Capítulo 20 - Procedimento Para Operar Em Vulnerabilidade
O ar invadiu os pulmões de Daniella e seu peito contraiu em um espasmo violento que ecoou por todo o tronco. Era uma resposta mecânica da carne ao vácuo digital. A garganta ardia intensamente, como se ela tivesse tragado brasas de um incêndio invisível.
Com um atraso incômodo, a mente despertou. Processava o peso morto dos braços contra a textura áspera do tapete. Sob o frio que dominava a sala, os ombros retesaram. Havia um contraste seco com o calor artificial do ambiente virtual que ela deixara de forma abrupta e o frio da realidade.
Lentamente, a visão organizou-se, lutando contra luzes difusas até que as linhas geométricas do teto ganhassem definição. O coração mantinha um ritmo acelerado, forçado por uma descarga de adrenalina. Por longos segundos, Daniella permaneceu imóvel. Sentia-se uma estranha no próprio corpo.
A mente permanecia no último quadro projetado pela interface: o aviso de "nome recusado" piscando em um carmesim agressivo enquanto o mundo digital desmoronava. Havia a sensação nítida de ter a identidade arrancada por um algoritmo hostil.
O silêncio da sala fazia os ouvidos tinirem. Sem os dados de Mitra sobrepostos à visão, a mesa de carvalho e as poltronas de couro curtido ocupavam o espaço com a solidez do mundo real. O olfato retornou em seguida, capturando o rastro familiar de madeira encerada, e o perfume cítrico que Brina costumava usar.
— Doutora... Ah, que bom... Está me ouvindo? — Brina estava agachada ao lado dela, as mãos trêmulas pairando sobre os ombros de Daniella, pronta para ampará-la. — A senhora caiu? Bateu a cabeça? Vou chamar a emergência agora mesmo.
— Não chame ninguém — a voz de Daniella saiu rouca. Era uma vibração áspera que machucava as cordas vocais. — O que houve aqui?
— Encontrei você caída no chão. A senhora desmaiou?
Por trás das pálpebras de Daniella, os olhos ainda latejavam. Ignorando a assistente frenética, ela tateou a estrutura fria da tiara neural com dedos trêmulos. Buscava por falhas físicas na carcaça metálica. O dispositivo parecia intacto, apesar do software de imersão ter sido violentamente destruído.
— Está tudo bem, Brina. Apenas ajude-me a levantar.
Depois que as pernas finalmente firmaram contra o piso frio, Daniella sentou-se na chaise. Ouvia pessoas conversando do lado de fora do seu escritório. O barulho parecia ensurdecedor para seus sentidos ainda sensíveis.
— É você que está fazendo esse barulho todo na minha porta? — disse ao relógio comunicador.
— Sim, a senhorita tem visitas. Alex e Claire, coordenadora de eventos — Tyler respondeu.
— Estou ocupada agora. Peça pra que marquem uma reunião com a Brina.
— Entendido. Vou informá-los.
Com passos incertos e uma palma na parede, seguiu para o banheiro.
— Se precisar de qualquer coisa, estarei aqui fora organizando os relatórios das gerências. — veio a voz de Brina, abafada pela porta do banheiro agora fechada.
Daniella observou a água da torneira escorrer, um recurso simples que agora parecia fascinante em sua irregularidade física.
O relógio brilhou no pulso, projetando o código de identificação de Liu Yu. Levou a água ao rosto, o gelado despertando o restante de seus nervos, antes de atender a chamada. Acima da cerâmica da pia, a imagem de Liu surgiu em uma miniatura holográfica.
— Por que seu chip foi desativado? — ele questionou sem preâmbulos. — O sinal sumiu da rede de forma abrupta. Recebi um alerta crítico no seu terminal.
— Foi desativado? — Durante uma nova onda de vertigem, as mãos de Daniella subiram ao encontro das têmporas. — O sistema de proteção me ejetou da imersão. Houve uma recusa de acesso no ambiente virtual.
— Você está segura? Parece estar sofrendo um choque. Algum outro sintoma? Não consigo recuperar os dados da última meia hora.
— Minha memória está bagunçada, e sinto que vou vomitar minhas tripas, mas estou segura, Liu. Algo na Mitra não reconheceu minha assinatura digital. — com urgência, continuou: — Reative a interface da Mitra no servidor de segurança imediatamente.
— No servidor central, ela já está ativa. Mas não há registros de antes da queda. Os dados corromperam totalmente.
— Pelo menos não fritou o meu cérebro. Como estão as coisas na base?
— Tivemos um incidente sério com Aquila durante a incursão nos laboratórios das industrias Kai. Ela foi exposta a uma carga viral sintética. O chip neural agiu rápido e acionou o sistema de defesa do corpo dela. A infecção foi contida antes de causar danos sérios, mas o tecido de um dos dedos foi comprometido. Dra. Tassi já realizou o procedimento de reposição.
— Aquila sempre encontra uma maneira de testar os limites. Acho que ela gosta dessas atualizações.
— Foi uma medida extrema. Parece que o objetivo era transformar pessoas em algo como servos ou escravos sem vontade própria. Vou enviar as métricas da infecção junto com o relatório.
— E a substância XD-4566 que pedi para investigar?
— Durante a fuga, apreendemos uma van carregada dessa substância. Dra. Tassi está realizando testes. Tem um composto relacionado que reage de forma violenta com o fluido espinhal da paciente que você nos enviou semana passada. Aviso assim que os resultados preliminares surgirem.
Ele pausou por um momento antes de continuar.
— Tome cuidado aí. Sem o seu chip, você está vulnerável, e seu corpo não vai reagir a tempo contra um XD-4566.
Daniella assentiu.
— Preciso voltar para o escritório. Brina está me esperando.
— Certo. — ele a encarou por um tempo — Dani... Sinto sua falta por aqui.
Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dela, quase sem força para vencer a exaustão. O junior da OPM era seu único conforto em momentos de isolamento
— Eu também, Liu. Cuide-se até o meu retorno. Mantenha os olhos na garota que eu mandei e na carga apreendida.
Ao sair do banheiro, Daniella encontrou Brina revisando arquivos em uma tela holográfica.
— Dra., precisamos organizar a pauta da próxima reunião imediatamente. Já enviei o aviso formal de que começará em exatamente duas horas. — Brina olhou para a tela, e de volta à Daniela — A sala de conferências já está preparada. A senhora quer revisar o orçamento de restruturação?
Sentando-se à mesa de carvalho, Daniella sentiu o peso da responsabilidade retornar junto com a lucidez fria.
— Diga às gerências que a Diretora de Desenvolvimento Corporativo não aceitará relatórios incompletos. O que mais?
Neo girou nos calcanhares, ignorando a postura estática de Tyler. O silêncio absoluto vindo da porta de Daniella, interrompido apenas pelo murmúrio inaudível que o segurança recebera no fone, deixava um gosto amargo de exclusão.
Os passos ecoaram rápidos sobre o mármore, carregando a irritação de ser tratado como um estranho por quem ele conhecia desde criança. Ao seu lado, Claire Bennett tentava manter o ritmo, dividindo a atenção entre o chefe e os fluxos de dados que flutuavam em suspensão holográfica do próprio relógio.
— Não se preocupe, chefinho. O evento vai ser um sucesso. Eu vou dar um jeito — Claire falou com empolgação, quebrando o silêncio de dentro do elevador.
Neo encarou o próprio reflexo na superfície polida da porta. O nome "Alex" no crachá parecia queimar contra o peito, um lembrete constante de que a mulher que ele conhecia desde a infância agora o tratava como um subordinado qualquer.
— É um evento importante para o hotel. Dr. Orion deseja que o mundo inteiro conheça essa tecnologia e os avanços que ela trará. Nunca imaginei que ela seria a pessoa que dificultaria a minha vida nesse processo.
— Talvez ela só esteja com a mente em outro lugar neste momento.
— É proposital, sem dúvidas. — Ele soltou um riso seco, ajustando o punho da camisa enquanto o elevador iniciava a descida. — Eu falei demais e a deixei irritada. Ela só está me mostrando o meu lugar.
Com um meio sorriso, Claire inclinou a cabeça, analisando a tensão nos ombros do chefe.
— Ela não me parece ser esse tipo de pessoa. Você acha que ela estaria fazendo isso por rancor? Ou por algo mais?
— Por algo mais? — Neo riu debochado. — Não é o estilo da Daniella que eu conheci, mas ela já não me parece a mesma pessoa de antes.
— Ah! Vocês já se conheciam? Eram amigos, algo assim?
Neo acenou rigidamente com a cabeça.
— Algo assim.
— Você fala dela de um jeito meio...
— Meio, o quê?
— Apaixonado.
O riso nervoso escapou dos lábios de Neo. A ideia de que sua frustração pessoal transparecia de forma tão óbvia o deixou em alerta.
— Claro que não. Impressão sua.
— Não estou julgando. Ela é muito bonita. Qualquer pessoa se apaixonaria por ela.
— Você a conhece? — Ele rebateu, tentando retomar o controle da conversa.
— Ah, sim! Do noticiário, é claro.
— É claro.
As portas se abriram para outro corredor.
— Soube que ela tem um namorado na China — Claire continuou, observando a reação dele pelo canto do olho. — Ou talvez seja só um amigo. Andavam juntos para cima e para baixo.
— Pode ser um segurança — Neo retrucou, o tom de voz denunciando um incômodo que ele não conseguia ocultar.
— Um romance proibido com o segurança é sempre emocionante.
— Claire.
— Ah, desculpa. Deve ser péssimo ficar ouvindo sobre os relacionamentos da sua paixão de infância. Não tive a intenção.
Neo parou abruptamente no corredor, virando-se.
— Quem disse que ela é a minha paixão de infância?
— Não é?
— Claro que não! De onde você tirou isso?
— Eu sou boa em ler as pessoas.
— Você deve estar um pouco enferrujada então. Nunca aconteceu nada entre eu e a senhorita Del Rion.
— Mas bem que você gostaria, não é? — Ela piscou, provocativa.
— Essa conversa não é apropriada para o ambiente de trabalho. Ficar falando da vida pessoal da filha do dono da empresa não vai ajudar na sua carreira aqui.
— Me desculpe, chefinho. Ainda estou tentando me adaptar. Mas obrigada pelo aviso.
Seguiram para o escritório de Neo. Claire estacou, o corpo tensionando ao avistar uma figura com uma cicatriz no rosto entrando pela mesma porta para onde iam.
— Eu vou deixá-lo aqui — ela disse, a voz subitamente baixa, os olhos fixos no ponto onde o homem desaparecera. — Creio que tenho muito o que pensar sobre como fazer esse evento com tão pouca verba sem deixar cair a qualidade do padrão do Orion Star. Em breve eu te retorno com o que eu conseguir.
Neo franziu o cenho, notando a palidez repentina da colega.
— Você não precisa falar assim. Não quis soar grosseiro. É só que muitas pessoas que falam dela acabam sendo realocadas para posições não muito confortáveis. Só estava te avisando que não é um comportamento saudável.
— Eu entendi, chefinho. Tá tudo bem. Eu já vou indo. Nos falamos depois.
Sem esperar resposta, Claire girou e apressou o passo na direção oposta. Neo observou-a sumir na curva do corredor antes de levar a mão à maçaneta, inconsciente da presença que o aguardava do outro lado da porta.
🔓 Belos mortais, novo arquivo liberado.
Daniella está vulnerável, mas nem assim Neo consegue alcançá-la.
Registrei:
▪️ uma mulher que acordou no chão e a primeira coisa que verificou foi o equipamento
▪️ um relatório técnico de incidentes graves que terminou com "sinto sua falta por aqui"
▪️ um homem que negou ser apaixonado por Daniella com um riso nervoso que confirmou tudo
▪️ uma coordenadora de eventos que saiu de uma conversa sobre orçamento ao ver um homem com cicatriz entrar no escritório de Neo
🔒 Parece que agora todo mundo está no hotel.
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