A Herdeira Salles
Beatriz Salles desceu o último degrau apoiada na bengala de prata, vestida de luto completo, sem uma gota de suor no rosto, embora a capela estivesse úmida, quente e tomada por água escura. Seu Amâncio se afastou dela com medo antigo, medo de empregado que já viu patrão sorrir antes de destruir alguém. Helena guardou a chave da cobertura no bolso e manteve a fotografia de Lívia na mão, porque precisava de algo real entre os dedos. Tomás ficou de pé com dificuldade, a perna ferida, o corpo inclinado para protegê-la mesmo depois de ter perdido qualquer direito confortável a esse gesto. Beatriz olhou para os dois e depois para o retrato de Augusto. Chamou-o de meu irmão com uma naturalidade doméstica, igual quem comentava a presença de parente inconveniente no jantar.
Helena perguntou se Augusto estava morto. Beatriz sorriu. Disse que morte era palavra administrativa, útil para inventário, missa e divisão de imóveis. Augusto, segundo ela, fora preservado pela casa, e a casa recompensara a família durante décadas. O São Teodoro nunca perdera valor, nunca ficara vazio por tempo suficiente para ruir, nunca aceitara venda que contrariasse os Salles. Em troca, o prédio pedia companhia feminina em intervalos que a família aprendera a administrar. Tomás chamou aquilo de assassinato. Beatriz ergueu a bengala e bateu a ponta no chão molhado. O sino calou. Ela disse que assassinato era ato grosseiro, enquanto o acordo do 704 era continuidade patrimonial. Helena sentiu a frase entrar nos ossos com nojo. Alguns ricos nem precisavam de fantasma para serem monstruosos, apenas de vocabulário bem passado.
Beatriz conhecia Lívia. Não negou. Contou que a moça aparecera no prédio fazendo perguntas sobre notas fiscais, reformas falsas, funcionários antigos e uma capela que não constava no memorial descritivo. Era esperta, insistente, bonita demais para saber recuar. Augusto gostara dela. A palavra gostara fez Tomás avançar um passo, mas Helena segurou sua manga antes que ele entregasse a Beatriz o prazer de vê-lo perder controle. O contato entre os dois foi breve, prático, e ainda assim mudou alguma coisa no olhar dele. Beatriz percebeu. Disse que os Duarte tinham talento para escolher homem errado no pior corredor possível. Helena respondeu que pelo menos não mantinha irmão morto em regime de condomínio. Seu Amâncio tossiu um som que quase foi riso e quase virou oração.
A herdeira contou o resto sem pressa. Lívia não morrera naquela noite, não de imediato. Fora levada pela porta treze depois de encontrar o livro de contas da família, um caderno onde cada desaparecimento aparecia como despesa de manutenção extraordinária. Tomás a seguira tarde demais. Encontrara a bolsa no poço do elevador, vira a porta fechar, ouvira a voz dela pedindo que não chamasse reforço porque qualquer pessoa a mais alimentaria Augusto. Helena olhou para Tomás. Ele não se defendeu. Beatriz disse que ele, em vez de aceitar a perda, ficara no prédio, virou síndico, incomodou inquilinos, sabotou contratos, impediu novas escolhas do 704 quando pôde. Pequenas rebeldias de homem culpado, segundo ela. Tomás disse que pequenas rebeldias tinham mantido cinco mulheres vivas. A capela respondeu com um rangido, irritada com a estatística.
Helena pediu o caderno. Beatriz riu. O som era baixo, seco, treinado em salas onde pessoas pobres eram chamadas de problema. Disse que o caderno estava na cobertura, junto com documentos que provariam tudo e não serviriam para nada, porque cartório não registrava fome de prédio e juiz nenhum intimaria retrato. Helena pensou em extratos, fotos, gravações, recibos, nomes, horários. Pensou também na voz de Lívia dentro da parede e no corredor que chamava com a forma dela. Beatriz ofereceu uma troca. Helena entraria no 704 ao amanhecer, sozinha, carregando a chave da cobertura. Augusto a receberia no lugar da irmã, e Lívia seria devolvida ao corredor por tempo suficiente para Tomás vê-la uma última vez. A proposta tinha crueldade de família que fazia contrato de Natal.
Tomás recusou antes que Helena respirasse. Disse que Beatriz teria de passar por ele. A herdeira avaliou a perna ferida, a camisa manchada, o rosto gasto, e pareceu sinceramente entretida. Perguntou se Helena sabia que Tomás pedira Lívia em casamento três dias antes do desaparecimento. A informação acertou a capela com força maior que qualquer banco arremessado. Helena encarou Tomás. Ele não desviou. Disse que sim, pedira, e que Lívia rira por quase um minuto antes de dizer talvez, porque gostava de deixar homem decente sofrendo quando homem decente aparecia raro. A lembrança saiu dele com tanta verdade que Helena odiou Beatriz por usá-la e odiou Tomás por guardá-la. A imagem de Lívia no corredor tremeu, e por um instante pareceu chorar sem som.
Beatriz aproveitou a fraqueza. Bateu a bengala três vezes no chão. As portinholas dos nichos se abriram, revelando dentro de cada uma um pedaço de vida interrompida, cabelo preso por fita, carteira, fotografia, carta, medalha, aliança, chaveiro infantil. A capela se encheu de murmúrios femininos, vozes tentando falar ao mesmo tempo. Helena quase caiu, tomada por nomes que não conhecia e dores que não lhe pertenciam. Tomás a segurou pelos ombros, firme, sem prendê-la. Disse para ela escolher uma voz só. Helena escolheu Lívia. Procurou no barulho a ironia da irmã, a impaciência, o modo de puxar o R quando mentia. Achou uma frase baixa, vinda do nicho treze. Não aceite troca. Suba. O caderno abre a cobertura. Augusto não suporta recibo.
Helena abriu os olhos. Beatriz também ouvira. A herdeira perdeu a serenidade pela primeira vez. Tomás viu a mudança e entendeu junto com Helena. A cobertura guardava prova bastante concreta para enfraquecer o acordo, talvez porque até o sobrenatural dependesse de alguém pagando reforma, apagando arquivo, comprando silêncio. Helena puxou Tomás pela mão e correu para a escada antes que a capela decidisse outra regra. Seu Amâncio já empurrava a porta treze com o ombro, chorando e xingando baixo. Atrás deles, Beatriz ordenou que Augusto fechasse o prédio. O retrato sorriu. A escada começou a subir sozinha, degrau por degrau, tentando devolvê-los à capela. Helena apertou a chave da cobertura no bolso e gritou para Tomás que, se ele tivesse outra mentira guardada, aquela era uma hora péssima para economizar verdade.