Capítulo 24 - Procedimento Para Voltar ao Passado
Neo alcançou o topo da escadaria alguns minutos depois de Daniella. Perdeu a conta de quantos andares subiu. A corrida que fazia todos os dias provava seu valor.
A cada passo, seus pensamentos voltavam à conversa entre ela e Lamar no corredor. O amigo sempre soube o paradeiro dela e nunca lhe contou. Fora até designado por Dr. Orion para trazê-la de volta naquela época, e nem isso confessara. Testemunha diária do sofrimento de Neo, ainda assim nada revelara.
Lamar agia de formas que incomodavam, mas ele sempre relevou, por acreditar que a amizade entre os dois era sincera. Claro, não era seu confidente como Tyler, mas havia intimidade entre eles. Um aperto subiu do estômago à garganta. Não conseguia imaginar por quais motivos ele guardaria esse segredo consigo, depois de tudo que passaram. A porta pesada do heliporto rangeu contra o vento da noite, e por um momento ele hesitou.
Daniella estava sentada na borda, os cabelos castanhos dançando ao vento. A visão o atingiu em cheio: era exatamente assim que ela se sentava no heliporto do Orion Star em Isla del Canareos, quando eram adolescentes, as pernas balançando no vazio, desafiando a altura como desafiava tudo mais na vida.
O vento carregava o perfume dela até ele. Neo engoliu em seco, lutando contra a vontade quase irresistível de chamá-la pelo apelido que ela agora o impedia de falar. Em vez disso, se aproximou, suas solas ecoando no concreto.
— Se precisa tanto assim de uma reunião, senhor Alex — ela enfatizou o nome com um travo de ironia — por que não marcou com minha assistente?
Suas costas estavam retas, os ombros tensos sob a roupa do treino, a postura: armadura corporativa que Neo reconhecia desde o dia em que a reencontrara na sala do pai dela. Mas os dedos tamborilando contra o concreto traíam a inquietação.
— Não preciso de uma reunião para isso, senhorita — respondeu, aproximando-se com cuidado. As luzes da cidade tremeluziam abaixo deles como estrelas caídas, e o ruído distante do trânsito subia até ali como um murmúrio. — Vim apenas pedir desculpas.
Neo sentou-se ao seu lado, mantendo uma distância segura. Dali de cima, o mundo parecia alheio, do jeito que devia ser para Daniella agora, no alto de sua posição de poder. Mas havia algo vulnerável na forma como ela se permitia ficar ali, junto ao parapeito, com o ar de quem ainda era aquela menina que confiava nele para segurá-la se caísse.
— E implorar para que deixe minha equipe trabalhar — continuou, observando seu perfil contra o céu noturno. — Quero atender ao pedido de seu pai, mas não estou conseguindo ser eficiente. Já entendi seu recado.
Um sorriso enigmático brincou nos lábios dela.
— Entendeu mesmo, senhor Alexander? — sua voz oscilou na formalidade do tratamento, traindo o incômodo que algo nele lhe causava. — Às vezes penso que o senhor não entende nada do que eu falo.
O coração acelerou ao reparar em seu pescoço um pingente de tulipa que ele lhe dera de aniversário de dezessete anos. Os dedos formigaram contra a vontade de atravessar a distância entre as mãos deles, e quebrar de uma vez aquela farsa. Em vez disso, disse:
— Estou disposto a pagar pelo meu erro — as palavras soaram mais brandas do que ele esperava, quase como um afago. — Mas peço que deixe minha equipe e meu trabalho fora desse acerto.
Ela virou-se para ele. Então, um lampejo de reconhecimento cruzou o seu rosto, tão rápido que poderia ter sido imaginação. Sua respiração falhou por um instante.
— E como espera pagar pelo seu erro? — sua voz saiu mais baixa, mais íntima, revelando algo mais jovem e desprotegido em seus olhos.
— Estou disposto a fazer o que você desejar.
O ar se agitou ao redor deles, levando folhas da área externa das estufas.
Neo viu o momento exato em que as palavras a atingiram. As pupilas se dilataram, os lábios se entreabriram. Era a mesma expressão de sempre, de quando ele ainda cumpria cada desejo dela.
O rosto de Daniella se suavizou, a couraça derretendo aos poucos. Num movimento vindo direto do passado, a mão subiu em direção ao rosto de Neo. Ele prendeu a respiração, dividido entre inclinar-se contra o toque e o terror de ser reconhecido. Os dedos tremiam ao afastar a franja de seus olhos, um gesto familiar demais, doloroso demais.
O tempo pareceu congelar: ela ainda era Dani, ele ainda era Neo, e nada mais importava além daquele toque. A imagem se sobrepôs à lembrança do mesmo gesto, o sorriso dela voltado para o Neo da infância.
O toque correu pela pele feito descarga elétrica, e o choque passou pelos olhos dela. Então ela piscou, trazendo a sua mente de volta para a realidade. No susto, a máscara profissional voltou a cair no lugar. A mão recuou como se tivesse se queimado; ela virou-se para o outro lado, fechou os olhos com força e se amaldiçoou, as mãos presas ao parapeito ao lado das pernas para que não fossem mais capazes de cometer imprudências.
Não sabia o que estava acontecendo com a sua cabeça nos últimos dias. Perdia o fio dos próprios pensamentos sempre que olhava para ele.
Daniella se levantou abrupta, a Rainha de Gelo de volta ao posto, mas as mãos recusavam-se a ficar quietas quando as pressionou contra o corpo. Indecisa, parou. A cabeça caiu para trás, olhos fechados. O cabelo se entregava ao vento enquanto as lembranças de Neo invadiam sua mente outra vez, arrastando-a para longe da realidade, e a dor começava a latejar nas têmporas. Precisava resolver esse problema, isso estava começando a interferir no seu dia a dia.
— Desculpe. Eu… — sua voz vacilou. Ela virou-se de volta, com um misto de confusão e ansiedade.
Neo permaneceu imóvel, a pele ainda acesa onde ela tocara. O segredo do Dr. Orion pesava contra a necessidade de tomá-la nos braços e dizer seu próprio nome.
Ele a fitou.
— O senhor pode… — ela apertou os lábios, um gesto tão característico seu que Neo teve que desviar o olhar para não se entregar. — Desculpe.
Daniella respirou fundo, e a transformação começou a acontecer: os ombros se endireitaram, o queixo se ergueu. A fragilidade foi guardada nas mãos que ela entrelaçou às costas, os dedos gelados.
Concentre-se. Foco.
O murmúrio foi tão baixo que quase se perdeu no vento, mas chegou aos ouvidos de Neo.
— Vou deixar sua equipe em paz — sua voz cortou o espaço entre eles, mas com uma nota trêmula que ela não conseguiu esconder. Seus punhos estavam cerrados com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram. — Precisei investigar a diretoria a pedido do meu pai. Não podia dar tratamento diferenciado a ninguém para não levantar suspeitas. Prometo parar de atrapalhar — a confissão saía rápida, um desabafo que misturava justificativa e derrota. O peito dele se apertou.
Ela virou-se para partir. Neo lutou contra o impulso de impedi-la, de revelar tudo.
Após dois passos, ela parou. Manteve-se de costas, incapaz de enfrentar o que quer que visse em seu rosto, e disse:
— Não tive a intenção de ultrapassar os limites, senhor Alex — sua voz ainda vacilava. — Mas sinta-se à vontade para levar essa questão ao conselho de ética. Entendo que meu comportamento pode vir a ser fonte de estresse em seu relacionamento.
Ela mordeu os lábios e fechou os olhos: já falara demais.
— Assumirei as consequências da minha conduta inadequada — suas palavras eram formais, mas sua voz carregava um tom de perda que partiu o coração dele. — Me desculpe.
Daniella percorreu o restante do heliporto até a porta, cada passada firme e decidida, sem uma única vez olhar para trás. A porta bateu atrás dela com um estrondo metálico, final. Neo soltou o ar que prendera. Seu corpo inteiro sacudindo com o esforço de manter o controle. Acima dele, as estrelas pareciam zombar de sua situação — tão perto dela e ainda assim separados por um abismo de segredos e deveres.
O perfume dela ainda pairava no ar, se perdendo no vento da noite. As luzes da cidade continuavam a piscar abaixo, indiferentes ao drama que se desenrolara nas alturas.
O vento soprou mais forte, carregando consigo o eco de risos distantes — memórias de dois adolescentes que um dia prometeram nunca guardar segredos um do outro. Neo se permitiu um último momento de vulnerabilidade.
Fechou os olhos, bateu a mão na testa e deixou-se cair, deitado no chão.
🔓 Belos mortais, novo arquivo liberado.
Alvo feminino escolheu o heliporto para fugir, alvo masculino escolheu o mesmo heliporto para confessar a culpa.
Registrei:
▪️ um pingente de tulipa que sobreviveu a mais reorganizações de guarda-roupa do que qualquer segredo de estado
▪️ uma mão que subiu até o rosto dele antes de a cabeça autorizar a operação
▪️ uma ordem de “concentre-se” sussurrada pela própria dona, que ignorou o próprio comando em menos de um minuto
▪️ um pedido de desculpas que confessou tudo, menos a única coisa que precisava ser confessada
🔒 Porque ele veio se desculpar pelo erro. E ela quase reconheceu o rosto certo.
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