Segunda-feira Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack · Capítulo 4 de 8
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Segunda-feira

“Penso também em tocar

O mundo que a cada dia se renova,

Conforme posso, conforme me é dado.”

GOWER.

“O alto xerife de Nottingham,

Guardai-o em vossa lembrança.”

Baladas de Robin Hood.

“Seu disparo foi feito sem firmeza,

Mas a flecha não voou em vão,

Pois encontrou um dos homens do xerife,

E William a Trent caiu morto.”

Baladas de Robin Hood

“Fitou os céus em busca do que perdera na Terra.”

Britania’s Pastorals

Quando a primeira luz raiou sobre a terra e as aves despertaram, e se ouviu o valente rio ondulando confiante rumo ao mar, e o ágil vento madrugador fez farfalhar as folhas dos carvalhos ao redor de nossa tenda, todos os homens, tendo fortalecido corpo e alma com o sono e posto de lado a dúvida e o medo, foram convidados a aventuras ainda não tentadas.

“Todos os cavaleiros valorosos

Ao romper do dia se preparam,

A couraça que reluz

Para lutar com o inimigo.

O corcel fogoso escarva

Por coragem e ímpeto,

Depois salta sobre a terra;

A noite quase se foi.”

Um de nós levou o barco até a margem oposta, plana e acessível, a um quarto de milha de distância, para esvaziá-lo e lavar a argila, enquanto o outro acendeu o fogo e preparou o desjejum. Bem cedo estávamos novamente a caminho, remando pela névoa como antes, com o rio já desperto e um milhão de ondas encrespadas vindo ao encontro do sol quando ele se mostrasse. Os moradores da região, refeitos pelo dia de descanso, já se movimentavam e começavam a atravessar na balsa para os afazeres da semana. Aquela travessia era tão movimentada quanto uma represa de castores, e o mundo inteiro parecia ansioso por cruzar o rio Merrimack justamente naquele ponto, esperando que o levassem à outra margem: crianças com seus dois centavos embrulhados em papel, pássaros de cadeia postos em liberdade e um policial com mandado, viajantes de terras distantes rumo a terras distantes, homens e mulheres para quem o rio Merrimack era uma barreira. Ali está uma charrete na manhã cinzenta, em meio à névoa, o viajante impaciente andando de um lado para outro na margem molhada, de chicote na mão, e gritando através do nevoeiro pelo indiferente Caronte e sua arca que se afasta, como se ele pudesse lançar aquele passageiro pela borda e voltar imediatamente para buscá-lo; ele o recompensará. Deve quebrar o jejum em algum lugar invisível do outro lado. Pode ser Ledyard ou o Judeu Errante. De onde, afinal, saiu ele da noite enevoada? E para onde irá, atravessando o dia ensolarado? Observamos apenas sua passagem, importante para nós, esquecida por ele, que passa o dia inteiro em trânsito. São dois. Talvez sejam Virgílio e Dante. Mas, quando atravessaram o Estige, não se via ninguém subindo ou descendo a corrente, que eu me lembre. É apenas um transjectus, uma viagem transitória, como a própria vida, e ninguém, salvo os longevos deuses, sobe ou desce a corrente. Muitos desses homens de segunda-feira são ministros, sem dúvida, voltando em busca de suas paróquias com cavalos alugados, levando nas malas sermões já todos lidos e esvaziados, sem jamais trazerem consigo o dia seguinte. Seus trajetos se cruzam por todo o país como trama e urdidura, fazendo uma veste de tecido frouxo; agora, férias por seis dias. Param para colher nozes e frutos silvestres e apanham maçãs à beira da estrada sem nenhuma pressa. Bons homens religiosos, com amor pelos homens no coração e dinheiro para pagar o pedágio no bolso. Passamos por cima da corrente da balsa sem raspar, remando de través contra a maré dos viajantes, e naquele dia não houve pedágio para nós.

A névoa se dispersou, e remamos sem pressa por Tyngsborough, sob céu limpo e atmosfera amena, deixando para trás as habitações humanas e penetrando ainda mais no território da antiga Dunstable. Foi de Dunstable, então cidade de fronteira, que o famoso capitão Lovewell, com sua companhia, partiu em busca dos indígenas em 18 de abril de 1725. Era filho de “um alferes do exército de Oliver Cromwell, que veio para este país e se estabeleceu em Dunstable, onde morreu na avançada idade de cento e vinte anos”. Nas palavras da velha cantiga infantil, entoada cerca de cem anos atrás:

“Ele e seus valentes soldados percorreram amplamente a mata,

E suportaram muitas agruras para abater o orgulho indígena.”

Na densa floresta de pinheiros de Pequawket, encontraram os “indígenas rebeldes” e prevaleceram, após um combate sangrento, e os remanescentes voltaram para casa a fim de desfrutar a fama de sua vitória. Um município chamado Lovewell’s Town, mas hoje, por alguma razão, ou talvez sem razão alguma, Pembroke, foi-lhes concedido pelo Estado.

“De todos os nossos valentes ingleses, havia apenas trinta e quatro,

E dos indígenas rebeldes, havia cerca de quatro vintenas;

E dezesseis dos nossos ingleses voltaram a salvo para casa,

Os demais foram mortos ou feridos, e por eles todos devemos chorar.

“Nosso digno capitão Lovewell ali morreu entre os seus,

Mataram o tenente Robbins e feriram o bom jovem Frye,

Que era nosso capelão inglês; muitos indígenas matou,

E alguns deles escalpelou enquanto as balas ao redor voavam.”

Nossos bravos antepassados exterminaram todos os indígenas, e seus filhos degenerados já não moram em casas fortificadas nem ouvem grito de guerra algum em seu caminho. Seria bom, talvez, se muito “capelão inglês” de hoje pudesse exibir troféus de sua coragem tão incontestáveis quanto os do “bom jovem Frye”. Ainda precisamos ser pioneiros tão firmes quanto Miles Standish, Church ou Lovewell. É verdade que devemos seguir outra trilha, mas igualmente propícia a emboscadas. Que importa que os indígenas tenham sido exterminados? Não rondam hoje pelas clareiras selvagens igualmente ferozes?

“E afrontando muitos perigos e agruras pelo caminho, chegaram a salvo a Dunstable no décimo terceiro (?) dia de maio.”

Mas nem todos “chegaram a salvo a Dunstable no décimo terceiro”, nem no décimo quinto, nem no trigésimo “dia de maio”. Eleazer Davis e Josiah Jones, ambos de Concord, pois nossa cidade natal tinha sete homens nesse combate, o tenente Farwell, de Dunstable, e Jonathan Frye, de Andover, todos feridos, foram deixados para trás, rastejando em direção aos povoados. “Depois de percorrer várias milhas, Frye foi deixado e se perdeu”, embora um poeta mais recente lhe tenha concedido companhia em suas últimas horas.

“Era um homem de bela figura,

Polido e bravo, erudito e bondoso;

Deixou os sábios salões da velha Harvard

Para achar nas terras selvagens uma sepultura.

“Ah! Agora ergue o braço vermelho de sangue;

Procura abrir as pálpebras que se fecham;

E falar mais uma vez antes de morrer,

Em súplica e em louvor.

“Pede ao bondoso Céu que lhes conceda êxito,

Que guie e abençoe os homens do bravo Lovewell,

E quando eles verterem o verdadeiro sangue do coração,

Que a todos eleve à felicidade.” . . .

“O tenente Farwell tomou-lhe a mão,

Passou-lhe o braço em torno do pescoço,

E disse: ‘Bravo capelão, eu desejaria

Que o Céu me tivesse feito morrer por vós.’”

Farwell resistiu onze dias. “Diz uma tradição”, como lemos na História de Concord, “que, chegando a um lago com o tenente Farwell, Davis tirou um dos mocassins, cortou-o em tiras, prendeu nelas um anzol, apanhou alguns peixes, fritou-os e os comeu. Eles o reanimaram, mas fizeram mal a Farwell, que morreu pouco depois.” Davis tinha uma bala alojada no corpo e perdera a mão direita com um tiro; no conjunto, porém, parece ter sofrido menos danos do que o companheiro. Chegou a Berwick depois de passar catorze dias ao relento. Jones também tinha uma bala alojada no corpo, mas igualmente chegou a Saco após catorze dias, embora não nas melhores condições imagináveis. “Subsistira”, diz um antigo diário, “das plantas espontâneas da floresta; e os oxicocos que comera saíam pelos ferimentos que recebera no corpo.” O mesmo aconteceu com Davis. Os dois últimos por fim chegaram em casa, salvos, embora não sãos, e viveram muitos anos aleijados para desfrutar sua pensão.

Mas, ai!, quanto aos indígenas aleijados e suas aventuras na mata:

“Pois, conforme nos informam, tão numerosos e depressa caíram,

Que mal vinte deles chegaram bem a casa ao cair da noite”,

quantas balas ficaram alojadas neles, que destino tiveram seus oxicocos, a que Berwick ou Saco chegaram e, por fim, que pensão ou município lhes foi concedido, não há diário que conte.

Afirma-se na História de Dunstable que, pouco antes de sua última marcha, Lovewell foi advertido a precaver-se das emboscadas do inimigo, mas “respondeu que não se importava com elas” e, curvando em forma de arco um pequeno olmo junto ao qual estava, declarou “que trataria os indígenas do mesmo modo”. Esse olmo ainda está de pé [em Nashua], árvore venerável e magnífica.

Enquanto isso, depois de passarmos pelo Várzea da Ferradura, em Tyngsborough, onde o rio faz uma curva repentina para noroeste, pois nossas reflexões se adiantaram um pouco ao nosso avanço, penetrávamos mais fundo no território e no dia, que se mostrou quase tão dourado quanto o anterior, embora a leve agitação e atividade da segunda-feira parecessem alcançar até aquela paisagem. De vez em quando, tínhamos de reunir toda a energia para contornar uma ponta, onde o rio se quebrava em ondulações sobre as pedras e os bordos arrastavam os galhos na corrente, mas em geral havia ao lado uma contracorrente ou remanso, da qual nos aproveitávamos. O rio tinha ali cerca de quarenta rods de largura e quinze pés de profundidade. Às vezes, um de nós seguia correndo pela margem, examinando a região e visitando as casas de fazenda mais próximas, enquanto o outro acompanhava sozinho as curvas da corrente, para encontrar o companheiro em algum ponto distante e ouvir o relato de suas aventuras: como o fazendeiro elogiara o frescor de seu poço, e sua mulher oferecera ao estranho um gole de leite, ou as crianças disputaram a única vidraça translúcida da janela para poderem ver o homem junto ao poço. Pois, embora a região parecesse tão nova e nenhuma casa fosse avistada por nós, encerrados entre as margens naquele dia ensolarado, não precisávamos ir longe para encontrar lugares onde homens habitavam, como abelhas selvagens, e haviam cavado poços na areia e no solo argiloso e solto do Merrimack. Ali viviam o tema das Escrituras hebraicas e o Esprit des Lois, onde uma fumaça fina e vaporosa se enroscava pelo meio-dia. Tudo o que se conta da humanidade, dos habitantes do Alto Nilo, dos Sundarbans, de Timbuktu e do Orinoco, era ali experiência vivida. Toda raça e classe de homens estava representada. Segundo Belknap, historiador de New Hampshire, que escreveu sessenta anos atrás, talvez ali também morassem “novas luzes” e homens de livre pensamento já naquele tempo. “O povo em geral, por todo o Estado”, está escrito, “professa a religião cristã sob uma forma ou outra. Há, contudo, uma espécie de sábios que alegam rejeitá-la; mas até agora não foram capazes de pôr em seu lugar outra melhor.”

O outro voyageur, nesse meio-tempo, talvez tivesse visto um falcão-pardo, uma marmota-americana ou um rato-almiscarado rastejando sob os amieiros.

Às vezes descansávamos à sombra de um bordo ou de um salgueiro e tirávamos um melão para nos refrescar, enquanto contemplávamos sem pressa o curso do rio e da vida humana; e, assim como aquela corrente, com seus gravetos e folhas flutuantes, todas as coisas passavam em revista diante de nós, enquanto, muito longe dali, nas cidades e mercados situados naquele mesmo rio, a velha rotina ainda prosseguia. Há, de fato, uma maré nos assuntos dos homens, como diz o poeta, e contudo, enquanto as coisas fluem, elas circulam, e a vazante sempre equilibra a enchente. Todos os rios são apenas tributários do oceano, que em si não corre, e as margens permanecem inalteradas, embora por períodos mais longos do que o homem pode medir. Aonde quer que vamos, descobrimos mudança infinita apenas nos particulares, não no geral. Quando entro num museu e vejo as múmias envoltas em faixas de linho, percebo que a vida dos homens começou a precisar de reforma já no tempo em que elas caminhavam sobre a terra. Saio às ruas e encontro homens que declaram estar próximo o tempo da redenção da raça. Mas, assim como os homens viviam em Tebas, vivem hoje em Dunstable. “O tempo bebe a essência de toda ação grande e nobre que deveria ser realizada e cuja execução é adiada.” Assim diz Veeshnoo Sarma; e percebemos que os que fazem planos retornam repetidas vezes ao senso comum e ao trabalho. Tal é o testemunho da história.

“Contudo, não duvido de que através dos séculos avance um propósito crescente,

E os pensamentos dos homens se alarguem com o curso dos Sóis.”

Há artigos secretos em nossos tratados com os deuses, mais importantes do que todos os demais, que o historiador jamais poderá conhecer.

Há muitos aprendizes hábeis, mas poucos mestres de ofício. Por toda parte observamos uma prática verdadeiramente sábia, na educação, na moral e nas artes da vida, a sabedoria corporificada de muitos filósofos antigos. Quem não vê que heresias já prevaleceram em algum tempo, que reformas já ocorreram? Toda essa sabedoria mundana poderia ser considerada a heresia outrora malvista de algum sábio. Certos interesses firmaram-se na terra sem que lhes tenhamos concedido a devida consideração. Até aqueles que primeiro construíram estes celeiros e assim desbravaram a terra tiveram alguma coragem. As épocas abruptas e os abismos são aplainados na história, assim como as desigualdades da planície se ocultam à distância. Mas, a menos que façamos mais do que simplesmente aprender o ofício de nosso tempo, não passamos de aprendizes, e ainda não somos mestres da arte de viver.

Agora que estamos lançando fora estas sementes de melão, como deixar de sentir uma censura? Quem come o fruto deveria ao menos plantar a semente; sim, se possível, uma semente melhor do que aquela cujo fruto desfrutou. Sementes! Há sementes em abundância que só precisam ser revolvidas na terra onde jazem, por uma voz ou pena inspirada, para dar frutos de sabor divino. Ó pródigo! Salda tua dívida para com o mundo; não comas a semente das instituições, como fazem os luxuosos, mas planta-a, enquanto devoras a polpa e o tubérculo para teu sustento; para que assim, talvez, uma variedade enfim se revele digna de preservação.

Há momentos em que toda ansiedade e todo labor regular ficam em calmaria no ócio e no repouso infinitos da Natureza. Todos os trabalhadores precisam de sua pausa ao meio-dia, e, nesta hora do dia, somos todos, em maior ou menor grau, asiáticos, e abandonamos todo trabalho e toda reforma. Enquanto assim repousávamos sobre os remos à margem da corrente, no calor do dia, com nosso barco preso por um vime passado pela argola da proa, e cortávamos os melões, que são um fruto do Oriente, nossos pensamentos voltaram-se para a Arábia, a Pérsia e o Hindustão, terras de contemplação e moradas das nações ruminantes. Na experiência desse meio-dia podíamos encontrar alguma desculpa até para o instinto dos mascadores de ópio, bétel e tabaco. O monte Sabér, segundo o viajante e naturalista francês Botta, é célebre por produzir a árvore Kát, da qual “comem-se as pontas macias dos ramos e as folhas tenras”, diz seu resenhista, “e elas produzem uma agradável excitação calmante, restaurando das fadigas, afastando o sono e predispondo ao prazer da conversa”. Pensamos que também poderíamos levar uma vida oriental digna ao longo desta corrente, e os bordos e amieiros seriam nossas árvores Kát.

É um grande prazer escapar às vezes da inquieta classe dos Reformadores. E se essas queixas existem? Você e eu também existimos. Julga acaso que as galinhas chocas padecem de ennui nestes longos dias de verão, sentadas sem parar na fresta de um paiol, sem ocupação ativa? Pelo fraco cacarejo nos celeiros distantes, concluo que a senhora Natureza ainda se interessa em saber quantos ovos põem suas galinhas. A Alma Universal, como é chamada, interessa-se pelo empilhamento do feno, pela alimentação do gado e pela drenagem dos prados turfosos. Lá longe na Cítia, lá longe na Índia, ela faz manteiga e queijo. Suponhamos que todas as fazendas estejam esgotadas e que nós, jovens, tenhamos de comprar terras velhas e recuperá-las; ainda assim, em toda parte, os implacáveis adversários da reforma guardam estranha semelhança conosco; ou talvez sejam umas poucas solteironas e solteirões que se sentam em torno da lareira da cozinha e escutam o canto da chaleira. “Os oráculos muitas vezes concedem a vitória à nossa escolha, e não apenas à ordem dos períodos mundanos. Como, por exemplo, quando dizem que nossas tristezas voluntárias germinam em nós como fruto da vida particular que levamos.” A reforma de que você fala pode ser empreendida numa manhã qualquer, antes de destrancarmos as portas. Não precisamos convocar convenção alguma. Quando dois vizinhos que antes comiam pão de trigo começam a comer pão de milho, os deuses sorriem de orelha a orelha, pois isso lhes é muito agradável. Por que você não experimenta? Não permita que eu o impeça.

Há reformadores teóricos em todas as épocas e por todo o mundo, vivendo de expectativa. Wolff, viajando pelos desertos de Bucara, diz: “Outro grupo de dervixes veio até mim e observou: ‘Chegará o tempo em que não haverá diferença entre ricos e pobres, entre superiores e inferiores, em que a propriedade será comum, até mesmo as esposas e os filhos.’” Mas a esses pergunto para sempre: E depois? Os dervixes nos desertos de Bucara e os reformadores na Capela Marlboro’ cantam a mesma canção. “Vêm aí bons tempos, rapazes”, mas um dos presentes perguntou, de boa-fé: “Pode marcar a data?” Eu disse: “Você vai ajudar a fazê-los chegar?”

O ar de nonchalance e dolce-far-niente da Natureza e da sociedade sugere períodos infinitos no progresso da humanidade. Os Estados têm tempo de sobra para rir, do Maine ao Texas, de alguma piada de jornal, e a Nova Inglaterra estremece com os duplos sentidos dos círculos australianos, enquanto o pobre reformador não consegue ser ouvido.

Os homens comumente não fracassam por falta de conhecimento, mas por falta da prudência necessária para dar preferência à sabedoria. O que precisamos saber em qualquer caso é muito simples. É fácil demais estabelecer outra rotina duradoura e harmoniosa. Imediatamente todas as partes da Natureza consentem nela. Basta fazer algo tomar o lugar de outra coisa, e os homens se comportarão como se fosse exatamente aquilo que desejavam. De todo modo, eles têm de se comportar, e trabalharão com qualquer material. Há sempre uma vida presente e existente, melhor ou pior, que todos se unem para sustentar. Devemos ser lentos para consertar, meus amigos, tão lentos quanto para exigir conserto, “sem arremessar, segundo o oráculo, um pé transcendente em direção à piedade”. A linguagem da exaltação, na melhor das hipóteses, é apenas pitoresca. É preciso estar calmo antes de proferir oráculos. Que era a exaltação da sacerdotisa de Delfos comparada à serena sabedoria de Sócrates? Ou de quem quer que tenha sido sábio. O entusiasmo é uma serenidade sobrenatural.

“Os homens veem que agir é outra coisa

Do que aquilo que em papéis discursivos leem;

Os negócios do mundo, em sua condução,

Requerem mais artes que as seguidas por seus letrados.”

Como na geologia, também nas instituições sociais podemos descobrir as causas de toda mudança passada na ordem presente e invariável da sociedade. As maiores revoluções físicas perceptíveis são obra do ar de passos leves, da água de marcha furtiva e do fogo subterrâneo. Aristóteles disse: “Como o tempo jamais se esgota e o universo é eterno, nem o Tanais nem o Nilo podem ter corrido para sempre.” Somos independentes da mudança que detectamos. Quanto mais longa a alavanca, menos perceptível seu movimento. É a pulsação mais lenta que é a mais vital. O herói, portanto, saberá esperar tão bem quanto se apressar. Todo bem permanece com aquele que espera sabiamente; alcançaremos mais cedo a aurora ficando aqui do que correndo pelas colinas do oeste. Esteja certo de que o êxito de cada homem é proporcional à sua capacidade média. As flores do prado brotam e florescem onde as águas depositam anualmente seu limo, não onde chegam apenas numa enchente ocasional. Um homem não é sua esperança, nem seu desespero, nem tampouco seu feito passado. Ainda não sabemos o que fizemos, muito menos o que estamos fazendo. Espere até a noite, e outras partes do trabalho de nosso dia brilharão mais do que imaginávamos ao meio-dia, e descobriremos o verdadeiro propósito de nosso labor. Assim como o lavrador, ao chegar ao fim do sulco e olhar para trás, pode dizer melhor onde a terra comprimida mais reluz.

Para quem procura habitualmente contemplar o verdadeiro estado das coisas, mal se pode dizer que o estado político tenha qualquer existência. Ele lhe parece irreal, inacreditável e insignificante, e tentar extrair a verdade de matéria tão magra é como fazer açúcar de trapos de linho quando se pode ter cana-de-açúcar. De modo geral, as notícias políticas, nacionais ou estrangeiras, poderiam ser escritas hoje para os próximos dez anos com precisão suficiente. A maioria das revoluções da sociedade não tem poder para nos interessar, muito menos para nos alarmar; mas diga-me que nossos rios estão secando, ou que o gênero dos pinheiros está desaparecendo do país, e talvez eu preste atenção. A maior parte dos acontecimentos registrados na história é mais notável do que importante, como os eclipses do sol e da lua, que atraem a todos, mas cujos efeitos ninguém se dá ao trabalho de calcular.

Mas o governo nunca será tão bem administrado, perguntou alguém, que nós, homens particulares, nada ouçamos a respeito dele? “O rei respondeu: Em todo caso, preciso de um homem prudente e capaz, apto a dirigir os negócios de Estado de meu reino. O ex-ministro disse: O critério, ó Senhor, de um homem sábio e competente é que ele não se meta em assuntos dessa espécie.” Ai de nós, que o ex-ministro tenha chegado tão perto de estar certo!

Em minha breve experiência da vida humana, os obstáculos externos, se é que houve algum, não foram homens vivos, mas as instituições dos mortos. É agradável abrir caminho por esta geração mais recente como através da relva coberta de orvalho. Para quem nada suspeita, os homens são tão inocentes quanto a manhã.

“E em torno voam bons-dias,

Como se o dia ensinasse humanidade.”

Não sendo o administrador deste Condado,

“O alegre peregrino madrugador saudava,

Que pelas colinas ia a vagar,

E muitos lavradores madrugadores,

Que encontrava pelo caminhar”;

ladrões e salteadores todos eles, não obstante. Não previ com tanta certeza que algum cossaco ou chippewa viria perturbar a honesta e simples comunidade quanto que alguma instituição monstruosa acabaria por abraçar e esmagar seus membros livres em suas dobras escamosas; pois não se deve esquecer que, enquanto a lei mantém presos o ladrão e o assassino, deixa a si própria à solta. Quando não paguei o imposto que o Estado exigia por uma proteção que eu não queria, ele próprio me roubou; quando afirmei a liberdade que ele pretendia declarar, ele próprio me aprisionou. Pobre criatura! Se não sabe agir melhor, não a censurarei. Se ela só pode viver por esses meios, eu posso viver sem eles. Acontece que não desejo associar-me a Massachusetts, nem na manutenção da escravidão nem na conquista do México. Sou um pouco melhor que ela nesses aspectos. Quanto a Massachusetts, essa imensa Briareia, Argos e Dragão da Cólquida reunidos numa só fêmea, posta a vigiar a Novilha da Constituição e o Velocino de Ouro, não garantiríamos que nosso respeito por ela, como certas composições, conservaria suas qualidades sob todos os climas. Assim aconteceu que não foi o próprio Arquidemônio que se pôs em meu caminho, mas estas redes que a tradição diz terem sido originalmente tecidas para detê-lo. São teias de aranha e obstáculos insignificantes no caminho de um homem sério, é verdade, e por fim chega-se até a criar afeição pelo sótão que nunca foi varrido nem espanado. Amo a humanidade, mas odeio as instituições desumanas dos mortos. Nada os homens executam com tanta fidelidade quanto as vontades testamentárias dos mortos, até o último codicilo e a última letra. Eles governam este mundo, e os vivos não passam de seus testamenteiros. Tal é também, em geral, o fundamento de nossas conferências e de nossos sermões. São todos Dudleianos; e a piedade ainda deriva sua origem daquela façanha de pius Æneas, que carregou nos ombros seu pai, Anquises, para fora das ruínas de Troia. Ou melhor, como certas tribos indígenas, carregamos nos ombros os restos em decomposição de nossos antepassados. Se, por exemplo, um homem afirma o valor da liberdade individual acima do bem comum meramente político, seu vizinho ainda o tolera, aquele que está vivendo perto dele às vezes até o sustenta, mas nunca o Estado. Seu agente, como homem vivo, pode possuir virtudes humanas e um pensamento no cérebro, mas, como instrumento de uma instituição, seja carcereiro ou policial, não é nem um pouco superior à chave de sua prisão ou a seu bastão. Nisso está a tragédia: homens que ultrajam a própria natureza, mesmo aqueles tidos por sábios e bons, prestam-se a desempenhar o ofício de seres inferiores e brutais. Por essa abertura entram a guerra e a escravidão; e o que mais não poderá entrar por ela? Mas certamente há maneiras pelas quais um homem pode pôr pão na boca sem que isso o prejudique como companheiro e vizinho.

“Agora volte, volte, disse o guardador do cercado,

Pois tomou um caminho errado,

Abandonou a estrada real

E abriu uma trilha por sobre o milharal.”

Sem dúvida, inúmeras reformas são necessárias, porque a sociedade não é animada nem suficientemente impregnada de vida, mas se encontra na condição de certas serpentes que vi no início da primavera, com partes alternadas do corpo entorpecidas e flexíveis, de modo que não conseguiam rastejar para lado algum. Todos os homens estão parcialmente enterrados no túmulo do costume, e de alguns vemos apenas o alto da cabeça acima do solo. Melhores são os mortos fisicamente, pois apodrecem com mais vivacidade. Até a virtude deixa de ser virtude se estiver estagnada. A vida de um homem deveria ser constantemente tão fresca quanto este rio. Deveria ser o mesmo leito, mas uma água nova a cada instante.

“As virtudes, como rios, passam,

Mas permanece o homem virtuoso que houve.”

A maioria dos homens não tem inclinação, nem corredeiras, nem cascatas, mas pântanos, jacarés e miasmas em seu lugar. Lemos que, durante a expedição de Alexandre, Onesícrito foi enviado adiante para encontrar certos membros da seita indiana dos ginosofistas, e, depois de lhes falar daqueles novos filósofos do Ocidente, Pitágoras, Sócrates e Diógenes, e de suas doutrinas, um deles, chamado Dândamis, respondeu que “lhe pareciam homens de gênio, mas que haviam vivido com uma consideração passiva demais pelas leis”. Os filósofos do Ocidente ainda estão sujeitos a essa censura. “Dizem que Lieou-hia-hoei e Chao-lien não sustentaram até o fim suas resoluções e que desonraram seu caráter. Sua linguagem estava em harmonia com a razão e a justiça, ao passo que seus atos estavam em harmonia com os sentimentos dos homens.”

Chateaubriand disse: “Há duas coisas que se fortalecem no peito do homem à medida que ele avança em anos: o amor à pátria e a religião. Por mais esquecidas que sejam na juventude, cedo ou tarde se apresentam a nós revestidas de todos os seus encantos e despertam, nos recessos de nosso coração, um apego justamente devido à sua beleza.” Pode ser. Mas até essa fraqueza das mentes nobres assinala o declínio gradual da esperança e da fé juvenis. É a infidelidade permitida da velhice. Há um ditado dos jolofos: “Quem nasceu primeiro tem o maior número de roupas velhas”; por conseguinte, o sr. Chateaubriand tem mais roupas velhas do que eu. É uma beleza comparativamente tênue e refletida que se admira, não uma beleza essencial e intrínseca. Isso se dá porque os velhos são fracos, sentem sua mortalidade e pensam ter medido a força do homem. Não se vangloriarão; serão francos e humildes. Pois bem, que conservem os poucos e pobres consolos que puderem. A humildade ainda é uma virtude muito humana. Eles olham para trás, para a vida, e por isso não enxergam o futuro. A perspectiva dos jovens se estende adiante, sem limites, misturando o futuro ao presente. No dia declinante, os pensamentos se apressam a repousar na escuridão e mal contemplam a manhã seguinte. Os pensamentos dos velhos preparam-se para a noite e o sono. As mesmas esperanças e perspectivas não pertencem àquele que se encontra nos cumes rosados da vida e àquele que espera o ocaso de seu dia terreno.

Devo concluir que a Consciência, se é esse o seu nome, não nos foi dada sem propósito, nem como impedimento. Por mais lisonjeiras que pareçam a ordem e a conveniência, não passam do repouso da letargia, e escolheremos antes estar despertos, ainda que sob a tempestade, e sustentar-nos nesta terra e nesta vida como pudermos, sem assinar nossa sentença de morte. Vejamos se não podemos permanecer aqui, onde Ele nos colocou, segundo as condições Dele próprio. Sua lei não alcança tão longe quanto Sua luz? Os expedientes das nações chocam-se uns com os outros; somente o absolutamente justo é conveniente para todos.

Há algumas passagens na Antígona de Sófocles, bem conhecidas dos estudiosos, das quais me recordo a esse respeito. Antígona decidiu espargir areia sobre o cadáver de seu irmão Polinices, não obstante o édito do rei Creonte, que condenava à morte quem prestasse esse serviço, tão importante para os gregos, ao inimigo de sua pátria; Ismene, porém, de espírito menos resoluto e nobre, recusa-se a tomar parte com a irmã nessa tarefa e diz:

“Eu, portanto, pedindo aos que estão sob a terra que levem em conta que sou compelida a agir assim, obedecerei aos que foram postos no poder; pois fazer coisas extremas não é sábio.”

ANTÍGONA.

“Eu não lhe pediria, nem você, ainda que agora quisesse, o faria de bom grado comigo. Seja como lhe parecer melhor. Mas eu o sepultarei. É glorioso para mim morrer fazendo isso. Amada, jazerei com ele, amado, tendo, como uma criminosa, feito o que é santo; pois é mais longo o tempo em que devo agradar aos que estão lá embaixo do que aos que estão aqui, porque lá repousarei para sempre. Mas, se assim lhe parece melhor, despreze aquilo que os deuses honram.”

ISMENE.

“Eu de fato não o desprezo; mas sou por natureza incapaz de agir em oposição aos cidadãos.”

Quando Antígona é por fim conduzida diante do rei Creonte, ele pergunta:

“Você então ousou transgredir essas leis?”

ANTÍGONA.

“Pois não foi Zeus quem as proclamou para mim, nem a Justiça que habita com os deuses lá embaixo; não foram eles que estabeleceram essas leis entre os homens. Tampouco julguei que suas proclamações fossem fortes a ponto de você, sendo mortal, poder sobrepor-se às leis não escritas e imutáveis dos deuses. Pois elas não vivem desde hoje ou ontem, mas desde sempre, e ninguém sabe desde quando apareceram. Eu não estava disposta a sofrer perante os deuses a pena por violá-las, temendo a presunção de homem algum. Pois bem sabia que morreria, e por que não?, mesmo que você não o tivesse proclamado.”

Isso dizia respeito ao sepultamento de um cadáver.

O conservadorismo mais sábio é o dos hindus. “O costume imemorial é lei transcendente”, diz Menu. Isto é, foi o costume dos deuses antes que os homens o adotassem. O defeito de nosso costume da Nova Inglaterra é ser memorial. Que é a moralidade senão costume imemorial? A Consciência é a principal entre os conservadores. “Cumpre as funções estabelecidas”, diz Kreeshna no Bhagvat-Geeta; “a ação é preferível à inação. A jornada de tua estrutura mortal pode não ter êxito por causa da inação.” — “A vocação própria de um homem, com todos os seus defeitos, não deve ser abandonada. Todo empreendimento está envolto em seus defeitos como o fogo em sua fumaça.” — “O homem que conhece o todo não deve afastar de suas obras aqueles que são lentos de compreensão e menos experientes do que ele.” — “Portanto, ó Arjoon, resolve-te a lutar” é o conselho do Deus ao soldado irresoluto que teme matar seus melhores amigos. É um conservadorismo sublime; tão vasto quanto o mundo e tão incansável quanto o tempo; preserva o universo, com ansiedade asiática, no estado em que se apresentou a suas mentes. Esses filósofos detêm-se na inevitabilidade e imutabilidade das leis, no poder do temperamento e da constituição, nos três goon, ou qualidades, e nas circunstâncias de nascimento e afinidade. O fim é uma consolação imensa: absorção eterna em Brahma. Suas especulações jamais se aventuram além de seus próprios planaltos, embora sejam tão elevados e vastos quanto eles. Vivacidade, liberdade, flexibilidade, variedade, possibilidade, que também são qualidades do Inominado, não entram em suas considerações. A recompensa imerecida deve ser conquistada por uma labuta moral eterna; a promessa incalculável do amanhã é, por assim dizer, pesada. E quem dirá que seu conservadorismo não foi eficaz? “Seguramente”, diz um tradutor francês, falando da antiguidade e da durabilidade das nações chinesa e indiana e da sabedoria de seus legisladores, “há ali alguns vestígios das leis eternas que governam o mundo.”

O cristianismo, por outro lado, é humano, prático e, em sentido amplo, radical. Por tantos anos e eras dos deuses, aqueles sábios orientais permaneceram sentados contemplando Brahm, pronunciando em silêncio o místico “Om”, absorvendo-se na essência do Ser Supremo, sem jamais sair de si mesmos, mas mergulhando cada vez mais para dentro e mais fundo; infinitamente sábios, porém infinitamente estagnados; até que, por fim, nessa mesma Ásia, mas em sua parte ocidental, surgiu um jovem, por eles inteiramente não predito, não absorvido em Brahm, mas trazendo Brahm à terra e à humanidade; nele Brahm despertara de seu longo sono e entrara em ação, e o dia começara, um novo avatar. O brâmane jamais pensara em ser irmão da humanidade, além de filho de Deus. Cristo é o príncipe dos Reformadores e Radicais. Muitas expressões do Novo Testamento acorrem naturalmente aos lábios de todos os protestantes, e ele fornece os textos mais fecundos e práticos. Nele não há sonho inofensivo nem especulação sábia, mas por toda parte um substrato de bom senso. Ele nunca reflete, mas se arrepende. Não há poesia nele, poderíamos dizer, nada considerado apenas à luz da beleza, mas a verdade moral é seu objeto. Todos os mortais são condenados por sua consciência.

O Novo Testamento é notável por sua moralidade pura; o melhor das Escrituras hindus, por sua intelectualidade pura. Em parte alguma o leitor é elevado e sustentado numa região de pensamento mais alta, mais pura ou mais rarefeita do que no Bhagvat-Geeta. Warren Hastings, em sua sensata carta recomendando a tradução desse livro ao presidente da Companhia das Índias Orientais, declara que o original possui “uma sublimidade de concepção, raciocínio e dicção quase sem igual”, e que os escritos dos filósofos indianos “sobreviverão quando o domínio britânico na Índia tiver há muito deixado de existir e quando as fontes de riqueza e poder que um dia ele proporcionou estiverem perdidas para a memória”. É, indiscutivelmente, uma das mais nobres e sagradas escrituras que chegaram até nós. Os livros devem ser distinguidos pela grandeza de seus temas, ainda mais do que pela maneira como são tratados. A filosofia oriental aborda com facilidade temas mais elevados do que aqueles a que a moderna aspira; e não admira que às vezes balbucie a respeito deles. Somente ela atribui à Ação e à Contemplação, respectivamente, a posição que lhes cabe, ou melhor, faz plena justiça a esta última. Os filósofos ocidentais não conceberam a significação da Contemplação no sentido em que eles a entendem. Falando da disciplina espiritual a que os brâmanes se submetiam e do extraordinário poder de abstração que alcançavam, cujos exemplos haviam chegado a seu conhecimento, Hastings diz:

“Para aqueles que jamais se acostumaram a separar a mente das percepções dos sentidos, talvez não seja fácil conceber por que meios se há de alcançar semelhante poder; pois mesmo os homens mais estudiosos de nosso hemisfério acharão difícil restringir de tal modo a atenção que ela não se desvie para algum objeto da sensação presente ou da lembrança; e até o zumbido de uma mosca terá às vezes o poder de perturbá-la. Mas, se nos disserem que houve homens que, sucessivamente, ao longo de eras passadas, tiveram o hábito diário da contemplação abstraída, iniciado no período mais remoto da juventude e prolongado, em muitos, até a maturidade, cada qual acrescentando alguma parcela de conhecimento ao acervo acumulado por seus predecessores, não será supor demais concluir que, assim como a mente sempre ganha força pelo exercício, à semelhança do corpo, também, em tal exercício, ela pode ter adquirido em cada um a faculdade a que aspiravam, e que seus estudos coletivos podem tê-los conduzido à descoberta de novos domínios e combinações do pensamento, inteiramente diferentes das doutrinas conhecidas pelos sábios de outras nações; doutrinas que, por mais especulativas e sutis que sejam, ainda assim, por possuírem a vantagem de derivar de uma fonte tão livre de toda mistura adventícia, podem estar tão bem fundadas na verdade quanto as mais simples das nossas.”

“A renúncia às obras” foi ensinada por Kreeshna ao mais antigo dos homens e transmitida de era em era,

“até que por fim, com o decorrer do tempo, a poderosa arte se perdeu.

“Na sabedoria se encontra toda obra, sem exceção”, diz Kreeshna.

“Ainda que fosses o maior de todos os transgressores, serias capaz de atravessar o abismo do pecado na barca da sabedoria.”

“Não há coisa alguma neste mundo que se compare à sabedoria em pureza.”

“A ação ocupa uma posição distante e inferior à aplicação da sabedoria.”

A sabedoria de um Moonee “se confirma quando, como a tartaruga, ele consegue recolher todos os membros e refreá-los de seus propósitos habituais”.

“Somente as crianças, e não os instruídos, falam das doutrinas especulativa e prática como duas. Elas são apenas uma. Pois ambas alcançam precisamente o mesmo fim, e o lugar conquistado pelos seguidores de uma é conquistado pelos seguidores da outra.”

“O homem não alcança a liberdade da ação por não iniciar aquilo que lhe cabe fazer; tampouco obtém a felicidade por uma inatividade total. Ninguém jamais permanece inativo por um momento. Todo homem é involuntariamente impelido a agir por aqueles princípios inerentes à sua natureza. O homem que refreia suas faculdades ativas e se senta com a mente atenta aos objetos de seus sentidos é chamado de homem de alma extraviada e praticante do engano. Assim, é louvado o homem que, tendo subjugado todas as suas paixões, desempenha com suas faculdades ativas todas as funções da vida, sem se preocupar com o resultado.”

“Que o motivo esteja no ato, e não no resultado. Não sejas alguém cujo motivo para agir seja a esperança de recompensa. Que tua vida não seja consumida na inação.”

“Pois o homem que faz o que lhe cabe fazer, sem apego, alcança o Supremo.”

“Aquele que é capaz de contemplar, por assim dizer, a inação na ação e a ação na inação é sábio entre os homens. É um perfeito cumpridor de todo dever.”

“Os sábios chamam de Pandeet aquele cujo empreendimento é sempre livre da ideia de desejo e cujas ações são consumidas pelo fogo da sabedoria. Ele abandona o desejo de recompensa por suas ações; está sempre contente e independente; e, embora possa estar empenhado numa obra, é como se nada fizesse.”

“É ao mesmo tempo iogue e sannyasi aquele que realiza o que lhe cabe fazer independentemente do fruto disso; não aquele que vive sem o fogo sacrificial e sem ação.”

“Aquele que desfruta apenas do Amreeta que resta de suas oferendas alcança o espírito eterno de Brahm, o Supremo.”

Afinal, a que se reduz o caráter prático da vida? As coisas imediatas que precisam ser feitas são muito triviais. Eu poderia adiá-las todas para ouvir esta cigarra cantar. O fato mais glorioso de minha experiência não é coisa alguma que eu tenha feito ou possa esperar fazer, mas um pensamento transitório, ou visão, ou sonho, que tive. Eu daria toda a riqueza do mundo, e todos os feitos de todos os heróis, por uma única visão verdadeira. Mas como posso comungar com os deuses, eu, que sou fabricante de lápis na terra, e não ser louco?

“Sou o mesmo para toda a humanidade”, diz Kreeshna; “não há ninguém digno de meu amor ou de meu ódio.”

Esse ensinamento não é prático no sentido em que o Novo Testamento o é. Nem sempre constitui bom senso na prática. O brâmane jamais se propõe a atacar corajosamente o mal, mas a fazê-lo definhar com paciência. Suas faculdades ativas ficam paralisadas pela ideia de casta, de limites intransponíveis, de destino e da tirania do tempo. É preciso admitir que o argumento de Kreeshna é falho. Não se apresenta razão suficiente para que Arjoon lute. Arjoon pode estar convencido, mas o leitor não está, pois seu juízo não é “formado sobre as doutrinas especulativas do Sankhya Sastra”. “Busca refúgio somente na sabedoria”; mas o que é sabedoria para uma mente ocidental? O dever de que ele fala é arbitrário. Quando foi estabelecido? A virtude do brâmane consiste em fazer não o que é certo, mas coisas arbitrárias. O que é aquilo que um homem “tem de fazer”? O que é “ação”? Quais são as “funções estabelecidas”? O que é “a religião própria de um homem”, tão superior à de outro? O que é “a vocação particular própria de um homem”? Quais são os deveres determinados pelo nascimento de cada um? Trata-se de uma defesa da instituição das castas, daquilo a que se chama o “dever natural” do Kshetree, ou soldado, “de submeter-se à disciplina”, “de não fugir do campo”, e assim por diante. Mas aqueles que não se preocupam com as consequências de seus atos nem por isso deixam de se preocupar com os próprios atos.

Eis a diferença entre o Oriental e o Ocidental. O primeiro nada tem a fazer neste mundo; o segundo está repleto de atividade. Um contempla o sol até perder a vista; o outro o segue prostrado em seu curso rumo ao ocidente. Existe algo como a casta até mesmo no Ocidente; mas aqui ela é comparativamente tênue, é o conservadorismo. Ele diz: não abandones tua vocação, não ultrajes instituição alguma, não uses violência, não rompas vínculo algum; o Estado é teu pai. Sua virtude ou virilidade é inteiramente filial. Há uma luta entre o Oriental e o Ocidental em cada nação; alguns desejariam contemplar o sol para sempre, e outros se apressam em direção ao pôr do sol. A primeira classe diz à segunda: Quando chegardes ao pôr do sol, não estareis mais próximos do sol. Ao que a segunda responde: Mas assim prolongamos o dia. A primeira “caminha apenas naquela noite em que todas as coisas repousam, a noite do tempo. O contemplativo Moonee dorme apenas no dia do tempo, quando todas as coisas despertam.”

Para concluir estes excertos, posso dizer, nas palavras de Sanjay: “À medida que, ó poderoso Príncipe!, recordo uma e outra vez este santo e maravilhoso diálogo de Kreeshna e Arjoon, continuo a regozijar-me cada vez mais; e, ao trazer de novo à memória a forma mais que miraculosa de Haree, grande é meu espanto, e maravilho-me e regozijo-me repetidas vezes! Onde quer que esteja Kreeshna, o Deus da devoção, onde quer que esteja Arjoon, o poderoso arqueiro, ali também, sem dúvida, se encontram a fortuna, as riquezas, a vitória e a boa conduta. Essa é minha firme convicção.”

Eu diria aos leitores das Escrituras que, caso desejem um bom livro, leiam o Bhagvat-Geeta, episódio do Mahabharat, que se diz ter sido escrito por Kreeshna Dwypayen Veias, que se sabe ter sido escrito por __________, há mais de quatro mil anos, pouco importa se três ou quatro, ou quando, traduzido por Charles Wilkins. Merece ser lido com reverência até por ianques, como parte dos escritos sagrados de um povo devoto; e o hebreu inteligente se alegrará ao encontrar nele uma grandeza e uma sublimidade morais aparentadas às de suas próprias Escrituras.

Para um leitor americano, que, graças à vantagem de sua posição, pode enxergar para além daquela faixa da costa atlântica até a Ásia e o Pacífico, que vê, por assim dizer, o litoral elevar-se sobre os Alpes até os montes Himmaleh, a literatura comparativamente recente da Europa muitas vezes parece parcial e provinciana; e, apesar do alcance limitado de suas próprias simpatias e estudos, ele percebe que o escritor europeu que presume falar em nome do mundo fala apenas por aquele recanto dele que habita. Um dos mais raros eruditos e críticos da Inglaterra, ao classificar os homens ilustres do mundo, denuncia a estreiteza de sua cultura europeia e a exclusividade de suas leituras. Nenhum dos filhos dela fez justiça aos poetas e filósofos da Pérsia ou da Índia. Estes chegaram até a ser mais conhecidos por seus eruditos mercadores do que por seus poetas e pensadores de profissão. Pode-se procurar em vão por toda a poesia inglesa um único verso memorável inspirado nesses temas. Nem a Alemanha deve ser excetuada, embora sua diligência filológica sirva indiretamente à causa da filosofia e da poesia. Até Goethe carecia daquela universalidade de gênio que lhe teria permitido apreciar a filosofia da Índia, caso dela se houvesse aproximado mais. Seu gênio era mais prático, habitava muito mais as regiões do entendimento e era menos naturalmente dado à contemplação do que o gênio daqueles sábios. É notável que Homero e uns poucos hebreus sejam os nomes mais orientais que a Europa moderna, cuja literatura surgiu desde o declínio da persa, admitiu em sua lista de Ilustres, enquanto talvez os mais ilustres da humanidade, e os pais do pensamento moderno, pois as contemplações daqueles sábios indianos influenciaram, e ainda influenciam, o desenvolvimento intelectual da humanidade, cujas obras ainda sobrevivem em maravilhosa inteireza, em sua maioria nem sequer sejam reconhecidos como tendo existido. Se os leões fossem os pintores, seria diferente. Nos sonhos juvenis de todos, a filosofia ainda se associa vaga, porém inseparavelmente, e com singular verdade, ao Oriente, e os anos posteriores tampouco descobrem sua morada no mundo ocidental. Em comparação com os filósofos do Oriente, podemos dizer que a Europa moderna ainda não deu à luz nenhum. Ao lado da vasta e cosmogônica filosofia do Bhagvat-Geeta, até nosso Shakespeare às vezes parece juvenilmente verde e meramente prático. Algumas dessas frases sublimes, como os oráculos caldeus de Zoroastro, que ainda sobrevivem depois de mil revoluções e traduções, bastam por si sós para nos fazer duvidar de que a forma e a roupagem poéticas não sejam transitórias, e não essenciais à expressão mais eficaz e duradoura do pensamento. Ex oriente lux ainda pode ser o lema dos estudiosos, pois o mundo ocidental ainda não extraiu do Oriente toda a luz que está destinado a receber de lá.

Seria digno da época imprimir reunidas as Escrituras ou Escritos Sagrados compilados das diversas nações, dos chineses, dos hindus, dos persas, dos hebreus e de outros, como a Escritura da humanidade. O Novo Testamento ainda está, talvez, em demasia nos lábios e nos corações dos homens para ser chamado de Escritura nesse sentido. Tal justaposição e comparação poderia contribuir para tornar mais liberal a fé dos homens. Esta é uma obra que o Tempo certamente editará, reservada para coroar os trabalhos da imprensa. Esta seria a Bíblia, ou Livro dos Livros, que os missionários deveriam levar aos confins da terra.

Enquanto nos ocupávamos dessas reflexões, julgando-nos os únicos navegadores daquelas águas, de repente um barco de canal, com a vela içada, deslizou em torno de uma ponta diante de nós, como algum enorme animal fluvial, e mudou a cena num instante; depois outro e mais outro surgiram deslizando à vista, e nos vimos mais uma vez na corrente do comércio. Assim, atiramos nossas cascas à água para que os peixes as mordiscassem e somamos nosso alento à vida dos homens vivos. Mal pensávamos, no distante jardim em que havíamos plantado a semente e criado esse fruto, onde ele seria comido. Nossos melões jaziam em casa, no leito arenoso do Merrimack, e nossas batatas, ao sol e à água no fundo do barco, pareciam frutos da região. Logo, porém, fomos libertados daquela frota de juncos e voltamos a possuir o rio em solidão, remando de modo constante contra a corrente pelo meio-dia, entre os territórios de Nashua, de um lado, e Hudson, outrora Nottingham, do outro. De tempos em tempos espantávamos um martim-pescador ou um pato-do-mato; o primeiro voava mais por vigorosos impulsos do que por uma condução firme e paciente daquele seu curto leme, fazendo soar seu chocalho pela rua fluvial.

Não tardou para que outra chata surgisse à vista, arrastando-se rio abaixo; e, ao saudá-la, prendemo-nos a seu costado e flutuamos de volta em sua companhia, conversando com os barqueiros e obtendo de sua bilha um gole de água mais fresca. Pareciam marinheiros novatos vindos de longe, do meio das colinas, que haviam escolhido esse meio de chegar ao litoral e conhecer o mundo; e talvez visitassem as ilhas Falkland e os mares da China antes de voltar a ver as águas do Merrimack, ou, quem sabe, jamais retornassem por este caminho. Já haviam embarcado os interesses particulares do homem de terra firme na aventura maior da raça, e estavam prontos a partilhar a mesa com a humanidade, reservando apenas para si a gaveta de um baú. Mas eles também logo se perderam atrás de uma ponta, e seguimos sozinhos nosso caminho, coaxando. Que agravo tem raiz entre as colinas de New Hampshire?, perguntamos; o que falta à vida humana aqui, para que esses homens tenham tamanha pressa de chegar aos antípodas? Rogamos que suas luminosas expectativas não fossem rudemente frustradas.

Ainda que todos os fados sejam cruéis,

Não deixes para trás a terra natal.

O navio, sem vento, por fim fica imóvel;

O corcel deve repousar sob a colina;

Mas nossas fortunas seguem velozes,

Para nos encontrar em todo lugar.

O navio, embora firmes sejam seus mastros,

Leva sob o cobre um verme;

Ao redor do cabo, através da linha,

Até que campos de gelo lhe barrem o curso;

Não importa quão suave seja a brisa,

Quão rasos ou profundos sejam os mares,

Se transporta cordame de Manila,

Ou, no porão, vinho da Madeira,

Ou chás da China, ou couros espanhóis,

Esteja no porto ou em quarentena;

Longe da costa tempestuosa da Nova Inglaterra,

O verme da Nova Inglaterra lhe furará o casco,

E o afundará nos mares da Índia,

Cordame, vinho, couros e chás da China.

Passamos ali por um pequeno deserto na margem leste, entre Tyngsborough e Hudson, que nos pareceu interessante e até refrescante em meio ao verde quase universal. Aquela areia era, de fato, um tanto impressionante e bela para nós. Um habitante muito idoso, que trabalhava num campo do lado de Nashua, contou-nos que se lembrava de quando ali cresciam milho e cereais, e era um campo cultivado. Mas, com o tempo, os pescadores, pois aquele era um ponto de pesca, arrancaram os arbustos da margem para maior facilidade ao puxar suas redes de arrasto; e, uma vez rompida desse modo a encosta, o vento começou a levantar a areia da margem, até que por fim ela cobriu cerca de quinze acres com vários pés de profundidade. Vimos perto do rio, onde a areia fora soprada até expor alguma superfície antiga, os alicerces de uma cabana indígena, um círculo perfeito de pedras queimadas, de quatro ou cinco pés de diâmetro, misturadas a carvão fino e aos ossos de pequenos animais que se haviam conservado na areia. A areia ao redor estava salpicada de outras pedras queimadas, sobre as quais haviam sido acesas suas fogueiras, bem como de lascas de pedra para pontas de flecha, e encontramos uma ponta de flecha perfeita. Em certo lugar, notamos onde um indígena se sentara para fabricar pontas de flecha de quartzo, e a areia estava salpicada por cerca de um quartilho de pequenas lascas semelhantes a vidro, mais ou menos do tamanho de uma moeda de quatro pence, que ele destacara durante o trabalho. Ali, portanto, os indígenas deviam ter pescado antes da chegada dos brancos. Havia outro trecho arenoso semelhante cerca de meia milha acima.

O meio-dia ainda reinava, e desviamos a proa para nos banhar e reclinar sob alguns plátanos-americanos, junto a uma saliência de rochas, numa pastagem retirada que descia até a beira da água e era orlada de pinheiros e aveleiras, no município de Hudson. A Índia e aquela antiga filosofia do meio-dia ainda ocupavam a melhor parte de nossos pensamentos.

É sempre singular, mas alentador, encontrar senso comum em livros muito antigos, como o Hitopadesha, de Vishnu Sharma; uma sabedoria brincalhona, que tem olhos atrás e à frente e vigia a si mesma. Isso atesta a saúde e a independência deles em relação à experiência de épocas posteriores. Não se pode dispensar, num livro, esse penhor de sanidade: que ele por vezes reflita agradavelmente sobre si mesmo. A parte narrativa e fabulosa desse livro serpenteia livremente de uma frase a outra, como tantos oásis num deserto, e é tão indistinta quanto a trilha de um camelo entre Murzuq e Darfur. É um comentário ao fluxo e à cheia repentina dos livros modernos. O leitor salta de frase em frase, como de uma pedra de passagem a outra, enquanto a corrente da história se precipita sem ser notada. O Bhagavad Gita é talvez menos sentencioso e poético, mas ainda mais admiravelmente sustentado e desenvolvido. Sua sanidade e sublimidade impressionaram até mesmo a mente de soldados e mercadores. É próprio dos grandes poemas cederem de seu sentido na devida proporção tanto ao leitor apressado quanto ao deliberado. Para o prático, serão senso comum; para o sábio, sabedoria; assim como, numa corrente caudalosa, tanto o viajante pode molhar os lábios quanto um exército encher seus tonéis de água.

Um dos mais atraentes entre esses livros antigos com que me deparei são as Leis de Manu. Segundo Sir William Jones, “Vyasa, filho de Parasara, decidiu que o Veda, com seus Angas, ou as seis composições dele derivadas, o sistema revelado da medicina, os Puranas, ou histórias sagradas, e o código de Manu eram quatro obras de autoridade suprema, que jamais deveriam ser abaladas por argumentos meramente humanos.” Os hindus acreditam que a última “foi promulgada no princípio dos tempos por Manu, filho ou neto de Brahma”, e “primeiro dos seres criados”; e diz-se que Brahma “ensinou suas leis a Manu em cem mil versos, que Manu explicou ao mundo primitivo nas próprias palavras do livro agora traduzido”. Outros afirmam que elas sofreram sucessivos abreviamentos para conveniência dos mortais, “enquanto os deuses do céu inferior e o grupo de músicos celestes se ocupam em estudar o código primitivo”. “Diversas glosas ou comentários sobre Manu foram compostos pelos Munis, ou antigos filósofos, cujos tratados, juntamente com este que temos diante de nós, constituem o Dharma Shastra, em sentido coletivo, ou Corpo de Leis.” Kulluka Bhatta foi um dos mais modernos entre eles.

Cada livro sagrado, sucessivamente, foi aceito na fé de que seria o lugar de repouso definitivo da alma peregrina; mas, afinal, não passava de um caravançará que oferecia refrigério ao viajante e o encaminhava adiante em sua rota para Isfahan ou Bagdá. Graças a Deus, nenhuma tirania hindu prevaleceu na formação do mundo; somos homens livres do universo, não condenados a casta alguma.

Não conheço livro que tenha chegado até nós com pretensões mais grandiosas do que este, e ele é tão impessoal e sincero que nunca se torna ofensivo nem ridículo. Compare-se a maneira como a literatura moderna é anunciada com o prospecto deste livro, e pense-se no público leitor a que ele se dirige, na crítica que espera. Parece ter sido proferido de algum cume oriental, com sóbria presciência matinal na aurora dos tempos, e não se pode ler uma frase sem ser elevado como ao planalto dos Ghats. Ele possui um ritmo como o dos ventos do deserto, uma maré como a do Ganges, e está tão acima da crítica quanto as montanhas do Himalaia. Seu tom é de fibra tão inflexível que, mesmo nestes dias tardios, ainda não gasto pelo tempo, veste com igual naturalidade o traje inglês e o sânscrito; e suas frases fixas ainda mantêm acesos seus fogos distantes, como as estrelas, por cujos raios dispersos este mundo inferior é iluminado. O livro inteiro, por gestos e inclinações nobres, torna desnecessárias muitas palavras. O entendimento inglês labutou, mas a sabedoria hindu jamais transpirou. Embora, à medida que as lemos, as frases se abram sem dispêndio, e de início quase sem sentido, como as pétalas de uma flor, por vezes nos surpreendem com aquela rara espécie de sabedoria que só poderia ter sido aprendida na experiência mais trivial; mas ela nos chega refinada como a terra de porcelana que se deposita no fundo do oceano. São limpas e secas como verdades fósseis, expostas aos elementos por milhares de anos; tão impessoal e cientificamente verdadeiras que servem de ornamento à sala de visitas e ao gabinete. Qualquer filosofia moral é extremamente rara. Esta, de Manu, dirige-se à nossa intimidade mais do que a maioria. É uma palavra mais privada e familiar e, ao mesmo tempo, mais pública e universal do que a que hoje se profere na sala de visitas ou no púlpito. Assim como se diz que nossas aves domésticas têm sua origem no faisão selvagem da Índia, também nossos pensamentos domésticos têm seus protótipos nos pensamentos dos filósofos daquele país. Estamos tateando nos próprios elementos de nossa vida convencional e real de agora, como se ali fosse o conventículo primordial em que se decidiam as questões de como comer, beber, dormir e sustentar a vida com dignidade e sinceridade adequadas. Ele é mais recente e mais íntimo para nós até do que o conselho de nossos amigos mais próximos. E, no entanto, é verdadeiro para o horizonte mais amplo e, lido ao ar livre, relaciona-se com a linha indistinta das montanhas, sendo ali nativo e aborígene. A maioria dos livros pertence apenas à casa e à rua, e nos campos suas folhas parecem muito finas. São nus e óbvios, e não têm halo nem bruma ao redor. A Natureza se estende longe e bela por trás de todos eles. Este, porém, assim como procede do que há de mais profundo e duradouro no homem, também se dirige a isso. Pertence ao meio-dia, ao auge do verão, e, depois que as neves derreteram e as águas da primavera evaporaram, sua verdade ainda fala com frescor à nossa experiência. Ele ajuda o sol a brilhar, e os raios solares caem sobre suas páginas para ilustrá-lo. Consome as manhãs e as tardes, e nos causa durante a noite uma impressão tal que nos desperta antes do amanhecer; sua influência permanece ao nosso redor como uma fragrância até bem avançado o dia. Confere uma nova glosa aos prados e às profundezas do bosque, e seu espírito, como um éter mais sutil, avança com os ventos dominantes de uma região. Os próprios gafanhotos e grilos de um dia de verão não passam de glosas posteriores ou anteriores ao Dharma Shastra dos hindus, uma continuação do código sagrado. Como dissemos, há um orientalismo no pioneiro mais inquieto, e o extremo ocidente não é senão o extremo oriente. Enquanto lemos essas frases, este belo mundo moderno parece apenas uma reimpressão das Leis de Manu com a glosa de Kulluka. Julgadas pelo olhar da Nova Inglaterra ou pela mera sabedoria prática dos tempos modernos, elas são os oráculos de uma raça já em sua decrepitude; mas, erguidas diante do céu, que é a única prova imparcial e incorruptível, são da mesma substância que sua profundidade e serenidade, e estou certo de que terão lugar e significado enquanto houver um céu pelo qual possam ser provadas.

Dê-me uma frase que inteligência alguma possa compreender. Deve haver nela uma espécie de vida e pulsação, e sob suas palavras alguma espécie de sangue deve circular para sempre. É admirável que esse som tenha chegado até nós de tão longe, quando a voz humana só pode ser ouvida a tão curta distância e nós agora não estamos ao alcance da voz de contemporâneo algum. Os lenhadores derrubaram aqui uma antiga floresta de pinheiros e revelaram a estas colinas distantes um belo lago a sudoeste; agora, num instante, ele se mostra nitidamente a estes bosques, como se sua imagem houvesse viajado até aqui desde a eternidade. Talvez esses velhos tocos sobre a colina se lembrem de quando, antigamente, esse lago cintilava no horizonte. Perguntamo-nos se a própria terra nua não sentiu emoção ao contemplar outra vez uma paisagem tão bela. Aquelas belas águas ali repousam ao sol, assim reveladas, tanto mais orgulhosas e formosas porque sua beleza não precisava ser vista. Parecem ainda solitárias, bastantes a si mesmas e superiores à observação. Assim são essas antigas frases, como lagos serenos a sudoeste, enfim revelados a nós, que por tanto tempo refletiram em seu seio o nosso próprio céu.

A grande planície da Índia jaz como numa taça, entre o Himalaia e o oceano, ao norte e ao sul, e entre o Brahmaputra e o Indo, a leste e a oeste, onde a raça primeva foi acolhida. Não contestaremos a história. Agrada-nos ler, na história natural do país, sobre o “pinheiro, o larício, o abeto e o abeto-prateado” que cobrem a face meridional da cordilheira do Himalaia; sobre a “groselha, a framboesa, o morango” que, de uma zona temperada suspensa nas alturas, contemplam as planícies tórridas. Assim essa vida moderna e ativa já possuía então um ponto de apoio e um esconderijo em meio à majestade e à contemplatividade daquelas planícies orientais. Em outra era, o “lírio-do-vale, a prímula, o dente-de-leão” haveriam de abrir caminho planície abaixo e florescer numa zona nivelada própria, estendendo-se ao redor da Terra. Já chegou a era da zona temperada, a era do pinheiro e do carvalho, pois a palmeira e a figueira-de-bengala não satisfazem as necessidades desta época. Talvez os líquens nos cumes dos rochedos em breve encontrem seu próprio nível.

Quanto aos princípios dos brâmanes, não nos importa tanto saber quais doutrinas sustentavam, mas que houvesse quem as sustentasse. Podemos tolerar todas as filosofias: atomistas, pneumatologistas, ateus, teístas; Platão, Aristóteles, Leucipo, Demócrito, Pitágoras, Zoroastro e Confúcio. É a atitude desses homens, mais do que qualquer comunicação que façam, que nos atrai. Entre eles e seus comentadores há, é verdade, uma disputa interminável. Mas, quando se chega ao ponto de compararem suas anotações, então todos estão errados. Tal como são, cada um nos eleva aos céus serenos, para onde a menor bolha sobe tão seguramente quanto a maior, e pinta para nós a terra e o céu. Todo pensamento sincero é irresistível. A própria austeridade dos brâmanes é tentadora para a alma devota, como um luxo mais refinado e nobre. Necessidades satisfeitas com tanta facilidade e graça parecem constituir um prazer mais refinado. Sua concepção da criação é tranquila como um sonho. “Quando esse poder desperta, então este mundo alcança sua plena expansão; mas, quando ele adormece com espírito tranquilo, todo o sistema se desvanece.” Na própria imprecisão de sua teogonia está implícita uma verdade sublime. Ela mal permite que o leitor repouse em alguma causa primeira suprema, pois logo insinua outra ainda mais suprema, que criou a anterior, enquanto o Criador permanece atrás, incriado.

Tampouco perturbaremos a antiguidade desta Escritura; “do fogo, do ar e do sol” ela foi “ordenhada”. Seria o mesmo que investigar a cronologia da luz e do calor. Que o sol brilhe. Manu compreendeu melhor essa questão quando disse: “Conhecem melhor as divisões dos dias e das noites aqueles que entendem que o dia de Brahma, que se prolonga até o fim de mil eras como estas [eras infinitas, ainda assim, segundo o cálculo dos mortais], dá origem a esforços virtuosos; e que sua noite dura tanto quanto seu dia.” Com efeito, as dinastias muçulmanas e tártaras estão além de toda datação. Parece-me que eu mesmo vivi sob elas. Em todo cérebro humano existe o sânscrito. Os Vedas e seus Angas não são tão antigos quanto a contemplação serena. Por que nos deixaremos impor pela antiguidade? É jovem o bebê? Quando o contemplo, ele me parece mais venerável do que o homem mais velho; é mais antigo que Nestor ou as Sibilas e traz as rugas do próprio pai Saturno. E acaso vivemos apenas no presente? Quão larga é essa linha? Estou agora sentado sobre um toco cujos anéis contam séculos de crescimento. Se olho ao redor, vejo que o solo é composto dos restos de tocos como este, seus ancestrais. A terra está coberta de húmus. Cravo este bastão muitos éons fundo em sua superfície e, com o calcanhar, abro um sulco mais profundo do que os elementos lavraram aqui em mil anos. Se escuto, ouço o coaxar agudo das rãs, mais antigo do que o lodo do Egito, e o tamborilar distante de uma perdiz sobre um tronco, como se fosse a pulsação do ar de verão. Cultivo minhas flores mais belas e frescas no velho húmus. Ora, aquilo que gostaríamos de chamar de novo não chega sequer à flor da pele; a terra ainda não foi manchada por isso. Não é o solo fértil que pisamos, mas as folhas que esvoaçam sobre nossa cabeça. O mais novo é apenas o mais antigo tornado visível aos nossos sentidos. Quando desenterramos o solo a mil pés abaixo da superfície, chamamos de novo tanto esse solo quanto as plantas que dele brotam; e, quando nossa visão penetra mais fundo no espaço e detecta uma estrela mais remota, também a chamamos de nova. O lugar onde estamos sentados chama-se Hudson; outrora foi Nottingham; outrora...

Deveríamos ler a história com tão pouco espírito crítico quanto contemplamos a paisagem, e interessar-nos mais pelos matizes atmosféricos e pelas várias luzes e sombras que os espaços intermediários criam do que por seu fundo e sua composição. É a manhã agora convertida em tarde e vista no oeste, o mesmo sol, mas uma nova luz e uma nova atmosfera. Sua beleza é como a do pôr do sol; não uma pintura a fresco numa parede, plana e delimitada, mas atmosférica, errante ou livre. Na realidade, a história flutua como o aspecto da paisagem da manhã à tarde. O que importa é seu matiz e sua cor. O tempo não esconde tesouro algum; não queremos o seu então, mas o seu agora. Não nos queixamos de que as montanhas no horizonte sejam azuis e indistintas; por isso mesmo se assemelham mais aos céus.

Que importância têm fatos que podem se perder, que precisam ser comemorados? O monumento da morte durará mais que a memória dos mortos. As pirâmides não contam a história que lhes foi confiada; o fato vivo comemora a si mesmo. Por que procurar luz no escuro? A rigor, as sociedades históricas não recuperaram do esquecimento um único fato, mas são elas mesmas, em lugar do fato, aquilo que não se perdeu. O pesquisador é mais memorável que o pesquisado. A multidão deteve-se a admirar a névoa e os contornos vagos das árvores vistos através dela, quando um de seus integrantes avançou para explorar o fenômeno, e, com renovada admiração, todos os olhos se voltaram para sua figura indistinta, que se afastava. É espantoso quão pouco a memória do passado depende da cooperação das sociedades. Sua história, na verdade, teve outra musa que não aquela que lhe foi atribuída. Há um bom exemplo de como toda história começou na Crônica Árabe de Alwákidi: “Fui informado por Ahmed Almatin Aljorhami, que o soube de Rephâa Ebn Kais Alámiri, que o soube de Saiph Ebn Fabalah Alchâtquarmi, que o soube de Thabet Ebn Alkamah, o qual disse ter estado presente à ação.” Esses pais da história não estavam ansiosos por preservar o fato, mas por conhecê-lo; e por isso ele não foi esquecido. A perspicácia crítica se exerce em vão para descobrir o passado; o passado não pode ser apresentado; não podemos conhecer aquilo que não somos. Mas um único véu pende sobre passado, presente e futuro, e cabe ao historiador descobrir não o que foi, mas o que é. Onde uma batalha foi travada, nada encontraremos senão ossos de homens e animais; onde uma batalha está sendo travada, há corações pulsando. Sentaremos sobre um outeiro para meditar, sem tentar pôr outra vez esses esqueletos de pé. Julga você que a Natureza se lembra de que eles foram homens, ou antes de que são ossos?

A história antiga tem um ar de antiguidade. Deveria ser mais moderna. É escrita como se o espectador devesse pensar no verso do quadro pendurado na parede, ou como se o autor esperasse que os mortos fossem seus leitores e desejasse relatar-lhes minuciosamente a própria experiência. Os homens parecem ansiosos por realizar uma retirada ordeira através dos séculos, reconstruindo com empenho as obras que deixam para trás à medida que são demolidas pelas incursões do tempo; mas, enquanto se demoram, eles e suas obras tornam-se igualmente presa do arqui-inimigo. A história não tem nem a venerabilidade da antiguidade nem o frescor do moderno. Age como se pretendesse remontar ao princípio das coisas, o que a história natural poderia com razão presumir fazer; mas considerem a História Universal e então nos digam: quando brotaram pela primeira vez a bardana e a tanchagem? Ela foi escrita, em sua maior parte, de tal maneira que os tempos que descreve são, com notável propriedade, chamados de idades das trevas. São escuros, como alguém observou, porque estamos tão às escuras a respeito deles. O sol raramente brilha na história, em meio a tanta poeira e confusão; e, quando encontramos algum fato alentador que implique a existência desse luminar, nós o destacamos e modernizamos. Como quando lemos na história dos saxões que Eduíno da Nortúmbria “mandou fincar estacas nas estradas onde havia encontrado uma fonte límpida”, e que “vasilhas de bronze foram acorrentadas a elas para refrescar o viajante fatigado, cujos cansaços o próprio Eduíno havia experimentado”. Isso vale todas as doze batalhas de Artur.

“Pela sombra do mundo avançamos rumo ao dia mais jovem:

Melhores cinquenta anos de Europa que um ciclo do Catai.”

Melhor que cinquenta anos de Europa, um raio da Nova Inglaterra!

A biografia também está sujeita à mesma objeção; deveria ser autobiografia. Não procuremos, como aconselham os alemães, ir para fora e atormentar nossas entranhas para podermos ser outra pessoa e explicá-la. Se eu não sou eu, quem será?

Mas convém que o Passado seja escuro, embora a escuridão não seja tanto uma qualidade do passado quanto da tradição. Não é uma distância no tempo, mas uma distância de relação, que torna tão sombrios os seus memoriais. Aquilo que está próximo do coração desta geração ainda é belo e luminoso. A Grécia jaz estendida, bela e ensolarada, em torrentes de luz, pois há sol e luz do dia em sua literatura e em sua arte. Homero não nos permite esquecer que o sol brilhava, nem Fídias, nem o Partenon. Contudo, época alguma foi inteiramente escura, e não nos submeteremos depressa demais ao historiador nem nos felicitaremos por viver num clarão de luz. Se pudéssemos penetrar a obscuridade daqueles anos remotos, encontraríamos luz suficiente; apenas lá não é o nosso dia. Algumas criaturas foram feitas para enxergar no escuro. Sempre houve no mundo a mesma quantidade de luz. As estrelas novas e desaparecidas, os cometas e os eclipses não afetam a iluminação geral, pois somente nossos instrumentos os percebem. Dizem-nos que os olhos dos mais antigos restos fósseis indicam que então prevaleciam as mesmas leis da luz que agora. As leis da luz são sempre as mesmas, mas variam os modos e os graus de ver. Os deuses não favorecem época alguma, mas sua luz brilha constante nos céus, enquanto o olho de quem contempla se transforma em pedra. Desde o princípio havia apenas o sol e o olho. As eras não acrescentaram um novo raio ao primeiro, nem alteraram uma fibra do segundo.

Se admitirmos de algum modo o tempo em nossos pensamentos, as mitologias, esses vestígios de poemas antigos, destroços de poemas, por assim dizer, herança do mundo, ainda refletindo algo de seu esplendor original, como fragmentos de nuvens tingidos pelos raios do sol que se foi; alcançando o mais tardio dia de verão e unindo esta hora à manhã da criação; como canta o poeta:

“Fragmentos do canto elevado

Flutuam na maré dos anos,

Como, boiando no mar revolto,

Surge um destroço despedaçado.”

Esses são os materiais e os indícios para uma história da ascensão e do progresso da raça; de como, partindo da condição das formigas, ela chegou à condição dos homens, e as artes foram gradualmente inventadas. Que mil conjecturas lancem alguma luz sobre essa história. Não ficaremos confinados por períodos históricos, nem mesmo geológicos, que nos permitiriam duvidar de um progresso nos assuntos humanos. Se nos elevarmos acima dessa sabedoria do dia, esperaremos que essa manhã da raça, na qual ela foi suprida das necessidades mais simples, com cereal, vinho, mel, azeite, fogo, fala articulada e artes agrícolas e outras, erguida pouco a pouco da condição das formigas à dos homens, seja sucedida por um dia de esplendor igualmente progressivo; que, no decorrer dos períodos divinos, outros agentes divinos e homens semelhantes a deuses contribuam para elevar a raça muito acima de sua condição atual. Mas não sabemos muito a respeito disso.

Assim sonhava acordado um dos viajantes, enquanto seu companheiro dormia à margem. De repente, ouviu-se a trompa de um barqueiro ecoar de uma margem à outra, para anunciar sua aproximação à mulher do lavrador com quem iria jantar, embora naquele lugar apenas ratos-almiscarados e martins-pescadores parecessem ouvi-la. Interrompidas assim a corrente de nossas reflexões e a de nosso sono, levantamos âncora mais uma vez.

À medida que prosseguíamos em nosso caminho durante a tarde, a margem oeste se tornava mais baixa ou, em alguns pontos, recuava para mais longe do canal, deixando apenas algumas árvores a orlar a beira da água; enquanto a margem leste se erguia abruptamente aqui e ali em colinas arborizadas de cinquenta ou sessenta pés de altura. A tília-americana, Tilia Americana, também chamada de tília, árvore que para nós era nova, pendia sobre a água com suas folhas largas e arredondadas, entremeadas de cachos de pequenas bagas duras, agora quase maduras, e proporcionava uma sombra agradável a nós, navegantes. A casca interna desse gênero é o líber, material de esteiras de pescadores e das cordas e sapatos camponeses tão utilizados pelos russos, bem como de redes e, em alguns lugares, de um tecido grosseiro. Segundo os poetas, essa árvore foi outrora Filira, uma das Oceânides. Diz-se que os antigos usavam sua casca para cobrir cabanas, fazer cestos e produzir uma espécie de papel chamado Filira. Também faziam broquéis de sua madeira, “por causa de sua flexibilidade, leveza e elasticidade”. Foi outrora muito empregada em entalhes, e ainda é procurada para caixas de ressonância de pianofortes e painéis de carruagens, além de vários usos que exigem resistência e flexibilidade. De seus ramos fazem-se cestos e berços. Sua seiva fornece açúcar, e diz-se que o mel produzido de suas flores é preferível a qualquer outro. Em alguns países, suas folhas são dadas ao gado; uma espécie de chocolate foi feita de seu fruto; preparou-se um medicamento com a infusão de suas flores; e, por fim, o carvão obtido de sua madeira é muito valorizado na fabricação de pólvora.

A visão dessa árvore lembrou-nos de que havíamos chegado a uma terra estranha para nós. Enquanto navegávamos sob esse dossel de folhas, víamos o céu através de suas frestas e, por assim dizer, o significado e a ideia da árvore estampados em mil hieróglifos nos céus. O universo se ajusta tão bem à nossa constituição que o olho vagueia e repousa ao mesmo tempo. Por todos os lados há algo que acalma e revigora esse sentido. Olhem para as copas das árvores e vejam com que primor a Natureza termina ali sua obra. Vejam como os pinheiros se elevam em pontas, sem cessar, cada vez mais alto, formando uma franja graciosa para a terra. E quem contará as teias de aranha mais finas que se erguem e flutuam para longe de seus cimos extremos, e os inúmeros insetos que se esquivam entre elas? As folhas assumem formas mais variadas que todos os alfabetos de todas as línguas reunidos; somente entre os carvalhos mal há duas iguais, e cada qual expressa seu caráter próprio.

Em todos os seus produtos, a Natureza apenas desenvolve seus germes mais simples. Dir-se-ia que criar pássaros não exigiu grande esforço inventivo. O falcão que agora alça voo sobre o topo da mata talvez tenha sido, a princípio, apenas uma folha que tremulava em seus corredores. Das folhas sussurrantes, ela chegou, ao longo das eras, ao voo mais elevado e ao canto límpido do pássaro.

O Salmon Brook entra pelo oeste, passando sob a ferrovia, uma milha e meia abaixo da aldeia de Nashua. Remamos rio acima até o bastante para penetrar nos prados que o margeiam e conhecer sua história piscatória por meio de um ceifeiro que ali trabalhava. Ele nos contou que a enguia-prateada era antigamente abundante naquele lugar e apontou para alguns covos submersos em sua foz. A memória e a imaginação daquele homem eram férteis em histórias de pescadores sobre ilhas flutuantes em lagoas sem fundo e lagos misteriosamente povoados de peixes, e ele nos teria feito ouvir até o cair da noite; mas não podíamos nos permitir demora naquele ancoradouro, e assim tornamos a singrar nosso mar. Embora nunca tivéssemos pisado naqueles prados, mas apenas tocado sua margem com as mãos, ainda guardamos deles uma lembrança agradável.

Salmon Brook, cujo nome se diz ser uma tradução do indígena, era um retiro predileto dos habitantes originários. Foi aqui também que os primeiros colonos brancos de Nashua se estabeleceram, e ainda são visíveis algumas depressões no solo onde ficavam suas casas e os restos de antigas macieiras. Cerca de uma milha acima neste curso d’água ficava a casa do velho John Lovewell, que fora alferes no exército de Oliver Cromwell e pai do “famoso capitão Lovewell”. Ele se estabeleceu aqui antes de 1690 e morreu por volta de 1754, aos cento e vinte anos. Acredita-se que tenha participado da célebre batalha do pântano de Narragansett, ocorrida em 1675, antes de ele vir para cá. Diz-se que os indígenas o pouparam nas guerras posteriores por causa de sua bondade para com eles. Mesmo em 1700 ele já era tão velho e grisalho que seu escalpo nada valia, pois o governador francês não oferecia recompensa por um assim. Estive de pé na depressão de seu porão, à margem do riacho, e ali conversei com alguém cujo avô conversara, e cujo pai talvez tivesse conversado, com Lovewell. Também ali, em sua velhice, ele teve um moinho e manteve uma pequena loja. Alguns que viveram até tempos recentes ainda se lembravam dele como um velho vigoroso que expulsava os meninos de seu pomar com a bengala. Considerem os triunfos do homem mortal e que pobres troféus teria ele a exibir, a saber: remendava sapatos sem óculos aos cem anos e abria uma bela leira com a foice aos cento e cinco! Diz-se que a casa de Lovewell foi a primeira a que a senhora Dustan chegou ao escapar dos indígenas. Foi provavelmente aqui que nasceu e se criou o herói de Pequawket. Bem perto podem-se ver o porão e a lápide de Joseph Hassell, que, conforme registrado em outra parte, com sua esposa Anna, seu filho Benjamin e Mary Marks, “foram mortos por nossos inimigos indígenas na noite de 2 de setembro de [1691]”. Como Gookin observara numa ocasião anterior, “A vara indígena sobre as costas inglesas ainda não havia cumprido o encargo de Deus”. Salmon Brook, perto da foz, ainda é um curso d’água solitário, serpenteando por bosques e prados, enquanto a foz do Nashua, então desabitada, agora ressoa com o estrépito de uma cidade industrial.

Um curso d’água vindo de Otternic Pond, em Hudson, desemboca pouco acima de Salmon Brook, no lado oposto. Da margem, avistava-se bem Uncannunuc, a montanha mais conspícua destas paragens, erguendo-se acima da extremidade oeste da ponte mais adiante. Pouco depois passamos pela aldeia de Nashua, junto ao rio de mesmo nome, onde há uma ponte coberta sobre o Merrimack. O Nashua, um dos maiores afluentes, nasce na montanha Wachusett e corre por Lancaster, Groton e outras cidades, onde formou conhecidos prados sombreados por olmos; perto da foz, porém, é obstruído por quedas-d’água e fábricas e não nos tentou a explorá-lo.

Muito longe daqui, em Lancaster, atravessei com outro companheiro o amplo vale do Nashua, para o qual durante tanto tempo havíamos olhado rumo ao oeste, das colinas de Concord, sem avistá-lo, até as montanhas azuis no horizonte. Quantos cursos d’água, quantos prados, bosques e tranquilas moradas humanas haviam permanecido ocultos entre nós e aquelas Montanhas Deleitáveis; da colina ao longe, na estrada para Tyngsborough, pode-se ter uma boa visão delas. Ali onde a nossos olhos juvenis parecia haver uma mata ininterrupta, entre dois pinheiros vizinhos no horizonte, estendia-se o vale do Nashua, e já então este mesmo rio serpenteava em seu fundo, e então, como agora, misturava silenciosamente suas águas às do Merrimack neste lugar. As nuvens que flutuavam sobre seus prados e ali nasciam, vistas ao longe no oeste, douradas pelos raios do sol poente, haviam adornado para nós mil céus vespertinos. Mas esse vale ficava oculto, por assim dizer, atrás de uma muralha de relva, e foi somente em nossa jornada até aquelas colinas que aos poucos se revelou. No verão e no inverno, nossos olhos haviam repousado sobre o contorno indistinto das montanhas, às quais a distância e a imprecisão emprestavam uma grandeza que não lhes pertencia, de modo que serviam para interpretar todas as alusões de poetas e viajantes. De pé nos Penhascos de Concord, assim lhes dissemos o que pensávamos:

Com força de fronteira sustentais o chão,

Com grande contentamento fechais o cinturão,

Silêncio tumultuoso é todo o vosso som,

Distante berço de regatos,

Monadnock e colinas de Peterborough;

Firme argumento que nunca se move,

Circundando os filósofos,

Como uma vasta frota,

Singrando chuva e granizo,

O frio do inverno e o calor do estio;

Sempre seguindo em vossa alta empresa,

Até encontrardes uma praia em meio aos céus;

Sem vos esgueirardes junto à terra,

Com carga de contrabando,

Pois os que por vós lançaram uma aventura

Puseram o Sol a vigiar

Vossa honestidade.

Navios de linha, cada qual,

Correis rumo ao oeste,

Escoltando nuvens,

Que se ajuntam em vossos ovéns,

Sempre à frente da ventania,

Com todo o pano desfraldado,

E um poder de fogo nunca calculado;

Pareço sentir-vos deste meu assento firme,

Imensurável profundidade de porão,

Largura de boca e extensão de todo o aparelho.

Parece-me que encontrais luxuoso prazer

Em vosso novo lazer ocidental;

Tão frescas as frontes e tão recentemente azuis,

Como se o Tempo nada tivesse para vos dar a fazer;

Pois jazeis estendidos em toda a extensão,

Força de ninguém apropriada,

Madeira primeva ainda não lavrada,

Para cavernas tão rijas, para mastros tão flexíveis;

A matéria de que se fazem novas terras,

Que um dia serão nosso comércio do oeste,

Própria para os esteios de um mundo

Arremessado pelos mares do espaço.

Enquanto desfrutamos um raio tardio,

Ainda vos ergueis acima do dia ocidental,

Repousando ao longe no campo de Deus

Como sólidas medas de feno;

Linha tão ousada jamais foi escrita

Em página alguma pelo engenho humano;

A mata arde como se

Fogueiras de um acampamento inimigo brilhassem

Ao longo do horizonte,

Ou ali fosse acesa

A pira funerária do dia;

Orladas de prata e ouro,

As nuvens pendem em pregas de damasco,

E de tamanha profundidade de luz âmbar

O oeste se reveste,

Onde ainda alguns raios se inclinam,

Que até o Céu parece extravagante.

Watatic Hill

Jaz no peitoril do horizonte

Como brinquedo de criança deixado durante a noite,

E outros trastes à esquerda e à direita;

Na beira da terra, montanhas e árvores

Permanecem como se gravadas no ar,

Ou como navios num porto

À espera da brisa matinal.

Imagino até

Que por vossos desfiladeiros serpenteia o caminho do céu;

E além, ainda, apesar da página da história,

Demoram-se a idade de ouro e a idade de prata;

Na ventania laboriosa

Chegam as notícias de séculos futuros

E de novas dinastias do pensamento,

Vindas de vosso vale mais remoto.

Mas de ti me lembro em especial,

Wachusett, que, como eu,

Permaneces sozinho, sem companhia.

Teu distante olho azul,

Um vestígio do céu,

Visto pela clareira ou pelo desfiladeiro,

Ou pelas janelas da forja,

Faz fermentar tudo por onde passa.

Nada é verdadeiro

Senão o que se ergue entre mim e ti,

Ó pioneiro do oeste,

Que não conheces vergonha nem temor,

Impelido por espírito aventureiro

Sob os beirais do céu;

E podes expandir-te ali

E respirar ar bastante?

Até para além do Oeste

Tu migras,

Para extensões sem nuvens,

Sem o machado de um peregrino,

Abrindo teu caminho nas alturas

Com tua fronte bem temperada,

E fazendo para ti uma clareira no céu.

Sustentar o céu, conter a terra,

É teu passatempo desde o nascimento;

Sem te firmares num nem te apoiares na outra,

Que eu me mostre teu irmão digno!

Por fim, como Rasselas e outros habitantes de vales felizes, resolvêramos escalar a muralha azul que limitava o horizonte ocidental, embora não sem o receio de que, dali em diante, nenhuma terra de fadas visível existisse para nós. Mas seria longo contar nossas aventuras, e não temos tempo nesta tarde, transportando-nos em imaginação vale acima pelo enevoado Nashua, para percorrer novamente aquela peregrinação. Desde então fizemos muitas excursões semelhantes às principais montanhas da Nova Inglaterra e de Nova York, e até bem longe no ermo, e passamos uma noite no cume de muitas delas. E agora, quando tornamos a olhar para oeste desde nossas colinas natais, Wachusett e Monadnock recuaram mais uma vez para o meio das montanhas azuis e fabulosas do horizonte, embora nossos olhos repousem nas próprias rochas de ambas, onde armamos nossa barraca por uma noite e cozemos nosso mingau de milho entre as nuvens.

Ainda em 1724 não havia casa alguma no lado norte do Nashua, mas apenas cabanas indígenas dispersas e matas medonhas entre essa fronteira e o Canadá. Em setembro daquele ano, dois homens que trabalhavam na fabricação de terebintina naquele lado, pois assim eram os primeiros empreendimentos no ermo, foram capturados e levados ao Canadá por um grupo de trinta indígenas. Dez habitantes de Dunstable, ao saírem à procura deles, encontraram cortados os aros de seu barril e a terebintina espalhada pelo chão. Um morador de Tyngsborough, que recebera a história de seus antepassados, contou-me que um desses cativos, quando os indígenas estavam prestes a virar seu barril de terebintina, apanhou um nó de pinho e, brandindo-o, jurou com tamanha resolução que mataria o primeiro que nele tocasse que eles desistiram; e, quando enfim retornou do Canadá, encontrou-o ainda de pé. Talvez houvesse mais de um barril. Seja como for, pelas marcas nas árvores, feitas com carvão misturado a gordura, os batedores souberam que os homens não haviam sido mortos, mas levados como prisioneiros. Um dos integrantes do grupo, chamado Farwell, percebendo que a terebintina ainda não terminara de se espalhar, concluiu que os indígenas haviam partido havia pouco tempo, e por isso saíram imediatamente em perseguição. Contra o conselho de Farwell, seguindo diretamente a trilha deles rio Merrimack acima, caíram numa emboscada perto de Thornton’s Ferry, na atual cidade de Merrimack, e nove foram mortos; apenas um, Farwell, escapou depois de uma perseguição vigorosa. Os homens de Dunstable saíram, recolheram os corpos, levaram-nos todos de volta a Dunstable e os enterraram. É quase palavra por palavra como na balada de Robin Hood:

“Levaram esses homens da floresta à bela Nottingham,

Como ali muitos vieram a saber;

Cavaram-lhes covas no cemitério da igreja,

E a todos enterraram em fileira.”

Nottingham fica apenas do outro lado do rio, e eles não estavam exatamente todos em fileira. Pode-se ler no cemitério de Dunstable, sob o “Memento Mori” e o nome de um deles, como “partiram desta vida”, e

“Este homem com mais sete que jazem nesta

sepultura foram todos mortos num só dia pelos

indígenas.”

As pedras de alguns outros integrantes do grupo ficam em torno da sepultura comum, cada qual com sua inscrição. Oito foram enterrados aqui, mas nove foram mortos, segundo as melhores autoridades.

“Rio manso, rio manso,

Vê, tuas águas estão manchadas de sangue;

Muito capitão bravo e nobre

Flutua ao longo de tua margem de salgueiros.

“Todos junto a tuas águas límpidas,

Todos junto a tuas areias tão claras,

Chefes indígenas e guerreiros cristãos

Travaram luta feroz e mortal.”

Relata-se na História de Dunstable que, ao retornar Farwell, os indígenas foram enfrentados por um novo grupo, que obrigaram a recuar e perseguiram até o Nashua, onde combateram de margens opostas na foz do rio. Depois da partida dos indígenas, encontrou-se a figura de uma cabeça indígena, entalhada por eles numa grande árvore junto à margem, circunstância que deu nome a essa parte da aldeia de Nashville, “Indian Head”. “Foi observado por alguns homens judiciosos”, diz Gookin, referindo-se à guerra de Philip, “que, no começo da guerra, os soldados ingleses não faziam caso algum dos indígenas, e muitos diziam palavras neste sentido: que um inglês bastava para pôr dez indígenas em fuga; muitos julgavam que não se tratava de outra coisa senão Veni, vidi, vici.” Mas podemos concluir que, a essa altura, os judiciosos teriam feito uma observação diferente.

Farwell parece ter sido o único que estudara sua profissão e compreendia o ofício de caçar indígenas. Viveu para combater outro dia, pois no ano seguinte foi tenente de Lovewell em Pequawket; naquela ocasião, porém, como já relatamos, deixou os ossos no ermo. Seu nome ainda nos recorda dias crepusculares e batedores da mata em trilhas indígenas, com o escalpo inquieto; um herói indispensável à Nova Inglaterra. Como cantou o poeta mais recente da batalha de Lovewell, claudicando um pouco, mas ainda com bravura:

“Então as correntes carmesins que fluíam

Pareciam as águas do riacho,

Que vivamente brilham, que ruidosamente se precipitam,

Bem abaixo dos penhascos de Agiochook.”

Essas batalhas nos parecem incríveis. Creio que a posteridade duvidará de que tais coisas algum dia tenham ocorrido; duvidará de que nossos audazes antepassados, que colonizaram esta terra, não estivessem antes lutando contra as sombras da mata, e não contra uma raça de homens de pele acobreada. Eles eram vapores, febre e sezão das matas ainda não povoadas. Agora, apenas algumas pontas de flecha são revolvidas pelo arado. Na história pelasga, etrusca ou britânica, nada há de tão sombrio e irreal.

É um cemitério de aparência selvagem e antiga, coberto de arbustos, à margem da estrada principal, a cerca de um quarto de milha do Merrimack e dominando-o do alto, limitado de um lado por um canal de moinho abandonado, onde jazem os restos terrenos dos antigos habitantes de Dunstable. Passamos por ele três ou quatro milhas rio abaixo. Ali se podem ler os nomes de Lovewell, Farwell e muitos outros cujas famílias se distinguiram nas guerras contra os indígenas. Notamos ali duas grandes massas de granito com mais de um pé de espessura, rudemente esquadrejadas, deitadas no chão sobre os restos do primeiro pastor e de sua esposa.

É notável que os mortos jazam por toda parte sob pedras,

“Strata jacent passim suo quæque sub” lapide—

corpora, poderíamos dizer, se a métrica o permitisse. Quando a pedra é modesta, não oprime o espírito do viajante que junto dela medita; mas estas nos pareceram um tanto pagãs; e assim são todos os grandes monumentos erguidos sobre os corpos dos homens, desde as pirâmides para cá. Um monumento deveria ao menos apontar para as estrelas, para indicar aonde foi o espírito, e não jazer prostrado, como o corpo que ele abandonou. Houve nações que nada souberam fazer além de construir túmulos, e estes são os únicos vestígios que deixaram. São os pagãos. Mas por que estas pedras, tão eretas e enfáticas, como pontos de exclamação? Que havia de tão extraordinário no ser que viveu? Por que o monumento deveria durar muito mais que a fama destinada a perpetuar, uma pedra para um osso? “Aqui jaz”, “Aqui jaz”; por que às vezes não escrevem: Ali se ergue? Pretende-se apenas um monumento ao corpo? “Tendo alcançado o termo de sua vida natural”; não seria mais verdadeiro dizer: Tendo alcançado o termo de sua vida antinatural? A qualidade mais rara num epitáfio é a verdade. Se algum caráter é atribuído, deve sê-lo com uma verdade tão severa quanto a decisão dos três juízes de baixo, e não segundo o testemunho parcial dos amigos. Amigos e contemporâneos deveriam fornecer apenas o nome e a data, e deixar à posteridade a tarefa de escrever o epitáfio.

Aqui jaz um homem honrado,

O contra-almirante Van, sepultado.

———

Então, por minha fé, há

Dois numa cova só,

Pois, para seu favor,

Aqui jaz também o Gravador.

A própria fama não passa de um epitáfio; tão tardio, tão falso, tão verdadeiro. Mas somente são epitáfios verdadeiros aqueles que o Velho Mortalidade retoca.

Um homem bem poderia rezar para não tornar tabu nem amaldiçoar qualquer porção da natureza por nela ser enterrado. Na maioria das vezes, o espírito do melhor dos homens se torna um espectro temível a assombrar sua sepultura, e por isso depõe muito a favor de João Pequeno, o famoso companheiro de Robin Hood, e reflete favoravelmente sobre seu caráter, que sua cova tenha sido “por muito tempo célebre por fornecer excelentes pedras de amolar”. Confesso que pouco apreço tenho por coleções como as das Catacumbas, do Père-Lachaise, de Mount Auburn e até deste cemitério de Dunstable. De todo modo, somente uma grande antiguidade pode tornar os cemitérios interessantes para mim. Não tenho amigos ali. Talvez eu não seja competente para escrever a poesia do túmulo. O lavrador que exauriu a camada fértil de sua fazenda poderia talvez deixar seu corpo à Natureza, para que fosse revolvido pelo arado, e assim restaurasse em alguma medida a fertilidade da terra. Não deveríamos retardar, mas favorecer suas economias.

Logo a aldeia de Nashua desapareceu de vista, e alcançamos novamente a mata, remando devagar antes do pôr do sol, à procura de um lugar solitário onde passar a noite. Algumas nuvens vespertinas começaram a se refletir na água, e a superfície só aqui e ali se enrugava com a passagem de um rato-almiscarado atravessando a corrente. Por fim acampamos perto do riacho Penichook, nos limites do que hoje é Nashville, junto a uma ravina profunda, à orla de um pinheiral, onde as agulhas mortas dos pinheiros nos serviam de tapete e seus galhos fulvos se estendiam por cima de nós. Mas o fogo e a fumaça logo domesticaram a cena; as rochas consentiram em ser nossas paredes, e os pinheiros, nosso teto. A beira de um bosque já era o lugar mais apropriado para nós.

A natureza selvagem está próxima, além de ser cara, a todo homem. Mesmo as aldeias mais antigas devem mais à orla de mata bravia que as circunda do que aos jardins dos homens. Há algo de indescritivelmente alentador e belo no aspecto da floresta que bordeja e por vezes avança para o interior das cidades novas, as quais, como os montes de areia de tocas recentes de raposa, surgiram em meio a ela. A própria verticalidade dos pinheiros e bordos proclama a antiga retidão e o vigor da natureza. Nossas vidas precisam do alívio de um pano de fundo assim, onde o pinheiro floresce e o gaio ainda solta seus gritos.

Havíamos encontrado um porto seguro para o barco e, enquanto o sol se punha, levamos nossos móveis para cima e logo armamos nossa casa na margem; e, enquanto a chaleira fumegava à porta da tenda, conversamos sobre amigos distantes e sobre as paisagens que veríamos, e conjecturamos para que lado ficavam as cidades ao nosso redor. Nosso cacau logo ferveu, a ceia foi posta sobre o baú, e prolongamos a refeição, como velhos voyageurs, com nossa conversa. Enquanto isso, estendemos o mapa no chão e lemos no Gazetteer quando os primeiros colonos chegaram ali e obtiveram a concessão de um município. Depois, terminada a ceia e escrito o diário de nossa viagem, enrolamo-nos em nossas peles de búfalo e nos deitamos com a cabeça apoiada nos braços, escutando por algum tempo o latido distante de um cão, ou os murmúrios do rio, ou o vento, que ainda não fora repousar:

O vento do oeste veio a arrastar-se,

Trazendo um débil rumor do Pacífico,

Nosso correio da tarde, veloz ao chamado

De seu Diretor-Geral dos Correios;

Carregado de notícias da Califórnia,

De tudo quanto ocorreu desde a manhã,

De como vai o mundo, por sarça e matagal,

Daqui até o lago Athabasca;

ou, meio despertos e meio adormecidos, sonhando com uma estrela que cintilava através de nosso teto de algodão. Talvez, à meia-noite, um de nós fosse despertado por um grilo cantando estridentemente sobre seu ombro, ou por uma aranha caçadora em seu olho, e fosse de novo embalado ao sono por algum regato que corria murmurante no fundo de uma ravina arborizada e rochosa em nossa vizinhança. Era agradável ficar deitado com a cabeça tão baixa na relva e ouvir que laboratório tinintante e sempre atarefado era aquele. Mil pequenos artesãos batiam em suas bigornas noite adentro.

Alta noite, quando adormecíamos na margem do Merrimack, ouvimos algum novato bater incessantemente um tambor, em preparação para uma revista militar do interior, como depois soubemos, e pensamos no verso:

“Quando o tambor bateu na calada da noite.”

Poderíamos ter-lhe assegurado que seu toque seria respondido e as forças, reunidas. Não temas, tamborileiro da noite, nós também estaremos lá. E ele continuou a tocar em meio ao silêncio e à escuridão. Aquele som desgarrado, vindo de uma esfera longínqua, chegava de tempos em tempos a nossos ouvidos, distante, doce e significativo, e nós o escutávamos com um sentido tão livre de preconceitos como se ouvíssemos pela primeira vez. Sem dúvida ele era um tamborileiro bastante insignificante, mas sua música nos proporcionou uma hora excelente e ociosa, e sentimos que estávamos plenamente em nossa estação. Esses sons simples nos vinculavam às estrelas. Sim, havia neles uma lógica tão convincente que o senso combinado de toda a humanidade jamais me faria duvidar de suas conclusões. Interrompo meu pensamento habitual, como se o arado de repente houvesse penetrado mais fundo no sulco, atravessando a crosta do mundo. Como posso prosseguir, eu que acabo de transpor uma claraboia sem fundo no pântano da minha vida? De súbito o velho Tempo piscou para mim: Ah, você me conhece, seu velhaco, e chegara a notícia de que TUDO estava bem. Aquele universo antigo goza de saúde tão magnífica que, penso eu, sem dúvida jamais morrerá. Curem-se a si mesmos, doutores; por Deus, eu vivo.

Então o ocioso Tempo passou a vadiar

E deixou-me a sós com a Eternidade;

Ouço além do alcance do som,

Vejo além dos confins da visão,

Vejo, cheiro, provo, ouço, sinto aquele Algo eterno ao qual estamos ligados, a um só tempo nosso criador, nossa morada, nosso destino, nosso próprio Eu; a única verdade histórica, o fato mais extraordinário que pode tornar-se objeto distinto e não convidado de nosso pensamento, a glória efetiva do universo; o único fato que um ser humano não pode evitar reconhecer, ou de algum modo esquecer ou dispensar.

Ele expande minha intimidade

A todos, e me deixa só na multidão.

Vi como são lançados os alicerces do mundo e não tenho a menor dúvida de que ele permanecerá de pé por muito tempo.

Agora, sobretudo, é minha hora natal,

E somente agora o auge de minha vida.

Não duvidarei do amor jamais contado,

Que nem meu mérito nem minha carência compraram,

Que me cortejou jovem e me corteja velho,

E até esta tarde me conduziu.

Que são os ouvidos? Que é o Tempo, para que esta série particular de sons chamada frase musical, tropa invisível e feérica que jamais roçou o orvalho de prado algum, possa ser levada através dos séculos, de Homero até mim, e ele tenha convivido com o mesmo encanto aéreo e misterioso que agora me faz vibrar os ouvidos? Que bela comunicação, de era em era, dos pensamentos mais belos e nobres, das aspirações dos homens antigos, até daquelas que jamais foram comunicadas pela fala, é a música! É a flor da linguagem, pensamento colorido e curvado, fluido e flexível, sua fonte cristalina tingida pelos raios do sol, e suas ondulações murmurantes refletindo a relva e as nuvens. Uma frase musical me recorda uma passagem dos Vedas, e associo a ela a ideia de distância infinita, bem como de beleza e serenidade, pois, para os sentidos, aquilo que se dirige à maior profundidade dentro de nós é o que de nós está mais distante. Ela nos ensina repetidas vezes a confiar no mais remoto e no mais sutil como o mais divino instinto, e faz de um sonho nossa única experiência real. Sentimos uma alegria triste quando a ouvimos, talvez porque nós, que ouvimos, não sejamos um com aquilo que é ouvido.

Por isso uma torrente de tristeza profunda,

Através dos acordes de teu triunfo se faz ouvir.

A tristeza é nossa. O poeta indiano Calidasa diz em Sacontala: “Talvez a tristeza dos homens ao contemplarem belas formas e ouvirem música suave surja de alguma tênue lembrança de alegrias passadas e dos vestígios de vínculos num estado anterior de existência.” Assim como o polimento revela o veio do mármore e o desenho da madeira, a música faz aflorar o que houver de heroico oculto em qualquer parte. O herói é o único patrono da música. A harmonia que existe naturalmente entre os estados de alma do herói e o universo, o soldado desejaria imitar com tambor e trombeta. Quando temos saúde, todos os sons são pífano e tambor para nós; ouvimos as notas da música no ar, ou captamos seus ecos que se extinguem quando despertamos ao amanhecer. Marchar é quando o pulso do herói bate em uníssono com o pulso da Natureza e ele avança na cadência do universo; então há verdadeira coragem e força invencível.

Plutarco diz que “Platão pensa que os deuses jamais deram aos homens a música, a ciência da melodia e da harmonia, por mero deleite ou para agradar aos ouvidos; mas para que as partes discordantes das revoluções e da bela estrutura da alma, e aquela parte dela que vagueia pelo corpo e muitas vezes, por falta de afinação e de melodia, irrompe em muitos desvarios e excessos, pudessem ser docemente reconduzidas e artisticamente ajustadas a seu antigo consenso e acordo.”

A música é o som das leis universais promulgadas. É o único tom seguro. Há nela acordes que excedem de longe a fé de qualquer homem na elevação de seu destino. Há coisas a aprender que valerá a pena aprender. Outrora ouvi estes

RUMORES DE UMA HARPA EÓLIA

Há um vale que ninguém contemplou,

Onde jamais o pé humano pisou,

Tal qual aqui vive em fadiga e conflito,

Uma vida ansiosa e de pecado contrito.

Ali toda virtude tem nascimento,

Antes de descer ao terreno assento,

E para lá retorna todo feito

Que arde no generoso peito.

Ali o amor é cálido, e a juventude, jovem,

E a poesia ainda não foi cantada,

Pois a Virtude ali ainda se aventura

E respira livremente seu ar de origem.

E sempre, se escutares com atenção,

Ainda ouvirás seu sino de oração,

E o passo de homens de alma elevada,

Cujos pensamentos conversam com o céu.

Segundo Jâmblico, “Pitágoras não obtinha para si uma coisa dessa espécie por meio de instrumentos ou da voz, mas, empregando certa divindade inefável e difícil de apreender, estendia os ouvidos e fixava o intelecto nas sublimes sinfonias do mundo, sendo ele o único, ao que parece, a ouvir e compreender a harmonia e a consonância universais das esferas e das estrelas que por elas se movem, as quais produzem uma melodia mais plena e intensa que qualquer coisa realizada por sons mortais.”

Viajando a pé, muito cedo certa manhã, para leste daqui, cerca de vinte milhas, desde a taverna de Caleb Harriman, em Hampstead, rumo a Haverhill, quando alcancei a estrada de ferro em Plaistow, ouvi a alguma distância uma música tênue no ar, semelhante a uma harpa eólia, que imediatamente suspeitei provir do fio do telégrafo vibrando no vento matinal que acabava de despertar; e, encostando o ouvido num dos postes, convenci-me de que assim era. Era a harpa telegráfica cantando sua mensagem através do país, mensagem enviada não pelos homens, mas pelos deuses. Talvez, como a estátua de Mêmnon, ela só ressoe pela manhã, quando os primeiros raios do sol incidem sobre ela. Era como a primeira lira ou concha ouvida à beira-mar, aquele fio vibrante, alto no ar sobre as praias da terra. Assim todas as coisas têm usos mais altos e mais baixos. Ouvi notícias mais belas que todas as impressas pelos jornais. Falavam de coisas dignas de ser ouvidas e dignas de que o fluido elétrico lhes transportasse a notícia, não do preço do algodão e da farinha, mas insinuavam o preço do próprio mundo e de coisas que não têm preço, da verdade e da beleza absolutas.

O tambor ainda rufava e, naquela noite, incitava nosso sangue a novos excessos. O som do clarim e o clangor de couraça e broquel eram ouvidos em muitos povoados da alma, e muitos cavaleiros se armavam para o combate por trás das estrelas acampadas.

“Diante de cada vanguarda

Avançam os cavaleiros do ar e baixam suas lanças

Até que as legiões mais densas se fechem; com feitos de armas,

De um extremo ao outro do Céu, arde o firmamento.”

—————

Avante! avante! avante! avante!

Não guardastes bem vosso segredo,

Esperarei por aquele outro dia,

Pelas outras terras que anunciais.

Não resta ao tempo folga para estes,

Os feitos que narrais?

Não é a eternidade um arrendamento

Para atos melhores que versos?

É doce ouvir falar de heróis mortos,

Saber que ainda vivem,

Mas mais doce é ganharmos seu pão,

E em nós eles sobreviverem.

Nossa vida deveria alimentar as fontes da fama

Com uma onda perene,

Como o oceano alimenta as fontes murmurantes

Que nele encontram seu túmulo.

Ó céus, descei suavemente sobre meu peito,

E sede minha couraça azul;

Ó terra, acolhei minha lança em repouso,

Sede vós meu fiel corcel;

Ó estrelas, sois minhas pontas de lança no céu,

Minhas pontas de flecha sois;

Vejo fugir o inimigo desbaratado,

Minhas lanças luminosas estão cravadas.

Dai-me um anjo por adversário,

Marcai agora o lugar e a hora,

E imediatamente irei encontrá-lo

Acima do carrilhão estrelado.

E com o clangor de nossos broquéis em choque

Ressoarão as esferas celestes,

Enquanto brilhantes luzes do norte penderão

Ao lado de nosso torneio.

E se ela perder seu verdadeiro campeão,

Dizei ao Céu que não desespere,

Pois eu serei seu novo campeão,

Sua fama restaurarei.

Soprou um vento forte naquela noite, o qual depois soubemos ter sido ainda mais violento em outros lugares e causado grandes danos aos milharais próximos e distantes; mas nós apenas o ouvíamos suspirar de tempos em tempos, como se não tivesse licença para abalar os alicerces de nossa tenda; os pinheiros murmuravam, a água ondulava e a tenda balançava um pouco, mas nós apenas apertávamos os ouvidos contra o chão, enquanto a rajada seguia adiante para alarmar outros homens; e muito antes do nascer do sol estávamos prontos para prosseguir nossa viagem como de costume.

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