A Cobertura Fechada
A escada tentou levá-los de volta à capela, mas Helena descobriu depressa que prédios assombrados também perdiam para teimosia bem aplicada. Cada vez que um degrau descia sob seus pés, ela subia dois, puxando Tomás pela mão ferida de orgulho e pela parte intacta do braço. Seu Amâncio empurrava a porta treze lá em cima, chorando, pedindo perdão a santos, zeladoras mortas e qualquer entidade que aceitasse porteiro covarde em prestação. Beatriz Salles vinha atrás com a bengala batendo no chão molhado, ordenando que Augusto fechasse a passagem. A voz masculina ria de dentro das paredes. Helena guardou ar nos pulmões, apertou a chave da cobertura no bolso e decidiu que, se o prédio queria transformá-la em substituta da irmã, teria de acompanhar uma Duarte subindo escada com raiva antiga e sapato inadequado.
Eles alcançaram o corredor do sétimo andar quando a porta treze desapareceu às costas de seu Amâncio, deixando apenas parede lisa e um homem desabado no carpete vinho. Tomás trancou a saída da capela com a chave mestra por puro hábito, embora ambos soubessem que fechadura comum ali servia quase de piada. Helena não soltou a mão dele de imediato. Percebeu tarde demais e largou com aspereza, culpando a pressa. Tomás aceitou a mentira. A perna dele sangrava, mas ele recusou parar. Disse que a cobertura tinha elevador privativo, bloqueado desde a suposta morte de Augusto. Helena respondeu que, naquele prédio, privativo significava lugar onde crime ganhava tapete melhor. Eles passaram pelo 704. De dentro, a parede bateu três vezes, depois duas, o chamado de Lívia, agora fraco. Helena encostou a testa na madeira só por um segundo. Prometeu voltar com algo além de saudade.
O elevador privativo ficava atrás de uma porta de serviço no fim do corredor, escondido por um armário de vassouras que cheirava a desinfetante e mofo. Seu Amâncio sabia o código. Não admitiu de primeira. Só falou quando Helena perguntou quantas mulheres ele vira entrar com envelope pardo antes de aprender a baixar os olhos. O porteiro chorou sem barulho e digitou seis números no painel antigo. Disse que Beatriz mandava avisar quando o 704 escolhia alguém, e que ele dizia a si mesmo que avisar não era entregar. Helena não respondeu. Às vezes, a culpa dos pequenos sustentava a violência dos grandes, e ela não tinha tempo para distribuir absolvição. O elevador abriu com luz dourada, polida, indecente. Por dentro, havia espelho inteiro, banco de veludo e um botão único marcado com a letra C.
A subida foi curta e opressiva. Tomás ficou ao lado de Helena, segurando a lateral do elevador para disfarçar a dor na perna. Ela perguntou por que Lívia não contara sobre ele. A pergunta saía injusta, e Helena sabia, só que justiça tinha perdido espaço naquela madrugada. Tomás respondeu que Lívia pretendia contar depois de entregar os documentos sobre os Salles, depois de provar que o prédio escondia desaparecimentos, depois de sair viva pela portaria com aquele riso arrogante de quem voltava de uma aposta ganha. Disse que ela odiava preocupar Helena. Helena fechou os olhos. Aquilo era verdade demais. Lívia sempre escolhia a versão mais perigosa da independência. O elevador parou. Antes que a porta abrisse, Tomás acrescentou que amava Lívia. Não disse amava para pedir pena. Disse para devolver à morta uma verdade que havia guardado mal.
A cobertura parecia apartamento de gente que comprava silêncio por metro quadrado. Tinha sala ampla, tapetes claros, cortinas pesadas e móveis cobertos por lençóis limpos demais. Na parede principal, um retrato de Augusto jovem dominava o ambiente. Ao lado dele, Beatriz aparecia criança, mão pousada no ombro do irmão, olhos já frios. Helena caminhou até uma escrivaninha de madeira escura. As gavetas estavam trancadas, porém a chave prateada abriu a primeira com facilidade. Dentro havia o caderno de contas. Não era antigo no sentido romântico. Era prático, cheio de colunas, datas, nomes abreviados, valores, apartamentos, observações secas. Manutenção extraordinária. Compensação familiar. Reparo da capela. Silêncio de funcionário. Ao lado de cada lançamento, iniciais de mulheres desaparecidas. L.D. estava ali, escrita na linha de seis anos antes.
Tomás fotografou cada página com o celular, mãos firmes apesar da perna. Helena encontrou no fundo da gaveta um envelope lacrado com o nome de Lívia. Dentro havia um pendrive, uma carta curta e uma certidão antiga de óbito de Augusto Salles com assinatura falsificada. A carta dizia que Lívia descobrira algo que Beatriz escondia até do irmão morto. Augusto não caíra da cobertura sozinho. Beatriz o empurrara durante uma briga por herança, depois usara a culpa para alimentar o acordo e prender o que restara dele no 704. O prédio obedecia aos Salles, mas Augusto odiava Beatriz tanto quanto precisava dela. Helena leu a carta duas vezes. Tomás disse que aquilo podia quebrar a aliança entre os dois. Helena guardou o pendrive no sutiã, porque bolsa podia ser tomada e dignidade era luxo menor que prova.
Beatriz chegou à cobertura sem usar elevador. Surgiu no reflexo da janela, atrás deles, com a bengala erguida e a respiração intacta. Disse que Lívia sempre fora vulgarmente eficiente. Helena fechou o caderno com calma. Perguntou se Beatriz matara o irmão. A herdeira não negou. Disse que Augusto era desperdício, cruel sem método, guloso sem visão, e que a queda dele poderia ter encerrado a família se a casa não tivesse respondido ao sangue no piso. O acordo nascera ali, no tapete que não existia mais, quando Augusto pediu para voltar e Beatriz pediu que ele continuasse útil. Tomás chamou-a de assassina. Beatriz corrigiu, dizendo administradora. Helena pegou o caderno contra o peito. Disse que administradora também podia ser presa, o que talvez fosse novidade no manual dos Salles.
O retrato de Augusto rachou na parede. Uma voz masculina preencheu a cobertura, agora sem gentileza. Chamou Beatriz de irmã ingrata e Helena de substituta impaciente. As cortinas se fecharam sozinhas, apagando a cidade. A porta do elevador desapareceu atrás de um painel de madeira. Beatriz perdeu a calma pela segunda vez. Gritou que Augusto precisava dela. O retrato respondeu que precisava de uma Duarte, e Lívia estava gasta demais. Tomás pôs Helena atrás de si. Ela o empurrou para o lado, porque estava cansada de homens decidindo a posição do corpo dela no perigo. Abriu o caderno na página de Lívia e começou a ler em voz alta os pagamentos, nomes, datas, recibos, cada linha seca que transformava terror em documento. A cobertura tremeu. Beatriz avançou para tomar o caderno. Helena recuou até a janela, e o vidro atrás dela revelou, no reflexo, Lívia presa dentro do 704, batendo com as duas mãos na parede.