O Homem no Retrato O Apartamento 704 · Capítulo 4 de 8
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O Homem no Retrato

A voz de Lívia saiu do corredor comprido com nitidez suficiente para ferir. Ele trouxe Augusto até ela. Helena não olhou para Tomás de imediato. Olhou para a irmã, ou para aquilo que usava a irmã com precisão cruel, parada no fim da passagem impossível com a bolsa vermelha no ombro e o rosto igual ao das fotografias que ela escondia de si mesma. Tomás deu um passo à frente, pálido, e disse o nome de Lívia com uma intimidade que confirmou tudo o que ele acabara de confessar. Helena sentiu a raiva encontrar lugar certo. Não era só mentira de investigação. Era cama omitida, ligação apagada, um homem vivo segurando parte da irmã em segredo enquanto a família inteira aprendia a falar dela no passado. O sino pequeno tocou de novo, e todas as portinholas dos nichos vibraram com satisfação indecente.

Lívia sorriu sem alegria. Disse que Tomás achou que podia investigar Augusto usando amor como disfarce, que pediu encontros no prédio, que fez perguntas demais ao zelador errado, que prometeu proteção e chegou tarde. Tomás não negou. Essa foi a parte que quase quebrou Helena. Ele podia ter inventado uma defesa, explicado agenda, autoridade, risco, juventude, qualquer dessas moedas pobres que homens usam quando a culpa fica cara. Em vez disso, ficou parado ao lado dela, recebendo cada palavra com o rosto aberto demais. Helena perguntou se era verdade. Tomás respondeu que sim, em parte, e que Lívia nunca fora isca para ele. A frase irritou o corredor. A luz atrás da irmã oscilou, e a imagem de Lívia inclinou a cabeça com uma delicadeza errada. Quando falou de novo, a voz dela ganhou uma doçura que Helena conhecia, porém a cadência pertencia a outra pessoa.

O corredor mostrou fotografias nas paredes, surgindo uma a uma onde antes havia azulejo úmido. Mulheres diante do elevador, mulheres segurando envelopes, mulheres entrando no 704, mulheres olhando para alguém fora da imagem. No centro, apareceu um retrato grande de Augusto Salles. Era bonito, sim, de um jeito que explicava crimes cometidos por gente disposta a confundir beleza com destino. Tinha olhos claros, cabelo escuro penteado para trás, terno impecável e a expressão de quem nunca recebera recusa sem chamar aquilo de ofensa. Helena reconheceu o tipo antes de reconhecer a assombração. Já vira homens assim em inventários de família rica, donos de cartas, prédios, sobrenomes e versões oficiais. O retrato sorriu. Não moveu a boca. Mesmo assim, a sala inteira entendeu que havia sido notada.

Tomás puxou Helena para trás quando a água escura da pia avançou pelo chão da capela. Ela resistiu por puro orgulho, mas o frio nos sapatos subiu depressa e calou a discussão. A imagem de Lívia continuava no fim do corredor, agora mais distante, chamando Helena com a mão. Venha sem ele. A frase era quase perfeita. Lívia teria dito algo parecido, talvez com palavrão, talvez com impaciência de irmã mais nova cansada de tutela. Helena quis obedecer. O desejo foi tão forte que deu vergonha. Tomás percebeu e ficou entre ela e a passagem, agora sem tocar. Disse que Augusto usava o que cada pessoa devia a alguém. Usava culpa nele, saudade nela, medo em seu Amâncio, vaidade nos Salles. Helena perguntou por que deveria confiar na explicação de um homem que omitira a própria relação com a desaparecida. Tomás respondeu que ela não deveria confiar, deveria testar.

Testar era uma palavra que Helena entendia. Ela tirou da pasta uma cópia reduzida do último extrato bancário de Lívia, plastificada depois de tantas consultas. Havia um depósito pequeno feito dois dias antes do desaparecimento, vindo de uma conta encerrada da família Salles. Helena mostrara aquilo à polícia, ao banco, a um advogado que cobrara caro para dizer talvez. Estendeu o papel na direção da imagem da irmã e perguntou quem autorizara o pagamento. A figura de Lívia parou. O sorriso falhou. O retrato de Augusto pareceu escurecer nas bordas. Tomás olhou para Helena com admiração involuntária, rápido demais para virar elogio. A resposta veio pelo sino, não pela boca da irmã. Três badaladas, depois uma voz masculina baixa, educada, saindo de todos os nichos. O dinheiro foi convite, senhorita Duarte. Sua irmã aceitou entrar.

Helena sentiu vontade de rir, porque morto rico também falava em convite quando queria dizer armadilha. Perguntou quanto custava recusar. O retrato respondeu que algumas mulheres eram curiosas demais para recusar, outras vaidosas, outras apaixonadas, outras desesperadas por justiça. Cada uma trazia ao 704 uma fome própria, e o prédio apenas oferecia porta. Tomás avançou na direção do retrato, dizendo que Augusto não oferecia nada, apenas prendia. O corredor reagiu. Um banco da capela se moveu sozinho e acertou a perna dele. Tomás caiu de joelho, sem gritar. Helena correu até ele antes de pensar, e o gesto irritou o retrato com força visível. As velas apagadas acenderam ao redor do altar. A imagem de Lívia virou o rosto para Helena e disse que ele sempre fazia isso, fingia dor para receber perdão.

Helena se abaixou ao lado de Tomás e viu sangue na canela dele. Real, quente, nada fantasmagórico. Ele pediu que ela não entrasse no corredor enquanto estivesse ouvindo a irmã com voz mansa demais. Helena respondeu que ainda decidia quando fazia besteira. A frase saiu baixa, quase íntima, e por um instante os dois ficaram próximos demais para a capela em volta. O rosto dele carregava culpa, medo e uma vontade física de protegê-la que ela não tinha pedido. Ela queria odiá-lo sem interrupção, mas a vida insistia em ser mal-educada. O retrato de Augusto se inclinou dentro da moldura. Disse que Helena parecia Lívia no início, antes de a irmã descobrir que Tomás preferia salvar a própria carreira. Tomás fechou os olhos. Helena levantou. Dessa vez, a raiva não era cega. Era útil.

Ela pegou o retrato menor de Lívia, aquele que caíra do armário, e colocou diante do retrato de Augusto. Disse que aceitaria entrar no corredor se ele respondesse uma pergunta simples. Onde estava o corpo de Lívia. A capela ficou parada. Até a água pareceu esperar. Augusto riu, e o som passou pelas portinholas igual unha em metal. Disse que corpo era palavra vulgar para uma mulher que ainda tinha função. No fim do corredor, a imagem de Lívia abriu a bolsa vermelha e tirou de dentro uma chave prateada. Helena reconheceu a etiqueta pendurada nela. Cobertura. Tomás tentou se levantar, mancando. Seu Amâncio gritou da escada que alguém vinha descendo. A porta treze bateu atrás deles, fechando a saída. No alto dos degraus, uma mulher idosa apareceu com vestido de luto, bengala de prata e olhos iguais aos do retrato. Beatriz Salles, herdeira do prédio, olhou para Helena e disse que o 704 finalmente escolhera outra Duarte.

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