Sexta-feira Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack · Capítulo 8 de 8
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Sexta-feira

“O Barqueiro, sem se desviar,

Seguiu seu curso com serena firmeza,

Sem jamais recuar, nem jamais buscar repouso

Para os braços provados pelo esforço extenuante;

Mas com seus remos varria a vastidão das águas.”

SPENSER.

“O manto do verão

Escurece e parece uma veste muitas vezes tingida.”

DONNE.

Enquanto permanecíamos despertos muito antes do amanhecer, ouvindo o marulhar do rio e o farfalhar das folhas, sem saber se o vento soprava corrente acima ou abaixo, se era favorável ou desfavorável à nossa viagem, já suspeitávamos de uma mudança no tempo, por um frescor de outono presente nesses sons. O vento no bosque soava como uma cachoeira incessante, precipitando-se e rugindo entre rochedos, e chegamos mesmo a nos sentir encorajados pela atividade incomum dos elementos. Quem ouve o marulhar dos rios nestes dias degenerados não se desesperará por completo. Aquela noite foi o ponto de inflexão da estação. Havíamos ido dormir no verão e despertamos no outono; pois o verão passa ao outono em algum ponto inimaginável do tempo, como o virar de uma folha.

Encontramos nosso barco ao amanhecer tal como o havíamos deixado, e como se esperasse por nós, ali na margem, no outono, todo frio e gotejante de orvalho, com nossas pegadas ainda frescas na areia molhada ao redor, e todas as fadas partidas ou escondidas. Antes das cinco horas, empurramo-lo para dentro da névoa e, saltando a bordo, com um só impulso perdemos de vista as margens e começamos a deslizar rio abaixo com a corrente impetuosa, mantendo viva atenção aos rochedos. Podíamos ver apenas a água amarela e borbulhante, e uma muralha compacta de névoa por todos os lados, formando um pequeno pátio ao nosso redor. Logo passamos pela foz do Souhegan e pela aldeia de Merrimack; e, à medida que a névoa se afastava aos poucos e nos livrávamos do trabalho de vigiar os rochedos, percebemos, pelas nuvens que passavam velozes, pelo primeiro tom castanho-avermelhado nas colinas, pelo rio impetuoso, pelas casas de campo na margem e pela própria margem, tão fresca, fria e reluzente de orvalho, e, mais tarde naquele dia, pela cor da videira, pelo pintassilgo no salgueiro, pelos pica-paus-dourados voando em bandos e, quando passávamos perto o bastante da margem, segundo imaginávamos, pelos rostos dos homens, que o outono havia começado. As casas pareciam mais aconchegantes e confortáveis, e seus moradores eram vistos apenas por um instante, para então entrarem em silêncio e fecharem a porta, recolhendo-se aos refúgios interiores do verão.

“E agora se veem os frios orvalhos outonais

Cobrir de teias cada verdor;

E pelos campos de segunda ceifa, tosquiados rente, aparece

O ano que depressa declina.”

Ouvimos o suspiro do primeiro vento de outono, e até a água adquirira um tom mais cinzento. O sumagre, a videira e o bordo já haviam mudado, e a asclépia assumira um amarelo profundo e rico. Em todos os bosques, as folhas amadureciam depressa para a queda; pois suas nervuras cheias e seu brilho vivo é que assinalam a folha madura, e não a folha ressequida dos poetas; e sabíamos que os bordos, dos primeiros a perder as folhas, logo se ergueriam como uma grinalda de fumaça ao longo da orla do prado. Já se ouvia o gado mugir desvairadamente nos pastos e ao longo das estradas, correndo de um lado para outro, inquieto, como se temesse o fenecimento da relva e a aproximação do inverno. Nossos pensamentos também começaram a farfalhar.

Quando percorro as ruas de nossa aldeia de Concord no dia de nossa Exposição Anual de Gado, época em que as folhas dos olmos e dos plátanos costumam começar a cobrir o chão sob o sopro do vento de outubro, os espíritos vivazes em sua seiva parecem elevar-se tanto quanto os de qualquer rapaz da lavoura solto naquele dia; e levam meus pensamentos aos bosques farfalhantes, onde as árvores se preparam para a campanha de inverno. Essa festa outonal, quando os homens se reúnem em multidões nas ruas com a mesma regularidade e por uma lei tão natural quanto aquela que faz as folhas se amontoarem e farfalharem à beira do caminho, associa-se naturalmente, em meu espírito, ao declínio do ano. O mugido do gado nas ruas soa como uma sinfonia rouca, ou um baixo contínuo, para o farfalhar das folhas. O vento corre apressado pela região, respigando cada palha solta que restou nos campos, enquanto cada rapaz do campo também parece correr diante dele, tendo vestido seu melhor casaco curto de marinheiro e seu colete salpicado de preto e branco, suas calças sem vinco, sua armação saliente de brim, casimira ou veludo cotelê, e ainda por cima seu chapéu felpudo, rumo às feiras rurais e exposições de gado, àquela Roma entre as aldeias onde se reúnem os tesouros do ano. Por toda a terra eles avançam, saltando cercas com as palmas calejadas e ociosas, que nunca aprenderam a pender ao lado do corpo, em meio ao mugido dos bezerros e ao balido das ovelhas, Amos, Abner, Elnathan, Elbridge,

“Dos íngremes montes cobertos de pinheiros até a planície.”

Amo esses filhos da terra, cada filho de sua mãe, com seus grandes e cordiais corações precipitando-se tumultuosamente em rebanhos de espetáculo em espetáculo, como se temessem que não houvesse tempo, entre um sol e outro, para ver tudo; e o sol não espera mais do que na época da fenação.

“Diletos da sábia Natureza, vivem no mundo

Sem se afligirem com o modo como ele é lançado.”

Correm daqui para ali com apetite pelos divertimentos grosseiros do dia, ora com estrondosa rapidez nos calcanhares do negro inspirado, de cuja laringe as melodias de todo o Congo e da costa da Guiné irromperam em nossas ruas; ora para ver a procissão de cem juntas de bois, todos tão augustos e graves quanto Osíris, ou as manadas de gado bem-criado e vacas leiteiras tão imaculadas quanto Ísis ou Io. Aqueles que não tinham amor algum pela Natureza

“Voltaram para casa amantes

Desta grande festa.”

Podem trazer à feira seu gado mais gordo e seus frutos mais ricos, mas tudo isso é eclipsado pelo espetáculo dos homens. Estes são dias outonais agitados, em que os homens passam em multidões, em meio ao farfalhar das folhas, como tentilhões migratórios; esta é a verdadeira colheita do ano, quando o ar não é senão o hálito dos homens, e o farfalhar das folhas é como o tropel da multidão. Hoje lemos sobre as antigas festas, jogos e procissões dos gregos e etruscos com certa incredulidade, ou ao menos com pouca simpatia; mas quão natural e irreprimível é, em cada povo, alguma saudação cordial e palpável à Natureza. Os Coribantes, as Bacantes, os rudes tragediógrafos primitivos com sua procissão e seu canto do bode, e toda a parafernália das Panateneias, que parecem tão antiquadas e peculiares, encontram hoje seu paralelo. O lavrador é sempre um grego melhor do que o erudito está preparado para reconhecer, e o velho costume ainda sobrevive, enquanto antiquários e estudiosos embranquecem ao comemorá-lo. Os fazendeiros acorrem hoje à feira em obediência à mesma lei antiga, que nem Sólon nem Licurgo promulgaram, com a mesma naturalidade com que as abelhas enxameiam e seguem sua rainha.

Vale a pena ver o povo do campo, como se derrama pela cidade, a sóbria gente das fazendas, agora toda alvoroçada, com as próprias golas da camisa e do casaco apontando para a frente, golas tão largas como se tivessem vestido as camisas pelo lado errado, pois as modas sempre tendem ao supérfluo, e com uma elasticidade incomum no passo, tagarelando seriamente uns com os outros. O vagabundo mais flexível também não deixa de aparecer ao menor rumor de uma reunião assim, para desaparecer no dia seguinte e meter-se em seu buraco como a cigarra de dezessete anos, num casaco sempre surrado, embora mais fino do que o melhor do fazendeiro, porém jamais verdadeiramente vestido; vem ver a diversão e meter a mão no que estiver acontecendo, saber “qual é a confusão”, se houver alguma; estar onde alguns homens se embriagam, alguns cavalos correm, alguns galos brigam; ansioso por sacudir os suportes debaixo de uma mesa e, acima de tudo, por ver o “porco listrado”. Ele é, em especial, a criatura da ocasião. Esvazia no fluxo os dois bolsos e o caráter, e nada num dia como esse. Ama ternamente a lama social. Não há nele reserva alguma de sobriedade.

Gosto de ver o rebanho dos homens alimentar-se com apetite de prazeres grosseiros e suculentos, como o gado das cascas e talos dos vegetais. Embora entre eles haja muitos espécimes tortos e nodosos da humanidade, todos reduzidos a espinho e casca, comprimidos e deformados por circunstâncias adversas, como a terceira castanha no ouriço, de modo que nos espantamos ao ver certas cabeças usarem um chapéu inteiro, não se deve temer que neles a raça fracasse ou vacile; como as maçãs silvestres que crescem nas sebes, eles ainda fornecem os porta-enxertos de frutos doces e vigorosos. Assim a natureza se recompõe de era em era, enquanto as variedades belas e saborosas desaparecem e cumprem seu ciclo. Esta é aquela humanidade. Quão barato deve ser o material de que são feitos tantos homens.

O vento soprava constantemente rio abaixo, de modo que mantivemos as velas içadas e não perdemos um instante da manhã em atrasos, mas desde cedo até o meio-dia estivemos continuamente descendo. Com as mãos na pá do leme, mergulhada fundo no rio, ou curvados sobre o remo, que de fato raramente largávamos, sentíamos cada pulsação nas veias de nosso corcel e cada impulso das asas que nos puxavam por cima. A corrente de nossos pensamentos fazia curvas tão súbitas quanto o rio, que abria sem cessar novas perspectivas para leste ou sul, mas sabemos que os rios correm mais depressa e são mais rasos nesses pontos. As margens firmes não se desviaram uma única vez por nossa causa, mas continuaram seguindo a direção em que haviam sido feitas; por que, então, deveríamos sempre nos desviar por causa delas?

Um homem não pode bajular nem intimidar seu Gênio. Ele exige ser conciliado por uma conduta mais nobre do que o mundo exige ou é capaz de apreciar. Esses pensamentos alados são como pássaros e não se deixam manusear; nem mesmo as galinhas permitem que as toquemos como se fossem quadrúpedes. Nada jamais foi tão estranho e surpreendente para um homem quanto seus próprios pensamentos.

Para o gênio mais raro, é o mais custoso ceder e conformar-se aos modos do mundo. O gênio é a pior madeira possível, se o poeta pretende flutuar na brisa da popularidade. A ave-do-paraíso é obrigada a voar constantemente contra o vento, para que seus vistosos adornos, comprimidos junto ao corpo, não impeçam seus movimentos livres.

O melhor marinheiro é aquele que consegue navegar o mais próximo possível do vento e extrair força motriz dos maiores obstáculos. A maioria começa a arribar e bordejar assim que o vento deixa de soprar pela popa; e, como nos trópicos ele não sopra de todos os pontos da bússola, há portos a que jamais poderão chegar.

O poeta não é um broto delicado de estirpe feérica, que necessita de instituições e decretos especiais para sua defesa, mas o mais resistente filho da terra e do Céu, e, por sua força e resistência superiores, seus companheiros desfalecentes reconhecerão nele o Deus. Foram os adoradores da beleza, afinal, que realizaram o verdadeiro trabalho pioneiro do mundo.

O poeta conseguirá tornar-se popular apesar de seus defeitos, e apesar também de suas belezas. Acertará o prego na cabeça, e não conheceremos o formato de seu martelo. Ele nos concede livre acesso a seu lar e a seu coração, o que é mais grandioso do que conceder a alguém a liberdade de uma cidade.

Os grandes homens, desconhecidos de sua geração, têm sua fama entre os grandes que os precederam, e toda verdadeira fama mundana decai diante da elevada estima que estes lhes dedicam além das estrelas.

Orfeu não ouve os acordes que saem de sua lira, mas apenas aqueles que nela são soprados; pois o acorde original precede o som na mesma medida em que o eco o segue. O restante é o quinhão dos rochedos, das árvores e dos animais.

Quando me encontro numa biblioteca onde está registrado todo o engenho do mundo, mas nada do ato de registrar, um tesouro meramente acumulado, e não verdadeiramente cumulativo, onde obras imortais ficam lado a lado com antologias que não sobreviveram ao próprio mês, e teias de aranha e mofo já se espalharam destas para a encadernação daquelas; e quando, felizmente, sou lembrado do que é a poesia, percebo que Shakespeare e Milton não previram em que companhia haveriam de cair. Ah! Que tão cedo a obra de um verdadeiro poeta seja varrida para semelhante depósito de pó!

O poeta escreverá apenas para seus pares. Lembrará somente que viu a verdade e a beleza de sua posição, e aguardará o tempo em que uma visão igualmente ampla contemple o mesmo campo com igual liberdade.

Somos muitas vezes levados a comunicar nossos pensamentos aos vizinhos, ou aos viajantes solitários que encontramos pela estrada, mas a poesia é uma comunicação saída de nosso lar e de nossa solidão, dirigida a toda Inteligência. Ela jamais sussurra a um ouvido particular. Sabendo disso, podemos compreender aqueles sonetos que se dizem endereçados a determinadas pessoas, ou “À Sobrancelha de uma Amante”. Que ninguém se sinta lisonjeado por eles. No lugar de poesia, escreva-se amor, e será igualmente verdadeiro.

Sem dúvida, uma diferença importante entre os homens de gênio, ou poetas, e os homens sem gênio é que estes últimos são incapazes de apreender e enfrentar o pensamento que os visita. Mas isso se dá porque ele é tênue demais para ser expresso, ou mesmo para deixar uma impressão consciente. Aquilo que apenas acelera ou retarda o sangue em suas veias e lhes enche as tardes de um prazer cuja origem desconhecem transmite uma certeza distinta à organização mais delicada do poeta.

Falamos do gênio como se fosse mero jeito, e como se o poeta pudesse apenas exprimir o que outros homens conceberam. Mas, em comparação com sua tarefa, o poeta é o menos talentoso de todos; o prosador possui mais habilidade. Veja-se quanto talento tem o ferreiro. Sua matéria é dócil em suas mãos. Quando o poeta está mais inspirado, quando é estimulado por uma aura que nem sequer colore as tardes dos homens comuns, então todo o seu talento desaparece, e ele já não é poeta. Os deuses não lhe concedem habilidade maior que a de outro homem. Nunca depositam seus dons em suas mãos, mas o envolvem e sustentam com seu sopro.

Dizer que Deus concedeu a um homem muitos e grandes talentos significa frequentemente que trouxe seus céus para o alcance das mãos dele.

Quando o furor poético se apodera de nós, corremos e ciscamos com a pena, atentos apenas aos vermes, chamando em torno de nós nossas companheiras, como o galo, e deleitando-nos com a poeira que levantamos; mas não percebemos onde está a joia, que talvez, nesse meio-tempo, tenhamos lançado para longe ou tornado a encobrir por completo.

Nem mesmo o corpo do poeta se alimenta como o dos outros homens; ele às vezes prova o genuíno néctar e a ambrosia dos deuses, e vive uma vida divina. Pelos estremecimentos salutares e revigorantes da inspiração, sua vida é preservada até uma velhice serena.

Alguns poemas servem apenas para os feriados. São polidos e doces, mas sua doçura é a do açúcar, não aquela que o trabalho confere ao pão azedo. O sopro com que o poeta profere seu verso deve ser o mesmo pelo qual vive.

A grande prosa, de elevação igual, impõe-nos mais respeito que o grande verso, pois implica uma altura mais permanente e uniforme, uma vida mais inteiramente permeada pela grandeza do pensamento. O poeta muitas vezes faz apenas uma incursão, como um parto, e logo se retira outra vez, disparando enquanto recua; mas o prosador conquistou como um romano e estabeleceu colônias.

O verdadeiro poema não é aquele que o público lê. Há sempre um poema não impresso em papel, coincidente com a produção deste, estereotipado na vida do poeta. É aquilo em que ele se tornou por meio de sua obra. A questão não é como a ideia se exprime na pedra, na tela ou no papel, mas até que ponto adquiriu forma e expressão na vida do artista. Sua verdadeira obra não ficará exposta na galeria de príncipe algum.

Minha vida foi o poema que eu quisera escrever,

Mas não pude ao mesmo tempo vivê-lo e proferi-lo.

O ATRASO DO POETA.

Em vão vejo a manhã nascer,

Em vão observo o clarão do poente,

Eu, que ocioso olho para outros céus,

Esperando a vida por outros caminhos.

Em meio a tanta riqueza sem limites lá fora,

Continuo apenas pobre por dentro,

As aves já cantaram todo o seu verão,

Mas minha primavera ainda não começa.

Esperarei então o vento de outono,

Obrigado a buscar um dia mais ameno,

E não deixarei para trás nenhum ninho singular,

Nenhum bosque ainda ecoando meu canto?

Este dia áspero e cheio de rajadas, e o ranger dos carvalhos e pinheiros na margem, lembravam-nos climas mais setentrionais que a Grécia e mares mais invernais que o Egeu.

Os restos genuínos de Ossian, ou aqueles antigos poemas que levam seu nome, embora de fama e extensão menores, têm, sob muitos aspectos, o mesmo cunho da própria Ilíada. Ele afirma a dignidade do bardo não menos que Homero, e em sua era não ouvimos falar de nenhum outro sacerdote além dele. De nada servirá chamá-lo de pagão porque personifica o sol e se dirige a ele; e que importa se seus heróis “adoravam os fantasmas de seus pais”, suas formas tênues, aéreas e insubstanciais? Nós também adoramos apenas os fantasmas de nossos pais, sob formas mais substanciais. Não podemos deixar de respeitar a fé vigorosa daqueles pagãos, que acreditavam severamente em alguma coisa, e somos inclinados a dizer aos críticos que se ofendem com seus ritos supersticiosos: Não interrompam as preces desses homens. Como se soubéssemos mais sobre a vida humana e sobre um Deus do que os pagãos e os antigos. Acaso a teologia inglesa contém as descobertas recentes?

Ossian nos recorda as eras mais refinadas e as mais rudes, Homero, Píndaro, Isaías e o indígena americano. Em sua poesia, como na de Homero, veem-se apenas os traços mais simples e duradouros da humanidade, partes tão essenciais de um homem quanto as que Stonehenge exibe de um templo; vemos somente os círculos de pedra e a coluna erguida. Os fenômenos da vida adquirem um tamanho quase irreal e gigantesco quando vistos através de suas névoas. Como toda poesia mais antiga e grandiosa, ela se distingue pelos poucos elementos que compõem a vida de seus heróis. Eles se erguem na charneca, entre as estrelas e a terra, reduzidos a ossos e tendões. A terra é uma planície sem limites para seus feitos. Levam uma vida tão simples, seca e eterna que quase não precisa partir com a carne, mas é transmitida inteira de era em era. Há pouquíssimos objetos que lhes distraiam a vista, e sua vida é tão desembaraçada quanto o curso das estrelas que contemplam.

“Os reis irados, separados sobre os túmulos de pedra,

Olham adiante por trás dos escudos,

E observam as estrelas errantes,

Que, brilhantes, se movem para o oeste.”

Não custa muito a esses heróis viver; não precisam de muitos móveis. São apenas aquelas formas de homens que podem ser vistas de longe através da névoa, e não têm traje nem dialeto; como linguagem, há a própria língua, e, como traje, sempre se encontram peles de animais e cascas de árvores. Vivem seus anos pela força de suas constituições. Sobrevivem às tempestades e às lanças dos inimigos, realizam alguns feitos heroicos e então

“Os montes responderão às perguntas sobre eles,

Por muitos anos vindouros.”

Cegos e enfermos, passam o restante de seus dias ouvindo os cantos dos bardos e apalpando as armas que abateram seus inimigos; e, quando enfim morrem, por uma convulsão da natureza, o bardo nos permite um breve e enevoado vislumbre da vida futura, talvez tão claro quanto tivera sido a vida deles. Quando Mac-Roine foi morto,

“Sua alma partiu para seus ancestrais guerreiros,

Para seguir formas enevoadas de javalis,

Em ilhas desoladas e tempestuosas.”

Ergue-se o túmulo de pedras do herói, e o bardo entoa um canto breve e significativo, que bastará como epitáfio e biografia.

“O fraco encontrará seu arco na morada,

O débil tentará retesá-lo.”

Comparada a essa vida simples e fibrosa, nossa história civilizada parece a crônica da debilidade, da moda e das artes do luxo. Mas o homem civilizado não sente falta de nenhum verdadeiro refinamento na poesia da era mais rude. Ela lhe recorda que a civilização apenas veste os homens. Faz sapatos, mas não enrijece as solas dos pés. Faz tecidos de textura mais fina, mas não toca a pele. Dentro do homem civilizado, o selvagem ainda ocupa o lugar de honra. Somos aqueles saxões de olhos azuis e cabelos amarelos, aqueles normandos esbeltos de cabelos escuros.

A profissão do bardo atraía mais respeito naqueles dias por causa da importância atribuída à fama. Cabia-lhe registrar os feitos dos heróis. Quando Ossian ouve as tradições de bardos inferiores, exclama:

“Apodero-me de imediato das narrativas não vãs,

E as transmito em versos fiéis.”

Sua filosofia da vida se exprime na abertura do terceiro Duan de Ca-Lodin.

“De onde surgiram as coisas que existem?

E para onde rolam os anos que passam?

Onde o Tempo oculta suas duas cabeças,

Em densa e impenetrável escuridão,

Sua superfície marcada apenas pelos feitos dos heróis?

Contemplo as gerações que se foram;

O passado aparece apenas indistinto,

Como objetos sob os débeis raios da lua,

Refletidos num lago distante.

Vejo, de fato, os raios da guerra,

Mas ali habitam, impotentes e sem alegria,

Todos os que não transmitem seus feitos

Aos tempos longínquos que os sucedem.”

Os guerreiros ignóbeis morrem e são esquecidos:

“Estranhos vêm construir uma torre

E lançam suas cinzas para o alto;

Algumas espadas enferrujadas surgem na poeira;

Um deles, inclinando-se, diz:

‘As armas pertenceram a heróis mortos;

Jamais ouvimos seu louvor em canto.’”

A grandeza das comparações é outro traço que caracteriza a grande poesia. Ossian parece falar uma linguagem gigantesca e universal. As imagens e os quadros ocupam até mesmo um vasto espaço na paisagem, como se só pudessem ser vistos das encostas das montanhas e de planícies de horizonte amplo, ou através de braços de mar. A maquinaria é tão maciça que não pode ser menos que natural. Oivana diz ao espírito de seu pai, “Torkil de Torne, de cabelos grisalhos”, visto nos céus:

“Deslizas para longe como navios que se afastam.”

Assim também, quando as hostes de Fingal e Starne se aproximam para a batalha,

“Com altos murmúrios, como rios distantes,

A raça de Torne avançou para cá.”

E, quando obrigado a se retirar,

“arrastando atrás de si a lança,

Cudulin mergulhou no bosque distante,

Como um fogo que se alteia antes de morrer.”

Nem faltava a Fingal uma plateia adequada quando falava:

“Mil oradores se inclinaram

Para ouvir o canto de Fingal.”

As ameaças também teriam detido um homem. A vingança e o terror eram reais. Trenmore ameaça o jovem guerreiro que encontra numa praia estrangeira:

“Tua mãe te encontrará pálido na praia,

Enquanto vê diminuírem sobre as ondas

As velas daquele que matou seu filho.”

Se os heróis de Ossian choram, é por excesso de força, não por fraqueza, um sacrifício ou libação de naturezas fecundas, como o suor da pedra no calor do verão. Mal percebemos que lágrimas foram derramadas, e parece que o choro só convém a bebês e heróis. Sua alegria e sua tristeza são feitas da mesma matéria, como a chuva e a neve, o arco-íris e a névoa. Quando Fillan foi vencido em combate e se envergonhou diante de Fingal,

“Partiu logo a passos largos,

E curvou-se de dor sobre um regato,

As faces orvalhadas de lágrimas.

De tempos em tempos, os cardos cinzentos

Ele decepava com a lança invertida.”

Crodar, cego e velho, recebe Ossian, filho de Fingal, que vem ajudá-lo na guerra:

“‘Meus olhos falharam’, diz ele, ‘Crodar está cego,

Tua força é como a de teus pais?

Estende, Ossian, teu braço ao de cabelos brancos.’

Dei meu braço ao rei.

O herói envelhecido apertou minha mão;

Soltou um profundo suspiro;

Lágrimas corriam sem cessar por sua face.

‘Forte és tu, filho do poderoso,

Embora não tão terrível quanto o príncipe de Morven.

Que meu banquete seja servido no salão,

Que cante todo menestrel de voz suave;

Grande é aquele que está dentro de meus muros,

Filhos de Croma, onde as ondas ecoam.’”

Até o próprio Ossian, o herói-bardo, rende tributo à força superior de seu pai Fingal.

“Quão belo, homem poderoso, era teu espírito,

Por que Ossian o sucedeu sem sua força?”

Enquanto navegávamos velozmente a favor do vento, com o rio borbulhando sob nossa popa, os pensamentos do outono corriam com igual constância por nossas mentes, e observávamos menos o que passava na margem do que as associações e impressões sem data que a estação despertava, antecipando em certa medida o avanço do ano.

Audição adquiro, eu que antes só tinha ouvidos,

E visão, eu que antes só tinha olhos,

Instantes vivo, eu que vivia apenas anos,

E a verdade distingo, eu que só conhecia o saber dos livros.

Sentados agora com o rosto voltado rio acima, estudávamos a paisagem pouco a pouco, como quem desenrola um mapa, rocha, árvore, casa, colina e prado assumindo posições novas e variadas à medida que o vento e a água alteravam a cena, e havia variedade suficiente para nosso entretenimento nas metamorfoses dos objetos mais simples. Vista deste lado, a paisagem nos parecia nova.

A mais familiar extensão de água, contemplada do alto de uma colina nova, proporciona um prazer novo e inesperado. Depois de percorrermos algumas milhas, já não reconhecemos sequer os perfis das colinas que dominam nossa aldeia natal, e talvez homem algum conheça de fato o horizonte tal como se vê da colina mais próxima de sua casa, nem seja capaz de recordar nitidamente seu contorno quando está no vale. Em geral, não sabemos, para além de uma curta distância, em que direção se estendem as colinas que abrangem nossas casas e fazendas em sua curva. Como se nosso nascimento houvesse de início separado as coisas, e nós tivéssemos sido impelidos para dentro da natureza como uma cunha, e somente quando a ferida cicatriza e a cicatriz desaparece começássemos a descobrir onde estamos, e que a natureza é una e contínua em toda parte. É uma época importante quando um homem que sempre viveu no lado leste de uma montanha, e a viu a oeste, dá a volta e a vê a leste. Contudo, o universo é uma esfera cujo centro está onde quer que haja inteligência. O sol não é tão central quanto o homem. No cume isolado de uma colina, em campo aberto, parecemos estar de pé sobre a saliência central de um imenso escudo, a paisagem imediata parecendo rebaixada em relação à mais remota e elevando-se gradualmente até o horizonte, que é a borda do escudo: vilas, campanários, bosques, montanhas, uns acima dos outros, até serem engolidos pelos céus. As montanhas mais distantes no horizonte parecem erguer-se diretamente da margem daquele lago no bosque junto ao qual por acaso estamos, enquanto, do alto da montanha, não apenas esse lago, mas outros mil, mais próximos e maiores, passam igualmente despercebidos.

Vistas através dessa atmosfera límpida, as obras do agricultor, seu arar e seu ceifar, tinham para nossos olhos uma beleza que ele jamais via. Como éramos afortunados por não possuir um acre sequer dessas margens, por não haver renunciado ao nosso título sobre o todo. Quem soubesse apropriar-se do verdadeiro valor deste mundo seria o homem mais pobre que nele há. Pobre homem rico! Tudo o que tem é o que comprou. O que vejo é meu. Sou grande proprietário nas várzeas do Merrimack.

Homens cavam e mergulham, mas não podem gastar minha riqueza,

Eu, que de nenhum tesouro parcial me aproprio,

Que não envio navio armado às Índias,

Para roubar-me meu patrimônio oriental.

Rico é o homem, e desfruta os frutos da riqueza, que no verão e no inverno, para sempre, consegue encontrar prazer em seus próprios pensamentos. Comprar uma fazenda! O que tenho eu a pagar por uma fazenda que um fazendeiro há de levar consigo?

Quando torno a visitar algum recanto de minha juventude, alegra-me constatar como a natureza se conserva bem. A paisagem é de fato algo real, sólido e sincero, e ainda não atravessei seu chão com o pé. Há um trecho agradável à margem do Concord, chamado Conantum, que trago na memória: a velha casa de fazenda abandonada, o pasto desolado com seu penhasco agreste, o bosque aberto, o longo trecho do rio, o prado verde no meio e o pomar de macieiras silvestres coberto de musgo; lugares onde se podem ter muitos pensamentos sem decidir coisa alguma. É uma cena que posso não apenas recordar, como recordaria uma visão, mas que, quando quero, posso revisitar em corpo e encontrar exatamente assim, inexplicável, porém despretensiosa em sua agradável desolação. Quando meus pensamentos percebem a mudança, gosto de ver e de me sentar sobre rochas que conheci, de perscrutar-lhes o musgo e ver a imutabilidade tão firmemente estabelecida. Eu, ainda não grisalho sobre rochas para sempre grisalhas; eu, já não verde sob as sempre-verdes. Há algo até mesmo no transcurso do tempo pelo qual o tempo recupera a si próprio.

Como dissemos, o dia se revelou fresco e também ventoso, e quando chegamos ao riacho Penichook fomos obrigados a ficar sentados, embrulhados em nossas capas, enquanto o vento e a corrente nos levavam. Avançávamos velozmente sobre a superfície ondulante, passando ao largo de muitas terras cultivadas e das extremidades de cercas que dividiam incontáveis fazendas, quase sem pensar nas diversas vidas que separavam; ora junto a longas fileiras de amieiros ou bosques de pinheiros ou carvalhos, ora junto a alguma propriedade rural onde mulheres e crianças permaneciam do lado de fora a nos observar, até que desaparecêssemos de sua vista e ultrapassássemos o limite de seu mais longo passeio de sábado. Deslizamos pela foz do Nashua e, não muito depois, pela do riacho Salmon, sem mais pausa que o vento.

Riacho Salmon,

Penichook,

Doces águas de minha mente,

Quando vos verei,

Ou lançarei o anzol,

Em vossas ondas novamente?

Enguias prateadas,

Cestos de madeira,

São estas as iscas que ainda seduzem,

E a libélula

Que passou flutuando,

Que ainda perdurem?

As sombras perseguiam-se velozmente sobre o bosque e o prado, e sua alternância se harmonizava com nosso estado de espírito. Podíamos distinguir as nuvens que projetavam cada uma delas, por mais altas que estivessem nos céus. Quando uma sombra passa ligeira pela paisagem da alma, onde está a substância? Provavelmente, se fôssemos sábios o bastante, veríamos a que virtude devemos qualquer momento mais feliz que desfrutamos. Sem dúvida o conquistamos em algum tempo; pois os dons do Céu nunca são inteiramente gratuitos. O desgaste e a decomposição constantes de nossas vidas formam o solo de nosso crescimento futuro. A madeira que agora amadurecemos, quando se transforma em húmus virgem, determina o caráter de nosso segundo crescimento, sejam carvalhos ou pinheiros. Todo homem projeta uma sombra; não apenas seu corpo, mas seu espírito imperfeitamente mesclado. Essa é sua dor. Volte-se ele para onde quiser, ela cai no lado oposto ao sol; curta ao meio-dia, longa ao entardecer. Nunca a viste? Mas, referida ao sol, ela é mais larga na base, que não é maior que a própria opacidade do homem. A luz divina se difunde quase por inteiro ao nosso redor, e, por meio da refração da luz, ou então de certa luminosidade própria, ou, como alguns sustentam, transparência, se nos conservarmos sem mancha, somos capazes de iluminar nosso lado sombreado. Em todo caso, nossa dor mais escura possui aquela cor de bronze da lua eclipsada. Não há mal que não possa ser dissipado, como a escuridão, quando sobre ele se deixa entrar uma luz mais forte. As sombras, referidas à fonte de luz, são pirâmides cujas bases nunca são maiores que as das substâncias que as projetam; a luz, porém, é um conjunto esférico de pirâmides cujos próprios vértices são o sol, e por isso o sistema resplandece com luz ininterrupta. Mas, se a luz que usamos não passa de uma vela estreita e miserável, a maioria dos objetos projetará uma sombra mais larga que eles próprios.

Os lugares onde havíamos parado ou passado a noite em nossa subida pelo rio já haviam adquirido para nós um leve interesse histórico; pois muitos dias de viagem rio acima se desenrolavam nessa rápida passagem rio abaixo. Quando um de nós desembarcava para esticar as pernas caminhando, logo se via ficando para trás do companheiro e era obrigado a tirar proveito das curvas, atravessando a vau, às pressas, os riachos e ravinas, para recuperar o terreno perdido. As margens e os prados distantes já ostentavam um matiz sóbrio e mais profundo, pois o ar de setembro os despojara do orgulho do verão.

“E o que é uma vida? O viçoso aparato

Do altivo prado estival, que hoje

Veste seu veludo verde, e amanhã é feno.”

O ar era realmente o “elemento sutil” que os poetas descrevem. Visto contra os pastos e prados castanho-avermelhados, tinha uma textura mais fina e mais cortante que antes, como se purificado das impurezas do verão.

Depois de cruzarmos a divisa de New Hampshire e chegarmos à Várzea da Ferradura, em Tyngsborough, onde há uma segunda margem alta e regular, subimos por ela às pressas para ver mais de perto as flores de outono: ásteres, solidagos, mil-folhas e blue-curls (Trichostema dichotoma), humildes flores de beira de estrada, além da campânula e da Rhexia Virginica, que ainda persistiam. Esta última, crescendo em manchas de flores de um rosa vivo à beira dos prados, tinha uma aparência quase alegre demais para o restante da paisagem, como uma fita cor-de-rosa na touca de uma mulher puritana. Ásteres e solidagos eram a libré que a natureza vestia naquele momento. Somente estes últimos exprimiam toda a maturidade da estação e derramavam seu brilho ameno sobre os campos, como se o sol do verão, agora declinante, lhes houvesse legado suas cores. É o solstício floral, pouco depois do meio do verão, quando as partículas de luz dourada, a poeira do sol, por assim dizer caíram como sementes sobre a terra e produziram essas flores. Em cada encosta e em cada vale erguiam-se incontáveis ásteres, coreópsis, tanásias, solidagos e toda a raça das flores amarelas, como devotos bramânicos, voltando-se constantemente com seu astro, da manhã à noite.

“Vejo o solidago brilhar radiante,

Como chuva de sol ao nascer do dia,

Pluma dourada de luz amarela,

Que rouba o esplêndido raio do Deus-Dia.

“Os raios violetas do áster repartem

A margem em muitas estrelas para mim,

E o mil-folhas se tinge de tons alvos,

Como o luar que flutua sobre o mar.

“Vejo os bosques de esmeralda se prepararem

Para despir mais uma vez suas vestes,

E olmos distantes salpicarem o ar

Suavemente com imagens amarelas.

*

“Já não o orgulho do nenúfar

Nada contente em círculos branco-leitosos,

Já não os cachos da blue-weed flutuam

E escarnecem do elemento dos céus.

*

“Outono, tua grinalda e a minha se entrelaçam

Nas mesmas cores, pois a mim

É concedido um céu mais rico que todos,

Enquanto se desvanece minha companhia de sonho.

“Nossos céus ardem púrpura, mas o vento

Soluça frio entre árvores verdes e relva clara;

Hoje resplandece belo, e ocultos atrás

Estão os tempos que passam para o inverno.

“Tão belos parecemos, tão frios somos,

Tão depressa corremos para a decadência,

Contudo, em nossa noite brilham muitas estrelas

Que ainda reclamarão seu dia de sol.”

Assim cantou certa vez um poeta de Concord.

Há um interesse peculiar nas flores ainda mais tardias, que permanecem conosco diante da aproximação do inverno. Há algo de bruxesco na aparência da hamamélis, que floresce no fim de outubro e em novembro, com seus ramos irregulares e angulosos e suas pétalas semelhantes a cabelos de fúrias ou a pequenas fitas esvoaçantes. Sua floração, também, nesse período irregular, quando outros arbustos já perderam as folhas e também as flores, parece obra de bruxaria. Certamente ela não floresce em jardim algum dos homens. Há toda uma terra de fadas na encosta onde cresce.

Alguns pensaram que os ventos já não trazem ao viajante a fragrância natural e original da terra, tal como a descreveram os primeiros navegadores, e que a perda de muitas plantas nativas odoríferas, gramíneas perfumadas e ervas medicinais, que antigamente adoçavam a atmosfera e a tornavam salubre, causada pelo pastoreio do gado e pelo fuçar dos porcos, é a origem de muitas doenças hoje predominantes; a terra, dizem eles, tendo sido por muito tempo submetida a modos de cultivo extremamente artificiais e luxuosos, para satisfazer o apetite, convertida em pocilga e estufa, onde os homens, em busca de lucro, aceleram a decomposição ordinária da natureza.

Segundo o registro de um antigo morador de Tyngsborough, já falecido, por cuja fazenda passávamos então deslizando, uma das maiores enchentes desse rio ocorreu em outubro de 1785, e sua altura foi marcada por um prego cravado numa macieira atrás de sua casa. Um de seus descendentes me mostrou a marca, e julguei que estivesse pelo menos dezessete ou dezoito pés acima do nível que o rio tinha naquele momento. Segundo Barber, em Bradford, no ano de 1818, o rio subiu vinte e um pés acima da marca habitual das águas altas. Antes da construção da ferrovia de Lowell e Nashua, o engenheiro perguntou aos moradores das margens até que altura haviam visto o rio subir. Quando chegou a essa casa, conduziram-no até a macieira e, como o prego já não era visível, a senhora da casa pôs a mão no tronco, no ponto onde dizia lembrar, desde a infância, que ele estivera. Enquanto isso, o velho enfiou o braço no interior da árvore, que era oca, e sentiu a ponta do prego atravessando-a; ela ficava exatamente do lado oposto à mão da senhora. O lugar está agora claramente assinalado por um entalhe na casca. Mas, como ninguém mais se lembrava de o rio ter subido tanto, o engenheiro desconsiderou o relato, e soube que desde então houve uma enchente que chegou a nove polegadas dos trilhos em Biscuit Brook, e uma enchente como a de 1785 teria coberto a ferrovia com dois pés de água.

As revoluções da Natureza contam histórias tão belas e fazem revelações tão interessantes às margens deste rio quanto às do Eufrates ou do Nilo. Esta macieira, que se ergue a poucas varas do rio, é chamada “macieira de Elisha”, por causa de um indígena amistoso que, antigamente, estava a serviço de Jonathan Tyng e, com outro homem, foi morto aqui por gente de sua própria raça numa das guerras indígenas, cujos pormenores nos foram contados no próprio local. Foi enterrado ali perto, sem que ninguém soubesse exatamente onde; mas, na inundação de 1785, o enorme volume de água acumulado sobre a sepultura fez ceder a terra no ponto em que fora revolvida, e, quando as águas baixaram, uma depressão exatamente da forma e do tamanho da cova revelou sua localização. Esta, porém, tornara a se perder, e nenhuma inundação futura poderá descobri-la; ainda assim, sem dúvida, a Natureza saberá indicá-la no devido tempo, caso seja necessário, por métodos ainda mais penetrantes e inesperados. Assim, não há apenas a crise em que o espírito deixa de inspirar e expandir o corpo, assinalada por um túmulo recente no cemitério, mas também uma crise em que o corpo deixa de ocupar espaço, como tal, na natureza, assinalada por uma depressão mais tênue na terra.

Sentamo-nos por algum tempo para descansar ali, à beira da margem ocidental, cercados pelas folhas lustrosas da variedade vermelha do loureiro-das-montanhas, pouco acima da cabeceira da ilha Wicasuck, de onde podíamos observar algumas chatas que carregavam argila na margem oposta e também contemplar as terras do fazendeiro de quem falei, que certa vez nos acolheu hospitaleiramente por uma noite. Em sua agradável fazenda, além da abundância de ameixeira-da-praia, ou Prunus littoralis, que crescia espontaneamente, ele cultivava a ameixeira-do-canadá, belas maçãs Porter, alguns pessegueiros e grandes plantações de melões-cantalupo e melancias, destinados ao mercado de Lowell. A macieira de Elisha também dava um fruto nativo, estimado pela família. Ele cultivava o pêssego-sangue, que, como nos mostrou com satisfação, se assemelhava mais ao carvalho na cor da casca e na disposição dos galhos, e era menos sujeito a quebrar sob o peso dos frutos ou da neve do que outras variedades. Crescia mais devagar, e seus galhos eram fortes e resistentes. Ali também ficava seu viveiro de macieiras nativas, densamente plantadas na margem, que exigiam poucos cuidados e eram vendidas aos fazendeiros vizinhos quando tinham cinco ou seis anos. Ver um único pêssego em seu ramo produz uma impressão de fertilidade e luxo paradisíacos. Aquilo nos recordou até mesmo uma antiga fazenda romana, tal como descrita por Varrão: César Vopisco Edilício, ao falar diante dos Censores, disse que as terras de Rosea eram o jardim (sumen, o petisco mais saboroso) da Itália, onde uma vara deixada no chão já não seria visível no dia seguinte, devido ao crescimento da vegetação. Talvez aquele solo não fosse extraordinariamente fértil, mas, àquela distância, pensamos que essa anedota poderia ser contada a respeito da fazenda de Tyngsborough.

Quando passamos pela ilha Wicasuck, havia no riacho da ilha um barco de recreio com um rapaz e uma moça, e ficamos contentes ao vê-los, pois isso provava que havia por ali algumas pessoas para quem nossa excursão não pareceria inteiramente estranha. Antes disso, um barqueiro de canal, a quem fizemos algumas perguntas sobre a ilha Wicasuck e que nos disse tratar-se de uma propriedade disputada, suspeitou que tivéssemos algum direito sobre ela. Embora lhe assegurássemos que tudo aquilo era novidade para nós e explicássemos, tão bem quanto podíamos, por que tínhamos vindo vê-la, ele não acreditou numa só palavra e nos ofereceu seriamente cem dólares por nosso título de propriedade. Os únicos outros barcos pequenos que encontramos eram usados para recolher madeira à deriva. Algumas pessoas das classes mais pobres que vivem ao longo do rio obtêm dessa maneira todo o combustível de que precisam. Enquanto um de nós desembarcava não muito longe daquela ilha para buscar provisões nas casas de fazenda cujos telhados avistávamos, pois nossos mantimentos haviam acabado, o outro, sentado no barco amarrado à margem, ficou entregue às próprias reflexões.

Se nada há de novo sobre a terra, o viajante ainda dispõe sempre de um recurso nos céus. Eles viram constantemente uma nova página diante de nossos olhos. O vento compõe os tipos sobre esse fundo azul, e quem investiga pode sempre ler ali uma nova verdade. Há coisas escritas lá em matizes tão finos e sutis, mais pálidos que o sumo das limas, que não deixam vestígio para o olhar diurno, e somente a química da noite as revela. O firmamento de cada homem à luz do dia corresponde, em sua mente, ao brilho da visão em sua hora mais estrelada.

Esses continentes e hemisférios são logo percorridos, mas uma região sempre inexplorada e infinita se estende para todos os lados a partir da mente, para além do poente, e não podemos abrir nela estrada ou caminho batido, pois a relva brota imediatamente na trilha, já que viajamos por ali sobretudo com nossas asas.

Às vezes vemos os objetos como através de uma névoa tênue, em suas relações eternas, e eles se erguem como Palenque e as Pirâmides, e nos perguntamos quem os construiu e com que propósito. Se vemos a realidade nas coisas, que importância continuam a ter o superficial e o aparente? Que são a terra e todos os seus interesses diante da profunda conjectura que os atravessa e dispersa? Enquanto me sento aqui, ouvindo as ondas que encrespam e quebram nesta margem, fico absolvido de toda obrigação para com o passado, e o conselho das nações pode reconsiderar seus votos. O ranger de um seixo os anula. Ainda assim, por vezes, em meus sonhos, recordo aquela água ondulante.

Muitas vezes, ao me virar sobre o travesseiro,

Ouço na praia o deslizar das ondas,

Tão nítido como em pleno meio-dia,

E eu descesse à deriva desde Nashua.

Com a vela enfunada, deslizamos rapidamente por Tyngsborough e Chelmsford, cada qual segurando numa mão metade de uma torta rústica de maçã que compráramos para celebrar nosso regresso e, na outra, um pedaço do jornal em que ela fora embrulhada, devorando ambos com prazer dividido e inteirando-nos das notícias ocorridas desde que partíramos. Ali o rio se abria numa ampla e reta extensão de grande comprimento, que atravessamos alegremente sob uma brisa estalante, com uma expressão de quem não se importa com nada, e nosso barco levando um osso branco na boca, a uma velocidade que espantou muito alguns barqueiros de chata que encontramos. No horizonte, o vento rolava como uma inundação sobre vales e planícies, e todas as árvores se curvavam à rajada, enquanto as montanhas, como colegiais, lhe ofereciam as faces. Eram movimentos vastos e correntes: a vela fluindo, o rio correndo, a árvore ondulando, o vento errante. O vento norte entrou prontamente nos arreios que havíamos preparado e nos puxou com boa vontade. Às vezes navegávamos tão suave e firmemente quanto as nuvens acima de nós, observando as margens que recuavam e os movimentos da vela; o pulsar dela tão semelhante à nossa própria vida, tão fina e, no entanto, tão cheia de vida, tão silenciosa quando mais trabalhava, tão ruidosa e impaciente quando menos eficaz; ora curvando-se a algum impulso generoso da brisa, ora tremulando e batendo com uma espécie de hesitação humana. Era a escala em que se graduava a temperatura variável de atmosferas distantes, e exercia algum encanto sobre nós o fato de que a brisa com que ela brincava estivesse há tanto tempo ao ar livre. Assim navegávamos, incapazes de voar, mas, como segunda melhor opção, abrindo um longo sulco pelos campos do Merrimack em direção a nossa casa, com as asas estendidas, sem jamais erguer os calcanhares da vala aquática; arando graciosamente rumo ao lar com nossa parelha ágil e disposta, vento e correnteza puxando juntos, o primeiro ainda um novilho selvagem, jungido ao companheiro mais sereno. Era quase voar, como quando a pata se lança pela água com o impulso das asas, espalhando borrifos ao redor, antes de conseguir alçar voo. Como teríamos encalhado se fôssemos arrastados apenas alguns pés para cima da margem!

Quando chegamos à grande curva pouco acima de Middlesex, onde o rio corre para leste por trinta e cinco milhas até o mar, por fim perdemos o auxílio daquele vento propício, embora conseguíssemos fazer com que uma longa e bem calculada bordada nos levasse quase até as eclusas do canal. Ao meio-dia, nosso velho amigo, o amante da matemática superior, nos fez passar pela eclusa, parecendo contente por nos ver de volta em segurança depois de tantas eclusas. Não paramos, porém, para examinar nenhum de seus problemas, embora de bom grado pudéssemos passar um outono inteiro assim em outra ocasião, sem jamais perguntar qual era sua religião. É tão raro encontrar ao ar livre um homem que cultive na mente um pensamento digno, independente do trabalho de suas mãos. Por trás da ocupação de cada homem deveria haver um nível de serenidade e atividade imperturbadas, assim como, dentro do recife que circunda uma ilha de coral, há sempre uma extensão de águas tranquilas, onde se processam os depósitos que por fim a elevarão acima da superfície.

O olhar capaz de apreciar a beleza nua e absoluta de uma verdade científica é muito mais raro do que aquele atraído por uma verdade moral. Poucos percebem a moralidade na primeira ou a ciência na segunda. Aristóteles definiu a arte como Λόγος τοῦ ἔργου ἄνευ ὕλης, o princípio da obra sem a madeira; mas a maioria dos homens prefere receber um pouco da madeira junto com o princípio. Exigem que a verdade se revista de carne e sangue e das cores quentes da vida. Preferem a afirmação parcial porque ela melhor se ajusta a eles e melhor mede suas mercadorias. Mas a ciência ainda existe em toda parte, ao menos como aferidora de pesos e medidas.

Muito ouvimos falar da poesia da matemática, mas muito pouco dela foi até hoje cantado. Os antigos tinham noção mais justa do valor poético da matemática do que nós. A formulação mais distinta e bela de qualquer verdade deve, por fim, assumir a forma matemática. Poderíamos simplificar tanto as regras da filosofia moral quanto as da aritmética, de modo que uma única fórmula expressasse ambas. Todas as leis morais se traduzem prontamente em filosofia natural, pois muitas vezes basta restaurar o sentido primitivo das palavras pelas quais são expressas, ou atentar para seu sentido literal em vez do metafórico. Elas já são filosofia sobrenatural. Todo o corpo do que hoje se chama verdade moral ou ética existia na idade de ouro como ciência abstrata. Ou, se preferirmos, podemos dizer que as leis da Natureza são a mais pura moralidade. A Árvore do Conhecimento é uma Árvore do Conhecimento do bem e do mal. Não é verdadeiro homem de ciência aquele que não leva alguma simpatia a seus estudos e não espera aprender alguma coisa pela conduta tanto quanto pela aplicação. É infantil deter-se na descoberta de meras coincidências ou de leis parciais e extrínsecas. O estudo da geometria é um exercício mesquinho e ocioso da mente quando não se aplica a sistema algum maior do que o estrelado. A matemática deveria misturar-se não apenas com a física, mas também com a ética, isto é matemática mista. O fato que mais nos interessa é a vida do naturalista. A ciência mais pura ainda é biográfica. Nada dignificará e elevará a ciência enquanto ela estiver tão inteiramente apartada da vida moral de seu devoto, enquanto ele professar uma religião diferente daquela que ela ensina e venerar um altar estranho. Antigamente, a fé de um filósofo era idêntica a seu sistema, ou, em outras palavras, a sua visão do universo.

Meus amigos se enganam quando me comunicam fatos com tanto esforço. O fato de estarem ali, até mesmo seus exageros e afirmações imprecisas, são para mim fatos igualmente bons. Não tenho consideração pelos fatos, exceto quando pretendo usá-los, e em geral sou independente daqueles que ouço, podendo dar-me ao luxo de ser inexato ou, em outras palavras, de substituir por eles fatos mais imediatos e prementes.

O poeta utiliza os resultados da ciência e da filosofia e generaliza suas deduções mais amplas.

O processo da descoberta é muito simples. Uma aplicação incansável e sistemática das leis conhecidas à natureza faz com que o desconhecido se revele. Quase qualquer modo de observação acabará sendo bem-sucedido, pois o que mais se requer é método. Basta que se determine e fixe alguma coisa em torno da qual a observação possa se reunir. Quantas novas relações uma simples régua de um pé revelará, e a quantas coisas ela ainda não foi aplicada! Que descobertas maravilhosas foram feitas, e ainda podem sê-lo, com um fio de prumo, um nível, uma bússola de agrimensor, um termômetro ou um barômetro! Onde há um observatório e um telescópio, esperamos que quaisquer olhos vejam de imediato novos mundos. Eu diria que os homens de ciência mais eminentes de nosso país, e talvez desta época, ou estão a serviço das artes e não da ciência pura, ou realizam trabalhos fiéis, porém bastante subordinados, em departamentos particulares. Não avançam de maneira constante e sistemática rumo ao fato central. Faz-se uma descoberta, e de imediato a atenção de todos os observadores se desvia para ela, que arrasta em seu séquito muitas descobertas análogas; como se o trabalho deles ainda não estivesse traçado, mas eles houvessem ficado com os remos suspensos. Falta uma observação constante e exata, acompanhada de teoria suficiente para dirigi-la e discipliná-la.

Mas, acima de tudo, falta gênio. Nossos livros de ciência, à medida que ganham em exatidão, correm o risco de perder o frescor, o vigor e a prontidão para apreciar as verdadeiras leis da Natureza, mérito notável nas teorias tantas vezes falsas dos antigos. Atraem-me o leve orgulho e satisfação, o estilo enfático e até exagerado com que alguns dos naturalistas mais antigos falam das operações da Natureza, embora sejam mais aptos a apreciar os fatos do que a distingui-los. Suas afirmações não deixam de ter valor quando refutadas. Se não são fatos, são sugestões para que a própria Natureza aja sobre elas. “Os gregos”, diz Gesner, “tinham um provérbio comum (Λαγος καθευδον), uma lebre adormecida, para designar um dissimulador ou impostor; porque a lebre vê enquanto dorme; pois esta é uma obra admirável e rara da Natureza: todas as demais partes de seu corpo repousam, mas o olho permanece continuamente de sentinela.”

A observação está tão desperta, e os fatos são acrescentados com tanta rapidez à soma da experiência humana, que parece que o teórico estará sempre em atraso e condenado para sempre a chegar a conclusões imperfeitas; mas o poder de perceber uma lei é igualmente raro em todas as épocas do mundo, e depende muito pouco do número de fatos observados. Os sentidos do selvagem lhe fornecerão fatos suficientes para estabelecê-lo como filósofo. Os antigos ainda podem falar-nos com autoridade, até mesmo sobre os temas da geologia e da química, embora se julgue que esses estudos tenham nascido nos tempos modernos. Muito se fala do progresso da ciência nestes séculos. Eu diria que os resultados úteis da ciência se acumularam, mas que não houve acumulação de conhecimento, falando estritamente, para a posteridade; pois o conhecimento só pode ser adquirido por uma experiência correspondente. Como podemos saber aquilo que meramente nos contam? Cada homem só pode interpretar a experiência de outro por meio da sua própria. Lemos que Newton descobriu a lei da gravitação, mas quantos dos que ouviram falar de sua célebre descoberta reconheceram a mesma verdade que ele? Talvez nenhum. A revelação que então lhe foi feita não foi superada pela revelação feita a qualquer sucessor.

Vemos o planeta cair,

E isso é tudo.

Numa resenha da Viagem de Descoberta Antártica de Sir James Clark Ross, há uma passagem que mostra até que ponto um grupo de homens costuma ser impressionado por um objeto sublime, e que também é um bom exemplo do passo que vai do sublime ao ridículo. Depois de descrever a descoberta do Continente Antártico, visto a princípio a cem milhas de distância, por sobre campos de gelo, cadeias estupendas de montanhas de sete e oito até doze e quatorze mil pés de altura, cobertas de neve e gelo eternos, numa grandeza solitária e inacessível, estando o tempo, em certa ocasião, belissimamente claro e o sol brilhando sobre a paisagem gelada; um continente do qual apenas as ilhas são acessíveis, e estas não exibiam “o menor vestígio de vegetação”, havendo apenas em poucos lugares rochas que se projetavam através de sua cobertura de gelo, para convencer o observador de que a terra formava o núcleo e de que não se tratava de um iceberg; o prático resenhista britânico prossegue assim, fiel ao seu ofício: “Na tarde de 22 de janeiro, a Expedição alcançou a latitude de 74° 20’ e, às 7 horas da noite, tendo fundamento (fundamento! onde conseguiram fundamento?) para acreditar que se encontravam então numa latitude austral mais elevada do que a alcançada por aquele empreendedor marinheiro, o falecido capitão James Weddel, e portanto mais elevada que a de todos os seus predecessores, uma ração extra de grogue foi distribuída às tripulações como recompensa por sua perseverança.”

Não assumamos nós, marinheiros dos últimos séculos, ares de superioridade por causa de nossos Newtons e nossos Cuviers; merecemos apenas uma ração extra de grogue.

Esforçamo-nos em vão para persuadir o vento a soprar pelo longo corredor do canal, que aqui é aberto em linha reta através dos bosques, e fomos obrigados a recorrer ao nosso velho expediente de puxar o barco por uma corda. Quando alcançamos o Concord, fomos forçados a remar mais uma vez com toda a seriedade, sem vento nem corrente a nosso favor, mas a essa altura a crueza do dia havia desaparecido, e sentimos o calor de uma tarde de verão. Essa mudança no tempo favorecia nosso estado contemplativo e nos dispunha a sonhar ainda mais profundamente sobre os remos, enquanto, na imaginação, flutuávamos mais longe pela corrente do tempo, como havíamos flutuado pela corrente do Merrimack, rumo a poetas de um período mais ameno do que os que nos haviam ocupado pela manhã. Chelmsford e Billerica pareciam antigas cidades inglesas, comparadas a Merrimack e Nashua, e muitas gerações de poetas civilizados poderiam ter vivido e cantado aqui.

Que contraste entre a poesia austera e desolada de Ossian e a de Chaucer, e até a de Shakespeare e Milton, e muito mais a de Dryden, Pope e Gray. Nosso verão da poesia inglesa, como antes dele o grego e o latino, parece já bastante avançado rumo ao outono, carregado dos frutos e da folhagem da estação, com brilhantes matizes outonais; mas logo o inverno espalhará suas miríades de folhas agrupadas e sombreadoras, deixando apenas alguns galhos desolados e fibrosos para sustentar a neve e a geada e ranger nas rajadas dos séculos. Não podemos escapar à impressão de que a Musa desceu um pouco em seu voo quando chegamos à literatura das eras civilizadas. Só então ouvimos falar de várias épocas e estilos de poesia; ela é pastoral, lírica, narrativa e didática; mas a poesia dos monumentos rúnicos tem um único estilo, válido para todas as épocas. O bardo perdeu em grande medida a dignidade e a sacralidade de seu ofício. Antigamente era chamado de vidente, mas agora se pensa que um homem vê tanto quanto outro. Ele já não possui o furor bárdico e apenas concebe o feito que outrora estava pronto para realizar. Hostes de guerreiros ansiosos pela batalha não podiam confundir nem dispensar o antigo bardo. Seus cantos eram ouvidos nas pausas do combate. Não havia perigo de que fosse ignorado por seus contemporâneos. Agora, porém, o herói e o bardo pertencem a profissões diferentes. Quando chegamos ao agradável verso inglês, todas as tempestades já se dissiparam, e nunca mais haverá trovões nem relâmpagos. O poeta entrou em casa e trocou a floresta e o penhasco pela lareira, a cabana do gaélico e Stonehenge com seus círculos de pedras pela casa do inglês. Nenhum herói está à porta, pronto para irromper em canto ou ação heroica, mas um inglês caseiro, que cultiva a arte da poesia. Vemos a lareira confortável e ouvimos os gravetos crepitarem em todos os versos.

Apesar da ampla humanidade de Chaucer e dos muitos confortos sociais e domésticos que encontramos em seus versos, precisamos estreitar um pouco nossa visão para considerá-lo, como se ele ocupasse menos espaço na paisagem e não se estendesse por colina e vale como Ossian. Ainda assim, visto do lado da posteridade, como o pai da poesia inglesa, precedido por um longo silêncio ou confusão na história, não animado por nenhum acento de pura melodia, facilmente passamos a reverenciá-lo. Deixando de lado os poetas continentais anteriores, já que estamos ligados ao agradável arquipélago da poesia inglesa, o de Chaucer é o primeiro nome, depois daquele tempo enevoado em que Ossian viveu, capaz de nos deter por muito tempo. De fato, embora represente cultura e sociedade tão diferentes, ele pode ser considerado, em muitos aspectos, o Homero dos poetas ingleses. Talvez seja o mais jovem de todos eles. Voltamos a ele como ao poço mais puro, à fonte mais distante da estrada da vida dispersiva. Ele é tão natural e alegre, comparado aos poetas posteriores, que quase poderíamos considerá-lo uma personificação da primavera. Para o leitor fiel, sua musa chegou até mesmo a dar um aspecto à sua época, e, quando ele acaba de lê-lo, ela parece aparentada à idade de ouro. Ainda é a poesia da juventude e da vida, mais do que do pensamento; e, embora o veio moral seja evidente e constante, ainda não baniu o sol e a luz do dia de seus versos. Os tons mais elevados da musa são, em sua maior parte, sublimemente plangentes, e não uma cantiga tão livre quanto a natureza. O contentamento que o sol brilha para celebrar da manhã à noite permanece sem canto. A musa consola a si mesma, e não é arrebatada, mas consolada. Há uma catástrofe implícita e um elemento trágico em todo o nosso verso, e há nele menos da cotovia e dos orvalhos matinais do que do rouxinol e das sombras vespertinas. Mas em Homero e Chaucer há mais da inocência e serenidade da juventude do que nos poetas mais modernos e morais. A Ilíada não é leitura de domingo, mas leitura matinal, e os homens se apegam a esse antigo canto porque ainda têm momentos de vida não batizada e não comprometida, que lhes dão apetite por mais. Para os inocentes não há querubins nem anjos. Em raros intervalos, elevamo-nos acima da necessidade da virtude até uma luz matinal imutável, na qual só temos de continuar vivendo e respirar o ar de ambrosia. A Ilíada não representa credo nem opinião, e nós a lemos com uma rara sensação de liberdade e irresponsabilidade, como se pisássemos solo natal e fôssemos autóctones da terra.

Chaucer possuía em grau eminente os hábitos de um homem de letras e de um erudito. Nunca houve tempos tão agitados que não se encontrasse neles alguém sedentário e tranquilo. Ele estava cercado pelo estrondo das armas. As batalhas de Halidon Hill e Neville’s Cross, e as batalhas ainda mais memoráveis de Crécy e Poitiers, foram travadas em sua juventude; mas estas pouco interessavam a nosso poeta, Wycliffe e sua reforma interessavam muito mais. Ele sempre se considerou alguém privilegiado para sentar-se e conversar com os livros. Ajudou a estabelecer a classe literária. Seu caráter como um dos pais da língua inglesa já bastaria para tornar importantes suas obras, mesmo aquelas de pouco mérito poético. Ele foi tão simples quanto Wordsworth ao preferir sua língua saxônica caseira, porém vigorosa, quando ela era negligenciada pela corte e ainda não havia alcançado a dignidade de uma literatura, e prestou a seu país serviço semelhante ao que Dante prestou à Itália. Se o grego basta ao grego, o árabe ao árabe, o hebraico ao judeu e o latim ao latino, então o inglês lhe bastará, pois qualquer uma dessas línguas servirá para ensinar a verdade, “assim como caminhos diversos conduzem povos diversos pelo caminho certo até Roma”. No Testamento do Amor, ele escreve: “Que os clérigos então componham em latim, pois possuem o domínio da ciência e o saber nessa faculdade, e que os franceses componham também em seu francês seus termos elegantes, pois isso é natural à boca deles; e deixemos que nós revelemos nossas fantasias com as palavras que aprendemos da língua de nossas mães.”

Saberá apreciar Chaucer melhor aquele que chegou até ele pelo caminho natural, através das magras pastagens da poesia saxônica e anterior a Chaucer; e, no entanto, tão humano e sábio ele parece depois de semelhante dieta, que ainda assim corremos o risco de julgá-lo mal. Na poesia saxônica que chegou até nós, no inglês mais antigo e na poesia escocesa contemporânea, há menos que faça o leitor lembrar-se da rudeza e do vigor da juventude do que da fraqueza de uma idade declinante. Em sua maior parte, é mera tradução de imitação, com apenas um leve e ocasional matiz de poesia, muitas vezes a falsidade e o exagero da fábula, sem a imaginação que a redima, e procuramos em vão encontrar a antiguidade restaurada, humanizada e novamente tornada alegre por alguma simpatia natural entre ela e o presente. Chaucer, porém, continua fresco e moderno, e nenhum pó se deposita sobre suas passagens verdadeiras. Uma claridade percorre a linha, e somos lembrados de que flores desabrocharam, pássaros cantaram e corações bateram na Inglaterra. Diante do olhar atento do leitor, a ferrugem e o musgo do tempo vão aos poucos se desprendendo, e a vida verde original se revela. Era um homem simples e doméstico, e respirava exatamente como respiram os homens modernos.

Não há sabedoria que possa tomar o lugar da humanidade, e é isso que encontramos em Chaucer. Enfim podemos nos expandir em sua amplitude, e pensamos que poderíamos ter sido conhecidos daquele homem. Era digno de ser cidadão da Inglaterra enquanto Petrarca e Boccaccio viviam na Itália, Tell e Tamerlão na Suíça e na Ásia, Bruce na Escócia, e Wycliffe, Gower, Eduardo III, João de Gante e o Príncipe Negro eram seus compatriotas, além de contemporâneos; todos nomes robustos e agitados. A fama de Roger Bacon vinha do século precedente, e o nome de Dante ainda possuía a influência de algo vivo. No conjunto, Chaucer nos impressiona como maior que sua reputação, e não pouco semelhante a Homero e Shakespeare, pois teria mantido a cabeça erguida em sua companhia. Entre os primeiros poetas ingleses, ele é o senhor da casa e o anfitrião, e possui a autoridade de ambos. A menção afetuosa que os primeiros poetas posteriores fazem dele, emparelhando-o com Homero e Virgílio, deve ser levada em conta ao estimarmos seu caráter e sua influência. O rei Jaime e Dunbar, da Escócia, falam dele com mais amor e reverência do que qualquer autor moderno fala de seus predecessores do século passado. A mesma relação infantil não encontra hoje paralelo. Em geral o lemos sem crítica, pois ele não defende a própria causa, mas fala por seus leitores, e possui aquela grandeza de confiança e amparo que impõe popularidade. Confia no leitor e fala com ele em particular, sem ocultar coisa alguma. E, em troca, o leitor deposita nele grande confiança, convencido de que não mente, e lê sua história com indulgência, como se fosse o circunlóquio de uma criança, mas muitas vezes descobre depois que ele falou com mais franqueza e economia de palavras do que um sábio. Nunca é desumano:

“Pois primeiro a coisa é pensada dentro do coração,

Antes que qualquer palavra salte para fora da boca.”

E tão novo era todo o seu tema naqueles dias, que não precisava inventar, mas apenas contar.

Admiramos Chaucer por seu vigoroso espírito inglês. A tranquila elevação de onde fala em seu Prólogo aos Contos da Cantuária, como se fosse igual a qualquer um dos ali reunidos, vale tanto quanto qualquer excelência particular que nele se encontre. Mas, embora cheio de bom senso e humanidade, não é poesia transcendente. Como descrição pitoresca de pessoas, talvez não tenha paralelo na poesia inglesa; contudo, é essencialmente humorístico, como jamais é o gênio mais elevado. O humor, por mais amplo e cordial que seja, adota uma visão mais estreita que o entusiasmo. À sua própria veia mais refinada ele acrescentou todo o espírito e a sabedoria comuns de seu tempo, e em toda parte de suas obras se fazem evidentes seu notável conhecimento do mundo e sua percepção sutil do caráter, seu raro senso comum e sua sabedoria proverbial. Seu gênio não se eleva como o de Milton, mas é cordial e familiar. Revela grande ternura e delicadeza, mas não o sentimento heroico. É apenas uma porção maior da humanidade, com toda a sua fraqueza. Não é heroico como Raleigh, nem piedoso como Herbert, nem filosófico como Shakespeare, mas é o filho da musa inglesa, aquele filho que é o pai do homem. O encanto de sua poesia consiste muitas vezes apenas numa naturalidade extrema, numa sinceridade perfeita, com o comportamento de uma criança antes que de um homem.

A doçura e a delicadeza de caráter aparecem por toda parte em seus versos. As palavras mais simples e humildes lhe vêm prontamente aos lábios. Ninguém pode ler o conto da Prioresa, compreendendo o espírito em que foi escrito e em que a criança canta O alma redemptoris mater, ou o relato da partida de Constança com seu filho pelo mar, no conto do Homem da Lei, sem sentir a inocência e o refinamento nativos do autor. Tampouco podemos nos enganar quanto à pureza essencial de seu caráter, deixando de lado a desculpa dos costumes da época. Um páthos simples e uma doçura feminina, dos quais Wordsworth apenas ocasionalmente se aproxima, sem igualá-los, são peculiares a Chaucer. Somos tentados a dizer que seu gênio era feminino, não masculino. Tratava-se, porém, de uma feminilidade das mais raras de encontrar numa mulher, embora não a apreciação dela; talvez não se encontre de modo algum na mulher, mas seja apenas o feminino no homem.

Um amor pela Natureza tão puro, genuíno e infantil dificilmente se encontra em qualquer poeta.

O caráter notavelmente confiante e afetuoso de Chaucer aparece em sua maneira familiar, embora inocente e reverente, de falar de seu Deus. Deus lhe ocorre ao pensamento sem qualquer falsa reverência e sem mais aparato do que o zéfiro que lhe chega ao ouvido. Se a Natureza é nossa mãe, então Deus é nosso pai. Há menos amor e confiança simples e prática em Shakespeare e Milton. Como é raro encontrarmos, em nossa língua inglesa, a expressão de qualquer afeto por Deus. Certamente, não há sentimento tão raro quanto o amor a Deus. Quase só Herbert o expressa: “Ah, meu querido Deus!” Nosso poeta emprega palavras semelhantes com propriedade; e sempre que vê uma bela pessoa ou outro objeto, orgulha-se da “maestria” de seu Deus. Chega até a recomendar Dido como noiva para ele:

“se aquele Deus que fez o céu e a terra

Quisesse um amor pela beleza e pela bondade,

Pela condição de mulher, pela verdade e pela graça.”

Mas, para justificar nosso louvor, devemos remeter às próprias obras de Chaucer; ao Prólogo aos Contos da Cantuária, ao relato de Gentilesse, a A Flor e a Folha, às histórias de Griselda, Virgínia, Ariadne e Blanche, a Duquesa, e a muito mais de mérito menos distinto. Há muitos poetas de gosto mais apurado e melhores maneiras, que souberam omitir sua monotonia; mas um gênio tão negativo não pode nos deter por muito tempo; ainda voltaremos a Chaucer com amor. Algumas naturezas, de fato rudes e pouco desenvolvidas, possuem ainda assim um padrão de perfeição mais alto que outras refinadas e bem equilibradas. Até o rústico possui gosto, cujos ditames, embora ele os desconsidere, são mais elevados e puros que aqueles a que o artista obedece. Se temos de vagar por muitas passagens monótonas e prosaicas em Chaucer, resta-nos ao menos a satisfação de saber que não se trata de uma monotonia artificial, mas de algo que encontra fácil correspondência em muitas passagens da vida. Confessamos que em geral sentimos disposição para concentrar doçuras e acumular prazeres; mas pode-se presumir que o poeta fale sempre como um viajante, que nos conduz através de uma paisagem variada, de uma elevação a outra, e talvez seja, afinal, mais agradável encontrar um belo pensamento em seu ambiente natural. Por certo o destino o consagrou nessas circunstâncias para algum fim. A Natureza espalha amplamente suas nozes e flores, e nunca as reúne em montes. Este foi o solo em que ele cresceu, e esta a hora em que floresceu; se o sol, o vento e a chuva vieram até aqui para nutrir e abrir a flor, não viremos nós até aqui para colhê-la?

Um verdadeiro poema se distingue não tanto por uma expressão feliz, ou por qualquer pensamento que sugira, quanto pela atmosfera que o rodeia. A maioria possui apenas beleza de contorno e impressiona como a forma e o porte de um estranho; mas os versos verdadeiros vêm até nós indistintamente, como o próprio sopro de toda cordialidade, e nos envolvem em seu espírito e sua fragrância. Grande parte de nossa poesia possui as melhores maneiras, mas nenhum caráter. É apenas uma precisão e uma elasticidade incomuns da fala, como se seu autor tivesse tomado não um gole embriagante, mas um eletuário. Possui o contorno nítido da escultura e registra uma hora antiga. Sob a influência da paixão, todos os homens falam com essa clareza, mas a ira nem sempre é divina.

Há duas classes de homens chamados poetas. Uma cultiva a vida, a outra, a arte; uma procura alimento para nutrir-se, a outra, pelo sabor; uma satisfaz a fome, a outra agrada ao paladar. Há dois tipos de escrita, ambos grandes e raros; um é o do gênio, ou do inspirado, o outro, o do intelecto e do gosto nos intervalos da inspiração. O primeiro está acima da crítica, é sempre correto e dá a lei à crítica. Vibra e pulsa de vida para sempre. É sagrado e deve ser lido com reverência, como se estudam as obras da Natureza. Há poucos exemplos de um estilo dessa espécie mantido de modo contínuo; talvez todo homem já tenha pronunciado palavras assim, mas então quem fala não se preocupa com o registro. Tal estilo nos retira das relações pessoais com seu autor; não tomamos suas palavras nos lábios, mas seu sentido no coração. É a corrente da inspiração, que borbulha ora aqui, ora ali, ora neste homem, ora naquele. Pouco importa através de quais cristais de gelo ela seja vista, ora fonte, ora corrente oceânica correndo sob a terra. Está em Shakespeare como Alfeu, em Burns como Aretusa; mas é sempre a mesma. O outro estilo é senhor de si e sábio. Reverencia o gênio e é ávido de inspiração. É consciente no mais alto e no menor grau. Coexiste com o domínio mais perfeito das faculdades. Habita um repouso como o do deserto, e nele os objetos são tão distintos quanto oásis ou palmeiras no horizonte de areia. O curso do pensamento avança com passo contido e medido, como uma caravana. Mas a pena é apenas um instrumento em sua mão, e não algo dotado de vida, como um braço mais comprido. Deixa sobre toda a sua obra uma fina camada de verniz ou esmalte. As obras de Goethe fornecem exemplos notáveis deste último estilo.

Ainda não existe crítica justa e serena. Nada é considerado simplesmente como repousa no colo da beleza eterna, mas nossos pensamentos, assim como nossos corpos, precisam vestir-se segundo as modas mais recentes. Nosso gosto é delicado e particular demais. Diz não à obra do poeta, mas nunca sim à sua esperança. Convida-o a adornar suas deformidades, e não a abandoná-las pela expansão, como a árvore abandona a casca. Somos um povo que vive sob uma luz brilhante, em casas de pérola e porcelana, e bebe apenas vinhos leves, cujos dentes se arrepiam facilmente ao menor azedo natural. Se nos houvessem consultado, a espinha dorsal da terra teria sido feita não de granito, mas de espato de Bristol. Um autor moderno teria morrido na infância em uma época mais rude. Mas o poeta é algo mais que um scald, “um alisador e polidor da linguagem”; é um Cincinato na literatura, e não ocupa nenhum extremo ocidental do mundo. Como o sol, escolherá suas rimas com indiferença e, com gosto generoso, entrelaçará em seus versos o planeta e o restolho.

Nesses livros antigos, o estuque há muito se desfez, e lemos o que foi esculpido no granito. São rudes e maciços em suas proporções, antes que lisos e delicados no acabamento. Os que trabalham a pedra só polem os ornamentos de suas lareiras, mas suas pirâmides são feitas com aspereza. Há sobriedade num aspecto áspero, como o do granito não lavrado, que se dirige a algo profundo em nós, enquanto uma superfície polida atinge apenas o globo ocular. O verdadeiro acabamento é obra do tempo e do uso a que uma coisa é submetida. Os elementos ainda estão polindo as pirâmides. A arte pode envernizar e dourar, mas não pode fazer mais. Uma obra de gênio é talhada com aspereza desde o princípio, porque antecipa o passar do tempo e possui um polimento entranhado, que ainda aparece quando fragmentos se desprendem, uma qualidade essencial de sua substância. Sua beleza é ao mesmo tempo sua força, e ela se parte com brilho.

O grande poema deve trazer a marca da grandeza, bem como sua essência. O leitor penetra facilmente na mais rasa poesia contemporânea e a anima com toda a vida e a promessa do dia, assim como o peregrino penetra no templo e ouve as notas mais tênues dos fiéis; mas ela terá de falar à posteridade, que atravessará esses desertos, por meio das ruínas de suas muralhas mais exteriores, mediante a grandeza e a beleza de suas proporções.

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Mas aqui, na corrente do Concord, onde estivemos corporalmente durante todo esse tempo, a Natureza, superior a todos os estilos e épocas, compõe agora, de semblante pensativo, seu poema Outono, com o qual nenhuma obra humana suportará comparação.

No verão vivemos ao ar livre e temos apenas impulsos e sentimentos, todos voltados para a ação, e em geral precisamos esperar a quietude e as noites mais longas do outono e do inverno para que algum pensamento se aquiete; sentimos que, por trás das folhas que farfalham, das medas de cereal e dos cachos nus da videira, existe o campo de uma vida inteiramente nova, que homem algum viveu; que até esta terra foi feita para habitantes mais misteriosos e nobres que homens e mulheres. Nos matizes dos crepúsculos de outubro, vemos os portais de outras moradas além daquelas que ocupamos, não muito distantes geograficamente,—

“Há um lugar além daquela colina em chamas,

De onde as estrelas lançam seu tênue fulgor,

Um lugar além de todo lugar, onde jamais o mal,

Nem pensamento impuro algum encontrou abrigo.”

Às vezes, um mortal sente em si a Natureza, não seu Pai, mas sua Mãe se agita dentro dele, e ele se torna imortal com a imortalidade dela. De tempos em tempos, ela reclama parentesco conosco, e algum glóbulo de suas veias se insinua nas nossas.

Eu sou o sol outonal,

Com ventos de outono cumpro meu curso;

Quando a aveleira fará brotar suas flores,

Ou a uva amadurecerá sob meus caramanchões?

Quando a lua da colheita ou a lua do caçador

Transformará minha meia-noite em pleno meio-dia?

Estou todo seco e amarelo,

E maduro até o cerne.

Os frutos silvestres caem em meus bosques,

O inverno espreita em meus humores,

E o farfalhar da folha ressequida

É a música constante de minha aflição.

A um rimador inábil, a Musa falou assim em prosa:

A lua já não reflete o dia, mas ascende ao seu domínio absoluto, e o lavrador e o caçador a reconhecem como senhora. Ásteres e solidagos reinam ao longo do caminho, e a sempre-viva não murcha. Os campos foram ceifados e tosquiados de seu orgulho, mas um verdor interior ainda os coroa. O cardo espalha sua penugem sobre a lagoa, folhas amarelas vestem a videira, e nada perturba a vida grave dos homens. Mas, por trás dos feixes e sob a relva, oculta-se um fruto maduro que os ceifeiros não colheram, a verdadeira safra do ano, que ele produz para sempre, regando-a e amadurecendo-a anualmente, e o homem jamais corta o caule que dá esse fruto saboroso.

Em parte alguma, no leste ou no oeste, os homens vivem ainda uma vida natural, em torno da qual a videira se enrosque e que o olmo voluntariamente sombreie. O homem a profanaria com seu toque, e por isso a beleza do mundo permanece velada para ele. Ele precisa não apenas ser espiritualizado, mas naturalizado no solo da terra. Quem conceberá que espécie de teto os céus poderiam estender sobre ele, que estações poderiam servi-lo e que ocupação dignificaria sua vida! Somente os convalescentes erguem o véu da natureza. Uma imortalidade em sua vida conferiria imortalidade à sua morada. Os ventos deveriam ser sua respiração, as estações, seus humores, e ele deveria comunicar algo de sua serenidade à própria Natureza. Mas, tal como o conhecemos, ele é efêmero como a paisagem que o cerca e não aspira a uma existência duradoura. Quando descemos à aldeia distante, visível do alto da montanha, os habitantes mais nobres com quem a povoamos partiram e deixaram apenas vermes em suas ruas desoladas. É a imaginação dos poetas que põe aqueles discursos valentes na boca de seus heróis. Eles podem fingir que as últimas palavras de Catão foram

“A terra, o ar e os mares conheço, e todas

As alegrias e os horrores de sua paz e de suas guerras;

E agora contemplarei o estado dos Deuses e as estrelas”,

mas esses não são os pensamentos nem o destino dos homens comuns. Que céu é esse que esperam, se não é melhor do que esperam? Estão preparados para algo melhor do que aquilo que agora podem imaginar? Onde fica o céu daquele que morre num palco, dentro de um teatro? Aqui ou em parte alguma está o nosso céu.

“Embora vejamos corpos celestes moverem-se

Acima da terra, é a terra que lavramos e amamos.”

Não podemos conceber nada mais belo do que algo que tenhamos experimentado. “A lembrança da juventude é um suspiro.” Demoramo-nos na idade adulta para contar os sonhos de nossa infância, e eles já estão meio esquecidos antes que tenhamos aprendido a língua. Precisamos nascer da terra tanto quanto do céu, γηγενεῖς, como se dizia dos antigos Titãs, ou num sentido melhor do que o deles. Houve heróis para os quais este mundo parecia expressamente preparado, como se a criação enfim tivesse triunfado; cuja vida cotidiana era feita da matéria de que se fazem nossos sonhos, e cuja existência realçava a beleza e a amplidão da própria Natureza. Por onde caminhavam,

“Largior hic campos æther et lumine vestit

Purpureo: Solemque suum, sua sidera nôrunt.”

“Aqui, um ar mais abundante envolve os campos e os veste de luz púrpura; e eles conhecem seu próprio sol e suas próprias estrelas.” Gostamos de ouvir certos homens falar, embora não ouçamos o que dizem; o próprio ar que respiram é rico e perfumado, e o som de suas vozes cai no ouvido como o farfalhar das folhas ou o crepitar do fogo. Eles têm muitas camadas de profundidade. Têm os céus como cúmplices, como aqueles que jamais deixaram de estar sob eles, e fitam as estrelas com um raio correspondente. Seus olhos são como pirilampos, e seus movimentos, graciosos e fluidos, como se um lugar já lhes estivesse reservado, à maneira dos rios que correm por vales. As distinções da moralidade, do certo e do errado, do sentido e do absurdo, são mesquinhas e perderam a importância diante dessas naturezas puras e primordiais. Quando considero as nuvens estendidas em massas estupendas pelo céu, carrancudas de escuridão ou brilhantes de luz macia, ou douradas pelos raios do sol poente, como as ameias de uma cidade nos céus, sua grandeza parece desperdiçada na pequenez de minha ocupação; o cenário é rico demais para uma representação tão pobre. Mal sou digno de habitar os arrabaldes do lado de fora daqueles muros.

“A menos que, acima de si mesmo, o homem

Consiga erguer-se, que criatura pobre é o homem!”

Com nossa música, desejaríamos desafiar por um instante outra espécie de convívio, mais refinada do que permite nossa labuta diária. As melodias voltam para nós aprimoradas pelo eco, como quando um amigo lê nossos versos. Por que pintaram os frutos com tais cores e os carregaram de tanta fragrância, a ponto de satisfazer um apetite superior ao animal?

“Pedi conselho ao escolástico, e ele o deu de bom grado,

Mas traçou para mim um caminho intrincado demais.”

Essas coisas talvez impliquem que vivemos na orla de outro reino, mais puro, de onde esses aromas e sons chegam flutuando até nós. As bordas de nosso terreno estão guarnecidas de flores cujas sementes foram sopradas de campos elísios vizinhos. São as ervas de cozinha dos deuses. Frutos mais belos e fragrâncias mais doces, trazidos pelo vento até nós, denunciam a proximidade de outro reino. Lá também mora Eco, e lá está o encontro do arco do arco-íris com a terra.

Uma raça mais fina, mais finamente alimentada,

Banqueteia e folga acima de nossa cabeça,

E nós, homenzinhos, só somos capazes

De apanhar os fragmentos de sua mesa.

Deles é a fragrância dos frutos,

Enquanto consumimos a polpa e as raízes.

Que são esses momentos em que permanecemos

Assombrados em terra olímpica!

Não precisamos rogar por céu mais elevado do que aquele que os sentidos puros podem proporcionar, uma vida puramente sensorial. Nossos sentidos atuais não passam dos rudimentos daquilo que estão destinados a se tornar. Somos, comparativamente, surdos, mudos e cegos, e desprovidos de olfato, paladar ou tato. Toda geração descobre que seu vigor divino foi dissipado, e cada sentido e faculdade, mal aplicado e corrompido. Os ouvidos não foram feitos para usos tão triviais quanto os homens costumam supor, mas para ouvir sons celestiais. Os olhos não foram feitos para usos tão rasteiros quanto aqueles a que agora são submetidos e pelos quais se desgastam, mas para contemplar a beleza hoje invisível. Não nos será dado ver Deus? Havemos de ser iludidos e entretidos nesta vida, como que com uma mera alegoria? Não é a Natureza, quando corretamente lida, aquilo de que em geral se considera que ela seja apenas o símbolo? Quando o homem comum olha para o céu, que não profanou tanto, julga-o menos grosseiro que a terra e, com reverência, fala dos “Céus”; mas o vidente falará, no mesmo sentido, das “Terras” e de seu Pai que nelas está. “Aquele que fez o que está dentro não fez também o que está fora?” O que é, então, educar, senão desenvolver esses germes divinos chamados sentidos? Que indivíduos e Estados tratem magnanimamente a geração nascente, não a conduzindo à tentação, não ensinando o olho a vesguear nem afinando o ouvido à profanidade. Mas onde está o mestre instruído? Onde estão as escolas normais?

Um sábio hindu disse: “Assim como uma dançarina, depois de se exibir ao espectador, cessa a dança, também a Natureza cessa, depois de se manifestar à alma. Nada, em minha opinião, é mais delicado que a Natureza; uma vez consciente de ter sido vista, ela não se expõe novamente ao olhar da alma.”

É mais fácil descobrir outro mundo novo, como fez Colombo, do que penetrar uma única dobra deste que parecemos conhecer tão bem; perde-se a terra de vista, a bússola varia, e a humanidade se amotina; e, ainda assim, a história se acumula como entulho diante dos portais da natureza. Mas basta um momento de sanidade e sentidos íntegros para nos ensinar que existe uma natureza por trás da ordinária, sobre a qual até agora só temos algum vago direito de preempção e alguma reserva ocidental. Vivemos nos arredores dessa região. Madeira entalhada, galhos flutuantes e céus de poente são tudo o que conhecemos dela. Não devemos nos deixar enganar pela mais longa temporada de mau tempo. Não permitamos, meus amigos, que nos adulem e enganem para nos portarmos bem a fim de merecer o sal de nosso mingau eterno, sejam quem forem os que tentem fazê-lo. Esperemos um pouco e não compremos clareira alguma aqui, confiantes de que terras aluviais mais ricas logo serão postas à venda. É solo raso este em que estamos; antes de agora já senti minhas raízes em solo mais rico. Vi um ramo de violetas num vaso de vidro, frouxamente amarrado com uma palha, que me fez lembrar de mim mesmo.

Sou um feixe de vãos esforços atados

Por um laço fortuito,

Pendendo para cá e para lá, seus elos

Foram feitos tão frouxos e largos,

Ao que me parece,

Para um tempo mais ameno.

Um ramo de violetas sem suas raízes,

E azedinha misturada,

Cingido por um fiapo de palha

Que um dia se enrolou em seus brotos,

A lei

Pela qual estou fixado.

Um ramalhete que o Tempo arrancou

Daqueles belos campos elísios,

Com ervas daninhas e caules partidos, às pressas,

Faz fugir a turba

Que desperdiça

O dia que ele concede.

E aqui floresço por breve hora sem ser visto,

Sorvendo meus próprios sucos,

Sem raiz na terra

Para manter verdes meus ramos,

Mas de pé

Numa taça vazia.

Alguns botões tenros foram deixados em meu caule

Como imitação da vida,

Mas, ah! as crianças não saberão,

Até que o tempo os tenha murchado,

A dor

De que estão repletos.

Mas agora vejo que não fui colhido em vão

E depois posto no vaso de vidro da vida

Enquanto ainda pudesse sobreviver,

Mas trazido por mão bondosa

Com vida

A um lugar estranho.

Aquela planta, assim desbastada, logo recuperará suas horas

E, no ano seguinte,

Tal como Deus sabe, com ar mais livre,

Mais frutos e flores mais belas

Produzirá,

Enquanto aqui definho.

Este mundo tem muitos anéis, como Saturno, e agora vivemos no mais externo de todos. Ninguém pode dizer, refletidamente, que habita a mesma esfera ou é contemporâneo da flor que suas mãos colheram; e, embora seus pés pareçam esmagá-la, espaços e eras inconcebíveis os separam, e talvez não haja perigo de que ele a machuque. O que sabem os botânicos? Nossas vidas deveriam passar entre o líquen e a casca. O olho pode ver pela mão, mas não pela mente. Ainda estamos nascendo e até agora temos apenas uma visão indistinta do mar e da terra, do sol, da lua e das estrelas, e não veremos com clareza senão depois de pelo menos nove dias. É uma indagação comovente, entre viajantes e geógrafos, essa sobre a localização da antiga Troia. Ela não fica perto de onde pensam. Quando uma coisa apodreceu e desapareceu, quão indistinto deve ser o lugar que ocupava!

As anedotas da astronomia moderna me afetam da mesma maneira que essas vagas revelações do Real concedidas aos homens de tempos em tempos, ou antes, de eternidade em eternidade. Quando recordo a história daquela luz tênue em nosso firmamento, que chamamos Vênus, considerada pelos homens antigos, e ainda considerada pela maioria dos modernos, uma centelha brilhante presa a uma esfera oca que gira em torno de nossa Terra, mas que descobrimos ser outro mundo, em si mesmo; quando recordo como Copérnico, depois de raciocinar longa e pacientemente sobre a questão, predisse com confiança a seu respeito, antes mesmo que o telescópio tivesse sido inventado, que, se algum dia os homens viessem a vê-la com mais clareza do que então, descobririam que tinha fases como a nossa Lua, e como, dentro de um século após sua morte, o telescópio foi inventado e essa previsão confirmada por Galileu, não deixo de ter esperança de que possamos, mesmo aqui e agora, obter alguma informação precisa acerca daquele OUTRO MUNDO que o instinto da humanidade há tanto tempo prediz. De fato, tudo aquilo a que chamamos ciência, assim como tudo aquilo a que chamamos poesia, é uma partícula de tal informação, exata até onde alcança, embora chegue apenas aos confins da verdade. Se podemos raciocinar com tanta precisão, e com confirmação tão maravilhosa de nosso raciocínio, a respeito dos chamados objetos e acontecimentos materiais, infinitamente afastados para além do alcance de nossa visão natural, de modo que a mente hesita em confiar em seus cálculos mesmo quando são confirmados pela observação, por que nossas especulações não poderiam penetrar igualmente longe no sistema estelar imaterial, do qual o primeiro é apenas o tipo exterior e visível? Por certo, somos dotados de sentidos tão aptos a penetrar os espaços do real, do substancial, do eterno, quanto estes sentidos exteriores o são para penetrar o universo material. Veias, Menu, Zoroastro, Sócrates, Cristo, Shakespeare, Swedenborg, estes são alguns de nossos astrônomos.

Há perturbações em nossas órbitas produzidas pela influência de esferas exteriores, e nenhum astrônomo calculou ainda os elementos daquele mundo não descoberto que as produz. Percebo, no curso habitual de meus pensamentos, uma sequência natural e ininterrupta, cada qual implicando o seguinte, ou, quando ocorre uma interrupção, ela é ocasionada pela apresentação de um novo objeto aos meus sentidos. Mas uma transição abrupta, súbita e, por esses meios, inexplicável é aquela que nos leva de uma visão comparativamente estreita e parcial das coisas, a chamada visão do senso comum, para uma visão infinitamente ampliada e libertadora, de ver as coisas como os homens as descrevem para vê-las como os homens não podem descrevê-las. Isso implica um sentido que não é comum, mas raro até na experiência do homem mais sábio, um sentido sensível ou consciente de mais do que o comum.

Em que cercados se demora o astrônomo! Seus céus são rasos, e a imaginação, como um viajante sedento, ofega para atravessar-lhes o deserto. A mente errante rompe impaciente os grilhões das órbitas astronômicas, como teias de aranha num canto de seu universo, e se lança aonde a distância não consegue segui-la e a lei, tal como a ciência a descobriu, se torna fraca e exausta. A mente conhece uma distância e um espaço dos quais todas aquelas somas combinadas não perfazem sequer uma unidade de medida: o intervalo entre aquilo que parece e aquilo que é. Sei que há muitas estrelas, sei que estão suficientemente distantes, suficientemente brilhantes, suficientemente firmes em suas órbitas, mas de que valem todas elas? São mais terras incultas no Oeste, território estelar, destinadas talvez a se tornarem Estados escravistas, caso as colonizemos. Só me interessam seis pés de estrela, e esse interesse é transitório. Adeus, então, a todos vós, corpos, tais como vos conheci.

Todo homem, se for sábio, ficará sobre um fundo que possa sustentá-lo e, se um gravita para baixo com mais força do que outro, não se aventurará nos prados onde este último caminha com segurança, mas deixará antes sem colher os oxicocos que ali crescem. Talvez, em alguma primavera, uma cheia mais alta os faça flutuar até seu alcance, embora então possam estar aguados e queimados pela geada. Vi tais bagas engelhadas em muito sótão de homem pobre, sim, em muito depósito de igreja e cofre de Estado, e, com um pouco de água e calor, elas tornam a inchar até seu tamanho e formosura originais e, com açúcar suficiente, servem à humanidade como molho para o prato deste mundo.

Aquilo a que se chama senso comum é excelente em seu departamento e tão inestimável quanto a virtude da conformidade no exército e na marinha, pois é preciso haver subordinação; mas o senso incomum, aquele sentido que só é comum aos mais sábios, é tanto mais excelente quanto mais raro. Alguns aspiram à excelência no departamento subordinado, e que Deus os favoreça. O que Fuller diz dos diretores de colégios é universalmente aplicável: “uma pequena liga de obtusidade num diretor de colégio o torna mais apto a administrar assuntos seculares”.

“Quem carece de fé e sofre uma aflição

Por carecer dela tem crença verdadeira;

E quem se aflige por ser tão pequena a aflição

Tem verdadeira dor, e a melhor Fé inteira.”

Ou cobre ânimo com o canto deste outro poeta:

“Com eles ia Fido, marechal do campo:

Fraca estava sua mãe quando lhe deu o dia;

E ele, de início, criança enferma e frágil,

Como jamais com lágrimas saudou a luz do sol;

Mas quando mais anos lhe deram força e crescimento,

Campeão robusto foi e cavaleiro potente,

Como nenhum que ao campo veio ou em brilhante armadura reluziu.

“Montanhas lança aos mares com mão poderosa;

Detém e faz recuar o curso impetuoso do sol;

A Natureza rompe as leis da Natureza a seu comando;

Nenhuma força do Inferno ou do Céu resiste à sua força;

Acontecimentos ainda a muitas eras de distância

Ele torna presentes, por prodigiosa presciência,

Provando cegos os sentidos por ser cego ao sensível.”

“Ontem, ao alvorecer”, diz Hafiz, “Deus me libertou de toda aflição mundana e, em meio à escuridão da noite, apresentou-me a água da imortalidade.”

Na vida de Sadi, por Dowlat Shah, ocorre esta frase: “A águia da alma imaterial do xeique Sadi sacudiu de sua plumagem o pó de seu corpo.”

Assim, absortos em pensamentos, remávamos de volta para casa, a fim de encontrar algum trabalho outonal a fazer e ajudar no avanço da revolução das estações. Talvez a Natureza condescendesse em fazer uso de nós até sem que o soubéssemos, como quando ajudamos a espalhar suas sementes em nossas caminhadas e levamos carrapichos e joios em nossas roupas de um campo a outro.

Todas as coisas seguem seu curso

Sobre o chão terrestre,

Espíritos e elementos

Têm suas descidas.

Noite e dia, ano após ano,

Alto e baixo, longe e perto,

Esses são nossos próprios aspectos,

Esses são nossos próprios pesares.

Ó deuses da margem,

Que habitais para sempre,

Vejo vosso cabo distante,

Estendendo-se para ambos os lados;

Ouço os doces sons da tarde

Vindos de vossos campos incorruptíveis;

Não me iludais mais com o tempo,

Levai-me ao vosso clima.

À medida que a tarde avançava e remávamos sem pressa corrente acima pelo manso rio, encerrados entre margens perfumadas e floridas, onde primeiro havíamos armado nossa tenda, e nos aproximávamos dos campos em que nossas vidas haviam transcorrido, parecíamos distinguir no horizonte sudoeste as tonalidades de nosso céu natal. O sol acabava de se pôr atrás da borda de uma colina arborizada, um ocaso tão rico que jamais teria terminado, não fosse por alguma razão desconhecida dos homens, e que deveria ser assinalado com cores mais brilhantes que as comuns no rolo do tempo. Embora as sombras das colinas começassem a avançar sobre o rio, todo o vale fluvial ondulava numa luz suave, mais pura e memorável que a do meio-dia. Pois assim o dia se despede até dos vales solitários desabitados pelo homem. Duas garças, Ardea herodias, com seus membros longos e esguios recortados contra o céu, foram vistas viajando bem acima de nossas cabeças; seu voo elevado e silencioso, enquanto seguiam seu caminho ao entardecer, por certo não para pousar em algum pântano da superfície terrestre, mas talvez do outro lado de nossa atmosfera, um símbolo para as eras estudarem, quer impresso no céu, quer esculpido entre os hieróglifos do Egito. A caminho de algum prado setentrional, mantinham seu voo majestoso e imóvel, como as cegonhas do quadro, e por fim desapareceram atrás das nuvens. Bandos densos de pássaros-pretos seguiam voando ao longo do curso do rio, como se numa breve peregrinação vespertina a algum santuário seu, ou para celebrar tão belo ocaso.

“Portanto, como o peregrino a quem a noite

Se apressa sombria a aprisionar no caminho,

Pensa em teu lar, minha alma, e pensa com acerto

No que ainda te resta do dia fugaz da vida:

Teu sol corre para oeste, tua manhã passou,

E não te é dado nascer duas vezes.”

O pôr do sol presumia todos os homens desocupados e em disposição contemplativa; mas o filho do fazendeiro apenas assobiava com mais reflexão enquanto conduzia as vacas do pasto para casa, e o carreteiro se abstinha de estalar o chicote e guiava sua junta com voz baixa. Os últimos vestígios de luz do dia enfim desapareceram e, enquanto remávamos em silêncio pela escuridão, de costas para casa, com apenas algumas estrelas visíveis, pouco tínhamos a dizer, mas permanecíamos absortos em pensamentos ou escutávamos em silêncio o som monótono de nossos remos, uma espécie de música rudimentar, adequada ao ouvido da Noite e à acústica de seus salões tenuemente iluminados;

“Pulsæ referunt ad sidera valles”,

e os vales ecoavam o som até as estrelas.

Quando erguemos os olhos em silêncio para aquelas luzes distantes, lembramo-nos de que foi uma imaginação rara a que primeiro ensinou que as estrelas são mundos, e de que ela conferira um grande benefício à humanidade. Registra-se na Crônica de Bernáldez que, na primeira viagem de Colombo, os indígenas “apontavam para os céus, fazendo sinais de que acreditavam que ali estavam todo o poder e toda a santidade”. Temos razão para ser gratos pelos fenômenos celestes, pois eles correspondem sobretudo ao ideal no homem. As estrelas são distantes e discretas, mas brilhantes e duradouras como nossas experiências mais belas e memoráveis. “Deixa que a profundidade imortal de tua alma te conduza, mas ergue com empenho os olhos para o alto.”

Assim como a sociedade mais verdadeira se aproxima sempre mais da solidão, a fala mais excelente finalmente recai no Silêncio. O Silêncio é audível a todos os homens, em todos os tempos e em todos os lugares. Ela existe quando ouvimos interiormente, e é som quando ouvimos exteriormente. A Criação não a desalojou, mas é sua estrutura visível e seu contraste. Todos os sons são seus servos e provedores, proclamando não apenas que sua senhora existe, mas que é uma senhora rara e deve ser buscada com ardor. São tão aparentados ao Silêncio que não passam de bolhas em sua superfície, que de imediato rebentam, prova da força e fecundidade da corrente profunda; uma tênue manifestação do Silêncio, e somente agradável aos nossos nervos auditivos quando se contrapõe a ele e lhe dá relevo. Na medida em que fazem isso e elevam e intensificam o Silêncio, são harmonia e melodia puríssima.

O Silêncio é o refúgio universal, o desfecho de todos os discursos tediosos e de todos os atos insensatos, um bálsamo para cada um de nossos dissabores, tão bem-vindo depois da saciedade quanto depois da decepção; aquele fundo que o pintor não pode manchar, seja mestre ou inepto, e que, por mais desajeitada que tenha sido a figura que fizemos em primeiro plano, permanece sempre nosso asilo inviolável, onde nenhuma indignidade pode nos atingir, nenhuma personalidade nos perturbar.

O orador se despe de sua individualidade e é mais eloquente quando mais silencioso. Escuta enquanto fala e é ouvinte junto com sua audiência. Quem não ouviu o infinito estrondo Dela? Ela é a trombeta da Verdade, o único oráculo, a verdadeira Delfos e Dodona, que reis e cortesãos fariam bem em consultar, sem que fossem frustrados por uma resposta ambígua. Pois por meio Dela todas as revelações foram feitas e, na exata medida em que os homens consultaram seu oráculo interior, obtiveram visão clara, e sua era foi marcada como esclarecida. Mas sempre que saíram a vaguear por uma Delfos estrangeira e sua sacerdotisa enlouquecida, sua era foi sombria e plúmbea. Tais foram as eras tagarelas e ruidosas, que já não produzem som algum; mas a era grega, ou silenciosa e melodiosa, continua sempre soando e ressoando aos ouvidos dos homens.

Um bom livro é o plectro com que são tangidas nossas liras, que de outro modo permaneceriam silenciosas. Não raro atribuímos o interesse pertencente à nossa própria continuação não escrita ao corpo escrito e comparativamente sem vida da obra. De todos os livros, essa continuação é a parte mais indispensável. O objetivo do autor deveria ser dizer uma vez, e enfaticamente, “Ele disse”, ἔφη, ἔ. Isso é o máximo que o fazedor de livros pode alcançar. Se fizer de seu volume um quebra-mar contra o qual as ondas do Silêncio possam rebentar, estará bem.

Seria vão eu tentar interromper o Silêncio. Ela não pode ser vertida para o inglês. Durante seis mil anos, os homens a traduziram com a fidelidade que coube a cada um, e ainda assim ela pouco mais é que um livro selado. Um homem pode prosseguir confiante por algum tempo, julgando tê-la sob seu domínio e que um dia a esgotará, mas também ele deverá por fim silenciar, e os homens apenas observarão quão valente foi o início que fez; pois, quando afinal mergulha nela, tão vasta é a desproporção entre o dito e o não dito, que o primeiro parecerá apenas a bolha na superfície onde ele desapareceu. Ainda assim, seguiremos adiante, como aquelas andorinhas chinesas dos penhascos, forrando nossos ninhos com a espuma, que um dia poderá ser pão da vida para aqueles que habitam à beira-mar.

Havíamos percorrido cerca de cinquenta milhas naquele dia, a vela e a remo, e agora, já alta a noite, nosso barco roçava os juncos de seu porto natal, e sua quilha reconhecia a lama do Concord, onde ainda se preservava alguma semelhança de seu contorno nos cálamos achatados, que mal haviam voltado a se erguer desde nossa partida; e saltamos alegremente em terra, puxando-o para cima e prendendo-o à macieira silvestre, cujo tronco ainda trazia a marca que sua corrente deixara ao se atritar durante as cheias da primavera.

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