Rapidez, síntese e polifonismo A escrava que não é Isaura · Capítulo 7 de 8
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Rapidez, síntese e polifonismo

RAPIDEZ, SÍNTESE E POLIFONISMO

Rapidez e Síntese. Congregam-se intima mente. Querem alguns filiar a rapidez do poeta modernista á própria velocidade da vida hodierna... Está certo. Este viver de ventania é exemplo e mais do que isso circunstância envolvente (pie o poeta não pode despresar. Creio porém que essa não foi a única influência.

A divulgação de certos generos poéticos orientais, benefício que nos veio do passado romantismo, os tankas, os hai-kais japoneses, o ghazel, o rubai persas por exemplo creio piamente que influiram com as suas dimensões minúsculas na concepção poética dos modernistas. (Aliás muito em sêgredo, acredito que a tradução em prosa desses admiráveis poemas das linguas pouco manejadas contribuiu para que percebéssemos que poesia era o conteúdo interior do poema e não a sua forma. E’ muito provável que a aceitação do verso livre e da rima livre provenha ao menos em parte dessas traduções em prosa). Geralmente os poetas modernistas (1) escrevem poemas curtos. Falta de inspiração? de força para ‘‘Colombos” imanes ? Não. () que existe é uma necessidade de rapidez sintética que abandona pormenores inúteis. Nossa poesia é resumo, essência, substracto. Vários poetas voltam ás vezes aos minúsculos cantarcilhos do século 15. Porém amétricos. Picabia tem varias poesias dísticas. Mas creio que Apollinaire levou para o túmu(1)

Exceptaiani-se qnasi todos os italianos.

lo a cintura de ouro com o monístico de “Alcools”. Luis Aranha passeia acaso pelo Japão, na “Drogaria de Eter e de Sombra”... D’aí ter escrito liai-kais libérrimos: “Jogaste tua ventarola para o céu Ela ficou presa no azul convertida em lua.”

Ainda a mesma dama das mansões celestes, inspira-lhe este “Epigrama á Luar ■— imagem graciosa de noite estrelada: “Odalisca. nos coxins de paina do céu, olà

tu deixaste romper o teu colar de pérolas!...” (1)

Admirável poesia de Ribeiro Couto tem 5 versos: “E cliove... 1'ina goteira. fora. como alguém (pie canta de magna

Chovia quando foste embora..

Ronald de Carvalho tem poemas minúsculos de grande beleza.

Num dos poemas de Xlayaskowski publicados pela revista inglesa "Fanfare” encontro — *’Allô! Grande Vrsa!” Os modernistas se encontram também.

Mas essa rapidez material não lios interessa tanto. Sob o ponto de vista occidental, moderno é uma das consequências apenas da rapidez espiritual que se caracteriza em nós muito mais pela síntese e pela abstracção. O homem instruído moderno, e afirmo que o poeta de hoje ê instruído, lida com letras e raciocínio desde um país da infância ein que antigamente a criança ainda não ficara pasmada siquer ante a gloria da natureza. Um menino de 15 anos neste Maio de 1922 já é um cansado intelectual. “Ela (a atenção) ê uma das condições indispensáveis para que se dê fadiga intelectual” (1). O raciocínio, agora que desde a meninice nos empanturram de veracidade» catalogadas, cansa-nos e CANSA-NOS. Em questão de meia hora de jornal passa-nos pelo espírito quantidade enorme de noticias scientíficas, filosóficas, esportivas, políticas, artísticas, mancheias de verdades, errores, hipóteses. “Le monde est trouble comme si c’êtait la fin de la bouteille” (2).

A. Mosso. P. Monind.

Comoções e mais comoções, geralmente de ordem intelectual. Defeito ? Nem defeito nem benefício.

RESULTADO INEVITÁVEL DA ÉPO-

Consequência da electricidade, telégrafo, cabo submarino, T. S. F., caminho de ferro, transatlântico, automovel, aeroplano. Estamos em toda parte pela inteligência e pela sensação. Dá-se em nós um movimento psicológico diário, exactamente inverso ao inventado poiWilliam James. Diz o fantasista yankee'. Vemos um lião. Nosso corpo treme Resultado consciente do tremor: Temos medo.

É o contrário conosco: Lemos “Paris”. Nossa memória evoca: Paris ! Resultado sensitivo da evocação; Andamos no boulevard des Capucines,. Mas deixemo-nos de sorrir ! O que não é sorriso:

O homem moderno, em parte pelo treino quotidiano, em parte pelo cansaço parcial intelectual (J), tem uma rapidez de raciocínio muito maior que a do homem de 1830. Dois resultados disso: 1. " — Uma como que faculdade devinatoria que nos leva a afirmações aparentemente apriorístieas mas que são a soma de associações de ideas com velocidade de luz. (A conhecida metáfora do raio de luz no cerebro não é mais do que isso. E o homem moderno sente mais frequentemente essas “IIluminations”, porquê raciocina mais rápido) (K). 2. ° — Usamos constantemente a síntese suprema (1), ultra-egipcíaca e consequentemente a utilização quotidiana, na poesia modernista, da abstraccão, do universal (L),

Ainda aqui unia “iluminação” de Rimbaud veio afinal a resolver-se numa verdade «científica. Os menos ignorantes recordar-se-ão de que na “Alquimia do Verbo” êle confessa apreciar pinturas de casas de comercio, anúncios etc. Estou convencido de

L^ooQle

O catedrático, enchinesado no sen ostracismo ensimesmal olha poi’ acaso de uma das janelas de sua prisão voluntária e vê no asfalto o novo menestrel que passa a cantar palavras soltas e verbos no infinito... E, como professor que ensina e está constumado a imaginar tudo bem ensinadinho — o motivo lírico e a limpesa das unhas — escachoa: — É louco ! burro ! ignorante ! cabotino ! Em última analise o catedrático tem razão, coitado ! Para êle somos cabotinos, ignorantes, burros, loucos — embora estas... qualidades não possam andar juntas. O mal do professor foi não seguir o conselho de Duhamel: tions de tontos espècos; il y a dans les rues. sur ]es

enseignes, partout: Epicerie en gros. Docteur médecin, Maladies des yeux, Défense d’afficlier. . . 11 ne famlrait pas croire qu'il y ait là une forme inférieure du langage; ces indications ont un rôle immense dans la vie. et exercent une influenee sensible sur le développeinent de la langue. Depuis de XIXe siècde surtout elles contribuent fortement aux cliangements du lexique. à cause de leurs besoins propres. Elles ne sont pas non plus sans action sur la syntaxe, par les réductions auxquelles les obligent les places, les prix et la necessité d’etre lues d'un coup d’oeil; c’est un style télégrapliique d'un autre genre, qui a ses règles obscuros, dont la principale est de faire le plus d’effet avec le moins de mots possibles. ” Ha nestas frases toda a expressão de uma técnica muito usada entre os modernistas de todas as artes.

“Laissez en paix cet liomme là Puisqifil 11’est pas de votre race! Ne riez pas de sou langage Que vous ne savez point aimer!”

E não vos lembrais de Gerónimo Coignard ? “Mon fils, j’ai connu trop de sortes de personnes et traversé des fortunes trop diverses pour m’étonner de rien. Ce gentilhomme parait fou, moins parce qu’il l’est réellement que parce que ses pensées diffèrent à 1’excès de celles du vulgaire.” Lembro agora apenas uma outra feição da poesia modernista — feição derivante do emprêgo directo do subconsciente. Consiste ela em pretender realizar estados cenestésicos (1). O poeta, habituado a deixar-se levar pelo eu profundo tão dependente do estado físico,, consegue á medida do possivel, já se vê, grafar certos instantes de vacuidade em que ha como que um eclipse quasi total da reacção intelectual. Resulta disso uma espécie de poesia mui-

to mais pampsíquiva que própria mente cenestesica Excelentes no gênero: os dadaistas, os exdadaistas e os que se aproximam dos dadaistas. Tzara. Helène Bongard. Eluard. Soupault, Aragon. Lasso de la Vega. etc. De Picabia: ‘ Tie-Ta

ira

“vent p

Outra morte por onde o liermeticismo nos surpreende e desgraça? Não creio. Tais “lirismos” podem ser excelentes mas a êles se confinarão apenas os (pie vivem em perpétua revolta.

SIMULTANEIDADE

Obrigado por insistência de amigos e dum inimigo a escrever um prefácio para “Paulicéa Desvairada” nele despargi algumas considerações sôbre o Harmonismo ao qual milhormente denominei mais tarde Polifonismo. Desconhecia nesse tempo a Simultaneidade de Epstein, o Simultaneismo de Divoire. Até hoje não consegui obtei* legítimos esclarecimentos sobre o Sincronismo de Marcelo Fabri. Creio porém ser mais um nome de batismo da mesma criança. Sabia de Soffici que não me contenta no que chama de Simultaneidade. Conhecia as teorias cubistas e futuristas da pintura bem como as experiências de Macdonald Right. Quero dizer apenas que não tenho a pretenção de criar coisa nenhuma. Polifonismo é a teorização de certos processos empregados quotidianamente por alguns poetas modernistas. Polifonismo e simultaneidade são a mesma coisa. O nome de Polifonismo caracteristicamente artificial deriva de meus conhecimentos musicais que não qualifico de parcos, por humildade.

— ss —

Sempre me insurgi contra essa afirmativa muito diária de que a música é a mais atrasada das artes. Inegavelmente no princípio, escravizada á palavra, tivera uma evolução mais lenta. Mas isso era natural. Sendo a mais vaga e a menos intelectual de todas as artes fatalmente teria uma evolução mais lenta. Os homens pouco livres ainda em relação á natureza tinham compreendido as artes praticamente como IMITAÇÃO. A música não imitava de modo facilmente compreensível a natureza. D’aí apezar do prazer todo sensual que distilava, da preferencia em (pie era tida, de seu lugar preponderante e indispensável nas funções de magia e religião, o estar sempre esclarecida, tornada inteligível pela palavra. Apenas a técnica se desenvolvia. E esta mesmo, sem princípios espirituais de que fosse consequência, via-se embaraçada em crescer sozinha. Chegara a música no entanto desde Palestrina e Lassus a uma perfeição técnica extraordinária. Libertada da palavra, em parte pelo aparecimento da notação medida, em parte pelo desenvolvimento dos instrumentos solistas, conseguiu enfim tornar-se MÚSICA PURA,

ARTE,

liada mais. Foi então que apareceram os dois mais formidáveis artistas, unicamente artistas, que a Terra produziu: João Sebastião Bach e Mozart. Mas decai em seguida procurando de novo a imitação. Beetlioven é o mais formidável grito dessa decadência funestissima. A segunda fase do genio-heroi é o mais pernicioso golpe que nunca recebeu a arte do som. Beethoven abandonou a música arquitectura sonora para criar a música mimésica, anedótica. Mas com João Sebastião e Mozart ela já alcançara a suprema perfeição artística. São êstes homens os 2 tipos mais perfeitos de criação subconsciente e da vontade de análise que cria euritmias artísticas de que a natureza é incapaz. Essa criação subconsciente e a préocupação unica da beleza artística Mozart as confessou deslumbra dor a mente nas suas cartas. Bacb não deixou confissões. Mas a menos importante das suas fugas demonstra a estesia de que êle se serviu. No século 18 a música já realizara a obra de arte, como só seria definida duzentos anos depois :

LiOOQle

A OBRA DE ARTE É UMA MAQUINA DE PRODUZIR COMOÇÕES. (1) E só conseguimos descobrir essa verdade porquê Malherbe chegou. O Malherbe da história moderna das artes é a cinematografia. Realizando as feições imediatas da vida e da natureza com mais perfeição do que as artes plásticas e as da palavra (e note-se que a cinematografia é ainda uma arte infante, não sabemos a que apuro atingirá), realizando a vida como nenhuma arte ainda o conseguira, foi ela o Eureka! das artes puras. Só então é que se percebeu que a pintura podia e devia ser unicamente pintura, equilíbrio de cores, linhas, volumes numa superfície; deformação sintética, interpretativa, estilizadora e não comentário imperfeito e quasi sempre unicamente epidérmico da vida. Só então é que se poude compreender a escultura como dinamismo da luz no volume; o

Esta definição está completa para as pessoas “EspritNouveau". Aqui no Brasil é preciso que se entenda que as comoções são de ordem artística. Edgardo Poe já observara, na Filosofia da Composição, que construira O Corvo com a precisão e a rigidez dum problema de matematicas.

caracter arquitectural e monumental da sua interpretação.

Só então é (pie se percebeu que a descrição literária não descreve coisa nenhuma e que cada leitor cria pela imaginativa uma paisagem sua, apenas servindo-se dos dados capitais que o escriptor não esqueceu. Só então é que no teatro se ponde imaginar o abandono de todos os enfeites com que o conduzira ao mais alto romantismo da decoração a influência perniciosa do bailado russo. É verdade que a decoração teatral, principalmente na Alemanha e na Rússia e algumas vezes em França e Italia, caiu sob a influência cubista — a mais torta tolice a que podería atingir uma orientação direita. E estou falando de decoração. Deveria falar do drama. Mas um Copeau na França, um Schumacher na Alemanha corroboram com as suas decorações e enscenações para que o drama volte de novo ao que foi na antiguidade, ao que poderiamos tomisticamente chamar o abandono do princípio de individuação accidental pelo princípio imaterial. Descobriu-se de novo o teatro metafísico. E finalmente só então ê que se observou que a música já realizara. 2 séculos atrás.

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-êsse ideal de arte pura — máquina de comover por meio da beleza artística. Aliás, antes mesmo desta verificação, no fim do século passado, já certas artes se sugeitaram repentinamente á música por tal forma que cairam na terminologia musical e numa preocupação exagerada de musicalidade que ainda por muitas partes perdura. Erro grave. Mais grave (por mais facil de se popularizar), embora menos esteril, que o das vogais coloridas de Rimbaud. Aliás Taine com segurança profética exclamara: “Em 50 anos a poesia se dissolverá em música”. A musicalidade dissolveu grande parte da poesia simbolista. Epígonos dessa erronia : Maeterlinck, René Ghil. A musicalidade encanta e sensualiza grande parte da poesia modernista (1), (2). Escutai este solo de frauta por Palazzeschi : LA FONTANA MALATA

Clof, clop, cloch, cloffete, cloppete,

É um dos maiores defeitos de “Paulicéa Desvairada”. Ha musicalidade musical e musicalidade oral. Realizei ou procurei realizar muitas vezes a primeira com prejuizo da clareza do discurso. "O artista, ao qual a finalidade de sua arte não seja música, está na fase do «boneco.” — G. Hauptmann.

clocchete, chchch... E’ giú nel cortile la povera fontana malata, che spasimo sentiría tossíre! Tossisce, tossisce, un poco si tace di nuovo tossisce. Mia povera fontana, il male che ái il core mi preme. Si tace, non getta piú nulla, si tace, non s’ode romore di sorta, che forse. . . che forse sia morta? Che orrore!

Ah, no! Rieccola, ancora tossisce. CJof, clop, clocli, cloffete, cloppete, cioceliete, clichcli. . . La ti si vli(-cide. I)io santo, quel suo (‘terno tossire mi fa morire, 1111 poco va bene, ma tanto! Che lagno! 31a Habel Vit t oria! Correto. chiiidete la fonte, mi uccide quel suo (‘terno 1 ossire! A mia te, 111 (‘t t (‘t e

qiialcosa

per faria finire, magari. . . magari mor ire Madonna! Gesú! Non piú non piú? Mia povera fontana col male elie ái finisei vedrai me pure.

Escutai a viola de Cocteau : BERCEUSE

“11 est une heure du ínatin. Dors ma petite innocente. Da terre est un vieux soleil et la lune une terre morte. Dors ma petite innocente. Je ne te parlerai jamais des ÉloTm, ni de la Ka baile, ni de Moíse, ni de Memphis, ni du secret des hyéropliantes. Dors, ce ifest pas la peine, un bourru sommeil enfantin.

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L’homme. il est nó lorsque déjà bien mal allait la terre. II est né parce que la terre allait bien mal. II est né d’nn refroidissement planetaire. Dors. Tout ce printemps qui te prepare un reveil oü les oiseaux se frisent la la.ngue, qu’as-fu besoin de savoir qu'il est une vermine de la décrepitude florissante? Dors ma petite innocente. Le solei 1 se prodigue (et ses traits ne sont pas formes) avec Fentliousiasme de 1’adolescence. Et pour, un jour. prendre sa place. dos nébuleuses se condensou t. Dors. La lune inerte et son Alpe inerte et ses golfes inertes promènent sons les projecteurs, un cadavre définitif. Dors. Le peuple des iplamètes sensibles s’entrecroise, entra 1né dans le noir mélodieux c.v clone du néant. Voir mourir un monde est pour un monde une vasto blessure impuissante. Dors ma petite innocente. Le feu se rétrécit, se pelotonne. et la dernière flamme. par 1’orifice d’un volcan, s'ecliappe et c’est fini.

La terre. elle a flamboyé de toutes ses forces, mais peu à peu. el.le a senti diminuer. diminuer son feu. Une croüte épaisse et froide enferme le feu. II tente de la vaincre et il la crève ou il peut. Et il y eut Ia nature à sa surface vieillissante. Dors contre ton conde, ô ma petite innocente. Et il y eut la nature, et il y eut 1’homme et Fanimal, comuie sur un visage déclinant. le halo se résorbe et les traits s’affirment et la résignation placide apparait. Dors, je ferai vibrer pour foi les planètes qui te dirigent. Et Júpiter par le B et par l’OU Et Saturno par l’S et pai’ VAI

Original fronrí

Et j’embrasserai tos pieds et tes gcnoiix. O Pen-tagramme! o Serpentine! Étain de Júpiter sacral! Orchestre éolien de.s anncaux de Saturno! Géometrie incandescente !

Júpiter: loi. Saturno: inort. Je regarde ton clier naif profil qui dort. Dors, ô ma petite innoconte.

Entre americanos então, de posse de uma lingua admiravelmente musical e honomatopáica, já se procurou até realizar por meio da palavra a sensação sonora e rítmica dos trechos musicais. Quando a pretensão não é assim esteril, atingem maravilhas. Procurei traduzir um admirável poema da poetisa Amv Lowell. Chamo a atenção para a mudança rítmica operada no momento em que o peixe cansado de saltai’ e brincar toma rumo e parte em linha longa. Fôrça é confessar que para não desrespeitar as intenções d;ç artista fugi um pouco do que ine ensinaram os dicionários bilingues. DELFIM NA AGUA AZUL Vá ! Murinulliando salta ! Agua azul Agua rosca Turbilhona, pincha, .flutua, focinha no vácuo da vaga,

mergulha, volteia, encurva por baixo por cima... Corte de navalha e se afunda... Rola, revira, enrecta-se e espirra no céu, todo rosadas, flamantes gotinhas... Anela-se no fundo Pingo Focinho para baixo Curva Cauda Mergulha e se vai... Como bolhas leves de agua azulada, leve, oleoso cobalto. coleante, líquido lapis-lazuli, (-ambiantes esmeraldinas, pinceladas de róseo e amarelo, escorregues prismáticos sob o céu de ventania...

Mas o preconceito que leva a mesma poetiza a traduzir valsas de Bartok ou Lindsays a transcrever em palavras um rag-time é tomar o galo pela aurora. Cada arte no seu galho.

Os galhos é verdade entrelaçam-se ás vezes. A árvore das artes como a das sciéncias não é fulcrada mas tem rama implexa. O tron-

co

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arte musical italiana. Admiro e estudo Uidobro e Unamuno. Os Estados-Unidos me entusiasmam como se fossem pátria minha. Com a aventura de Gago Coutinho fui português. Fui russo durante o Congresso de Gênova. Alemão no Congresso de Versalhes. Mas não votei em ninguém nas ultimas eleições brasileiras. — Traidor da patria ! — Calabar ! — Anti-brasileiro ! — Nada disso. Sou brasileiro. Mas além, de ser brasileiro sou um ser vivo comovido a que o telégrafo comunica a nénia dos povos ensanguentados, a canalhice lancinante de todos os homens e o pean dos que avançam na gloria das sciéncias, das artes e das guerras. Sou brasileiro. Prova? Poderia viver na Alemanha ou na Áustria. Mas vivo remendadamente no Brasil, coroado com os espinhos do ridículo, do cabotinismo, da ignorância, da loucura, da burrice para que esta Piquirí venha a compreender um dia que o telégrafo, o vapor, o telefonio, o Fox-Jornal existem e que A SIMULTANEIDADE EXISTE (N). E lembrar que Whitman, ha um século atrás, profetizara a simultaneidade nas estâncias do Song of Myself !...

E lembrar que muito antes de Walt Whitman, mas muitíssimo antes, a multiplicidade dos pensamentos de Job préocupara um dos seus amigos ! E no entanto é bem de supor que a Baldad não atraísse a resolução de problemas estéticos nem realizações artísticas. Mas não está lá, no Livro, esta sua pergunta admirada ?: “Até quando falarás semelhantes coisas e as palavras de tua boca serão um espirito multiplicado” t

Humanidade difícil de entender ! Por seu lado a psicologia verifica a simultaneidade. Lembrai-vos do que chamei “sensações complexas”. A sensação complexa que nos dá por exemplo uma sala de baile nada mais é que uma simultaneidade de sensações (O). Olliar aberto de repente ante uma paisagem, não percebe primeiro uma árvore, depois outra árvore, ■ depois outra árvore, depois um cavalo depois um homem,

depois uma nuvem, depois um regato, etc., mas percebe simultaneamente tudo isso. Ora o poeta modernista observando êsse fenômeno das sensações simultâneas interiores (sensação complexa) pretende ás vezes realizal-as transportando-as naturalmente para a ordem artística. Denominei êsse aspecto da literatura modernista: POLIFONIA POÉTICA. Kazões : Simultane idade é a coexistência (le coisas e factos num momento dado. Polifonia é a união artística simultânea de duas ou mais melodias cujos efeitos passageiros de embates de sons concorrem para um, efeito total final. Foi esta circunstancia do EFEITO TOTAL FINAL que me levou a qscollier o termo polifonia. Si cantarem a Canção do Aventureiro e Vem-cá-Bitú, dois cantores ao mesmo tempo, não temos artisticamente polifonia mas cacofonia. Ha simultaneidade mas realística, sem crítica, sem vontade de análise e consequente-

mente sem euritiuia — qualidade imprescindível do facto arte. Dois dansarinos, num pas de deux, ela em ritmo de valsa, êle em ritmo de polca, ela classicamente vestida, êle de calça, colête e paletó... Existe simultaneidade. Não existe polifonia (num sentido já translato) porque não houve intenção de efeito total final, nem euritmia. Ora a não ser música e mímica, nenhuma outra arte realiza realmente a simultaneidade. Esta palavra (como polifonia) está empregada em sentido translato. Foi levado por essa observação talvez que Epstein, embora reconhecendo nos poetas modernistas a pretenção de realizar a coisa, desconheceu o valor da simultaneidade e proclamou-a irrealizável. Não ha tal. O que ha é um transporte de efeito. Á audição ou á leitura de um poema simultâneo o efeito de simultaneidade não se realiza em cada sensação insulada mas na SENSAÇÃO COMPLEXA TOTAL FINAL.

E isso nem é novidade. Já existia. Em todas as artes do tenifio sem a soma total de aetos successivos de memória (relativo cada um a cada sensação insulada) não podería haver compreensão. Mesmo num soneto passadista é a sensação complexa total final provinda dessa soma, que determina o valor emotivo da obra. Uma diferença: Num soneto passadista dá-se concatenaçãode idéas: melodia. Num poema modernista dá-se superposição de ideas: polifonia. Eis um exemplo característico desta superposição dado por Ronald de Carvalho : “Um pingo (Tagua escorre na vidraça. Rapida, uma andorinha cruza no ar. Uma follia perdida esvoaça, esvoaça.. . A chuva cái devagar.

É típico, como exemplo de simultaneidade psicológica. Todos êsses valores são conhecidos, mais que sabidos. Não despertam mais

Mas donde vem êsse estado de alma em que fi.camos ao terminar o poema? estado de alma que é paz, que é sossêgo e solaçosa felicidade ? É que o poeta, escolhendo discrecionariamente (crítica, vontade de análise para conseguir euritmia e Arte) discrecionariamente alguns valores pobres não se preocupou com a relativa pobreza dêles mas sim com a riqueza da sensação complexa total final. E é na verdade um Poeta, isto é, conseguiu o que pretendia.

Mais exemplos ? Nicolau Beauduin criou para realizar a simultaneidade os poemas de tres planos. Tentativa curiosa. Cito um dos trechos que me pareceram mais burguesmente compreensíveis. Na realidade aqui o poema está no plano central. Os outros dois planos são associações nascidas, si assim poderei dizer, simultaneamente ou por outra, ideas relativas surgidas cm corimbo — cachos de ideas. O defeito de Beauduin foi fixar tres planos. Não ha uma base psicológica que determine êsse numero 3. Os planos podem ser em maior número. Por:quê não ?

Au liou dos Parthenons sous les oliviers

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Fragmento de “U Ville” no livro “L'Homme Cosmo goniqne. ”

Eis unia impressão simultânea de Felipe Soupault : DIMANCHE I/avion tisse les fils télégraphiques et la source chante la même chanson Au rendez-vous des cochers 1’apéritif est orangé mais les mécaniciens des locomotives ont les yeux blancs la dame a perda son sourire dans les bois

E, para terminar estes exemplos, lembrome de Luis Aranha. É entre nós, o que milhor percebeu a simultaneidade exterior da vida moderna. Não procura realizada propriamente nos seus versos, mas a vive e sente com uma intensidade singular entre nós. Egolatra, egocêntrico e contraditoriamente panteista. Sinais dos tempos. Radiosamente orgulhoso do seu eu mas esse eu reflete os aspectos simultâneos universais. “Sou o centro!” exclama no “Poema Pitágoras”, mas já no “Crepúsculo”, fazendo lembrar Cendrars (1), lembrar Cocteau (2) e o próprio Francis Jammes que já se dissera burro (animal) canta:

”... mi aeroplane qui tombe C\‘st moi.” ”... fetais boeuf.”

“Sou um trem I’m navio I’m aeroplano. . . etc.”

para no mesmo “Poema Pitágoras”, sintetizar num dos seus mais lindos versos, a estranha raridade moderna de reviver um homem na sua sensação as sensações universais: “A Terra é uma grande esponja que se embebe das tristezas do Universo

Meu coração é uma esponja que absorve toda a tristeza da Terra ”

Luis Aranha é já um filho da simultaneidade contemparánea. Estou convencido que a simultaneidade será uma das maiores sinão a maior conquista da poesia modernizante. No seu largo sentido poder-se-á dizer que é empregada por todos os poetas modernistas que seguem a ordem subconsciente. A alguns porém ela “preocupa especialmente como a Beauduin, a Cendras etc. Êstes procuram entre pesquizas mais ou menos eficazes a forma em que ela milhormente se realize. Procuramos! Esforçamo-nos em busca duma forma que objective esta multiplicidade interior e exterior cada vez mais

acentuada pelo progresso material e na sua representação máxima em nossos dias. Talvez esforço vão... Talvez quimera... Que importa ? Tende piedade dos inquietos! dos que procuram, e procuram ardentes, e procuram morrendo, atraidos (eterna imagem) por : “1’Impossible centre attractif oü nos (lestins gravitent ”. . .

Encerro meu assunto. Noções gerais. Mesmo muitas vezes abandonadas. O impressionismo construtivo em que nos debatemos é naturalmente uma florada de contradições. E mesmo os poetas que ein Itália, França, Brasil, Alemanha, Rússia etc. caminham por esta mesma estrada de construção que levará a Poesia a um novo período clássico não seguem juntos. Uns mais adiante. Outros mais atrás. Outros perdem-se nas encruzilhadas. E será preciso dize-lo ainda ? Marinetti que muitos imaginam o cruciferário da procissão, vai atrasadote, preocupado em sustentar seu futurismo, retórico ás vezes, sempre gritalhão.

Mas lá seguimos todos irmanados por um mesmo ideal de aventura e sinceridade, escoteiros da nova Poesia. Não mais irritados 1 Não mais destruidores ’ Não mais derribadores de ídolos ! Os passadistas não conseguem tirar de nós mais (pie o dorso da indiferença. O amor esclarecido ao passado e o estudo da lição histórica dão-nos a serenidade. A certeza duma ânsia legítima, dum ideal, scientifico, dá-nos o entusiasmo. E é revestidos com o aço da indiferença, os linhos da serenidade, as pelúcias do amor, os setins barulhentos do entusiasmo, que partimos para o oriente, rumo do Ararat. É desse lado que o Sol nasce. Mas não é só por causa do Sol que partimos ! É pela felicidade de partir, pela alegria de nos lançarmos na Aventura Nova ! É pela gloria honesta de caminhar, de agir, de viver ! Deliciosa ante-manliã ! E olhar rapidamente para trás, só para sorrir, vendo a noite dilacerar-se em clarões de incêndio. É que no ponto donde partimos ficaram outros tantos moços, atoleimados, furibundos. preocupados em carrear tinas infecundas

Gooq Ic

de agua fria. Araras ! Insistem ainda em apagar o incêndio cujas garras nervosas, movediças pulverizam fragorosamente as derradeiras torres de marfim. Ao rebate dos sinos que imploram a conservação das arquitecturas ruidas respondemos com o “Larga !” aventureiro da 'ida que não para.

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