Redescoberta da Eloquência
REDESCOBERTA DA ELOQUÊNCIA
Ao redescobrimento da Eloquência. Teorias e exemplo de Mallarmé, o errado ‘Premis reloquence et tords-lui sou rou”
de Verlaine, deliciosos poetas do não-vai-nem-vem não preoccupam mais a sinceridade do poeta modernista. Da Italia, da Rússia, da Alemanha, dos Estados Unidos, povos de sentimentos fortes, de caracteres cubistas, angulares, o verso-mélisande, o verso-flou foi totalmente banido. Aliás nunca foi preceito estético nêsses países. Mas na própria França (inegavelmente mais sutil) a eloquência profética dum Clau-
dei existe e ê apreciada. Duliamel, Salmo»,. Cendrars, Romains são eloquentes. — Abaixo a retórica ! — Com muito prazer. Mas que se conserve a eloquência filha legítima da vida. É verdade que a França ainda está muito próxima das “Fêtes Galantes” e da “Prose pour Des Esseintes”... Na Alemanha, na Rússia, na Italia a eloquência domina. Na Península ê mais questão de temperamento. Na Alemanha, na Rússia é questão de momento, de sofrimento. O alzaciano Ivan Goll, escrevendo indiferentemente em francês e allemão canta a paz: “Cadn um de nós leva o céu no peito! Gentes dos polos e do equador dai-vos as màosI Misturai-vos como as aguas dos oceanos!Inesgotáveis as geleiras do mundo, inesgotáveis os eoraqòes dos homens!”
O poeta ê alzaciano. Sente-se que ama de* igual paixão França e Alemanha. Deante dessa trapalhada de sentimentos antagônicos é natural que cante a paz. Para Marinetti e sequazes porém a guerra ê a “higiene do niun-
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do” — o que mais ou menos concorda com as ideas de Gourmont sobre as revoluções. Walter von Molo em “Spríiche der Seele” cristaliza com vivacidade a eloquência vária das falas da alma que mais psicologicamente se chamariam movimentos do sub-eu. É admirável. Em poema de poucos versos vêde a transição sugestiva: “ Inermes somos! Nào ha defesa contra os acontecimentos. Oscilamos no pulso da mina. Rompe-se a escassa posse do mundo.
O espirito olha sorrindo na esperança da vitória! l*ara èle estão sempre abertos todos os céus!
Na Rússia então reina a tumultuaria floração dos poetas bolchevistas, legítimos rapsodos, sobre os quais paira soberana a memória de Alexandre I>lox. Eis um trecho arqui-moderno de Maiaskowski: “ Camaradas. «ás barricadas!
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Ás barricadas dos corações e cias almas!. Só será verdadeiro comunista o que queimar as pontes de retirada! Nada de marchar, futuristas,. um salto para o futuro! Não basta construir locomotivas! . . . prepararam as rodas e se foram. . . 8i o canto não incendeia as estações de que vale a corrente alternada? Acumulai sons e mais sons! E para a frente a cantar, a assobiar! Ainda ha letras boas C II C II T S C H Basta de verdades sem valor! Apaga o antigo do teu coração! Sejam as ruas nossos pincéis! As praças nossas paletas!
Eu por mim não estou de acordo cour aquele salto para o futuro. Vejo Lineu a rir dalinda ignorância do poeta. Também não meconvenço de que se deva apagar o antigo. Não ha necessidade disso para continuar para frente. Demais : o antigo é de grande utilidade. Os tolos caem em pasmaceira deantp dêle e a gente pode continuar seu caminho, livre de tão nojenta companhia. ’ Maiaskowski exagerou.
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Esse exagêro é natural, justificável, direi mesmo necessário em todas as revoluções. E ainda mais por se tratar de um russo a cantar essa Rússia convulsa que permitiu a Marina 'Tsvetoiewa o belíssimo, doloroso grito: “Épocas lia em que o Sol é um pecado mortal!”
Mas não basta justificar os exageros dos poetas modernistas de Alemanha e Rússia sofredora. Não basta justificar êsses menestreis .patrióticos com as sombras de Victor Hugo, Whitman e Verhaeren. E' preciso justificar todos os poetas contemporâneos, poetas sinceros que, sem mentiras nem métricas, refletem a eloquência vertiginosa da nossa vida.
“.Je suis honteux de mentir à mon oouvre Et que mon oeuvre mente à ma vie. ” (1)
E’ justo que em 1921 Menotti dei Picchia entoe o Pean de sua victória pessoal, como foi natural que Heredia, contrapondo-se ao romantismo do sentimento, caísse no romantismo técnico do seu verso “implacablement beau”. (2)
Vildrac Goiirmont
Mas os poetas modernistas não se impuseram esportes, maquinarias, eloquências e exageros como principio de todo lirismo. Oli não! Como os verdadeiros poetas de todos os tempos, como Homero, como Vergílio, como Dante, o que cantam é a época em que vivem., E é por seguirem os velhos poetas que os poetas modernistas são tão novos. Acontece porém que no palco de nosso século se representa essa ópera barulhentíssima a que Leigh Henrv lembrou o nome: Men-in-tlie-street... Representemo-la. Assim pois a modernizante concepção de Poesia que, aliás, é a mesma de Adão e de Aristóteles e existiu em todos os. tempos, mais ou menos aceita, levou-nos a dois resultados — um novo, originado dos progressos da psicologia experimental; outro antigo, originado da intevitavel realidade: l.o : respeito á liberdade do subconsciente. Como consequência: destruição do assunto poético. 2.o: o poeta reintegrado na vida do seu. tempo. Por isso: renovação da sacra fúria.