Caso Pançudo
CASO PANÇUDO
1918 [1943]
a Pio L. Corrêa
Nhô Resende era dono de propícias terras lá para as bandas de Apiaí. Não se importava com o café pois a porcada e as plantações de arroz iam-no mais do que arranjando enriquecendo. Seus campos marginavam a Ribeira em doce aclive onde as reses ruminavam distraindo a monotonia dos pastos sob a arrogância ouriçada dos pinheiros. Mais para o alto fugindo aos alagadiços a mata recobria a crista das colinas. Na filigrana das ramagens os macacos e os tucanos em convívio anunciavam com a matinada loquaz cada novo dia sempre portador de novo lucro e bem-estar.
Há quinze anos já que nhô Resende se afazendara naquelas paragens preferindo buscar no chão da terra esteio mais seguro que o das filosofias aderentes às cartas de bacharel. Entre o rubi e a enxada optara pela segunda desgostando a coronelice ingênita do pai mas a preferida lhe dera os orgulhos da honestidade e a serena paz dos patriarcas. Também entre a pianista de alameda paulistana, chopinizada de alma e corpo, e a cabocla aguentada nas aleivosias do clima, endireitara para o amor desta mais submisso e mais virgem. E o nono filho aí estava como a nona exceção à gente amarelecida que os rodeava, rijo sacudido crestado sujo lindo olhos inquietos.
— Chiquinho, sai daí, peste! Eu te bato, hein!
Mas Chiquinho tinha apenas três anos, duvidava ainda da argumentação das palmadas e enrodilhava-se à perna do pai puxando-o.
— Quê que ocê qué, minino!
— Vem, papai! vem…
— Olha só o tal! Então você pensa que vou te servir de ama-seca… Tá solto!
— Vem papai, bicho… e a voz fazia-se suplicante no pedir.
— Aonde é que tu me leva, minino!
— Bicho!…
— Tá bom: vamo vê o tal bicho…
E largando a navalha que afiava carregou Chiquinho nos braços, dirigiu-se ao portal.
Mesmo embaixo dos degraus de pedra que escachoavam para o terreiro uma linda porca negra de malhas brancas deliciava-se devorando avencas e begônias.
— Ora dá-se! Não é que a porca do Felipão tá aqui outra veiz! Ocê gostou da passeata, sua fia-da-mãe! Espera um pouco que já te dou comida pra ocê comer!
E ao filho que saía do paiol:
— Martinho, acerca daí! Não deixe ela fugir.
Largou o Chiquinho no patamar. Dum salto, como prova ainda do vigor e elasticidade dos músculos caiu junto da porca e segurou-a pela perna.
— Sirvina! venha vê o que a porca do Felipão feiz nas suas prantinha… Essa diaba tá querendo mas é bala.
Contudo ao mesmo tempo regalava beatificamente os olhos na belíssima porca. Já por várias vezes tentara comprá-la mas o dono emperrara na recusa e só era dado a nhô Resende, assim como em pecado contra o nono lamber com o olhar grosso as formas e cores do animal.
— Minino, quê que tu tá fazendo aí parado, seu palerma! Venha segurá a porca pra mim. Ocê vai levá ela no Rio Novo e fale pro Felipão que é a úrtima! Se a maiada passá pra cá outra veiz eu mato ela. Juca vá com seu irmão. Tá bom: é mió vocês não dizê nada. Não, é mió dizê!… Repita bem pr'ele que se a porca torna a passá pra cá outra veiz eu atiço a cachorrada nela.
Enquanto o Martinho partia mal se aguentando com os arrancos da porca, Silvina inda falava ao marido:
— Nhô Resende, quem sabe se é mió não mandá dizê nada. Felipão é home bravo, pode zangá…
— Que zangue! Só fujo de cuisarrúim. Felipão pensa que tem o rei na barriga mas comigo ele tem que se havê! Ora se!…
Felipão vizinhava com nhô Resende iam fazer quatro anos. Desde que para ali viera não havia mais sossego na vizinhança. Quebrara o dúlcido encanto do ramerrão. Cabra facinoroso, avelhentado já, embora ostentasse todo o vigor duma juventude sempiterna, a barbicha rala e grisalha a espetar para frente como esporão de galera, justificava tão somente pela altura o aumentativo que lhe realçava o nome. Não se sabia muito bem como lhe tinham vindo a pertencer os miúdos alqueires do defunto Joaquim Esteves mas largos incômodos trazia já tal parceiro para se lhe indagar o porquê da falcatrua. Só, eternamente com a pica-pau nos dedos e o cigarro luzindo no sardônico risinho, como último fauno sobrevivente nos sombrais da América nem mulatinha ou preta ou branca por ali vivia que não se sentisse violentada por seus olhares desejosos.
Na aparência Felipão criava porcos. E na vara brilhava com real destaque sobrepujando facilmente em beleza todas as melhores crias dos vizinhos a porca malhada tão amiga de avencas e begônias alheias. Talvez cônscia dos seus singulares dotes de perfeição outorgara-se ela o direito de passear por domínios estranhos, de por lá amesendar-se e vizinho não havia a que não amargasse e não fosse pessoalmente fazer as cócegas da inveja. Felipão revia-se orgulhosamente na porca não por certo em dotes de beleza mas no desrespeito à propriedade alheia. Reputava de nenhuma importância matar caça nos banhados de outrem ou usar-lhe dos caminhos sem licença e nhô Resende o mais destorcido dos fazendeiros da comarca ansiava por se ver livre de tão nojenta companhia.
Os meninos voltaram dizendo que Felipão os tinha xingado duma porção de nomes feios.
— Pois que xingue! que xingue! Mas se a porca dele passá pra cá, já sabe…
Quinze dias depois, sereno de ânimo, nhô Resende jantava quando viu a endiabrada porca devorando abóboras no pomar.
— Qual o quê! isso não tem jeito não!
Seguido pelos rogos da Silvina, que lhe suplicava deixasse a porca em paz agarrou da espingarda desceu ao quintal chegou-se para a porca. Esta olhou-o mansamente com ares de quem vê ninguém ao pé de si e recomeçou o banquete. Silvina entreassustada pedia ainda misericórdia. As crianças divertidas assistiam das janelas à execução.
Nhô Resende chegando a boca da espingarda junto ao rabinho da porca desfechou. Enquanto este em arrancos de lombriga decepada rolava no chão a malhada desaparecia num voo.
E o fazendeiro desfechou o segundo tiro no ar para que o estrondo reboando nas socavas a espavorisse ainda mais.
As crianças às gargalhadas disputavam-se o rabinho. A própria Silvina não deixou de sorrir ao inesperado da lição.
— Taí, porca do inferno, agora vamo vê se tu vem comê abobra outra veiz!
No dia seguinte com o brotar da aurora nhô Resende lavava o rosto na sala de jantar quando aos “Papai, Felipão taí” da criançada ouviu um tossido de aviso no terreiro.
— Bom dia Felipão.
— Nhô Resende, vim buscá minha porca.
— Que porca essa!
— A maiada. Eu sei que ela onte veio pr'estes lado.
— Mas ela não tá aqui!
— Oia, nhô Resende, é mió mecê não se fazê de desentendido. Me dê minha porca que vou s'imbora muito calado. Noutros causo…
— Noutros causo o quê, Felipão? Já disse que sua porca não tá aqui.
— Mecê se arrepende…
— Ora não me amole! Sua porca não tá aqui disse e arrepito. Onte ela andou no pomá comendo abobra. Então dei um tiro no rabicho dela e outro pro á. Só pra assustá.
Mas Felipão partia abanando a cabeça:
— Tá bom. Mecê vai se arrependê.
Um meio susto assombrou a fazenda nesse dia. O próprio nhô Resende não sabia senão praguejar. Achou duro o feijão, o milho não apendoava, os filhos… cada tamanhão! é só comê, comê… Trabaiá mesmo!… como se o mais velho deles não contasse apenas doze anos. Foi preciso que outra madrugada surgisse com o coral das alegrias, radiosa, para que a má impressão surdinasse um pouco.
Nesse dia quando ao verãozinho da tarde imóvel nhô Resende chegava da invernada encontrou a mulher na porta.
— Uai! Mecê não levou o Martinho!
— Eu não, Sirvina. Então havia de levá um crila de sete anos, pra quê!
— Pois ele desapareceu.
— Que tu tá falando aí, Sirvina? Deixe de história! Há-de está por aí mesmo.
— Já cansei de percurá, não dá ar de si. Mandei vê ele na casa do compadre, mandaram dizê que ele lá não apareceu.
As crianças espantadas grudavam-se umas às outras contemplando o pai.
— Ora sabe que mais? vamos jantá! Quando Martinho senti fome aparece.
Entrou barulhento na sala. E o jantar arrastou lúgubre. As palavras de nhô Resende não tinham ecoado em nenhum coração. Nem no dele. Ninguém pensara nada mas todos sabiam muito bem que Martinho não banzava a tais horas, nem se perdera. Um estremeção de medo combalia aquele pugilo de corações palpitantes de rude amor.
Empurrando de repente o prato em meio nhô Resende levantou-se. Se os lábios lhe tinham desaparecido dentro da boca numa expressão voluntariosa de energia, os olhos alargavam-se retos de perplexidade e terror. Pôs o chapéu. Foi buscar a égua. Silvina muito baixo:
— Mecê vai lá?
— Vou.
— Quem sabe se é mió levá o Belarmino.
— Não perciso que ninguém me amostre a estrada.
Pouco a pouco saltitante ao trote curto sua figura diminuiu, diminuiu até esconder-se por detrás dos pinheiros ao longe. Os pinheiros de braços alarmados.
— Boas-tardes. Ocê tá com o Martinho aí, Felipão, e vim buscá meu fio. Já falei dez veiz que não tou com a sua porca!
— Que historiada é essa de Martinho!… Não tenho ninguém comigo! Mecê pode entrá na casa se quisé, corrê tudo que não acha senão porco.
— Felipão, dexe dessas brincadera que ocê tá ferindo um sentimento de dentro de meu coração! Me diga onde escondeu Martinho e eu não faço nada!
— Ora dá-se, nhô Resende! e minha porca!
— Já te disse que não tou co'a porca, Felipão! Não me faça perdê a cabeça!
— Mecê pode perdê quantas cabeça quisé! Martinho não tá aqui! Também ando percurando a maiada e inda não achei! Sabe que mais? Mecê ache minha porca que eu acho Martinho. E deixe-se de muita corage que pra forte eu sou mais forte que mecê e também sei usá meus tiro…
— Felipão, tu tá me fazendo perdê a carma!…
— Quem sabe se mecê não qué me matá!… Daí é que eu quero vê quem acha Martinho!
A lua temporã presenciava a disputa. Nhô Resende desconhecia-se tomado pela primeira irresolução que jamais o perturbara. Pediu ameaçou. Implorou. Felipão queria a porca.
E foi, olhos esgazeados fragílimo impotente ao defrontar aquela proposta de troca que nhô Resende deixou a égua reconduzi-lo à fazenda.
Já noite. Tremeluzem as estrelas. O curiango. Cantochão das rãs. O luar andejo arranhando-se nas árvores põe malhas de sombra na estrada. O fazendeiro julga distinguir a cada instante junto às patas dianteiras da cavalgadura a porca do Felipão.
Em casa a notícia levantou choro e lamentações que ultrajavam a placidez benigna do noturno. Nhô Zé Fernandes padrinho dos nove filhos de nhô Resende, ali aparecido para o cavaco, era o único a conservar algum critério na família. Nhô Resende, o pobre! idiotizado não chorava não dizia nada incapaz de mover palha.
O compadre é que dispôs as coisas. No dia seguinte todos partiriam em procura de porca e de Martinho enquanto ele dava já um pulo até a cidade para ver se o delegado mandava prender Felipão. Depois: “era só obrigá ele a confessá”. Partiu.
Felipão deixou-se prender sem luta mas recusou-se a apontar o esconderijo de Martinho. Devassaram-lhe o domínio palmo a palmo desentulhando valos esmiuçando grotas: nada. O delegado bacharelíssimo depois dos interrogatórios via-se manietado pela indecisão. A cada nova instância junto do facínora este pedia a porca. Um cabo letrado indicava a tortura.
No tragicômico do caso deu nota comovente a Silvina vindo lançar-se aos pés de Felipão. Este pareceu sensibilizar-se. Depois pediu a porca. Nhô Resende ofereceu-lhe suas porcas, toda a criação. Por fim acenou-lhe à cobiça com dez contos. Felipão pediu a porca. Não era ambição que o mantinha era birra. Dessem-lhe a maiada e contaria o paradeiro do Martinho. Todo mundo das fazendas, da cidade procurava Martinho ou porca. Passavam-se as horas. Que aflição! O menino devia ter fome. Teria sede… Choraria de medo… Qual! ninguém acha mais!… Também Dr. Vieira não faz nada! Fosse comigo, havia de ver se Felipão contava ou não!…
Afinal, depois de porfiada devassa no arredor, já pela tarde, um dos agregados de nhô Resende voltou com o cadáver inda quente da porca. Fora encontrá-la expirante a debater-se num lodaçal.
Felipão contemplou silencioso o cadáver da porca. Duas lágrimas bem choradas entraram-lhe na coivara da barba. Depois olhando com raiva a Silvina, derrubou dos dentes:
— Desgraçados! Agora é que eu não conto!
O delegado temendo à chegada de nhô Resende uma agressão ao preso, recolheu-o incomunicável à prisão. Fê-lo guardar pelos soldados. Felipão pertencia à sociedade e não à família de nhô Resende. A Justiça se encarregaria de fazer justiça.
E aos gritos da Silvina, às súplicas de nhô Resende, às instâncias da justiça Felipão gritava fechado:
— Não conto taí! Ocês mataram minha porca, pois agora é que eu não conto!…
Vidrilhar de estrelas já. É a longa noite de Catulo, cheia de imagens, de perfumes, de tragédias. Que luar, oh gente, o do sertão!… Na testa livre das baixadas ondula a mantilha de prata das águas. A Ribeira tem curvas gentis. Duas léguas abaixo da fazenda de nhô Resende caracola que nem potro novo. Há mesmo o trecho em que se espraia mais larga e esquece a viagem, brincalhona, sobre as pedras. Na outra margem no escuro pouco denso da mata há uma pequena furna. Essa pedra fecha-lhe a entrada. Lá dentro sobre o chão verde liso está Martinho adormecido. Relaxa-lhe a expressão aterrorizada do rosto o sorriso cheio de sonho. Ao lado da bilha um último pedaço de pão a esfarinhar-se. Ratos.