Prefácio da segunda edição As Regras do Método Sociológico - Tradução Literunico · Capítulo 2 de 10
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Prefácio da segunda edição

## Prefácio da segunda edição

Quando este livro apareceu pela primeira vez, suscitou controvérsias bastante vivas. As ideias correntes, desconcertadas, resistiram de início com energia tal que, durante algum tempo, quase nos foi impossível fazer-nos ouvir. Nos pontos mesmos em que nos havíamos exprimido mais explicitamente, atribuíram-nos gratuitamente opiniões que nada tinham em comum com as nossas, e acreditaram refutar-nos ao refutá-las.

Quando havíamos declarado muitas vezes que a consciência, tanto individual quanto social, nada era para nós de substancial, sendo apenas um conjunto, mais ou menos sistematizado, de fenômenos sui generis, acusaram-nos de realismo e de ontologismo. Quando havíamos dito expressamente, e repetido de todas as maneiras, que a vida social é inteiramente feita de representações, acusaram-nos de eliminar o elemento mental da sociologia.

Chegou-se até a restaurar contra nós procedimentos de discussão que se podia crer definitivamente desaparecidos. Imputaram-nos, com efeito, certas opiniões que não havíamos sustentado, sob pretexto de serem conformes a nossos princípios. A experiência, entretanto, já havia provado todos os perigos desse método, que, permitindo construir arbitrariamente os sistemas que se discutem, permite também triunfar deles sem dificuldade.

Não cremos enganar-nos ao dizer que, desde então, as resistências enfraqueceram progressivamente. Sem dúvida, mais de uma proposição ainda nos é contestada. Contudo, não saberíamos estranhar nem lamentar essas contestações salutares; é bem claro, com efeito, que nossas fórmulas estão destinadas a ser reformadas no futuro.

Resumo de uma prática pessoal e necessariamente restrita, elas deverão necessariamente evoluir à medida que se adquirir experiência mais extensa e mais aprofundada da realidade social. Em matéria de método, aliás, nunca se pode fazer senão o provisório, pois os métodos mudam à medida que a ciência avança.

Nem por isso deixa de ser verdade que, durante estes últimos anos, a despeito das oposições, a causa da sociologia objetiva, específica e metódica ganhou terreno sem interrupção. A fundação de O Ano Sociológico certamente contribuiu muito para esse resultado. Por abranger ao mesmo tempo todo o domínio da ciência, O Ano pôde, melhor que qualquer obra especial, dar o sentimento daquilo que a sociologia deve e pode tornar-se.

Pôde-se ver, assim, que ela não estava condenada a permanecer ramo da filosofia geral e que, por outro lado, podia entrar em contato com o detalhe dos fatos sem degenerar em pura erudição. Por isso, jamais prestaríamos homenagem bastante ao ardor e à dedicação de nossos colaboradores; é graças a eles que essa demonstração pelo fato pôde ser tentada e pode prosseguir.

Entretanto, por reais que sejam esses progressos, é incontestável que os equívocos e as confusões passadas ainda não estão inteiramente dissipados. Eis por que desejaríamos aproveitar esta segunda edição para acrescentar algumas explicações a todas aquelas que já demos, responder a certas críticas e trazer, sobre certos pontos, precisões novas.

## I

A proposição segundo a qual os fatos sociais devem ser tratados como coisas, proposição que está na própria base de nosso método, é uma das que provocaram maior número de contradições. Achou-se paradoxal e escandaloso que assimilássemos às realidades do mundo exterior as do mundo social.

Era enganar-se singularmente sobre o sentido e o alcance dessa assimilação, cujo objeto não é rebaixar as formas superiores do ser às formas inferiores, e sim reivindicar para as primeiras um grau de realidade ao menos igual àquele que todos reconhecem às segundas. Não dizemos, com efeito, que os fatos sociais sejam coisas materiais; dizemos que são coisas ao mesmo título que as coisas materiais, embora de outra maneira.

O que é, com efeito, uma coisa? A coisa opõe-se à ideia como aquilo que se conhece de fora àquilo que se conhece de dentro. É coisa todo objeto de conhecimento que não é naturalmente compenetrável pela inteligência, tudo aquilo de que não podemos formar noção adequada por simples procedimento de análise mental, tudo que o espírito só pode chegar a compreender sob a condição de sair de si mesmo, por via de observações e experimentações, passando progressivamente dos caracteres mais exteriores e mais imediatamente acessíveis aos menos visíveis e mais profundos.

Tratar fatos de certa ordem como coisas, portanto, não é classificá-los nesta ou naquela categoria do real; é observar, diante deles, certa atitude mental. É abordar seu estudo tomando por princípio que se ignora absolutamente o que são, e que suas propriedades características, bem como as causas desconhecidas de que dependem, não podem ser descobertas pela introspecção, mesmo a mais atenta.

Assim definidos os termos, nossa proposição, longe de ser paradoxo, poderia quase passar por truísmo, se ainda não fosse demasiadamente desconhecida nas ciências que tratam do homem, e sobretudo em sociologia. Com efeito, pode-se dizer, nesse sentido, que todo objeto de ciência é uma coisa, salvo talvez os objetos matemáticos; pois, quanto a estes últimos, como os construímos nós mesmos desde os mais simples até os mais complexos, basta, para saber o que são, olhar para dentro de nós e analisar interiormente o processo mental de que resultam.

Mas, tão logo se trate de fatos propriamente ditos, eles são necessariamente para nós, no momento em que empreendemos fazer deles ciência, desconhecidos, coisas ignoradas; pois as representações que deles se puderam fazer no curso da vida, feitas sem método e sem crítica, são desprovidas de valor científico e devem ser postas de lado. Os fatos da psicologia individual apresentam eles próprios esse caráter e devem ser considerados sob esse aspecto.

Com efeito, embora nos sejam interiores por definição, a consciência que temos deles não nos revela nem sua natureza interna nem sua gênese. Ela nos faz conhecê-los até certo ponto, porém apenas como as sensações nos fazem conhecer o calor ou a luz, o som ou a eletricidade; dá-nos deles impressões confusas, passageiras, subjetivas, e não noções claras e distintas, conceitos explicativos.

É precisamente por essa razão que se fundou, no curso deste século, uma psicologia objetiva cuja regra fundamental é estudar os fatos mentais de fora, isto é, como coisas. Com maior razão deve ocorrer assim com os fatos sociais; pois a consciência não poderia ser mais competente para conhecê-los do que para conhecer sua própria vida.

Objetar-se-á que, sendo eles nossa obra, basta que tomemos consciência de nós mesmos para saber o que neles pusemos e de que modo os formamos. Mas, antes de tudo, a maior parte das instituições sociais nos é legada já pronta pelas gerações anteriores; não tomamos nenhuma parte em sua formação e, por conseguinte, não é interrogando a nós mesmos que poderemos descobrir as causas que lhes deram nascimento.

Além disso, mesmo quando colaboramos em sua gênese, mal entrevíamos, da maneira mais confusa e muitas vezes mais inexata, as verdadeiras razões que nos determinaram a agir e a natureza de nossa ação. Já quando se trata apenas de nossos atos privados, conhecemos muito mal os motivos relativamente simples que nos guiam; cremo-nos desinteressados quando agimos como egoístas, cremos obedecer ao ódio quando cedemos ao amor, à razão quando somos escravos de preconceitos irrefletidos.

De que modo, então, teríamos a faculdade de discernir com mais clareza as causas, muito mais complexas, de que procedem os atos da coletividade? Pois, no mínimo, cada um de nós só participa deles por parcela ínfima; temos multidão de colaboradores, e aquilo que se passa nas outras consciências nos escapa.

Nossa regra, portanto, não implica nenhuma concepção metafísica, nenhuma especulação sobre o fundo dos seres. O que ela reclama é que o sociólogo se coloque no estado de espírito em que estão físicos, químicos e fisiologistas quando penetram região ainda inexplorada de seu domínio científico. É preciso que, ao entrar no mundo social, tenha consciência de que entra no desconhecido; é preciso que se sinta em presença de fatos cujas leis são tão insuspeitadas quanto podiam sê-lo as da vida quando a biologia ainda não estava constituída; é preciso que se mantenha pronto a fazer descobertas que o surpreenderão e o desconcertarão.

Ora, falta muito para que a sociologia tenha chegado a esse grau de maturidade intelectual. Enquanto o sábio que estuda a natureza física tem sentimento muito vivo das resistências que ela lhe opõe e que tanto lhe custa vencer, parece, na verdade, que o sociólogo se move no meio de coisas imediatamente transparentes para o espírito, tão grande é a facilidade com que o vemos resolver as questões mais obscuras.

No estado atual da ciência, não sabemos verdadeiramente o que são mesmo as principais instituições sociais, como o Estado ou a família, o direito de propriedade ou o contrato, a pena e a responsabilidade; ignoramos quase completamente as causas de que dependem, as funções que desempenham, as leis de sua evolução; mal começamos, em certos pontos, a entrever algumas luzes.

E, todavia, basta percorrer as obras de sociologia para ver quanto é raro o sentimento dessa ignorância e dessas dificuldades. Considera-se obrigação dogmatizar sobre todos os problemas ao mesmo tempo; acredita-se poder, em algumas páginas ou algumas frases, atingir a essência mesma dos fenômenos mais complexos.

Isso quer dizer que teorias semelhantes exprimem, não os fatos, que não poderiam ser esgotados com tal rapidez, e sim a pré-noção que deles tinha o autor, antes da pesquisa. Sem dúvida, a ideia que fazemos das práticas coletivas, do que são ou do que devem ser, é fator de seu desenvolvimento. Mas essa própria ideia é um fato que, para ser convenientemente determinado, deve também ser estudado de fora.

Pois o que importa saber não é a maneira pela qual tal pensador se representa individualmente tal instituição, e sim a concepção que dela tem o grupo; só esta, com efeito, é socialmente eficaz. Ora, ela não pode ser conhecida por simples observação interior, visto que não está inteira em nenhum de nós; é preciso encontrar alguns sinais exteriores que a tornem sensível.

Além disso, ela não nasceu do nada; é ela própria efeito de causas externas que é preciso conhecer para poder apreciar seu papel no futuro. Faça-se o que se fizer, é sempre ao mesmo método que é preciso retornar.

## II

Outra proposição não foi menos vivamente discutida que a precedente: aquela que apresenta os fenômenos sociais como exteriores aos indivíduos. Hoje se concede com bastante boa vontade que os fatos da vida individual e os da vida coletiva são heterogêneos em algum grau; pode-se até dizer que um entendimento, senão unânime, ao menos muito geral, está se fazendo sobre esse ponto. Já quase não há sociólogos que neguem à sociologia toda espécie de especificidade.

Mas, porque a sociedade só é composta de indivíduos, parece ao senso comum que a vida social não pode ter outro substrato além da consciência individual; de outro modo, parece ficar no ar e planar no vazio.

Entretanto, aquilo que se julga tão facilmente inadmissível quando se trata dos fatos sociais é correntemente admitido nos outros reinos da natureza. Todas as vezes que elementos quaisquer, ao se combinarem, desprendem, pelo fato de sua combinação, fenômenos novos, é preciso conceber que esses fenômenos estão situados, não nos elementos, e sim no todo formado por sua união.

A célula viva nada contém além de partículas minerais, assim como a sociedade nada contém fora dos indivíduos; contudo, é de toda evidência que os fenômenos característicos da vida não residem em átomos de hidrogênio, oxigênio, carbono e azoto. Pois de que modo os movimentos vitais poderiam produzir-se no seio de elementos não vivos? De que modo, aliás, as propriedades biológicas se repartiriam entre esses elementos?

Elas não poderiam encontrar-se igualmente em todos, já que não são da mesma natureza; o carbono não é o azoto e, por conseguinte, não pode revestir as mesmas propriedades nem desempenhar o mesmo papel. Não é menos inadmissível que cada aspecto da vida, cada um de seus caracteres principais, se encarne em grupo diferente de átomos. A vida não poderia decompor-se assim; ela é una e, por consequência, só pode ter por sede a substância viva em sua totalidade.

Está no todo, não nas partes. Não são as partículas não vivas da célula que se nutrem, se reproduzem, em uma palavra, que vivem; é a própria célula, e ela apenas. E o que dizemos da vida poderia repetir-se de todas as sínteses possíveis. A dureza do bronze não está nem no cobre, nem no estanho, nem no chumbo que serviram para formá-lo e que são corpos moles ou flexíveis; está em sua mistura. A fluidez da água, suas propriedades alimentares e outras, residem na substância complexa formada pela associação dos dois gases de que é composta.

Apliquemos esse princípio à sociologia. Se, conforme se nos concede, essa síntese sui generis que constitui toda sociedade desprende fenômenos novos, diferentes daqueles que se passam nas consciências solitárias, é preciso admitir que esses fatos específicos residem na própria sociedade que os produz, e não em suas partes, isto é, em seus membros.

São, portanto, nesse sentido, exteriores às consciências individuais consideradas como tais, do mesmo modo que os caracteres distintivos da vida são exteriores às substâncias minerais que compõem o ser vivo. Não se pode reabsorvê-los nos elementos sem contradição, visto que, por definição, supõem algo diverso do que esses elementos contêm.

Assim se acha justificada, por nova razão, a separação que estabelecemos mais adiante entre a psicologia propriamente dita, ou ciência do indivíduo mental, e a sociologia. Os fatos sociais não diferem apenas em qualidade dos fatos psíquicos; têm outro substrato, não evoluem no mesmo meio, não dependem das mesmas condições.

Isso não quer dizer que eles também não sejam, de algum modo, psíquicos, já que consistem todos em maneiras de pensar ou agir. Mas os estados da consciência coletiva são de outra natureza que os estados da consciência individual; são representações de outra espécie. A mentalidade dos grupos não é a dos particulares; tem suas leis próprias.

As duas ciências são, portanto, tão nitidamente distintas quanto duas ciências podem sê-lo, quaisquer que sejam, por outro lado, as relações que possa haver entre elas.

Contudo, sobre esse ponto, convém fazer uma distinção que talvez lance alguma luz sobre o debate.

Que a matéria da vida social não possa explicar-se por fatores puramente psicológicos, isto é, por estados da consciência individual, eis o que nos parece evidente. Com efeito, o que as representações coletivas traduzem é a maneira pela qual o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo é constituído de outro modo que o indivíduo, e as coisas que o afetam são de outra natureza.

Representações que não exprimem os mesmos sujeitos nem os mesmos objetos não poderiam depender das mesmas causas. Para compreender a maneira pela qual a sociedade representa a si mesma e o mundo que a rodeia, é a natureza da sociedade, e não a dos particulares, que é preciso considerar. Os símbolos sob os quais ela pensa a si mesma mudam conforme aquilo que ela é.

Se, por exemplo, ela se concebe como proveniente de animal epônimo, é porque forma um desses grupos especiais que se chamam clãs. Ali onde o animal é substituído por ancestral humano, porém igualmente mítico, é porque o clã mudou de natureza. Se, acima das divindades locais ou familiares, ela imagina outras das quais acredita depender, é porque os grupos locais e familiares de que se compõe tendem a concentrar-se e unificar-se, e o grau de unidade apresentado por panteão religioso corresponde ao grau de unidade atingido no mesmo momento pela sociedade.

Se condena certos modos de conduta, é porque eles ferem alguns de seus sentimentos fundamentais; e esses sentimentos se prendem a sua constituição, como os do indivíduo se prendem a seu temperamento físico e a sua organização mental. Assim, ainda que a psicologia individual não tivesse mais segredos para nós, ela não poderia dar-nos solução para nenhum desses problemas, pois eles se referem a ordens de fatos que ela ignora.

Mas, uma vez reconhecida essa heterogeneidade, pode-se perguntar se as representações individuais e as representações coletivas não deixam, entretanto, de se assemelhar pelo fato de umas e outras serem igualmente representações; e se, por efeito dessas semelhanças, certas leis abstratas não seriam comuns aos dois reinos.

Os mitos, as lendas populares, as concepções religiosas de toda espécie, as crenças morais etc. exprimem realidade diversa da realidade individual; poderia ocorrer, porém, que a maneira pela qual se atraem ou se repelem, se agregam ou se desagregam, fosse independente de seu conteúdo e se prendesse unicamente à sua qualidade geral de representações. Feitas de matéria diferente, comportar-se-iam, em suas relações mútuas, como as sensações, as imagens ou as ideias no indivíduo.

Não se pode crer, por exemplo, que a contiguidade e a semelhança, os contrastes e os antagonismos lógicos ajam do mesmo modo, quaisquer que sejam as coisas representadas? Chega-se assim a conceber a possibilidade de uma psicologia inteiramente formal, que seria espécie de terreno comum à psicologia individual e à sociologia; e talvez seja isso que produz o escrúpulo que certos espíritos experimentam em distinguir demasiado nitidamente essas duas ciências.

Falando com rigor, no estado atual de nossos conhecimentos, a questão assim posta não poderia receber solução categórica. Com efeito, de um lado, tudo que sabemos sobre a maneira pela qual se combinam as ideias individuais reduz-se a algumas proposições muito gerais e muito vagas, chamadas comumente leis da associação das ideias.

Quanto às leis da ideação coletiva, elas são ainda mais completamente ignoradas. A psicologia social, que deveria ter por tarefa determiná-las, quase não passa de palavra que designa toda espécie de generalidades variadas e imprecisas, sem objeto definido. O que seria preciso é procurar, pela comparação dos temas míticos, das lendas e tradições populares, das línguas, de que modo as representações sociais se chamam e se excluem, se fundem umas nas outras ou se distinguem.

Ora, se o problema merece tentar a curiosidade dos pesquisadores, mal se pode dizer que tenha sido abordado; e, enquanto não se tiver encontrado algumas dessas leis, será evidentemente impossível saber com certeza se repetem ou não as da psicologia individual.

Entretanto, na falta de certeza, é ao menos provável que, se há semelhanças entre essas duas espécies de leis, as diferenças não devam ser menos marcadas. Parece, com efeito, inadmissível que a matéria de que são feitas as representações não aja sobre seus modos de combinação.

É verdade que os psicólogos falam às vezes das leis da associação das ideias supondo que sejam as mesmas para todas as espécies de representações individuais. Nada, porém, é menos verossímil: as imagens não se compõem entre si como as sensações, nem os conceitos como as imagens. Se a psicologia fosse mais avançada, constataria sem dúvida que cada categoria de estados mentais tem leis formais que lhe são próprias.

Se é assim, deve-se esperar a fortiori que as leis correspondentes do pensamento social sejam específicas, tal qual esse próprio pensamento. De fato, por pouco que se tenha praticado essa ordem de fatos, é difícil não ter o sentimento dessa especificidade. Não é ela, com efeito, que nos faz parecer tão estranha a maneira tão especial pela qual as concepções religiosas, que são coletivas em primeiro grau, se misturam ou se separam, transformam-se umas nas outras, dando nascimento a compostos contraditórios que contrastam com os produtos ordinários de nosso pensamento privado?

Portanto, se, como é presumível, certas leis da mentalidade social recordam efetivamente algumas daquelas que os psicólogos estabelecem, isso não se deve ao fato de as primeiras serem simples caso particular das segundas; ocorre porque, entre umas e outras, ao lado de diferenças certamente importantes, há similitudes que a abstração poderá desprender e que, aliás, ainda são ignoradas.

Isso quer dizer que, em caso algum, a sociologia poderia tomar pura e simplesmente da psicologia uma de suas proposições para aplicá-la tal qual aos fatos sociais. O pensamento coletivo inteiro, em sua forma e em sua matéria, deve ser estudado em si mesmo, por si mesmo, com o sentimento daquilo que tem de especial; e é preciso deixar ao futuro o cuidado de pesquisar em que medida se assemelha ao pensamento dos particulares. Trata-se mesmo de problema que pertence antes à filosofia geral e à lógica abstrata que ao estudo científico dos fatos sociais.

## III

Resta-nos dizer algumas palavras da definição que demos dos fatos sociais em nosso primeiro capítulo. Fazemo-los consistir em maneiras de fazer ou de pensar, reconhecíveis por esta particularidade: são suscetíveis de exercer sobre as consciências particulares influência coercitiva. Produziu-se a esse respeito uma confusão que merece ser assinalada.

Tem-se tanto o hábito de aplicar às coisas sociológicas as formas do pensamento filosófico que se viu muitas vezes nessa definição preliminar uma espécie de filosofia do fato social. Disse-se que explicávamos os fenômenos sociais pelo constrangimento, do mesmo modo que M. Tarde os explica pela imitação.

Não tínhamos tal ambição, e nem mesmo nos havia ocorrido que pudessem atribuí-la a nós, tão contrária ela é a todo método. O que nos propúnhamos era, não antecipar por visão filosófica as conclusões da ciência, e sim simplesmente indicar por quais sinais exteriores é possível reconhecer os fatos de que ela deve tratar, a fim de que o sábio saiba percebê-los onde estão e não os confunda com outros.

Tratava-se de delimitar o campo da pesquisa tão bem quanto possível, não de abraçá-lo em uma espécie de intuição exaustiva. Por isso, aceitamos de muito bom grado a censura feita a essa definição por não exprimir todos os caracteres do fato social e, por conseguinte, não ser a única possível. Nada há, com efeito, de inconcebível em que ele possa ser caracterizado de várias maneiras diferentes, pois não há razão para que tenha apenas uma propriedade distintiva.

Tudo que importa é escolher aquela que pareça melhor para o objetivo proposto. É até muito possível empregar concorrentemente vários critérios, conforme as circunstâncias. E foi isso que nós mesmos reconhecemos ser às vezes necessário em sociologia, pois há casos em que o caráter de constrangimento não é facilmente reconhecível.

Tudo que se requer, tratando-se de uma definição inicial, é que as características utilizadas sejam imediatamente discerníveis e possam ser percebidas antes da pesquisa. Ora, é essa condição que não preenchem as definições que por vezes se opuseram à nossa. Disse-se, por exemplo, que o fato social é tudo que se produz na sociedade e por ela, ou ainda aquilo que interessa e afeta o grupo de algum modo.

Mas não se pode saber se a sociedade é ou não causa de um fato, ou se esse fato tem efeitos sociais, senão quando a ciência já está avançada. Definições semelhantes não poderiam, portanto, servir para determinar o objeto da investigação que começa. Para que se possam utilizá-las, é preciso que o estudo dos fatos sociais já tenha sido levado bastante longe e, por consequência, que se tenha descoberto algum outro meio prévio de reconhecê-los onde estão.

Ao mesmo tempo que se considerou nossa definição demasiado estreita, acusaram-na de ser demasiado ampla e de compreender quase todo o real. Com efeito, disse-se, todo meio físico exerce constrangimento sobre os seres que sofrem sua ação, pois eles são obrigados, em certa medida, a adaptar-se a ele.

Mas há entre esses dois modos de coerção toda a diferença que separa um meio físico e um meio moral. A pressão exercida por um ou vários corpos sobre outros corpos, ou mesmo sobre vontades, não poderia ser confundida com aquela que a consciência de um grupo exerce sobre a consciência de seus membros.

O que há de inteiramente especial no constrangimento social é que ele se deve, não à rigidez de certos arranjos moleculares, e sim ao prestígio de que certas representações são investidas. É verdade que os hábitos, individuais ou hereditários, têm, sob certos aspectos, essa mesma propriedade. Dominam-nos, impõem-nos crenças ou práticas. Apenas nos dominam de dentro, pois estão inteiros em cada um de nós.

Ao contrário, as crenças e as práticas sociais agem sobre nós de fora; assim, o ascendente exercido por umas e por outras é, no fundo, muito diferente.

Não se deve estranhar, aliás, que os outros fenômenos da natureza apresentem, sob outras formas, o próprio caráter pelo qual definimos os fenômenos sociais. Essa similitude vem simplesmente de que uns e outros são coisas reais. Pois tudo que é real tem natureza definida que se impõe, com a qual é preciso contar e que, mesmo quando conseguimos neutralizá-la, nunca é completamente vencida.

No fundo, é isso o que há de mais essencial na noção de constrangimento social. Pois tudo que ela implica é que as maneiras coletivas de agir ou pensar têm realidade fora dos indivíduos que, em cada momento do tempo, a elas se conformam. São coisas que têm existência própria. O indivíduo as encontra inteiramente formadas e não pode fazer com que não sejam ou sejam de modo diverso do que são; é, portanto, obrigado a levá-las em conta, e tanto mais difícil lhe é modificá-las, em graus diversos, quanto mais participam da supremacia material e moral que a sociedade tem sobre seus membros.

Sem dúvida, o indivíduo desempenha papel em sua gênese. Mas, para que haja fato social, é preciso que vários indivíduos ao menos tenham misturado sua ação e que essa combinação tenha desprendido algum produto novo. E, como essa síntese se realiza fora de cada um de nós, pois nela entra pluralidade de consciências, tem necessariamente por efeito fixar, instituir fora de nós certas maneiras de agir e certos juízos que não dependem de cada vontade particular tomada à parte.

Vimos acima que há uma palavra que, contanto que se estenda um pouco sua acepção ordinária, exprime bastante bem essa maneira de ser muito especial: é a palavra instituição. Pode-se, com efeito, sem desnaturar o sentido dessa expressão, chamar instituição todas as crenças e todos os modos de conduta instituídos pela coletividade; a sociologia pode então ser definida como a ciência das instituições, de sua gênese e de seu funcionamento.

Sobre as outras controvérsias suscitadas por esta obra, parece-nos inútil retornar, pois não tocam em nada essencial. A orientação geral do método não depende dos procedimentos que se prefira empregar, seja para classificar os tipos sociais, seja para distinguir o normal do patológico. Aliás, essas contestações vieram muito frequentemente do fato de se recusar admitir, ou de admitir apenas com reservas, nosso princípio fundamental: a realidade objetiva dos fatos sociais.

É, portanto, finalmente sobre esse princípio que tudo repousa e a ele tudo retorna. Eis por que nos pareceu útil pô-lo mais uma vez em relevo, desprendendo-o de toda questão secundária. E estamos certos de que, ao lhe atribuir tal preponderância, permanecemos fiéis à tradição sociológica, pois, no fundo, é dessa concepção que saiu a sociologia inteira.

Essa ciência, com efeito, só pôde nascer no dia em que se pressentiu que os fenômenos sociais, embora não sejam materiais, não deixam de ser coisas reais que comportam estudo. Para chegar a pensar que havia razão para pesquisar o que são, era preciso haver compreendido que são de maneira definida, que têm maneira de ser constante, natureza que não depende do arbítrio individual e da qual derivam relações necessárias.

Assim, a história da sociologia não é senão longo esforço para precisar esse sentimento, aprofundá-lo e desenvolver todas as consequências que implica. Mas, apesar dos grandes progressos feitos nesse sentido, ver-se-á no decorrer deste trabalho que ainda restam numerosas sobrevivências do postulado antropocêntrico que, aqui como em outros lugares, barra o caminho à ciência.

Desagrada ao homem renunciar ao poder ilimitado que por tanto tempo atribuiu a si mesmo sobre a ordem social; e, por outro lado, parece-lhe que, se realmente existem forças coletivas, ele está necessariamente condenado a sofrê-las sem poder modificá-las. É isso que o inclina a negá-las.

Em vão experiências repetidas lhe ensinaram que essa onipotência, em cuja ilusão ele se mantém com complacência, sempre foi para ele causa de fraqueza; que seu domínio sobre as coisas só começou realmente a partir do momento em que reconheceu que elas têm natureza própria e em que se resignou a aprender delas o que são. Expulso de todas as outras ciências, esse deplorável preconceito mantém-se obstinadamente em sociologia. Nada há, portanto, de mais urgente que procurar libertar definitivamente dele nossa ciência; e esse é o objetivo principal de nossos esforços.

## Notas

1. Vê-se que, para admitir essa proposição, não é necessário sustentar que a vida social seja feita de outra coisa além de representações; basta estabelecer que as representações, individuais ou coletivas, só podem ser estudadas cientificamente sob a condição de serem estudadas objetivamente.

2. A proposição, aliás, é apenas parcialmente exata. Além dos indivíduos, há as coisas, que são elementos integrantes da sociedade. É verdade apenas que os indivíduos são seus únicos elementos ativos.

3. É inútil mostrar de que modo, sob esse ponto de vista, a necessidade de estudar os fatos de fora aparece ainda mais evidente, já que resultam de sínteses que ocorrem fora de nós e das quais nem sequer temos a percepção confusa que a consciência pode nos dar dos fenômenos interiores.

4. O poder coercitivo que lhe atribuímos é tão pouco o todo do fato social que ele pode apresentar igualmente o caráter oposto. Pois, ao mesmo tempo que as instituições se impõem a nós, prendemo-nos a elas; elas nos obrigam e nós as amamos; constrangem-nos e encontramos proveito em seu funcionamento e nesse próprio constrangimento.

Essa antítese é aquela que os moralistas muitas vezes assinalaram entre as duas noções do bem e do dever, que exprimem dois aspectos diferentes, porém igualmente reais, da vida moral. Ora, talvez não haja práticas coletivas que não exerçam sobre nós essa dupla ação, contraditória apenas na aparência. Se não as definimos por esse apego especial, ao mesmo tempo interessado e desinteressado, é simplesmente porque ele não se manifesta por sinais exteriores facilmente perceptíveis. O bem tem algo de mais interno, de mais íntimo que o dever e, por isso, é menos apreensível.

5. Ver o artigo Sociologie da Grande Encyclopédie, por MM. Fauconnet e Mauss.

6. Do fato de as crenças e as práticas sociais nos penetrarem assim de fora, não se segue que as recebamos passivamente e sem lhes fazer sofrer modificação. Ao pensar as instituições coletivas, ao assimilá-las, nós as individualizamos, damos-lhes, em maior ou menor grau, nossa marca pessoal; é assim que, ao pensar o mundo sensível, cada um de nós o colore a sua maneira, e sujeitos diferentes adaptam-se diferentemente a um mesmo meio físico.

Eis por que cada um de nós faz para si, em certa medida, sua moral, sua religião, sua técnica. Não há conformismo social que não comporte toda uma gama de nuances individuais. Nem por isso deixa de ser verdade que o campo das variações permitidas é limitado. É nulo ou muito fraco no círculo dos fenômenos religiosos e morais, em que a variação facilmente se torna crime; é mais extenso para tudo que diz respeito à vida econômica. Mais cedo ou mais tarde, porém, mesmo neste último caso, encontra-se limite que não pode ser transposto.

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