Analogia e subconsciente
ANALOGIA E SUBCONSCIENTE
Parêntese:
Um dos maiores perigos da poesia modernista é a analogia e sua irmã postiça a paráfrase. A sensibilidade moderna, antes hipersensibilidade, provocada pelos sucessos fortes continuados da vida e pelo cansaço intelectual tornou-nos uns imaginativos de uma abundância fenomenal. Para evitar chavões
Sérgio Milliet claudica no poema que citei atrás ao substituir a música executada pelo jazz, por “Sensibilité du rythme blasé”. É defeito que devia ser extirpado em poesia tão perfeita. Cito agora um delicioso poema de Guilherme de Almeida, do grupo “Sugerir”, em que o poeta substitui a causa, da sensação pelo efeito subconsciente. Analogias finíssimas (F). BAILADO RUSSO A mão firme e ligeira puxou com força a fieira, e o pião fez uma elipse tonta no ar, e fincou a ponta no clião.
É um pião com sete listas de cores imprevistas. Porém, nas suas voltas doudas, não mostra as cores todas que tem. Fica todo cinzento no ardente movimento. E até parece estar parado,
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toso, paralisado, de pé.
Mas gira. Até que aos poucos. em torvelins tão loucos assim. já tonto bamboleia, e bambo, cambaleia. .. Enfim
tomba. E, como uma cobra, corre mole e desdobra então em hipérboles lentas sete cores violentas no chão.
Isto chama-se Bailado Russo... Substituição da ordem intelectual pela ordem subconsciente. Esse um dos pontos mais incompreendidos pelos passadistas. Entre os proprios poetas que poderiam ser qualificados de modernizantes reina contradição. Nem todos seguem o processo. Na Itália por exemplo, a não ser o grande Folgore, o Soffici dos “Quimismos Líricos” e mais algum raro exemplo, a lógica intelectual é romanticamente respeitada. Entre nós muitos não a abandonaram.
Na verdade: tal substituição duma ordem por outra tem perigos formidáveis. O mais importante é o hermeticismo absolutamente cego em que cairam certos franceses na maioria de seus versos. Erro gravíssimo. E falta de lógica. O poeta não fotoyrafa o subconsciente. A inspiração é que é subconsciente, não a criação. Em toda criação dá-se um esforço de vontade. Não pode haver esforço de vontade sem atenção. Embora a atenção para o poeta modernista se sujeite curiosa ao borboletear do subconsciente — asa trepida que se deixa levar pelas brisas das associações — a atenção continua a existir e mais ou menos uniformiza as impulsões líricas para que a obra de arte se realize. Surbled diz admiravelmente: “Força é reconhecer, no entanto, que, si o subconsciente deixa-se levar por mil afastamentos, nem por isso o fio que o liga á inteligência se rompeu. Foi apenas encompridado. () mínimo esforço de atenção é o suficiente para que o espírito colha as rédeas e obrigue o sub-eu a obedecer ao eu”. (E é por isso que nossa poesia poderá chamar-se de psicológica e subconsciente sem que deixe de ter um tema principal, um assum-
to que originado do moto-lírico inicial volta sempre a êle ou continua integral pelo esforço da atenção.)
A reprodução exacta do subconsciente quando muito daria, abstracção feita de todas as imperfeições do maquinismo intelectual, uma totalidade de lirismo. Mas lirismo não é poesia. O poeta traduz em linguas conhecidas o eu profundo. Essa tradução se efectua na inteligência por um juizo, pelo que é na realidade em psicologia “associação de ideas”. O poeta modernista usa mesmo o máximo de trabalho intelectual pois que atinge a abstração para notar os universais. (Muito mais por esse lado é que Epstein podería afirmar que abandonaramos a inteligência em proveito dessa mesma inteligência.) É preciso pois combater sem quartel o hermeticismo. Não quero porém significai’ com isso que os poemas devam ser tão chãos que o caipira de Xiririca possa compreende-los tanto como o civilizado que conheça psicologia, estética e a evolução histórica da poesia.
Voltemos á ordem do subconsciente. Uma pessoa desinstruida nas teorias modernistas horroriza-se ante a formidável desordem das nossas poesias. — Não ha ordem ! Não ha concatenação^ de ideas ! Estão loucos ! (Houve já quem tomasse a sério essa acusação de loucura e provasse inutilmente, meu Deus! as diferenças fundamentais entre a literatura dos modernistas e a dos alienados. Foi vaso único. Em geral nós nos rimos dessa acusação. Deu-nos apenas motivos para mais lirismo. “Sui- une pierre ou nage un acacia pâle et mi^non un cubiste m'a dit que jetais fou”
saltita Picabia. E Palazzesclii em “Chi sonoT “Chi sono? Son forse un poeta? No, certo. Non scrive Hie una panda ben strana la penna delfunima mia: FOLIJA.
Max Jacob esse então construiu numa das paginas mais btdas de toda a sua obi a o As\le des Dégénérés Supérieurs de Flammanville...)
Mas, oli bem-pensantes! é coisa evidente: NÃO SOMOS LOUCOS... Essa falta de ordem é apenas aparente. Substituiu-se uma ordem por outra. E isso apenas nos trabalhos de ficção a que milhormente cabe o nome de jioesia, quer sejam em verso, quer em prosa. E não é consequência justa? Seria possível dar uma ordem, uma lógica intelectual, uma concatenação de idéas, uma retórica ás impulsões do eu profundo, a que não rege NENHUMA DETERMINAÇÃO INTELECTUAL QUE INDEPENDE DE NÓS MESMOS É IMPESSOAL E ESTRANHO ? (1) Nisso estaria o contrassenso, ESTARIA O ÊRRO. Não houve destruição de Ordem, com cabí outra. Assim, 11a poesia modernista, não se dá, na maioria das vezes concatenação de ideas mas associação de imagens e principalmente: SUPERPOSIÇÃO DE IDÉAS E DE IMAGENS. Sem perspectiva nem lógica intelectual.
Ribot.
Mas o éforo parnasiano nos lê e zanga-se* por não encontrar em nossos poemas a lógica intelectual, o desenvolvimento, a seriação dos. planos e mais outros Idola Theatri. Mas se procura no poema o que nêste não. existe! Não somos vates palacianos ! Não somos poetas condutícios ! Nossos versos não são feitos de encomenda! (G).
Vivem a dizer que tudo queremos destruir. .. E’ mentira. Esse período revolucionário já passou. A cada destruição do fim do século passado opomos um novo princípio: Á destruição do verso pelo poema em prosa, preferimos, escolhemos o já existente Verso Livre. A destruição da sintaxe, a Victoria dóDicionário. A destruição da ordem intelectual, a Ordem do Subsconsciente. Não fixamos, não colorimos, não matamos as células constitutivas da sensibilidade, para observa-las. A ultra íhicroscopia da liberdade aparentemente desordenada do subcons-
Derivada dêsse princípio da Ordem Subconsciente avulta na poesia modernista a associação de imagens. Para alguns mesmo parece ela tornar-se uma norma fundamental. Outro êrro perigosíssimo.
É a mesma confusão de Marinetti: o meiopelo fim. Inegável: a associação de imagens é de efeito esfusiante, magnífico e principal mente natural, psicológica mas... olhai a cobra entre as flores: O poeta torna-se tão hábil no manejo dela que substitúi a sensibilidade, o lirismo produzido pelas sensações por um simples, divertidíssimo jôgo de imagens nascido duma inspiração única inicial. E’ a lei do menor esforço, é scismar constante que podem conduzir á ruína. Além disso: pode tornar-se consciente,, provocada, procurada, e nesse caso uma virtuosidade. Aqueles dentre nós que estão mais perto dêsse abismo são: Sérgio Milliet, Luis Aranha. Deixo-lhes aqui êste aviso para que não caiam na virtuosidade — indumentária brilhante com que os sentidos traidores escondem o ôgre odiado do sentimentalismo. Campoamor e Banville são igualmente sentimentais. Mostro um passo impagavel da obra de Luis Aranha, extraído do “Poema Giratório”’
CiOOQle
— que aliás não é construído unicamente assim : Eu morria de dieta no hospital Emprestavam-me livros franceses e ingleses Um dia uma revista Conhecí então Cendrars Apollinaire Spire Vildrac Duhamel Todos os literatos modernos Mas ainda não compreendia o modernismo Fazia versos parnasianos Aos livros que me davam preferia viajar com a imaginação Paris Bailarinas de café-concerto rodopiando na ponta dos pés Ou então a casa de um chinês esquecí mento da vida Antro de vícios elegantes Morfina e cocaína em champanha Opio Ilaschich Maxixe Todas as danças modernas Doente perdí um baile numa sociedade americana de S. [Paulo Minha cabeça girava como depois de muito dansar E o mundo é uma bailarina de vermelho rodopiando na [ponta dos pés no café-concerto universal
Gosto de bailes de matinées E os jornaes trazem anúncios de chás dansantes
La Prensa diz ‘A Argentina proibiu a exportação de trigo" Nova lente no observatorio de Buenos-Aires Estudo astronomia numa lente polida por Spinosa ,111 deu Lma sinagoga nos Andes Não sei se a Cordilheira cái a pique sobre o mar Santiago E os barcos de minha imaginação nos mares de todo o mundo. . . "
Delirante de graça. Direi mais: é admiravel. É perigosíssimo . Devemos nos precatar contra o verme do mau romantismo (II) (pie todo homem infelizmente carrega no corpo — esse túmulo, como lhe chamou Platão (I).