Capítulo 21 - Procedimento Para Detectar um Predador
Ao entrar no escritório, Neo encontrou uma figura encostada em Anna perto da janela na antessala.
— Bom dia — disse, esperando que o homem se contivesse. — Em que posso ajudá-lo?
Lamar girou e sorriu.
— Finalmente. Estava perguntando a Anna onde você havia se metido.
Neo estreitou os olhos para Anna. As mãos dela não achavam onde pousar.
— O que você estava fazendo com a minha secretária?
— Ora, estamos colocando o papo em dia. O que mais poderia ser? Esqueceu que fui eu que te recomendei a Anna? Ela trabalhou para mim. Somos amigos. Não é mesmo, Anna?
A mulher concordou com um aceno de cabeça.
— Anna estava me dizendo que a família dela está ótima. Fico feliz em saber que as pessoas que já trabalharam comigo estão progredindo na vida. Mas onde você estava? Temos que conversar sobre algumas coisas que trouxe de Pequim para as estufas.
Neo estendeu a mão indicando o seu escritório.
— Traga-nos um café, Anna. — Lamar falou quando entrou na sala.
Neo olhou para a porta entreaberta antes de dizer.
— Não precisa. — balançou a cabeça de um lado para o outro — Chame um robô da copa.
— Sim, doutor.
— Está tudo bem com você? Aconteceu alguma coisa desconfortável enquanto eu não estava aqui?
— Não, doutor. Está tudo ótimo.
Ele esperou o clique da cadeira dela do lado de fora — o sinal de que havia voltado ao seu lugar — antes de virar para Lamar e entrar em sua sala fechando a porta.
As prateleiras laterais projetavam etiquetas holográficas sobre cada amostra de substrato — coordenadas, datas de coleta, índices de umidade piscando em verde. Deixando o escritório com o característico cheiro de terra úmida das estufas.
No painel central, os mapas das estufas flutuavam em camadas sobrepostas. A última camada tinha cálculos de luminosidade que ele havia inserido às três da manhã. As marcações ainda pulsavam em laranja — pendentes, esperando revisão.
Lamar olhou para o painel e não disse nada. Era o olhar de quem vê números onde há meses de trabalho e não estava realmente interessado nisso.
O diretor financeiro do Orion Star de Londres acomodou-se em uma das poltronas à frente da mesa. A postura casual contrastava com o olhar que mapeava cada reação do jovem biólogo.
— Você parece exausto — observou.
— Bom te ver, velho amigo. Como foi sua viagem? Quando cheguei, me informaram que você tinha ido a Pequim depois da nossa última reunião virtual.
— Estou estabelecendo parcerias estratégicas. O projeto foca em cidades com alta concentração de turistas. Dias intensos com executivos do setor, mas deve melhorar os números — respondeu Lamar.
— Ainda bem, estamos precisando. Dr. Orion está preocupado com o Star daqui.
— Estou fazendo o possível, mas a Europa não é mais a mesma, meu caro — o sorriso escorregou enquanto observava Neo parar de braços cruzados diante da janela.
— Acabei voltando mais cedo porque recebi uma ligação desesperada da minha equipe dizendo que você tinha chegado com o “Câncer do Star” — o sorriso jocoso expandiu por seus lábios.
— Se ao menos eu soubesse que ela seria assim… — Neo deixou o peso do corpo cair na cadeira. — Daniella não tem mais nada da menina que conheci. Tornou-se uma mulher odiosa. E, olha, não me chame de Neo na frente dela. Ela não sabe que sou seu amigo de infância.
— Como assim?
— Ela me odeia, só isso. Dr. Orion achou que ela nunca aceitaria trabalhar comigo se soubesse que sou o Neo da sua infância. Então, quando estiver na frente dela, me chame apenas de Alex.
— Quer dizer que ela não te reconheceu? — Lamar levantou uma sobrancelha.
— Não. Parece que não era importante o suficiente para ser lembrado — disse, mas os dedos tamborilavam no braço da poltrona.
A gargalhada de Lamar o incomodou. Endireitou-se e continuou.
— E agora está fazendo da minha vida um inferno. Implementou um novo sistema de relatórios. Precisamos preencher formulários diferentes para cada área. São… — consultou suas anotações — doze modelos diferentes. E precisam ser entregues diariamente.
— Pensei que a implicância fosse só com minha equipe por causa da queda nos números — Lamar desabafou, o olhar passando pelos relatórios na mesa. — Mas é uma caça às bruxas.
— Eu diria que a bruxa está solta nesse caso. Ninguém está imune.
Lamar riu, mas havia algo calculado em seu sorriso.
— Meu jovem, se é esse o caso, já sei como resolver.
— Como?
— Ela precisa de um namorado. Um macho para puxar as rédeas dessa égua.
Neo gargalhou.
— Tenho pena do pobre infeliz que se aventurar com essa mulher.
— Você não está disposto, então?
— Eu? — Neo levou a mão ao peito. — Você não me ouviu? Ela está tentando me matar de trabalhar, me empurrar para a demissão. Destruir o que construí aqui.
— Pensei que você ainda gostasse dela… Ela não era seu amor de infância? — Lamar pressionou, inclinando-se ligeiramente. — A Daniella que eu me lembro sempre foi intensa, focada. Talvez ela não tenha mudado tanto quanto você pensa.
Neo não respondeu.
— Então você não está disposto? E nem se importa que alguém tente conquistá-la? — arqueou a sobrancelha, curioso.
Neo balançou a cabeça em negação, sem levar a sério as palavras de Lamar.
— Então acho que terei que me sacrificar pelo time — declarou, seu tom leve mascarando intenções mais profundas. — Vai por mim, toda herdeira só precisa de um cavalo, e não me importo de ser o garanhão dessa garotinha. Vou dar a ela o que ela precisa.
Neo disfarçou, desconsiderando o incomodo que crescia em seu peito.
— E sua esposa, o que vai achar disso?
— Ex-mulher. Esqueceu? Estou divorciado — Lamar piscou, girando a aliança que ainda mantinha no dedo. — Minha equipe me mandou imagens da princesinha do Dr. Orion pelas câmeras. Aquela remelenta se tornou uma gostosa. Quem diria!
Neo não respondeu na hora.
Tinha uma imagem dela guardada de um lugar que câmera nenhuma alcançava: doze anos, cabelo preso torto, inclinada sobre a projeção holográfica de um catálogo botânico que era dele. Ela não havia pedido acesso. Havia entrado no sistema sozinha e adicionado um arquivo novo dentro — uma ilustração dela própria, desenhada, de uma tulipa. Embaixo, a letra de criança:esta é minha favorita.
— Ela continua linda. Mas o gênio está terrível. Não tem nada da garota doce que ela foi. Parece outra pessoa. Mas vamos deixar isso para lá.
O café chegou. Neo esperou o robô sair antes de falar.
— Me diga o que você trouxe de Pequim.
— Fui apresentado a uma espécie interessante quando estava lá. Fiquei de trazer um carregamento comigo, mas preciso do aval de um especialista senão o governo não aceita a importação. Você teria a permissão?
— Como pesquisador posso autorizar, mas preciso conferir os documentos. — Neo encostou na cadeira. — É um processo demorado. Vamos ter que preparar o laboratório para receber a espécie. Estamos atarefados com a inauguração. Não posso correr riscos antes das apresentações.
— Isso pode ser um problema pois já conclui a compra.
— Consulte o fornecedor. Quanto tempo ele consegue segurar?
Lamar não disfarçou o desagrado. Neo sabia o que uma nova espécie poderia causar naquele momento. Lamar também deveria saber.
🔓 Belos mortais, novo arquivo liberado. Um velho amigo apareceu no escritório de Neo com plantas na bagagem e perguntas que não eram sobre plantas.
Registrei:
▪️ um homem que passou semanas acreditando que não era importante o suficiente para ser lembrado, e tamborilou os dedos na poltrona enquanto fingia que não se importava
▪️ um carregamento já comprado que ninguém pediu autorização para comprar, entregue como detalhe burocrático no final de uma visita de cortesia
▪️ uma flor desenhada à mão dentro de um catálogo que não era dela — arquivada há anos, intacta. Temos um colecionador nessa história.
🔒 Porque mesmo odiando a mulher que ela se tornou, ainda guarda o desenho da antiga menina que ela era.
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