Moral Quotidiana Primeiro Andar · Capítulo 9 de 12
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Moral Quotidiana

MORAL QUOTIDIANA

1922 [1943]

Tragédia [20]

a Tácito de Almeida

Personagens:

A Amante, primadona.

A Mulher, coisa que acontece.

O Marido, joguete nas Mãos do Destino.

Coros.

No Guarujá. Presente. Hotel. São 14 horas, muito dia, luz de verão puro-sangue. Terraço. Mesas. Cadeiras. Tudo chique. O smoking

dum criado dependurado impassível na porta. Vêm a Amante e a Mulher. Esta brasileira. Brasileirinha. 24 anos. Morena, cabelos negros viva etc. Uma pomba. Aquela belíssima e francesa. Alta. Cabelos quase rubros. Olhos verdes. Esplendor aos 35 anos.

3° E ÚNICO ATO

1ª Cena

Amante (arranhando) – Me conhecia, não é verdade?

Mulher – Creio que sim…

Amante – Só “creio”!

Mulher – Creio que sim… Deve fazer um ano…

Amante – Parece que esqueceu a data…

Mulher (bocejando) – Creio que sim… Não guardo datas.

Amante – Quer que ajude?

Mulher – É inútil.

Amante – Saía da casa de sua mãe na Avenida…

Mulher – Ah…

Amante – Passei de automóvel…

(Silêncio)

com seu marido…

(20 silêncio)

Lembra-se agora?

Mulher – É possível.

Amante (fustigando) – A senhora se esquece muito cedo das suas dores. Deu um grito. Pelo óculo do automóvel que seu marido me dera vi a senhora derrubar a sombrinha… Sofreu muito!

Mulher (sorriso abaunilhado, sem sofrer) – Naturalmente teve dó de mim…

Amante (otélica) – Não! Odeio-a! Não tenho dó.

Mulher – Não teve dó.

Amante – Não tenho dó!

Mulher – Mas não carece mais ter dó! Já me conformei.

Amante – Não se conformou! Tanto que procura me roubar o seu marido!

Mulher (muito verdadeira) – Procuro, não. Ele é que me procurou… me procura… (cheia de trunfos) Me ama…

Amante – Não é verdade!

Mulher – É verdade.

Amante – Pois saiba que seu marido é meu! A mim é que ele tem de amar! Há quatro anos que vivemos juntos!

Mulher – Já sei.

Amante (perdendo terreno) – Ele contou!

Mulher (num orgulho casto de matrona) – Me conta tudo.

Amante (gritando já) – É mentira!

(3° silêncio. Grande silêncio de gozo pra Mulher, de raciocínio aterrador pra Amante. Como é linda a cor do mar nas tardes de verão no Guarujá. O azul envolvente do céu reflete uns verdes idílicos. A própria areia tem reflexos verdes. O automóvel passou. Que alegria de moças! Calças brancas no meio delas. Namorado!… Duas gaivotas nascem afroditicamente da espuma verde mais longe. Calmaria. Excesso de felicidade milionária sem cuidados bem vestida).

Amante (baixinho) – Porque me rouba o meu amor!… Nunca fiz mal pra senhora… Amei-o primeiro… Abandonei tudo por causa dele… o outro que me protegia… era rico… que hei de fazer sem ele!…

Mulher – E eu!… Não o amo também? Teve o seu tempo… Me deixe ter o meu, ora essa!

Amante – Mas eu o amei primeiro! Ele me amou… Fomos tão felizes!…

Mulher – E eu!

Amante – Me deixe com ele! Porque fazer de mim assim uma abandonada, uma desgraçada!… Quem mais há-de me querer!

Mulher (gasta) – Mas… e eu! e eu! Pensa que fui feliz casando com o homem que amava e me mentiu? Que mentiu que me amava?

Amante – Mas fui a primeira!…

Mulher – Que me importa se você foi a primeira! Comigo é que ele casou. Suportei tudo. Suportei a afronta, calada. Imóvel. Se ele me amou foi porque quis. Não fiz nada pra isso. Hoje tenho a certeza que ele me ama. Me adora! (Saboreando a sonata-ao-luar da outra) – Agora não largo mais dele!… Por que não fala com ele mesmo?… Era mais simples.

Amante – Por piedade!

Mulher – E eu! Teve piedade de mim quando me viu com os braços no ar enquanto a senhora passava nos braços de meu marido? Não teve… disse há pouco que me odiava…

Amante (amarelo terroso) – Odeio-a… Odeio-a!…

Mulher (se levantando sublimemente vitoriosa) – Pois eu nem sequer a odeio. Me é indiferente. Sei que meu marido me ama. Vim pra cá só pra me certificar disso. Ele não podia vir… Pois veio. E a senhora seguiu atrás como um cachorrinho, como um cachorro… Detesto-a!

Amante (desfeita) – …por… por piedade! Não me roube o meu amor! Não imagina como amo seu marido!… Pôde aguentar calada… pôde sofrer sozinha… Mas eu… Eu não posso… não posso! Por piedade!…

Mulher – Detesto-a! Vá-se embora! Chore na cama! (Melodiosa maldosa mimosa tão delicada e melindrosa) Por que não procura meu marido? Vá chorar pro seu amante! (denticulada) Garanto que ele virá me castigar… Com carinhos.

Amante (golpeada) – Não!

Mulher – com abraços…

Amante (gritando) – Não!

Mulher – com beijos…

Amante – Não! (Louca se atira sobre a outra, procurando esganá-la) Infame! Sem-vergonha! Tinha um criado como disse. Ainda tem. Neste final rápido de cena oscilou nas mãos no corpo. Agora entrou no interior do hotel).

INTERMÉDIO

O intermédio dura dois minutos. Enquanto estes se gastam briga feia entre as duas donas. A brasileira é mais frágil. Ágil. E é mais forte porque se lembra do marido que a defenderia se estivesse ali. Finca as unhas nos pulsos da Amante. Liberta-se. Avançam danadinhas uma pra outra. Eternamente as garras nos cabelos. Chapéus mariposas poc! no chão. Labaredas em torno do rosto da Amante. A noite cai nos ombros da Mulher. Cadeiras empurradas. Mesas reviradas. Tapas. Mordidas. Mordidas e beliscões. A brasileira atira um direto no estômago da francesa. [21] “Aie!… Au secours!…” Vêm os coros apressados. Quatro grupos. Se postam um na direita, outro na esquerda e os outros dois no fundo da cena. A Amante caída no centro soluça alto escondendo o rosto nos braços estirados abandonados. Fogueira que lambe o chão. A Mulher se arranja rápido. Ergue a mariposa de palha e flores. Está de novo brasileiramente arranjadinha. E mais o ofego dos seios sob a renda. Carmim legítimo nas faces. Que shimmy gentil nos lábios trêmulos!

2ª Cena

Coro das senhoras casadas – Ridículo! Ridículo! Espetáculo destes num hotel! Uma mulher que bate na amante do marido! Onde jamais se viu sem-vergonhice tal! Ridículo! Ridículo! Espetáculo destes num hotel!…

Coro dos senhores casados – Que escândalo! Que escândalo! Onde jamais se viu sem-vergonhice tal! Fazer cena e ter ciúmes do marido! Pois um pobre marido não pode ter amante? Mais de uma até! Que escândalo! Que escândalo! Onde jamais se viu semvergonhice tal!

Marido (de flanela entra e se espanta. Traz vinte dúzias de cravos paulistanos pra Mulher) – Mas… que é isso, Jojoca!

Coro das senhoras idosas – Belíssimo! Belíssimo! Gente de hoje não sabe se conter! Uma amante… que tinha? É natura l. Por que não divorciou? É muito mais honrado. Francesa, não? Como se chama? Quem é? Terá filhos? Belíssimo! Belíssimo! Gente de hoje não sabe se conter!

Coro dos senhores idosos – Coitada! Francesa! Tão loira! Tão linda! Mas essa menina… quem foi que a educou! Coitada! Francesa! Que pernas! Que meias! Naturalmente fecho de ouro na liga… Se não tiver dou eu! Tão linda! Tão loira! Coitada! Francesa!

Mulher (debruçada aos cravos protegida pelo marido, virando-se pro coral) – Foi ela que me quis bater!

Coro dos senhores casados – Não é verdade! As francesas não sabem fazer isso!

Coro das senhoras casadas – É mentira! As amantes não sabem fazer isso!

Mulher – É verdade. Quis me esganar porque amo meu marido.

Amante (sempre no chão erguendo os braços entre os resposteiros flamejantes) – Ela roubou o meu collage! O homem que eu amo! que eu adoro!

Coro das senhoras idosas – Ridículo! Ridículo! Roubar o amante da francesa porque então! Pois não tem tantos por aí? Não saber se conformar com a civilização!… Ridículo! Ridículo! Gente de hoje não sabe se conter!

Coro dos senhores idosos – Que escândalo! Que escândalo! Amar dessa maneira o seu próprio marido!… Mas quem diria que hoje em dia inda apareceria uma tão crassa velharia!… Que escândalo! Que escândalo! Amar dessa maneira o seu próprio marido!

Marido – Que é que os senhores têm com isso!

Coro das senhoras casadas – Impertinente! Impertinente!

Mulher (onça) – Impertinentes são vocês!

Coro dos senhores casados – Afastemos esse par escandaloso! Tão mau exemplo não pode aqui florir! Vamos! Fora a mulher que ama o marido!

Coro das senhoras casadas – Vamos! Fora o marido que ama a esposa!

Coro dos senhores idosos – Vamos! Fora!

Coro das senhoras idosas – Vamos! Fora!

Coro dos senhores casados – Fora! Fora!

Coro das senhoras casadas – Fora! Fora!

Coros de senhoras e senhores idosos – Fó-fó-fó-ra!

Coros de senhoras e senhores casados – Fó-fó-fó-fó-ra!

O quarteto coral (fortíssimo) – Fó-fó-fó-ra! Fó-fó-fó-ra! Vamos! Vamos! Vá-v á-v á-v á-v á-vamos! Fó-fó-fó-fór a! Vá-Fó-Vá-Fó-vá-vá-vá-Fó-fó-fó-mos-ra! Vá-Fó-mos! ra-Mos-rá! ra! Fó-fó-Vá-vá-ra! mos! ra! mos! ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-ra!-raaaaaaaaaaaaaaaaaaáá!…

(Aplausos frenéticos da assistência)

Marido – Vamos embora, Jojoca!

Marido e mulher (com os olhos grudados no maestro) – Adeus! Adeus! Adeus! oh Civilização! Vamos livrar o nosso amor maravilhoso do teu contágio pernicioso! Nós queremos a honestidade! Nós queremos ter filhos! E nós cremos no Código Civil! Lá longe dentro dos matos americanos onde os chocalhos das cascavéis charram, onde zumbem milhões de insetos venenígeros seguiremos o conselho de Rousseau, de João Jaques Rousseau e segundo as bonitas teorias do sr. Graça Aranha nos integraremos no Todo Universal! (Vão-se embora. A Amante desesperada estende os braços pro par que desapareceu. Senta-se pra ficar mais à vontade e entoa a Cavatina da Abandonada. Dá perspectiva à Cavatina um arreglo do Matuto de Marcelo Tupinambá pra flauta, 3 violões e gramofone).

CAVATINA DA ABANDONADA

Oh! meu amante, vem! Vem de novo, feliz, despreocupado e belo, para o reino de luz dos meus abraços, dos meus beijos! Partes então?… E para sempre! E os nossos dias de felicidade imaculada: calca-los tu aos pés! Oh! meu amante, vem! (soluços sincopados do coral) Já te esqueceste pois, dos bons dias alegres, em que, entre os jasmineiros do jardim, na vivenda clandestina, eu te esperava, com Pompom pompeando nos meus joelhos! Oh! Meu amante ingrato! Escuta – ainda uma vez! – a voz da Abandonada!… O meu peito biparte-se em soluços desesperados! As minhas brancas mãos, que já dormiram pousadas nos teus flancos brandos, mordem-se, agora, torturadas, martirizam-se, agora, desdenhadas! Que farei? Dos tesouros perfeitos do meu Corpo! das riquezas inesgotáveis da minha Alma! (Pois que o meu amante me deixou?)! Para que servem mais estes dedos róseos? Se não podem brincar nos teus cabelos? Oh! Amante infiel! Onde pousarão “meus braços serpentinos”, se o teu pescoço se lhes não oferta mais!?… e os meus seios, então? – travesseiro divino! – onde tantas (e tantas!) noites inesquecíveis, tu sonhaste, infiel! o teu sonho mais puro, e, dormiste, ingrato! o teu sono mais manso!…? Ah! Pérfido! Se os teus não lhes respondem mais, para sempre!!!!!!! meus beijos emurchecerão! Triste! Triste! da abandonada!… As trevas, já, escurecem os olhos meus… (Os meus soluços aumentam.) Fantasmas amigos me rodeiam, e antevendo a futuro, eu quase sou feliz… Sombras nuas! Sois vós, amigas minhas?… Aí? (Sorrio encantada!) És tu, Cleópatra! Minha Aspásia querida? Manon beija meus olhos! Elisabeth de Inglaterra!…! A marquesa de Santos ampara-me a cabeça e Elsa Lasker Schüller canta… os seus Lieder para o meu dormir… (Sinto que vou morrer). Brisas meigas da praia! Ondas glaucas do mar! levai ao meu amante ingrato! Àquele que: me mata, e que eu adoro, o derradeiro adeus da Abandonada; (!) os últimos sus! (gagueja soluçante) piros da infeliz, que vai morrer. “!”. (Morre. O coro das senhoras idosas com gestos chaplineanos de deploração estende sobre a morta um grande manto branco. Os coros de senhores idosos e senhores casados dançam em torno do cadáver um hiporquema grave e gracioso desfolhando sobre a Amante as 20 dúzias de cravos que o smoking fora buscar das mãos da mulher e repartira entre eles. As senhoras casadas desnastrando as respectivas comas sobre o rosto levantam nos ombros alvíssimos aquela que sempre viva se conservará na memória dos mortais. E então tendo na frente um abundantíssimo jazz que executa a Marcha Fúnebre de Chopin, op. 35, o cortejo desfila, desfilará pela terra inteira e civilizações futuras até a vinda por todos os humanos desejada do Anticristo).

SALUS LACTA

GUARANÁ ESPUMANTE

BELLA COR DUNLOP

[20]. Juro que é tragédia.

[21]. O golpe aqui não é proibido.

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