Capítulo 23 - Procedimento Para Camuflar uma Saudade
A academia do hotel era ampla, ocupando uma boa parte do primeiro andar do prédio. Diferente da academia luxuosa que frequentavam em Isla del Canareos, essa carregava um ar mais rústico e despretensioso, mas servia perfeitamente aos seus propósitos.
Do lado direito, a área de musculação exibia equipamentos modernos — esteiras, bicicletas ergométricas, halteres e uma infinidade de aparelhos para exercícios localizados. Do lado esquerdo, um espaço mais reservado, com tatames e enormes espelhos ao longo das paredes, revelava-se como o território dedicado às artes marciais.
As pernas de Tyler ainda tremiam da sessão extenuante de treinamento com Daniella. Ela o submetia a uma rotina rigorosa, cronometrando cada movimento e cada descanso, controlando até os goles de água. Era como se o preparasse para entrar em guerra.
O tatame, embora pequeno, bastava para os treinos de combate corpo a corpo. Naquele canto reservado, apenas o som dos golpes no ar e o impacto dos pés descalços no chão acolchoado quebravam o silêncio.
Enquanto Tyler jazia ofegante no chão da academia, Daniella mantinha-se ereta e impassível, os olhos estreitos observando cada reação do rapaz com uma intensidade quase intimidadora. Mesmo naquele estado deplorável, o rosto de Tyler esquentou quando Claire adentrou o recinto com uma expressão gentil, a bolsa de treino a tiracolo.
— Boa noite — Claire cumprimentou, o sorriso acolhedor contrastando com a austeridade de Daniella. Ela depositou a bolsa em um canto; os olhos percorreram o local, passando pelos hóspedes que malhavam ao longe até parar no suor que escorria pela testa de Tyler.
Daniella observou a recém-chegada com desconfiança por alguns segundos, antes de voltar sua atenção para Tyler.
— Levante-se — ordenou, estendendo a mão para ajudá-lo a se erguer. Tyler aceitou, ainda cambaleante, e então Daniella se posicionou em frente a ele, assumindo sua própria postura de combate, mas foi interrompida antes mesmo de começar.
— Senhorita, esta é a coordenadora de eventos de quem falei mais cedo. Ela mencionou ter conhecimento em artes marciais e perguntou se poderia treinar conosco. Então, eu a convidei.
Daniella lançou um olhar indecifrável para Claire.
— Será que estou interrompendo? Ou posso treinar com vocês? — Claire perguntou, sorrindo enquanto começava um aquecimento.
Daniella a olhou de cima a baixo, avaliando-a. Sem dizer uma palavra, indicou o tatame, como quem desafia sem precisar de permissão. Claire assentiu, retirando o casaco e revelando um uniforme de treino. Ela respirou fundo, os olhos fixos, e estendeu a mão para a dona do prédio.
— É um prazer conhecê-la, Dra. Já ouvi muito sobre a senhora — Claire disse — Se não for atrapalhar, Tyler me disse que tem aprendido muito com a senhora. Posso participar do treino de vocês? Por favor, não pegue leve comigo.
Daniella deixou escapar um sorrisinho no canto dos lábios. Tyler não percebeu. Ela aceitou a mão estendida.
— Será um imenso prazer, senhorita Claire — disse, a voz melodiosa.
Um arrepio percorreu a espinha de Tyler, que se arrastou para o canto enquanto as duas se posicionavam no tatame.
— Sra., por favor, tome cuidado — murmurou, na esperança de que sua chefe ouvisse. Não era pela integridade de Daniella que ele temia. Porém, ela já estava concentrada demais.
— Você é a última pessoa que eu imaginaria sentir falta dos meus treinos — murmurou, apenas para que ambas ouvissem, enquanto trocavam os primeiros golpes.
No primeiro embate, os golpes de Daniella vieram rápidos demais para acompanhar. A velocidade trouxe algumas memórias para a oponente. Claire se esquivou dos primeiros, tentando manter a defesa fechada, mas um chute acertou sua costela e a fez recuar dois passos.
— Unnie, eu sinto sua falta — respondeu Aquila, usando a palavra coreana para “irmã mais velha”. — Você não sente a minha? — fez um beicinho quando estava de costas para Tyler. — Por que não quis me ver? Eu estava com saudades.
Daniella não deu trégua, encadeando socos e chutes. Claire bloqueava como podia, mas não conseguia encontrar uma brecha. Em um golpe certeiro, Daniella desferiu um chute giratório e derrubou Claire no chão.
Claire arfou, o corpo respondendo ao impacto. Mas, determinada, ela se levantou, os olhos brilhando em desafio.
— Nada mal — murmurou Daniella, com um sorriso contido.
Elas recomeçaram, desta vez Claire tentando tomar a ofensiva. Avançou com uma sequência de socos, buscando a lateral de Daniella, mas cada golpe era bloqueado com facilidade. Daniella agarrou o braço de Claire, girou o corpo dela e a forçou ao chão mais uma vez, dominando cada articulação sem esforço aparente.
— Seu equilíbrio ainda é instável — disse Daniella, soltando Claire e deixando-a se levantar mais uma vez.
— Quer que ele veja como eu sei lidar com você? — Aquila replicou, com um risinho.
Daniella retribuiu o sorriso.
— Nem nos seus sonhos, pirralha.
Claire não desistia. Ofegante, mas o olhar determinado, voltou a atacar, dessa vez mais cautelosa. Os golpes mal tocavam o ar antes de serem desviados. Ela se movia com precisão, sem desperdiçar energia, mesmo já mostrando sinais de cansaço.
— Liu disse que você teve problemas na última missão.
— Acho que eu consegui manejar bem, ele está mal acostumado com a sua excelência.
— Você o deixou preocupado.
Aquila bufou, descrente.
— Eles estão escravizando humanos com nanorrobôs.
— Pra quê?
— Não consegui descobrir. Não quis comprometer o meu disfarce. Mas, um dos compradores está aqui no Orion Star, o vi no corredor hoje mais cedo.
— Hmm, que sorte a nossa. Vou passar para a Mitra verificar.
Elas trocaram mais alguns golpes.
— Sua sombra foi o motivo de você me chamar para essa missão?
— Sim. Gostou dele? Tem potencial, não acha?
— Carne de primeira — ela piscou. — Nem sei o que fiz para merecer um banquete desses.
— Não abuse da sorte. Posso precisar de você para outras coisas. Fique atenta.
Por fim, Daniella encerrou a luta com um golpe que fez Claire ver o mundo girar. Colocou-a no chão com o cuidado de quem deita um filho na cama. Aquila foi pega de surpresa e só percebeu quando já estava deitada, deixando escapar uma gargalhada gostosa.
— Continua deixando sua defesa aberta — comentou Daniella.
Aquila riu ainda mais.
— Por que você está pegando no pé do meu chefinho? — ela falou baixo apenas para os ouvidos de Daniella.
— Alex?
— Sim.
— Só estou colocando ele no lugar dele. Parece que esqueceu por que meu pai lhe dá certas liberdades.
— Tá, mas pare de atrapalhar o meu evento, ou serei demitida. Fui contratada só para isso, e você está dificultando tudo.
— Achou que eu ia passar a vida te protegendo? Está na hora de você aprender a se virar.
— Unniiii — Aquila reclamou. — Não seria melhor focar minhas energias na sua sombra deliciosa?
Daniella revirou os olhos.
— Certo, agora se concentre e pare de fazer papel de boba.
— Você gosta dele? — Aquila perguntou, mordendo o lábio por dentro.
— Quem?
— Do chefinho?
— Claro que não. Gostar de alguém é uma fraqueza, já temos problemas demais escondendo nossa família. Não confunda trabalho com romance.
— Blá blá blá, “não entregue seu coração a ninguém” — Aquila zombou. — Tudo bem, eu me lembro, Rainha do Gelo.
Daniella virou-se para Tyler.
— O impacto, pelo visto, foi forte demais para ela. Leve-a para casa, não se preocupe, não sairei do hotel hoje.
— Mas…
Daniella não esperou Tyler terminar, saiu do tatame deixando Aquila no chão, rindo sozinha. Pegou suas coisas em uma das cadeiras. A porta da academia deslizou atrás dela. Já estava no corredor quando seu relógio tocou avisando uma holochamada.
Ajeitou o cabelo e aceitou o convite.
— Fala, moça bonita, como você está? Que saudades — falou Lamar
— Você está se escondendo de mim? — ela perguntou, com um tom cúmplice.
— Eu cheguei de viagem ontem, fiquei sabendo que você anda me procurando. Quer jantar comigo essa noite? Vamos matar as saudades. — ele falou com uma intimidade que ela não lembrava de ter permitido. — Faz, o que, uns dez anos que não te vejo?
— Por aí, nosso último encontro foi aqui em Londres, quando meu pai te pediu para me levar de volta.
— Pois é, muito tempo. Vamos jantar hoje à noite no restaurante do hotel. O que acha?
— Tudo bem, te vejo lá às dez.
— Combinado, já estou na contagem regressiva — ele desligou.
No canto do corredor, Neo ouvia a conversa, tentando passar despercebido. Daniella sentiu que alguém a observava e resolveu subir pela escada até o terraço do hotel. Se havia companhia, ia cansá-lo primeiro.
Belos mortais, novo arquivo liberado.
Duas agentes trocaram golpes num tatame emprestado, e nenhum dos presentes soube que estava assistindo a um reencontro de família.
Registrei:
▪️ uma diretora que chama uma quase-irmã de “pirralha” e ainda assim a deita no chão com o cuidado de um berço
▪️ um alvo masculino torcendo pela integridade errada, sem saber que a única coisa em risco ali era o próprio coração dele
▪️ uma informação sobre nanorrobôs entregue entre socos, como quem troca receita de bolo
▪️ e um discurso pronto sobre “gostar de alguém é uma fraqueza” que ninguém, nem quem o disse, pareceu realmente acreditar
🔒 Porque ela repete havia anos que não entrega o coração a ninguém. Mas, nós dois sabemos porque ela subiu a escada.
⭐ Deixe a sua estrelinha nesse capítulo. Quanto mais agentes tiverem acesso a este dossiê, mais longe a operação chega.
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