História com Data
HISTÓRIA COM DATA
1921 [1943]
a Antônio V. de Azevedo
Agitação desusada no hospital.
Telefonemas e telefonemas. A todo instante chegavam automóveis particulares. Numa das salas a cena difícil das pessoas que perderam alguém. As lágrimas já cansadas paravam pouco a pouco nos olhos de irmãos tias e da sra. Figueiredo Azoé mãe do “infeliz rapaz”. [1]
Entrelaçavam-se na penumbra do aposento soluços desritmados, suspiros frases vulgares de consolo.
— Viverá.
— Tenha esperança, minha amiga.
— Meu filho… meu filho!
— Sossegue!
— Quanto tempo!… desespero!…
— Tome um pouco de café.
— Não.
— Tome!
— Não quero.
— Tome… Reabilita.
O pai acabou tomando o café. Telefonemas e telefonemas. A todo instante chegavam automóveis particulares.
Tratava-se de Alberto de Figueiredo Azoé 25 anos aviador, descendente duma das mais antigas famílias do Jardim América. Nessa manhã de 13 abrira asas no Caudron. Ao realizar uma acrobacia a pouca altura o motor não funcionara a tempo. O avião se espatifara na rua Jaguaribe a 20 metros do Hospital. Pronto socorro. Telefone. E fortificados pelo pedido da família os três grandes cirurgiões tomaram conta do “imprudente moço”. [2]
Era ainda um desses exemplos do que Gustavo Le Bon chamou a “ironia dos desastres.” [3] Nenhuma lesão no corpo. Apenas um estilhaço de motor esmigalhara parte do cérebro do “arrojado aviador.” [4] Transportaram-no ainda vivendo pra sala das operações.
Dois médicos perplexos:
— Morre. É inútil.
— Morre.
O terceiro curioso inventivo. Riquíssimo subconsciente.
Um homem pobre ultrapassando talvez os 40 anos morria duma lesão cardíaca no hospital. Ninguém que o chorasse. Linda morte.
O terceiro operador falou. Repulsas. Risadas. O terceiro operador mesmo sorrindo insistiu com mais energia.
— …Porque não! Ele morre mesmo. O outro morre fatalmente, sem lesão alguma no cérebro. Poderemos salvar ao menos um. Vocês parecem estar ainda no tempo do doutor Carrel… E Chimiuwsky, com o coração?… Tenta-se!
Depois deu de ombros e derrubou a cinza do charuto. Houve perguntas para fora da sala-de-operações. As freiras correram. Transportes.
A madre superiora abriu a porta da sala-de-visitas. A ansiosa interrogação dos olhos, das mãos de todos. A comovente interrogação das lágrimas da sra. Figueiredo Azoé.
— Vai tudo bem. A operação acabou agora. Dr. Xis garante a salvação.
Pouco depois o Dr. Ípsilon amigo da família apareceu. Rodearam-no puxaram-no. Ensurdeceram-no de perguntas.
— Sossegue, dona Clotilde. O caso é gravíssimo, não posso negar mas a operação foi bem. Alberto é forte, perdeu pouco sangue… Fizemos. Uma trepanação… Esperemos que se salve…
Pendiam-lhe dos óculos umas vergonhas hesitantes.
Em trêmula sequela a mãe, o pai, os irmãos foram ver de longe Alberto a dormir. Depois o Dr. Xis exigiu o afastamento da família até a cura do rapaz. A comoção, explicava, provocada pela revivescência das imagens poderia causar até a morte [5]
ou no mínimo uma idiotia de 1° grau. Quanto a qualquer possível lesão que o mecanismo cerebral apresentasse sempre seria tempo de “constatá-la” (sic).
O período da morte passou. Alberto convalescia rápido.
Nada quase falava. Beijava comovido a mão da freira que o tratava. Tinha lágrimas de gratidão para os médicos.
Fato curioso registrado pelas freiras é que à medida que Alberto sarava o Dr. Xis tornava-se mais e mais inquieto. Agitação contínua. Cóleras sem razão. Perguntas esquisitas que espantavam a enfermeira. Se o doente ia tão bem! Passava os dias mirando as próprias mãos. Nada de anormal.
Mas o Dr. Xis sentado à cabeceira do rapaz. Que dedicação! O sr. Felisberto Azoé ouvi que pretendia presenteá-lo com um cheque de 40 contos (quarenta contos de réis). E tão dedicado quanto inflexível. Nada de permitir que a família se aproximasse do moço. Por uma das janelas do hospital apenas o viam passear agora pelo braço do Dr. Xis nos pátios de sol.
O Dr. Ípsilon é que esfregava as mãos satisfeitíssimo. Um dia perguntara a Alberto:
— Lembras-te de mim?
O outro chorando lhe beijara a mão:
— Lembro sim senhor.
Desde então o Dr. Ípsilon esfregava as mãos satisfeitíssimo.
— O nosso trabalho foi admirável. Quando o comunicarmos à Sociedade de Medicina e Cirurgia creio que o mundo inteiro se espantará. Dona Clotilde, seu filho está salvo!
E ao Dr. Xis três vezes por dia:
— Não começaste ainda o relatório?
— Espere.
Alberto estava bom. Caminhava por si.
Dr. Xis estava mal. Hesitava.
Um dia no entanto encontrou o moço gesticulando suecamente. Sorriu. Alberto parara a ginástica.
— Seu doutor, já estou bom. Queria sair.
— Sairás breve. Agora vamos dar uma volta pelo jardim.
Alberto caminhava firme alegre. O Dr. Xis seguia-o lateralmente um pouco atrás. Na aleia de trânsito junto à porta um automóvel. Alberto parou olhando a máquina. Caminhou para ela. Sentou-se no lugar do motorista. A máquina moveu-se rápida habilíssima. Fez a volta do gramado e descansou no ponto de partida. [6] Dr. Xis acendeu o charuto.
— Sabes guiar automóvel?
— …sei?… murmurou espantadíssimo.
Depois de olhar muito as pernas vago quase sorrindo Alberto murmurou:
— Parece que espichei, seu doutor!
Era curiosa a agitação do Dr. Xis. Dedos de gelatina. Até deixou cair o charuto.
— Não é nada. Voltemos.
— Não começaste ainda o relatório?
— Vais dizer ao sr. Azoé que lhe levo o filho amanhã. Que a casa esteja como sempre sem modificação alguma.
E o Dr. Xis fez o barbeiro entrar no quarto do rapaz.
— Vai fazer-te a barba…
Alberto sentou no lugar que lhe indicavam. O barbeiro trabalhou entre dois silêncios.
— Agora vem lavar o rosto no quarto pegado. O lavatório de lá é maior.
No quarto de Alberto o Dr. Xis fizera substituir o lavatório por uma mesa onde se depusera bacia e jarro.
Alberto foi. Ao inclinar-se para lavar o rosto viu-se refletido no espelho. Parou: Depois, quase a gritar horrorizado guardando os olhos no braço:
— Não!
Imediatamente o médico se fechara por dentro com o rapaz.
— Não… Não sou!…
Entressorria medroso. Depois começou a chorar. Dr. Xis seguia-lhe os movimentos, Alberto voltou ao espelho. Fugiu dele apavorado. Quis partir. Foi esconder-se no corpo do Dr. Xis como uma virgem.
— Quem é, seu doutor!… Quem é esse homem…
— Sossega, meu rapaz. Sou eu.
— Não, o outro!
— Estamos sós. Vem comigo!
Atraía-o para o espelho. Alberto com lindas forças venceu o médico.
— Não quero!
— Sossega, Alberto!!
— Alberto?… quem é Alberto!
— És tu.
— Eu!… Não! deve ser o outro… o moço!…
Apalpava-se desesperado. Os olhos giragiravam no limite das órbitas, infantis como num esforço para ver o rosto a que pertenciam.
— Acalma-te. Qual é teu nome então?
— …o outro… Não! Eu… eu sou José!
Dr. Xis aguentou a custo o golpe. Ficou gelo. Voltando do espavento: Acalma-te e escuta. És Alberto.
— Não! Sou José!
— Escuta primeiro, já disse! Estiveste muito doente ouviste? Segue bem o que te digo. És Alberto de Figueiredo Azoé. És aviador. Tua mãe é dona Clotilde de Figueiredo Azoé ouviste? Caíste do aeroplano. Quebraste a cabeça. Fizemos uma operação muito difícil. Por isso estás assim como quem não se lembra. Pensas que és outro. Mas tu és Alberto de Figueiredo Azoé. Vamos, repete o teu nome!
— Alberto de Figueiredo Azoé…
— Sou eu que te digo, ouviste bem? Teu médico. Que te salvou da morte. És filho do sr. Felisberto Azoé teu pai. És aviador. Não te lembras… És muito rico.
Alberto, Alberto ou José? escutava. O médico parou observando-o. Desenhou-se um sorriso mal feito nos lábios do moço. Sacudiu a cabeça desolado. Apertava as faces com mãos desesperadas. Não sentia [7] Alberto de Figueiredo Azoé.
— Agora estás mais calmo. Vem ver o teu rosto no espelho.
— Não, seu doutor! pelo amor de Deus! faz favore… no!!
Empuxado, reagia quase com grito.
– Vem! Quero que sejas Alberto de Figueiredo Azoé. [8]
— Não! non ancora!… Io…
Parou indeciso. Escutou as últimas palavras que saltitavam fugitivas no aposento. O doutor:
— Lei parla italiano?
— Si! Sono proprio d'Italia!… ma… não… Não!
As palavras saíam perturbadas com acento inverídico de quem não sabe falar italiano. De boca desacostumada a pronunciar o italiano.
— Descansa. Vamos pro teu quarto.
E lá:
— Deita-te. Fico a teu lado. Pensa bem, Alberto: tua cabeça ainda está doente pelo choque. Perdeste a memória. Só te lembras de coisas de que ouviste falar. [9]
Pensa bem no que te digo: és Alberto Figueiredo Azoé. Amanhã verás teus pais e irmãos de que não te lembras. Deves conhecê-los ouviste? Sofrerão muito se te mostrares esquecido. Pensa agora em tudo isto. Não és José ouviste bem! Responde que estás ouvindo, acreditando… Responde, Alberto!…
Alberto ou José moveu lábios sem frase abúlico.
E o doutor sentado à cabeceira do moço falou e continuou falando. Meia hora depois inda remoía persuasões. Alberto adormecera entre elas. Duas fundas rugas penduradas das abas do nariz guardavam como parênteses as frases que aquela boca falaria e não lhe pertenceriam.
Às 17 horas acordaram-no para o jantar. Comeu bem. Era pequeno o abatimento. O Dr. Xis quando ambos sós tentou a experiência:
— Alberto!
— Que é?
O médico sorriu agradecido. Aproximou-se. Pôs-lhe sob os olhos o livro aberto e apontou para as letras.
— Conheces isto?
— Como não!… são letras.
— Sabes ler?
Os olhos de Alberto fixaram mais as letras, correram fácil e exatamente pelas linhas. Espantado o moço murmurou como se perguntasse:
— Não?…
E voltou a seguir as linhas do papel numa ânsia de reconhecimento. Dr. Xis fê-lo sentar-se junto à mesa. Deu-lhe o lápis.
— Escreve.
Sobre as folhas esparsas o moço traçou a princípio firme, com letra esportiva:
“Rose mon chouchou 120 cavalos Part Alberto 30 record Rose-Roice mon chouchou Caudron Grevix [10] mon choudron…”
Dr. Xis arrancou-lhe o lápis da mão.
Às 20 horas deu-lhe uma beberagem. Alberto adormeceu. Foi transportado, assim dormindo, para casa.
— Minha senhora, seu filho sarou. Mas a lesão foi muito grave… Ficou com a memória um tanto perturbada…
— Meu filho está louco!
— Sossegue. Não se trata de loucura. Apenas a memória… Abandono parcial de memória. Mas sara. Sarará! É preciso aos poucos incutir-lhe no espírito quem ele é. Por um fenômeno que… se dá frequentemente nesses traumatismos acredita ser outra pessoa… Naturalmente cuja história o impressionou.
— Meu filho!
O pranto necessário.
— Afirmo-lhe que sara. Devemos aos poucos reeducá-lo. Esqueceu-se um pouco por exemplo… de ler. Mas a memória voltará. É preciso que tudo se passe como antigamente.
— Meu pobre filho! Naturalmente nem se lembra de sua mãe!…
— Minha senhora, descanse em mim! O quarto dele está pronto?
— Sim. Não alteramos nada.
— É preciso fazer-lhe reviver os costumes antigos…
— Era eu que ia acordá-lo sempre quando ele não se (soluço) levantava muito cedo para ir nadar…
Levava o café para ele…
— Pois a senhora continuará a levar-lhe o café. Irá acordá-lo amanhã. Estarei aqui. Não: prefiro passar a noite aqui, nalgum quarto pegado ao dele, não tem?
— Não tem.
— Pois terá a bondade de ordenar que me deixem uma poltrona junto da porta. Dormirei nela.
— Doutor! quanta bondade!… Doutor…
Alberto dormia sossegadamente.
Às nove horas do dia seguinte a senhora Figueiredo Azoé num penteador muito roxo acordou o médico. O sobressalto do Dr. Xis espantou-a:
— Que é!
— Desculpe, doutor. Apareço assim porque era assim que ia acordá-lo. Alberto gostava de roxo…
— Fez bem.
— Geralmente acordava às nove… Já são oito e três quartos… Trago o café…
Num arranco de desesperada aventura o médico largou:
— Pois vamos!
Entraram. Ela entreabriu uma das janelas. O raio curioso esquadrinhou o aposento.
— Era assim mesmo que ele dormia.
O rapaz tirara a coberta leve que lhe tinham posto sobre o corpo e de pernas abertas pousando a cabeça num dos braços era como um lutador cansado.
— Alberto! Alberto!…
O “digno sucessor de Edu Chaves” [11] se moveu mole, abriu os olhos. Consertou a posição dormindo outra vez. Dona Clotilde estava com medo do filho. Venceu-se:
— Alberto!… Sou eu! Tua mãe…
Parava indecisa. Esforçava-se por repetir as frases costumeiras. Não se lembrava. Tudo agora lhe parecia tão artificial, tão inexato!
— São horas… Trago o café!!
O moço resmungou inconsciente. Abriu os olhos acordado. O reflexo do espelho iluminava o corpo da “ilustre dama”. [12] Alberto sorriu-lhe como sempre e murmurou o eterno:
— Ora, mamãe!…
Escutou-se atraído. E fixou mais a mulher. E num pulo sentou-se na cama. Dona Clotilde recuou amedrontada. Dr. Xis aproximou-se.
— Bom-dia, Alberto.
Agarrado ao médico, doído, pedindo proteção:
— Seu doutor!
— Sou eu, Alberto.
— Alberto!?…
— Sim: Alberto. Esta senhora é tua mãe.
— Não tenho mãe!…
— Esta senhora é tua mãe. Lembra-te do que te disse ontem, Alberto. Estiveste doente! Esqueceste!
— Não, seu Doutor! Quero ir s'embora! vamos!
E no espelho da guardacasacas viu um moço quase conhecido agarrado ao doutor. Olhou para este. Procurou-lhe em torno… Encontrou suas próprias, não, mãos longas musculosas agarradas ao paletó do médico. Começou a chorar todo infeliz.
A senhora Azoé chorava também, sem naturalidade uma das mãos ocupada com a xícara. O duplo sofrimento das mães! Sofrem a dor dos filhos e a sua dor de mães! Como se não lhes bastassem as deformações prematuras e o castigo luminoso dos partos como outros tantos pelicanos…
O Dr. Xis procurou dar fim à cena. Ia pronunciar o “sossega, meu rapaz” mas reparou que já dissera essa frase muitas vezes e mudou:
— Acalme-se, Alberto! Precisas acostumar-te à tua nova situação. Não te recordas por que estiveste doente.
O médico falava dificilmente agora. Devido ao caso do “sossega”, sem querer, contra a vontade mesmo começara a policiar a própria fala. Em vez de “lembras” corrigira para “recordas”. Foi Alberto que terminou a situação cansado de reagir:
— Não me lembro de nada disso tudo que seu doutor está dizendo… Eu não tinha… mãe. Sou José… Eu me lembro de mim sozinho (aqui fazia esforços de rugas para lembrar). Em criança fiz viagem… Tinha um homem com um dente na boca que fumava um cachimbo fedido… não me lembro!… O homem com uma ferida sarada parecia de navalha na cara… Outro homem dizia que era meu tio… Meu tio e minha tia… Depois na colônia… Eu fugi mocinho…
A senhora Figueiredo Azoé soluçava alto.
— …Minha mãe…?
E José, não, Alberto, Alberto ou José? queria lembrar sofria. Muita coisa nos olhos nas mãos que dizia que parecia que era assim mesmo. [13] Mas se sabia que não era assim!
— Alberto, estás martirizando tua mãe. Cala-te! Contas alguma história que te impressionou. Sossega, meu… Veste-te. Estou aqui!
Alberto cedeu como quem cede para o aniquilamento.
Desceu da cama pela direita onde moravam as chinelas. Abriu as torneiras do lavatório. Lavou-se. Penteou-se. Foi buscar as meias limpas na gaveta exata. E calçava as calças depois as botinas depois pôs a camisa o colarinho a gravata… Parava às vezes indeciso, outras envergonhado de saber… Então era preciso que o doutor lhe desse as calças… e depois o colarinho… Alberto continuava maquinalmente entregue à dura sorte feliz.
— Estás vendo como te lembras?… Se fosses esse outro como saberias onde estavam as meias as botinas?… Agora precisas de paciência ouviste? Irás de novo aprendendo o que esquecestes, verás.
Alberto procurava qualquer coisa. Devia ser o paletó… Assim ao menos pensava o Dr. Xis dando-lhe o paletó. Alberto vestiu-o. Exausto foi tirar duma gaveta a escova de roupas. Esfregou vivamente as calças, unicamente as calças como se o paletó não merecesse limpeza. Depois jogou a escova sobre a cama e abrindo o guarda-roupa tirou o pijama de seda roxa. Começou a vesti-lo sobre o paletó. Parou percebendo o engano. Envergonhado olhou o médico. Guardou o pijama de novo.
— Agora, Alberto, vais ver teus irmãos, teu pai, Felisberto Azoé.
Ao saírem do aposento houve do outro lado da galeria um esvoaçar fugitivo de saias passos que desciam a escada. Alberto olhava desconfiado para o Dr. Xis. A família estava toda no hall. Impaciência irreprimível em cada olhar. Talvez dor. Aquela reunião tantas pessoas o criado que espiava… O moço sentiu-se em terra estranha. Fez um movimento de recuo.
— Teu pai, Alberto. Não te lembras? tua irmã, teus irmãos…
— Seu doutor, vamos embora!…
Apertava a mão do operador. Criança a proteger-se. E baixinho dolorido:
— Não… não… Não lembro!… sou o outro… sou…
— Cala-te, Alberto! Já te disse que não és o outro! Esta é a tua família… teu pai…
Alberto chorava sem largar o médico. A família chorava. O Dr. Xis… Mas o rapaz levantara a
cabeça resolvido. Cessaram-lhe as lágrimas.
— Vamos embora! Não fico mais aqui!
— Sossega, Alberto. É tua famil…
— Não é minha família! Sou o outro. Sou José! Quero ir embora!!
— Ir para onde, então!
— Para casa!
— Aonde?
— Para minha casa, com a Amélia. Minha mulher… rua Barbosa… Quero ir!
E procurava alguma coisa. Dirigiu-se enfim para a porta que dava no jardim interior. O médico alcançou-o.
— Espera um pouco. Mando buscar tua mulher. Verás que a não conheces. Espera!
— Quero ir com Amélia! [14]
— Escuta, Alberto, estou falando! Já disse que mando buscar essa Amélia! Vais esperar. Esperas comigo, não te deixo. Rua Barbosa… que número?
— Rua Barbosa… não tem número. Última casa da direita.
Ninguém sabia onde era a rua Barbosa.
— Onde fica a rua Barbosa, Alberto?
— Na Lapa… Atrás da fábrica de louças. Um dos Azoés partiu rápido.
Alberto esperava impaciente. Parecia não ver ninguém. Andava pela sala. Sentava-se. Erguia-se. Reparava em todos francamente. Depois envergonhava-se. Vinha para junto do médico. Um momento, com gestos largos cheios de liberdade sentou-se na grande cadeira preguiçosa. Assobiou dum modo especial. Logo os latidos dum cão. E o enorme policial apareceu. Que festas para o dono! Alberto quis reconhecê-lo. Seus lábios juntaram-se abriram-se como querendo dizer um nome… Teve medo daquele cão. Quis erguer-se. Defendeu-se.
— É Dempsey, meu filho!
— Tirem esse cachorro! Me morde!…
Foi preciso tirar Dempsey dali. E daí em diante os uivos do cão compassando as cenas.
Trinta minutos depois o automóvel voltava. Luís fez entrar a mulata forte com as mãos gretadas pela aspereza das águas no ofício de lavar. Entrou olhando sem medo. Saudou consertando o xale preto.
— Conheces, Alberto? É Amélia.
Alberto correu para ela. Segurou fortemente o braço da admirada.
— Vamos embora, Amélia! Não fico aqui!
— Largue de mim, moço!
— Sou eu, teu homem!… José…
— Meu homem morreu na Santa-Casa… Deus Nosso Senhor Jesus Cristo lhe tenha!
— Não morreu! Sarei! Sou eu, José!
Amélia recuou amedrontada:
— Esse moço está doido, credo!
Alberto agarrava desesperado raivoso suplicante:
— Não me deixe aqui! Estão caçoando de mim… Sou José!
O Dr. Xis que se aproxima toma um soco no peito.
— Me largue, moço! Que é isso agora!
— Amélia, não te lembras! Me leve!… Teu…
— Me largue já disse! Meu pobre José está no Araçá! Foi então para isso que me cham… ahm… me largue!
Debatia-se nas mãos do rapaz. Dois fortes a lutar. Esfregavam-se na parede junto à porta.
— Tirem esse moço daqui. Eu grito! Socorro!
Acudiram. O sr. Azoé o médico os rapazes. Alberto não largava a mulata. Desenvencilhou-se repentinamente do irmão que o agarrara por trás, moveu o cacho de gente, empurrou-o para o centro da sala. Correu para a porta. Fechou-a. E olhou todos com olhos duplicados da loucura de resolução.
— Não queres me levar, desgraçada! Eu conto tudo! assassina!… me leva?…
Amélia resoluta armara-se dum vaso onde uma palmeirinha lutava por viver. Que saudades do aclive aquoso sempre verde, onde junto das irmãs e das avencas faceiras escutava noite e dia o reboo pluvial da cascata! Nas tardes, quando o céu arcoirisado…
— Segurem o moço que eu atiro!… atiro mesmo… se ele vier outra vez…
A senhora Figueiredo Azoé levantou-se diante do filho, como a estátua do devotamento e do sacrifício, protegendo-o. O sr. Azoé os rapazes lutando com a lavadeira.
— Ah!… (rascante) É assim? Não queres me levar, desgraçada!… Vou para a correição… Mas tens de ir também. Não ficas com o Júlio, já sei! Ela matou! Assassina! Matou os dois filhos… Quando nasceram. Matou os dois filhos! Não queríamos crianças… Ela enterrou no quintal. Em Moji. O outro antes de nascer. Assassina! Vou parar na cad…
— Cachorro!
O vaso, desviado, se espatifou no meio da sala. Coitada palmeirinha!
— Prendam ela!… Figlia dun cane (cão)! É verdade… lo… juro!…
— É mentira! Não conheço esse homem!
— Prendam! Assassina!… No jardim perto da escada…
— Não!… não conheço!… Não me prendam! não fiz nada!… Foi ele que quis… Perdão!… Não conheço esse moço… nunca vi… Foi o outro, foi José que quis… Perdão!
— Fui eu! mas foi ela também!
Atirou-se sobre a mulata. Ela voltou-lhe uma punhada na cara. Alberto desviou com gesto grácil de boxista. [15] Atracaram-se de novo. Ela dilacerou-lhe a mão com os dentes. Prendam!… Sujo! Maldito!… Foi um custo. Assassina! Com o barulho os criados, o motorista acorreram. Prendam! Ela também!… Me largue!… Braços punhos. Embrulho. Barulho. Foi difícil. Afinal os homens conseguiram separar os dois. Amélia liberta fugiu por uma porta. Desapareceu. A cólera de Alberto, Alberto ou José? foi tremenda. Berrava termos repetidos numa língua infame. Socava os que o prendiam. Machucara fortemente um dos irmãos. Depois diminuiu a resistência pouco a pouco. Suor frio lhe irisava a fronte. A palidez. E desmaiou.
O esforço para livrá-lo do desmaio continuava… A campainha tocou. Um repórter. Mandado embora. Depois do desmaio a prostração. A campainha tocou. Outro repórter. Mandado embora. A campainha tocou. O primeiro repórter insistia. Mandado embora. Desordem. Criados comentando… Automóvel de prontidão. O motorista lia desatento uma passagem do romance em folhetos A filha do enforcado. O conde de Vareuse, devido a velho ódio de família fora enforcado por um sobrinho. Apenas o filho corcunda de Jacquot fiel criado do sr. de Plessis amigo íntimo do conde presenciara o assassínio. Aconteceu porém que justamente na noite do delito Germaine a filha do conde era roubada por uns ciganos espanhóis. Isto se deu no reinado de Carlos V. Germaine tinha nesse tempo apenas cinco anos. Ora o corcundinha irmão-de-leite do sobrinho assassino hesitava ainda em contar o que vira quando é roubado também pelos ciganos. Mas ele não conhecia Germaine. O procurador ou coisa que o valha, da imensa fortuna do conde de Vareuse, mestre Leonard vendo a condessa viúva enlouquecer com a perda da filha concebe um plano diabólico. Apossa-se da personalidade do conde de Vareuse com o qual muito se parecia más línguas davam-no mesmo como filho-postiço do velho pai do conde ainda vivo mas cego e paralítico numa velha propriedade no Languedoc. O procurador pois apossa-se de todos os papéis do conde e muda-se para a Inglaterra onde se domicilia. Atinge logo uma das mais fulgurantes posições na elite londrina. Casa-se com a filha de Lord Chaney [16] e tem desta uma filha. Passam-se doze anos. O filho do assassino do conde então com vinte-e-três anos brilhantíssima inteligência parte numa comissão diplomática para a Rússia. É nesse instante justamente que a condessa de Vareuse que o procurador mandara para a casa duns antigos apaniguados seus na Boemia recobra a razão ao ouvir um lindo moço de seus vinte anos mais ou menos e que aparentava grande riqueza e sangue puro, viajante recém-chegado na aldeia entoar uma balada. Ora o interessantíssimo do caso é que essa balada fora composta pela própria condessa, exímia tocadora de harpa que porém não a revelara a ninguém. (A balada) Somente cantarolava-a às vezes para adormentar a filha, que era doentia e sofria de insônias. E se a condessa jamais cantava perto de qualquer pessoa essa balada, era porque dizia a própria história dela. Tratava-se duma moça que se deixara levar pelos encantos dum estudante e que diante da impossibilidade de casar com o namorado pois era de grã nobreza (a condessa) entregara-se voluntariamente a ele num assomo de paixão. Nasceu um filho que a família encobrira e fizera desaparecer. Nesse tempo Germaine com o corcundinha desesperadamente apaixonado por ela conseguiram livrar-se das garras dos ciganos e fugir para a Itália num navio de vela pertencente a mercadores marselheses. No mesmo navio seguia também um rapaz nobre italiano que fora chamado urgentemente a Nápoles onde uma terrível conspiração se organizava entre os membros duma sociedade secreta indiana, os Treze Irmãos da Pantera Vermelha, para assassinar Carlos V. Ora o príncipe Lotti que tal era o nome do moço viajante a bordo da Reine Marie estava disposto a se dedicar pelo rei por gratidões de família que não interessam aqui. Eis que a Reine
Marie é atacada por piratas tunisianos. Prestes a entregar-se já. O príncipe defendia Germaine heroicamente tendo ao lado o fiel Jean o corcundinha. Mas surge a todo pano velejando uma fragata de guerra francesa. Fogem os piratas. A maruja da Reine Marie canta vitória. Germaine e o príncipe Lotti pois que a guerra lhes revelou o mútuo amor estão abraçados ouvindo as últimas palavras de Jean agonizante. Jean que durante toda a vida se calara por não criar um sentimento de ódio na alma pura de Germaine pretendendo ele só vingá-la mais tarde vê-se obrigado agora a revelar tudo o que sabe. O príncipe Lotti e Germaine ainda trêmulos de horror vão para bordo do navio de guerra francês onde os recebe justamente quem! o filho do assassino do pai de Germaine, o jovem diplomata que por desfastio se partira para a Rússia por caminho que a fantasia aconselhava. Mas imediatamente o filho do assassino concebe infinito amor por Germaine. Esta, o príncipe e o filho do assassino descem em Gênova. E justamente para a hospedaria onde vão está a condessa de Vareuse e o filho. No momento em que Germaine é perseguida pelo filho do assassino e surge o irmão para defendê-la um criado vem conversar com o motorista.
— Vamos almoçar. É quase meio-dia.
O Dr. Xis, que dedicação! sempre ao lado do doente.
Falara-lhe longamente, persuasivamente. Contou-lhe então toda a aventura. Era a última esperança: dizer tudo. O Dr. Xis disse tudo: o desastre, a operação, a substituição de cérebros e descreveu-lhe por fim a fortuna dele, José, cérebro de José, agora moço rico feliz…
Alberto abandonado sobre o leito como que ouvia e aceitava. Muito calmo. Quando o operador parou maior momento Alberto ou José abanou a cabeça.
— Não… Sou José. Quando eu… o outro agora me lembro estava morrendo fiz uma promessa para S. Vito de contar tudo se salvasse. Estou vivo. Sinto que estou vivo… Mudei… Não! não sou eu!… Este não!… Sou o outro!… Sou o outro!… Sou o criminoso!… Este é inocente!… não matou meus dois filhos… Foi o outro, eu, José… Dio!…
Soluçava horrorizado desesperado. Neste momento o Dr. Xis viu o rosto do Dr. Xis refletido no espelho. Era um homem de trinta anos no máximo. Ardido aventureiro mas trazia nos lábios abertos em pétalas de rosa qualquer coisa dessa sensualidade que faz ser bom, ser nobre e sentimental. Perturbado por esses vinhos parecia ao médico que os raios da luz elétrica formavam na superfície do espelho uma grade de prisão. Por trás da grade um moço. Inocente?… Criminoso?… Tão linda a operação! mas o cérebro é que sente… que manda [17] mas o corpo… aviador… avião… memória muscular o incidente do automóvel… é melhor… É MELHOR!… sim, é melhor. Acaba-se duma vez…
E o Dr. Xis pôde tirar os olhos do Dr. Xis porque firmara a decisão. Telefonou para o aeródromo. Mandou ordens ao motorista.
— Como vai?…
— Alb… ele está calmo agora.
— O doutor precisa tomar alguma coisa… Vinte-e-duas horas já…
— Aceito um café… café bem forte.
— Não quer uma almofada? doutor… Passar mais uma noite assim! Como lhe poderemos pagar tanta dedicação!…
— Não fale nisso, minha senhora. Quero muito bem Alberto… Estimo-o muito (aos arrancos) muito mesmo… como… Porque, minha senhora, na minha profissão há momentos maravilhosos… Sentir-se diante dum homem moço ainda que morrerá por certo… e confiante orgulhoso diante da fatalidade… combatê-la… vencê-la pela inteligência… oh! como eu o amo… minha senhora… como a filho!… sim, perdão, como se fosse meu filho também!…
E escarninhas brilhantes alegres lépidas fugiram dos olhos do Dr. Xis as duas primeiras lágrimas da sua cirurgia.
— Amanhã tentarei uma prova… uma prova decisiva! A senhora verá! Alb… ele já aceita o que eu digo… As roupas de aviador estão aqui?
— Guardava-as no aeródromo…
— Está bem.
O Dr. Xis inflexivelmente mau para consigo escrevendo passeando fumando contou o tempo até seis da manhã.
— Acorda… meu rapaz!
Como no dia antecedente Alberto se vestiu mais ou menos bem. Começava sempre certo e firme.
Depois invariavelmente na continuação dos gestos parava indeciso. José não sabia onde estavam as botinas. Indicava-as o “imprudente e glorioso cientista”. [18] Alberto continuava certo e firme.
— Seu doutor, vamos embora!
— Vamos!
O auto esperava à porta.
— Para o aeródromo.
O caudron de Alberto, 120 cavalos, riscava uma sombra de avantesma na relva aguda do prado. O mecânico esperava. José admirado deixou-se vestir. Menos admirado deixou-se sentar no aeroplano. As mãos ágeis hábeis manobraram a máquina. O mecânico impulsionava a hélice lustrosa. O Dr. Xis entrava para o lugar do passageiro… O caudron deslizou subiu numa linha oblíqua macia… Os dois “ilustres representantes da ciência e do esporte paulista” [19] foram se espedaçar muito longe nos campos vazios.
NOTA
Este conto é plagiado do AVATARA de Teófilo Gautier que eu desconheceria até hoje sem a bondade do amigo que me avisou do plágio. Mas como geralmente acontece no Brasil o plágio é melhor que o original. Quanto a Germaine conseguiu casar com o príncipe Lotti depois de mais vinte-e-três fascículos a quinhentos réis cada.
[1]. Jornal do Comércio, 14 de fevereiro de 1931.
[2]. Estado de S. Paulo, 14 de fevereiro de 1931.
[3]. G. Le Bon: La psychologie du hasard, p. 836. Alcan.
[4]. Gazeta, 14 de fevereiro de 1931.
[5]. Vide a totalidade dos romances do séc. 19.
[6]. Ebbinghaus: Der Gedachtnis und der Musk el, p. 777. Schmidt und Gunther.
[7]. Ribot: Pathologie frénétique des changements de personnalité, Alcan p. 83.
[8]. Bergson: Le règne de la volonté, Garnier p. 135; W. James: The Irradiations of Wish, Century Co. pp. 14 e 15.
[9]. Ribot: op. cit., p. 249.
[10]. Célebre boxista senegalês da época. V. La vie au grand air, dezembro 1932.
[11]. Diário Popular, 22 de março de 1931.
[12]. Cigarra, 20 de dezembro de 1929. Sob uma fotografia da Liga das Senhoras Católicas.
[13]. Ribot: Les reconnaissances musculaires, Alcan p. 101.
[14]. Convém notar que esta Amélia não é a mesma do CONTO DE NATAL.
[15]. Woodworth – Gesture and Will – Macmillan & Co. p. 88.
[16]. Não confundir com Lon Chaney.
[17]. Lombroso: Criminologia degli irresponsabili. t. 11, p. 240; F. Treves, Milano.
[18]. Gazeta desse dia, 22 de março de 1931.
[19]. Correio Paulistano, 23 de março de 1931.