Capítulo 22 - Procedimentos Para Humilhar um Subordinado
A conversa dos velhos amigos se manteve até Anna bater na porta e interromper.
— Doutor, você tem uma reunião com a Diretoria de Desenvolvimento em dez minutos. Marcada de última hora. Todos já estão lá.
Neo ergueu uma sobrancelha.
— Quem convocou?
— A Senhorita Daniella. — Anna apertou as mãos contra o peito. — Metas iniciais da nova gestão.
Neo soltou o ar pelos dentes, despediu-se de Lamar e acelerou o seu passo pelo corredor com Anna logo atrás.
A sala de reuniões já funcionava quando ele entrou. Hologramas em suspensão projetavam gráficos e colunas de projeção financeira acima da mesa. Os chefes de setores ocupavam as cadeiras com a rigidez de quem chegou cedo para parecer neutro. Brina estava ao lado de Daniella, dedos se movendo em sinais discretos enquanto anotava. Daniella, na cabeceira, o blazer fechado até o último botão, não aparentava bom humor.
Mas, pera! Quando foi que ele a viu de bom humor desde que chegou?
Assim que Neo se acomodou, ela cruzou as pernas e inclinou o tronco levemente sobre a mesa.
— Vamos precisar de energia para continuar isso, não é? — O sorriso chegou antes da fala. — Alex, querido, você se importa de pegar um café para todos? Eu gosto do seu toque pessoal para essas coisas.
Alguns trocaram olhares. Anna piscou, abriu a boca.
— Eu posso solicitar que os robôs da copa tragam pelo app—
— Não será necessário, Anna. — Daniella não tirou os olhos de Neo. — Ele já está acostumado. Sempre pegou café para o meu pai. No outro dia, adorei o que escolheu. Canela? Você tem bom gosto para isso. Deveríamos repetir?
Ela esperou.
Neo sustentou o olhar.
— Sempre peguei. — Fez uma pausa curta. — Mesmo que ele nunca tivesse pedido. Depois da última vez que passou mal, fiquei preocupado com a alimentação do seu pai. Ele adquiriu um estômago sensível por conta de todas as preocupações. Você sabe… do trabalho e familiares.
Um vinco se formou no canto dos lábios dela. E ele continuou:
— Afinal, eu era a única família que ele tinha na cidade. Me empenhei em cuidar dele da forma que a filha que morava longe não podia.
Daniella não respondeu de imediato. Os lábios pressionaram por menos de um segundo antes de ela se voltar de novo para a projeção holográfica à sua frente.
— Seremos todos eternamente gratos a sua dedicação. — falou sem se voltar para ele, dando por encerrado o assunto.
A cada reunião, ela escolhia o palco certo para o próximo golpe. Não aguentava mais aquele clima de guerra. Ela batia; ele nunca revidava.
Anotou os pedidos sem pressa e saiu. No elevador, consternado, pensava em como queria pegá-la pela mão, como fazia antigamente. Levá-la ao terraço para ver o pôr do sol, conversar sobre o que incomodava um ao outro, resolver tudo como faziam antes.
O elevador descia e ele se sentia do tamanho do próprio reflexo na porta de metal, pequeno demais para alcançar quem ela havia se tornado. Sem reparar que havia alguém no elevador, encostou a cabeça na parede, batendo de leve, e se amaldiçoou por não saber como recuperar a relação que tiveram um dia.
— Alex? É você mesmo? — a jovem dentro do elevador colocou a mão em seu ombro. — Você está bem?
Neo virou-se para ela, o olhar perdido até encontrar os olhos da moça da cafeteria de Isla del Canareos.
— Jasmin? — perguntou confuso. Ela sorriu largo, satisfeita por ele, afinal, lembrar o nome dela.
— Você lembra o meu nome? — respondeu fascinada.
Só lembrava do nome da jovem porque Daniella pegara o copo com o número do telefone dela, dias atrás.
— Claro. O que faz aqui?
— Estou de férias. Lembra? Minha mãe trabalha para o Orion Star e ganhou essa viagem de férias com direito a um acompanhante. Vim com ela. É a primeira vez que eu me hospedo em um hotel desse nível sem precisar pagar.
— Ahh… Que ótimo. Que coincidência que você tenha vindo para Londres.
— Sim. Não fazia ideia que o senhor estaria aqui. Mas, foi uma coincidência boa, não foi?
— Sim, claro. Certamente.
— Está tudo bem?
— Está sim.
— Tem certeza?
Neo expirou exausto.
— Não. Minha chefe quer que eu prepare os cafés na copa para todos de uma reunião e eu não faço ideia de como misturar um milhão de configurações de sabores. Tudo o que eu faço é comprar o café do meu chefe. Ela queria causar uma situação constrangedora por conta da minha insubordinação. Acho que sente prazer em me ver falhando.
— É por isso que você estava batendo com a cabeça na parede?
— Não só por isso. Mas, por isso também.
— Eu posso te ajudar? Podemos fazer juntos. Se o desejo dela é te ver falhando, posso garantir que você não irá falhar. O que acha?
— É muito gentil da sua parte. Mas, não quero atrapalhar suas férias. Você deve estar com passeios marcados e sua mãe te esperando.
— Não. Minha mãe está descansando e eu estou voltando de um passeio. Na verdade, adoraria a sua companhia.
— Então nesse caso, vou aceitar a sua ajuda.
A copa do andar administrativo do Orion Star ocupava um canto reservado ao lado da sala com baias e muita gente trabalhando em seus cubículos, tamanho suficiente para atender às poucas dezenas de executivos que circulavam por ali durante o dia. Paredes de vidro reativo ajustavam a opacidade conforme o sol e a iluminação do ambiente, e no centro, uma bancada de metal escovado abrigava três máquinas de extração molecular, cada uma conectada a cápsulas suspensas com grãos trazidos por voo orbital direto das fazendas andinas naquela mesma manhã. O padrão daquele café custava mais que o salário mensal de Anna, mas ninguém no vigésimo andar parecia notar.
Jasmin parou diante do painel de controle e apertou os lábios ao ver os ícones girando em holograma sobre a bancada. Cada máquina exibia um menu tridimensional com dezenas de combinações, intensidade, temperatura, perfil de torra sintetizada, tudo ajustável por gestos no ar. Do lado de fora, Londres se estendia sob um céu carregado de drones de entrega, e a luz que entrava pela janela em painel único desenhava listras douradas sobre o piso polido.
Passou os olhos pelo menu flutuando sobre a bancada: seis perfis de torra, três níveis de doçura sintetizada e uma lista quase infinita de combinações de leite vegetal.
— Vamos lá, me passa a lista dos pedidos que eu vou cadastrar as misturas.
Neo assentiu, esticou o braço diante da bancada para mostrar a ela as anotações no relógio, e observou os ícones sem tocar em nenhum deles. A cada gesto perdido de Jasmin no ar, um som metálico avisava erro de comando, e um pequeno robô de manutenção, do tamanho de uma xícara, aproximava-se para verificar se havia vazamento. Ele afastou o robô com a mão e resmungou baixo, mais preocupado com o tempo que passava do que com a estética do lugar.
Com um cotovelo gentil, Jasmin afastou Neo e assumiu o centro do painel, os dedos deslizando pelos ícones com a mesma destreza que usava para preparar os pedidos na cafeteria de Isla. Configurou a primeira xícara em segundos, escolhendo torra escura para a primeira solicitação e uma dose dupla para o seguinte.
Uma mulher bocejava no lado de fora, espiando os dois com discrição.
— Amiga sua? — Jasmin perguntou.
— Não faço ideia de quem seja, mas já a vi no andar da diretoria de desenvolvimento. Deve ter vindo com a equipe da minha chefe da filial de Wuhan.
— Ela está de olho em você, então?
— Não vejo porque ela faria isso. Deve estar esperando alguém.
— Terminando aqui.
— Você presta atenção em todo mundo assim? — perguntou Neo, observando-a trabalhar.
— Presto atenção em quem presta atenção em quem me interessa — respondeu ela, sem desgrudar do painel.
A segunda máquina engasgou no meio do processo e expeliu um jato de espuma que subiu além da borda do copo, respingando no antebraço de Jasmin. Ela deu um passo para trás, rindo, e sacudiu a manga molhada no ar, enquanto Neo pegava um pano da bancada e o estendia para ela, tentando não rir junto e falhando.
— Parece que ela é um pouco vingativa — disse ele, apontando para a máquina.
— Então agora temos que tomar cuidado com as máquinas do Orion Star também? — Jasmin secou o braço e devolveu o pano. — Você tem talento para acumular adversários, posso perceber.
Com as seis xícaras alinhadas, deu um passo atrás, mãos na cintura, queixo erguido diante do próprio trabalho. Neo observou o gesto dela sem dizer nada. Os ombros baixaram alguns centímetros, a primeira folga desde que saíra da sala de reuniões.
Enquanto esperavam a última xícara terminar, Neo apoiou-se na bancada e contou o que aconteceu na reunião: como Daniella o mandou buscar os cafés. Contou também sobre os anos cuidando do pai dela, sobre a amizade de infância e sobre como ela estava diferente.
— Ela sabe que você guarda essa dor? — Jasmin cruzou os braços, encostada na bancada ao lado dele.
— Dor? — Neo passou a mão pelo rosto. — Eu não chamaria de dor. Ela nem lembra de mim. Está determinada a me mostrar o meu lugar.
— Então devolva os ataques. — Jasmin inclinou a cabeça na direção da última xícara, ainda fumegante sob o bico da máquina. — Ninguém vai saber. Um cuspe não aparece em nenhum exame de sangue.
Neo encarou a xícara por mais tempo do que pretendia, cotovelos apoiados na bancada fria, o vapor subindo entre eles dois. A imagem de Daniella bebendo aquele café sem saber o conteúdo lhe pareceu satisfatória por um instante.
— Não posso — falou por fim, afastando a xícara alguns centímetros. — Se ela descobrir, vai ser motivo para outra reunião de emergência, para cortar a minha cabeça.
— Covarde — provocou Jasmin, sorrindo. — Mas covarde com bom senso, eu admito.
Neo organizou a bandeja com as sete xícaras dispostas em fileira, cada uma identificada por um pequeno cartão luminoso que indicava o destinatário. Ele conferiu os nomes duas vezes antes de erguer a bandeja, e Jasmin abriu a porta automática da copa para ele passar.
— Obrigado pela ajuda — disse ele, parando no corredor. — Você salvou minha manhã.
— Fico feliz — respondeu Jasmin, as mãos nos bolsos do casaco leve. — Se sobrar tempo para fazer alguma coisa depois do seu trabalho, me chama. — Ela estendeu o braço para parear o seu relógio com o dele. — Prometo não incentivar mais nenhum crime contra bebidas quentes.
— Promete nada — Neo esticou os braços, recebendo o contato que ela enviou.
Eles caminharam pelo corredor no andar da reunião. Neo contava os pontos turísticos que ela precisava visitar. A bandeja seguia sobre o robô transportador, à frente dos dois.
Cada porta que passava devolvia o reflexo dos dois. Jasmin não conseguia mais disfarçar a sua alegria. Quando a porta da sala se abriu diante deles, Neo ajustou os ombros, se despediu dela e compôs a expressão neutra que usava havia anos diante de situações difíceis. Entrou para distribuir o café como se nada daquilo lhe custasse.
A equipe de Inteligência Estratégica e Inovação palestrava, mostrando a todos os dados de evolução do Índice de Experiência Integrada dos Hóspedes. De rabo de olho, Daniella viu uma mulher acompanhando-o atrás dos robôs do corredor. Ele entrou; Jasmin ficou do lado de fora, observando pelo vidro.
Alex começou a distribuir os cafés que havia preparado. Brina se aproximou do ouvido de Daniella sem que mais ninguém pudesse ouvir.
— Malena não precisou ajudá-lo. Disse que, quando chegou, ele estava sendo auxiliado pela garota da porta.
Daniella acenou discretamente pela informação e para que ela se afastasse. Neo se aproximava, servindo as duas últimas pessoas antes dela. Quando ia colocar o café escolhido por ela à sua frente, o comunicador em seu pulso piscou.
Daniella não conseguiu evitar observar o nome que apareceu na mensagem “Jasmin”. Logo após colocar o copo na mesa, ele cancelou a notificação e olhou para a porta.
Os olhos de Daniella atravessaram a porta até a mulher parada do outro lado do vidro, apontando para o relógio, dando um tchauzinho para Alex.
Ela ergueu o café. Levou ao lábio. Repousou de volta na mesa sem beber.
— Frio.
Ninguém se mexeu. Neo se inclinou na sua direção.
— Peço desculpas. — Os olhos confusos, tinha certeza que ainda saia vapor daquela xícara. — Posso buscar outro para a senhorita. Ou prefere que eu instrua os robôs da copa a aquecerem este?
— Sente-se no seu lugar, senhor Alex. A sua gerência é a próxima.
Belos mortais, novo arquivo liberado.
Neo foi buscar café como mandaram. Não voltou sozinho.
Registrei:
▪️ um homem que desceu para o subsolo da sua própria humilhação e encontrou lá alguém que se importou com ele sem pedir nada em troca
▪️ uma xícara de café fumegante declarada fria — e ninguém na sala com coragem de discordar
▪️ uma barista que presta atenção em quem presta atenção em quem lhe interessa, e identificou a observadora do corredor antes que ele percebesse que havia uma
▪️ uma notificação cancelada depressa demais, e um café repousado na mesa sem ser bebido
🔒 Porque mesmo aceitando servir o café, não conseguiu evitar que ela visse o nome no relógio.
⭐ Deixe a sua estrelinha nesse capítulo. Quanto mais agentes tiverem acesso a este dossiê, mais longe a operação chega.
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