Os Sírios
OS SÍRIOS
1930
Um dia afinal, depois de vinte anos de mascate por conta própria, se soube que aquele terreno valorizadíssimo era propriedade de Nedim. Vendera metade. Construíra aquela casa branca enfeitada, com dois andares. Botara hotel e o café em baixo. Fora buscar, não se sabia onde, uma companheira tão gasta como ele, síria medonha de feia e jorrando malvadeza pelos ângulos. Ela ficava no hotel. Ele no café e… no hotel também. Tinha olhos pra tudo e agora a economia era insultante. Mas Nedim ficara desgraçado e o sofrimento é que mudara inteiramente o jeito dele. Gastara tudo na construção do hotel. Viera, e ficara firme, a sensação de que principiara novamente do começo a ajuntar cruzado por cruzado. A coragem fora mais forte que ele e o quebrara. Tudo ia muito bem; o hotel imundo e o café lhe davam juros duma grandeza gatuna, mas subsistia no coitado uma sensação estragosa de que era espoliado, de que estavam morando na casa dele, que estavam comendo a comida dele. Quando essas fraquezas vinham, fechava os olhos pra não ver os frequentadores do café. Jamais pudera se acomodar com a sala de jantar do hotel. Não comia nela, nem passava por ela nas horas de refeição. Vinham-lhe impulsos de botar pela porta fora toda aquela gente sugadeira, sofria muito.
(…) De primeiro, por instinto natural mais do que por bondade, tomara o costume de dar esmolas. Dava principalmente aos paralíticos, por uma transposição curiosa de personalidade. Mascateava a pé por esses mundos e em cada paralítico que via, se via impossibilitado de caminhar, ou via toda uma profissão itinerante acabada, pela impossibilidade física dum só. Então dava. Dava com a mesma irregularidade sentimental da maioria dos esmoleres, conforme a impressão de horror que recebia do mendigo. Quanto mais feio este, mais dava, no desejo único de se libertar pelo maior sacrifício, e se o mendigo era loquaz nas gratidões então fugia perseguido, até com raiva do outro.
Pois mesmo o costume de dar mudara agora. Vivia numa luta mesquinha com a mulher. Esta era menos sensível e sabia que estavam ricos. Dava esmolas também, como o marido, e embora o gesto físico de dar fosse nela um insulto pro mendigo, isso não era culpa dela. Era, culpa do corpo horroroso. Não concebia as esmolas de mais de tostão e muito comentara com Nedim os desperdícios deste, algumas vezes até mil réis indo parar nas mãos emberevadas. E agora Nedim que a censurava pelos poucos tostões dos sábados. Nedim tomava conta das esmolas da mulher. Achava mesmo sempre um jeito de surripiar uns três tostões à sabatina esmoler da companheira, não pra conservar mas pra eles darem durante a semana. E esse dinheiro ele dava bem, sem nenhuma luta com a economia. Dava pelo prazer pessoal de dar. Mas a mulher, está claro que percebia o roubo, e por seu lado roubava em qualquer compra à equivalência do perdido, pra dar exatamente, friamente, o quanto destinava à esmola. Não falava nada pro marido, mas Nedim conhecia a mulher e tinha consciência de, ou antes vergonha por ela perceber os roubos. Nem por isso deixava de roubar; e numa ilusão, só mesmo possível em seres assim tão fatais, se desintegrava da vida econômica da esposa e continuava imaginando que tinha alguma forma de economizar naqueles roubos.
Afora isso, que vida maravilhosamente unânime a dos dois! Só havia entre eles a confiança perfeita e o silêncio. Quase não se falavam. Não tinham o que se dizer, pois um bisava a consciência do outro, apesar de seres diferentíssimos. Tudo o que era espontaneidade em Nedim, se repetia sistematizado, conscientemente nela, e da mesma forma como ele, sem querer, era naturalmente bom, ela era naturalmente má. (…) O que ela sentia por Nedim era o mais completo, mais frio, mais sistematizado ódio. Está claro que isso jamais lhe atingira o conhecimento, mas o fato é que odiava Nedim. Viviam em muito perfeita harmonia; e as rusgas que tinham eram rusgas de Nedim, uns gritos ásperos, uns insultos de “cadela por sua mãe que foi cadela” pra baixo, tudo parado no meio, de repente, sem razão pra continuar. A megera estava acostumada e não sofria. Obedecia quando era justo obedecer, desobedecia se não. Não se sentia feliz, porém, não haveria modos de a fazerem desgraçada. Se o marido morresse, a vida continuava, e na certa que encontraria logo alguém que, pretendendo lhe gozar a herança, lhe servisse de objeto pra supliciar. Suplício sutil, feito mais duma criação de ambiente que de gestos reais. Porém, estes existiam também e eram conscientes.
Uma das formas com que ela supliciava Nedim era o gamão. Nedim, não se pode afirmar que gostasse do gamão, jogava-o. O fraco dele era esse gamão, jogado a leite de pato com a mulher. Desde os tempos de casamento, se estavam juntos e sem que fazer, jogavam o gamão. Nedim às vezes, fatigadíssimo duma viagem, e agora, exausto com os terrores financeiros do dia, se atirava numa cadeira na entressombra familiar. A danada largava o servicinho ou calmamente continuava acabando um arranjo. Depois trazia o jogo. Muitas vezes a fadiga de Nedim era tamanha, que ele nem mexia, olhos fechados. A danada arranjava as pedras de ambos e ficava ali, sem uma frase, esperando. Nedim se remordia desesperado. Uma vontade imensa de não jogar, despeito por causa de ter perdido na véspera, aquele número seis que não viera nem uma vez pra ele na negra… Abria os olhos e principiava jogando com afobação. E eram duas horas de martírio. Uma luta de espertezas. Os dois roubavam. O interesse do jogo não estava na vitória, estava na trapaça. Tomavam mais cuidado em somar os pontos do adversário que os próprios. Nos próprios, se errassem, nunca jamais que errariam de maneira a se prejudicar, mas a mínima desatenção que tivessem, era certo que o adversário trapaceava. Somava como lhe convinha, ou na conta dos dados, ou no pulo das pedras. Um gamão que consistia apenas nisso: não deixar o inimigo trapacear.
Pra esse jogo escuso, das horas noturnas, a leite de pato, separados dos homens, no quarto solitário, eles tinham transportado todo o instinto de roubo que a honestidade não deixara eles praticarem na vida. No gamão é que conseguiam a maior intimidade entre si, de seres ávidos, duma ganância fixada em finalidade, capaz de todos os sacrifícios morais. Se detestando no momento, um buscando de qualquer forma prejudicar o adversário, no jogo é que eles se emparceiravam melhor, um encontrando no outro, como num espelho, a única verdade fixa de ambos, que uma espécie de puerilidade moral não os deixava praticar na vida. E quando um pegava o outro na trapaça, vinham as palavras ásperas, os “gatunos!”, os “filha de cadela!”, cantar os passes daquele gamão desgraçado. Mas a verdade é que estavam se insultando a si mesmos. O insulto era uma espécie de auto-sugestão com que se incitavam a roubar inda mais; um cilício de excitação e ao mesmo tempo uma espécie de qualificação cheia de desprezo pelo que quereriam ser. E aquilo esquentava o manejo. Jogavam rápido, numa habilidade prodigiosa de somas e gestos, loucos pra andarem mais depressa, acabar com aquilo e fugirem de si mesmo. Pouco a pouco a noção de jogo se transformara inteiramente neles. Não havia a mínima consciência de roubo. Se ganhavam por alguma trapaça escapada, a sensação da vitória vinha, absolutamente virtuosa, dar um gosto indizível pra Nedim. Pra ela não: dava apenas um olhar de confidência deslavada: “Roubei e você não percebeu!” Ela jogava friamente, ele com toda paixão, mas ambos agastadíssimos. E continuavam assim até que o sírio não suportava mais o suplício, ia dormir, com um sono inexato, bordado de memórias e de raivas. A megera vinha, como um insulto desafiando, se deitar ao lado dele. Nedim recuava com nojo. Outras vezes se lançava sobre ela feito uma fúria, mais por vingança que outra coisa. Ela se deixava gozar pacientemente, pronta sempre. Mas não tivera jamais um suspiro de amor.
(Fragmento do romance Café).