O Síndico do Sétimo O Apartamento 704 · Capítulo 2 de 8
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O Síndico do Sétimo

Tomás tirou o papel debaixo da porta do armário antes que Helena pudesse tocá-lo. O gesto foi rápido, treinado, e por isso mesmo imperdoável. Ela segurou o pulso dele com força suficiente para deixar claro que não viajara até o São Teodoro para assistir homem bonito recolher prova igual mágico triste. A voz feminina calou dentro do móvel. O apartamento pareceu encolher em torno dos dois, cheio de poeira, móveis cobertos e retratos virados, enquanto o bilhete tremia entre os dedos dele. Tomás disse que aquela letra podia ser imitação. Helena respondeu que imitação também precisava de fonte, e que só três pessoas no mundo sabiam que Lívia escrevia o L daquele jeito quando queria parecer misteriosa. Uma dessas pessoas estava desaparecida, outra estava morta havia quatro anos, e a terceira tinha acabado de ser trancada com um síndico que mentia mal.

Ele soltou o papel. Helena leu de novo, devagar, procurando defeito, hesitação, marca que denunciasse fraude. Ele ainda mora no 704. A frase não trazia data, pedido de socorro, explicação ou qualquer gentileza com quem passara seis anos desmontando a própria vida em busca de uma pista. Helena abriu a caixa de sapato sobre a mesa. Dentro havia fotografias antigas do prédio, uma pulseira de metal que pertencera a Lívia, recibos de condomínio de anos diferentes e uma chave menor, de latão escuro, presa a uma etiqueta com o número 13. Tomás ficou imóvel ao ver a pulseira. O controle dele falhou por um segundo, breve, quase invisível, e isso interessou Helena de um jeito perigoso. Ela perguntou onde ele encontrara a bolsa vermelha da irmã. Tomás respondeu que estava no poço do elevador. Helena lembrou cada palavra do depoimento e disse que ele acabara de usar o mesmo tom de seis anos atrás.

Tomás abriu a janela da sala, talvez para respirar, talvez para ouvir se o corredor continuava quieto. Lá embaixo, a cidade seguia normal demais, com ônibus, buzina, cachorro, uma barraca de milho e pessoas que jamais entenderiam o absurdo de uma mulher receber bilhete da irmã pela fresta de um armário. Ele disse que era investigador na época, não síndico, e que o caso de Lívia fora encerrado depressa por pressão da construtora, da família proprietária e de gente que tinha dinheiro para transformar sumiço em escolha pessoal. Helena conhecia essa versão. O delegado falara em fuga, crise emocional, namorado desconhecido, mulher adulta. Tudo muito limpo, tudo muito conveniente. Tomás acrescentou que pediu afastamento depois de encontrar o diário de manutenção do elevador adulterado. Helena perguntou por que ele ficara no prédio. Ele olhou para o armário fechado e disse que alguém precisava observar quando o 704 abrisse outra vez.

A resposta seria heroica se não viesse seis anos atrasada. Helena guardou a pulseira no bolso e sentiu o metal frio contra a perna. Perguntou se ele sabia quem era o homem citado no bilhete. Tomás demorou a responder. No corredor, o elevador se moveu sozinho, subindo ou descendo sem chamado visível. O som arranhado dos cabos fez Helena pensar em garganta seca. Tomás disse que o São Teodoro tinha pertencido à família Salles, construtores ricos, discretos, religiosos nos jornais e brutais nos contratos. O filho mais velho, Augusto, morara no 704 antes de o prédio trocar a numeração. Era jovem, bonito em fotografias antigas, herdeiro de metade do quarteirão, e fora declarado morto em 1989 depois de cair da cobertura. O corpo, segundo Tomás, nunca apareceu no laudo que ele conseguira acessar. Havia caixão fechado, missa cara e herança liberada com pressa.

Helena riu sem humor. Disse que fantasma rico era uma novidade desagradável, porque até morto parecia manter privilégio imobiliário. Tomás não riu. Aproximou-se da parede onde as batidas tinham começado e pressionou a palma contra a rachadura. A tinta descascada soltou um pó branco. Do outro lado, alguma coisa deslizou devagar, pesada demais para rato, intencional demais para cano. Helena quis perguntar se Augusto matara Lívia, porém a pergunta pareceu pequena diante da sala inteira aguardando. Tomás explicou que não sabia se Augusto era homem, memória, truque do prédio ou nome usado por alguém vivo. Sabia apenas que mulheres ligadas ao 704 desapareciam em intervalos irregulares, sempre depois de receber chave errada, aluguel barato ou convite para cuidar de inventário. Helena olhou para o envelope pardo no chão e sentiu ódio do próprio acerto.

O armário abriu um dedo. Não pela maçaneta, que continuava travada, e sim por uma fresta nova na madeira, fina, escura, impossível. Um cheiro de perfume de rosas velhas invadiu a sala. Helena reconheceu o perfume da avó, e isso a irritou ainda mais, porque o apartamento parecia vasculhar lembranças para escolher arma. Tomás segurou seu braço antes que ela chegasse perto. A mão dele era firme, quente, e o contato teria outro efeito em outra noite. Naquela, só aumentou a raiva. Ela mandou que ele soltasse. Ele soltou. O respeito imediato perturbou Helena quase tanto quanto a fresta. De dentro do armário, uma chave caiu no chão, igual à menor que estava na caixa, com a mesma etiqueta número 13. Depois veio uma fotografia, amarelada e dobrada ao meio. Nela, Lívia aparecia na sala do 704, usando a pulseira de metal e sorrindo para alguém fora do quadro.

Helena pegou a fotografia e procurou a data no verso. Havia uma anotação em caneta azul. Décima terceira porta, depois do sino. Tomás leu por cima do ombro dela, perto o suficiente para que Helena percebesse o cansaço no cheiro da camisa e uma cicatriz fina abaixo do queixo. Ela se afastou meio passo, não por medo dele, e sim por medo da própria atenção escolhendo detalhes errados no meio da catástrofe. Tomás disse que o prédio tinha uma capela desativada no subsolo, construída pela família Salles para moradores antigos, embora ninguém a usasse desde os anos noventa. O sino fora removido. Helena ergueu as duas chaves pequenas. Perguntou por que a irmã deixaria pista para capela se desaparecera no elevador. Tomás respondeu que talvez Lívia nunca tivesse saído do prédio pelo caminho que todos procuraram.

O elevador parou no sétimo andar com um aviso metálico. A porta do apartamento, trancada por Tomás, abriu sozinha para o corredor. Seu Amâncio estava do lado de fora, pálido, segurando o livro de entrada contra o peito. Disse que a senhora do 302 ouvira barulho de missa no subsolo. Disse também que o nome de Helena desaparecera da página onde ela assinara minutos antes. Tomás passou por ele e olhou o corredor vazio. Helena ficou na soleira do 704, segurando a foto de Lívia numa mão e as duas chaves pequenas na outra. Do poço do elevador veio uma badalada, profunda, antiga, totalmente impossível. A primeira porta do corredor, que antes não existia, apareceu entre o apartamento e a escada, estreita e pintada de preto. Na madeira, um número dourado brilhava fraco. Treze.

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