A Porta Treze O Apartamento 704 · Capítulo 3 de 8
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A Porta Treze

A porta treze apareceu onde antes havia parede, estreita, preta e sem qualquer humildade diante da lógica. Seu Amâncio largou o livro de entrada no chão e fez o sinal da cruz com tanta velocidade que quase acertou o próprio queixo. Tomás ficou entre Helena e a porta por instinto, erro previsível em homem que confundia proteção com bloqueio de passagem. Ela o contornou sem pedir licença. A chave de latão escuro esquentava em sua mão, pequena demais para abrir coisa séria e exata demais para ser acaso. A badalada voltou a soar pelo poço do elevador, profunda, lenta, trazendo junto um cheiro de vela apagada e madeira molhada. Helena pensou na irmã sorrindo na fotografia, pensou na frase sobre Augusto ainda morar no 704, e decidiu que o medo podia esperar no corredor, sentado ao lado do bom senso.

Tomás pediu que ela deixasse a porta fechada até ele buscar lanterna, ferramentas e alguém com menos envolvimento emocional. Helena perguntou se ele conhecia essa pessoa ou se pretendia inventá-la durante a madrugada. Seu Amâncio, ainda pálido, murmurou que a porta não aceitava espera quando o sino chamava. Aquela frase saiu dele sem o tropeço usual da mentira. O porteiro tentou se corrigir, dizendo que ouvira aquilo de morador antigo, talvez da zeladora falecida, talvez de um padre. Helena guardou essa informação para depois. A chave entrou na fechadura com um estalo limpo. Tomás encostou a mão na madeira junto à dela, e por um segundo os dois ficaram presos ao mesmo gesto. O calor da pele dele chegou antes da voz. Ele disse que, se algo acontecesse, ela deveria correr para o elevador. Helena respondeu que conselhos ruins não ficavam melhores em tom grave.

A porta abriu para uma escada que descia em espiral, incompatível com a planta do São Teodoro e com qualquer engenharia que respeitasse vizinho de baixo. As paredes eram de azulejo antigo, branco rachado, e tinham marcas de dedos empoeirados na altura dos ombros. Seu Amâncio se recusou a entrar. Disse que precisava vigiar a portaria, afirmação inútil para um homem que tremia olhando o chão. Tomás acendeu a lanterna do celular, e Helena fez o mesmo. A escada cheirava a incenso, ferrugem e fruta passada. Em algum ponto abaixo, uma mulher cantava sem abrir a boca, ou talvez o prédio estivesse devolvendo uma música guardada. Helena reconheceu pedaços da melodia. Lívia cantava aquilo quando lavava louça na casa da mãe, sempre fora do tom, sempre convicta. A lembrança puxou raiva em vez de lágrima. O prédio não tinha direito de usar a voz dela como decoração.

Eles desceram treze degraus. Depois mais treze. Depois a escada fingiu que terminava e abriu numa antessala baixa, onde havia bancos de madeira, um cabideiro vazio e uma pia de mármore com água escura. Tomás iluminou a parede. Fotografias de moradores cobriam o reboco, presas por alfinetes enferrujados. Algumas eram recentes. Outras mostravam roupas antigas, chapéus, crianças sérias, mulheres com a mesma expressão de quem aceitara convite errado. Helena encontrou Lívia quase no centro, numa foto tirada de lado, entrando no elevador com a bolsa vermelha no ombro. A imagem não fazia parte dos autos, das câmeras, dos arquivos que ela comprara com favores e vergonha. Tomás ficou imóvel ao vê-la. Helena perguntou por que aquela foto estava ali. Ele disse que não sabia. Ela odiou o fato de acreditar nele.

A capela ficava além da antessala. Não era grande. Tinha altar sem santo, velas derretidas até formar placas grossas no chão e um sino pequeno pendurado por uma haste curva. Atrás do altar havia treze nichos numerados, cada um fechado por uma portinhola de metal. Doze estavam escuros. O último, marcado com o número treze, tinha uma luz baixa escapando pelas frestas. Helena avançou. Tomás segurou seu braço, desta vez sem força, apenas pedido. Ela olhou para a mão dele. Ele soltou antes de ser mandado. Disse que encontrara a capela dois anos depois do sumiço de Lívia, quando uma moradora do quinto andar desapareceu por três horas e voltou com cabelo molhado, sem lembrar o próprio apartamento. Helena perguntou por que ninguém fechou aquilo. Tomás respondeu que tentaram. A porta sempre aparecia em outro lugar.

Helena abriu o nicho treze com a segunda chave. Dentro havia objetos pequenos, todos de mulheres. Um brinco de pérola, uma presilha infantil, um isqueiro vermelho, uma carteira de estudante de 1976, uma aliança partida e um envelope plástico com o nome de Lívia escrito em etiqueta branca. Helena pegou o envelope com cuidado. Dentro, havia uma página arrancada de diário. A letra era da irmã, apressada, inclinada, viva. Dizia que Augusto não era fantasma no sentido simples, e sim uma fome preservada pela família Salles, alimentada por silêncio, por medo e por mulheres que o prédio aprendia a chamar de volta. Dizia também que Tomás sabia parte da verdade, e que Helena deveria desconfiar dele na medida certa, porque homem arrependido ainda podia esconder o motivo do arrependimento.

Tomás leu a última frase junto dela e fechou os olhos. Helena perguntou qual era o motivo. O sino pequeno balançou sem vento antes que ele respondesse. Quando falou, a voz dele saiu mais baixa. Disse que conhecera Lívia antes do desaparecimento, não durante a investigação. Ela o procurara por causa de documentos da família Salles, e ele, policial recém-promovido, achara que havia tempo, que podia checar tudo sozinho, que contar a relação entre os dois atrapalharia o caso. Helena sentiu a revelação entrar devagar, abrindo espaço para uma fúria limpa. Lívia tinha um namoro escondido. Tomás era o homem fora das fotos, fora dos depoimentos, fora de tudo que Helena acreditara mapear. Ela deu um passo para trás, não por medo da capela, e sim para não bater nele dentro de um lugar onde as paredes pareciam apreciar culpa.

Antes que Tomás pedisse desculpa, o nicho treze apagou. Todos os outros acenderam ao mesmo tempo. As portinholas de metal começaram a bater por dentro, uma depois da outra, num ritmo que lembrava dedos impacientes. A água escura da pia subiu pela borda e correu pelo chão em direção aos sapatos de Helena. No altar, o sino tocou sozinho. Uma voz masculina, educada e velha, agradeceu a presença dos convidados. Tomás puxou Helena para trás quando a parede atrás do altar se abriu, revelando um corredor comprido demais para caber no prédio. No fim dele, Lívia estava de pé, usando a mesma roupa da fotografia, a bolsa vermelha no ombro e o rosto parado entre alívio e aviso. Ela levantou a mão, apontou para Tomás e disse que ele trouxera Augusto até ela.

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