Eva Primeiro Andar · Capítulo 6 de 12
Obra Menu

Eva

EVA

1919 [1943]

a Martim E. Damy

Personagens:

Eva – Meia-dúzia de anos mais dois. Muito brasileira. Do famoso moreno alaranjado que é a melhor fruta da nossa terra. Grandes olhos móveis misteriosos promissores, marechais do amor. Cabeleira dum azulmarinho quase preto, crespa enorme, reminiscência de algum antepassado longínquo… menos português.

Julinho – Primo dela. Doze anos sem beleza a não ser a da força que se desenvolve bebendo ar livre pelos poros, guardando sol nas veias.

Dona Júlia – Mãe dele. Boa mãe.

Chácara perto da Paulicéia.

1ª Cena

(Cena de pouco valor mas indispensável. Sem ela o Desejo personagem principal não abrolhava no lábio pequenino de Eva. Larga sala aberta para o grande sol dum meio-dia de janeiro. Julinho e Eva folheiam revistas antigas. Dona Júlia a um canto faz crochê).

Eva (batendo com uma das minúsculas patinhas no pernão do primo) – Vamos!

Julinho (deixando a leitura) – Faz tanto sol!…

Eva (numa voz que para que a comparação seja acessível ao primo seria feita daqueles bolinhos lambuzados de calda que mamãe fez de manhã) – Ora vamos, sim? Você mora aqui, não gosta… Mas eu vivo na cidade sempre dentro de casa…

Julinho – Mas mamãe não deixa…

Eva – Peça para ela!

Julinho – Então peça você!

Eva (alindando o passeio com o travor das coisas más) – Eu não, Deus me livre!

Julinho – Pois eu não peço.

Dona Júlia – Pedir o quê?

Eva (colorindo-se) – É Julinho que está me convidando para irmos brincar lá fora…

Julinho (furioso) – Eu…

(De novo a patinha virginalmente calçada de branco trabalha. Há energia e doçura na sua imposição. Julinho cala-se.)

Dona Júlia – Mas está fazendo tanto sol…

Eva – Ele diz que é na sombra das jabuticabeiras…

Dona Júlia – E depois vocês vão comer alguma fruta verde…

Eva – Quem é que há-de comer fruta com este calor! Pode fazer mal, não é, titia?

Dona Júlia – Parece que você tem mais vontade de ir ao pomar que o Julinho…

Eva (roxa) – Eu?… até que não! (Pondo martírios na voz) Mas também queria ir… Na cidade não saio nunca!…

Dona Júlia – Pois bem, vão. Mas só na sombra das jabuticabeiras. E… olhem! Não me vão comer nenhuma maçã: estão muito verdes ainda e não quero doença.

Eva – Sim senhora!

(Levantam-se ambos, dão-se as mãos, saem correndo. Na porta Eva para. Larga o primo, volta até onde dona Júlia trabalha e dá-lhe um beijo nos cabelos. E entrega-se voluptuosamente à carícia rústica da luz.)

2ª Cena

(Lá fora. Poucas árvores. Muitas arvoretas. Pomar ridiculamente europeu de cidade sulamericana civilizada. Há maçãs azedíssimas e retortas, pêssegos bichados, uvas que são limões e peras com sabor de água fervida. Dez ou mais jabuticabeiras demonstram o bom senso antigo de algum pomareiro anônimo e dão sombra valorizando a chácara com a doçura das suas frutas. Os meninos dirigem-se para o sombral.)

Eva (tristonha) – Ai…

Julinho – Você está triste, Eva?

Eva (confessando) – Não. Não tenho nada.

Julinho (carinhoso sem querer) – Zangou comigo, é?

Eva – Não. Também por que você não falou que queria vir?

Julinho – Não falei porque não era verdade. Não gosto de mentira. (Um silêncio). Você está chorando!

Eva (soluçando com lindos gritinhos finos de camundongo) – Você disse que eu sou uma mentirosa!

Julinho (mentindo) – Eu!…

Eva – É! você não gosta nada de mim, sabe? Vive sempre a me xingar!

Julinho – Não xinguei ninguém, Eva. (Tomando-lhe a mão). Vamos brincar. Enxugue os olhos.

Eva – Então me empreste o lenço.

Julinho – Tome.

(Eva oferece-lhe os olhos a enxugar, mais claros mais vivos quase sonoros quase perfumados como a terra depois da chuva. Julinho desajeitado rude procura limpá-los com carinho).

Julinho – Passou?

Eva (sorrindo) – Feio!

(Estão sob as jabuticabeiras.)

Julinho – Agora do que vamos brincar?

Eva – Não sei. Vamos passear!

Julinho – Mas você disse que íamos ficar debaixo das jabuticabeiras.

Eva – Queria passear um pouco… Estou tão triste!…

Julinho – Mas mamãe…

Eva – Mas se ela não vê a gente! Que tem? (Pega-lhe a mão e olhando-o nos olhos vitoriosa rindo sorrindo puxa-o para o sol.)

Julinho (dá de ombros e a segue) – Você tem cada uma, Eva!

(Vão pela rua de mirradíssimas parreiras.)

Julinho – Mas aonde você vai!

Eva – Não sei, à-toa…

Julinho – Ih! que sol! Pode dar dor-de-cabeça…

Eva – Quer ficar fique! Dá dor-de-cabeça para quem é bobo… Me dê o lenço eu amarro na sua cabeça.

(Ele deixa-se cobrir. Um longo silêncio enquanto atravessam o terreno das pereiras.)

Eva – O sol me queima todo o cabelo! Se eu também tivesse um lenço… Não faz mal, gosto tanto de passear assim! (Um silêncio. Passa a mão nos cabelos.) Veja como a minha cabeça queima, ponha a mão.

Julinho – Pois vamos voltar, Eva!

Eva – Quando eu chegar em casa hei-de contar para mamãe que você nunca faz a minha vontade. (Suspirando) Se eu tiver dor-de-cabeça não faz mal…

Julinho (tirando o lenço da cabeça) – Tome o meu lenço.

Eva – Não quero. Pois sim. Então amarre você. Sua cabeça não deve doer, dizem que os homens são mais fortes que as mulheres… Você acha?

Julinho (convencido) – Acho.

Eva (enquanto o primo lhe amarra o lenço no queixo) – Vamos ver quem é mais forte de nós dois?

Julinho – Ora! você é uma pirralha que não vale nada. Ai! Ora Eva! Brinquedo de mordida não gosto! Olhe aí como ficou minha mão! Quando chegar em casa mostro para mamãe.

Eva – Você falou que era mais forte que eu!…

Julinho – Morder não é força!

Eva – Deixe ver a mão.

Julinho – Não me amole!

Eva – Deixe ver. (Levanta-lhe a mão até a boca.)

Julinho (puxando o braço) – Outra vez, Eva!

Eva – Não vou morder! (Procura levar a mão do primo aos lábios. Julinho resiste.) Já falei que não vou morder! te juro! (Beija deliciosamente suave as pequeninas manchas roxas dos dentes na grossa mão escura de Julinho.)

Eva – Sarou?

Julinho (admirado) – Ora essa! está doendo! Então você pensa que uma mordida sara à-toa?!

Eva (desapontada) – Quando me machuco papai me dá um beijo e sara…

Julinho – Pois minha mão está doendo ainda! Queria dar uma mordida em você e depois dar um beijo para ver se sarava…

Eva – Pois dê!

Julinho – Tire a mão da minha boca, Eva!

(Atingiram as macieiras. É o fim do pomar. Cada árvore magra ostenta ridiculamente os frutos verdes disformes crestados pelo ímpeto do calor.)

Julinho – Agora vamos voltar!

(Eva não responde. Vagueia olhando sorrateira para as frutas.)

Eva – Você já provou essas maçãs, Julinho?

Julinho – Já. Não prestam.

Eva – A-o-quê! Devem ser boas!…

Julinho – Não são. E depois agora ainda estão muito verdes.

Eva – Até aquela grande ali em cima! Parece bem madura…

Julinho – Está verde. Você ouviu muito bem mamãe dizer que elas estão verdes.

Eva – Mas tia Júlia não sabia daquela! Estas sim, parecem todas verdes mas aquela… Esta por exemplo ainda não presta.

Julinho – Não apanhe, Eva!

Eva – Não vou apanhar! Não careço das maçãs da sua casa! É só apalpar…

(E continua apalpando as maçãs pequeninas mas a outra, a Maçã, ela não alcança.)

Eva – Aquela… aposto que é boa! Apalpe você que é mais alto só para ver.

Julinho – Eu não. Mamãe disse que não mexêssemos nas frutas.

Eva – Bobo. Ela disse para não comer. Apalpar, ela não falou nada. Apalpe só para ver…

Julinho (tocando a maçã) – Não falei! Está verde!

Eva – Não é assim! Aperte com a mão inteira! Segure forte!

Julinho – Estou segurando, Eva! Não serve!

Eva (dando-lhe um violento puxão no braço) – Ui! Viu! quase caí!

Julinho (com a maçã na mão furioso) – Olhe o que você fez!

Eva – Ih! Você apanhou a maçã! E agora! Também eu não podia cair!

Julinho – Você fez de propósito, sabe!

Eva – Ah, Julinho… Então você pensa que eu era capaz disso!… Credo! nunca pensei… E agora? O que você vai fazer da maçã?

Julinho (mais herói que o presidente norteamericano) – Levo para casa e conto.

Eva – Tia Júlia vai pôr você de castigo…

Julinho (já culpado hesitando) – Então atiro do outro lado do muro.

Eva – Uma fruta tão gostosa! Deixa ver. E está macia! (Dá-lhe uma dentada) Hum… esplendida! Quer provar?

Julinho (com muita vontade) – Não.

Eva – Experimente! parece mel!

(Julinho estende a mão para a maçã. Eva coloca-lhe a fruta na boca, do lado já mordido por ela.)

Julinho (retirando a boca) – Desse lado não!

Eva – Por quê!

Julinho – Porcaria! Você já comeu aí.

Eva – Então você tem nojo de mim?

Julinho – Nojo não… mas… isso não se faz!

Eva – Pois então morda do outro lado! Tome!

Julinho (cuspindo o pedaço de maçã) – Não presta! azeda!

Eva – Pois eu acho esplendida. (Continua a comer. Grande silêncio cheio de cigarras.)

Dona Júlia (lá da casa) – Julinho!…

Julinho (aterrado) – Mamãe está chamando!

Eva (enfiando o resto da maçã na boca) – Não responda ainda!

Dona Júlia – Julinho! Eva!…

(Eva segurando a mão do primo abala a correr para as jabuticabeiras.)

Dona Júlia – Julinho! Eva! Não ouvem!…

Eva – Já vamos, titia! Estamos brincando debaixo das jabuticabeiras…

1/1
Menu

Fazer anotação