Brasília Primeiro Andar · Capítulo 7 de 12
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Brasília

BRASÍLIA

1921 [1943]

a Sérgio Milliet

Diziam-me em criança que eu era espírito de contradição… Não sei. É bem verdade porém que dois meses depois de abordar o Brasil um desejo alastrou-se por mim de tal forma a inutilizar-me algum tempo como obsessão.

Primeiro secretário da Embaixada de França entrara desde logo na alta sociedade carioca. Desejado e aplaudido. Creio mesmo que nem precisaria do bilhete de ingresso do meu cargo para os cariocas da elite me receberem com simpatia. Nas pátrias novas sem verdadeiras tradições de meio, qualquer estrangeiro que jogue o pôquer dance o fox-trot e possua o dinheiro necessário para concorrer às subscrições de caridade tem títulos de nobreza suficientes para ouvir o seu nome anunciado com aceitação geral nas casas mais douradas pela distinção. Há, fora o esnobismo forçado, um como anseio coletivo de expansão, uma necessidade de aumento do clã – condições imprescindíveis de progresso e vitória. A ambição em cócegas aplaina todos os preconceitos de estirpe. Há sobretudo no fundo dessas elites incipientes o doloroso desejo de igualar as velhas sociedades, as nobrezas tradicionais de nomes mofados por lazeres inenarráveis e sangue coado nas estripulias dalgum salteador medieval. Há finalmente, perdoem-me a insistência, talvez a saudade antecipada duma história, duma nobiliarquia e duma decadência inexistentes.

Assim conheci em pouco tempo essa gente carioca oscilante entre brilho e grandeza. Muito mais brilho que grandeza. Apertei dedos de todas as grossuras e elasticidades. Beijei mãos rosadas vermelhas palidíssimas. Se nos primeiros dias essa desigualdade me deu prazer, um velho gosto de ordem, de proporção (não fosse eu francês) fez-me enjoar logo dessa mascarada. Irritava-me sobretudo nessa gente o esforço para imitar as civilizações da Europa. E Paris. Ninguém desconhecia Paris. Os homens vinham falar-me de Montmartre com a mais insultante das ignorâncias. Jean Rictus!… suspirava um mais erudito. E ficava camarada. Pagava-me o café. Nem ao menos café! Eram chás de manipulação inglesa licores conhaque. E se eu mostrava desejo de comer aquelas bananas jogadas no mostrador tratavam-me de original corridos de vergonha. A senha das mulheres então era a Comédia Francesa. E paravam comumente em Geraldy. Que de esclarecimentos espalhei sobre as heroínas do sr. Bourget! Morri de irritação.

Não abandonara a França para vir encontrar do outro lado do mundo uma reprodução reduzida e falsa de coisas já vistas e assuntos resolvidos. Queria conhecer o Brasil. Observar-lhe os costumes. Um fraco pelos índios, por solenes mulatas gordas e suadas num calor de fornalha. É mesmo bem possível que na minha curiosidade sonhadora e orgulhosa de civilizado, quem sabe? Um novo continente por descobrir… Rios gigantescos feras insaciáveis… Novas raças. Novos hábitos. Nova língua.

Essa vontade de aprender o brasileiro é que acabou por transformar em cólera a minha irritação. Antegozava durante a viagem as delícias de soletrar língua nova cheia de mistérios para mim. Como seria electricité em português? e unanimisme? e grain de beauté …

Língua doce melodiosa colorida solar… Mas em plena capital do Brasil eu me via na impossibilidade de aprender o idioma da terra. Todos, todos respondiam-me em francês! No hotel como na embaixada, nos cafés e nos salões bastava eu chegar numa roda o francês tornava-se geral. Até a mais tímida virgem de seda azul respondia-me em francês à pergunta que lhe fazia em português ou espanhol, língua em que já naquela época me seria impossível morrer de fome. Se lhe implorava falasse português sorria cheia de vergonha. Colegial pegada em falta. – Em português! Notei mesmo que a muitas era mais familiar a minha língua que a do país. Ridículo.

Foi então que nasceu o tal desejo de que falei atrás. Desejo antipatriótico inconfessável. Invencível porém. Descobrir mulher brasileira inteligente elegante bela que ignorasse o francês. Amá-la-ia. Faria dela a minha amante brasileira. Nova recordação para esta memória barba-azul…

Quem sabe? Na alta sociedade paulistana “gente caipira” como desdenhavam entre superioridades de beicinhos estendidos as cariocas.

Era dezembro. Conhecera um moço paulista de fina educação. Convidara-me a passar uns tempos na fazenda do pai perto de Campinas. Arranjei quinze dias de liberdade. Parti.

Diferença tangível realmente. Havia uma expressão mais assentada, mais tradição na sociedade paulista. E a tal história do salteador: gente orgulhosa dum bandeirante onívoro que andara a matar tapuias e colher pedrinhas por ambição. Em todo caso notava-se uma solidez bem raçada naquela roda neblinosa e de pouca fala. Falta visível de… de audácia social. Isso: de audácia social. Mas essa solidez começava já a desequilibrar-se dissolvida pela onda vivaz e cantadeira dos novos-ricos estrangeiros gente benemérita para os progressos do país mas dum cômico irresistível. Infelizmente mulher que ignorasse o francês era também ali uma quimera. Se me fosse dado mover-me por mim era bem possível que descobrisse o “ideal” na burguesia menos endinheirada mas havia os cicerones obrigatórios, conhecidos novos que se honravam de me exibir no salão da senhora tal ou da senhora tal. E o amigo a me rodear de delicadezas…

Na fazenda um patriarca magro lento queimado de sol, perguntador recebeu-me com bondade seca mas sincera. Em francês. Seriam dias de possível encanto… O mais amarelo dos sóis ronronando sobre os cafezais. Fogos flores frutas perfumes. Tudo bom abundante. Tudo pletórico. Mordi-me de desejos, sensualidades. De amor. Mas preso pela obsessão cada vez mais forte. Desejava. Mas desejava essa mulher. Pintava-a em alucinações. Como era linda! Boa! Como era minha! Andei inglês, maleducado, neurastênico. Imaginava-a berliosianamente orquestrada de mil belezas graça vigor – paisagem de cor viva onde espraiar minhas ânsias impacientes. E essa América parecia-me mais difícil de achar que a do navegador. Essa mulher…

Despedi-me do amigo em São Paulo. Voltei. A lembrança de que iria encontrar em Petrópolis as mesmas francelhas lindas e fáceis aterrou-me. Vagueei sozinho na capital, idiotizado pelo fogo. Perdi-me dentro da solidão.

E daquela casinha da rua corcunda de Santa Teresa saiu o vulto mais que branco. Passou por mim. Véu cerrado, sujo pelas manchas dos olhos. O grumete duma cansada ilusão clamou “Terra!” em mim. Parei. Seguia-a. No fim da segunda esquina tomou o bonde que chegava. Fui obrigado a correr para alcançá-lo. As manchas cinzentas do véu voltaram-se para mim. Fixaram-me. Acreditei que um sorriso bipartiu os lábios dela.

O bonde ia tristonho sem ninguém. Hora propícia. Sentara-me dois bancos atrás da presa. Dois ancos atrás, sem razão. Olhos escravizados àquele pescoço moreno. Oh a brancura estridente crua das mulheres do meu país! Aquele pano de nuca multicor desvendava-me uma enciclopédia de mistérios voluptuosos. Detestei a timidez tão rara em mim que me fizera sentar distanciado daquela nuca. Aproximar-me agora seria confessar o primeiro temor… Deixei-me ficar. Que corpo! Talvez nem fosse tão perfeito assim. Eu é que devia delirar.

Por duas vezes durante o trajeto pretextando acompanhar uma janela que passava ela se voltou. Saltou do bonde. Saltei. Entramos pela cidade. Caminhava rápida ondulantemente. Ao entrar na porta dum sobrado apoiou-se à placa do dentista. Olhou para trás. Entendi. Corredor escuro logo quebrado por uma escada já côncava nos degraus. Casa antiga. Dr. Rodrigues Filho. Gabinete Dentário. Segundo andar. Encostei-me à porta disposto a esperar. A falar-lhe. Andei. Cheguei até a porta, olhando a rua. Voltava-me num pressentimento, era ela! Gente que saía. Gente que entrava. Quanto tempo?

Agora ela descia. Calçava as luvas muito ocupada parando nos degraus tão lenta! Verdadeiramente imperial o seu descer. Eu estava tão perturbado tão obcecado que lhe dirigi esta frase incrível num começo de galanteio:

— Parlez-vous français?

Afinal nada indicara nela uma brasileira. Podia ser argentina, turca. E principalmente uma brasileira que desconhecesse o francês…

Parou. Dirigiu para mim os olhos do véu. Admirada. Depois sorriu. Murmurou quase trêmula:

— Não.

Aquele “não” tão desusado tão novo para mim! Entreouvira-o já tantas vezes em conversas esvoaçantes a meu lado nas ruas. Repetira-o muito, aplicadamente com o professor.

— Não é naom. É não. Duma vez.

Eu repetia. O outro não se satisfazia. O luzir de olhos denunciava-lhe o desdém satisfeito.

Mas agora naqueles lábios importava em outra beleza nunca imaginada. Era um “não” consentimento. Afirmativa. Amei o “não”. Amei aquele tremor. E que maravilhosa voz a dela! Contralto pensativo, cálido. Crepúsculos de fazenda. Não sabia que pensar, como agir. Todo o meu traquejo no trabalhar as amantes se perdera. Fui infantil, palavra. Quis continuar a conversa e suspirei:

— Merci.

Foi dela esta frase vaga com certa ironia:

— Parece-me que o senhor não gosta de franceses…

— Je suis français! respondi-lhe com patriotismo. Pus-me a dizer-lhe muitas coisas atabalhoadamente. Temia que partisse. Quis desculpar o ridículo da primeira pergunta. Ela olhava para mim admirada. Indecisa. Sorria. Atalhou mansamente:

— Não posso compreendê-lo, senhor.

Na minha pressa eu falava em francês. Com mais calma traduzi malemal o que dissera para o espanhol bordando a fala com fáceis frases brasileiras. Ela adivinhou até o que eu não contava. Confessou sem irritação mas certeira:

— Pois conseguiu o que desejava. Sou bem brasileira e não falo o francês.

Andou para a porta. Toquei-lhe no braço.

— Não fuja assim! Dê-me tempo ao menos de…

Voltou-se outra vez. Tinha na voz uma espécie de acidez que lhe ia mal. Talvez uma desilusão. Fustigou-me:

— Mas eu creio que deve estar satisfeito: descobriu-me! Ou quer ainda mandar a minha fotografia aos jornais da sua terra?

Neguei fingindo calma a sorrir. Disse que a queria para mim.

— E o senhor crê que basta um francês querer para as brasileiras obedecerem?

Estava perdido se não me fizesse animal. Ou clown. Ela era ágil na inteligência. Precisava diverti-la. O palhaço era melhor que o animal. Se me pusesse a responder-lhe certamente as lutas de espírito poriam ainda maior distância entre nós. E franqueza: não estava certo de vencer. Não atentei à ironia dura. Fiz-me bastante animal e muito clown, isto é, fui homem. Aproximei-me dela quase mau. Falei-lhe de amor. Creio que fui engraçado. Pus vitória na voz. Soube tocar-lhe as fibras pois me escutou.

Distinguia-lhe agora mais intimamente o rosto. Boca franca de lábios gordos com muito de infantil. As narinas vibravam translúcidas de vidro. E os olhos pesados fluíam-lhe em olhares de tal forma consistentes, olhares materiais que eu gozava a impressão sensível deles baterem em mim. Alastravam-se como líquido grosso por minha pele causando-me sensações de beijo que escaldasse. Era bela!

Quando num ímpeto de maior desejo aproximei-me tanto que os nossos corpos se tocaram pesou a mão abandonada no meu peito.

— Vem gente!

Vinha. Agarrei-lhe o braço. Estávamos próximo da Avenida. Fugimos dela no automóvel. E em breve as praias se lançaram aos nossos pés. Ela me contava que tinha um companheiro. Viviam inexistentes no retiro de Santa Teresa. Ele partira há dois dias, negócios de família em Pernambuco. Aconselhei-a muito sério a enganar o amante comigo. Voltou-se divertida. Apalpou-me com a intensidade pegajosa dos olhos. Sorria. Sorria muito. Às vezes sem razão, por sorrir.

— Não é de todo impossível. E sabe por quê?

— Por quê?

— Usa nas suas conquistas…

— Conquistas!

— Mentiroso!… a princípio uma ingenuidade de pequena criança que tem necessidade de proteção.

Isso diverte. Vence qualquer coisa do amor maternal que nós temos todas. Depois…

— Depois?

— Depois aplica esse pequeno ar de… de blague, não é assim que se diz na sua língua? de blague apaixonada e canalha. Isso atrai. Dá raiva. Dá vontade de…

Mordeu os beiços confusa.

A rapidez inesperada verdadeira desse ardor!… Beijei-lhe a roupa no ombro.

— Não faça assim!

E que acento ridículo tomava aquela palavra estrangeira no meio desse falar elástico viril contraditório suavíssimo! Envergonhei-me do meu idioma policiado e nasal. É verdade também que ela gaguejara horrivelmente a palavra. Fora preciso adicionar todos os tremas do universo ao i com que terminara blague para exprimir a ignorância aguda com que a pronunciara.

A tarde ia velha já. Primeiras luzes longe. Niterói. Nós unidos na noite da capota levantada. Momento de confiança. Dois amantes já se contaram todas as ânsias esperanças sentimentos, deram-se todas as explicações. O que precisam saber sabem. Não têm mais nada que dizer. Há como que uma sem vontade do momento de gozo. Uma preguiça. Ora! está-se tão bem assim sem gozar, gozando o sem-gozar… Certeza. Segurança. Os transeuntes ficam atrás. Naturalmente olham ainda para nós…

— Querida!

— É só capricho… Passa.

— Não passa! Juro que não passa.

Longo olhar. Dois sorrisos. Não há mais possibilidade de nos aproximarmos um do outro. Aproximamo-nos um do outro. Reflexão perdida de quando em quando para nos certificarmos de que a felicidade existe realmente. E de novo a familiaridade do silêncio. Descalcei-lhe a luva. Torpor desmotivado. Beijei-lhe lento muitas vezes a mão. Ela olhava de olhos abertos pestanejantes fixo para a frente.

— Como te chamas?

— Iolanda.

— Iolanda?

Tirara o véu. De tempo em tempo virava-se para mim. Percorria-me o rosto na penumbra. Mordia os lábios sofreando o ímpeto dos beijos impacientes. Sorria. De repente machucava os seios oprimindo contra eles minha mão. Suspiro. Sorria. Felicidade!

— Iolanda!

No silêncio da praia longe escutamos a queda brusca da noite.

Como, num orgulho sem razão, não quisesse violar o ninho de Santa Teresa, depois do jantar leve e caminhada a pé refugiamo-nos num hotel fronteiro ao mar.

Queimados de volúpia nos enlaçamos.

E eu aprendi o amor!

Não dizíamos nada mesmo em nossos cansaços. A linguagem da carne, muda e ardida. Não, a conversa das almas, das consciências e da carne. Comunhão!

Vi disseminadas simultaneamente na lembrança não-sei-quantas bocas de mulheres beijadas. Fora aquilo o amor! Tempo perdido! Tão diferentes dessa que delirava a meu lado sem refinamentos tumultuosa exótica selvagem brasileira! Eu não pensava, não refletia mas como em geniais invenções, nos meus delírios pausas delírios desesperos apaixonados afuzilava-me no cérebro uma via-láctea de ideias juízos que não pensava não refletia mas sentidos inteiros repentinamente no fundo de mim: as sábias carícias das mulheres francesas… Desgosto. A espanhola que só tivera na verdade o salero de não saber fandango… Nina… Virgens, viúvas… Mulheres-da-vida… Sábias carícias. Raças decadentes sem vitalidade, pobres da volúpia dos mundos vertiginosos… Sem sangue e sem fogo… Raças decadentes… Sem raiva de amor… Erudição…

E o contraste da noite brasileira!

Iolanda não bebera uma gota de álcool ao jantar. Pedira-me que não bebesse. Era, confessou num incêndio rápido de pele, para que conservássemos mais clara a consciência de amar.

Seus brinquedos agora tinham ignorâncias infantis. Fazia rir. Por certo nunca amara.

Comprazia-me em lhe revelar prazeres de alta-escola. Ela abria risadinhas miúdas de surpresa. Curiosa. Muito curiosa. Parecia temer que nos viessem pegar. Ou que a noite morresse logo. Era rápida. Repetia as minhas lições. Achava graça naquilo. Depois tudo ficava preto na escuridão. Ela parava. Emudecia. Apenas respirava cada vez mais alto. Ofego em rapidez crescente. Grunhido. Um quebrar de comportas. E Iolanda arrebentava como uma onda sobre mim. Tomava posse do meu corpo. Vencia-me. Como uma selvagem cansara-se das sabedorias pequeninas e crescia transbordava e se multiplicava! Fiz luz. Guardou os olhos nas costas das mãos num

— Já!

sorrindo. E seu corpo vergou-se como um galho.

Não era o já. Curiosidade apenas. Ciúmes da escuridão.

— Água!

E não fez gesto para bebê-la. Obrigou-me a servir de bomsamaritano. Ergui-lhe a cabeça desprendida. Cheguei-lhe o copo aos lábios. Bebeu como quem não quer. O copo todo. E virou-se no leito fingindo dormir.

Interrompi a luz. Vi duas horas no relógio-pulseira ao criadomudo.

E o amor recomeçou. Amplo sadio florestal.

Pouco a pouco amiudaram-se os cansaços. Ela morria longos minutos amassando-me o braço com o corpo. Escutei-lhe o sussurro das pálpebras batendo na treva como mariposas. Suspirou. Acertou melhor o corpo úmido sobre o linho. O perfume dela entorpecia. Sumarenta!

Compreendi-lhe a perfeita comunhão com a terra natal. Uma terra hercúlea bruta como a do Brasil devia produzir na pletora flores assim de tão delirante sabor. Havia as outras, não há dúvida, manacás de mato ou rosas belíssimas e comuns. Mas esta era a orquídea rara. A terra não se empobreceria em quotidianamente produzir muitas assim. Teve de concentrar-se, guardar o mais violento da seiva, a essência dos estranhos caracteres pessoais para um dia bufando em ardências vermelhas gerar a flor imperatriz.

E no labirinto carioca eu a fora descobrir num esquecimento de bairro… Fremiam meus dedos apalpando a abelha-mestra possante. Sentia-me sublimar nesse voo nupcial. Positivamente eu estava a delirar. Tantas imagens! Saltei do leito. Escancarei as portas da sacada. E a noite como uma onça lenta de pelos elétricos farejou o aposento. Seus olhos abertos vieram grudar-se nos quadriláteros negros. Deitou para dentro do quarto um hálito aderente salino que foi pousar no corpo de Iolanda. Ela deixou-se farejar. Fez mais: veio entregar-se à noite na sacada. Molhei-a de beijos duplicados. Com o mento a pesar nos pulsos, cotovelos fixos ao parapeito ela fechou os olhos indiferente muda num langor. Os ventos crespos do alto-mar.

Era quase aurora. Tomei Iolanda nos braços para mim. Levei-a ao leito. Uma última carícia de confiança. E o sono de dois irmãos.

A sede me acordou bastante tarde. Acordei Iolanda enfurecido de amor.

Depois a conversa alegre camarada. Percebi-lhe inquietação. Telefonou. Dava-me beijos como em adeus. Às treze horas abandonamos o hotel. Propus-lhe que andássemos um pouco pela praia. Obedeceu recusando na frase sob pretexto do muito sol.

Um desses dias loucos de verão carioca. Difícil de romper o espaço vidrado. As lâminas de ar vinham quebrar-se contra mim em ruídos trêmulos desferindo refrações acutilantes de luz. A baleia verde do oceano soprava um gemido continuo encalhada na areia cré das praias.

Avançava Iolanda com liberdade, filha da terra e do sol, reconhecida e aceita. Eu a seguia um pouco atrás atrapalhado com a matilha de luzes e calores açulada contra o estrangeiro. Repetia-me o pretexto do calor. Queria deixar-me. Dolorida. Sorria grata e humilde. E se esquecia a meu lado, andando sempre, sem coragem de deixar-me. Decidiu-se. Precisava consertar o álibi com a amiga:

— Se ele viesse a saber!… dizia desolada mas sem medo. Ia rápida lépida dentro do sol.

— Eu preciso de ir, meu Deus! Isto não é uma separação… Ver-nos-emos ainda, não é?

Encostei-me nela, consciente e dono. O apito dum vapor, soturno chato esparramou-se pelos entre-seios dos morros. Estava perfeitamente certo de mim. Deixou que lhe amarfanhasse a manga e a carne, escravizada. Então propus-lhe ficar minha.

Teve um deslumbramento. Bater de pálpebras rápido. Olhou o chão. A angústia desmanchou-lhe o rosto. A boca tremeu, boca de quem vai chorar. E comovida, muito baixo:

— É sério!

Repreendia-a:

— Iolanda!

— Perdão mas… Eu não sei! Mas mudar de novo… Tantas voltas!… Nunca oh nunca eu amei ninguém!… Consolei-me. Eu vivo muito calma com ele. Eu te amo! Isto eu sei! Eu sei que contigo sou outra mas eu tenho medo… e depois?… Não! Eu vou contigo!

Sorria convulsa perdida escondendo duas lágrimas. Comoção de mulher jamais eu tivera assim. Emudecemos. E sempre andando. Sem rumo. Como o amor.

— Ela é mais alta que ele.

Duas mulatinhas com as chinelas castanholando no chão. Iolanda voltou o rosto com violência comparando os nossos ombros.

— Não sou!

Defensivamente derreara o ombro procurando descê-lo à altura do meu. Estava confusa protegendo da realidade a estesia do nosso amor. Aliás a diferença era pequena. Sorri:

— É verdade, Iolanda.

— Não sou! Veja bem. É por causa do salto!

— Mas que tem, tolinha! Deixaria de te amar por causa disso?

O automóvel relou em nós o voo aberto. Gesto de cor viva. Palavras? O carro foi parar arrastando-se vinte passos adiante. Uma mulher saltou dele, veio ao nosso encontro. Iolanda correu para ela. Abraços. Frases de longa separação em polifonia. E respondiam-se em francês! No mais independente dos franceses! Mesmo argot!

O sol bateu-me na cabeça. Fiquei paralisado. Só quando Iolanda pretendeu apresentar-me a amiga desembaracei-me da estátua. Fui grosseiro.

— Alors…

Ficou sem sangue. A amargura vive a sorrir. Iolanda sorriu. Ficou séria de repente e muito tímida:

— Je suis marseillaise…

Encarou-me franca ofertando-se. Linda, linda no alvoroço do sangue, toda vive-la-France! chamejante de ardências grande maravilhosa… marselhesa.

Tive frio. Essa espécie de nojo que o despeito dá. Quase que uma consciência revoltada de incesto. Sibilei aludindo aos paroxismos da noite:

— J'en étais sur! Il ne pourrait être autrement…

Mesmo a maldade irritada aconselhou-me a disfarçar. Casquinei o trocadilho:

— Pourtant cette marseillaise pourrait bien se changer en marche funèbre…

Choravam para mim seus olhos redondos e parados. Cruelmente ferida. Tive prazer. Encontrou unicamente o meu nome para desculpar-se:

— Louis!

A outra protegeu-a com arremesso:

— Tu viens?

— Non.

O automóvel partiu.

Falava convulsiva enérgica. Defendia de mim o nosso amor nascente. Implorava ordenava num riso desapontado discutindo sozinha contra mim. Achava as frases que convencem. Tinha razão. E voltava a se desculpar de ser marselhesa. Exteriormente até lhe achei graça. Que importava isso de ter nascido grega ou finlandesa? O amor desconhece raças. Exige certas virtudes. Iolanda as tinha. Era sincera. Isso bastava. Era ardente. Sabia amar. Oh! esse “sabia” a bater como araponga nos meus juízos amontoados… Sabia amar! Sabia defender-se! Sabia o francês! Sabia tudo!… E a revolta em mim. Vontade de insultar bater. Mas conservava-me discreto, cidadão, bem-educado. Não podia falar. Não podia nada. Evidentemente Iolanda tinha razão. E era sincera… sabia amar… sabia amar… Sabia!

Meus braços muito longos, inertes equilibravam o ritmo do corpo a caminhar. Passou por nós o automóvel 8025… Deve ser dos últimos… Que horas serão… Observei o movimento dos meus braços. Os dela também. Mecânicos como os das inglesas. Como os das marselhesas. Para frente, para trás, para frente… sabia amar… Desilusão.

Separamo-nos.

Ainda a tive minha. Certas reflexões levaram-me quatro passeios até lá. Mas os espaços cresceram entre essas insistências.

Iolanda sempre a mesma extraordinária. Suas carícias explodem cada vez mais espontâneas. Irritantemente espontâneas. Sinceras. Preferiria que fossem calculadas. Teria assim um pretexto para abandoná-la. Não encontro pretexto. E esse pernambucano que não vem!…

Agora creio que não voltarei mais. É impossível. Perdi o entusiasmo daquela noite… brasileira. Iolanda não é mais para mim a projeção das minhas vontades.

Não volto mais. Se o acaso ainda nos puser um diante do outro eu lhe direi tudo isso muito firme. Docemente.

Chorará.

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