Introdução
## Introdução
Até o presente, os sociólogos pouco se preocuparam em caracterizar e definir o método que aplicam ao estudo dos fatos sociais. Assim, em toda a obra do sr. Spencer, o problema metodológico não ocupa nenhum lugar; pois a Introdução à ciência social, cujo título poderia causar engano, é dedicada a demonstrar as dificuldades e a possibilidade da sociologia, e não aos procedimentos de que ela deve servir-se.
Mill, é verdade, ocupou-se bastante longamente da questão; contudo, apenas passou pelo crivo de sua dialética aquilo que Comte havia dito a respeito, sem lhe acrescentar nada de verdadeiramente pessoal. Um capítulo do Curso de filosofia positiva é, portanto, pouco mais ou menos, o único estudo original e importante que possuímos sobre a matéria.[^1]
Essa aparente despreocupação, aliás, nada tem que deva surpreender. Com efeito, os grandes sociólogos cujos nomes acabamos de recordar mal saíram das generalidades sobre a natureza das sociedades, sobre as relações entre o reino social e o reino biológico, sobre a marcha geral do progresso; mesmo a volumosa sociologia do sr. Spencer quase não tem outro objeto senão mostrar de que maneira a lei da evolução universal se aplica às sociedades.
Ora, para tratar essas questões filosóficas, procedimentos especiais e complexos não são necessários. Contentava-se, portanto, em pesar os méritos comparados da dedução e da indução, e em fazer uma investigação sumária sobre os recursos mais gerais de que dispõe a pesquisa sociológica.
Contudo, as precauções a tomar na observação dos fatos, a maneira pela qual os principais problemas devem ser postos, o sentido no qual as pesquisas devem ser dirigidas, as práticas especiais que podem permitir que cheguem a termo, as regras que devem presidir à administração das provas permaneciam indeterminadas.
Um feliz concurso de circunstâncias, entre as quais é justo pôr em primeiro lugar o ato de iniciativa que criou em nosso favor um curso regular de sociologia na Faculdade de Letras de Bordeaux, tendo-nos permitido dedicar-nos desde cedo ao estudo da ciência social e fazer dela até mesmo a matéria de nossas ocupações profissionais, pudemos sair dessas questões demasiadamente gerais e abordar certo número de problemas particulares.
Fomos, portanto, levados, pela própria força das coisas, a formar para nós um método mais definido, cremos, mais exatamente adaptado à natureza particular dos fenômenos sociais. São esses resultados de nossa prática que desejaríamos expor aqui em seu conjunto e submeter à discussão. Sem dúvida, eles estão implicitamente contidos no livro que publicamos recentemente sobre A Divisão do Trabalho Social.
Entretanto, parece-nos que há algum interesse em destacá-los dele, em formulá-los à parte, acompanhando-os de suas provas e ilustrando-os com exemplos tomados seja daquela obra, seja de trabalhos ainda inéditos. Assim se poderá julgar melhor a orientação que gostaríamos de tentar dar aos estudos de sociologia.[^2]
## Notas
1. Sistema de Lógica, liv. VI, cap. vii-xii.
2. Ver 2ª ed., p. 294-336.