Beleza e assunto poético A escrava que não é Isaura · Capítulo 3 de 8
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Beleza e assunto poético

BELEZA E ASSUNTO POÉTICO

E reparastes que falei em adquirir um máximo de expressão e não um máximo de prazer, de agrada vel, de beleza enfim? Estará mesmo o Belo excluído da poesia modernista? Certo que não. E mesmo Luis Aragon no fim do esplêndido “Lever” considera: “La Beauté, la seule vertu qui tende encore ses mains purês.”

Mas a beleza é questão de moda na maioria das vezes. As leis do Belo eterno artístico ainda não se descobriram. E a meu ver a beleza não deve ser um fim. A BELEZA É UMA CONSEQUÊNCIA. Nenhuma das grandes obras do passado teve realmente como fim a beleza. 11a sempre uma idea, acrescentarei: mais vital que dirige a criação das obras-primas. O próprio Mozart que para mim de todos os artistas de todas as artes foi quem milhor realizou a beleza insulada, sujeitou-a á expressão. Apenas pensava que esta não devia ser tão enérgica a ponto de “repugnar pelo realismo”. O (pie fez imaginar que éramos, os modem izantes, uns degenerados, amadores da feialdade foi simplesmente um erro tolo de unilateralização da beleza. Até os princípios

deste século principalmente entre os espectadores acreditou-se que o Belo da arte era o mesmo Belo da natureza. Creio que não é. O Belo artístico é uma criação humana, independente do Belo natural; e somente agora é que se liberta da geminação obrigatória a que o sujeitou a humana estultície. Por isso Tris tão Tzara no “Cinema Calendrier” dirige uma carta a: “francis picabia qui saute avec de grandes et de petites idees pour 1’anéaiitissement de

Quem procurar o Belo da natureza numa obra de Picasso não o achará. Quem nele procurar o Belo artístico, originário de euritmias, de equilíbrios, da sensação de linhas e de cores, da exacta compreensão dos meios pictóricos, encontrará o que procura. Mas onde está meu assunto ? É que, leitores, a respeito de arte mil e uma questões se amatulam tão intimamente, que falar sobre uma delas é trazer á balha todas as outras... Corto cerce a fala sobre a beleza e desço de tais cogitações olímpicas, 5000 metros acima do mar, ao asfalto quotidiano da poesia de 1922.

Recapitulando; máximo de lirismo e máximo de crítica para obter o máximo de expressão. Vejamos a que conclusões espirituais nos levaram os 3 máximos.

O movimento lírico nasce no eu profundo. Ora: observando a evolução da poesia através das idades que se vê? O aumento contínuo do Gaurisancai’ de tules, nanzuques, rendas, meias de seda, etc. da parábola inicial. Foi a inteligência romantizada pela preocupação de beleza, que nos levou ás duas métricas existentes e a outros crochets, filets e frivolités. Pior ainda: a inteligência, pesando coisas e factos da natureza e da vida, escolheu uns tantos que ficaram sendo os assuntos poéticos. Ora isto berra deante da observação. O assunto-poético é a conclusão mais anti-psicológica que existe. A impulsão lírica é livre, independe de nós, independe da nossa inteligência. Pode nascer de uma réstea de cebolas como de um amor perdido. Não é preciso mais “escuridão da. noite nos logares êrmos” nem “horas mortas do alto silêncio” para que a. fantasia seja “mais ardente e robusta”, como requeria Enrico — homem esquisito que Herculano fez renascer nos idos hiemais de um Dezembro romântico. Papini considera mes-

mo como verdadeiro criador aquele que independe do silêncio, da boa almofada e larga secretária para escrever seu poema genial. Mas que não se perca o assunto: a inspiração surge provocada por um crepúsculo como por uma chaminé matarazziana, pelo corpo divino de de uma Nize, como pelo divino corpo de uma Cadillac. Todos os assuntos são vitais. Não ha temas poéticos. Não ha épocas poéticas. Os modernistas derruindo êsses alvos mataram o último romantismo remanescente : o gôsto pelo exótico. O que realmente existe é o subconsciente enviando á inteligência telegramas e mais telegramas — para me servir da comparação de Ribot (1). A inteligência do poeta — o qual não mora mais numa tôrre de marfim — recebe o telegrama no bonde, quando o pobre vai para a repartição, para a Faculdade de Filosofia, para o cinema. Assim virgem, sintético, energico, o telegrama dá-lhe fortes comoções, exaltações divinatórias, sublimações, poesia. Reproduzi-las!... E o poeta lança a palavra sôlta no papel. É o leitor que se deve elevar á

“a insp‘ração parece um telegrama cifrado que a actividade inconsciente envia á aetividade consciente, queo traduz.”

sensibilidade do poeta não é o poeta que se deve baixar á sensibilidade do leitor. Pois êste que traduza o telegrama ! Mais ainda: o poeta reintegrado assim na ) vida recebe a palavra sôlta. A palavra sôlta é fecundante, evocadora... Associação de imagens. Telegrama: “Espada vitoriosa de Horácio”. Associação: “Antena de telegrafia sem fio”. Telegrama: “Fios telefônicos, eléctricos constringindo a cidade”. Associação : “Dedos de Otelo no colo de Desdém ona”. Os Horácios + Otelo = 2 assuntos. Os Horácios + Otelo + Antena radiográfica + Fios eléctricos = 4 assuntos. Resultado: riqueza, fartura, pletora. Por isso Rimbaud, precursor, exclamava : “Je suis mille fois plus piche!”

sem ter um franco no bolso virgem. E quando, camelot sublime, enumerou na praça pública de “Solde” os amazônicos tesouros da nossa nababia, inda ironicamente completou :

‘ Los vendeurs ne sont pas à bout de solde. Les voyageurs i/ont pas à rendre leurs coiumissions de si tôt.”

Parêntese: Não imitamos Rimbaud. Nósdesenvolvemos Rimbaud. ESTUDAMOS A LIÇÃO RIMBAUD. Mas esta abundância de assuntos quotidianos não implica abandono dos assuntos ex-poéticos. Destruir um edifício não significa abandonar o terreno. Na poesia construir agora os “Salmos” ou “I Fioretti” é errado. Mas o terreno da Religião continua. Claudel escreverá “La Messe Là-Bas”; Cendrars: “Les Pâques à New-York”; Papini “Preghiera”; JoãoBecher: “A Deus”; Hrand Nazariantz a “Oração das Virgens Armênias”... Terreno do amor... Transbordava! No lugar da “Tristesse d’Olympio” Moscardelli construiu “II Bordello”. E que fúlgidas, novas imagens não despertou o amor nos poetas modernistas ! E que ironias, sarcasmos! Junto docarinho de Cocteau a aspereza de Salmon, a sensualidade de Menotti dei Picchia... “Estende como uma ara teu corpo; teus lábios são duas brasas queimando arómatas do teu hálito. . .

CiOOQle

Estende como uma ara teu corpo, teu ventre é um zimborio de mármore onde fulge uma estrela!”

E Picabia, dadaista, em “Pensées sans Langage” : comme une femme facile”

comovido e ingênuo:

■ mais adeante porém

“mon amie ressemble á une maison neuve”.

O amor existe. Mas anda de automóvel. Não ha mais lagos para os Lamartines do século 20!... E o poeta se recorda da última vez que viu a pequena, não mais junto da agua doce, mas na disputa da taça entre o Palestra e o Paulistano.

Novas sensações. Novas imagens. A culpa é da vida sempre nova em sua monotonia. Guilherme de Almeida continua amorosíssimo. .. pelo telefonio. E Luis Aranha endereça á querida êste

POEMA ELÉCTRICO 'Querida, quando estamos juntos vem do teu corpo para o meu um jacto de desejo que o corre como electricidade... Meu corpo é o polo positivo que pede. .. Teu corpo é o polo negativo que recusa...

Si um dia êles se unissem a corrente se estabelecería e nas fagulhas desprendidas

E Sei’gio Milliet: RÊVERIE Ne plus sentir penser ses yeux eaméléons Mais tant de pitié me fait mal Caméléon Aventurines Couleur de mer Et traitres Mais sidoux ‘J’aime ses yeux couleur d’aventurine” Quel beau sonnet je pourrais faire si je n’étais un “futuriste’’ Quatro par quatre les rimes

et deux tercets et un salut “Trois Mousquetaires” Au cinema les D’Artagnan sont ridicules et j’aime mieux Hayakawa Ah! le siècle automobile aeroplane 75 Rapidité surtout Rapidité Mais moi je suis si ROMANTIQUE

Ses yeux fies yeux ses yeux caméléons C’est bien le meilleur adjectif

E escutai mais esta obra-prima de JoãoCocteau: Si tu aimes, mon pauvre enfant, ah! si tu aimes! il ne faut pas en avoir peur c’est un inéfable desastre. II y a un mystérieux système et des lois et des influences pour la gravitation des coeurs et la gravitation des astres. On était lá, tranquillement. sans penser à ce qu’on evite et puis, tout à coup, on n’en peut plus, on est à chaque heure du jour coninie si tu descends três vite en ascenseur:

et c’est 1’amour. II n’y a plus de livres, de paysages, de désirs des cieis d’Asie 11 n’y a pour noas qu*un seul visage auquel le coeur s‘anesthésie. Et rien autour.

Aliás confessemos: a capacidade de amar dos poetas modernistas enfraqueceu singularmente. ‘‘Dizem que o amor existe na Terra. . . Mas que é o amor?”

pergunta Bialik, um dos maiores poetas hebreus de hoje. ’La femme mais 1’ironie? (1)

pergunta Cendrars, um dos maiores poetas franceses de hoje. Ninguém passa incólume pelo vácuo de Schopenhauer, pelo escalpelo de Freud, pela ironia do genial Carlito. Ninguém mais ama dois anos seguidos !

Recordo-me que Laforgue já dissera: “La femme ? — J’en sors La mort Dans 1’âme. . .

CiOOQle

A capacidade de gosar aumentou todavia ... “Jeunesse! et je n’ai pas baisé toutes les bouches!” (1)

Godofredo Benn confessa no “Rápido de Berlim” que: “Uma mulher basta para uma noite E si 6 bonita, até para duas J”

A culpa também é da mulher:

“Ahimé! tu altro non fai che sfogliare i tuoi baci!” (2)

Fosse ela mais confiante, mais conhecedora do seu papel: e os homens chegariam á mesma observação de Ruscoe Purkapile. Traduzo Edgar Lee Masters, americano: “Amou-me! Oh! quanto me amou! Não tive a felicidade de escapar do dia em que pela primeira vez ela me viu. Mas pensei, depois de nosso casamento. que ela provaria ser mortal e eu ficaria livre! Ou mesmo que se divorciasse algum dia! Poucos morrem porém e ninguém se conforma. . . Então fugi. Passei um ano na farra. Mas nunca se queixou. Dizia que tudo acabaria bemr

Luis Aragon F. T. Marinetti

que eu voltaria. E voltei. Contei-lhe que enquanto remava fôra preso perto de Vau Buren Street. pelos piratas do lago Michigan e encadeado de forma que não lhe pude escrever. Ela chorou, beijou-me, disse que isso era cruel inaudito, desunia no. Então verifiquei que nosso casamento era uma divina finalidade e não poderia ser dissolvido sinão pela morte. Eu tinha razão.

Max Jacob, no final cie seu “I)om João”, sintetiza a descarada psicologia da Corja. Depois da aparição do côro vestido com roupas de meia cor-de-rosa: “Flanelie! Flanello! Nous somnu»s encore pucelles Nous avons été m.vstifiées Mais nous allons être vengóes Flanelle! Fia nelle !

o comendador volta-se para Dom João e diz: ‘‘Vous êtes le mau vais amant !”

e Dom João confuso: “de mampte de temperament.”

E como o amor os outros assuntos poéticos. Ouvi a patria inspirando o magnífico Folgore — porventura o maior e certo mais moderno do grupo futurista italiano: “I tal ia parola azzurra bisbigliata sulf infinito da questa razza adolescente, ch’ha sempre una poesia nuova da costruire una gloria nuova da conquistare. Italia: primavera di sillabe fiorite come le rose dei giardini peninsulari, stellata come i firmamenti dei Sud fatti con immense arcate âi blú. Italia: nome nostro e dei nostri figli, via maestra dei nostro amore, rifugio odoroso dei nostri pensieri, ultimo bacio sulle nostre palpebre nel giorno che la morte serenamento verrá.

É inútil confessar que prefiro estas coisas simples, reditas e novíssimas aos latejo-em-ti altissonantes e vazios que aí correm mundo com foros de poesia.

Mas: aí está na liberdade dos assuntos a riqueza do poeta modernista: “Ecoutez-moi, je suis le gosier de Paris Et je boirais encore, s’il me piait, 1‘univers’”

dissera Apollinaire. Luis Aranha bebeu o universo. Matou tzares na Rússia, amou no Japão, goson em Paris, roubou nos Estados Unidos, por simultaneida.de, sem sair de S. Paulo, só porquê no tempo em que ginasiava ás voltas com a geografia, adoeceu gravemente e delirou. Surgiu o admiravel “Poema Giratório”. Guilherme de Almeida, êsse então transportou-se nas ondas dos livros para as praias do Egeu e escreve as “Canções Gregas”. “EPÍGRAFE” Eu perdí minha franta selvagem entre os uaniços do lago de vidro. Juncos inquietos da margem, peixes de prata e de cobre brnnido que vi\eis na vida movei das aguas, cigarras das arvores altas, folhas mortas que acordais ao passo alípede das ninfas, algas, lindas algas limpas: — si encontrardes a fiauta que eu perdi, vinde, todas as tardes,

debruçar-vos sobre ela! E ouvireis os segredos sonoros, que os meus lábios e os meus dedos deixaram esquecidos entre os silêncios ariscos do seu ventre.

Recordados de que Whitman dissera:

serão os mais espirituais de todos os poemas!”

os poetas modernistas consultando a liberdade das impulsões líricas puseram-se a cantar tudo: os materiais, as descobertas scientíficas e os esportes. O automóvel para Marinetti, o telégrafo para La Rochelle, as assembléas constituintes para o russo Alexandre Blox, o cabaré para o espanhol De Torre, Ivan Goll alzaciano trata de Carlito, Leonhard alemão inspira-se em Liebknecht enquanto Eliot americano aplica em poemas as teorias de Einstein, eminentemente líricas. E tudo, tudo o que pertence á natureza e á vida nos interessa. I)’aí uma abundancia, uma fartura contra as quais não ha leis fánias. D’aí também uma Califórnia de imagens novas, tiradas das coisas modernas ou pelo menos quotidianas: “C’est le Christ qui monte au ciei mieux que les aviateurs” canta Apollinaire; e Govoni vê o

“vecchio cliiaro di luna dolce come la spumosa ballerina

“ . . . i campanili. stagioni di telegrafia senza fili

rhe riprendono le loro interrotte comunicazioni rol cielo".

para Carlos Alberto de Araújo: “ . . . o vento rast eiro vestido de poeira..."

Não! É impossível resistir a êste repuxo de imagens. Cito por inteiro a uTempestade” “Os relâmpagos chicoteam com fúria os cavalos cinzentos das nuvens para chegar mais depressa á Terra. As trovoadas longínquas parecem caminhões cheios de agua em disparada por velhas ruas mal calçadas. E o vento rasteiro vestido de poeira passa faminto como um cão farejando a Terra...

A chuva já passou. A noite límpida é uni menino saindo detrás das montanhas. E ele vem correndo, vem correndo, alegremente, todo molhado.

Os homens assombrados jul gando-o perdido estavam ja desanimados. Mas éle vem correndo, vem correndo alegremente todo molhado.

Vem correndo... E, quando encontraos homens cheios de olhares, pára e estende os braços húmidos e vai espalhando pelo céu, cheio de orgulho, os mil pedaços ainda moveis da verde cobra fosforescente que matou nas florestas, atrás das montanhas. .

Leigh Ilenry dissera militarmente “o longínquo luzilnzir — brilhantes baionetas — das estrelas. . . ”

Wolfenstein no poema Nacht im Dorfe -confessa ingenuamente que o simples “ruido dum insecto põe-me um automovel na frente”. O tesoiro é alibabesco ! — Cantar a vida... Não ha novidade nisso ! — Concedo. O que ha é modernidade em cantar a vida de hoje.

Mas onde nos levou a contemplação do pletórico século 20 ?

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