Belas-Artes e poesia
PRIMEIRA PARTE
BELAS-ARTES E POESIA
Começo por conta de somar: Necessidade de expressão + necessidade de comunicação + necessidade de acção + necessidade de prazer = Belas Artes. Explico: O homem pelos sentidos recebe a sensação. Conforme o grau de receptividade e de sensibilidade produtiva sente sem que nisso entre a mínima parcela de inteligência a NECESSIDADE DE EXPRESSAR a sensação recebida por meio do gesto (1). (Falo gesto no sentido empregado por Ingenieros :
Seria talvez mais exacto dizer: necessidade de exteriorizar-
gritos, sons musicais, sons articulados, contracções faciais e o gesto propriamente dito). A esta necessidade de expressão — inconsciente, verdadeiro acto reflexo — junta-se a NECESSIDADE DE COMUNICAÇÃO de ser para ser tendente a recriar no espectador uma comoção análoga a do que a sentiu primeiro. O homem nunca está inactivo. Por uma condenação aasvérica movemo-nos sempre no corpo ou no espírito. Num lazer pois (e é muito provável que largos fossem os lazeres nos tempos primitivos) o homem por NECESSIDADE I)E ACÇÃO rememora os gestos e os reconstroi. Brinca. Porém CRITICA esses gestos e procura realiza-los agora de maneira mais expressiva e — quer porquê o sentimento do belo seja intuitivo, quer porquê o tenha adquirido pelo amor e pela contemplação das coisas naturais — de maneira mais agradável. Já agora temos bem característico o fenômeno: bela-arte. Das artes assim nascidas a que se utiliza de vozes articuladas chama-se poesia. (É a minha conjectura. Verão os que sabem que embora sistematizando com audácia não me afasto das conjecturas mais correntes,
— lí) —
feitas por psicólogos e estetas, a respeito da origem das belas-artes.) Os ritmos preconcebidos, as rimas, folhas de parra e velocinos alvíssimos vieram posteriormente a pouco e pouco, prejudicando a objectivação expressiva das representações, sensualizando a nudez virgem da escrava do Arara t. E si vos lembrardes de Aristóteles recordareis como êle toma o cuidado de separar o conceito de poesia dos processos métricos de realizar a comoção. “É verdade — escreve na Poética — que os homens, unindo as palavras '“compositor” ou “poeta” com a palavra “metro” dizem “poetas épicos”, “elegíacos”, como si o apelativo poeta proviesse, não já da imitação mas... do metro... Na verdade nada ha de comum entre Homero e Empédocles a não ser o verso ; todavia áquelle será justo chamar-lhe poeta, a êste fisiólogo.” E, pois que falei de metro, não me furto a citar esta conclusão, inconscientemente irônica, de Westphal — talvez o maior estudioso da rítmica grega. Sabeis que a música helénica estava inteira e unicamente sujeita como ritmo á métrica do poema. Pois Westphal diz: “Na música do antigos (fala dos gregos) o
ritmo é um isto é: baseado na quantidade 1. Foram raciocínios análogos que levaram Mallarmé a dizer: “Dès qu’il v a un effort de style, il v a métrification”... Mas nada de conclusões técnicas ! Adão... Aristóteles... Agora nós. Paulo Dermée resolve também a concepção modernista de poesia a uma conta de somar. Assim: Lirismo + Arte = Poesia. Quem conhece os estudos de Dermée sabe que no fundo êle tem razão. Mas errou a fórmula. l.° : Lirismo, estado activo proveniente da comoção, produz toda e qualquer arte. Da Vinci criando II Cavallo, Greco pintando o Conde de Orgaz, Dostoievsky escrevendo “O Duplicata” obedeceram a uma impulsão lírica, tanto como Camões escrevendo Adamastor. 2.°: Dermée foi leviano. Diz arte por crítica e por leis estéticas provindas da observação ou mesmo apriorísticas. 3.°: E esqueceu o meio utilizado para a expressão. Lirismo + Arte (no sentido de crítica, esteticismo, trabalho) soma belas-artes... Corrigida a receita, eis o marron-glacé: Lirismo puro + Crítica + Palavra ■= Poesia. (E escrevo “lirismo puro” para distinguir a poesia da prosa de ficção pois esta partindo do lirismo puro não o objectiva tal como
é mas pensa sobre êle, e o desenvolve e esclarece. Emfim: na prosa a inteligência cria sobre o lirismo puro enquanto na poesia modernista o lirismo puro é grafado com o mínimo de desenvolvimento que sobre êle possa praticar a inteligência. Esta pelo menos a tendência embora nem sempre seguida.) Temos pois. igualdade de vistas entre Adão, Aristóteles e a Corja quanto ao conceito de Poesia... São poetas homens que só escreveram prosa ou... jamais escreveram coisa nenhuma. O mais belo poema de D’Annunzio é a aventura de Fiume... Por seu lado muitos versistas são filósofos, historiadores, catedráticos, barbeiros, etc. Excluo da poesia bom número de obras-primas inegáveis, ou na totalidade ou em parte. Não direi quais... Seria expulso do convívio humano... O que aliás não seria mui grande exílio para quem por universal consenso já vive no mundo da Dei-vos uma receita... Não falei na proporção dos ingredientes. Será: máximo de lirismo e máximo de crítica para adquirir o máximo de expressão. D’aí ter escrito Dermée: “O poeta é uma alma ardente, conduzida por uma cabeça fria.”