancet é o filho mais velho do velho Pasaconaway, o principal sachem de Pawtuckett. É pessoa sóbria e grave, de idade entre cinquenta e sessenta anos. Sempre foi afetuoso e amistoso para com os ingleses.” Até então, porém, não haviam conseguido persuadi-lo a abraçar a religião cristã. “Mas nessa ocasião”, diz Gookin, “em 6 de maio de 1674, depois de alguma deliberação e séria pausa, ele se levantou e fez um discurso deste teor: ‘Devo reconhecer que passei todos os meus dias numa velha canoa, aludindo ao seu hábito frequente de atravessar o rio de canoa, e agora vocês me exortam a mudar, a deixar minha velha canoa e embarcar numa canoa nova, coisa à qual até hoje não me dispus; mas agora me entrego ao conselho de vocês, entro numa canoa nova e me comprometo a orar a Deus daqui em diante.’” Um certo “sr. Richard Daniel, cavalheiro que vivia em Billerica”, presente com outras “pessoas de qualidade”, “pediu ao irmão Eliot que dissesse ao sachem, de sua parte, que talvez, enquanto seguia em sua velha canoa, ele navegasse por uma corrente tranquila; mas o fim dela era morte e destruição para a alma e o corpo. Agora, porém, ele entrava numa canoa nova; talvez encontrasse tempestades e provações, mas ainda assim deveria ser encorajado a perseverar, pois o fim de sua viagem seria o repouso eterno.” “Desde então, ouvi dizer que esse sachem persevera, é ouvinte constante e diligente da palavra de Deus e santifica o sábado, embora viaje até a reunião de Wamesit todos os sábados, percurso de mais de duas milhas; e embora vários de seu povo o tenham abandonado desde que se submeteu ao evangelho, ele continua e persiste.” Coleções Históricas de Gookin sobre os Indígenas da Nova Inglaterra, 1674.
Já antes disso, como consta dos registros, “num Tribunal Geral realizado em Boston, na Nova Inglaterra, no sétimo dia do primeiro mês de 1643-4”, “Wassamequin, Nashoonon, Kutchamaquin, Massaconomet e Squaw Sachem submeteram-se voluntariamente” aos ingleses; e, entre outras coisas, “prometeram mostrar-se dispostos, de tempos em tempos, a ser instruídos no conhecimento de Deus”. Ao lhes pedirem “que não fizessem trabalho desnecessário no dia de sábado, sobretudo dentro dos limites das cidades cristãs”, responderam: “Isso lhes é fácil; não têm muito que fazer em dia algum e podem muito bem descansar nesse dia.” “Assim”, diz Winthrop em seu Diário, “tendo nós feito com que compreendessem os artigos e todos os dez mandamentos de Deus, e tendo eles livremente assentido a tudo, foram solenemente recebidos; então ofereceram ao Tribunal mais vinte e seis braças de wampum; e o Tribunal deu a cada um deles um casaco de duas jardas de tecido e seu jantar; e a eles e a seus homens, a cada qual, uma taça de sack na despedida; assim se despediram e partiram.”
Que jornadas a pé e a cavalo através da natureza selvagem, para pregar o Evangelho a estes visons e ratos-almiscarados! Eles que, de início, sem dúvida escutaram com suas orelhas vermelhas por natural hospitalidade e cortesia, e depois por curiosidade ou até interesse, até que por fim houve “indígenas que oravam” e, como escreveu o Tribunal Geral a Cromwell, “a obra foi levada a tal perfeição que alguns dos próprios indígenas podem orar e profetizar de maneira consoladora”.
Era de fato um antigo campo de batalha e de caça aquele pelo qual vínhamos flutuando, antiga morada de uma raça de caçadores e guerreiros. Seus açudes de pedra, suas pontas de flecha e machadinhas, seus pilões e os almofarizes em que socavam milho indígena antes que o homem branco o tivesse provado jaziam ocultos na lama do leito do rio. A tradição ainda assinala os lugares onde apanhavam peixes em maior quantidade, por meio das artes de que dispunham. É uma história veloz que o historiador terá de compor. Miantonimo, Winthrop, Webster. Logo ele passa de Montaup a Bunker Hill, de peles de urso, milho tostado, arcos e flechas, a telhados de telha, campos de trigo, armas de fogo e espadas. Pawtucket e Wamesit, para onde os indígenas acorriam na temporada de pesca, são agora Lowell, a cidade dos fusos e a Manchester da América, que envia seu tecido de algodão ao redor do globo. Até nós, jovens viajantes, havíamos passado parte de nossa vida na aldeia de Chelmsford, quando a cidade atual, cujos sinos ouvíamos, era apenas seu obscuro distrito setentrional, e o tecelão gigante ainda mal nascera. Tão velhos somos nós; tão jovem é ela.
Entrávamos assim no Estado de New Hampshire sobre o peito da enchente formada pelo tributo de seus inumeráveis vales. O rio era a única chave capaz de abrir seu labirinto, apresentando suas colinas e seus vales, seus lagos e seus cursos d’água, em sua ordem e posição naturais. O MERRIMACK, ou rio do Esturjão, é formado pela confluência do Pemigewasset, que nasce perto do desfiladeiro das White Mountains, e do Winnipiseogee, que drena o lago do mesmo nome, cujo significado é “O Sorriso do Grande Espírito”. Da junção de ambos, corre para o sul por setenta e oito milhas até Massachusetts, e dali para o leste por trinta e cinco milhas até o mar. Segui seu curso desde onde brota borbulhando das rochas das White Mountains, acima das nuvens, até onde se perde entre as ondas salgadas do oceano na praia de Plum Island. A princípio, avança murmurando consigo mesmo ao pé de montanhas majestosas e retiradas, através de matas primitivas e úmidas, cujos sucos recebe, onde o urso ainda bebe de suas águas, as cabanas dos colonos são muito espaçadas e poucos atravessam sua corrente; fruindo em solidão suas cascatas ainda desconhecidas da fama; passando pelas longas cadeias das montanhas de Sandwich e Squam, que dormem como túmulos de Titãs, com os picos de Moosehillock, Haystack e Kearsarge refletidos em suas águas; onde o bordo e a framboeseira, esses amantes das colinas, florescem em meio a orvalhos temperados; correndo longa e plena de significado, mas intraduzível como seu nome, Pemigewasset, junto a muitos Pélios e Ossas cobertos de pastagens, frequentados por musas sem nome, servidas por Oréades, Dríades e Náiades, e recebendo o tributo de muitas Hipocrenes jamais provadas. Há terra, ar, fogo e água; muito bem, isto é água, e eis que ela desce.
Tal água destilam os deuses,
E a vertem por todas as colinas
Para seus homens da Nova Inglaterra;
Trazei-me um gole desse néctar selvagem,
E já não provarei a fonte
Do Hélicon.
Caindo por todo o caminho e, contudo, sem se desalentar com a queda mais baixa. Pela lei de seu nascimento, jamais há de estagnar, pois saiu das nuvens e desceu pelas encostas de precipícios sulcados pelo dilúvio, atravessou represas de castores que se soltaram, não se partindo, mas emendando e recompondo a si mesma, até encontrar um lugar onde respirar nesta terra baixa. Já não há perigo de que o sol a furte de volta ao céu antes que alcance o mar, pois ela tem autorização até para recuperar em seu peito os próprios orvalhos, acrescidos de juros a cada entardecer.
Já era sobre as águas de Squam, de Newfound Lake e de Winnipiseogee, e sobre a neve dissolvida das White Mountains, que flutuávamos; águas dos rios Smith’s, Baker’s e Mad, do Nashua, Souhegan e Piscataquoag, do Suncook, Soucook e Contoocook, misturadas em proporções incalculáveis, todas ainda fluidas, amareladas, inquietas, com uma antiga e inerradicável inclinação para o mar.
Assim ele prossegue, descendo por Lowell e Haverhill, lugar em que pela primeira vez sofre uma transformação marinha e alguns mastros denunciam a proximidade do oceano. Entre as cidades de Amesbury e Newbury, é um largo rio comercial, com largura de um terço a meia milha, já não margeado por barrancos amarelos e esboroantes, mas tendo ao fundo altas colinas verdes e pastagens, com frequentes praias brancas nas quais os pescadores recolhem suas redes. Já desci esse trecho do rio num barco a vapor, e era agradável contemplar do convés os pescadores arrastando suas redes de cerco na margem distante, como em pinturas de alguma praia estrangeira. A intervalos, pode-se encontrar uma escuna carregada de madeira navegando rio acima para Haverhill, ou então fundeada ou encalhada, à espera do vento ou da maré; até que, por fim, deslizamos sob a famosa Chain Bridge e desembarcamos em Newburyport. Assim, aquela que de início era “pobre de águas, despida de renome”, depois de receber tantos belos tributários, como se disse do Forth,
“Maior se torna ainda quanto mais desce;
Até que, abundante em poder e fama,
Por longo tempo luta para dar ao mar seu nome”;
ou, se não seu nome, neste caso, ao menos o impulso de sua corrente. Dos campanários de Newburyport, pode-se contemplar esse rio estendendo-se para muito longe pelo interior, com muitas velas brancas a cintilar sobre ele como num mar interior, e ver, como escreveu alguém nascido em suas cabeceiras: “Lá embaixo, em sua foz, a escura vastidão cor de tinta fundindo-se com o azul acima. Plum Island, suas cristas de areia recortando-se ao longo do horizonte como a serpente marinha, e o contorno distante interrompido por muitos navios altos, inclinados, imóveis, contra o céu.”
Nascendo à mesma altitude que o Connecticut, o Merrimack alcança o mar por um curso de apenas metade da extensão e, por isso, não dispõe de tempo para formar prados largos e férteis como o primeiro, mas é impelido por corredeiras e desce numerosas quedas, sem grande demora. As margens são em geral íngremes e altas, com uma estreita faixa que se estende até as colinas, hoje apenas rara ou parcialmente inundada, e muito valorizada pelos agricultores. Entre Chelmsford e Concord, em New Hampshire, sua largura varia de vinte a setenta e cinco rods. É provavelmente mais largo do que outrora em muitos lugares, devido ao corte das árvores e ao consequente desgaste de suas margens. A influência da Represa de Pawtucket faz-se sentir rio acima até as Quedas de Cromwell, e muitos pensam que, por essa causa, as margens estão sendo erodidas e o rio volta a encher-se de sedimentos. Como todos os nossos rios, está sujeito a cheias repentinas, e sabe-se que o Pemigewasset já subiu vinte e cinco pés em poucas horas. É navegável para embarcações de carga por cerca de vinte milhas; para barcos de canal, por meio de eclusas, até Concord, em New Hampshire, cerca de setenta e cinco milhas de sua foz; e para barcos menores até Plymouth, cento e treze milhas. Um pequeno barco a vapor já fazia o trajeto entre Lowell e Nashua, antes da construção da ferrovia, e hoje um deles navega de Newburyport a Haverhill.
Em certa medida impróprio para o comércio devido ao banco de areia em sua foz, vede como esse rio foi desde o princípio consagrado ao serviço das manufaturas. Saindo da região ferrífera de Franconia e correndo por florestas ainda não derrubadas, junto a inexauríveis afloramentos de granito, tendo os lagos Squam, Winnipiseogee, Newfound e Massabesic por reservatórios de moinho, ele despenca por uma sucessão de represas naturais, onde por eras ofereceu em vão seus privilégios, até que enfim veio a raça ianque aprimorá-los. Parado em sua foz, olhai para cima, por seu curso cintilante, até a nascente, uma cascata de prata que desce sem cessar das Montanhas Brancas ao mar, e contemplai uma cidade em cada planalto sucessivo, uma colônia laboriosa de castores humanos em torno de cada queda. Sem falar em Newburyport e Haverhill, vede Lawrence, Lowell, Nashua, Manchester e Concord, reluzindo umas acima das outras. Quando finalmente escapa de sob a última fábrica, tem uma passagem plana e desimpedida até o mar, mera água de descarte, por assim dizer, levando consigo pouco além de sua fama; seu curso agradável revelado pela névoa matinal que paira sobre ele e pelas velas das poucas embarcações pequenas que realizam o comércio de Haverhill e Newburyport. Mas suas verdadeiras embarcações são os vagões ferroviários, e seu curso verdadeiro e principal, fluindo mais ao sul por um canal de ferro, pode ser seguido por uma longa linha de vapor entre as colinas, que nenhum vento da manhã jamais dispersa, até onde deságua no mar, em Boston. É desse lado que vem agora o rumor mais alto. Em lugar do grito de uma águia-pescadora a espantar os peixes, ouve-se o apito da locomotiva, despertando um país para o progresso.
Também este rio foi por fim descoberto pelo homem branco, “penetrando terra adentro”, não se sabia até onde, talvez uma enseada do Mar do Sul. Seu vale, até o Winnipiseogee, foi levantado pela primeira vez em 1652. Os primeiros colonos de Massachusetts supunham que o Connecticut, em certa parte de seu curso, corresse para noroeste, “tão perto do grande lago que os indígenas transportam por terra até ele suas canoas”. Desse lago e dos “pavorosos pântanos” ao seu redor, segundo imaginavam, vinham todos os castores comercializados entre a Virgínia e o Canadá, e pensava-se que o Potomac nascesse nele ou muito perto dele. Mais tarde, o Connecticut passou tão perto do curso do Merrimack que, com algum esforço, esperavam desviar para este último a corrente do comércio e transferir os lucros dos vizinhos holandeses para os próprios bolsos.
Ao contrário do Concord, o Merrimack não é uma corrente morta, mas viva, embora haja menos vida em suas águas e margens. Tem correnteza rápida e, nesta parte do curso, fundo argiloso, quase nenhuma vegetação aquática e relativamente poucos peixes. Olhávamos para suas águas amarelas com curiosidade ainda maior, acostumados que estávamos à negrura, semelhante à do Nilo, do rio anterior. Sáveis e arenques-de-rio são apanhados aqui em sua estação, mas os salmões, embora outrora mais numerosos que os sáveis, agora são mais raros. Robalos também são capturados ocasionalmente; mas eclusas e represas mostraram-se mais ou menos destrutivas para a pesca. Os sáveis aparecem no início de maio, ao mesmo tempo que as flores do Pyrus, uma das mais vistosas florações precoces, chamada por isso de flor-do-sável. Um inseto chamado mosca-do-sável também surge na mesma época, cobrindo casas e cercas. Dizem-nos que “sua maior passagem ocorre quando as macieiras estão em plena floração. Os sáveis adultos retornam em agosto; os jovens, com três ou quatro polegadas de comprimento, em setembro. Estes gostam muito de moscas”. Um modo bastante pitoresco e luxuoso de pescar era outrora praticado no Connecticut, em Bellows Falls, onde uma grande rocha divide a corrente. “Nas encostas íngremes da rocha insular”, diz Belknap, “pendem várias poltronas, presas a escadas e sustentadas por um contrapeso, nas quais os pescadores se sentam para apanhar salmões e sáveis com puçás”. Restos de barragens indígenas de pesca, feitas com grandes pedras, ainda podem ser vistos no Winnipiseogee, uma das cabeceiras deste rio.
Não pode deixar de influir favoravelmente em nossa filosofia a lembrança desses cardumes de peixes migratórios, salmões, sáveis, arenques-de-rio, marsh-bankers e outros, que na primavera sobem os inumeráveis rios de nossa costa, chegando até os lagos do interior, com as escamas reluzindo ao sol; e, novamente, a dos alevinos que, em número ainda maior, seguem caminho rio abaixo para o mar. “E não é um belo divertimento”, escreveu o capitão John Smith, que esteve nesta costa já em 1614, “puxar para cima dois pence, seis pence e doze pence, tão depressa quanto se pode recolher e soltar uma linha?” “E que divertimento proporciona satisfação mais agradável, com menos dano ou despesa, do que pescar com anzol e cruzar o ar suave de ilha em ilha, sobre as correntes silenciosas de um mar tranquilo?”
Na margem arenosa, diante da aldeia de Glass-house, em Chelmsford, na Grande Curva onde desembarcamos para descansar e colher algumas ameixas silvestres, descobrimos a Campanula rotundifolia, uma flor nova para nós, a campânula dos poetas, comum aos dois hemisférios, crescendo junto à água. Ali, entre os ramos sombreados de uma macieira sobre a areia, fizemos nossa pausa do meio-dia, onde nem um zéfiro perturbava o repouso daquele glorioso dia de sabá, e refletimos serenamente sobre os longos e bem-sucedidos trabalhos de Latona.
“Tão imóvel está o ar quieto,
Que todo grito e chamado
Pelas colinas, vales e belo bosque
É de novo ecoado.
“Os rebanhos sob árvores frondosas,
Entre as flores estão deitados,
Os navios imóveis sobre os mares
Erguem as velas para secá-las.”
Enquanto assim descansávamos à sombra ou remávamos sem pressa, recorríamos de tempos em tempos ao Gazetteer, que era nosso Navegador, e de seus fatos naturais, secos e desnudos, extraíamos o prazer da poesia. O rio Beaver entra um pouco mais abaixo, drenando os prados de Pelham, Windham e Londonderry. Segundo essa autoridade, os colonos escoceses-irlandeses da última cidade foram os primeiros a introduzir a batata em New England, assim como a fabricação de tecido de linho.
Tudo o que é impresso e encadernado num livro contém ao menos algum eco do que há de melhor na literatura. Na verdade, os melhores livros têm uma utilidade, como paus e pedras, que está acima ou ao lado de seu propósito, não prevista no prefácio nem concluída no apêndice. Até a poesia de Virgílio me serve hoje de modo muito diverso daquele em que serviu a seus contemporâneos. Muitas vezes ela possui apenas um valor adquirido e acidental, provando que o homem ainda é homem no mundo. É agradável encontrar versos tranquilos como estes:
“Jam læto turgent in palmite gemmæ”;
Agora os brotos intumescem no ramo jubiloso.
ou
“Strata jacent passim sua quæque sub arbore poma”;
As maçãs jazem espalhadas por toda parte, cada qual sob sua árvore.
Numa língua antiga e morta, qualquer reconhecimento da natureza viva nos atrai. São frases como as que foram escritas enquanto a relva crescia e a água corria. Não é pequena recomendação que um livro resista à prova da simples luz do sol e do dia, sem obstáculos.
O que não daríamos por algum grande poema para ler agora, que estivesse em harmonia com a paisagem, pois, se os homens lessem corretamente, creio que nunca leriam senão poemas. Nenhuma história ou filosofia pode ocupar-lhes o lugar.
A mais sábia definição de poesia será imediatamente desmentida pelo poeta, que deixará de lado seus requisitos. Podemos, portanto, publicar apenas nosso anúncio dela.
Não há dúvida de que a mais elevada sabedoria escrita ou é rimada, ou de algum modo medida musicalmente, isto é, poesia tanto na forma quanto na substância; e um volume que contivesse a sabedoria condensada da humanidade não precisaria ter uma única linha sem ritmo.
No entanto, a poesia, embora seja o último e mais fino resultado, é um fruto natural. Tão naturalmente quanto o carvalho produz uma bolota e a videira uma cabaça, o homem produz um poema, falado ou realizado. É seu êxito principal e mais memorável, pois a história não passa de uma narrativa em prosa de feitos poéticos. Que mais fizeram os hindus, os persas, os babilônios, os egípcios que se possa contar? Ela é a relação mais simples dos fenômenos e descreve as sensações mais comuns com mais verdade do que a ciência, que, à distância, imita lentamente seu estilo e seus métodos. O poeta canta como o sangue corre em suas veias. Cumpre suas funções e está tão bem que, para cantar, não precisa de estímulo maior do que as plantas para lançarem folhas e flores. Esforçar-se-ia em vão para modular a música remota e transitória que por vezes ouve, pois seu canto é uma função vital como a respiração, e um resultado integral como o peso. Não é o transbordamento da vida, mas antes sua sedimentação, e é extraído de sob os pés do poeta. Basta que Homero diga que o sol se põe. Ele é tão sereno quanto a natureza, e mal conseguimos detectar o entusiasmo do bardo. É como se a natureza falasse. Ele nos apresenta os quadros mais simples da vida humana, de modo que a própria criança pode compreendê-los, e o homem não precisa pensar duas vezes para apreciar sua naturalidade. Cada leitor descobre por si mesmo que, no que diz respeito aos traços mais simples da natureza, os poetas posteriores pouco mais fizeram do que copiar suas comparações. Suas passagens mais memoráveis são naturalmente luminosas como lampejos de sol em tempo enevoado. A natureza lhe fornece não apenas palavras, mas linhas e frases estereotipadas cunhadas em sua própria casa da moeda.
“Como dentre as nuvens aparece a lua cheia,
Toda resplandecente, e depois volta a ocultar-se atrás das nuvens sombrias,
Assim Heitor ora surgia entre os primeiros,
Ora na retaguarda, dando ordens; e todo em bronze
Reluzia, como o raio de Zeus porta-égide.”
Ele transmite a menor informação, até mesmo a hora do dia, com tamanha magnificência e tão vasto dispêndio de imagens naturais, como se fosse uma mensagem dos deuses.
“Enquanto era aurora e avançava o dia sagrado,
Durante esse tempo voavam rápidas as armas de ambos, e o povo tombava;
Mas quando o lenhador já preparava sua refeição matinal,
Nos recessos da montanha, e fatigara as mãos
Cortando árvores altaneiras, e a saciedade lhe vinha ao espírito,
E o desejo do doce alimento lhe tomava os pensamentos;
Então os dânaos, por seu valor, romperam as falanges,
Bradando aos companheiros de fileira em fileira.”
Quando o exército dos troianos passou a noite em armas, vigiando para que o inimigo não reembarcasse sob a proteção das trevas,
“Eles, pensando grandes coisas, no terreno neutro da guerra
Permaneceram sentados toda a noite; e muitas fogueiras ardiam para eles.
Como quando, nos céus, as estrelas em torno da lua brilhante
Aparecem belas, e o ar não tem vento;
E todas as alturas e os cumes extremos,
E as encostas arborizadas das montanhas aparecem; e dos céus
Se difunde um éter infinito,
E todas as estrelas são vistas, e o pastor se alegra no coração;
Assim, entre os navios e as correntes do Xanto,
Apareciam diante de Ílion as fogueiras dos troianos.
Mil fogueiras ardiam na planície, e junto a cada uma
Sentavam-se cinquenta, à luz do fogo flamejante;
E os cavalos, comendo cevada branca e trigo,
De pé junto aos carros, aguardavam Aurora de belo trono.”
A “deusa Juno de alvos braços”, enviada pelo Pai dos deuses e dos homens em busca de Íris e Apolo,
“Desceu das montanhas do Ida ao distante Olimpo,
Como quando a mente de um homem que percorreu muitas terras
Se lança adiante, e ele reflete com pensamentos velozes:
Ali estive, e ali, e recorda muitas coisas;
Assim, tão depressa, a augusta Juno, apressando-se, voou pelo ar
E chegou ao alto Olimpo.”
Sua paisagem é sempre verdadeira, e não inventada. Ele não salta, na imaginação, da Ásia para a Grécia, pelo ar,
ἐπειὴ μάλα πολλὰ μεταξύ
Ὄυρεά τε σκιοέντα, θαλάσσα τε ἠχήεσσα.
pois há muitíssimos entre nós,
Montes sombrios e mares retumbantes.
Se seus mensageiros apenas se dirigem à tenda de Aquiles, não nos perguntamos como chegaram até lá, mas os acompanhamos passo a passo pela orla do mar retumbante. O relato de Nestor sobre a marcha dos pílios contra os epeus é extremamente vívido:
“Então se ergueu entre eles Nestor, de doces palavras, o orador de voz penetrante dos
Pílios,
E de sua língua fluíram palavras mais doces que o mel.”
Desta vez, porém, ele se dirige somente a Pátroclo: “Certo rio, de nome Mínias, precipita-se para o mar perto de Arene, onde nós, pílios, aguardamos a aurora, tanto a cavalaria como a infantaria. Dali partimos na manhã seguinte com toda a pressa, antes que fosse meio-dia, armados para o combate, até a fonte sagrada do Alfeu”, etc. Imaginamos ouvir, durante toda a noite, o murmúrio abafado do Mínias despejando suas águas no oceano e o som cavernoso das ondas quebrando na praia, até que enfim, ao término de uma marcha fatigante, somos alentados pelas fontes borbulhantes do Alfeu.
Poucos livros são dignos de ser lembrados em nossas horas mais sábias, mas a Ilíada resplandece mais nos dias mais serenos e ainda encerra toda a luz solar que incidiu sobre a Ásia Menor. Nenhuma alegria ou êxtase modernos podem rebaixar sua altura ou ofuscar seu brilho; ela jaz ali, no oriente da literatura, como se fosse a primeira e a última produção do espírito. As ruínas do Egito nos oprimem e sufocam com sua poeira, imundície preservada em cássia e piche e envolta em linho; a morte daquilo que nunca viveu. Mas os raios da poesia grega lutam para chegar até nós e se misturam aos raios de sol do dia recente. A estátua de Mêmnon foi derrubada, mas a haste da Ilíada ainda encontra o sol ao nascer.
“Homero se foi; e onde está Jove? e onde
As sete cidades rivais? Seu canto sobrevive
Ao tempo, à torre e ao deus, a tudo quanto então existia, salvo o Céu.”
Assim também, sem dúvida, Homero teve seu Homero, e Orfeu seu Orfeu, na obscura antiguidade que os precedeu. O sistema mitológico dos antigos, que ainda é a mitologia dos modernos, o poema da humanidade, tão maravilhosamente entretecido com sua astronomia e comparável, em grandeza e harmonia, à própria arquitetura dos céus, parece apontar para um tempo em que um gênio mais poderoso habitava a terra. Mas, afinal, o homem é o grande poeta, e não Homero nem Shakespeare; e nossa própria linguagem, bem como as artes comuns da vida, são obra sua. A poesia é tão universalmente verdadeira e tão independente da experiência que não necessita de nenhuma biografia particular para ilustrá-la; ainda assim, cedo ou tarde a remetemos a algum Orfeu ou Lino e, depois de muitas eras, ao gênio da humanidade e aos próprios deuses.
Valeria a pena escolher nossas leituras, pois os livros são a companhia que mantemos; ler somente o que é serenamente verdadeiro; nunca estatísticas, ficção, notícias, relatórios ou periódicos, mas apenas grandes poemas e, quando estes se esgotassem, lê-los de novo ou talvez escrever outros. Em lugar de outro sacrifício, poderíamos oferecer diariamente aos deuses nossos pensamentos perfeitos (τελεία), em hinos ou salmos. Pois deveríamos estar ao leme pelo menos uma vez por dia. O dia inteiro não deveria ser diurno; deveria haver uma hora, ainda que apenas uma, que o dia não tivesse dado à luz. Os eruditos costumam vender seu direito de primogenitura por um prato de saber. Mas será necessário conhecer o que o especulador imprime, ou o que os irrefletidos estudam, ou os ociosos leem, a literatura dos russos e dos chineses, ou mesmo a filosofia francesa e grande parte da crítica alemã? Leiam primeiro os melhores livros, ou talvez não tenham oportunidade de lê-los jamais. “Há os adoradores com oferendas e os adoradores com mortificações; e há também os adoradores com devoção entusiástica; assim também há aqueles cuja sabedoria de leitura constitui sua adoração, homens de paixões subjugadas e costumes austeros; este mundo não é para aquele que não adora; e onde, ó Arjoon, haverá outro?” Certamente não precisamos ser sempre acalmados e entretidos como crianças. Aquele que recorre ao romance fácil por estar lânguido não faz melhor do que se tirasse uma soneca. A face frontal dos grandes pensamentos só pode ser desfrutada por aqueles que se colocam do lado de onde eles chegam. Livros que não nos proporcionem um prazer encolhido, mas nos quais cada pensamento seja de uma ousadia incomum; livros que um homem ocioso não consiga ler e nos quais um tímido não encontre divertimento, livros que cheguem até a nos tornar perigosos para as instituições existentes, a esses chamo bons livros.
Nem tudo o que é impresso e encadernado constitui livro; tais coisas não pertencem necessariamente às letras e, com maior frequência, devem ser classificadas entre os demais luxos e acessórios da vida civilizada. Mercadorias vis são impingidas sob mil disfarces. “A maneira de comerciar”, como certa vez me disse um mascate, “é empurrar a coisa até o fim”, não importa o que seja, qualquer coisa que tenha sido combinada.
“Vós, mundanos rastejantes, cuja sabedoria trafica
Onde a luz jamais lançou seu raio dourado.”
Graças à escrita hábil e ao ofício da pena, livros são astutamente compilados e têm seu curso e sucesso até entre os eruditos, como se resultassem do pensamento de um homem novo e seu nascimento viesse acompanhado de dores naturais. Mas, em pouco tempo, suas capas se soltam, pois nenhuma encadernação os salvará, e fica evidente que não são Livros nem Bíblias. Há invenções novas e patenteadas sob essa forma, que se apresentam como destinadas à elevação da raça, pelas quais muitos estudiosos puros e muitos gênios que aprenderam a ler se deixam enganar por um instante e descobrem estar lendo, quem sabe, um ancinho mecânico, uma máquina de fiar, uma noz-moscada de madeira, um charuto de folha de carvalho, uma prensa a vapor ou um fogão de cozinha, quando buscavam verdades serenas e bíblicas.
“Mercadores, levantai-vos,
E misturai consciência à vossa mercadoria.”
O papel é barato, e hoje os autores não precisam apagar um livro antes de escrever outro. Em vez de cultivar a terra para obter trigo e batatas, cultivam a literatura e ocupam um lugar na República das Letras. Ou gostariam de escrever apenas pela fama, assim como outros chegam de fato a plantar cereais para destilá-los em aguardente. Em sua maior parte, os livros são escritos deliberada e apressadamente, como partes de um sistema, para suprir uma necessidade real ou imaginada. Os livros de história natural costumam aspirar a ser listas sumárias ou inventários dos bens de Deus, feitos por algum escriturário. Não ensinam em absoluto a visão divina da natureza, mas a visão popular, ou melhor, o método popular de estudar a natureza, e se apressam em conduzir o aluno perseverante apenas até aquele dilema em que os professores sempre habitam.
“De toga vai a Atenas, e daquela escola
Volta sem êxito, um tolo mais instruído.”
Ensinam, na verdade, os elementos da ignorância, não do conhecimento, pois, falando deliberadamente e à vista das verdades mais elevadas, não é fácil distinguir o conhecimento elementar. Há entre o conhecimento e a ignorância um abismo que os arcos da ciência jamais poderão transpor. Um livro deveria conter descobertas puras, vislumbres de terra firma, ainda que avistados por marinheiros naufragados, e não a arte da navegação ensinada por aqueles que nunca perderam a terra de vista. Eles não devem produzir trigo e batatas, mas ser, eles próprios, a colheita livre e natural da vida de seus autores.
“O que aprendi é meu; tive meu pensamento,
E a mim as Musas ensinaram nobres verdades.”
Não aprendemos muito com livros eruditos, mas com livros verdadeiros, sinceros, humanos, com biografias francas e honestas. A vida de um homem bom dificilmente nos aperfeiçoará mais que a vida de um salteador, pois as leis inevitáveis aparecem com igual clareza na transgressão e na observância, e nossas vidas se sustentam por um dispêndio quase igual de alguma espécie de virtude. A árvore em decomposição, enquanto ainda vive, exige sol, vento e chuva tanto quanto a verde. Segrega seiva e desempenha as funções da saúde. Se quisermos, podemos estudar apenas o alburno. O toco nodoso tem um broto tão tenro quanto a muda.
Ao menos tenhamos livros saudáveis, um ancinho mecânico robusto ou um fogão de cozinha sem rachaduras. Que o poeta não derrame lágrimas somente pelo bem público. Ele deve ser vigoroso como um bordo-açucareiro, com seiva suficiente para manter a própria verdura, além daquela que corre para os cochos, e não como uma videira que, cortada na primavera, não dá fruto, mas sangra até morrer no esforço de cicatrizar suas feridas. Poeta é aquele que tem gordura bastante, como ursos e marmotas, para chupar as patas durante todo o inverno. Ele hiberna neste mundo e se alimenta da própria medula. Gostamos de pensar, no inverno, enquanto caminhamos pelos pastos cobertos de neve, naqueles felizes sonhadores que jazem sob a relva, nos arganazes e em toda essa raça de criaturas dormentes, que possuem tamanho excedente de vida envolto em espessas dobras de pelo, impermeáveis ao frio. Ah, também o poeta é, em certo sentido, uma espécie de arganaz recolhido aos quartéis de inverno de pensamentos profundos e serenos, insensível às circunstâncias ao redor; suas palavras são o relato de sua memória mais antiga e mais refinada, uma sabedoria extraída da experiência mais remota. Enquanto isso, outros homens levam uma existência faminta, como falcões que gostariam de permanecer sempre em voo e confiam em apanhar um pardal de vez em quando.
Já existem ensaios e poemas, frutos desta terra, que não são inúteis, embora pudéssemos guardar todos comodamente na gaveta de nosso baú. Se os deuses permitissem que sua própria inspiração fosse soprada em vão, tais obras poderiam passar despercebidas em meio à multidão; mas os acentos da verdade acabarão sendo ouvidos na terra com a mesma certeza que no céu. Já parecem antigos e, em certa medida, perderam os vestígios de seu nascimento moderno. Aqui estão aqueles que
“pedem aquilo que é a luz de toda a nossa vida,
A visão perpétua, verdadeira e clara.”
Lembro-me de algumas frases que brotam como a relva em seu pasto nativo, onde suas raízes jamais foram perturbadas, e não como se tivessem sido estendidas sobre um aterro arenoso; frases que respondem à prece do poeta:
“Fixemos um valor tão justo
Ao conhecimento, que o mundo possa confiar
Na sentença do poeta e não afirmar sempre
Que cada arte é aduladora de si mesma.”
Mas, acima de tudo, em nosso porto natal, não frequentávamos os jogos pacíficos do Liceu, a partir dos quais uma nova era será datada para a Nova Inglaterra, tal como a partir dos jogos da Grécia? Pois, se Heródoto levou sua história a Olímpia para lê-la depois do cesto e da corrida, não ouvimos ali histórias recitadas, que depois nossos compatriotas leram, capazes de às vezes fazer esquecer a própria Grécia? A Filosofia também possui ali seu bosque e seu pórtico, não inteiramente desfrequentados nestes dias.
Recentemente, o vencedor a quem todos os Píndaros louvaram conquistou outra palma, competindo com
“Bardos olímpicos que cantaram
Ideias divinas cá embaixo,
Que sempre nos encontram jovens
E sempre assim nos conservam.”
Que terra ou mar, montanha ou corrente, fonte ou bosque das Musas está a salvo de seu olhar ardente, que tudo perscruta, ele que se afasta da trilha batida de Febo, visita zonas inusitadas, faz arder os gélidos hiperbóreos, contorcer-se a velha serpente polar e muitos Nilos recuarem e esconderem a cabeça!
Esse Faetonte de nossos dias,
Que faria outra Via Láctea
E queimaria o mundo com seu raio;
Por nós tido como vidente inconteste,
Que conduziria seu carro em chamas tão perto
De nossa trêmula esfera mortal,
Desonrando todo o nosso escasso valor
E abrasando a terra viva
Para provar seu nascimento celestial.
Os raios de prata, o aro dourado,
Ardem com fogo insólito,
E cada vez mais perto rolam, mais perto;
Os pinos e o eixo estão derretidos,
Os raios de prata voam ao longe,
Ah, ele arruinará o carro do Pai!
Quem lhe entregou os corcéis que ele não sabe guiar?
Doravante o sol não brilhará por um ano;
E todos nós pareceremos etíopes.
De seus
“lábios hábeis caiu
O eletrizante oráculo délfico.”
E, no entanto, às vezes,
Não nos importaria que em nossos ouvidos caísse
Um pouco menos de engenho, um pouco mais de oráculo.
É Apolo que brilha em vosso rosto. Ó raro Contemporâneo, dai-nos calores vindos de longe. Dai-nos a beleza mais sutil, mais celestial, embora fugaz, que atravessa tudo de lado a lado e não se instala no verso; água pura, que apenas reflete os matizes que o vinho traz em sua substância. Que soprem os alísios épicos e cesse esta valsa de inspirações. Que sintamos com maior frequência, sobre o rosto, até mesmo o suave vento sudoeste que sopra do céu dos indígenas. Que importa perdermos mil meteoros do céu, se permanecem as profundezas celestes, a poeira estelar e as nebulosas indissolúveis? Que importa perdermos mil respostas sábias do oráculo, se em troca pudermos ter alguns hectares naturais de solo jônico?
Embora saibamos bem,
“Que não está no poder dos reis [ou presidentes] suscitar
Um espírito para o verso que para ele não nasceu,
Nem eles nascem em todos os dias de um príncipe”;
contudo, apesar de tudo o que cantaram em louvor ao “reinado de Eliza”, temos provas de que poetas podem nascer e cantar em nossos dias, na presidência de James K. Polk,
“E que os supremos poderes da rima inglesa”
Não estavam “confinados ao seu reinado pacífico.”
A profecia do poeta Daniel já foi cumprida muito além do que se poderia imaginar!
“E quem sabe, no tempo, para onde poderemos levar
O tesouro de nossa língua? A que estranhas praias
Será enviado esse ganho de nossa melhor glória,
Para enriquecer nações ignorantes com nossos haveres?
Que mundos, no Ocidente ainda informe,
Poderão ser refinados pelos acentos que são nossos.”
Já se falou bastante, nestes tempos, sobre o encanto da escrita fluente. Ouvimos queixar-se de algumas obras de gênio por terem belos pensamentos, mas serem irregulares e não terem fluidez. Contudo, até os picos das montanhas no horizonte são, aos olhos da ciência, partes de uma mesma cadeia. Deveríamos considerar que o fluxo do pensamento se parece mais com uma onda de maré do que com um rio que corre em declive, e que resulta de uma influência celeste, não de qualquer inclinação em seu leito. O rio corre porque desce a encosta, e corre tanto mais depressa quanto mais depressa desce. O leitor que espera flutuar corrente abaixo durante toda a viagem bem pode se queixar das ondulações nauseantes e do mar picado quando sua frágil embarcação costeira se vê entre as vagas da corrente oceânica, que flui tanto em direção ao sol e à lua quanto os rios menores fluem em direção a ela. Mas, se quisermos apreciar o fluxo que há nesses livros, devemos esperar senti-lo erguer-se da página como uma exalação e levar de enxurrada nosso cérebro crítico, como se fossem pedras de moinho, correndo para níveis mais altos, acima e atrás de nós. Há muitos livros que ondulam como uma cheia súbita e correm com a mesma desenvoltura de um canal de moinho tragado por baixo de uma ponte; e, quando seus autores estão na maré cheia de seu discurso, Pitágoras, Platão e Jâmblico param ao lado deles. Suas frases longas, fibrosas e viscosas têm tal consistência que naturalmente fluem e se juntam umas às outras. Leem-se como se tivessem sido escritas para militares, para homens de negócios, tamanha é a rapidez que há nelas. Comparados com estes, os pensadores graves e os filósofos parecem não ter ainda despido as faixas da infância; são mais lentos do que um exército romano em marcha, cuja retaguarda acampa esta noite onde a vanguarda acampou na noite anterior. O sábio Jâmblico forma remoinhos e lampeja como um pântano aquoso.
“Quantos milhares jamais ouviram o nome
De Sidney, ou de Spenser, ou de seus livros?
E no entanto são bravos sujeitos, e aspiram à fama,
E parecem subjugar o mundo inteiro com o olhar.”
O escritor desembaraçado empunha a pena e brada: Avante! Álamo e Fanning! E atrás dele rola a maré da guerra. As próprias muralhas e cercas parecem viajar. Mas o trote mais veloz, afinal, não é fluxo algum; e até lá, leitor, você e eu, ao menos, não o seguiremos.
Uma frase perfeitamente saudável, é verdade, é extremamente rara. Na maior parte das vezes, perdemos a tonalidade e a fragrância do pensamento, como se pudéssemos nos satisfazer com os orvalhos da manhã ou da tarde sem suas cores, ou com os céus sem seu azul. As frases mais atraentes talvez não sejam as mais sábias, mas as mais seguras e completas. São ditas com firmeza e de modo conclusivo, como se quem fala tivesse o direito de saber o que diz; e, se não são sábias, ao menos foram bem aprendidas. Sir Walter Raleigh bem poderia ser estudado apenas pela excelência de seu estilo, pois se destaca em meio a tantos mestres. Há uma ênfase natural em seu estilo, como o passo de um homem, e um intervalo para respirar entre as frases, que a melhor escrita moderna não oferece. Seus capítulos são como parques ingleses, ou melhor, como uma floresta do Oeste, onde as árvores maiores contêm o matagal e se pode cavalgar pelas clareiras. Todos os escritores ilustres daquele período possuem maior vigor e naturalidade do que os modernos, pois nos é permitido difamar nosso próprio tempo, e, quando lemos uma citação de um deles em meio a um autor moderno, parece que de repente chegamos a um terreno mais verde, a um solo mais profundo e forte. É como se um ramo verde fosse posto atravessado sobre a página, e nos sentimos renovados como à vista de relva fresca em pleno inverno ou no começo da primavera. Temos constantemente a garantia da vida e da experiência naquilo que lemos. O pouco que se diz é completado pela implicação do muito que se fez. As frases são verdejantes e floridas como plantas perenes e flores, porque estão enraizadas em fatos e experiência, mas nossas frases falsas e floreadas têm apenas as tonalidades das flores, sem sua seiva nem suas raízes. Todos os homens são, na verdade, atraídos sobretudo pela beleza da fala simples, e chegam mesmo a escrever em estilo floreado para imitá-la. Preferem ser mal compreendidos a ficar aquém de sua exuberância. Hussein Effendi elogiou ao viajante francês Botta o estilo epistolar de Ibrahim Pasha por causa “da dificuldade de compreendê-lo; havia”, disse ele, “apenas uma pessoa em Jidda capaz de entender e explicar a correspondência do Pasha”. A vida inteira de um homem é exigida para que se faça bem a menor coisa. Ela é seu resultado líquido. Cada frase é o resultado de uma longa provação. Onde procuraremos o inglês exemplar, senão nas palavras de um homem exemplar? A palavra dita da melhor maneira foi a que mais perto esteve de não ser dita, pois é parenta de um ato que quem fala poderia ter realizado melhor. Não, quase se diria que, por alguma necessidade urgente, até por alguma desgraça, ela teve de tomar o lugar de um ato, de modo que o escritor mais verdadeiro será, afinal, algum cavaleiro cativo. E talvez os destinos tivessem esse desígnio quando, tendo enriquecido Raleigh tão abundantemente com a substância da vida e da experiência, fizeram dele um prisioneiro sem saída e o obrigaram a transformar suas palavras em atos, transferindo para sua expressão a ênfase e a sinceridade de sua ação.
Os homens têm pela erudição e pelo saber um respeito muito desproporcional à utilidade que eles costumam prestar. Diverte-nos ler que Ben Jonson se comprometeu a fazer com que as insípidas máscaras destinadas a entreter a família real e a nobreza fossem “fundadas na Antiguidade e em sólido saber”. Pode haver censura maior do que um saber ocioso? Aprenda ao menos a rachar lenha. Raramente se recorda como deveria a necessidade que o estudioso tem do trabalho e da convivência com muitos homens e muitas coisas; o trabalho constante com as mãos, que também absorve a atenção, é sem dúvida o melhor método de retirar da fala e da escrita a tagarelice e o sentimentalismo. Se trabalhou arduamente da manhã à noite, embora talvez tenha lamentado não poder acompanhar durante esse tempo o curso de seus pensamentos, ainda assim as poucas linhas apressadas que ao anoitecer registram a experiência de seu dia serão mais musicais e verdadeiras do que lhe poderia ter oferecido sua fantasia mais livre, porém ociosa. Por certo o escritor deve se dirigir a um mundo de trabalhadores, e essa, portanto, deve ser sua própria disciplina. Não dançará ociosamente em torno do trabalho aquele que tem lenha para cortar e empilhar antes do anoitecer nos curtos dias de inverno; cada golpe será poupado e ressoará sobriamente pelo bosque; e assim os golpes da pena daquele estudioso, que ao anoitecer registram a história do dia, soarão sóbrios e ainda assim alegres aos ouvidos do leitor, muito depois de terem morrido os ecos de seu machado. O estudioso pode estar certo de que escreve a verdade mais resistente por causa dos calos nas palmas das mãos. Eles dão firmeza à frase. Na verdade, a mente nunca realiza um esforço grande e bem-sucedido sem uma energia correspondente do corpo. Muitas vezes nos surpreende a força e a precisão de estilo que homens trabalhadores, sem prática na escrita, alcançam facilmente quando precisam fazer o esforço. Como se a simplicidade, o vigor e a sinceridade, os ornamentos do estilo, fossem mais bem aprendidos na fazenda e na oficina do que nas escolas. As frases escritas por mãos tão rudes são vigorosas e resistentes, como correias curtidas, os tendões do cervo ou as raízes do pinheiro. Quanto às graças da expressão, um grande pensamento nunca é encontrado em trajes vis; mas, ainda que saia dos lábios dos uolofes, as nove Musas e as três Graças terão conspirado para vesti-lo com frase adequada. Sua educação sempre foi liberal, e o engenho que traz implícito pode dotar uma faculdade. O mundo, que os gregos chamavam de Beleza, tornou-se tal por ter sido pouco a pouco despojado de todo ornamento que não fosse feito para durar. A Sibila, “falando com boca inspirada, sem sorriso, sem adorno e sem perfume, atravessa os séculos pelo poder do deus”. O estudioso poderia muitas vezes imitar a propriedade e a ênfase do chamado do lavrador à sua junta, e confessar que, se tal chamado fosse escrito, ultrapassaria suas frases laboriosas. De quem são as frases verdadeiramente trabalhadas? Dos períodos fracos e frágeis do político e do homem de letras, voltamo-nos de bom grado até para a descrição do trabalho, para o simples registro das tarefas do mês no almanaque do lavrador, a fim de restaurar nosso ânimo e nosso vigor. Uma frase deveria soar como se seu autor, caso tivesse segurado um arado em vez de uma pena, pudesse ter aberto um sulco fundo e reto até o fim. O estudioso necessita de trabalho duro e sério para dar impulso ao pensamento. Assim aprenderá a segurar a pena com firmeza e a manejá-la com graça e eficácia, como um machado ou uma espada. Quando consideramos os períodos fracos e sem nervo de certos homens de letras que, talvez, em pés e polegadas atinjam a medida de sua raça e tampouco sejam deficientes em circunferência, ficamos assombrados com o imenso sacrifício de músculos e tendões. Como! Estas proporções, estes ossos, e este é o trabalho deles! Mãos que poderiam ter derrubado um boi talharam esta matéria frágil, que não teria exigido esforço dos dedos de uma dama! Pode ser este o trabalho de um homem robusto, que tem medula nas costas e um tendão de Aquiles no calcanhar? Aqueles que ergueram os blocos de Stonehenge fizeram alguma coisa, ainda que apenas tenham despendido sua força uma vez e se esticado por inteiro.
Contudo, afinal, o trabalhador verdadeiramente eficiente não abarrotará seu dia de trabalho, mas caminhará sem pressa até sua tarefa, cercado por um amplo halo de comodidade e lazer, e então fará apenas aquilo que mais ama. Preocupa-se somente com os grãos fecundos do tempo. Ainda que a galinha passasse o dia inteiro no ninho, poderia pôr apenas um ovo e, além disso, não teria recolhido matéria para outro. Que um homem reserve tempo suficiente para o ato mais trivial, ainda que seja apenas aparar as unhas. Os brotos incham imperceptivelmente, sem pressa nem confusão, como se os breves dias da primavera fossem uma eternidade.
Então passa uma era aguçando teu desejo,
Não precisas apressar-te se permaneces firme.
Há horas que não parecem propícias a ato algum, mas a resoluções nas quais se toma fôlego. Não passamos diretamente à execução do propósito que nos estremece, mas fechamos as portas atrás de nós e vagueamos com a mente preparada, como se metade já estivesse feita. Nossa resolução então lança raízes ou se prende à terra, como as sementes que primeiro enviam para baixo um broto alimentado por seu próprio albúmen, antes de enviar outro para cima, em direção à luz.
Há em alguns livros uma espécie de verdade caseira e naturalidade muito rara de encontrar, embora pareça coisa bastante barata. Pode não haver nada de elevado no sentimento, nem de refinado na expressão, mas é conversa despreocupada do campo. A simplicidade doméstica é quase tão grande mérito num livro quanto numa casa, caso o leitor queira morar ali. Vem logo depois da beleza, e é uma arte muito elevada. Alguns possuem apenas esse mérito. O erudito não costuma fazer com que sua experiência mais familiar venha, com graça, em auxílio de sua expressão. Pouquíssimos homens conseguem falar da Natureza, por exemplo, com alguma verdade. De um modo ou de outro, ultrapassam o recato dela e não lhe prestam favor algum. Não dizem uma boa palavra em seu benefício. A maioria grita melhor do que fala, e pode-se extrair deles mais natureza apertando-os do que dirigindo-lhes a palavra. A rudeza com que o lenhador fala de seus bosques, manejando-os com a mesma indiferença com que maneja o machado, é melhor do que o entusiasmo melífluo do amante da natureza. Melhor que a prímula à beira do rio seja uma prímula amarela, e nada mais, do que seja algo menos. Aubrey conta, a respeito de Thomas Fuller, que ele tinha “uma cabeça muito ativa, a tal ponto que, caminhando e meditando antes do jantar, comia um pão de um penny sem perceber que o fazia. Sua memória natural era muito grande, e a ela acrescentou a arte da memória. Era capaz de recitar, de frente para trás e de trás para frente, todas as tabuletas de Ludgate a Charing Cross”. Diz a respeito do sr. John Hales que “ele gostava de Canárias” e foi enterrado “sob um monumento de altar em mármore negro, com um epitáfio longo demais”; de Edmund Halley, que “aos dezesseis anos sabia fazer um relógio de sol, e então, dizia ele, julgava-se um sujeito valente”; de William Holder, que escreveu um livro sobre a cura de certo Popham, surdo e mudo, que “não ficou em dívida com autor algum; consultou somente a natureza”. Em geral, um autor consulta apenas todos os que escreveram antes dele sobre um assunto, e seu livro não passa do conselho de tantos outros. Mas um bom livro jamais terá sido antecipado; o próprio tema será, em certo sentido, novo, e seu autor, consultando a natureza, consultará não apenas os que vieram antes, mas também os que talvez venham depois. Há sempre espaço e ocasião suficientes para um livro verdadeiro sobre qualquer assunto, assim como há espaço para mais luz no dia mais claro, e novos raios não interferirão nos primeiros.
Assim fomos abrindo caminho rio acima, ajustando gradualmente nossos pensamentos às novidades, contemplando, de seu seio plácido, uma nova natureza e novas obras dos homens e, como que com confiança crescente, descobrindo que a natureza continuava habitável, benigna e propícia a nós; não seguíamos trilha batida alguma, mas as curvas do rio, que eram sempre o caminho mais direto para nós. Felizmente, não tínhamos negócio algum naquela região. O Concord raramente fora um rio, ou rivus, mas apenas fluvius, ou algo entre fluvius e lacus. Este Merrimack não era rivus, nem fluvius, nem lacus, mas antes amnis ali, uma correnteza que se avolumava suavemente e rolava majestosa rumo ao mar. Podíamos até simpatizar com sua maré animosa, que ia buscar fortuna no oceano, e antecipar o tempo em que, “recebida na planície de suas águas mais livres”, haveria de “golpear as praias em lugar das margens”:
“campoque recepta
Liberioris aquæ, pro ripis litora pulsant.”
Por fim, contornamos uma ilhota baixa e coberta de arbustos, chamada Rabbit Island, submetida alternadamente ao sol e às ondas, tão desolada como se estivesse a algumas léguas dentro do mar gelado, e nos vimos numa parte mais estreita do rio, perto dos galpões e pátios onde se selecionava a pedra conhecida como granito de Chelmsford, extraída em Westford e nas cidades vizinhas. Passamos pela ilha Wicasuck, que contém setenta acres ou mais, à nossa direita, entre Chelmsford e Tyngsborough. Era uma morada predileta dos indígenas. Segundo a História de Dunstable, “Por volta de 1663, o filho mais velho de Passaconaway [chefe dos Penacooks] foi lançado na prisão por uma dívida de £45, contraída com John Tinker por um homem de sua tribo e cujo pagamento ele prometera verbalmente. Para libertá-lo da prisão, seu irmão Wannalancet e outros, proprietários da ilha Wicasuck, venderam-na e pagaram a dívida”. A ilha, contudo, foi devolvida aos indígenas pelo Tribunal Geral em 1665. Depois da partida dos indígenas, em 1683, foi concedida a Jonathan Tyng como pagamento por seus serviços à colônia, ao manter uma guarnição em sua casa. A casa de Tyng ficava não muito longe das quedas de Wicasuck. Gookin, que, em sua Epístola Dedicatória a Robert Boyle, desculpa-se por apresentar sua “matéria vestida com trajes do ermo”, diz que, quando eclodiu a guerra de Philip, em 1675, foram detidos pelos indígenas cristãos e pelos ingleses em Marlborough, e enviados a Cambridge, sete “indígenas pertencentes a Narragansett, Long Island e Pequod, os quais haviam trabalhado todos por cerca de sete semanas para certo sr. Jonathan Tyng, de Dunstable, às margens do rio Merrimack; e, ao ouvirem falar da guerra, acertaram as contas com o patrão e, recebidos os salários, afastaram-se sem seu conhecimento e, com medo, marcharam secretamente pelos bosques, pretendendo regressar à própria terra”. Foram, porém, soltos pouco depois. Tais eram os trabalhadores contratados naqueles dias. Tyng foi o primeiro colono permanente de Dunstable, que então abrangia o que hoje é Tyngsborough e muitas outras cidades. No inverno de 1675, durante a guerra de Philip, todos os demais colonos deixaram a cidade, mas “ele”, diz o historiador de Dunstable, “fortificou sua casa; e, embora ‘obrigado a mandar buscar em Boston seus alimentos’, instalou-se em meio a seus inimigos selvagens, sozinho, no ermo, para defender seu lar. Julgando sua posição importante para a defesa das fronteiras, em fevereiro de 1676 pediu auxílio à Colônia”, mostrando humildemente, como diz sua petição, que, por viver “na casa mais acima do rio Merrimac, exposta ao inimigo, mas situada de tal modo que é, por assim dizer, uma casa de vigia para as cidades vizinhas”, poderia prestar serviço importante ao país caso recebesse alguma ajuda, “não havendo”, dizia ele, “um único habitante deixado na cidade além de mim”. Por isso, solicitava que suas “Honras se dignassem ordenar que lhe fossem enviados três ou quatro homens para ajudar a guarnecer a dita casa”, o que fizeram. Mas parece-me que semelhante guarnição seria enfraquecida pelo acréscimo de um homem.
“Faze do mastim teu vigia, a ladrar ao ladrão,
Faze da coragem, por tua vida, capitão;
Faze do alçapão baluarte, do sino o sinal,
Faze bala e flecha mostrarem quem está no local.”
Assim conquistou o título de primeiro colono permanente. Em 1694, aprovou-se uma lei “segundo a qual todo colono que abandonasse uma cidade por medo dos indígenas perderia todos os direitos que ali possuísse”. Mas agora, de todo modo, como tenho observado com frequência, um homem pode abandonar por medo de inimigos muito mais insignificantes os férteis territórios fronteiriços da verdade e da justiça, que são as melhores terras do Estado, sem perder nenhum de seus direitos civis sobre eles. Não, concedem-se municípios a desertores, e o Tribunal Geral, como às vezes me inclino a considerá-lo, não passa ele próprio de um acampamento de desertores.
Enquanto remávamos junto à margem da ilha Wicasuck, então coberta de mata, a fim de evitar a correnteza, dois homens, que pareciam ter acabado de fugir de Lowell, onde o sábado os apanhara numa emboscada, e que pretendiam ir a Nashua, viram-se agora na parte estranha, natural, inculta e despovoada do globo que fica entre as duas cidades, cheia de muros e barreiras, um lugar áspero e incivil para eles. Ao verem nosso barco subindo a corrente com tanta suavidade, gritaram da barranca elevada sobre nossas cabeças para saber se os aceitaríamos como passageiros, como se aquela fosse a rua que haviam perdido; assim poderiam sentar-se, conversar, passar o tempo e, por fim, descobrir-se em Nashua. Preferiam muito aquele caminho suave. Mas nosso barco estava abarrotado de utensílios necessários, afundava bastante na água e, além disso, precisava ser impulsionado, pois nem ele avançava contra a corrente sem esforço; por isso fomos obrigados a negar-lhes passagem. Enquanto deslizávamos para longe com remadas regulares, e os destinos espalhavam óleo em nosso caminho, com o sol já descendo atrás dos amieiros da margem distante, ainda podíamos vê-los ao longe, do outro lado da água, correndo pela margem e escalando rochas e árvores tombadas como insetos, pois não sabiam, assim como nós não sabíamos, que estavam numa ilha, enquanto o rio indiferente fluía sempre na direção oposta. Até que, chegando à entrada do riacho da ilha, que provavelmente haviam atravessado pelas comportas abaixo, encontraram uma barreira mais eficaz ao seu avanço. Pareciam aprender muito em pouco tempo. Corriam de um lado para outro como formigas sobre um tição em brasa e, mais uma vez, experimentaram o rio aqui, depois ali, para verificar se de fato ainda não era possível caminhar sobre a água, como se um novo pensamento os inspirasse e eles pudessem conseguir isso mediante alguma disposição peculiar dos membros. Por fim, o sóbrio senso comum pareceu retomar o domínio, e concluíram que aquilo que ouviam havia tanto tempo devia ser verdade, resolvendo atravessar a vau o curso d’água mais raso. Quando já estávamos a quase uma milha de distância, podíamos vê-los tirando a roupa e preparando-se para a experiência; mas parecia provável que surgisse um novo dilema, pois, sem pensar, atiravam as roupas no lado errado do riacho, como no caso do camponês com seu milho, sua raposa e seu ganso, que precisavam ser transportados um de cada vez. Nunca soubemos se conseguiram atravessar em segurança ou se deram a volta pelas comportas. Não pudemos deixar de nos impressionar com a aparente, embora inocente, indiferença da Natureza às necessidades daqueles homens, enquanto em outra parte ela servia igualmente a outros. Como verdadeira benfeitora, o segredo de seu serviço é a imutabilidade. Assim, o comerciante mais atarefado, embora à vista de sua Lowell, é reduzido aos expedientes de peregrino e logo chega ao bordão, ao alforje e à concha de vieira.
Nós também, que seguíamos pelo meio da corrente, estivemos perto de conhecer o destino de um peregrino, tentados a perseguir o que parecia ser um esturjão ou peixe maior, pois nos lembrávamos de que aquele era o rio do Esturjão, com seu dorso escuro e monstruoso erguendo-se e afundando alternadamente no meio da corrente. Continuávamos ficando para trás, mas o peixe mantinha o dorso bem exposto, não mergulhava e parecia preferir nadar contra a corrente; assim, pelo menos, não escaparia de nós saindo para o mar. Por fim, quando chegamos tão perto quanto era conveniente, atentos para não receber uma pancada de sua cauda, o artilheiro da proa disparou sua carga, enquanto o homem da popa manteve a posição. Mas o monstro de pele de linguado, num desses momentos grávidos que deslizam depressa, sem jamais interromper seu movimento para cima e para baixo, achou por bem, sem risadinha nem outro prelúdio, revelar-se uma enorme verga aprisionada, colocada ali como boia para advertir os navegantes de rochas submersas. Então, cada qual lançando parte da culpa sobre o outro, retiramo-nos depressa para águas mais seguras.
O Maquinista de Cena achou por bem encerrar ali o drama daquele dia, sem consideração por nenhuma das unidades que nós, mortais, prezamos. Não podemos dizer se teria resultado em tragédia, comédia, tragicomédia ou pastoral. Aquele domingo terminou com o pôr do sol, deixando-nos ainda sobre as ondas. Mas os que estão sobre a água desfrutam de um crepúsculo mais longo e luminoso do que os que estão em terra, pois ali a água, assim como a atmosfera, absorve e reflete a luz, e parte do dia parece ter afundado nas ondas. A luz abandonou aos poucos a água profunda, assim como o ar mais profundo, e o lusco-fusco chegou aos peixes tanto quanto a nós, mais indistinto e sombrio para eles, cujo dia é um crepúsculo perpétuo, embora suficientemente claro para seus olhos fracos e aquosos. As vésperas já haviam soado em muitas capelas indistintas e aquáticas lá embaixo, onde as sombras das plantas se alongavam sobre o chão arenoso. O peixe-gato vespertino já começara a adejar com sua nadadeira coriácea, e as comadres de barbatanas retiravam-se da rua fluvial para riachos e enseadas, e outros recantos privados, exceto algumas de nadadeira mais forte, que ancoravam na corrente e enfrentavam a maré até em sonhos. Enquanto isso, como uma nuvem escura do entardecer, éramos levados sobre a abóbada de seu céu, aprofundando as sombras em seus campos inundados.
Ao chegarmos a uma parte retirada do rio, onde ele se alargava até sessenta rods, armamos a barraca na margem leste, em Tyngsborough, logo acima de alguns canteiros de ameixeira-da-praia, cujos frutos estavam então quase maduros, num lugar onde a barranca inclinada servia de travesseiro suficiente. Com a azáfama de marinheiros que chegam a terra, transferimos do barco para a barraca os mantimentos necessários, penduramos uma lanterna no mastro da barraca, e assim nossa casa ficou pronta. Com uma pele de búfalo estendida sobre a relva e um cobertor para nos cobrir, nossa cama logo estava feita. Uma fogueira crepitava alegremente diante da entrada, tão perto que podíamos cuidar dela sem sair de casa; depois de ceiar, apagamos a chama, fechamos a porta e, com a aparência de conforto doméstico, ficamos acordados lendo o Gazetteer, para saber nossa latitude e longitude, e escrevendo o diário da viagem, ou escutando o vento e o marulho do rio até que o sono nos alcançasse. Ali ficamos deitados sob um carvalho, na margem da corrente, perto do milharal de algum fazendeiro, dormindo e esquecendo onde estávamos; é uma grande bênção sermos obrigados a esquecer nossos empreendimentos a cada doze horas. Visons, ratos-almiscarados, ratos-do-campo, marmotas, esquilos, cangambás, coelhos, raposas e doninhas habitam todos ali por perto, mas permanecem muito escondidos enquanto você está presente. O rio sugava e rodopiava a noite inteira rumo aos mercados e ao litoral, uma grande lavagem e cheia, e um empreendimento nada pequeno sobre o qual refletir. Em vez da vastidão cita da noite de Billerica e de seus sons musicais selvagens, fomos mantidos acordados pela diversão ruidosa de alguns trabalhadores irlandeses da ferrovia, que nos chegava trazida sobre a água. Ainda incansáveis e sem repouso naquele sétimo dia, não cessavam de correr para cima e para baixo pelos trilhos, em velocidade sempre crescente e com gritos continuamente renovados, até tarde da noite.
Um dos marinheiros foi visitado em sonhos, naquela noite, pelos Destinos Malignos e por todos os poderes hostis à vida humana, que constrangem e oprimem a mente dos homens, fazem seu caminho parecer difícil e estreito e cercam-no de perigos, de modo que os empreendimentos mais inocentes e dignos parecem insolentes e uma provocação ao destino, e os deuses não seguem conosco. Mas o outro, felizmente, atravessou uma noite serena e até ambrosíaca ou imortal, e seu sono não teve sonhos, ou dele restou apenas a atmosfera de sonhos agradáveis, um sono natural e feliz até a manhã; e seu espírito alegre acalmou e tranquilizou o irmão, pois, sempre que os dois se encontram, o Bom Gênio certamente prevalece.