A Noite do 704
Helena leu a página de Lívia até a cobertura perder o luxo. O tapete claro ficou manchado por água escura, o retrato de Augusto rachou de alto a baixo, e Beatriz Salles avançou com a bengala erguida sem disfarçar a violência que sempre estivera por baixo do luto. Tomás a interceptou, mancando, e recebeu a pancada no ombro. Helena ouviu o estalo, viu o rosto dele empalidecer, e guardou a reação para depois, porque a janela continuava mostrando Lívia presa dentro do 704. A irmã batia na parede pelo reflexo, não com desespero espalhafatoso, e sim com insistência de quem ainda contava batidas para ser reconhecida. Três curtas, pausa, duas longas. Helena respondeu batendo os nós dos dedos no vidro. O retrato de Augusto gritou sem boca. O painel de madeira que escondia o elevador voltou a aparecer, tremendo.
Tomás abriu caminho com o corpo, e Helena passou carregando caderno, pendrive e a raiva inteira da família Duarte. Beatriz agarrou seu casaco por trás. Helena girou e bateu a pasta preta contra a mão da herdeira, sem elegância, com a eficiência bruta de quem já cansara de documento educado. A velha cambaleou. Tomás segurou a porta do elevador antes que ela fechasse. Eles entraram juntos. A cobertura ficou do lado de fora, aos berros, com Augusto acusando a irmã de ter estragado tudo por vaidade. Pela primeira vez, Beatriz pareceu ter medo dele. Helena percebeu e entendeu que o acordo dos Salles não era aliança. Era chantagem familiar com mortos, dinheiro e mulheres desaparecidas pagando a conta.
O elevador desceu sem tocar nos andares. O painel mostrava números que não existiam, oito, sete, treze, cobertura, sete de novo, depois 704 escrito em vermelho. Tomás respirava curto. Helena quis perguntar se o ombro estava quebrado, mas a pergunta ficaria pequena diante do painel enlouquecido. Ele disse que, quando Lívia sumiu, ouvira a mesma descida, trancado do lado de fora, com a chave mestra inútil na mão. Disse que a voz dela veio do poço, pedindo que ele não saltasse, porque Augusto precisava de culpa viva do lado de fora. Helena olhou para ele, finalmente compreendendo a engenharia da punição. Tomás não ficara no prédio só para vigiar. Ficara porque uma parte dele acreditava que abandonar o São Teodoro seria abandonar Lívia pela segunda vez. Ela não o perdoou ali. Perdão era trabalho maior. Só pegou a mão boa dele e disse que então daquela vez ele entraria.
A porta do elevador abriu dentro do 704, não no corredor. A sala estava diferente. Os lençóis tinham desaparecido dos móveis, retratos virados mostravam rostos de mulheres desconhecidas, e a mesa central estava posta para jantar com três lugares. No prato do meio havia a pulseira de Lívia. A parede perto do rodapé respirava devagar. Helena colocou o caderno sobre a mesa e começou a ler nomes em voz alta, todos, um por um, sem abreviar iniciais. Cada nome arrancava um ruído do apartamento. Tomás, ao lado dela, fotografava de novo, enviando os arquivos para contatos externos quando o sinal aparecia por segundos. Augusto surgiu no espelho da sala, jovem, impecável, olhando para Helena com uma curiosidade ofensiva. Disse que ela tinha a voz mais firme que a irmã. Helena respondeu que aquilo acontecia quando uma família inteira treinava uma mulher para brigar com atendimento ruim, banco, polícia e fantasma proprietário.
Augusto riu e convidou Helena a sentar. Disse que podia devolver Lívia por alguns anos, talvez quase inteira, se Helena aceitasse ficar no lugar dela. Tomás xingou, curto, sem imaginação. Helena pediu detalhes. Tomás virou o rosto para ela, assustado. Ela ergueu a mão pedindo silêncio. Augusto explicou que precisava de presença viva ligada ao sangue de quem resistira. Lívia se gastara resistindo tempo demais. Helena era nova para o prédio, preparada pela busca, cheia de raiva, perfeita para manter as portas funcionando por mais décadas. Em troca, Lívia sairia pela portaria ao amanhecer, com lembranças quebradas, corpo cansado e vida suficiente para terminar de odiá-los. A proposta atingiu Helena no lugar exato. Não porque fosse justa. Porque usava o que ela mais queria desde a primeira noite sem resposta.
Tomás colocou o corpo entre Helena e o espelho. Disse que Augusto poderia levá-lo. A oferta saiu simples e terrível. Helena olhou para ele com fúria imediata. Perguntou se todos naquele prédio tinham vício em se oferecer no lugar de mulher viva. Tomás tentou responder, mas a parede abriu antes. Lívia apareceu na fresta, não como reflexo, não como fotografia, e sim com pele pálida, cabelo preso de qualquer jeito e a bolsa vermelha rasgada na mão. Parecia mais velha e mais jovem ao mesmo tempo, marcada por um tempo que não obedecia calendário. Helena deu um passo e parou, porque Lívia balançou a cabeça. A irmã falou com voz rouca. Disse que aceitar troca era alimentar a casa, e alimentar a casa era condenar outra mulher depois. Mandou Helena ler a última página do caderno, aquela que Beatriz nunca teve coragem de destruir.
A última página estava colada à capa por cera antiga. Helena arrancou com cuidado e encontrou uma lista menor, escrita por Beatriz quando jovem. Não eram nomes de vítimas. Eram pagamentos feitos a um médico, a um padre e a um tabelião na semana posterior à queda de Augusto. Havia também uma anotação curta. Meu irmão respira nas paredes porque eu pedi. Se o pedido for lido diante dele e recusado pelo sangue que o sustenta, o prédio perde tutor. Helena entendeu. O acordo dependia de Beatriz, da culpa dela, da administração dela, da decisão original de manter Augusto útil. O morto podia seduzir, prender, ferir. A chave, porém, estava com a irmã viva. Tomás segurou a porta da parede aberta para Lívia não ser puxada de volta. Helena pegou a pulseira, abriu o caderno na última página e chamou Beatriz pelo nome completo.
Beatriz entrou no 704 pelo corredor, arrastando a bengala, agora sem luto perfeito. O cabelo se soltara, a boca tremia, e Augusto a olhou pelo espelho com ódio antigo. Helena leu a anotação em voz alta. Depois perguntou se Beatriz mantinha o pedido. A herdeira ficou calada. O prédio inteiro esperou. Lívia, na fresta, respirava com dificuldade. Tomás segurava a abertura com o ombro ferido. Augusto ordenou que Beatriz respondesse. A velha começou a chorar, não por arrependimento, e sim por medo de perder a única coisa que transformara sua culpa em poder. Disse que sim. Mantinha o pedido. O 704 acendeu todas as luzes. Helena fechou o caderno, encarou Augusto no espelho e disse que então chamaria testemunha viva, gravação, documento e cada nome da lista. Do lado de fora, no corredor, sirenes começaram a subir a rua. Tomás tinha conseguido enviar os arquivos.